A morte de Sargão II

Sargão II foi o primeiro e único rei do Império Assírio a cair no campo de batalha e não receber um enterro digno de um rei. Uma morte tão ignominiosa foi considerada uma enorme tragédia e um mau presságio. Acreditava-se que Sargão havia cometido algum pecado para que os deuses o abandonassem tão completamente.

ELAYI, J. Sargon II, King of Assyria. Atlanta: SBL, 2017, 298 p. – ISBN 9781628371772.ELAYI, J. Sargon II, King of Assyria. Atlanta: SBL, 2017, 298 p.

O capítulo 9 do livro, End of Reign [Fim do reinado] trata da inauguração de Dur-Sharrukkin (Khorsabad), a nova capital assíria construída por Sargão II a partir de 713 a.C., da morte suspeita do rei em batalha em 705 a.C. e, por último, do que foi considerado na época como o “pecado” de Sargão, que o levou a uma morte vergonhosa.

As notas de rodapé, de 49 a 85, foram omitidas (mas podem ser consultadas na obra, disponível para download gratuito no Projeto ICI da SBL).

Abaixo, trechos do capítulo 9, p. 210-217, sobre a morte e o “pecado” de Sargão II, rei da Assíria de 721 a 705 a.C.

 

As fontes sobre o fim do reinado de Sargão estão quase completamente ausentes; existem apenas quatro documentos.

O primeiro documento é a Crônica Babilônica, que está danificada nesta data, exceto pelas seguintes informações parcialmente restauradas: “[No décimo sétimo ano, Sarg]on [marchou] para Tabalu.”

O segundo é a Lista de Epônimos Assírios, que menciona, com algumas lacunas, para o ano 705, quando Nashur-bel, governador de Amidi, era epônimo: “o rei [ ] contra Gurdî, o Kulumeano; o rei foi morto; o acampamento do rei da Assíria [ ]; no dia 12 de Ab, Senaquerib [tornou-se] rei.”

O terceiro documento é um texto lacunar atribuído a Senaquerib, mencionando duas vezes a morte de Sargão: “a morte de Sargão, [meu pai, que foi morto no país inimigo] e que não foi enterrado em sua casa”; “[Sargão, meu pai] foi morto [no país inimigo e] não foi sepultado] em sua casa.”

O quarto documento é uma carta bastante danificada, relacionada à morte de um rei assírio, seguida de uma revolta; esses eventos podem ter ocorrido em Assur ou, menos provavelmente, em Nínive; o nome dos cimérios é parcialmente restaurado. A identidade do rei é incerta: Salmanasar V ou Sargão II, e o nome dos cimérios é uma restauração (…).

Uma coisa fica clara nos documentos: Sargão empreendeu uma campanha militar durante a qual foi morto.

No entanto, é difícil saber exatamente o que aconteceu, onde e, acima de tudo, por quê. Em algum lugar, aparentemente houve uma rebelião contra o jugo de Sargão, mas seria uma ameaça real ao Império Assírio? Seja qual for a causa, o rei da Assíria poderia ter enviado uma expedição militar para confrontar quem estivesse agindo contra ele, liderada por um de seus oficiais, como fez em outras ocasiões, por exemplo, contra Asdode em 711 ou contra Tiro em 709.

Mas Sargão era principalmente um rei guerreiro e não fazia campanha há vários anos. Khorsabad [a nova capital assíria*] era um lugar tranquilo, habitado por pessoas devotadas a ele e sem a oposição encontrada em Nimrud e na Babilônia, mas talvez a nova cidade fosse tranquila demais para ele, e ele estivesse entediado com tão pouco para fazer. Uma expedição militar teria sido uma distração.

O local onde Sargão foi morto tem sido debatido, assim como a identidade de seu inimigo. A Babilônia Meridional era uma proposta infundada. A hipótese da Média baseava-se numa semelhança entre Kulummâ e a cidade de Kuluman. Outra hipótese era a terra dos cimérios, KURGamir, na Transcaucásia central, baseada na restauração do nome “cimérios” nos documentos. A hipótese mais provável, adotada pela maioria dos estudiosos, com base na Crônica Babilônica, é Tabal [no sudeste da Ásia Menor].

O inimigo de Sargão que o venceu na batalha foi Gurdî (…) Quem era este “Gurdî, o Kulumeano”? Várias propostas foram feitas: ele poderia ter sido um líder tribal cimério, um governante de Til-Garimme na Anatólia, um governante tabaliano local ou o mesmo que Kurtî, rei de Atunna (…) No estado atual da documentação, é impossível fazer qualquer avanço adicional na identificação do Gurdî responsável pela morte de Sargão.

Os eventos parecem ter se desenrolado da seguinte forma: Sargão iniciou sua campanha contra Tabal por volta do início do verão de 705, com seu exército bem treinado. Embora o rei assírio não costumasse correr muitos riscos ao lutar, ele foi infelizmente morto durante a batalha contra Gurdî, o governante de Kulummâ. A partir dos documentos, sabemos apenas que ele não pôde ser enterrado em seu palácio, como era costume entre os reis assírios: isso significa que, por alguma razão desconhecida, foi impossível repatriar seu corpo. Várias hipóteses foram propostas, mas sem base suficiente: ou seu corpo não pôde ser descoberto ou havia sido cremado. Tudo o que sabemos é que Sargão foi morto antes que o acampamento assírio fosse vítima das tropas hostis.

O fato de o corpo do rei não ter sido recuperado para o sepultamento e para o culto fúnebre era considerado uma verdadeira maldição. Por exemplo, a fórmula colocada no final dos tratados internacionais era um lembrete desse imperativo. Os mortos insepultos tornavam-se um fantasma (eṭemmu) que retornava e assombrava os vivos até que uma solução fosse encontrada. Sargão foi considerado como tendo tido uma morte desonrosa. Como seu filho e sucessor, Senaquerib, reagiu?

