A fundação de Jericó

Estou lendo o livro de MITHEN, S. After the Ice: A Global Human History, 20,000 – 5000 BC. London: Weidenfeld & Nicolson, 2011, 664 p. O livro foi publicado, em inglês, em 2003. Há uma tradução para o português, Depois do gelo, pela Imago, Rio de Janeiro, 2007.

Steven Mithen (nascido em 1960) é um arqueólogo britânico, conhecido por seu trabalho sobre a evolução da linguagem, música e inteligência, caçadores-coletores pré-históricos e as origens da agricultura. Ele é professor de Pré-história Inicial na Universidade de Reading, Reino Unido. Veja suas publicações.

Diz Steven Mithen no prefácio:MITHEN, S. After the Ice: A Global Human History, 20,000 - 5000 BC. London: Weidenfeld & Nicolson, 2011, 664 p.

Este livro é uma história do mundo entre 20000 e 5000 a.C. Foi escrito para aqueles que gostam de pensar no passado e desejam saber mais sobre as origens da agricultura, das cidades e da civilização. E também para os que pensam no futuro. O período em discussão foi o de aquecimento global, durante o qual surgiram novos tipos de plantas e animais — espécies domésticas que sustentaram a revolução agrícola (…)

Este livro faz perguntas simples sobre a história humana: o que aconteceu, quando, onde e por quê? Oferece respostas entremeando uma narrativa histórica com argumentos causais. Ao fazê-lo, atende também aos leitores que perguntarão: “como sabemos disso?” — muitas vezes uma pergunta muito apropriada quando os indícios arqueológicos parecem tão escassos. E After the Ice [Depois do Gelo] faz outro tipo de pergunta sobre o passado: como era viver em tempos pré-históricos? Qual era a experiência do dia a dia daqueles que viveram o aquecimento global, uma revolução agrícola e a origem da civilização?

Tentei escrever um livro que torne acessível a um vasto público os indícios da pré-história, mantendo ao mesmo tempo os mais altos níveis de erudição acadêmica.

E no capítulo 1, O nascimento da história, o autor explica:

A história humana começou em 50000 a.C. ou por aí. Talvez 100000 a.C., mas certamente não antes. A evolução humana tem um pedigree bem mais longo — pelo menos 3 bilhões de anos se passaram desde a origem da vida, e 6 milhões desde que nossa linhagem se cindiu à do chimpanzé. A história, desenvolvimento cumulativo de fatos e conhecimento, é assunto recente e surpreendentemente curta. Pouca coisa de importância aconteceu até 20000 a.C. — as pessoas apenas continuaram vivendo como caçadores-coletores, exatamente como vinham fazendo seus ancestrais por milhões de anos. Viviam em pequenas comunidades e jamais permaneciam muito tempo em um assentamento. Pintaram-se algumas paredes de cavernas e fizeram-se algumas armas de caça mais ou menos excelentes; mas não houve fatos que influenciassem o curso da história futura, que criassem o mundo moderno.

Então vieram uns espantosos 15 mil anos que testemunharam a origem da agricultura, das cidades e da civilização. Em 5000 a.C., as fundações do mundo moderno já se haviam estabelecido, e nada do que veio depois — a Grécia clássica, a Revolução Industrial, a era atômica, a Internet — jamais se igualou ao significado desses fatos. Se 50000 a.C. assinalou o nascimento da história, 20000 – 5000 a.C. foi a sua maioridade.

 

O capítulo 7 trata da Fundação de Jericó: arquitetura neolítica, enterro e tecnologia do Vale do Jordão, 9600 – 8500 a.C.

Transcrevo abaixo uma tradução deste capítulo. O estudo de Jericó faz parte, ainda que em sobrevoo, de meu programa de História de Israel. Mas sempre tive curiosidade de saber mais sobre a Jericó pré-histórica. Meu professor de arqueologia no PIB, Robert North, fez escavações em Ghassul e sempre falava com entusiasmo de Kathleen Kenyon, que escavou Jericó.

Steven Mithen (nascido em 1960)John Lubbock* está parado na sombra da noite das colinas palestinas, olhando um grupo de pequenas moradas redondas no vale embaixo. Possuem telhados planos de palha e se misturam com abrigos de palha, não diferentes dos que ele viu em Ohalo em 20000 a.C. Mas as casas agora são completamente novas. Salgueiros, choupos e figueiras cercam a aldeia, evidentemente alimentados por uma nascente local e crescendo exuberantes no novo mundo quente e úmido do Holoceno. Mais adiante, pântanos chegam até a beira do lago Lissan — conhecido hoje como Mar Morto.

Muitas árvores foram derrubadas para fornecer material de construção e criar pequenos campos para cevada e trigo. Se essas safras são biologicamente domésticas ou selvagens, parece inteiramente sem importância, uma vez que com certeza chegou o novo mundo da agricultura. A data é 9600 a.C. e John Lubbock olha para Jericó, aldeia que assinala uma virada na história do oeste asiático.

Minha primeira visão de Tell es-Sultan, a antiga Jericó, foi igualmente impressionante, mas menos pitoresca. Também eu fiquei parado à sombra das colinas palestinas, cerca de meio quilômetro a oeste do que se tornara um grande monte constituído por vários milênios de construções desmoronadas e detritos humanos, erodidos pelo sol, pelo vento e pela chuva. Muito a leste, faixas de brilhantes amarelos e deslumbrantes brancos do vale do Jordão ainda ardiam ao sol; imediatamente abaixo de mim, os prédios de blocos cinza-opaco da cidade palestina que hoje cerca o antigo sítio. Mas ali, no centro de minha visão, estava Tell es-Sultan, famosa como a “mais antiga cidade do mundo”. Parecia uma pedreira antiga, ou mesmo uma zona de bombardeio.

Isso, claro, era culpa da minha profissão — os arqueólogos que começaram a cavar o monte em 1867. Poucos anos depois, o Capitão Charles Warren fora procurar as muralhas derrubadas pelas trombetas de Josué e seus israelitas, acreditando que Tell es-Sultan era a antiga Jericó bíblica. Uma equipe de estudiosos alemães o seguiu entre 1908 e 1911, e depois John Garstang, da Universidade de Liverpool, na década de 1930. Mas foram as grandes escavações de Kathleen Kenyon, entre 1952 e 1958, que revelaram ao mundo a antiga Jericó[1].

Kathleen escreveu que “o oásis está quase como imaginamos o Jardim do Éden”[2]. As verdes árvores e a Terra agrícola arável que cercavam a Jericó para a qual eu olhava espalhavam-se por muitos quilômetros além do belo oásis que Kathleen vira. Irrigação moderna hoje leva água de ‘Ain es-Sultan — a nascente que deu origem à aldeia — a campos distantes no vale. Assim, usei a imaginação para abater aquelas árvores distantes e plantei muito mais palmeiras em torno do monte. Demoli as construções de concreto e blocos pré-moldados e plantei campos de milho no lugar. Depois armei um conjunto de tendas brancas que Kathleen usara no pé do monte. Uma vez erigidas, eu via um rio de trabalhadores deixando o monte ao fim do dia de trabalho, os arqueólogos e estudantes instalando-se para o chá, antes de começar a classificar as descobertas.

Esse foi o dia em que eles tiveram a primeira sugestão da mais antiga construção dentro do monte. A cidade da Idade do Bronze e a de edifícios retangulares do Neolítico Tardio já eram bem conhecidas. Mas nesse dia, que eu sabia ter sido em algum momento em 1956, “ficou claro”, Kathleen escreveria depois, “que estávamos penetrando numa diferente fase abaixo… os pisos eram de terra, não de gesso… as paredes eram curvas e as plantas das casas pareciam ser redondas”[3].

Sabemos que grupos de pessoas natufianas acamparam junto à nascente, porque ali se encontraram espalhados seus instrumentos em forma de meia-lua. Com toda probabilidade plantaram cereais, ervilhas, lentilhas, e conseguiram uma magra colheita antes de partirem para viver em outra parte no vale ou nas colinas.

Por volta de 9600 a.C., as secas de verão chegaram ao fim. Novas chuvas alimentaram os rios que se precipitaram pelas colinas palestinas; o Jordão começou a encher. Espessas camadas de solo rico e fértil foram depositadas no vale do Jordão por novas enchentes anuais, e estas foram irrigadas pela fonte que fluía com um vigor recém-descoberto. As safras cultivadas floresceram, muito provavelmente substituindo as plantas selvagens não cuidadas como principais fornecedoras de alimentos. Os natufianos tardios estenderam a duração de sua estada, até que a história se repetiu e a vida sedentária da aldeia renasceu longe das matas mediterrâneas preferidas pelos natufianos iniciais. E assim Jericó foi fundada, e com ela as pessoas se tornaram agricultores.

