Quando li, em 1998, o livro de Philip R. Davies, In Search of ‘Ancient Israel’ [Em busca do ‘Antigo Israel’], minhas certezas sobre o antigo Israel desabaram. Este livro me deixou muito incomodado.
Em 1 de junho de 2018 morria Philip R. Davies, importante pesquisador na área bíblica, um dos autores mais criativos e questionadores da “Escola de Copenhague”. Philip R. Davies era professor emérito de Estudos Bíblicos na Universidade de Sheffield, Inglaterra.
Quero homenageá-lo, citando um trecho de uma entrevista que dei para Josué Berlesi sobre A História Antiga de Israel no Brasil e que foi publicada em Academia.edu em 2013. Nesta entrevista menciono a importância dos escritos de Philip R. Davies nos meus estudos de História de Israel.
Josué Berlesi:
Ao longo da sua trajetória profissional ocorreu alguma mudança na maneira de interpretar a história antiga de Israel? Em caso afirmativo, quais os pressupostos que você abandonou?
Airton:
Sim, ocorreu. No meu curso de graduação em Teologia na Universidade Gregoriana, em Roma, não tive uma disciplina específica nesta área. Porém no mestrado estudei com competentes professores do Instituto Bíblico, tendo me influenciado mais, em história, J. Alberto Soggin e, em arqueologia, Robert North. Minhas leituras nesta época passavam pelas escolas mais em evidência: a americana, com W. F. Albright e John Bright, a alemã, com A. Alt e Martin Noth, e os fascinantes estudos de R. de Vaux, da École Biblique de Jerusalém.
Como professor de História de Israel em Ribeirão Preto e Campinas, utilizei durante muitos anos, principalmente, os estudos de John Bright, J. Pixley, H. Donner, Norman K. Gottwald, R. de Vaux, M. Hengel, C. Saulnier, E. Schürer e Milton Schwantes.
O aparecimento do livro de GOTTWALD, N. K. The Tribes of Yahweh: A Sociology of the Religion of Liberated Israel 1250-1050 B.C.E. Maryknoll, New York: Orbis Books, 1979, que comecei a utilizar em 1986, ainda em inglês, já trouxe para mim uma mudança significativa de perspectiva quanto às origens de Israel.
Durante toda a década de 80 do século XX estive especialmente envolvido com os estudos sobre a helenização da Palestina. E isso foi muito bom, tendo produzido vários textos sobre a relação entre judaísmo e helenismo, sobre os instrumentos da helenização etc. Em geral, estão publicados na revista “Estudos Bíblicos“, da Vozes, como se pode ver em minhas publicações.
Mas quando li, em 1998, o livro de Philip R. Davies, In Search of ‘Ancient Israel’ [Em busca do ‘Antigo Israel’], minhas certezas sobre o antigo Israel desabaram. Este livro me deixou muito incomodado. O consenso, que eu ainda pensava existir, fora rompido. Afinal: quem é Israel e como surgiu esta entidade? O antigo Israel, de um dado aparentemente conhecido através dos relatos bíblicos, tornou-se um problema a ser abordado com outros recursos, como a arqueologia, a análise socioantropológica etc.
Eu me convenci, pouco a pouco, de que nós não podemos transferir automaticamente as características do ‘Israel’ bíblico para as páginas da história da Palestina. A paráfrase racionalista do texto bíblico que constituía a base dos manuais de ‘História de Israel’ não tinha mais como ser aceita acriticamente. O uso dos textos bíblicos como fonte para a ‘História de Israel’ passou, para mim, a ser uma fonte secundária. A arqueologia vem ampliando suas perspectivas e acredito que falar de ‘arqueologia bíblica’ hoje deva ser evitado: existe uma ‘arqueologia da Palestina’, ou uma ‘arqueologia da Síria/Palestina’ ou mesmo uma ‘arqueologia do Levante’.
Isto me fez partir para muitas e novas leituras. Infelizmente, a maioria em inglês ou alemão, inacessível para meus alunos ou, como percebi, desinteressante para muitos colegas biblistas ou até mesmo de aparência agressiva, pois desestabilizadora, para os teólogos sistemáticos com os quais eu trabalhava.
Mas foi assim que descobri o mundo dos brilhantes pesquisadores do Seminário Europeu de Metodologia Histórica, coordenado por Lester L. Grabbe, os estudos das
escolas de Sheffield e Copenhague, as buscas arqueológicas e históricas de Israel Finkelstein e de outros pesquisadores da Universidade de Tel Aviv, Israel, e por aí vai. O livro “The Bible Unearthed” [A Bíblia desenterrada], de Finkelstein/Silberman já estava sendo usado por mim em sala de aula apenas 3 meses após ser publicado em inglês em 2001.
A Internet, através de minha página e biblioblog, que criei, respectivamente, em 1999 e em 2005, me possibilitou diversificar leituras e trocar ideias com muita gente interessante nesta e em outras áreas afins em várias partes do mundo, ampliando meus horizontes. Ao mesmo tempo, levei a discussão para o nosso grupo de estudos que se reúne em Belo Horizonte, os “Biblistas Mineiros“. Produzimos algumas coisas para a revista “Estudos Bíblicos” e um livro publicado pela Vozes, que esgotou a primeira edição em tempo recorde.