Ensaios sobre os livros históricos da Bíblia Hebraica

KELLE, B. E. ; STRAWN, B. A. (eds.) The Oxford Handbook of the Historical Books of the Hebrew Bible. New York: Oxford University Press, 2021, 616 p. – ISBN 9780190261160.

Uma coleção de ensaios com recursos para a interpretação dos livros de Josué, Juízes, Samuel, Reis, Crônicas, Esdras e Neemias. O volume não é exaustivo emKELLE, B. E. ; STRAWN, B. A. (eds.) The Oxford Handbook of the Historical Books of the Hebrew Bible. New York: Oxford University Press, 2021 sua cobertura, mas examina aspectos desses livros que são considerados essenciais para a interpretação ou que são representativos de tendências significativas na pesquisa atual e futura.

The Oxford Handbook of Historical Books of the Hebrew Bible is a collection of essays that provide resources for the interpretation of the books of Joshua, Judges, Samuel, Kings, Chronicles, Ezra, and Nehemiah. The volume is not exhaustive in its coverage, but examines interpretive aspects of these books that are deemed essential for interpretation or that are representative of significant trends in present and future scholarship. The individual essays are united by their focus on two guiding questions: (1) What does this topic have to do with the Old Testament Historical Books? and (2) How does this topic help readers better interpret the Old Testament Historical Books? Each essay critically surveys prior scholarship before presenting current and prospective approaches.

Taking into account the ongoing debates concerning the relationship between the Old Testament texts and historical events in the ancient world, data from Assyrian, Babylonian, and Persian culture and history are used to provide a larger context for the content of the Historical Books. Essays consider specific issues related to Israelite/Judean history (settlement, state formation, monarchy, forced migration, and return) as they relate to the interpretation of the Historical Books. This volume also explores the specific themes, concepts, and content that are most essential for interpreting these books. In light of the diverse material included in this section of the Old Testament, the Handbook further examines interpretive strategies that employ various redactional, synthetic, and theory-based approaches. Beyond the Old Testament proper, subsequent texts, traditions, and cultures often received and interpreted the material in the Historical Books, and so the volume concludes by investigating the literary, social, and theological aspects of that reception.

 

Table of Contents

Preface
Abbreviations
List of Contributors
Introduction, Brad E. Kelle and Brent A. Strawn

I. Contexts: Sources, History, Texts
1. Historiography and History Writing in the Ancient World, Richard D. Nelson
2. Assyrian and Babylonian Sources, Martti Nissinen
3. Achaemenid Political History and Sources, Amélie Kuhrt
4. Text-Critical Issues with Samuel and Kings, Julio Trebolle Barrera and Eugene Ulrich
5. Text-Critical Issues in Ezra-Nehemiah and 1 Esdras, Lisbeth S. Fried
6. Early Israel’s Origins, Settlement, and Ethnogenesis, Ann E. Killebrew
7. Israelite State Formation and Early Monarchy in History and Biblical Historiography, Walter Dietrich
8. The Later Monarchy in History and Biblical Historiography, Paul S. Evans
9. New Perspectives on the Exile in Light of Cuneiform Texts, Laurie Pearce
10. New Perspectives on the Return from Exile and Persian-Period Yehud, Mary Joan Winn Leith

II. Content: Themes, Concepts, Issues
1. Israelite and Judean Society and Economy, Roger S. Nam
2. Politics and Kingship in the Historical Books, with Attention to the Role of Political Theory in Interpretation, Geoffrey Parsons Miller
3. The Distinctive Roles of the Prophets in the Deuteronomistic History and the Chronicler’s History, Marvin A. Sweeney
4. The Various Roles of Women in the Historical Books, Mercedes L. García-Bachmann
5. Exogamy and Divorce in Ezra and Nehemiah, Herbert R. Marbury
6. Yahwistic Religion in the Assyrian and Babylonian Periods, Richard S. Hess
7. Yahwistic Religion in the Persian Period, Melody D. Knowles
8. A Theological Comparison of the Deuteronomistic History and Chronicles, Matthew J. Lynch
9. Divine and Human Violence in the Historical Books, Douglas S. Earl

III. Approaches: Composition, Synthesis, Theory
1. The So-called Deuteronomistic History and Its Theories of Composition, Thomas Römer
2. Reading the Historical Books as Part of the Primary History, Richard S. Briggs
3. Synchronic Readings of Joshua-Kings, Serge Frolov
4. The Rise and Fall of the So-Called Chronicler’s History and the Current Study of the Composition of Chronicles, Ezra, and Nehemiah, Ralph W. Klein
5. 1 Esdras: Structure, Composition, and Significance, Kristin De Troyer
6. Synthetic and Literary Readings of Chronicles and Ezra-Nehemiah, Steven J. Schweitzer
7. The Role of Orality and Textuality, Folklore and Scribalism in the Historical Books, Susan Niditch
8. Feminist and Postcolonial Readings of the Historical Books, Cameron B. R. Howard
9. The Deuteronomistic History as Literature of Trauma, David Janzen

IV. Reception: Literature, Traditions, Figures
1. Joshua in Reception History, Zev I. Farber
2. Deborah in Reception History, Joy A. Schroeder
3. Samson in Reception History, Kelly J. Murphy
4. Saul in Reception History, Barbara Green
5. David in Reception History, Dominik Markl
6. Solomon in Reception History, Sara M. Koenig
7. Ezra and Nehemiah in Reception History, Armin Siedlecki
8. The Historical Books in the New Testament, Steve Moyise

O livro de Josué na pesquisa recente

Thomas B. Dozeman, professor de Bíblia Hebraica no United Theological Seminary, Dayton, Ohio, USA, publicou, em 2017, na revista Currents in Biblical Research, um artigo sobre o livro de Josué na pesquisa recente.

DOZEMAN, T. B. The Book of Joshua in Recent Research. Currents in Biblical Research, Vol. 15(3), p. 270­–288, 2017.

O artigo analisa estudos sobre Josué nos últimos dez anos.

Este texto é um resumo e uma tradução livre minha. Os autores citados no texto e suas obras podem ser consultados na bibliografia do artigo, que está disponível para download gratuito aqui.

 

Resumo

A pesquisa sobre o livro de Josué está se desenvolvendo significativamente em uma variedade de áreas diferentes.DOZEMAN, T. B. The Book of Joshua in Recent Research. Currents in Biblical Research, Vol. 15(3), p. 270­–288, 2017.

O artigo resume os estudos atuais em seis diferentes abordagens metodológicas:
1. Crítica textual
2. Composição e contexto literário
3. História, arqueologia e geografia
4. Violência, genocídio e conquista
5. Estudos literários e ideológicos
6. História da recepção

O artigo será concluído com um breve resumo de obras coletivas e comentários recentes sobre Josué.

O foco da interpretação serão os últimos dez anos, sendo assim um complemento para o artigo de GREENSPOON, L. J. The Book of Joshua – Part 1: Texts and Versions. Currents in Biblical Research, Vol. 3 (2), p. 229-261, 2005.

Abstract

Research on the book of Joshua is developing significantly in a variety of different areas. The review summarizes current scholarship in six distinct methodological approaches: (1) textual criticism; (2) composition and literary context; (3) history, archaeology and geography; (4) violence, genocide and conquest; (5) literary and ideological studies; and (6) reception history. The article will conclude with a brief summary of recent collected studies and commentaries on Joshua. The focus of interpretation will be the last ten years supplementing Greenspoon (2005).

 

1. Crítica textual

O estudo das versões antigas de Josué continua, especialmente os trabalhos que abordam o texto grego antigo [LXX], como De Troyer 2006; van der Meer 2006; Tov 2007; den Hertog 2009; Krause 2012c; Sipilå 2013; o texto dos Manuscritos do Mar Morto, como García Martinez 2008, 2011; Feldman 2013; mas também o latim antigo (Ulrich 2012), a Vulgata (Sipilå 2011) e o Targum de Josué (Van Staaldune-Sulman 2010).

Há diferenças entre as versões: o texto grego (LXX) é cerca de 4 a 5 por cento mais curto do que o texto massorético (TM), mas também há passagens em que o texto grego é mais detalhado do que o texto massorético. Além do que há cerca de 600 diferenças entre eles, que T. C. Butler (Joshua. Waco, TX: Word Books,1983) classificou nas categorias de erros mecânicos de cópia; incompreensão de significado, forma ou sintaxe; melhorias literárias; uso de frases familiares; interpretação homilética e exegese; corte de linguagem inaceitável [trecho lido em L. J. Greenspon, 2005, p. 234].