As pessoas continuaram a viver em Jericó até os dias atuais. A primeira aldeia foi sepultada sob casas, armazéns e santuários construídos por sucessivas gerações, as que usaram cerâmica, bronze, e depois entraram nos anais da história do Antigo Testamento. E assim um monte gigante foi criado pela nascente de ‘Ain es-Sultan, de 250 metros de comprimento e mais de 10 metros de altura. Consistia de paredes de adobe desmoronadas e camada sobre camada de pisos de casas e fossas de lixos; mas, além de detritos humanos, o monte continha os pertences perdidos e os túmulos ocultos de 10 mil anos de história humana.

Kathleen Kenyon (1906-1978) chegou a Jericó querendo aplicar o que para ela eram técnicas moderníssimas de escavação. Como Dorothy Garrod, que descobrira o natufiano, Kathleen foi uma das grandes arqueólogas britânicas do século XX. As duas venceram no que era em essência um mundo masculino. Kenyon estudou em Oxford durante a década de 1920 e, em seguida, dirigiu escavações na Inglaterra e na África. Atuou como diretora do Instituto de Arqueologia do University College, em Londres, durante a guerra, e acabou por tornar-se diretora do St. Hugh’s College, em Oxford. Recebeu muitas honrarias, que culminaram com a concessão do título de Dama do Império Britânico em 1973[4].

Seu objetivo em 1952 era explorar mais as fases finais da antiga cidade, aquelas relacionadas com a história bíblica, e descobrir os vestígios mais antigos, que julgava mais importantes e merecedores de “completa exploração”. Tinha toda razão. Isso se tornou evidente para o mundo em 1957, quando ela publicou uma história popular de seu trabalho, Digging Up Jericho [Desenterrando Jericó]. Os acadêmicos, porém, tiveram de esperar até o início da década de 1980 para que saíssem os volumes adequadamente enormes descrevendo a arquitetura, a cerâmica e a sequência-chave de camadas dentro do monte[5]. Infelizmente, Kathleen havia morrido alguns anos antes de sua publicação.

John Lubbock está agora dentro da aldeia, ajudando a construir uma casa de adobe. Há muita obra de construção em andamento, pois os abrigos de sapé são aos poucos substituídos por construções mais perenes. Com as chuvas de inverno confiáveis, safras produtivas e abundante caça selvagem dentro do vale, o povo de Jericó não precisa partir. Sempre que eles preferem passar várias semanas ou meses fora, visitando amigos e parentes ou em longas expedições de caça ou comércio, sabem que voltarão a Jericó. E assim estão dispostos a investir tempo e energia na construção de casas de adobe e na limpeza de campos. Uma vez construídas umas poucas casas, Jericó atraiu novos moradores dispostos a deixar seus grupos de caçadores-coletores e juntar-se ao novo estilo de vida de cultivar plantações.

Lubbock passou a manhã cavando argila do fundo do vale e transportando-a em um trenó de madeira para a aldeia; lá, ela é misturada com palha e cortada em tijolosA Torre de Jericó em Tell es-Sultan oblongos que são deixados para secar ao sol. Eles serão unidos com uma argamassa de lama para fazer as paredes de moradias redondas, cada uma com cerca de 5 metros de diâmetro e com pisos rebaixados. As paredes superiores serão construídas com gravetos e galhos, o teto com juncos untados com argila.

Nessa noite, depois de se banhar na fonte, Lubbock anda pela aldeia e conta nada menos que cinquenta moradas — algumas dispostas em torno de pátios para uso de grandes famílias, outras sós ou em grupos isolados. Há fogueiras dentro e fora, e um denso véu de fumaça paira entre os becos. As pessoas sentam-se em pátios, algumas trançando esteiras e cestos, outras trocando noticias e fazendo planos para o dia seguinte. Em 9600 a.C., é provável que haja mais de quinhentas pessoas vivendo em Jericó — talvez a primeira vez na história da humanidade que uma população completamente viável estava vivendo no mesmo lugar ao mesmo tempo.

Dentro de 500 anos, Jericó já se tornara ainda maior, com mais de setenta moradias, talvez com uma população de mil habitantes. Uma parte bem maior da mata em redor foi aberta e grandes áreas se achavam em cultivo. Muitas das moradias originais já haviam desabado ou sido deliberadamente derrubadas para construírem-se outras sobre suas ruínas. Mas a diferença mais impressionante em relação à aldeia era que seu lado oeste, de frente para as colinas palestinas, era cercado por um enorme muro de pedra e uma grande torre circular havia sido construída em seu interior.

Kathleen Kenyon descobriu essas construções durante suas escavações em 1956. Parece improvável que a muralha, de 3,6 metros de altura e 1,8 de largura na base, tenha cercado todo o assentamento, pois nenhum vestígio dela se encontrou no lado leste. Dentro desse muro ela descobriu os restos da torre, de 8 metros de altura e 9 de diâmetro na base, com um peso estimado de mil toneladas. Uma escada interna, com 22 degraus de pedra, conduzia ao topo. Tal arquitetura era inteiramente sem precedentes na história humana, e é a mais notável das descobertas de Kathleen — seriam necessários pelo menos 100 homens, trabalhando durante 100 dias, para construir a muralha e a torre. Como ela própria sugeriu, “em concepção e construção, essa torre não faria vergonha diante de um dos mais grandiosos castelos medievais”[6]. A muralha e a torre permanecem inteiramente únicos para esse período.

Kathleen supôs que foram construídos para defender a cidade de ataque, uma conclusão aparentemente incontestável, em vista das ligações bíblicas de Jericó. Só em 1986 Ofer Bar-Yosef fez algumas perguntas óbvias: quem eram os inimigos de Jericó? Por que a muralha não foi reconstruída depois de ser sepultada por detritos de casas após não mais que 200 anos? Por que não há outros locais fortificados da mesma data no oeste asiático?

Bar-Yosef concluiu que as muralhas eram para defesa, mas não contra um exército invasor— o inimigo era a água e a lama das enchentes[7]. Jericó vivia em perpétuo perigo quando a chuva aumentava e o desflorestamento desestabilizava sedimentos nas colinas palestinas, que podiam então ser carregados para a borda da aldeia pelos wadis próximos. Quando o lixo da aldeia sepultou as muralhas, o nível de assentamento já tinha literalmente se elevado pelo acúmulo de casas desmoronadas e lixo humano. Isso afastou as ameaças da água e lama das enchentes. Simplesmente não se precisava mais de uma muralha.

Ofer Bar-Yosef descartou a ideia de que a torre se destinava a fortificação. Ficou impressionado com sua ótima conservação, e sugeriu que isso pode ter sido ajudado pela presença de uma plataforma de adobe em cima da construção de pedra. A própria Kathleen encontrou, ligadas ao lado norte da muralha, vestígios de construções que julgou que poderiam ter sido usadas para armazenar grãos. Em vista disso, Bar-Yosef sugeriu que a torre era de propriedade pública ou estava a serviço da comunidade, talvez como um centro de cerimônias anuais. Não parece provável que algum dia se encontre uma resposta definitiva — embora mais escavações nas vizinhanças da torre certamente ajudassem. O que é claro é que, com a construção da muralha e da torre, as pessoas criavam arquitetura e atividade comunal em escala inteiramente nova. Começara uma nova fase da história humana.

Em fins da década de 1950, assentamentos de aldeias semelhantes na Europa — embora muito mais novos em idade —já haviam sido descritos como neolíticos. Na década de 1920, Gordon Childe, o principal arqueólogo do período pré-guerra, cunhara a expressão “Revolução Neolítica” para se referir ao surgimento repentino de assentamentos que ele acreditava refletir uma mudança radical no modo de vida. Isso não apenas envolvia agricultura, mas arquitetura, cerâmica e machados de pedra polida. Childe pensava que estes formavam um “pacote neolítico”, que sempre era adquirido como um todo único e indivisível.[8].

Kathleen Kenyon (1906–1978), arqueóloga britânica conhecida por suas escavações em Jericó.Kathleen Kenyon descobriu que ele estava errado. Embora as casas, túmulos e estilo de vida deles em geral se encaixassem bem no molde neolítico, os primeiros aldeões em Jericó não dispunham de um dos elementos cruciais do pacote neolítico: a cerâmica. As poucas tigelas, vasos, pratos ou copos que sobreviveram eram feitos de pedra; é provável que muitos mais tenham sido feitos de madeira ou fibras vegetais. E assim Kathleen cunhou um novo termo para a cultura inicial de Jericó: o Neolítico Pré-Cerâmico (PPN na sigla em inglês). Na verdade, designou a primeira aldeia em Jericó como pertencente ao “Neolítico Pré-Cerâmico A” — um período que agora se sabe ter durado não mais do que mil anos após o início do Holoceno.

