A invasão de Judá por Senaquerib: as fontes

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ELAYI, J. Sennacherib, King of Assyria. Atlanta: SBL, 2018, p. 69-70 diz:

Há uma notável variedade de fontes: as inscrições de Senaquerib registrando o episódio várias vezes com várias variantes, relatos bíblicos (2Rs 18,13-19,37; Is 36-37; 2Cr 32), representações em relevos assírios, descobertas arqueológicas, fontes egípcias e gregas e fontes problemáticas.

A principal dificuldade para o historiador é o fato de existirem várias contradições entre essas fontes e nenhuma delas ser totalmente confiável. No entanto, alguns autores parecem acreditar que as fontes relacionadas ao seu campo de pesquisa são as melhores; outros, estudando a história de Israel e Judá, consideram as inscrições reais assírias como fontes confiáveis ​​de informações históricas sobre os eventos dessa região. Como é sabido, as inscrições reais assírias são caracterizadas por intenções ideológicas e propagandísticas, que devem ser detectadas usando uma abordagem crítica. Os relatos bíblicos são ainda mais problemáticos porque o texto passou por uma elaborada história de redação e edição. As fontes assírias engrandecem a honra de Senaquerib, enquanto os relatos bíblicos sublinham a honra de Javé.

O melhor método seria considerar cada uma das fontes com uma abordagem crítica rigorosa e combiná-las todas para alcançar o melhor entendimento possível da fase judaica da terceira campanha de Senaquerib, mesmo que alguns autores tenham escrito que reconciliar todas as fontes é inaceitável ou impossível.

O número de monografias e artigos dedicados a esse assunto desde o século XIX até o presente é tão grande que nem todos podem ser considerados e analisados. As principais pesquisas úteis desta bibliografia são as de Brevard S. Childs, Lester L. Grabbe, William R. Gallagher e Nazek Khalid Matty.

 

Bibliografia em língua inglesa

:: Inscrições de Senaquerib
GRAYSON, A. K. ; NOVOTNY, J. The Royal Inscriptions of Sennacherib, King of Assyria (704–681 BC). 2 vols. RINAP 3.1–2. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 2012–2014.
LAATO, A. Assyrian Propaganda and the Falsification of History in the Royal Inscriptions of Sennacherib. VT 45, p. 198–226, 1995.

:: Relevos assírios
RUSSELL, J. M. Sennacherib’s Palace without Rival at Nineveh. Chicago: University of Chicago Press, 1991.
MATTY, N. K. Sennacherib’s Campaign against Judah and Jerusalem in 701 B.C.: A Historical Reconstruction. Berlin: de Gruyter, 2016.

:: Descobertas arqueológicas
GRABBE, L. L. (ed.) ‘Like a Bird in a Cage’: The Invasion of Sennacherib in 701 BCE. Sheffield: Sheffield Academic Press, 2003.

:: Fontes problemáticas
GALLAGHER, W. R. Sennacherib’s Campaign to Judah: New Studies. Leiden: Brill, 1999, p. 9-21.

:: Fontes bíblicas
BOSTOCK, D. A Portrayal of Trust: The Theme of Faith in the Hezekiah Narratives. Milton Keynes, UK: Paternoster, 2006.

Para saber onde consultar fontes assírias, clique aqui. Algumas dessas obras podem ser encontradas aqui.

 

Bibliografia consultada pela autora
CHILDS, B. S. Isaiah and the Assyrian Crisis. London: SCM, 1967.
GALLAGHER, W. R. Sennacherib’s Campaign to Judah: New Studies. Leiden: Brill, 1999.
GRABBE, L. L. (ed.) ‘Like a Bird in a Cage’: The Invasion of Sennacherib in 701 BCE. Sheffield: Sheffield Academic Press, 2003.
MATTY, N. K. Sennacherib’s Campaign against Judah and Jerusalem in 701 B.C.: A Historical Reconstruction. Berlin: de Gruyter, 2016.

ELAYI, J. Sennacherib, King of Assyria. Atlanta: SBL, 2018

There are a remarkable variety of sources: Sennacherib’s inscriptions recording the episode several times with a number of variants, biblical accounts (2 Kgs 18:13–19:37; Isa 36–37; 2 Chr 32), representations on Assyrian reliefs, archaeological discoveries, Egyptian and Greek sources, and problematic sources. The main difficulty for the historian is the fact that several contradictions exist between these sources and that none of them is entirely reliable. However, some authors seem to believe that the sources related to their field of research are the best; others, studying the history of Israel and Judah, consider the Assyrian royal inscriptions as reliable sources of historical information concerning the events of this region. As is well known, the Assyrian royal inscriptions are characterized by ideological and propagandistic intentions, which have to be detected using a critical approach. The biblical accounts are still more problematic because the text has gone through an elaborate history of writing and editing. The Assyrian sources were intended to enhance the honor of Sennacherib, while the biblical accounts seek to enhance the honor of Yahweh. The best method would be to consider each of the sources with an adapted critical approach and to combine them all in order to reach the best possible understanding of the Judean phase of Sennacherib’s third campaign, even if some authors have written that reconciling all the sources is unacceptable or impossible. The number of monographs and articles dedicated to this subject from the nineteenth century up to the present is so large that they cannot all be considered and analyzed. The main useful surveys of this bibliography are those of Brevard S. Childs, Lester L. Grabbe, William R. Gallagher, and Nazek Khalid Matty.

Francisco e a pandemia do coronavírus

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Desde há semanas que parece o entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos.

Caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso «eu» sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos.

As nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do último espetáculo, mas que hoje estão, sem dúvida, a escrever os acontecimentos decisivos da nossa história: médicos, enfermeiros e enfermeiras, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, curadores, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos – mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho.

Nos apercebemos de que não podemos continuar estrada cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos.