A visão tradicional sobre estas diferenças textuais sustenta que o tradutor do hebraico para o grego trabalhou com uma versão antiga semelhante ao texto massorético, de maneira literal, sem se preocupar com a audiência grega. Isto, somado às omissões e aos erros de tradução, explicaria as diferenças entre o texto grego e o texto massorético.

O problema desta visão é que tanto o texto massorético quanto o texto grego são textos expandidos, com acréscimos, harmonização e desenvolvimentos feitos por escribas, mas independente um do outro. Donde se percebe que as diferenças entre o grego e o hebraico não são devidas apenas às características da versão antiga e do texto massorético do livro de Josué, mas também ao desenvolvimento textual de cada um deles.

Assim, hoje se pensa que:
1. O tradutor grego do livro de Josué não fez uma versão literal, mas foi criativo, oferecendo novas interpretações do texto hebraico, que usou como fonte, para sua audiência grega (van der Meer 2009, 2012)
2. O texto hebraico que o tradutor usou é diferente e mais antigo do que o TM (Auld 2012)
3. As diferenças entre a LXX, o TM e os Manuscritos do Mar Morto de Josué representam tradições textuais distintas e não relacionadas, ou seja, não provêm de um único texto original (Sanders 2005).

O resultado desta teoria é uma visão pluralista do desenvolvimento literário de Josué, com diferentes versões independentes surgidas em comunidades distintas.

 

2. Composição e contexto literário

A identificação do(s) autor(es) do livro de Josué desempenhou um papel significativo na interpretação do livro desde o século XIX. Os intérpretes há muito observam conflitos em temas e motivos, o que sugere uma obra composta por mais de um autor. O tema central da conquista, por exemplo, permanece sem solução no livro, com alguns textos indicando o extermínio completo de reis, cidades e pessoas (11,21-23), enquanto outros textos afirmam que nações originais permanecem na terra (Js 23).

O problema da composição é agravado pelo contexto literário de Josué, que é um livro que faz a ligação entre o Pentateuco e os Profetas Anteriores. Por isso, há quem o veja como parte de um Hexateuco (Gênesis – Josué) e há quem o veja como parte de uma Obra Histórica Deuteronomista (Josué – Reis). E há também, no debate atual, quem defenda uma autoria independente para o livro ou, por outro lado, uma inclusão em um possível Eneateuco (Gênesis- Reis).

Pesquisas recentes tendem a se afastar da identificação de fontes [J, E, P] no texto, e tentam explicar a composição de Josué como um processo de suplementação textual ou sucessivas redações.

Os contextos literários distintos do Hexateuco, da Obra Histórica Deuteronomista e, mais recentemente, do Eneateuco, influenciam as pesquisas atuais, embora a data de composição tenha tendido, em todos elas, a se mover para o período pós-exílico.

Blum (2006, 2012), Ausloos (2012), Achenbach (2014) e Rösel (2009) exploram o papel de uma redação do Hexateuco no estágio final da composição de Josué.

Becker (2006), Römer (2005, 2010), Bieberstein (2011), Koorevaar (2012) e Krause (2014) pesquisam a composição de Josué no contexto literário da Obra Histórica Deuteronomista, ao mesmo tempo em que defendem modificações para a proposta de Martin Noth de um só autor e falem de vários autores.

Albertz (2007) e Boorer (2011) examinam a função da literatura sacerdotal, não como uma fonte, mas como uma redação mais recente na formação de Josué.

Rösel (2008) avalia criticamente a hipótese da Obra Histórica Deuteronomista como o contexto literário para interpretar Josué, enquanto Dozeman (2012) argumenta que Josué foi composto inicialmente como um livro independente.

Knauf (2012) muda o foco para explorar a composição de Josué com base em seu público-alvo, observando três estágios de desenvolvimento: (1) o Josué pré-canônico vinculado ao Pentateuco e voltado para as elites intelectuais; (2) o Josué deuterocanônico separado do Pentateuco, mas ainda voltado apenas para as elites intelectuais; e (3) a versão canônica disponível para todos os judeus por meio de cópias destinadas ao culto na sinagoga.

Muitos estudos exploram a composição de passagens particulares como uma oportunidade para explicar a formação do livro de Josué (Bartfeld 2008a, 2008b; Krause 2012a). Assim, a repetição da notícia da morte de Josué em Js 24,29-34 e em Jz 2, 6-9, que já era um problema central para Martin Noth (1981) ao defender a hipótese da Obra Histórica Deuteronomista, continua a ser um tópico de pesquisa (Römer 2006; Frolov 2008).

Pesquisas recentes também exploram a relação de Josué com outros livros dos Profetas Anteriores como um recurso para avaliar a sua composição. Assim, Auld (2011) vê Samuel como uma fonte para a composição de Josué; Hamiel e Rösel (2012) focam mais especificamente nas narrativas de conquista em Josué 6-11 como sendo moldadas por tradições presentes em Juízes, Samuel e Reis; Edenburg compara Josué 9 com o Deuteronômio (2012a) e Josué 7–8 com a o Código Deuteronômico (2015); Nihan (2007) compara os relatos da leitura da Lei em Siquém em Josué 8 com relatos semelhantes no Deuteronômio, enquanto Seebass (2012) examina a relação de Josué e Números.

 

3. História, arqueologia e geografia

A reconstrução histórica do Israel tribal e o exame histórico-crítico das tradições de conquista desempenharam um papel significativo na interpretação de Josué ao longo do século XX (por exemplo, Albright 1961 e Alt 1953). Pesquisadores atuais continuam a refinar as reconstruções anteriores da geografia histórica.

Farber (2012), por exemplo, explora o papel etiológico de Timnat Heres na formação das tradições de Josué. Hess (2008a) examina os relatos de Jericó e Ai em relação ao início da história tribal, assim como Briggs (2005). Knauf (2010) avalia criticamente a recuperação da história por trás do livro de Josué.

A geografia do livro de Josué continua sendo um importante tópico de pesquisa.

Tappy (2008) examina as planícies mencionadas em Js 15,33-47. Saur (2012) explora o significado de Sídon e Tiro (Js 19,24-31). de Vos (2003) fornece um estudo abrangente das fronteiras geográficas de Judá em Js 15.

O estudo da geografia também foi ampliado da geografia histórica para a avaliação do papel dos territórios, cidades e fronteiras na historiografia antiga (Curtis 2007) e na descrição das terras conquistadas e não conquistadas (Levin 2012).

A ideologia da representação geográfica está se tornando uma área de estudo especialmente importante.

Younger (2008) explora a construção retórica das narrativas de conquista. Wazana (2013) examina o papel da geografia nas descrições de limites do antigo Oriente Médio como uma ampla estrutura para interpretar Josué, e Damien (2012) investiga o conflito entre a geografia histórica e as narrativas de conquista. Ballhorn (2011, 2012) avalia a topografia do livro de Josué e a travessia do Jordão como exemplos de heterotopia – a teoria da geografia humana desenvolvida por Michel Foucault segundo a qual os espaços podem ter camadas múltiplas e simultâneas de significado que vão desde o lugar físico até as construções mentais. Havrelock (2007a, 2007b, 2011) estende essa mesma linha de pesquisa para os mapas panorâmicos da terra prometida (por exemplo, Js 1,3-4) e para a função do rio Jordão como um lugar de divisão.

 

4. Violência, genocídio e conquista

A guerra e a legitimação divina para o extermínio de todos os cananeus sempre foram um desafio na interpretação de Josué. A pesquisa atual pode ser resumida em três tópicos sobrepostos: a. o problema teológico da violência associada ao monoteísmo; b. o problema ético do genocídio; c. o desafio da guerra santa e suas implicações contemporâneas.

a. O problema da violência no livro de Josué é teológico (Douglas 2005), pois é o Deus de Josué que exige genocídio (Collins 2014). Albertz (2009) explora como a concepção religiosa do monoteísmo pode reforçar a intolerância religiosa em Josué; Jacobs (2009) amplia a análise para debater o problema do monoteísmo nas três principais tradições religiosas: judaísmo, cristianismo e islamismo. Hawk defende uma leitura que postula a presença de vários autores debatendo a violência divina no livro de Josué (2008a), no qual a representação da divindade pode ter sido modificada em redações posteriores do livro (2008b). Wolterstorff (2011) sugere que o relato é hagiográfico, enquanto Brueggemann (2009) contextualiza a violência como a luta divina contra monarcas opressores para apoiar o projeto de uma sociedade igualitária.