Aqueles que viveram na aldeia “PPNA” de Jerico, viveram literalmente com seus mortos. Kathleen descobriu nada menos que 276 sepulturas, embora escavasse apenas 10% do assentamento. Estavam todos associados às construções, de uma forma ou de outra; ficavam embaixo do piso, sob a estrutura das casas, entre paredes e dentro da torre. Continuava a tradição-chave de enterro do Natufiano Tardio: as pessoas tendiam mais a ser enterradas sós que em grupos; muito poucos artefatos, quando tinha algum, eram enterrados com os mortos.

Após os enterros, e muito provavelmente quando toda a carne já se havia decomposto, cavavam-se frequentemente covas para tirar os crânios, muitos dos quais eram depois reenterrados em outro lugar dentro da aldeia. Uma coleção de cinco crânios de bebês foi colocada dentro de uma cova abaixo do que Kathleen julgava fosse um altar. Mas a maioria das crianças e bebês, que representavam 40% dos enterros, foi deixada intacta — eram principalmente os crânios dos adultos os removidos para exposição e eventual reenterro.

Por que havia tal interesse pelos crânios? Era um interesse que se tornaria muitíssimo elaborado à medida que a aldeia de Jericó se tornava uma cidadezinha, levando à cobertura dos crânios com máscaras de gesso e olhos de conchas de caurim. Kathleen pensou que houvera um culto aos ancestrais e estabeleceu uma comparação com o povo do rio Sepik na Nova Guiné, que em tempos recentes usava os crânios de venerados ancestrais em seus rituais. Mas jamais vamos saber exatamente por que as pessoas de Jericó — e na verdade de todo o oeste asiático e além — exumavam e reenterravam crânios humanos, talvez após um período de exposição[9].

Como acontecia com essas práticas funerárias, os instrumentos usados pelos aldeões de Jericó eram muito semelhantes aos do Natufiano Tardio, embora tenham algumas grandes inovações tecnológicas. A mais impressionante foi o uso de adobe para construção — trabalho intensivo que demonstrava o compromisso com a vida da aldeia. Contudo, muitos dos artefatos de pedra continuaram em grande parte sem mudança. Ainda se faziam micrólitos, assim como uma gama de lâminas, raspadores e foices. Machados e enxós de pedra, o que não surpreende, foram encontrados em número muito maior que antes. Eram usados para derrubar a vegetação para os campos. Esse desmatamento pode ter contribuído para a erosão do solo, aumentando a necessidade de uma muralha defensiva. Um artigo, porém, merece especial atenção: um novo tipo de ponta de flecha, conhecida pelos arqueólogos como ponta “el-Khiam”. Era de forma triangular, com duas ranhuras laterais usadas para prender ao cabo, e batizada com o nome do sítio onde foram descobertos os primeiros espécimes[10].

Assim como os micrólitos geométricos e lunares tinham vindo e passado de moda, o mesmo aconteceu com as pontas el-Khiam. Elas atingiram o auge da popularidade por volta de 9000 a.C, quando aparecem quase simultaneamente em todas as regiões ocidentais e centrais do Crescente Fértil. Como tal, não esta claro onde se originou o novo desenho, ou por que se tornou tão largamente adotado por toda essa vasta região. Muitas têm desenho aerodinâmico, e bem podem ter levado a uma substancial melhora na eficiência da caça. Mas nova pesquisa, empregando estudo microscópico, mostrou que um grande número dessas pontas foi usado mais como sovelas e puas que como pontas de projéteis, como se supunha tradicionalmente [11].

As gazelas continuaram a ser o principal alvo dos caçadores. Mas com a expansão da floresta, uma gama maior de animais tornou-se disponível como presa – e, portanto, os ossos de gamos e javalis se juntaram aos de gazelas e íbex dentro dos montes de lixo de Jericó. Raposas e pássaros, especialmente aves de rapina, também se tornaram proeminentes. É improvável que tenham sido caçados como comida: pele de raposa, garras, elegantes penas de asas e caudas podem ter sido artigos cruciais de adorno do corpo. Podem ter feito parte das redes de comércio que se desenvolvia rapidamente no vale do Jordão e além. Pois Jericó não estava sozinha nesse novo mundo neolítico.

 

Notas
1. O relato popular de Kenyon (1957) sobre seu trabalho, Digging Up Jericho, continua sendo um clássico e contém um resumo do trabalho anterior sobre o tell. As datas de radiocarbono para o assentamento PPNA [Pre-Pottery Neolithic A – Neolítico pré-cerâmico A] em Jericó são resumidas em Bar-Yosef & Gopher (1997). Eles listam quinze datas da trincheira ocidental que variam de 10300 ± 500 (10856–9351 cal a.C.) a 9230 ± 220 (8796–8205 cal a.C.), e três da seção norte entre 9582 ± 89 AP (9160 ± 8800 cal a.C.) e 9200 ± 70 AP (8521–8292 cal a.C.) [Obs.: cal = calibrated. As medições de datação por radiocarbono produzem idades em “anos de radiocarbono”, que devem ser convertidas em idades de calendário por um processo chamado calibração. AP = “Antes do presente” é uma marcação de tempo utilizada na arqueologia, paleontologia e geologia, que tem como base de referência o ano de 1950 d.C.].Área do Crescente Fértil, c. 7500 a.C., com os principais sítios. Jericó foi um dos principais sítios do período Neolítico Pré-Cerâmico.
2. Kenyon (1957, p. 25).
3. Kenyon (1957, p. 70).
4. Para uma breve biografia de Kenyon, veja Champion (1998).
5. Para a arquitetura e estratigrafia de Jericó, veja Kenyon & Holland (1981); para a cerâmica e outros achados, veja Kenyon & Holland (1982, 1983).
6. Kenyon (1957, p. 68).
7. Bar-Yosef (1996) argumentou que os muros de Jericó eram para defesa contra inundações e deslizamentos de terra.
8. Para as opiniões de Childe sobre o Neolítico, veja, por exemplo, Childe (1925, 1928).
9. Embora Kenyon tenha se referido aos cultos de crânios do vale do rio Sepik na Nova Guiné, ela não desenvolveu seu argumento de que estes poderiam fornecer analogias úteis para aqueles da PPNA. Na região do rio Sepik, os ancestrais do clã eram normalmente representados por máscaras, muitas vezes de pessoas que supostamente desempenharam um papel fundamental na formação e história do clã. Assim como Kenyon sugere, os crânios engessados ​​da PPNA podem ter sido de pessoas que desempenharam um papel fundamental na fundação da aldeia. No vale Sepik, crânios decorados e cabeças encolhidas eram frequentemente feitos de cabeças decepadas de inimigos; Baxter Riley (1923) fornece descrições particularmente evocativas de como as cabeças e crânios eram preparados. As práticas de caça de cabeças e o uso de cabeças como troféus, como praticado na Oceania, também podem fornecer analogias úteis para as práticas da PPNA e foram descritas por Hutton (1922, 1928) e Von Furer-Haimendorf (1938).
10. Pontas El-Khiam são pontas simétricas feitas em pequenas lâminas com dois entalhes basais. Elas foram originalmente definidas a partir das escavações no terraço de El-Khiam por Echegaray (1963). Por vinte anos, essa ponta foi o único tipo definido para o PPNA, mas à medida que coleções mais extensas se tornaram disponíveis, outros artefatos de tipo foram propostos, notavelmente a ponta do vale do Jordão e a ponta de Salibiya (Nadel et al., 1991). Todos os três são triangulares em forma com uma base estreita. Outros tipos de artefatos de sílex também foram reconhecidos como exclusivos do PPNA, notavelmente o truncamento de Hagdud, conforme descrito por Bar-Yosef et al. (1987). Para aqueles que gostam das complexidades da tipologia de pedra lascada neolítica do Crescente Fértil, Gebel e Kozlowski (1994) é uma leitura essencial. As frequências relativas de pontas El-Khiam, truncamentos Hagdud, micrólitos e pequenos pedaços bifaciais foram usadas para definir duas fácies do PPNA, o Khiamiano e o Sultaniano, com o último tendo baixas frequências de micrólitos e a presença de truncamentos Hagdud e picaretas bifaciais. Há um debate em andamento sobre se o Khiamiano e o Sultaniano representam kits de ferramentas funcionalmente diversos da mesma cultura, encontrados em locais diferentes (Nadel, 1990) ou dentro do mesmo assentamento (Mithen et al., 2000) ou fases cronologicamente sucessivas do PPNA (Bar-Yosef 1998b). Alguns argumentam que o Khiamiano é meramente uma mistura pós-deposicional do Sultaniano e do Natufiano subjacente (Garfinkel, 1996).
11. Isso é evidente pelos traços de microdesgaste presentes nas pontas, muitos dos quais indicam um movimento circular característico de perfuração ou perfuração em vez das fraturas de impacto que surgem nas pontas de projéteis. Esses estudos de microdesgaste estão sendo conduzidos por Sam Smith como pesquisa de doutorado na Universidade de Reading. Um relatório preliminar sobre as pontas de Dhra’ é fornecido em Goodale & Smith (2001).