Momento extraordinário de oração em tempo de epidemia presidido pelo Papa Francisco - Adro da Basílica de São Pedro - 27 de março de 2020

Assista ao vídeo.

 

Momento extraordinário de oração em tempo de epidemia

Presidido pelo Papa Francisco

Adro da Basílica de São Pedro – 27 de março de 2020

«Ao entardecer…» (Mc 4, 35): assim começa o Evangelho, que ouvimos. Desde há semanas que parece o entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos. À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados «vamos perecer» (cf. 4, 38), assim também nós nos apercebemos de que não podemos continuar estrada cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos.

Rever-nos nesta narrativa, é fácil; difícil é entender o comportamento de Jesus. Enquanto os discípulos naturalmente se sentem alarmados e desesperados, Ele está na popa, na parte do barco que se afunda primeiro… E que faz? Não obstante a tempestade, dorme tranquilamente, confiado no Pai (é a única vez no Evangelho que vemos Jesus a dormir). Acordam-No; mas, depois de acalmar o vento e as águas, Ele volta-Se para os discípulos em tom de censura: «Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» (4, 40).

Procuremos compreender. Em que consiste esta falta de fé dos discípulos, que se contrapõe à confiança de Jesus? Não é que deixaram de crer N’Ele, pois invocam-No; mas vejamos como O invocam: «Mestre, não Te importas que pereçamos?» (4, 38) Não Te importas: pensam que Jesus Se tenha desinteressado deles, não cuide deles. Entre nós, nas nossas famílias, uma das coisas que mais dói é ouvirmos dizer: «Não te importas de mim». É uma frase que fere e desencadeia turbulência no coração. Terá abalado também Jesus, pois não há ninguém que se importe mais de nós do que Ele. De facto, uma vez invocado, salva os seus discípulos desalentados.

A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade. A tempestade põe a descoberto todos os propósitos de «empacotar» e esquecer o que alimentou a alma dos nossos povos; todas as tentativas de anestesiar com hábitos aparentemente «salvadores», incapazes de fazer apelo às nossas raízes e evocar a memória dos nossos idosos, privando-nos assim da imunidade necessária para enfrentar as adversidades.

Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso «eu» sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos.

«Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Nesta tarde, Senhor, a tua Palavra atinge e toca-nos a todos. Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que nós, avançamos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: «Acorda, Senhor!»

«Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Senhor, lanças-nos um apelo, um apelo à fé. Esta não é tanto acreditar que Tu existes, como sobretudo vir a Ti e fiar-se de Ti. Nesta Quaresma, ressoa o teu apelo urgente: «Convertei-vos…». «Convertei-Vos a Mim de todo o vosso coração» (Jl 2, 12). Chamas-nos a aproveitar este tempo de prova como um tempo de decisão. Não é o tempo do teu juízo, mas do nosso juízo: o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é. É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros. E podemos ver tantos companheiros de viagem exemplares, que, no medo, reagiram oferecendo a própria vida. É a força operante do Espírito derramada e plasmada em entregas corajosas e generosas. É a vida do Espírito, capaz de resgatar, valorizar e mostrar como as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do último espetáculo, mas que hoje estão, sem dúvida, a escrever os acontecimentos decisivos da nossa história: médicos, enfermeiros e enfermeiras, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, curadores, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos – mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho. Perante o sofrimento, onde se mede o verdadeiro desenvolvimento dos nossos povos, descobrimos e experimentamos a oração sacerdotal de Jesus: «Que todos sejam um só» (Jo 17, 21). Quantas pessoas dia a dia exercitam a paciência e infundem esperança, tendo a peito não semear pânico, mas corresponsabilidade! Quantos pais, mães, avôs e avós, professores mostram às nossas crianças, com pequenos gestos do dia a dia, como enfrentar e atravessar uma crise, readaptando hábitos, levantando o olhar e estimulando a oração! Quantas pessoas rezam, se imolam e intercedem pelo bem de todos! A oração e o serviço silencioso: são as nossas armas vencedoras.

«Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» O início da fé é reconhecer-se necessitado de salvação. Não somos autossuficientes, sozinhos afundamos: precisamos do Senhor como os antigos navegadores, das estrelas. Convidemos Jesus a subir para o barco da nossa vida. Confiemos-Lhe os nossos medos, para que Ele os vença. Com Ele a bordo, experimentaremos – como os discípulos – que não há naufrágio. Porque esta é a força de Deus: fazer resultar em bem tudo o que nos acontece, mesmo as coisas ruins. Ele serena as nossas tempestades, porque, com Deus, a vida não morre jamais.

O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperança, capazes de dar solidez, apoio e significado a estas horas em que tudo parece naufragar. O Senhor desperta, para acordar e reanimar a nossa fé pascal. Temos uma âncora: na sua cruz, fomos salvos. Temos um leme: na sua cruz, fomos resgatados. Temos uma esperança: na sua cruz, fomos curados e abraçados, para que nada e ninguém nos separe do seu amor redentor. No meio deste isolamento que nos faz padecer a limitação de afetos e encontros e experimentar a falta de tantas coisas, ouçamos mais uma vez o anúncio que nos salva: Ele ressuscitou e vive ao nosso lado. Da sua cruz, o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, a olhar para aqueles que nos reclamam, a reforçar, reconhecer e incentivar a graça que mora em nós. Não apaguemos a mecha que ainda fumega (cf. Is 42, 3), que nunca adoece, e deixemos que reacenda a esperança.

Abraçar a sua cruz significa encontrar a coragem de abraçar todas as contrariedades da hora atual, abandonando por um momento a nossa ânsia de omnipotência e possessão, para dar espaço à criatividade que só o Espírito é capaz de suscitar. Significa encontrar a coragem de abrir espaços onde todos possam sentir-se chamados e permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade. Na sua cruz, fomos salvos para acolher a esperança e deixar que seja ela a fortalecer e sustentar todas as medidas e estradas que nos possam ajudar a salvaguardar-nos e a salvaguardar. Abraçar o Senhor, para abraçar a esperança. Aqui está a força da fé, que liberta do medo e dá esperança.

«Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Queridos irmãos e irmãs, deste lugar que atesta a fé rochosa de Pedro, gostaria nesta tarde de vos confiar a todos ao Senhor, pela intercessão de Nossa Senhora, saúde do seu povo, estrela do mar em tempestade. Desta colunata que abraça Roma e o mundo desça sobre vós, como um abraço consolador, a bênção de Deus. Senhor, abençoa o mundo, dá saúde aos corpos e conforto aos corações! Pedes-nos para não ter medo; a nossa fé, porém, é fraca e sentimo-nos temerosos. Mas Tu, Senhor, não nos deixes à mercê da tempestade. Continua a repetir-nos: «Não tenhais medo!» (Mt 14, 27). E nós, juntamente com Pedro, «confiamos-Te todas as nossas preocupações, porque Tu tens cuidado de nós» (cf. 1 Ped 5, 7).

Os relatos mesopotâmicos do dilúvio

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WASSERMAN, N. The Flood: The Akkadian Sources. A New Edition, Commentary, and a Literary Discussion. Leuven: Peeters, 2020, 187 p. – ISBN 9789042941731.

A história do dilúvio que exterminou toda a vida na terra, exceto uma família, é encontrada em diferentes textos da antiga Mesopotâmia, de onde chegou às tradições literárias bíblicas e clássicas. Este livro recolhe sistematicamente os primeiros testemunhos do mito do dilúvio, a saber, todas as fontes acádicas em escrita cuneiforme desde a antiga Babilônia até os períodos neoassírio e neobabilônico, incluindo a tabuinha XI da Epopeia de Gilgámesh. O livro os apresenta em nova edição sinótica com tradução em inglês, acompanhados de um comentário filológico detalhado e uma extensa discussão literária. O livro inclui também um glossário completo das fontes WASSERMAN, N. The Flood: The Akkadian Sources. A New Edition, Commentary, and a Literary Discussion. Leuven: Peeters, 2020acádicas.

The story of the primeval cataclysmic flood which wiped out all life on earth, save for one family, is found in different ancient Mesopotamian texts whence it reached the Biblical and Classical literary traditions. The present book systematically collects the earliest attestations of the myth of the Flood, namely all the cuneiform-written Akkadian sources – from the Old Babylonian to the Neo-Assyrian and Neo-Babylonian periods, including Tablet XI of the Epic of Gilgamesh –, presenting them in a new synoptic edition and English translation which are accompanied by a detailed philological commentary and an extensive literary discussion. The book also includes a complete glossary of the Akkadian sources.

Nathan Wasserman (Jerusalem, b. 1962) is a professor of Assyriology at the Institute of Archaeology of The Hebrew University of Jerusalem (PhD, 1993). His main fields of research are Early Akkadian literary and magical texts, as well as the history of the Old Babylonian period.

Faça o download gratuito do livro em ZORA – Zurich Open Repository and Archive.

Senaquerib, rei da Assíria

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Estou estudando nestes dias, na Literatura Deuteronomista, com o Segundo Ano de Teologia do CEARP, O contexto da Obra Histórica Deuteronomista. Um dos assuntos tratados é a invasão de Judá por Senaquerib, da Assíria, em 701 a.C. quando em Jerusalém reinava Ezequias e lá estavam os profetas Isaías e Miqueias.

Andei lendo algumas coisas recentes sobre o tema. Este livro, gratuito no projeto ICI da SBL, é interessante:ELAYI, J. Sennacherib, King of Assyria. Atlanta: SBL, 2018

ELAYI, J. Sennacherib, King of Assyria. Atlanta: SBL, 2018, 256 p. – ISBN 9780884143178.

A autora trata da invasão de Judá por Senaquerib a partir da p. 52. Ela começa assim:

A terceira campanha de Senaquerib, logo após a campanha de Zagros em 701, foi a campanha para o oeste. A data de 701 é confirmada pela comparação do Cilindro Bellino, datado do epônimo de Nabû-lêʾi (702), que não menciona esta campanha, e o Cilindro Rassam, datado do epônimo de Metunu (700), que o menciona. De fato, esta campanha compreendeu três fases: contra a Fenícia, contra a Filisteia e contra Judá. No entanto, as operações militares contra Judá, também registradas na Bíblia, são as mais conhecidas e as mais discutidas. Embora as publicações relacionadas a Judá sejam exageradas e as relacionadas à Fenícia e à Filisteia sejam bastante escassas, uma abordagem histórica séria deve ser adotada, levando em consideração igualmente as três fases da terceira campanha, especialmente porque elas são parcialmente inter-relacionadas. Para Senaquerib, a terceira campanha provavelmente não foi muito diferente das duas campanhas anteriores de seu reinado, e ele não fez distinção entre as três regiões levantes, todas elas no Hatti: “Na minha terceira campanha, avancei contra o Hatti”. A campanha de 701 é geralmente interpretada como uma reação assíria à retenção do tributo imposto às cidades rebeldes fenícias, filisteias e palestinas. Vindo do norte, Senaquerib seguiu uma rota geográfica lógica e seguiu sucessivamente para a Fenícia, para a Filisteia, rumo sul, e para Judá, no leste.