b. O papel central do anátema em Josué levanta a questão ética do genocídio. Cowles, Merrill, Gard e Longman (2010) apresentam quatro visões concorrentes sobre a violência como genocídio, todas elas em perspectiva cristã. As reflexões variam amplamente de genocídio em Josué originado de um mal-entendido entre Josué e Deus (Cowles), à necessidade de genocídio por causa da relação exclusiva entre Deus e Israel (Merrill), chegando até à reinterpretação do genocídio como guerra espiritual para os cristãos (Gard e Longman). Davies analisa uma série de abordagens literárias e éticas anteriores para interpretar o problema da violência e do genocídio (2010). Earl (2011) amplia a leitura cristã do problema do genocídio, com foco em Orígenes, enquanto Scheinhorst-Schönberger (2012) oferece uma reflexão aprofundada sobre a natureza do poder associado a histórias como Josué 6.

c. A violência em Josué também alimentou uma ampla gama de pesquisas sobre a guerra e a guerra santa no mundo antigo e sua influência nos leitores contemporâneos. Hess (2008b) e Schmitt (2011) analisam o significado e a função da guerra santa no mundo antigo. Kim (2004) e Kuan (2009) focam mais especificamente na retórica da violência em textos sobre a guerra santa. Levin (2011) examina a retórica da guerra dentro da tradição judaica. Jenkins (2011) avalia a ética da guerra santa e da violência nas origens da tradição cristã, e argumenta que deve ser rejeitada na vida contemporânea. Handy (2009) e Warrior (2006) exploram os efeitos da violência da guerra santa na tradição ocidental contemporânea.

 

5. Estudos literários e ideológicos

O estudo literário de Josué floresceu na última década, com autores fornecendo leituras perspicazes de muitas narrativas do livro. Os estudos vão desde a análise de técnica literária e crítica narrativa até estudos mais orientados ideologicamente, incluindo formas de análise feministas, queer e pós-coloniais.

Thomas B. DozemanEstudos literários detalhados de Josué incluem Assis (2012), que fornece uma análise do complexo relato da travessia do Jordão (Josué 3-4); Marcus (2007) retorna à narrativa de Raab e os espiões enfocando a função da história dentro do plano maior do livro; Strba (2008) fornece um estudo exaustivo do confronto entre Josué e o comandante do exército de Iahweh (Js 5,13-15); Ska (2010) interpreta a cerimônia em Siquém (Js 8,30-35) como indicando a posse da terra por Israel; Popović (2009) explora a função de Josué 24 dentro do livro, e Wénin (2012) fornece uma análise literária de toda a primeira metade do livro (Js 1-12). Outros estudos exploram a relação literária de Josué com Abraão (Gosse 2012), com Ester (Leder 2012) e com Reis (Van Wieringen 2012).

Os personagens centrais, Josué e Raab, continuam atraindo a atenção dos intérpretes.

Hall (2010) fornece uma ampla interpretação do personagem Josué, enfocando seu papel em Josué 1-11. Outras interpretações mais focadas de Josué incluem Chapman (2009), que destaca o papel profético de Josué, assim como Oeste (2013). Dozeman (2010) avalia criticamente a interpretação de Josué como representante do rei ideal modelado a partir do papel de Josias na Obra Histórica Deuteronomista, argumentando que Josué representa um líder antimonárquico.

Leith (2007) fornece um resumo do papel de Raab em Josué 2; Sherwood (2006) reexamina o papel de Raab como prostituta, enquanto Scholz (2013) explora a complexa história da interpretação de Raab como uma convertida, uma prostituta e uma traidora – todos papéis do anti-herói. Benjamin (2013) e Davidson (2013) comparam e contrastam Raab e Jael como personagens que funcionam dentro do contexto do império.

Interpretações ideológicas adicionais de Josué exploram a ambivalência da narrativa em Josué (Brueggeman 2013), a apresentação do ‘outro’ (Hawk 2013), bem como leituras críticas feministas (Kirk-Duggan 2013; Creanga 2007), queer (Carden 2006) e pós-coloniais (Butler 2013).

 

6. História da recepção

A recepção do livro de Josué é hoje uma área de destaque na pesquisa.

A metodologia da história da recepção traça a influência do livro de Josué na formação da religião, política e cultura ocidentais. Hans Georg Gadamer (1975: 263) fornece o objetivo da história da recepção, quando afirma que o objetivo da interpretação não é reproduzir o significado objetivo de um texto, mas esclarecer as condições em que a compreensão ocorre. Essa definição amplia as lentes de interpretação do estudo de Josué como um objeto isolado no passado para a interação entre Josué e o leitor ao longo do tempo. Gadamer caracteriza a relação dinâmica entre o texto e o leitor como Wirkungsgeschichte, “a história dos efeitos” de um texto oficial sobre os leitores. A interpretação da “história dos efeitos” requer o estudo do texto bíblico, mas também a localização social e os preconceitos dos leitores subsequentes, uma vez que ambos são necessários para descrever “as condições em que o entendimento ocorre” (p. 263).

A relação inerente entre o livro de Josué e as circunstâncias sociais dos leitores garante que a interpretação sempre mudará com o tempo, uma vez que o horizonte ou ponto de encontro entre o texto e diferentes leitores nunca é o mesmo. Interpretações recentes exploram o impacto do livro ao longo da história ocidental, desde o período antigo, passando pelo medieval, até chegar no cenário contemporâneo.

Begg fornece uma interpretação abrangente da recepção de Josué no período antigo, focando particularmente na interpretação de Raab (2005a), a queda de Jericó (2005b) e as campanhas de Josué (2007) em Josefo, bem como a reescrita de Josué no Pseudo-Fílon (2012). Corley dedica dois estudos à interpretação de Josué no Eclesiástico, o primeiro explorando a função de Josué como guerreiro (2010) e o segundo comparando a interpretação de Josué e Samuel (2011). Earl (2010) fornece um extenso exame da interpretação de Josué feita por Orígenes. Nissan (2011) interpreta Josué no Pseudo Ben-Sira. Schnocks (2012) visa a função de Josué no livro dos Macabeus e Avemarie (2007) fornece um estudo mais amplo de Josué em todo o judaísmo antigo. Koch (2012) e de Vos (2012) focalizam a interpretação de Josué em o Novo Testamento. Noort (2006) também traça a história da recepção de Josué por meio de Josefo e do Pseudo-Fílon, mas depois amplia para incluir as Crônicas Samaritanas, onde o oponente de Josué o descreve como um “lobo voraz”.

A influência de Josué na tradição ocidental posterior também é objeto de estudo. Elssner (2008) resume a influência da guerra em Josué em autores do período antigo (por exemplo, Eclesiástico e Macabeus), mas também estende o estudo para incluir os primeiros cristãos (por exemplo, Clemente, Justino Mártir, Orígenes, Agostinho), os medievais (por exemplo, Tomás de Aquino) e autores renascentistas (por exemplo, Hugo Grotius). Houtman (2009) traça o uso de Josué em pensadores livres ateus, como Jean Meslier (1664-1729), que cita a violência no livro para repudiar o cristianismo. Noort (2007a, 2007b) concentra-se na história de Josué parando o sol (Josué 10) para descrever o conflito entre as cosmovisões heliocêntricas e geocêntricas que entram em foco com a publicação do De Revolutionibus de Copérnico (1508) e a reescrita de Josué no oratório de Händel sobre Josué (1747).

O impacto de Josué na guerra e nas reivindicações de terras é forte em escritores contemporâneos. O padre palestino Ateek (2006) critica o uso de Josué nas reivindicações israelenses de terra. Rohde (2012) avalia a teologia do pastor palestino Mitri Raheb no que diz respeito às reivindicações contemporâneas da “terra sagrada”. Havrelock (2007b) avalia o papel do rio Jordão como uma fronteira nas mitologias de pátria israelense e palestina contemporâneas. Wacker (2012) avalia o papel de Josué na liderança de Davi Ben-Gurion, enquanto Warrior (2006) avalia criticamente a aplicação do mito da conquista em Josué à experiência americana de posse da terra do ponto de vista de um nativo americano.

 

Obras coletivas e comentários recentes

Este resumo da pesquisa sobre Josué está limitado à última década (2006– 2016). Noort fornece um resumo exaustivo da pesquisa sobre Josué em Das Buch Josua: Forschungsgeschichte und Problemfelder (1998). Este estudo é complementado com uma revisão da pesquisa até o presente no artigo, “Josua im Wandel der Zeiten: Zu Stand und Perspektiven der Forschung am Buch Josua” (2012). O artigo fornece a introdução para uma obra coletiva sobre Josué no volume The Book of Joshua (2012).

A última década também incluiu um número significativo de comentários sobre Josué que variam tanto na metodologia quanto no público-alvo. Os comentários são listados em ordem cronológica de publicação.

Abadie (2005) fornece um estudo histórico-crítico de Josué, avaliando a historicidade e os desafios teológicos do livro, especialmente no que diz respeito à violência.