 

Bibliografia citada neste capítulo

Bar-Yosef, O. 1998b. Jordan prehistory: A view from the west. In The Prehistoric Archaeology of Jordan (ed. D.O. Henry), pp. 162–74. Oxford: British Archaeological Reports, International Series, 705.

Bar-Yosef, O. & Gopher, A. 1997. Discussion. In An Early Neolithic Village in the Jordan Valley. Part I: The Archaeology of Netiv Hagdud (eds. O. Bar-Yosef & A. Gopher), pp. 247–66. Cambridge, MA: Peabody Museum of Archaeology and Ethnology, Harvard
University.

Bar-Yosef, O., Gopher, A. & Nadel, D. 1987. The ‘Hagdud Truncation’ – a new tool type from the Sultanian industry at Netiv Hagdud, Jordan Valley. Mitekufat Haeven 20, 151–7.

Baxter Riley, E. 1923. Dorro head hunters. Man 23, 33–5.

Champion, S. 1998. Women in British Archaeology, visible and invisible. In Excavating Women. A History of Women in European Archaeology (eds. M. Diaz-Andreu & M.L.S. Sørenson), pp. 175–97. London: Routledge.

Childe, V.G. 1925. The Dawn of European Civilisation. London: Kegan Paul.

Childe, V.G. 1928. The Most Ancient Near East. The Oriental Prelude to European Prehistory. London: Kegan Paul.

Echegaray, G.J. 1963. Nouvelles fouilles à El-Khiam. Revue Biblique 70, 94–119.

Garfinkel, Y. 1996. Critical observations on the so-called Khiamian flint industry In Neolithic Chipped Stone Industries of the Fertile Crescent and their Contemporaries in Adjacent Regions (eds. H.G. Gebel & S. Kozlowski), pp. 15–21. Berlin: Ex Oriente.

Gebel, H.G. & Kozlowski, S. 1994. Neolithic Chipped Stone Industries of the Fertile Crescent and their Contemporaries in Adjacent Regions. Berlin: Ex Oriente.

Goodale, N. & Smith, S. 2001. Pre-Pottery Neolithic A projectile points at Dhra’, Jordan: Preliminary thoughts on form, function and site interpretation. Neo-lithics 2:01, 1–5.

Hutton, J.H. 1922. Divided and decorated heads as trophies. Man 22, 113–14.

Hutton, J.H. 1928. The significance of head-hunting in Assam. Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland 58, 399–408.

Kenyon, K. 1957. Digging Up Jericho. London: Ernest Benn Ltd.

Kenyon, K. & Holland, T. 1981. Excavations at Jericho, Vol. III: The Architecture and Stratigraphy of the Tell. London: British School of Archaeology in Jerusalem.

Kenyon, K. & Holland, T. 1982. Excavations at Jericho, Vol. IV. The Pottery Type Series and Other Finds. London: British School of Archaeology in Jerusalem.

Kenyon, K. & Holland, T. 1983. Excavations at Jericho, Vol. V: The Pottery Phases of the Tell and Other Finds. London: British School of Archaeology in Jerusalem.

Lubbock, John. 1865. Pre-historic Times, as Illustrated by Ancient Remains, and the Manners and Customs of Modern Savages. London: Williams & Norgate.

Crânio engessado encontrado em Jericó (Tell es-Sultan), Neolítico Pré-Cerâmico B, c. 7200 a.C. BM 12741-42Mithen, S.J., Finlayson, B., Pirie, A., Carruthers, D. & Kennedy, A. 2000. New evidence for economic and technological diversity-in the Pre-Pottery Neolithic A: Wadi Faynan 16. Current Anthropology 41, 655–63.

Mithen, S.J., Finlayson, B., Mathews, M. & Woodman, P.E. 2000. The Islay Survey. In Hunter-Gatherer Landscape Archaeology, The Southern Hebrides Mesolithic Project, 1988–98, Vol. 2 (ed. S. Mithen), pp. 153–86. Cambridge: McDonald Institute for Archaeological Research.

Nadel, D. 1990. The Khiamian as a case of Sultanian intersite variability. Journal of the Israel Prehistoric Society 23, 86–99.

Nadel, D., Bar-Yosef, O., Gopher, A. 1991. Early Neolithic arrowhead types in the southern Levant: A typological suggestion. Paléorient 17, 109–19.

von Furer-Haimendorf, C. 1938. The head-hunting ceremonies of the Konyak Nagas of Assam. Man 38, 25.

 

*Este livro conduz alguém dos tempos modernos aos pré-históricos: alguém para ver os instrumentos de pedra sendo feitos, os fogos ardendo nos lares e as moradas ocupadas; alguém para visitar as paisagens do mundo da era do gelo e vê-las mudar. Escolhi um rapaz chamado John Lubbock para essa tarefa. Ele visitará cada um dos continentes, começando no oeste da Ásia e seguindo pelo mundo afora: Europa, as Américas, Austrália, leste da Ásia, sul da Ásia e África. Viajará da mesma forma como os arqueólogos escavam — vendo os mais íntimos detalhes das vidas das pessoas, mas incapaz de fazer qualquer pergunta e com sua presença inteiramente desconhecida. Farei comentários para explicar como os sítios arqueológicos foram descobertos, escavados e estudados; as formas como contribuem para nossa compreensão de como surgiram a agricultura, as cidades e a civilização. Quem é John Lubbock? Ele vive em minha imaginação como um rapaz interessado no passado e com medo do futuro — não o seu próprio, mas o do planeta Terra. Tem o mesmo nome de um polímata vitoriano que, em 1865, publicou seu próprio livro sobre o passado e intitulou-o Prehistoric Times [Tempos pré-históricos]. O John Lubbock vitoriano (1834-1913) era vizinho, amigo e seguidor de Charles Darwin. Foi um banqueiro que instigou reformas financeiras-chave, um membro liberal do Parlamento que apresentou a primeira legislação para proteção de monumentos antigos e férias em bancos (públicos), um botânico e entomologista com muitas publicações científicas em seu nome. [Mas] vou mandar um John Lubbock dos dias de hoje para os tempos pré-históricos, levando um exemplar do livro de seu xará. Lendo-o em remotos cantos do mundo, ele apreciará tanto os feitos do John Lubbock vitoriano quanto o notável progresso que os arqueólogos fizeram desde a publicação de Prehistoric Times menos de 150 anos atrás. Uso John Lubbock para assegurar que esta história é mais sobre vidas de pessoas que apenas os objetos que os arqueólogos encontram.

O que especialistas em arqueologia fazem?

Dig Scene Investigators: What do archaeology specialists do? – By Nathan Steinmeyer: BAR – February 19, 2025

Hoje a arqueologia é bem mais especializada do que nos seus primeiros anos, com arqueólogos buscando responder a perguntas cada vez mais minuciosas e complexas. Mas o que são essas especializações e como elas afetam uma escavação? Para responder a essa pergunta, a BAR conversou com especialistas para perguntar o que eles fazem no campo.

Ceramistas
Uma das descobertas mais importantes em quase qualquer escavação arqueológica, a cerâmica nos conta muito sobre as pessoas que viveram ou passaram por um local. Ao fornecer informações sobre a cultura, a tecnologia e, especialmente, o lugar no tempo de uma sociedade, a cerâmica desempenha um papel fundamental na compreensão de um local desde o início. Com tantos tipos de cerâmica antiga, no entanto, os arqueólogos geralmente recorrem a especialistas para aprender mais sobre o que a cerâmica pode revelar sobre o passado.O arqueólogo da IAA Jacob Sharvit ( à esquerda ) e a líder ambiental da Energean, Karnit Bahartan, examinam dois jarros de armazenamento cananeus após serem recuperados do fundo do mar Mediterrâneo em 30 de maio de 2024.