 

Sennacherib’s third campaign, following on immediately from the Zagros campaign in 701, was the campaign to the west. The date of 701 is confirmed by comparing theJosette Elayi Bellino Cylinder, dated from the eponymate of Nabû-lêʾi (702), which does not mention this campaign, and the Rassam Cylinder, dated from the eponymate of Metunu (700), which does mention it. As a matter of fact, this campaign comprised three phases: against Phoenicia, against Philistia, and against Judah. However, the military operations against Judah, also recorded in the Bible, are the best known and the most discussed. Even though the publications related to Judah are overabundant and those related to Phoenicia and Philistia rather scarce, a serious historical approach must be adopted, hence giving equal consideration to the three phases of the third campaign, especially as they are partly interrelated. For Sennacherib, the third campaign was probably not very different from the two previous campaigns of his reign, and he did not distinguish between the three Levantine regions, all of them being in the Hatti: “In my third campaign, I went against the Hatti.” 47 The campaign of 701 is generally interpreted as an Assyrian reaction to the withholding of the tribute imposed on the rebellious Phoenician, Philistian, and Palestinian cities. Coming from the north, Sennacherib followed a logical geographical route, and successively proceeded to Phoenicia, to Philistia southward, and to Judah eastward (p. 52-53).

ELAYI, J. Sargon II, King of Assyria. Atlanta: SBL Press, 2017
Veja também, da mesma autora, no projeto ICI da SBL:

ELAYI, J. Sargon II, King of Assyria. Atlanta: SBL Press, 2017, 298 p. – ISBN 9781628371772.

 

Josette Elayi est une historienne française de l’Antiquité, chercheur honoraire au CNRS, née le 29 mars 1943. Elle est l’auteur de nombreux livres d’archéologie et d’histoire.

Coronavírus

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A doença provocada pelo novo Coronavírus foi denominada pelo Organização Mundial da Saúde como Covid-19, sigla em inglês para Coronavirus disease 2019 = Doença por coronavírus 2019. O vírus foi designado como SARS-CoV-2 pelo Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus. SARS-CoV-2 é a sigla em inglês para Severe acute respiratory syndrome-coronavirus-2 = Síndrome respiratória aguda grave-coronavírus-2.

:: 5 sites com dados em tempo real

:: Mapa coronavírus no Brasil

Algumas páginas especiais sobre a Covid-19

:: BBC News Brasil – Em português

:: Carta Maior – Em português

:: Corriere della Sera – Em italiano

:: Die Zeit – Em alemão

:: Direção-Geral da Saúde de Portugal – Em português

:: DW Brasil – Em português

:: El País – Em português

:: EndCoronavirus.org – Em inglês

:: Estadão – Em português

:: Folha de S. Paulo – Em português

:: G1 – Em português

:: Google Trends – Em português

:: Guia de Prevenção sobre o Coronavírus do Governo do Estado de São Paulo – Em português

:: La Repubblica – Em italiano

:: La Stampa – Em italiano

:: Le Monde – Em francês

:: Ministério da SaúdeTwitter – Em português

:: Organização Mundial da Saúde – Em espanhol

:: Público – Em português

:: The Guardian – Em inglês

:: The New York Times – Em inglês

Profetas de Israel e livros proféticos da Bíblia

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Ler os textos proféticos não é a mesma coisa que ouvir os profetas de carne e osso.

Entre as tendências recentes mais importantes no estudo da profecia israelita antiga está o reconhecimento de que o fenômeno social do profetismo deve ser entendido como algo bastante distinto dos textos literários dos quais coletamos nossos dados sobre as atividades proféticas. Ou, para afirmar o problema em seus termos mais básicos: os textos não são profetas. Estudar um texto é uma tarefa literária e não é o equivalente de um trabalho de campo antropológico no qual o sujeito humano pode ser observado em primeira mão.

Além disso, parece altamente provável que textos que contenham referências às atividades de figuras proféticas não tenham sido eles próprios escritos pelos profetasNEUJAHR, M. Predicting the Past in the Ancient Near East: Mantic Historiography in Ancient Mesopotamia, Judah, and the Mediterranean World. Atlanta: SBL, 2012 cujas palavras pretendem conter. Portanto, ao tratar textos que pretendem relacionar casos de atividade profética ou práticas mânticas de maneira mais ampla, é imperativo manter pelo menos um olho nos processos pelos quais a atividade mântica foi registrada em forma literária, bem como as motivações para fazê-lo. Ou seja, os processos de escrita devem ser considerados ao se estudar esses textos. Oráculos proféticos podem ter sido compostos e proferidos por figuras proféticas, mas os textos proféticos são obra dos escribas.

 

Among the more important recent trends in the study of ancient prophecy is the recognition that the social phenomenon of prophetism must be understood as something quite distinct from the literary remains from which we cull our data concerning prophetic activities. Or, to state the problem in its most basic terms: texts are not prophets. To study a text is a literary endeavor and is not the equivalent of anthropological fieldwork in which the human subject can be observed first hand. Furthermore, it seems highly likely that texts which contain references to the activities of prophetic figures were not themselves written by the prophets whose words they purport to contain. Therefore, in treating texts that purport to relate instances of prophetic activity, or mantic practices more broadly, it is imperative to keep at least one eye on the processes by which mantic activity was recorded in literary form, as well as the motivations for doing so. That is to say, the processes of scribalization must be considered when studying such texts. Prophetic oracles may have been composed and delivered by prophetic figures, but prophetic texts are the work of scribes.

 

Referência

NEUJAHR, M. Predicting the Past in the Ancient Near East: Mantic Historiography in Ancient Mesopotamia, Judah, and the Mediterranean World. Atlanta: SBL, 2012, p. 3-4.

Matthew Neujahr is a Resident Scholar at Marquette University, Milwaukee, WI, USA.

Morreu o poeta Ernesto Cardenal (1925-2020)

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Morreu hoje em Manágua, aos 95 anos, o poeta nicaraguense Ernesto Cardenal.

Fallece el poeta nicaragüense Ernesto Cardenal, figura clave de la Teología de la Liberación – Carlos Salinas Maldonado: El País – 1 Mar 2020

Voz moral de la revolución sandinista y crítico del Gobierno de Daniel Ortega, ha muerto a los 95 años en Managua.