Knauf (2008) escreveu uma análise completa da história da composição do livro, do período monárquico tardio ao helenístico, juntamente com uma interpretação das mudanças no cenário social e do público-alvo de cada revisão.

Robert L. Hubbard Jr. (2009) escreve para um público evangélico em geral, com o objetivo de traduzir a mensagem chocante de violência no livro de uma forma que possa falar sobre a vida de fé hoje.

Pitkänen (2010) investiga os antecedentes históricos de Josué com foco nas evidências arqueológicas que auxiliam na interpretação da conquista israelita.

Hawk (2010) lê Josué como um espelho da experiência humana em geral, um mito das origens, e como uma história que influencia o mito norte-americano do destino manifesto.

Earl (2010) faz um comentário genérico sobre Josué, com o objetivo mais de recuperar a leitura de Orígenes do que fornecer uma nova leitura.

McConville e Williams (2010) fornecem uma interpretação cristã de Josué, colocando sua história violenta no contexto mais amplo do cânone cristão e da teologia cristã.

Rösel (2011) resume uma vida inteira de pesquisas sobre Josué em um comentário histórico-crítico.

Matties (2012) aborda a mensagem violenta de Josué propondo uma conversa teológica.

Butler (2014) apresenta uma revisão exaustiva da pesquisa sobre Josué nesta reedição em dois volumes de seus primeiros trabalhos (1983). Embora o público-alvo sejam leitores evangélicos, o exame cuidadoso do texto irá beneficiar a todos.

Dozeman (2015) explora a relação entre a crítica textual e literária na evolução do livro de Josué, prestando especial atenção à mudança de apresentação da violência na história textual do livro.

Laughlin (2015) revê a história da interpretação e da arqueologia para condenar a ideologia violenta do livro de Josué.

Literatura Deuteronomista 2021

Lecionar Literatura Deuteronomista é um desafio e tanto. Enquanto as questões da formação do Pentateuco são discutidas há séculos, a noção da existência de uma Obra Histórica Deuteronomista (= OHDtr) só foi formulada muito recentemente, como se pode ver aqui.

Além disso, há dois problemas com a disciplina: carga horária exígua para estudar textos de livros tão complexos como, por exemplo, Josué ou Juízes – a disciplina tem apenas 2 horas semanais durante o primeiro semestre do segundo ano de Teologia – e uma bibliografia ainda insuficiente em português. Há excelente debate acadêmico hoje, contudo está em inglês e alemão, principalmente.

Para completar, prefiro estudar o livro do Deuteronômio aqui e não no Pentateuco, também por duas razões: a disciplina Pentateuco já é por demais sobrecarregada e o Deuteronômio é a chave que abre o significado da OHDtr. Por isso, ele faz muito sentido aqui.

Por outro lado, há uma integração muito grande da Literatura Deuteronomista com três outras disciplinas bíblicas: com a História de Israel, naturalmente; com a Literatura Profética, irmã gêmea; com o Pentateuco, através do elo deuteronômico.

I. Ementa
A Obra Histórica Deuteronomista (OHDtr) tentará responder aos desafios do presente repensando o passado no final da monarquia e na situação de exílio e pós-exílio. Faz isso percorrendo toda a história da ocupação da terra, desde as vésperas da entrada em Canaã até a derrocada final da monarquia em Israel e Judá.

II. Objetivos
Pesquisar a arquitetura, as ideias basilares e a teologia da Literatura Deuteronomista como uma obra globalizante, e de cada um de seus livros, a fim de dar fundamentos para sua interpretação e atualização.

III. Conteúdo Programático
1. O contexto da Obra Histórica Deuteronomista
2. O Deuteronômio
3. O livro de Josué
4. O livro dos Juízes
5. Os livros de Samuel
6. Os livros dos Reis

IV. Bibliografia
Básica
FINKELSTEIN, I. ; SILBERMAN, N. A. A Bíblia desenterrada: A nova visão arqueológica do antigo Israel e das origens dos seus textos sagrados. Petrópolis: Vozes, 2018.

RÖMER, T. A chamada história deuteronomista: Introdução sociológica, histórica e literária. Petrópolis: Vozes, 2008.

SKA, J.-L. Introdução à leitura do Pentateuco: chaves para a interpretação dos cinco primeiros livros da Bíblia. 3. ed. São Paulo: Loyola, 2014.

Complementar
DA SILVA, A. J. O Código Deuteronômico: levantamento de dados. Post publicado no Observatório Bíblico em 25.06.2020.

DA SILVA, A. J. O contexto da Obra Histórica Deuteronomista. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 88, p. 11-27, 2005. Disponível na Ayrton’s Biblical Page. Última atualização: 28.01.2020.

GONZAGA DO PRADO, J. L. A invasão/ocupação da terra em Josué: duas leituras diferentes. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 88, p. 28-36, 2005.

LIVERANI, M. Para além da Bíblia: história antiga de Israel. São Paulo: Loyola/Paulus, 2008.

STORNIOLO, I. Como ler o livro do Deuteronômio: escolher a vida ou a morte. 5. ed. São Paulo: Paulus, 1997.

Literatura Profética II 2021

A Literatura Profética II é continuação da Literatura Profética I. A carga horária semanal é de 2 horas, no segundo semestre do segundo ano de Teologia.

Ementa
A disciplina aborda os profetas mais significativos de Israel desde o final do reino de Judá até a reconstrução pós-exílica na época persa. Cada um é tratado no seu contexto, nas características de sua atuação e textos escolhidos são lidos.

II. Objetivos
Coloca em discussão as características e a função do discurso profético e confronta os textos dos profetas com o contexto da época, possibilitando ao aluno uma leitura atualizada e crítica dos textos proféticos em confronto com a realidade contemporânea e suas exigências.

III. Conteúdo Programático
1. Jeremias
2. Ezequiel
3. Dêutero-Isaías (Is 40-55)
4. Ageu
5. Zacarias 1-8
6. Trito-Isaías (Is 56-66)

IV. Bibliografia
Básica
MESTERS, C. O profeta Jeremias: um homem apaixonado. São Paulo: Paulus/CEBI, 2016.

SCHÖKEL, L. A.; SICRE DÍAZ, J. L. Profetas 2v. 2. ed. São Paulo: Paulus, vol. I: 2004 [3. reimpressão: 2018]; vol. II: 2002 [4. reimpressão: 2015].

SICRE DÍAZ, J. L. Introdução ao profetismo bíblico. Petrópolis: Vozes, 2016.

Complementar
DA SILVA, A. J. Perguntas mais frequentes sobre o profeta Jeremias. Disponível na Ayrton’s Biblical Page. Última atualização: 31.07.2019.

DA SILVA, A. J. Superando obstáculos nas leituras de Jeremias. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 107, p. 50-62, 2010. Disponível na Ayrton’s Biblical Page. Última atualização: 03.12.2020.

NAKANOSE, S. et alii Como ler o Terceiro Isaías (56-66): novo céu e nova terra. São Paulo: Paulus, 2004 [4. reimpressão: 2019].

WIÉNER, C. O profeta do novo êxodo: o Dêutero-Isaías. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997.

WILSON, R. R. Profecia e sociedade no antigo Israel. 2. ed. revista. São Paulo: Targumim/Paulus, 2006.

Literatura Profética I 2021

Abordarei agora a Literatura Profética I, que é estudada no primeiro semestre do segundo ano de Teologia, com carga horária semanal de 2 horas. A Literatura Profética I trabalha, além de questões globais do profetismo, uma seleção de textos dos profetas do século VIII a.C. O texto que orienta a maior parte do estudo é o meu livro A Voz Necessária: encontro com os profetas do século VIII a.C. Os profetas dos séculos seguintes são estudados na Literatura Profética II, que vem logo no semestre seguinte.

I. Ementa
A disciplina apresenta, como ponto de partida, uma discussão sobre as origens, o teor e os limites do discurso profético israelita. Busca compreender a necessidade da profecia como resultado da ruptura provocada pelo surgimento do Estado monárquico que pressiona as tradicionais estruturas tribais de solidariedade. Aborda, em seguida, os profetas do século VIII a.C.: Amós, Oseias, Isaías 1-39 e Miqueias. Cada um é tratado no seu contexto, nas características de sua atuação e textos escolhidos são lidos. Procura-se identificar em cada um deles a sua função de crítica e de oposição ao absolutismo do Estado classista, em nome da fé em Iahweh, que exige um posicionamento solidário em favor dos mais fracos.