Pode-se supor que ele tenha tentado encontrar o corpo do pai e se esforçado para vingar sua morte, talvez pela campanha de 704 contra os kulumeanos. No entanto, as inscrições de Senaquerib nunca mencionaram sua filiação, e ele não escreveu nem construiu nada em homenagem à memória de Sargão. Pode-se questionar se ele guardava rancor do pai, pois, embora fosse o príncipe herdeiro, nunca esteve associado às gloriosas campanhas de Sargão e foi obrigado a esperar dezessete anos antes de, por sua vez, tornar-se rei da Assíria.

Sargão II foi o primeiro e único rei do Império Assírio a cair no campo de batalha e não receber um enterro digno de um rei. Uma morte tão ignominiosa foi considerada uma enorme tragédia e um mau presságio. Acreditava-se que Sargão havia cometido algum pecado para que os deuses o abandonassem tão completamente.

Sua morte trágica provavelmente fortaleceu, do ponto de vista político e religioso, os oponentes de suas políticas babilônicas na Assíria. Seguidores da corrente nacionalista assíria tenderiam a acreditar que foi o “pecado” de Sargão que o levou a ser morto e não enterrado em seu palácio.

Há apenas um documento mencionando o pecado de Sargão: um texto literário complexo, com cerca de oitenta linhas no anverso e no reverso (K.4730), bastante danificado, além de um pequeno fragmento adicional (Sm.1876).

As primeiras interpretações deste texto foram baseadas em uma leitura equivocada de algumas passagens: por exemplo, não há relação com o motivo do rei insepulto em Isaías 14,4-20a, e o texto nunca menciona que o corpo de Sargão foi posteriormente recuperado após muita oposição por alguma razão desconhecida pelos sacerdotes e enterrado por Senaquerib com a pompa necessária. Segundo von Soden, o fato de a nova capital de Khorsabad ter sido abandonada imediatamente após a morte de Sargão provou que sua fundação representou o pecado de Sargão. No entanto, mesmo que a nova cidade estivesse condenada como capital assíria, ela não era desabitada, ao contrário do que foi dito; há vários atestados de um governador de Khorsabad durante os reinados de seus sucessores, por exemplo, Iddin-ahhe em 693, Nabû-belu-usur em 672 e Sharru-lu-dari em 664.

A leitura do texto K.4730 tem melhorado ao longo dos anos, permitindo progressos em sua interpretação, principalmente por Tadmor, Landsberger e Parpola [Tadmor, Hayim, Benno Landsberger, and Simo Parpola, “The Sin of Sargon and Sennacherib’s Last Will.” SAAB 3 (1989): 3–51], que verificaram as diferentes comparações e estudaram as fotografias, e por Lambert, que descobriu que o fragmento Sm.1876 pertencia à mesma tabuinha que K.4730.75.

Tabal entre os reinos neo-hititas no primeiro milênio a.C.Após uma lacuna de cerca de três linhas, Senaquerib se identificou, enfatizou sua piedade e seu desejo de se submeter à vontade dos deuses, por mais difícil que fosse. Ele contou a história de seu pai, Sargão, que, tendo ofendido os deuses de alguma forma, encontrou uma morte infame. Ele precisava determinar a natureza dessa ofensa por extispício** a fim de evitar cometer o mesmo pecado e ter o mesmo destino que Sargão.

Ele dividiu os arúspices em vários grupos, cada grupo aparentemente dando-lhe sua resposta de forma independente.

A passagem de sua investigação está danificada e foi restaurada da seguinte forma: “Será que foi porque [ele honrou] os deuses da Assíria em demasia, colocando-os] acima dos deuses da Babilônia […, e será que foi porque] ele não [cumpriu] o tratado do rei dos deuses [que Sargão, meu pai] foi morto [no país inimigo e] não foi sepultado em sua casa?”

A resposta dos arúspices foi unanimemente positiva. Pode-se entender que Sargão havia honrado seus próprios deuses às custas dos deuses da Babilônia, mas o texto não dava nenhuma ideia do tratado divino que ele violou, perturbando assim a ordem cósmica (…).

(…)

O que foi finalmente considerado como o “pecado” (hi-ṭu, l. 10’) ou os “pecados” (hi-ṭa-a-ti, l. 16’) de Sargão? Ele colocou o deus assírio Assur e outros deuses assírios, como Enlil, Nabu, Sin, Shamash e Adad, acima do deus babilônico Marduk, como pode ser visto em suas inscrições ao longo de todo o seu reinado. De acordo com este texto, a estátua inacabada de Marduk confirmaria a ideia de que Sargão honrava os deuses assírios em detrimento dos deuses da Babilônia.

(…)

Para os assírios, a enorme capital, Khorsabad, permaneceu como um testemunho da grandeza de Sargão, mas também era uma cidade amaldiçoada, um lembrete do terrível destino do rei devido ao seu pecado ou pecados incompreensíveis.

 

* A Assíria teve 4 capitais:
1. Assur: capital da Assíria desde o II milênio a.C. e cidade de grande importância religiosa ao longo de toda a sua história
2. Kalhu (Nimrud), escolhida como capital por Assurnasírpal (reinou de 883 a 859 a.C.)
3. Dur-Sharrukkin (Khorsabad), construída por Sargão II a partir de 713 a.C. (reinou de 721 a 705 a.C.)
4. Nínive, escolhida como capital por Senaquerib (reinou de 705 a 681 a.C.)

** O extispício ou hepatoscopia era o exame das entranhas, especialmente do fígado, de animais sacrificados para predizer ou adivinhar eventos futuros.

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