El poeta y sacerdote nicaragüense Ernesto Cardenal ha fallecido este domingo en Managua a la edad de 95 años a causa de daños renales y cardiacos, informaron fuentes Ernesto Cardenal (1925-2020) - Foto de 2010cercanas al literato, uno de los principales exponentes de la poesía latinoamericana. Cardenal era uno de los más destacados representantes de la llamada teología de la liberación. Su compromiso político lo hizo apoyar la lucha armada contra la dictadura de Somoza, una dinastía que gobernó Nicaragua por más de 40 años, y más recientemente plantar cara al Gobierno del presidente Daniel Ortega, cuyos desmanes y arbitrariedades denunciaba allá donde viajaba a presentar su poesía. Su compromiso con los más pobres y contra las injusticias lo convirtieron en la voz moral de la revolución sandinista, un proyecto con el que se comprometió a fondo y le valió la reprimenda del Papa Juan Pablo II, para quien un sacerdote no podía inmiscuirse en los asuntos políticos. “¡Nicaragua sin Guardia Nacional, veo el nuevo día! Una tierra sin terror. Sin tiranía dinástica”, había escrito en uno de sus poemas más celebrados, Canto Nacional.

Nació en Granada (Nicaragua), el 20 de enero de 1925. Heredero de una sólida tradición poética –con poetas prominentes como Rubén Darío–, Cardenal estudió literatura en Managua y México y cursó otros estudios en Estados Unidos y Europa. En 1965 fue ordenado sacerdote y más tarde se asentaría en el Archipiélago de Solentiname, localizado en el Gran Lago de Nicaragua, donde fundó una comunidad de pescadores y artistas primitivistas que se hizo mundialmente famosa. Fue ahí donde escribió su célebre El Evangelio de Solentiname. El archipiélago es un sitio de peregrinación de los fieles lectores y seguidores del poeta. Cardenal pasaba sus vacaciones en esas islas, donde leía las obras completas de Darío, escribía o dirigía la misa de Semana Santa en la pequeña iglesia de la localidad. Allí será despedido.

El escritor Sergio Ramírez, Premio Cervantes y amigo cercano del poeta, ha dicho de él que es uno de los grandes innovadores de la lengua española, al crear una nueva forma lírica, la de la narración en la poesía, que convirtió a Cardenal en un cronista de su tiempo. “Mido a Ernesto primero por su don de innovación. Hay muy buenos poetas que no logran hacer escuela, y eso no le quita peso a su voz, pero Cardenal, desde el principio hizo escuela, tuvo seguidores, abrió una brecha en la poesía de la lengua,” dijo Ramírez.

El mismo Cardenal se definía como el fundador de un nuevo estilo, lo que él llamó en entrevista con EL PAÍS “poesía científica”. “Creo que soy el único poeta, o al menos el único que yo conozco, que está haciendo poesía sobre la ciencia, poesía científica. Para mí es casi como una oración leer libros científicos. Veo en ellos lo que algunos han dicho que son huellas de la creación de Dios”.

La poesía de Cardenal está fuertemente ligada a la Revolución Sandinista, que en 1979 derrocó a la dictadura de Somoza. En poemas como Hora Cero o El Canto Nacional el poeta destacó las proezas de Augusto Sandino y los guerrilleros sandinistas. Esa íntima vinculación a la política hizo que la nomenclatura de la Iglesia católica lo rechazara, a tal punto que el Papa Juan Pablo II lo amonestó públicamente cuando visitó Nicaragua en 1983, en plena era sandinista.

Cardenal, sin embargo, mantenía un profundo amor cristiano, expresado a través de obas como Los Salmos, versos que demuestran su compromiso con la fe, pero también su crítica contra las injusticias, la opresión y el sufrimiento de los más desprotegidos. El poeta era un creador incansable, un hombre comprometido políticamente hasta el final de sus días, y una voz profética, combativa e incómoda para el poder.

El poeta ha vivido su propio martirio desde 2007, cuando Daniel Ortega regresó al poder en Nicaragua. Desde entonces ha sido perseguido por la justicia, controlada por el líder sandinista. “Ellos [Ortega y su esposa Rosario Murillo] son dueños de todos los poderes de Nicaragua. Tienen un poder absoluto, infinito, que no tiene límites, y ese poder está ahora en mi contra”, dijo Cardenal a EL PAÍS en una entrevista concedida en su casa de Managua en 2017. A pesar de esa persecución, Cardenal ha mantenido una actividad incansable. Ha viajado a recitales a Europa y América Latina, denunciando, además, los desmanes de Ortega. Él, que en su Cántico cósmico escribió que la poesía es “el canto y el encanto por todo cuanto existe”, seguía trabajando a sus 95 años. El pasado 4 de febrero fue ingresado en un hospital de Managua debido a una infección renal y aunque se pensaba que no saldría de esa, el poeta se recuperó y semanas más tardes recibió a EL PAÍS en su casa de Managua comiendo un nacatamal, un plato tradicional nicaragüense preparado a base de maíz.

Tras décadas de purgación por parte del Vaticano, el poeta fue rehabilitado por el papa Francisco. Jorge Mario Bergoglio le informó en febrero del levantamiento de la suspensión ad divinis (prohibición de administrar los sacramentos) que Karol Wojtyla le impuso en 1984. En una entrevista el mismo Cardenal había reconocido: “Me siento identificado con este nuevo Papa. Es mejor de como podríamos haberlo soñado”.

Nicaragua pierde a uno de sus escritores más queridos, el hombre que logró ser un profeta en su tierra y que deja una larga producción literaria que en este país de catástrofes y desmanes de sus políticos es repetida como plegaria, como el canto de una nación presa de sus propios errores, pero ansiosa de romper con su historia de opresión.