II. Objetivos
Coloca em discussão as características e a função do discurso profético e confronta os textos dos profetas do século VIII a.C. com o contexto da época, possibilitando ao aluno uma leitura atualizada e crítica dos textos proféticos em confronto com a realidade contemporânea e suas exigências.

III. Conteúdo Programático
1. A origem do movimento profético em Israel
2. O teor do discurso profético
3. Os profetas do século VIII a.C.
3.1. Amós
3.2. Oseias
3.3. Isaías 1-39
3.4. Miqueias

IV. Bibliografia
Básica
DA SILVA, A. J. A Voz Necessária: encontro com os profetas do século VIII a.C. São Paulo: Paulus, 1998. Atualizado em 2011 e disponível para download na Ayrton’s Biblical Page.

SCHÖKEL, L. A.; SICRE DÍAZ, J. L. Profetas 2v. 2. ed. São Paulo: Paulus, vol. I: 2004 [3. reimpressão: 2018]; vol. II: 2002 [4. reimpressão: 2015].

SICRE DÍAZ, J. L. Introdução ao profetismo bíblico. Petrópolis: Vozes, 2016.

Complementar
DA SILVA, A. J. Notas sobre a pesquisa do livro de Oseias no século XX. Disponível na Ayrton’s Biblical Page. Última atualização: 03.12.2020.

DA SILVA, A. J. Perguntas mais frequentes sobre o profeta Amós. Disponível na Ayrton’s Biblical Page. Última atualização: 31.07.2019.

DA SILVA, A. J. Perguntas mais frequentes sobre o profeta Isaías. Disponível a Ayrton’s Biblical Page. Última atualização: 24.12.2019.

SCHWANTES, M. A terra não pode suportar suas palavras“ (Am 7,10): reflexão e estudo sobre Amós. São Paulo: Paulinas, 2012.

SICRE, J. L. Com os pobres da terra: a justiça social nos profetas de Israel. São Paulo: Academia Cristã/Paulus, 2015.

Pentateuco 2021

A disciplina Pentateuco é estudada no segundo semestre do primeiro ano, com carga horária de 4 horas semanais. Há uma profunda crise nesta área de estudos, muito semelhante à crise da História de Israel. A teoria clássica das fontes JEDP do Pentateuco, elaborada no século XIX por Hupfeld, Kuenen, Reuss, Graf e, especialmente, Wellhausen, vem sofrendo, desde meados da década de 70 do século XX, sérios abalos, de forma que hoje muitos pesquisadores consideram impossível assumir, sem mais, este modelo como ponto de partida. O consenso wellhauseniano foi rompido, contudo, ainda não se conseguiu um novo consenso e muitas são as propostas hoje existentes para explicar a origem e a formação do Pentateuco.

I. Ementa
Oferece ao aluno um panorama da pesquisa exegética na área da formação e composição dos cinco primeiros livros da Bíblia e estuda os seus principais textos.

II. Objetivos
Familiariza o aluno com as tradições históricas de Israel e com as mais recentes pesquisas na área do Pentateuco para que o uso do texto na prática pastoral possa ser feito de forma consciente.

III. Conteúdo Programático
1. Novos paradigmas no estudo do Pentateuco

2. O Decálogo: Ex 20,1-17 e Dt 5,6-21

3. A criação: Gn 1,1-2,4a e Gn 2,4b-25

4. O pecado em quatro quadros: Gn 3,1-24

5. O dilúvio: Gn 6,5-9,19

6. A cidade e a torre de Babel: Gn 11,1-9

7. As tradições patriarcais: Gn 11,27-37,1

8. O êxodo do Egito: Ex 1-15

IV. Bibliografia
Básica
MESTERS, C. Paraíso terrestre: saudade ou esperança? 20. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.

SKA, J.-L. Introdução à leitura do Pentateuco: chaves para a interpretação dos cinco primeiros livros da Bíblia. 3. ed. São Paulo: Loyola, 2014.

VOGELS, W. Abraão e sua lenda: Gn 12,1-25,11. São Paulo: Loyola, 2000.

Complementar
DA SILVA, A. J. Histórias de criação e dilúvio na antiga Mesopotâmia. Disponível na Ayrton’s Biblical Page. Última atualização: 10.01.2018.

DA SILVA, A. J. Leis de vida e leis de morte: os dez mandamentos e seu contexto social. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 9, p. 38-51, 1986. Disponível na Ayrton’s Biblical Page. Última atualização: 27.08.2020.

DA SILVA, A. J. Novos paradigmas no estudo do Pentateuco. Disponível na Ayrton’s Biblical Page. Última atualização: 03.12.2020.

GRUEN, W. et al. Os dez mandamentos: várias leituras. 2. ed. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 9, 1987.

SKA, J.-L. O canteiro do Pentateuco: problemas de composição e de interpretação/aspectos literários e teológicos. São Paulo: Paulinas, 2016.

Uma introdução ao Antigo Testamento por Billon

BILLON, G. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2020, 160 p. – ISBN 9786555040265.BILLON, G. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2020

Trata-se de uma verdadeira “caixa de ferramentas” que ajudará o leitor a fazer uma leitura sistemática e esclarecida dos livros da Bíblia. Cada volume desta coleção “Mon ABC de la Bible” identifica o autor, ou autores, de determinado livro bíblico ou de um conjunto de escritos, apresenta seu contexto histórico, cultural e redacional, analisa-o literariamente, mostra sua estrutura, resume-o, aborda seus grandes temas, estuda sua recepção, influência e atualidade, e fornece um léxico de lugares e pessoas, tabelas cronológicas, mapas e bibliografia. O original francês é de 2018.

Gérard Billon é professor no Institut Catholique de Paris, presidente da Aliança Bíblica Francesa e diretor do Serviço Bíblico Evangelho e Vida e da revista Cahiers Évangile.

Gérard Billon

C’est Gérard Billon, prêtre, enseignant à l’Institut catholique de Paris, président de l’Alliance biblique française, directeur du Service biblique Évangile et Vie et de la revue Cahiers Évangile, qui se fait ici votre guide pour entrer dans l’Ancien Testament. Identification de l’auteur ou des auteurs, contexte scripturaire, historique, culturel et rédactionnel, analyse littéraire, structure et résumé, examen détaillé des grands thèmes, étude de la réception, de l’influence et de l’actualité, lexiques des lieux et des personnes, chronologie, cartes géographiques, bibliographie : les plus grands spécialistes de l’Écriture se font votre tuteur. “Mon ABC de la Bible”, ou la boîte à outils d’une lecture informée et vivante du Livre des Livres.

Gênesis 12-35 à luz da nova crítica do Pentateuco

Este livro está esgotado. A primeira edição em francês é de 1989. A tradução brasileira da primeira edição foi publicada pela Vozes em 1996. A segunda edição em francês e a brasileira são de 2002.

Como nasceu este livro? Em 1986-1987, as Faculdades de Teologia de Friburgo, Genebra, Lausanne e Neuchâtel, na Suíça, organizaram um ciclo de estudos sobre o Pentateuco, com a participação de pesquisadores de outros países. Dele saiu um panorama sobre o assunto que é, ao mesmo tempo, questionamento e ponto de partida para novos estudos.

Costumo usar trechos dele com meus alunos nas aulas de Pentateuco, no Primeiro Ano de Teologia. Eis um deles.

 

DE PURY, A. A tradição patriarcal em Gênesis 12-35. In DE PURY, A. (org.) O Pentateuco em questão: as origens e a composição dos cinco primeiros livros da Bíblia à luz das pesquisas recentes. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 206-216.

Na situação atual, criada pela “nova crítica do Pentateuco”, torna-se cada vez mais evidente que o único ponto de ancoragem mais ou menos seguro na cronologia da DE PURY, A. (org.) O Pentateuco em questão: as origens e a composição dos cinco primeiros livros da Bíblia à luz das pesquisas recentes. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2002literatura do Antigo Testamento se encontra na historiografia deuteronomista (DtrG), um conjunto literário que abrange todos os livros a começar pelo Deuteronômio até o Segundo Livro dos Reis. (…) A obra historiográfica dtr começa, em Dt 1-4, por um grande discurso de Moisés no qual são recapituladas as etapas da história de Israel desde a saída do Egito até as vésperas da conquista. No quadro do consenso “clássico” sempre se achou que esta recapitulação se referia ao relato dos livros do Gênesis (no que trata da promessa feita aos pais), do Êxodo e dos Números, por conseguinte um relato que se pressupunha existir. Ora, Martin Rose (Deuteronomist und Jahwist. Untersuchungen zu den Berührungspunkten beider Literaturwerke, Zürich, 1981) conseguiu tornar verossímil uma outra hipótese, a saber, que os relatos de Gênesis a Números foram compostos precisamente para dar a esse discurso seu ponto de referência literário: os livros de Gênesis a Números seriam portanto posteriores a DtrG [sublinhado meu]. Este tese teve uma confirmação recentemente num estudo de Thomas Römer (Israel Väter. Untersuchungen zur Väterthematik im Deuteronomium und in der deuteronomistischen Tradition , Freiburg/Göttingen, 1990) que demonstrou que os “pais” aos quais se refere a historiografia dtr e o livro de Jeremias não são os patriarcas do Gênesis, mas as gerações que saíram do Egito [sublinhado meu]. Portanto não temos mais bases que nos permitam afirmar a existência, na época pré-exílica, de um conjunto literário relatando a história desde a criação do mundo até a entrada dos israelitas em Canaã.