(…)

Zooarqueólogos
Exigindo ampla experiência em biologia animal, os zooarqueólogos são outros especialistas importantes em escavações. Ao analisar restos da fauna e seus contextos arqueológicos, esses especialistas ajudam a entender a relação entre povos antigos e o meio ambiente, seja investigando dietas antigas, domesticação animal ou práticas de pastoreio e caça.

(…)

Arqueólogos espaciais
Arqueólogos espaciais são especialistas em entender a topografia de sítios arqueológicos usando equipamentos tecnológicos como dispositivos GPS portáteis, níveis topográficos, estações totais, equipamentos RTK, drones e muito mais. Também é necessária experiência para transformar dados topográficos e espaciais em resultados significativos e apresentáveis. O avanço contínuo de equipamentos e softwares necessita de especialistas dedicados para atingir os resultados mais completos e precisos.

(…)

Geoarqueólogos marinhos
Semelhante à arqueologia espacial, a geoarqueologia marinha foca no contexto ambiental de sítios arqueológicos, mas, como o nome indica, debaixo d’água. Dadas as condições incrivelmente desafiadoras e específicas da arqueologia marítima, os geoarqueólogos utilizam ferramentas e técnicas de ponta para documentar adequadamente sítios e achados.

(…)

Escavações no cemitério filisteu de AscalonConservadores
Apesar do que filmes como Indiana Jones podem sugerir, a arqueologia é muito mais do que caça ao tesouro, e um especialista importante nesse esforço é o conservador. Esses indivíduos altamente treinados, que geralmente têm formação em estudos de museus e ciências exatas, preservam objetos escavados para estudo e exibição no futuro e também trabalham para proteger o local e suas características após a conclusão da escavação.

(…)

Osteologistas
Semelhantes aos zooarqueólogos, os osteologistas trabalham com ossos, mas ossos humanos em vez de animais. Além de garantir que restos mortais e sepulturas humanas sejam manuseados de forma responsável, esses especialistas respondem a perguntas sobre como as pessoas viveram, morreram e foram enterradas com base em seus restos mortais. Da identificação de doenças antigas à análise de práticas de sepultamento, os osteologistas se especializam nos mínimos detalhes da existência humana cotidiana e da morte.

Leia, abaixo, o texto completo.

 

Since the early years of archaeology, the discipline has gradually become more specialized, with archaeologists seeking to answer ever more minute and complex questions. But what are these specializations and how do they affect an excavation? To answer this question, BAR caught up with specialists to ask them what they do in the field.

Ceramicists
One of the most important finds on nearly any archaeological dig, ceramics tell us a lot about the people who lived in or passed through a site. By providing information about a society’s culture, technology, and especially place in time, ceramics play a key role in understanding a site from the very start. With so many types of ancient pottery, however, archaeologists often turn to specialists to learn more about what ceramics can reveal about the past.

Nava Panitz-Cohen, Hebrew University of Jerusalem
“On a historical excavation, pottery is usually the most ubiquitous find. Since the sheer quantity can be daunting, the dig ceramic specialist has to classify and process the pottery in a way that will allow for ongoing research and analysis that will give the silent sherds a voice. Most of the work during the excavation itself is technical. First and foremost, an integral documentation and recording system in the field must be established that will allow for the secure reconstruction of the pottery’s context after it is excavated. After being washed, all the pottery that is collected in the field is sorted. The ceramic specialist then carefully examines all sherds, choosing which to keep. If the pottery is restorable, all sherds are kept. The results of sorting are recorded in an excavation database, so we know what was kept and what was discarded. In many instances, the pottery is the only indicator of the chronology and type of context. This stage of processing is critical for the ongoing research that will take place subsequently in the laboratory.”

Zooarchaeologists
Requiring extensive expertise in animal biology, zooarchaeologists are another key specialist in excavations. By analyzing faunal remains and their archaeological contexts, these specialists help to understand the relationship between ancient people and the environment, whether it is investigating ancient diets, animal domestication, or herding and hunting practices.

Abra Spiciarich, Ludwig Maximilian University of Munich
“Animal bones found in archaeological contexts are studied by zooarchaeologists to reconstruct past ways we interacted with animals. This varies from trying to uncover the beginning of domestication to using animals for rituals and feasts. To properly excavate bones, we use dental tools to carefully expose the entire skeleton, take lots of photos, make a top plan, and collect them with properly labeled bags or boxes, but never plastic bags because this creates moisture that will damage the remains. Once back in the lab, we create detailed spreadsheets recording what we can about the bones: element, side, species, completeness, age, and taphonomic evidence, like burn marks, cut marks, gnawing by scavengers, etc. We then take this dataset, apply statistical queries, and see what this tells us about how animals were used within specific contexts of a site.”

Lidar Sapir-Hen, Tel Aviv University
“My lab members and I collaborate with the excavation staff, from the time of planning, through the excavation, and following it. In the first stage of the work, we collaborate to understand the excavation aims and to design a protocol for the comprehensive retrieval of finds. During the excavation itself, our presence in the field is necessary. We direct the workers and students through the stages of retrieving and handling animal bones. Sometimes, our on-site input may change the course of an excavation. In addition, it is important for us to see and understand the context the finds were retrieved from, for subsequent analysis and interpretation. This collaboration continues into the post-excavation stage in the lab and includes a dialogue with all experts to formulate a comprehensive understanding of past human societies.”

Spatial Archaeologists
Spatial archaeologists specialize in understanding the topography of archaeological sites using technological equipment such as handheld GPS devices, dumpy levels, total stations, RTK equipment, drones, and more. Expertise is also required to turn topographic and spatial data into meaningful and presentable results. The continued advancement of equipment and software necessitates dedicated specialists to achieve the most complete and precise results.

Ido Wachtel, Hebrew University of Jerusalem
“Spatial archaeologist allows researchers to explore how ancient societies interacted with and adapted to their environments, as well as to uncover patterns, relationships, and hidden insights within archaeological data. At the regional level, systematic field surveys and spatial analysis form the cornerstone of our research, shedding light on the locations, sizes, and densities of human occupations and other different ways of human-landscape interactions. For example, archaeological predictive modeling enables us to predict the location of unknown archaeological sites and offers a comprehensive framework for protecting cultural heritage. At the site level, precise GPS and drone technologies have revolutionized site documentation.”

Marine Geoarchaeologists
Similar to spatial archaeology, marine geoarchaeology focuses on the environmental context of archaeological sites, but, as the name implies, underwater. Given the incredibly challenging and specific conditions of maritime archaeology, geoarchaeologists utilize cutting-edge tools and techniques to properly document sites and finds.

Isaac Ogloblin Ramirez, University of Haifa
“Documenting underwater archaeological contexts and collecting archaeological samples presents significant challenges due to diving limitations. Even under the best conditions, precisely documenting a stratigraphy sequence is nearly impossible due to the way colors change underwater. Given these conditions, the active involvement of geoarchaeologists during fieldwork is crucial for accurately documenting stratigraphic context and ensuring proper sample collection. This involvement helps prevent data misinterpretations resulting from improper sampling techniques. Following these intense underwater excursions, collected samples are transported to the laboratory for analysis, which aids in drawing conclusions about human behavior. The emerging field of underwater geoarchaeology is paving the way for innovative insights into humans and their aquatic environments.”

Conservators
Despite what movies like Indiana Jones may suggest, archaeology is about much more than treasure hunting, and an important specialist in this endeavor is the conservator. These highly trained individuals, who often have backgrounds in both museum studies and the hard sciences, preserve excavated objects for future study and display and also work to protect the site and its features after excavation is completed.

Orna Cohen
“As a conservator, I am involved in the process of digging and planning possible future development. While exposing structures, like walls and pillars, we must protect them until it is decided whether to dismantle or keep them. On the micro level, we glue cracked stones, restore stones to their original places, protect floors, and so on. When it comes to artifacts, it involves rescuing, strengthening, and packing them to be shipped to the laboratory where I will clean, consolidate, stabilize, restore, and treat them. During the excavation, we also plan the protection of the sites between the seasons with coverings, drainage, and fencing.”

Osteologists
Similar to zooarchaeologists, osteologists work with bones, but human bones rather than animal. In addition to making sure that human remains and graves are handled responsibly, these specialists answer questions about how people lived, died, and were buried based on their remains. From identifying ancient illnesses to analyzing burial practices, osteologists specialize in the minute details of everyday human existence and death.