Notas sobre a pesquisa do livro de Oseias no século XX

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Brad E. Kelle, da Point Loma Nazarene University, San Diego, Califórnia, publicou, em 2009 e 2010, na revista Currents in Biblical Research, dois importantes artigos sobre a pesquisa de Oseias no século XX e primeira década do século XXI: O casamento de Oseias na pesquisa do século XX e Oseias 4-14 na pesquisa do século XX. Os artigos estão disponíveis online. São:

KELLE, B. E. Hosea 1–3 in Twentieth-Century Scholarship. Currents in Biblical Research, 7.2, p. 179-216, 2009.

KELLE, B. E. Hosea 4–14 in Twentieth-Century Scholarship. Currents in Biblical Research, 8.3, p. 314-375, 2010.

Resumi os pontos principais destes dois artigos, na maior parte das vezes apenas traduzindo livremente alguns trechos ou organizando em outra ordem as palavras do autor.

Nos meses de maio e junho de 2019 publiquei este resumo em 11 postagens no Observatório Bíblico. Agora organizei tudo em um só texto e publiquei na seção de artigos da Ayrton’s Biblical Page.

Confira as postagens sobre Oseias no Observatório Bíblico aqui. E o artigo “Notas sobre a pesquisa do livro de Oseias no século XX” aqui.

Teoria da metáfora conceptual

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O livro do profeta Oseias é recheado de metáforas. Virtualmente toda tendência interpretativa nos estudos sobre Oseias preocupou-se de alguma forma com as metáforas do texto. Mas, desde a década de 80 do século XX a abordagem de Oseias através das lentes da metáfora, especialmente o uso da teoria da metáfora conceptual alcançou uma posição de destaque nos estudos acadêmicos do livro do profeta. Há autores, por exemplo, que interpretam as imagens da prostituição usadas no livro de Oseias como um símbolo do corpo social desintegrado de Israel no século VIII a.C.

Por isso pode ser interessante esclarecer, ainda que brevemente, o que vem a ser a teoria da metáfora conceptual, também conhecida como teoria cognitiva da metáfora.

 

Para a maioria de nós, a metáfora é uma figura de linguagem na qual uma coisa é comparada com outra, dizendo que uma é a outra, como em “Ele é um leão”. Ou, como diz a Enciclopédia Britânica: A metáfora é uma figura de linguagem que implica comparação entre duas entidades diferentes (…) uma comparação explícita sinalizada pelas palavras “semelhante” ou “como”.

Por exemplo, consideraríamos a palavra leão uma metáfora na frase Aquiles era um leão no combate. Nós provavelmente diríamos também que a palavra é usada KOVECSES, Z. Metaphor: A Practical Introduction. 2. ed. Oxford: Oxford University Press, 2010.metaforicamente para alcançar algum efeito artístico e retórico, já que falamos e escrevemos metaforicamente para nos comunicarmos eloquentemente, para impressionar os outros com palavras “bonitas”, esteticamente agradáveis ​​ou para expressar alguma emoção profunda. Talvez também acrescentássemos que o que possibilita a identificação metafórica de Aquiles com um leão é que Aquiles e leões têm algo em comum: a bravura e a força.

De fato, essa é uma visão amplamente compartilhada – a concepção mais comum de metáfora, tanto nos círculos acadêmicos quanto na mentalidade popular. O que não significa que essa seja a única visão da metáfora. Esse conceito tradicional pode ser brevemente caracterizado por apontar cinco de seus recursos mais comumente aceitos:

1. A metáfora é uma propriedade das palavras, é um fenômeno linguístico. O uso metafórico do leão é uma característica de uma expressão linguística, a da palavra leão
2. A metáfora é usada para algum objetivo artístico e retórico, como quando Shakespeare escreve: o mundo é um palco
3. A metáfora é baseada em uma semelhança entre as duas entidades que são comparadas e identificadas. Aquiles deve compartilhar alguns recursos com os leões para que possamos usar a palavra leão como uma metáfora para Aquiles
4. A metáfora é um uso consciente e deliberado das palavras, e você deve ter um talento especial para poder fazê-lo e fazê-lo bem. Somente grandes poetas ou palestrantes eloquentes podem ser seus mestres
5. A metáfora é uma figura de linguagem da qual podemos prescindir. Nós a usamos para efeitos especiais e não é uma parte inevitável da comunicação humana cotidiana, muito menos do pensamento e do raciocínio humano cotidiano.

 

Uma nova visão da metáfora que desafiou, de maneira coerente e sistemática, todos esses aspectos da teoria tradicional, foi desenvolvida por George Lakoff e Mark Johnson em 1980 em seu estudo seminal Metaphors We Live By, traduzido como Metáforas da vida cotidiana. Sua concepção tornou-se conhecida como teoria cognitiva da metáfora ou teoria da metáfora conceptual.

Lakoff e Johnson desafiaram a visão profundamente arraigada da metáfora, afirmando que:
1. A metáfora é uma propriedade dos conceitos, e não das palavras
2. A função da metáfora é entender melhor certas conceitos, e não apenas servir a algum propósito artístico ou estético
3. A metáfora frequentemente não se baseia na semelhança
4. A metáfora é usada sem esforço na vida cotidiana por pessoas comuns, não apenas por pessoas talentosas
5. A metáfora, longe de ser um enfeite linguístico supérfluo e agradável, é um processo inevitável do pensamento e do raciocínio humano.

Para Lakoff e Johnson a metáfora não é simplesmente uma questão de palavras ou expressões linguísticas, mas de conceitos, de pensar em uma coisa em termos de outra. Segundo a teoria cognitiva da metáfora desenvolvida por Lakoff e Johnson, a metáfora é de natureza conceptual. Nessa perspectiva, a metáfora deixa de ser apenas um dispositivo da imaginação literária criativa e se converte em valiosa ferramenta cognitiva tanto para os poetas quanto para as pessoas comuns em seu cotidiano.