Há muito tempo já se vinha notando a grande diferença – de tom, de “clima” religioso, de temática – entre o livro do Gênesis e os livros seguintes (cf. K. GALLING, Die Erwählungstraditionen Israels, Giesse, 1928). Assim, em Êxodo 3,8s, Deus promete a Moisés conduzir os israelitas para uma terra “onde corre leite e mel”, uma terra que ainda parece totalmente desconhecida, quando seria tão fácil referir-se à doação desta terra aos patriarcas. Mas as diferenças entre esses dois conjuntos literários são de fato bem mais profundas: enquanto em Gn 12-35 os heróis são ancestrais e a mediação com os ouvintes do relato passa pelo sangue – basta observar o número de episódios que colocam em jogo relações genealógicas – em Ex 1s os heróis são exclusivamente profetas (Moisés), ou sacerdotes (Aarão), e os israelitas se apresentam sob a forma de uma “massa” anônima. Assim, a diferença está na maneira de apresentar a intervenção divina: no Gênesis, Deus é um “patrão” bem próximo dos clãs que o veneram, ao passo que, a partir do livro do Êxodo ele se torna um chefe guerreiro e legislador. Seu “temperamento” toma uma feição muito mais agressiva. Mais ainda: Gn 12-35 e Ex 1- Dt 34 oferecem duas versões paralelas ou até rivais da entrada dos israelitas em Canaã [sublinhado meu]. Sobretudo a história de José (Gn 37-50) é um conjunto literário que hoje se considera em geral pós-exílico (cf., por exemplo, B. D. REDFORD, A Study of the Biblical Story of Joseph, Leiden, 1970), estabelecendo o vínculo entre esses dois grandes conjuntos.

Se procurarmos os ecos da tradição dos patriarcas na literatura bíblica fora do Pentateuco, o balanço será extremamente insignificante, pelo menos tratando-se da tradição de Abraão. É verdade que a tríade dos patriarcas aparece de vez em quando na literatura deuteronomista (Dt 1,8;6,10;9,5.27;29,12;30,20;34,4;1Rs 18,36; 2Rs 13,23; Jr 33,26); mas existem boas razões para atribuir essas menções aos últimos retoques harmonizantes dos editores bíblicos. As primeiras menções de Abraão se encontram nos textos exílicos de Ez 33,24 e de Is 51,1-2).

DE PURY, A. ; RÖMER, T. (orgs.) Le Pentateuque en question: Les origines et la composition de cinq premiers livres de la Bible à la lumière des recherches récentes. 2. ed. Genève: Labor et Fides, 2002.Esse novo “dado” das teorias sobre o Pentateuco incide decisivamente sobre o nosso enfoque dos relatos de Gn 12-35. Antes de mais nada, a reorganização da articulação entre Tetrateuco e DtrG tem como consequência estabelecer que a história dos três patriarcas é, em sua própria concepção, posterior a DtrG, portanto pós-exílica, e que doravante ela pertence à fase mais tardia da constituição do Pentateuco [sublinhado meu]. Mas isto não significa que no interior de Gn 12-35 tudo seja da mesma proveniência e que alguns de seus componentes não possam remontar a uma época muito mais antiga.

Entretanto, trata-se de distinguir entre os ciclos patriarcais. Quanto aos relatos de Abraão, tradicionalmente considerados como o reflexo da tradição mais arcaica da “era dos patriarcas”, a maioria deles poderia facilmente ser explicada como fragmentos de reflexão teológica que traduzem as preocupações das comunidades judaicas da época pós-exílica.

(…) O ciclo de Isaac, limitado ao capítulo 26, quase não oferece possibilidades de investigação quanto à eventual presença de tradições antigas.

Tratando-se do ciclo de Jacó, felizmente as coisas se apresentam sob um ângulo bem diferente, e isso por três razões:

  • Em muitos textos antigos, o povo de Israel é chamado pelo nome de Jacó (por ex. Mq 3,1; Am 7,2; Os 10,11). Esta identificação seria impossível se Jacó não representasse uma figura de ancestral.
  • Em Oseias 12, o profeta do século VIII faz alusão a toda uma série de episódios da vida de Jacó.
  • No livro do Gênesis, o ciclo de Jacó (Gn 25,19-34; 27-35)) é o único dos três que não se apresenta sob a forma de um conglomerado de episódios mais ou menos heterogêneos, mas reveste a estrutura de uma verdadeira gesta. Praticamente desprovido de todas as remissões a episódios situados a montante ou a jusante de seu contexto literário atual, o ciclo de Jacó não se apoia em nenhuma outra obra literária e assim garante sua existência autônoma. Portanto é possível pelo menos considerar a eventualidade de haver uma origem literária independente da constituição dos grandes conjuntos historiográficos do Antigo Testamento e, talvez, muito anterior a eles.

(…) Está bem claro portanto que existia, em meados do século VI, a tradição de um patriarca Abraão considerado eleito de Deus e ancestral do povo judeu, o primeiro a tomar posse da terra. Esta tradição já devia estar suficientemente gravada na consciência coletiva para ser conhecida tanto dos exilados como dos que haviam permanecido na terra. Quanto a saber que elementos dos relatos de Gn 12-24 já faziam parte desta tradição popular, e sob que forma, isto – como já vimos – é difícil determinar.

A tradição de Jacó encontra seu eco mais antigo no profeta Oseias, como já dissemos. (…) Se a tradição de Jacó reveste, no século VIII, a forma de uma gesta, será possível lançar sobre o ciclo de Jacó de Gn 12-35 um olhar novo? (…) Se podemos admitir – a partir do testemunho de Os 12 e da estrutura interna de Gn 25-35 – a existência de um ciclo de Jacó remontando pelo menos ao século VIII, que hipóteses podemos formular sobre a origem deste ciclo e, eventualmente, sobre seu “núcleo” histórico?

(…) Desde o momento em que abrange o relato do nascimento dos filhos de Jacó (na atual configuração, Gn 29,31-30,24, mas este texto talvez seja tardio), o ciclo de Albert de PuryJacó tem por função explicar as origens do povo de Israel e de sua entrada na terra de Canaã. Este relato das origens se basta a si mesmo e não exige qualquer sequência (nem história de José, nem saída do Egito etc). Oseias 12 nos mostra aliás que o profeta pretende opor à versão “patriarcal” das origens de Israel uma outra versão, “profética”: a da saída do Egito, que é colocada sob a égide de um profeta, e não de um ancestral (Os 12,14). Cabe a Israel escolher suas origens! Não sabemos se, à época de Oseias, os dois relatos de origem já haviam sido ligados, de uma ou de outra maneira, um ao outro. A verdade é que essas duas versões são concorrentes e que originalmente cada qual se bastava a si mesma [sublinhado meu].

* A maior parte das notas de rodapé foram omitidas. São 39 notas.

Albert de Pury, nascido em 1940, foi professor de Antigo Testamento de 1972 a 1984 na Universidade de Neuchâtel e de 1984 a 2005 na Universidade de Genebra, Suíça.

Sobre as tradições de Abraão em Gn 12-25

É difícil ser mais preciso. Essa declaração de ser incapaz de ser mais preciso sobre a data do javista (J) é o que esperaríamos de um pesquisador honesto. Talvez paradoxalmente, a manutenção de um certo grau de imprecisão possa contribuir para a obtenção de um consenso futuro neste campo. Esse consenso pode não ser satisfatório para aqueles que buscam exatidão, mas refletirá corretamente a natureza do assunto sob investigação, que é uma literatura antiga, cuja origem e desenvolvimento são, pelo menos parcialmente, obscurecidos por séculos de distância.

 

Alguns trechos de um artigo de Kris Sonek, Senior Lecturer at Catholic Theological College, University of Divinity, Melbourne, Austrália, sobre as narrativas em torno de Abraão e sua família em Gn 12-25.