Rachel Kalisher, Brown University
“As a bioarchaeologist, my primary responsibility is to handle human remains ethically and with the utmost respect. In that regard, I do my best to thoroughly document and report my findings. Prior to removing remains from the ground, I sketch each burial context, including accompanying artifacts and the location of the skeletal remains themselves. I note the body position and orientation and make any other notes that will be useful for interpretation. Bones are carefully removed and initially stored in paper bags, which ensures that the moisture from the adhering dirt dries out and does not produce mold. Once removed, the bones come straight to the laboratory where I remove dirt with wooden tools and brushes. I record the bones that are present, note any anomalies, and take photos and measurements when necessary.”

Desolação encontra desolação

Austen Henry Layard, no capítulo inicial de seu livro Nineveh and Its Remains*, publicado por John Murray em Londres, em 1849, diz:

Durante o outono de 1839 e o inverno de 1840, eu estava perambulando pela Ásia Menor e Síria, sem deixar de pisar em nenhum lugar considerado sagrado pela tradição ou de visitar uma ruína consagrada pela história. Eu estava acompanhado por alguém não menos curioso e entusiasmado do que eu. Nós dois éramos igualmente descuidados com o conforto e desatentos com o perigo. Nós cavalgávamos sozinhos; nossas armas eram nossa única proteção; um alforje atrás de nossas selas era nosso guarda-roupa, e nós cuidávamos de nossos próprios cavalos, exceto quando aliviados do dever pelos habitantes hospitaleiros de uma aldeia turcomana ou de uma tenda árabe. Assim, sem ficarmos presos a luxos desnecessários e sem sermos influenciados pelas opiniões e preconceitos dos outros, nos misturamos às pessoas, adquirimos sem esforço seus costumes e desfrutamos aquelas emoções que cenários tão novos e lugares tão ricos em associações variadas não podem deixar de produzir.LAYARD, A. H. Nineveh and Its Remains. New York: Skyhorse, 2013.

(…)

Eu havia atravessado a Ásia Menor e a Síria, visitando os antigos monumentos da civilização e os lugares que a religião tornou sagrados. Agora eu sentia um desejo irresistível de penetrar nas regiões além do Eufrates, para as quais a história e a tradição apontam como o berço da civilização do Ocidente. A maioria dos viajantes, após uma jornada pelas partes geralmente frequentadas do Oriente, tem o mesmo desejo de cruzar o grande rio e explorar aquelas terras que são separadas no mapa dos confins da Síria por um vasto espaço em branco que se estende de Alepo às margens do Tigre. Um profundo mistério paira sobre a Assíria, Babilônia e Caldeia. A esses nomes estão ligadas grandes nações e grandes cidades, vagamente esboçadas na história; ruínas poderosas, no meio de desertos, desafiando, por sua própria desolação e falta de forma definida, a descrição do viajante; os remanescentes de raças poderosas ainda vagando pela terra; o cumprimento de profecias; as planícies para as quais os judeus e os gentios olham como o berço de seus povos. Após uma jornada na Síria, os pensamentos naturalmente se voltam para o leste e sem pisar nos restos de Nínive e Babilônia, nossa peregrinação é incompleta.

(…)

Se o viajante cruzasse o Eufrates para procurar ruínas na Mesopotâmia e na Caldeia como as que ele havia deixado para trás na Ásia Menor ou na Síria, sua busca seria em vão. A graciosa coluna erguendo-se acima da espessa folhagem da murta, do ílex e do oleandro; as arquibancadas do anfiteatro cobrindo uma encosta suave e com vista para as águas azul-escuras de uma baía semelhante a um lago; a cornija ou capitel ricamente esculpidos meio escondidos pela vegetação luxuriante são substituídos pelo monte austero e informe erguendo-se como uma colina da planície chamuscada, os fragmentos de cerâmica e a massa estupenda de alvenaria ocasionalmente exposta pelas chuvas de inverno. Ele deixou a terra onde a natureza ainda é adorável, onde, em sua mente, ele pode reconstruir o templo ou o teatro, meio duvidando se eles teriam feito uma melhor impressão sobre os sentidos do que a ruína diante dele. Ele agora está desorientado para dar qualquer forma aos montes rudes sobre os quais ele está olhando. Aqueles de cujas obras eles são os restos, ao contrário dos romanos e gregos, não deixaram vestígios visíveis de sua civilização ou de suas artes; sua influência já passou há muito tempo. Quanto mais ele conjectura, mais vagos os resultados parecem. A cena ao redor é digna da ruína que ele está contemplando; desolação encontra desolação; um sentimento de espanto sucede à admiração; pois não há nada para aliviar a mente, para levar à esperança, ou para contar o que se passou. Esses enormes montes da Assíria causaram uma impressão muito profunda em mim, deram origem a pensamentos mais sérios e a reflexões mais sérias do que os templos de Baalbeque e os teatros da Jônia.

* LAYARD, A. H. Nineveh and Its Remains. 2 vols. London: John Murray, 1849.

 

During the autumn of 1839 and winter of 1840, I had been wandering through Asia Minor and Syria, scarcely leaving untrod one spot hallowed by tradition, or unvisited one ruin consecrated by history. I was accompanied by one no less curious and enthusiastic than myself. We were both equally careless of comfort and unmindful of danger. We rode alone; our arms were our only protection; a valise behind our saddles was our wardrobe, and we tended our own horses, except when relieved from the duty by the hospitable inhabitants of a Turcoman village or an Arab tent. Thus unembarrassed by needless luxuries, and uninfluenced by the opinions and prejudices of others, we mixed amongst the people, acquired without effort their manners, and enjoyed without alloy those emotions which scenes so novel, and spots so rich in varied association, cannot fail to produce.

(…)

Austen Henry Layard (1817-1894)I had traversed Asia Minor and Syria, visiting the ancient seats of civilisation, and the spots which religion has made holy. I now felt an irresistible desire to penetrate to the regions beyond the Euphrates, to which history and tradition point as the birthplace of the wisdom of the West. Most travellers, after a journey through the usually frequented parts of the East, have the same longing to cross the great river, and to explore those lands which are separated on the map from the confines of Syria by a vast blank stretching from Aleppo to the banks of the Tigris. A deep mystery hangs over Assyria, Babylonia, and Chaldæa. With these names are linked great nations and great cities dimly shadowed forth in history; mighty ruins, in the midst of deserts, defying, by their very desolation and lack of definite form, the description of the traveller; the remnants of mighty races still roving over the land; the fulfilling and fulfilment of prophecies; the plains to which the Jew and the Gentile alike look as the cradle of their race. After a Journey in Syria the thoughts naturally turn eastward; and without treading on the remains of Nineveh and Babylon our pilgrimage is incomplete.

(…)

Were the traveller to cross the Euphrates to seek for such ruins in Mesopotamia and Chaldæa as he had left behind him in Asia Minor or Syria, his search would be vain. The graceful column rising above the thick foliage of the myrtle, ilex, and oleander; the gradines of the amphitheatre covering a gentle slope, and overlooking the dark blue waters of a lake-like bay; the richly carved cornice or capital half hidden by the luxuriant herbage; are replaced by the stern shapeless mound rising like a hill from the scorched plain, the fragments of pottery, and the stupendous mass of brickwork occasionally laid bare by the winter rains. He has left the land where nature is still lovely, where, in his mind’s eye, he can rebuild the temple or the theatre, half doubting whether they would have made a more grateful impression upon the senses than the ruin before him. He is now at a loss to give any form to the rude heaps upon which he is gazing. Those of whose works they are the remains, unlike the Roman and the Greek, have left no visible traces of their civilisation, or of their arts; their influence has long since passed away. The more he conjectures, the more vague the results appear. The scene around is worthy of the ruin he is contemplating; desolation meets desolation; a feeling of awe succeeds to wonder; for there is nothing to relieve the mind, to lead to hope, or to tell of what has gone by. These huge mounds of Assyria made a deeper impression upon me, gave rise to more serious thoughts and more earnest reflection, than the temples of Balbec and the theatres of Ionia.

A descoberta da Assíria por Layard e a Bíblia

O que a descoberta da Assíria por Layard significava para a compreensão da Bíblia?

O capítulo 18 do livro de Mogens Trolle Larsen, The Conquest of Assyria: Excavations in an Antique Land, 1840-1860. New York: Routledge, [1996] 2016, tem por título “Profundezas do tempo” [Depths of Time] e aborda o impacto das escavações assírias feitas por Austen Henry Layard no mundo intelectual e religioso inglês do século XIX.

Veja uma apresentação do livro no post A escavação arqueológica da Assíria, publicado no Observatório Bíblico em 17.08.2024. O capítulo 18, Depths of Time, pode serlido na íntegra, em inglês, clicando aqui.LARSEN, M. T. The Conquest of Assyria: Excavations in an Antique Land, 1840-1860. New York: Routledge, [1996] 2016, 424 p.