Com isto não se quer dizer que as ideias mencionadas acima no que chamamos de teoria cognitiva da metáfora não existiam antes de 1980. Obviamente, muitas delas existiam. Os principais componentes da teoria cognitiva da metáfora foram propostos por diversos estudiosos nos últimos dois mil anos. Por exemplo, a ideia da natureza conceptual da metáfora foi discutida por vários filósofos, incluindo Locke e Kant, vários séculos atrás.

O que há de novo, então, na teoria cognitiva da metáfora? No geral, a novidade está em que é uma teoria abrangente, generalizada e empiricamente testada.

:. Abrangência que deriva do fato de discutir um grande número de questões relacionadas à metáfora. Isso inclui, por exemplo:
. a relação da metáfora com outras figuras de linguagem
. a universalidade e especificidade cultural da metáfora
. a aplicação da teoria da metáfora conceptual a uma variedade de tipos diferentes de discurso, como a literatura
. a aquisição de metáfora
. o uso de metáforas no ensino de línguas estrangeiras
. a utilização não linguística da metáfora em uma variedade de áreas, como os múltiplos recursos visuais da atualidade

:. Generalização que deriva do fato de que ela tenta conectar o que sabemos sobre a metáfora conceptual com o que sabemos sobre o funcionamento da linguagem, o funcionamento do sistema conceptual humano e o funcionamento da cultura. A teoria cognitiva da metáfora fornece novas ideias sobre como certos fenômenos linguísticos funcionam, como a polissemia e o desenvolvimento do significado. Também lança uma nova luz sobre como o significado metafórico emerge. Ela desafia a visão tradicional de que a linguagem e o pensamento metafóricos são arbitrários e desmotivados e oferece a nova visão de que tanto a linguagem metafórica quanto o pensamento surgem da experiência corporal (sensório-motora) básica dos seres humanos.

:. Empiricamente testada, pois os pesquisadores usaram uma variedade de experimentos para testar a validade das principais reivindicações da teoria. Esses experimentos mostraram que a visão cognitiva da metáfora é psicologicamente viável: ou seja, tem fundamento psicológico. Experiências posteriores mostraram que ela pode ser vista como um instrumento fundamental não apenas na produção de novas palavras e expressões, mas também na organização do pensamento humano, e que pode ter aplicações práticas úteis, como, por exemplo, no ensino de línguas estrangeiras.

LAKOFF, G. ; JOHNSON, M. Metaphors We Live By. Chicago: University of Chicago Press, 2015.Vamos fazer uma distinção entre metáforas conceptuais e expressões linguísticas metafóricas. Nas metáforas conceptuais, um domínio da experiência é usado para entender outro domínio da experiência. As expressões linguísticas metafóricas, por outro lado, manifestam as metáforas conceptuais. O domínio conceptual que tentamos entender é chamado domínio de destino, e o domínio conceptual que usamos para esse fim é o domínio de origem.

Na frase Aquiles era um leão no combate, “Aquiles” é o domínio de destino, o alvo a ser explicado, enquanto “leão” é o domínio de origem, o recurso usado para entender o comportamento de Aquiles. Explicando “Aquiles” através de “leão”, estou dizendo: o domínio conceptual A (Aquiles) pode ser compreendido através do domínio conceptual B (leão). Ou seja: temos uma metáfora conceptual quando explicamos uma realidade ou conceito mais abstrato ou complexo através de uma realidade ou categoria mais concreta ou mais simples que faz parte de nossa experiência.

Típicos domínios conceptuais de origem são, por exemplo, o corpo humano, doença e saúde, animais, plantas, construções, máquinas e ferramentas, jogos e esporte, dinheiro e transações financeiras, culinária, calor e frio, luz e trevas, movimento e direção etc.

Típicos domínios conceptuais de destino são, por exemplo, emoções, desejos, moral, pensamentos, sociedade, política, economia, comunicação, relações humanas, tempo, vida e morte, religião, eventos ou ações etc.

A compreensão de um domínio em termos de outro envolve um conjunto de correspondências, tecnicamente chamadas de mapeamentos, entre uma origem e um domínio de destino. Esse conjunto de mapeamentos é obtido entre os elementos constituintes básicos do domínio de origem e os elementos constituintes básicos do destino. Conhecer uma metáfora conceptual é conhecer o conjunto de mapeamentos que se aplica a um determinado pareamento origem-destino. São esses mapeamentos que fornecem o significado das expressões linguísticas metafóricas (ou metáforas linguísticas) que tornam uma metáfora conceptual específica manifesta.

 

For most of us, metaphor is a figure of speech in which one thing is compared with another by saying that one is the other, as in “He is a lion”. Or, as the Encyclopaedia Britannica puts it: “metaphor [is a] figure of speech that implies comparison between two unlike entities, as distinguished from simile, an explicit comparison signalled by the words ‘like’ or ‘as’ ”. For example, we would consider the word lion to be a metaphor in the sentence “Achilles was a lion in the fight.” We would probably also say that the word is used metaphorically in order to achieve some artistic and rhetorical effect, since we speak and write metaphorically to communicate eloquently, to impress others with “beautiful,” esthetically pleasing words, or to express some deep emotion. Perhaps we would also add that what makes the metaphorical identification of Achilles with a lion possible is that Achilles and lions have something in common: namely, their bravery and strength.