O texto em português é uma tradução livre. O texto original, em inglês, vem em seguida, porém, sem as notas de rodapé, que podem ser conferidas no artigo, disponível em Academia.edu.

SONEK, K. Wrangling with Abraham: An Evaluation of Recent Studies on Genesis 12–25, Australian Biblical Review, Vol. 67, p. 17-29, 2019.

Australian Biblical ReviewO estudo da origem das tradições orais e escritas que deram origem ao surgimento do Gênesis no final da época persa ou no início da época helenística continua a preocupar muitos estudiosos. Embora abordagens interpretativas como leitura pós-colonial, leitura feminista ou hermenêutica ecológica estejam em voga, a leitura histórico-crítica tradicional e sua busca para identificar o contexto original do material bíblico continua a gerar interesse e controvérsia. No entanto, parece que os esforços dos estudiosos modernos para chegar a um consenso sobre a origem do Gênesis e do Pentateuco em geral não tiveram sucesso. Embora alguns autores tenham expressado a opinião de que um entendimento comum do processo histórico foi alcançado até o final do século XX, a atual multiplicação de teorias concorrentes e contraditórias lança uma longa sombra sobre o campo histórico, e muitos leitores modernos se voltam para outras metodologias na esperança de encontrar melhores respostas para suas perguntas.

As opiniões de John Van Seters sobre o javista (J) há muito dominam este campo, e alguns estudiosos as consideram muito convincentes. Outros, especialmente aqueles influenciados por argumentos propostos por Rolf Rendtorff e Erhard Blum, negam a existência do javista e explicam a origem e o crescimento do Pentateuco como resultado do trabalho pós-exílico de autores deuteronomistas e sacerdotais expandindo e editando material exílico e pré-exílico dos últimos anos da monarquia. Embora Reinhard G. Kratz esteja certo ao dizer que somente para o Sacerdotal e o Deuteronômio se pode sugerir uma base textual segura que seja capaz de obter um consenso, certamente gostaríamos de ver um nível mais alto de consenso entre os estudiosos que fazem uma abordagem histórico-crítica. Estabelecer o sentido literal das passagens de um escrito depende também de sua data. Portanto, se discordamos sobre a época de sua composição, dificilmente podemos propor uma exposição convincente de seu sentido literal.

Além do mais, a pesquisa recente de David M. Carr demonstrando a dificuldade de colocar as tradições de Abraão na linha do tempo leva à conclusão de que o sentido literal de Gênesis 12-25 pode ser verificado com apenas um grau limitado de probabilidade. Carr argumenta que o complexo de tradições abraâmicas constitui um exemplo primordial em que os textos da Bíblia Hebraica de significância teológica demonstrável são relativamente difíceis de colocar em um continuum cronológico neste tipo de história. Afinal, a questão de saber se esses textos e suas tradições orais subjacentes são pré ou pós-exílicos é crucial para estabelecer seu sentido literal. O trabalho dos neodocumentários, como Joel S. Baden, adiciona mais uma camada de incerteza a esta questão já discutida. Assim como a contribuição de Van Seters, as visões dos neodocumentários são internamente consistentes, mas sua incompatibilidade com teorias rivais leva à fragmentação da paisagem acadêmica histórico-crítica.

O caráter conjetural dos estudos histórico-críticos é outro fator que deve ser levado em consideração aqui. Richard E. Averbeck, por exemplo, diz que o livro sobre o Gênesis de Konrad Schmid tem muito especulação, o que dá a impressão de que o autor está moldando a leitura das passagens para se adequar à sua teoria, e não o contrário. Talvez Schmid não mereça essa crítica, mas os comentários de Averbeck certamente se aplicam a muitos estudos histórico-críticos do Pentateuco. Como resultado, as tentativas atuais de explicar a origem e o crescimento dos textos do Pentateuco são altamente especulativas. A pesquisa sobre a formação do Pentateuco leva a novas hipóteses sobre esse complicado processo, mas sem um consenso firme. Agora, por definição, os fatos nunca podem ser provados como falsos. São hipóteses que são constantemente revisadas e, se necessário, consideradas falsas. Isso é algo que precisamos ter em mente quando nos envolvemos com os estudos histórico-críticos modernos no contexto das narrativas de Abraão. Na maioria das vezes, lidamos com teorias altamente conjecturais, que podem ser testadas e avaliadas, mas nunca devem ser apresentadas como fatos.

(…)

Os comentários de John J. Collins sobre o material do Pentateuco são um bom exemplo a ser seguido, por serem muito cuidadosos. Ele diz que os debates recentes sobre o Pentateuco mostram que a reconstrução de formas anteriores do texto bíblico é um empreendimento altamente especulativo. Talvez a principal lição a ser aprendida é que esses textos são de fato compostos e incorporam camadas de diferentes épocas. Carr também é cauteloso quando se trata de datar as camadas textuais das narrativas de Abraão. Ele admite que seu trabalho visa mais modéstia metodológica do que caracterizou muitas reconstruções anteriores do desenvolvimento de textos na Bíblia Hebraica. Ele então especula que as tradições de Abraão em Gênesis 12-25 podem ser pré-exílicas, mas ele também afirma que é difícil atribuir datas específicas a essas tradições misturadas e fortemente editadas. Em outras palavras, Carr afirma que, na maioria das vezes, temos que trabalhar com uma aproximação do processo histórico ao invés de tentar estabelecer seus detalhes exatos.

Mesmo um breve levantamento do campo histórico-crítico sugere que os estudiosos devem examinar sua metodologia para evitar construir um argumento com base em pressuposições questionáveis. Teorias baseadas em suposições implausíveis ou não comprovadas podem ser elaboradas ou podem parecer novas, mas seu valor real é limitado. Tenho a forte convicção de que os estudos literários modernos e a hermenêutica bíblica fornecem uma orientação excelente a esse respeito. Dado que os estudos bíblicos sempre refletiram a crítica secular até certo ponto, como Barton convincentemente argumenta, os estudiosos da Bíblia podem aprender com os críticos literários sobre os pontos fortes e as limitações de seu método. T. S. Eliot escreve em The Varieties of Metafysical Poetry que devemos sempre ser tão exatos e claros quanto possível – tão claros quanto o assunto permite. E quando o assunto é literatura, a clareza além de um determinado ponto torna-se falsificação. Esta é uma restrição muito importante à atividade de crítica literária. Quando um assunto é vago por natureza, a clareza deve consistir, não em torná-lo tão claro a ponto de ser irreconhecível, mas em reconhecer a sua imprecisão.

Parece que John A. Emerton encontra o equilíbrio certo entre ser exato e reconhecer as limitações de seu assunto quando resume sua investigação da data do javista: “Se minha hipótese de que a matriz da escrita da história israelita pode ter sido a tradição literária vista nas inscrições semíticas do noroeste dos séculos nono ao sétimo, a composição do javista (J) pode ser plausivelmente associada a ela. É difícil ser mais preciso ” (p. 128). Essa declaração de ser incapaz de ser “mais preciso” é o que esperaríamos de um pesquisador honesto. Talvez paradoxalmente, a manutenção de um certo grau de imprecisão possa contribuir para a obtenção de um consenso futuro neste campo. Esse consenso pode não ser satisfatório para aqueles que buscam exatidão, mas refletirá corretamente a natureza do assunto sob investigação: literatura antiga cuja origem e desenvolvimento são, pelo menos parcialmente, obscurecidos por séculos de distância.

 

Algum autores citados no texto

BADEN, J. S. The Composition of the Pentateuch: Renewing the Documentary Hypothesis. New Haven: Yale University Press, 2012.

BARTON, J. Reading the Old Testament: Method in Biblical Study. London: Darton Longman & Todd, 1984.

BLUM, E. Die Komposition der Vätergeschichte. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag, 1984; Studien zur Komposition des Pentateuch. Berlin: Walter de Gruyter, 1990.

CARR, D. M. The Formation of the Hebrew Bible: A New Reconstruction. New York: Oxford University Press, 2011.

COLLINS, J. J. Introduction to the Hebrew Bible. Minneapolis: Augsburg Fortress, 2004.

DOZEMAN, T. B.; SCHMID, K. (eds.) A Farewell to the Yahwist? The Composition of the Pentateuch in Recent European Interpretation. Atlanta: Society of Biblical Literature, 2006.

EMERTON, J. A. The Date of the Yahwist. In: DAY, J. (ed.) In Search of Pre-Exilic Israel: Proceedings of the Oxford Old Testament Seminar. London: T&T Clark, 2004, p. 107–129.

KRATZ, R. G. The Growth of the Old Testament. In: ROGERSON, J. W. ; LIEU, J. M. (eds.) The Oxford Handbook of Biblical Studies. Oxford: Oxford University Press, 2006, p. 459–488.