Só podemos apreciar verdadeiramente o trabalho de Layard quando o colocamos no contexto de seu próprio mundo intelectual e religioso, a Inglaterra contemporânea, à qual ele dirigiu seu livro [Nineveh and its remains. John Murray, London, 2 vols, 1849].

Grandes mudanças ocorreram desde que ele deixara o país em 1839. A Inglaterra na alta era vitoriana agora parece para a maioria das pessoas marcada por uma respeitabilidade burguesa presunçosa e hipócrita que era caracterizada por uma aceitação plácida de estreitas normas e regras morais , mas logo abaixo da embelezada superfície havia fortes conflitos.

Incerteza e mudança não eram características apenas da vida social e política; os debates culturais e religiosos refletiam uma profunda convulsão nos padrões tradicionais. A intensidade envolvida nessas controvérsias era em parte devido ao fato de que os círculos religiosos ortodoxos tinham um controle muito sólido e determinado sobre o poder no país. Assuntos religiosos estavam entre os assuntos mais amplamente e acaloradamente debatidos nas revistas e livros da época , e fortes tensões existiam entre novas ideias e o clero enormemente bem estabelecido e fortemente tradicional.

Um dos exemplos mais claros dessa tensão diz respeito à questão do tempo e da cronologia. Em 1650, o arcebispo James Ussher publicou uma tese estabelecendo uma cronologia precisa para todos os eventos mencionados na Bíblia , o que para os estudiosos da época significava toda a história do mundo , desde a Criação até os dias atuais. Esse cálculo aprendido ganhou um enorme prestígio e se tornou a base para o entendimento comum de toda a história, e ainda estava sendo mantido na Inglaterra de meados do século XIX. Uma das conclusões mais importantes de Ussher foi que o mundo foi criado no ano 4004 a.C., de modo que toda a história do globo tinha que ser contida em um período de cerca de 6.000 anos. Ele também pode revelar que a Assíria foi fundada em 1770 a.C., cento e quatorze anos após o grande Dilúvio.

Não é fácil aceitar que pessoas inteligentes e bem informadas pudessem ficar satisfeitas com este esquema, mesmo em 1848, e houve, naturalmente, muitos que, em privado, e alguns publicamente, questionaram essa ortodoxia. A maioria dos livros e artigos que entraram em contato com o problema simplesmente evitaram um confronto direto e contornaram a argumentação aberta. Por outro lado, para entender os debates da época, é preciso perceber que muitas das ideias e muito do entendimento que eventualmente causaram o colapso do velho paradigma eram relativamente novos .

Não podemos deixar de ficar surpresos quando nos deparamos com pessoas inteligentes do século XX que mantêm um fundamentalismo bíblico, alegando que cada palavra da Bíblia deriva diretamente de Deus e é incondicionalmente verdadeira; mas a situação era diferente no século XIX e os desafios ao literalismo ingênuo estavam apenas começando a ganhar força na Inglaterra por volta de 1850.

Esses desafios vieram de diferentes direções, de várias disciplinas científicas e, de fato, principalmente da Alemanha e da França. A Inglaterra era um país profundamente conservador, onde a igreja anglicana mantinha uma influência dominante. Somente membros da igreja podiam estudar nas universidades de Cambridge ou Oxford, e somente após terem assinado os famosos ’39 Artigos’, um documento que estabelecia os dogmas centrais da fé anglicana. O University College em Londres foi criado em 1826 como uma alternativa ‘não conformista’ a essas antigas universidades, e até aquela data a Universidade de Edimburgo era o único lugar onde se podia estudar sem ter que aceitar os dogmas da igreja anglicana.

Mesmo um campo de aprendizado aparentemente inócuo e pacífico como a arqueologia pré-histórica continha explosivos intelectuais. Ossos humanos encontrados na França e outros lugares em camadas profundas, juntamente com ferramentas de sílex extremamente primitivas e restos de animais, que claramente pertenciam a raças agora extintas, precisavam de explicação. Em algumas cavernas, ossos foram descobertos selados sob espessas camadas de sedimentos, que claramente foram formados por água infiltrando-se no solo e pingando do teto da caverna – obviamente por períodos de tempo extremamente longos. Tais descobertas pareciam indicar que o homem existiu durante períodos de tempo muito mais longos do que o
permitido pelo esquema tradicional de cronologia. A explicação ortodoxa , mantida por um grande número de estudiosos britânicos, consistia em uma combinação de interpretação da Bíblia e falta de fé nos resultados e observações dos escavadores. Em casos embaraçosos , poder-se-ia falar de tipos de animais que foram exterminados pelo dilúvio, por algum motivo não tendo sido salvos pela arca; e dos restos mortais de vítimas humanas daquele evento cataclísmico levados para essas cavernas (Grayson 1983).

A geologia teve um impacto ainda maior em muitos dos intelectuais da época, e há , é claro, conexões estreitas entre essas disciplinas. Os geólogos poderiam apontar para mais e mais observações que mostravam que o planeta tinha vivido uma longa e complexa história. Conchas marinhas descobertas no alto dos Andes na América Latina – como visto por Darwin em sua viagem ao redor do mundo – mostraram que esta terra tinha sido criada por forças enormes, que tinham levantado antigos leitos marinhos milhares de metros para se tornarem picos de montanhas. Tais observações não podiam ser explicadas ou acomodadas ao esquema do bispo Ussher, simplesmente não havia tempo suficiente.

Austen Henry Layard (1817-1894) O amigo de Darwin, o famoso geólogo Charles Lyell, tinha fornecido sua famosa “teoria da atualidade” que postulava que os processos geológicos que agora podem ser observados no mundo têm que formar a base para nossa compreensão da história da Terra, que os mesmos processos e forças geológicos têm sido ativos ao longo de sua existência. Lyell mostrou que o planeta que vemos foi criado por milhões de anos de atividade geológica, não em um único dia por um ato divino de criação, mas isso
não significava necessariamente que a história humana tinha que ser vista da mesma forma. Parecia possível para alguns aceitar a verdade literal do relato bíblico começando com a criação de Adão e Eva. Na verdade, Lyell não aceitou as descobertas dos pré-historiadores até 1863, quando ele finalmente, e com alguma hesitação, reconheceu que também a humanidade tinha uma história muito mais longa do que a postulada pela Bíblia. Darwin nunca conseguiu persuadi -lo de que suas próprias teorias sobre o desenvolvimento biológico estavam corretas (Desmond e Moore 1992).

O ensaísta e historiador da arte John Ruskin é um bom exemplo do dilema sentido por muitos intelectuais da época. Quando ele teve sua experiência de “não conversão” em Turim em 1858, que o levou a descartar suas crenças evangélicas, esta foi, em suas próprias palavras , a conclusão de “cursos de pensamento que me levaram a tal fim por muitos anos” (Kemp 1990: 261-2). A fundação tradicional herdada de seus pais cedeu, e ele reclamou da “fragilidade” de sua própria fé religiosa, culpando as novas ciências: “Se ao menos os geólogos me deixassem em paz, eu poderia me sair muito bem, mas aqueles martelos horríveis! Eu ouço o retinir deles no final de cada cadência dos versículos da Bíblia ” (Abrams 1986: 924).

Apesar de tal dor pessoal sentida na Inglaterra, muitos no continente sentiram que o debate britânico era caracterizado por um conservadorismo exasperante; em 1834, um geólogo francês escreveu esta crítica devastadora aos seus colegas britânicos:
“Certos teólogos ingleses persistem ridiculamente em sua mania de querer fazer os resultados da geologia concordarem com o Gênesis. A Inglaterra está tão impregnada do espírito de seita que todos são obrigados, pela força ou pela vontade, a se inscrever sob uma bandeira religiosa; de tal forma que, em meio às maravilhas da indústria e de uma civilização avançada, as mentes mais elevadas estão muitas vezes atoladas em disputas teológicas que lembram a Idade Média, e das quais a Europa continental não oferece mais do que raros exemplos” (Grayson 1983: 112).

O poeta alemão Heinrich Heine visitou Londres em 1830 e observou com seu habitual humor ácido que, enquanto até o inglês mais estúpido conseguia encontrar algo sensato para dizer sobre política, nada além de estupidez vinha até mesmo do mais inteligente quando o assunto era assuntos religiosos (Holthof 1899: 452).