Indeed, this is a widely shared view—the most common conception of metaphor, both in scholarly circles and in the popular mind (which is not to say that this is the only view of metaphor). This traditional concept can be briefly characterized by pointing out five of its most commonly accepted features. First, metaphor is a property of words; it is a linguistic phenomenon. The metaphorical use of lion is a characteristic of a linguistic expression (that of the word lion). Second, metaphor is used for some artistic and rhetorical purpose, such as when Shakespeare writes “all the world’s a stage.” Third, metaphor is based on a resemblance between the two entities that are compared and identified. Achilles must share some features with lions in order for us to be able to use the word lion as a metaphor for Achilles. Fourth, metaphor is a conscious and deliberate use of words, and you must have a special talent to be able to do it and do it well. Only great poets or eloquent speakers, such as, say, Shakespeare and Churchill, can be its masters. For instance, Aristotle makes the following statement to this effect: “The greatest thing by far is to have command of metaphor. This alone cannot be imparted by another; it is the mark of genius.” Fifth, it is also commonly held that metaphor is a figure of speech that we can do without; we use it for special effects, and it is not an inevitable part of everyday human communication, let alone everyday human thought and reasoning.

A new view of metaphor that challenged all these aspects of the powerful traditional theory in a coherent and systematic way was first developed by George Lakoff and Mark Johnson in 1980 in their seminal study: Metaphors We Live By. Their conception has become known as the “cognitive linguistic view of metaphor.” Lakoff and Johnson challenged the deeply entrenched view of metaphor by claiming that (1) metaphor is a property of concepts, and not of words; (2) the function of metaphor is to better understand certain concepts, and not just some artistic or esthetic purpose; (3) metaphor is often not based on similarity; (4) metaphor is used effortlessly in everyday life by ordinary people, not just by special talented people; and (5) metaphor, far from being a superfluous though pleasing linguistic ornament, is an inevitable process of human thought and reasoning.

In their view, metaphor is not simply a matter of words or linguistic expressions but of concepts, of thinking of one thing in terms of another. In the examples, two very different linguistic expressions capture aspects of the same concept, the mind, through another concept, machines. In the cognitive linguistic view as developed by Lakoff and Johnson, metaphor is conceptual in nature. In this view, metaphor ceases to be the sole device of creative literary imagination; it becomes a valuable cognitive tool without which neither poets nor you and I as ordinary people could live.

This discussion is not intended to suggest that the ideas mentioned above in what we call the “cognitive linguistic view of metaphor” did not exist before 1980. Obviously, many of them did. Key components of the cognitive theory were proposed by a diverse range of scholars in the past two thousand years. For example, the idea of the conceptual nature of metaphor was discussed by a number of philosophers, including Locke and Kant, several centuries ago. What is new, then, in the cognitive linguistic view of metaphor? Overall, what is new is that it is a comprehensive, generalized, and empirically tested theory.

First, its comprehensiveness derives from the fact that it discusses a large number of issues connected with metaphor. These include the systematicity of metaphor; the relationship between metaphor and other tropes, or figures of speech; the universality and culture-specificness of metaphor; the application of metaphor theory to a range of different kinds of discourse such as literature; the acquisition of metaphor; the teaching of metaphor in foreign language teaching; the nonlinguistic realization of metaphor in a variety of areas such as advertisements; and many others. It is not claimed that these issues have not been dealt with at all in other approaches; instead, the claim is that not all of them have been dealt with within the same theory.

Second, the generalized nature of the theory derives from the fact that it attempts to connect what we know about conceptual metaphor with what we know about the working of language, the working of the human conceptual system, and the working of culture. The cognitive linguistic view of metaphor can provide new insights into how certain linguistic phenomena work, such as polysemy and the development of meaning. It can also shed new light on how metaphorical meaning emerges. It challenges the traditional view that metaphorical language and thought is arbitrary and unmotivated. And it offers the new view that both metaphorical language and thought arise from the basic bodily (sensorimotor) experience of human beings. As it turns out, this notion of “embodiment” very clearly sets off the cognitive linguistic view from the traditional ones.

Third, it is an empirically tested theory in that researchers have used a variety of experiments to test the validity of the major claims of the theory. These experiments have shown that the cognitive view of metaphor is a psychologically viable one: that is, it has psychological reality. Further experiments have shown that, because of its psychological reality, it can be seen as a key instrument not only in producing new words and expressions but also in organizing human thought, and that it may have useful practical applications, for example, in foreign language teaching.

We have made a distinction between conceptual metaphors and metaphorical linguistic expressions. In conceptual metaphors, one domain of experience is used to understand another domain of experience. The metaphorical linguistic expressions make manifest particular conceptual metaphors. The conceptual domain that we try to understand is called the target domain, and the conceptual domain that we use for this purpose is the source domain.

Understanding one domain in terms of another involves a set of fixed correspondences (technically called mappings) between a source and a target domain. This set of mappings obtains between basic constituent elements of the source domain and basic constituent elements of the target. To know a conceptual metaphor is to know the set of mappings that applies to a given source-target pairing. It is these mappings that provide much of the meaning of the metaphorical linguistic expressions (or linguistic metaphors) that make a particular conceptual metaphor manifest (KOVECSES, Z. Metaphor: A Practical Introduction. 2. ed. Oxford: Oxford University Press, 2010. Trechos do “Preface to the First Edition: The Study of Metaphor”).

Referências:

KOVECSES, Z. Metaphor: A Practical Introduction. 2. ed. Oxford: Oxford University Press, 2010, 375 p. – ISBN 9780195374940.

KOVECSES, Z. Extended Conceptual Metaphor Theory. Cambridge: Cambridge University Press, 2020, 320 p. – ISBN 9781108490870.

LAKOFF, G. ; JOHNSON, M. Metaphors We Live By. Chicago: University of Chicago Press, 2015, 256 p. – ISBN 9780226468372.

 

Zoltan Kovecses: Eötvös Loránd University, School of English and American Studies, Faculty Member, Hungary.

George Lakoff is a professor in the Department of Linguistics at the University of California, Berkeley.

Mark Johnson is the Knight Professor of Liberal Arts and Sciences at the University of Oregon.