RENDTORFF, R. Das überlieferungsgeschichtliche Problem des Pentateuch. Berlin: Walter de Gruyter, 1977. Tradução inglesa: The Problem of the Process of Transmission in the Pentateuch. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1990.

SCHMID, K. Genesis and the Moses Story: Israel’s Dual Origins in the Hebrew Bible. Winona Lake: Eisenbrauns, 2010.

SONEK, K. The Abraham Narratives in Genesis 12–25. Currents in Biblical Research, Volume 17, Issue 2, February 2019, p. 158-183.

VAN SETERS, J. Abraham in History and Tradition. New Haven: Yale University Press, 1975 e Brattleboro, VT: Echo Point Books & Media, 2014.

VAN SETERS, J. Prologue to History: The Yahwist as Historian in Genesis. Louisville, Kentucky: Westminster John Knox, 1992.

VAN SETERS, J. The Pentateuch: A Social-Science Commentary. 2. ed. London: Bloomsbury T & T Clark, 2015.

 

Recomendo a leitura de:

SONEK, K. The Abraham Narratives in Genesis 12–25, Currents in Biblical Research, Vol. 17(2), p. 158­–183, 2019.

 

 

The study of the origin of the oral and written traditions which gave rise to the emergence of Genesis in the late Persian or early Hellenistic periods continues to preoccupyKris Sonek many scholars. Though such interpretative approaches as postcolonial criticism, feminist criticism, or ecological hermeneutics are in vogue, the traditional historical criticism and its quest to identify the original context of the scriptural material continues to generate both interest and controversy. Nevertheless, it seems that the efforts of modern scholars to reach a consensus on the origin of Genesis, and the Pentateuch in general, have been largely unsuccessful. Though some authors have expressed the view that a common understanding of the historical process was achieved by the end of the twentieth century, the current multiplication of competing and contradictory theories casts a long shadow on the historical field, and many modern readers turn to other methodologies in the hope of finding better answers to their questions.

John Van Seter’s views on the Yahwist have long dominated this field, and some scholars have found them very convincing. Others, especially those influenced by arguments proposed by Rolf Rendtorff and Erhard Blum, deny the existence of the Yahwist, and explain the origin and growth of the Pentateuch as a result of the post-exilic work of Deuteronomistic and Priestly authors expanding and editing exilic and late pre-exilic material. While Reinhard G. Kratz is right in saying that “only for the Priestly Writing and Deuteronomy can one suggest a sure textual basis that is capable of gaining a consensus,” [Kratz, 2006, p. 482] we would certainly like to see a higher level of consensus among historical scholars. Establishing the literal sense of scriptural passages depends on their dating. Hence if we disagree about the time of their composition, we can hardly propose a convincing exposition of their literal sense.

What is more, David M. Carr’s recent research demonstrating the difficulty of placing the Abraham traditions on the timeline leads to the conclusion that the literal sense of Genesis 12–25 can be ascertained with only a limited degree of probability. Carr argues: “Overall, the complex of Abrahamic traditions constitutes a prime instance where texts in the Hebrew Bible of demonstrable theological significance are relatively difficult to place on a chronological continuum in this sort of history.” [Carr, 2011, p. 485] After all, the question of whether these texts and their underlying oral traditions are pre- or post-exilic is crucial for establishing their literal sense. The work of the “neo-documentarians,” such as Joel S. Baden, adds a further layer of uncertainty to this already moot issue. Like the contribution of Van Seters, the neo-documentarians’ views are internally consistent, but their incompatibility with rival theories leads to the fragmentation of the historical-critical academic landscape.

The conjectural character of historical-critical studies is another factor which needs to be taken into consideration here. Richard E. Averbeck comments on Konrad Schmid’s Genesis and the Moses Story: “There is a lot speculation in this book. One sometimes gets the impression that the author is shaping the reading of passages to fit his theory rather than the other way around” [Averbeck, 2011, p. 167]. I do not think that Schmid deserves this criticism, but Averbeck’s comments certainly apply to many historical-critical studies of the Pentateuch. As a result, the current attempts to explain the origin and growth of pentateuchal texts are highly speculative. The research on the formation of the Pentateuch leads to new hypotheses about this complicated process, but without any firm consensus. Now, by definition, facts can never be proved false. It is hypotheses that are constantly revised and occasionally falsified. This is something we need to keep in mind when we engage with modern historical-critical scholarship in the context of the Abraham narratives. More often than not, we deal with highly conjectural theories, which can be tested and evaluated, but should never be presented as facts.

(…)

By contrast, John J. Collins’s comments on the pentateuchal material are very circumspect: “Nonetheless, the recent debates about the Pentateuch show that the reconstruction of earlier forms of the biblical text is a highly speculative enterprise. Perhaps the main lesson to be retained is that these texts are indeed composite, and incorporate layers from different eras” [Collins, 2004, p. 63]. Carr is also cautious when it comes to dating the textual layers of the Abraham narratives. He admits that his work “is aiming for more methodological modesty than has characterized many prior reconstructions of the development of texts in the Hebrew Bible” [Carr 2011, p. 4]. He then speculates that the Abraham traditions in Genesis 12–25 may be pre-exilic, but he also states that it is difficult to assign specific dates to those mixed and heavily edited traditions. In other words, Carr declares that, more often than not, we have to work with an approximation of the historical process rather than trying to establish its exact details.

Even a brief survey of the historical-critical field suggests that scholars should examine their methodology to avoid building an argument on the basis of questionable presuppositions. Theories grounded in implausible or unproven assumptions may be elaborate or may sound novel, but their real value is limited. It is my strong conviction that modern literary studies and biblical hermeneutics provide excellent guidance in this respect. Given that “biblical studies have always mirrored secular criticism to some extent”, as Barton convincingly argues [Barton 1984, p. 204], the biblical guild may learn from literary critics about the strengths and limitations of their method. T. S. Eliot writes in The Varieties of Metaphysical Poetry: “One must always be as exact and clear as one can—as clear as one’s subject matter permits. And when one’s subject matter is literature, clarity beyond a certain point becomes falsification. This is a very important restriction on the activity of literary criticism. When a subject matter is in its nature vague, clarity should consist, not in making it so clear as to be unrecognisable, but in recognising the vagueness, where it begins and ends and the causes of its necessity, and in checking analysis and division at the prudent point.” [Eliot, 1993, p. 59-60]

It seems that John A. Emerton finds the right balance between being exact and recognizing the limitations of one’s subject matter when he summarizes his investigation of the date of the Yahwist: “If my hypothesis that the matrix of Israelite history writing was the literary tradition seen in North-West Semitic inscriptions of the ninth–seventh centuries is correct, then the composition of J may plausibly be associated with it. It is difficult to be more precise” [Emerton, 2004, p. 128]. This statement of being unable to be “more precise” is what we would expect from an honest scholar. Perhaps paradoxically, maintaining a certain degree of imprecision may contribute to achieving a future consensus in this field. That consensus may not prove satisfactory to those who seek exactitude, but it will correctly reflect the nature of the subject under investigation: ancient literature whose origin and development are, at least partially, obscured by centuries-long historical distance.

Deuteronômio: Escuta, Israel

O livro escolhido para estudo no Mês da Bíblia 2020 é o Deuteronômio e o lema é “Abre a tua mão para o teu irmão” (Dt 15,11).

KONINGS, J. ; SILVANO, Z. A. (orgs.) Deuteronômio: “Escuta, Israel”. São Paulo: Paulinas, 2020, 279 p. – ISBN 9788535646047.KONINGS, J. ; SILVANO, Z. A. (orgs.) Deuteronômio: "Escuta, Israel". São Paulo: Paulinas, 2020

A obra Deuteronômio: “Escuta, Israel” aborda o tema do mês da Bíblia deste ano de 2020. Organizado pelo biblista J. Konings e pela também biblista Zuleica Silvano, o livro contou com a colaboração de renomados especialistas no assunto, os quais abordaram, com clareza e competência, os vários aspectos desta importante obra. Com estilo dinâmico e simples, trata-se de uma obra indispensável para todos (as) que desejam se preparar melhor para o mês de Bíblia, e/ou para quem deseja conhecer melhor este importante texto que faz parte dos cinco primeiros livros da Bíblia, o Pentateuco.

A obra é fruto da reflexão do Grupo de Pesquisa “A Bíblia em Leitura Cristã”, da FAJE – Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, de Belo Horizonte, MG. O grupo é composto por professores, pesquisadores, mestres e doutores em Bíblia da FAJE, PUC Minas, ISTA, Fundação Dom Cabral e Faculdade Católica do Rio Grande do Norte.