Nesse clima de ortodoxia arraigada, foi a Biologia e a teoria da evolução que, no final, tiveram uma influência decisiva no debate intelectual, levando, em última instância, a uma libertação do dogmatismo restritivo. No entanto, é uma indicação do poder do conservadorismo que Darwin, que de forma alguma desejava ser equiparado por seus pares sociais aos radicais não conformistas raivosos, não ousou publicar suas ideias até 1859 no livro A Origem das Espécies, e então fortemente motivado pelo perigo de ser ultrapassado por um acadêmico rival com ideias semelhantes (Desmond e Moore 1992).

As pressões sociais eram imensas, e havia uma clara tendência a considerar o radicalismo científico e político como dois lados da mesma moeda. As novas ideias desafiavam a ortodoxia religiosa, que por sua vez era vista como a base para a ordem social como um todo, então era com um perigo muito real de perder a respeitabilidade social e o status que alguém defendia teorias acadêmicas novas e radicais.

Ao estabelecer a fundação para uma nova compreensão do mundo, ciências como Geologia, Astronomia e Biologia criaram, ou pelo menos exacerbaram, uma crise moral e intelectual. Para muitos , a mensagem básica das ciências naturais parecia consistir em uma perda para a humanidade de seu lugar central na ordem do mundo, de fato, seu propósito e dignidade. Com o colapso da explicação cristã tradicional do mundo físico, a estrutura clara e simples para a história do homem e a explicação de seu papel desapareceram. Tudo isso foi substituído por leis da natureza e abstrações.

(…)

Até mesmo a própria fundação do cristianismo, a própria Bíblia Sagrada , tornou-se o assunto de pesquisa acadêmica, e a disciplina que se desenvolveu a partir de tais estudos, a Alta Crítica [Higher Criticism = o estudo das origens históricas, as datas e autoria dos vários livros da Bíblia], era por sua própria natureza um ramo “perigoso” dos estudos acadêmicos cujos resultados e teorias eram vistos por muitos com grande consternação e rejeição indignada. Essa tradição de pesquisa de crítica literária, que com base em uma análise textual detalhada chegou a conclusões sobre a natureza complexa, composta e muitas vezes bastante desconectada e incoerente do texto bíblico, desenvolveu-se primeiro na Alemanha. Dali , espalhou-se lentamente para a Inglaterra, onde ganhou real importância na década de 1850, e chegou aos Estados Unidos na década de 1880.

Análises literárias desse tipo foram aplicadas com grande sucesso em outros textos quase sagrados, como a Odisseia e a Ilíada, os épicos mais importantes da Grécia antiga. Os resultados indicaram que esses longos poemas não poderiam ter sido compostos por um homem, mas que representavam uma combinação de muitas tradições independentes, que não poderiam nem mesmo ter surgido exatamente da mesma época. Em outras palavras, em algum momento um compilador compôs um novo texto com base em vários contos poéticos, um épico que veio a formar um todo novo e complexo; e era particularmente emocionante que ainda fosse possível para o estudioso moderno desembaraçar os muitos fios, desmontar a nova obra de arte composta em seus elementos originais. Para estudiosos classicamente treinados na Inglaterra, era doloroso ter que aceitar os resultados de tais investigações, pois Homero tinha o status de um dos gigantes da literatura mundial. Ele pode nem ter existido.

Essas ideias foram apresentadas pela primeira vez pelo estudioso alemão Friedrich August Wolf, já em 1795, e ele recomendou a seus alunos que estudassem precisamente o Antigo Testamento como um caso claro onde esses métodos literários poderiam ser aplicados com resultados interessantes (Hoffmann 1988: 39, n . 102).

Era óbvio para muitos na Inglaterra que essa influência alemã era perigosa, não apenas para aqueles que desejavam manter a pureza da herança clássica, mas também para o cristianismo. “Aqueles que acreditam em um grande poema”, escreveu o filólogo clássico John Stuart Blackie, “não podem evitar pensar que os wolfianos estão engajados em uma tentativa perversa, muito análoga ao método escasso de explicar o mundo sem um Deus, no qual certos intelectos incompletos encontraram em todas as eras um deleite não natural’ (Blackie 1866, vol. 1: 245, n.; Turner 1981).

Em outras palavras: se você abolir Homero, o próximo passo inevitável é abolir Deus.

A Alta Crítica envolveu uma série de conclusões e reinterpretações drásticas que eram muito difíceis de aceitar pela Igreja, principalmente no que diz respeito à compreensão adequada dos cinco primeiros livros do Antigo Testamento, o “Pentateuco”. Esses chamados livros ‘mosaicos’ não poderiam ter sido escritos por Moisés, concluiu-se, porque uma análise textual mostrou que eles eram compostos de vários textos individuais que poderiam ser separados uns dos outros. Esse ponto foi o suficiente para abalar a teoria clássica da Inspiração Verbal que postulava a natureza sagrada do texto como diretamente inspirado por Deus. Em vez disso, a Bíblia teve que ser considerada uma composição extremamente complexa que englobava textos que representavam tradições bastante separadas, muitas vezes mutuamente contraditórias.

(…)

Uma obra alemã que teve influência mais profunda no debate na Inglaterra estava relacionada ao Novo Testamento. Era uma biografia de Jesus escrita por David Friedrich Strauss e traduzida para o inglês em 1846 pelo famoso romancista George Eliot. Strauss explica a história de Jesus como um mito, não é um relato histórico factualmente verdadeiro, mas contém uma verdade espiritual fundamental, que pode ser separada da forma externa do mito, conforme contada nos Evangelhos. Na igreja , isso significa, na prática, que deve ser tarefa do padre individual fazer sua congregação compreender essa verdade espiritual. Como a hipocrisia nessa atitude corre o risco constante de ser tornada clara, a solução final e única verdadeira parece ser uma renúncia ao seu sacerdócio. Não é de surpreender que o tema do pároco que perdeu sua fé seja recorrente nos romances da época.

(…)

Todas essas ideias e desenvolvimentos científicos necessariamente levaram à insegurança e confusão, e esses sentimentos estavam na Inglaterra combinados de uma forma às vezes bizarra com o medo de ser invadido por influências estrangeiras: a Revolução Francesa que levou ao colapso temporário da Igreja Católica e os professores alemães eruditos com sua Alta Crítica se fundiram em uma imagem estranha do inimigo.

(…)

Um termo especial foi inventado para descrever doutrinas frouxas de inspiração e revelação: neologismos. Teólogos liberais eram suspeitos de introduzir ‘germanismos’ no pensamento inglês (…) O resultado foi uma atitude defensiva entre aqueles que aderiram a um ponto de vista crítico, pois acharam necessário distanciar -se da filosofia alemã , embora ainda reconhecessem sua dívida para com os estudiosos alemães. Eles sustentaram com firmeza que não somos de modo algum propensos a sermos mistificados por suas especulações filosóficas, nem a sermos levados por uma inclinação a forçar todos os fatos dentro do escopo de alguma teoria abrangente preconcebida (…) Havia outras forças envolvidas nessa crise religiosa, no entanto. Chadwick aponta que uma causa talvez mais fundamental foi o sentimento generalizado de que o Iahweh do Antigo Testamento era um deus moralmente inaceitável.

(…)

O jovem Layard tinha sido profundamente tocado por essas questões mesmo antes de sua partida e tinha sido atraído pela Unitarian Church, um dos muitos movimentos que ajudaram a espalhar a crítica bíblica. Ele agora retornava a uma Inglaterra que parecia ainda mais atolada em controvérsias religiosas, e seu trabalho sobre as descobertas de Nimrud necessariamente teve que ser influenciado por isso.

Suas escavações eram potencialmente extremamente importantes para a compreensão do Antigo Testamento como uma fonte histórica. Nínive é mencionada cerca de vinte vezes na Bíblia e há mais de cento e trinta referências à Assíria. Evidências contemporâneas diretas deste país antigo poderiam, em outras palavras, lançar uma forte, talvez reveladora, luz sobre o texto sagrado. Referências a eventos e pessoas já conhecidas da Bíblia eram esperadas, e para aquele que considerava a Bíblia como a palavra de Deus era complicado aceitar a ideia de que isso poderia ser comentado ou posto em dúvida por humanos, especialmente testemunhas oculares contemporâneas .

Alguns certamente sustentaram que tal conflito não poderia surgir e que, pelo contrário, os textos da Assíria certamente nos dariam uma compreensão mais ampla e profunda dos eventos conhecidos da Bíblia, sem de forma alguma tirar a veracidade do texto sagrado.

(…)

No entanto, o medo de um choque entre duas tradições textuais dominou os primeiros comentários, embora houvesse outro medo, talvez mais profundo, de que a Bíblia pudesse acabar sendo vista como de alguma forma “poluída” por um contato muito próximo com uma tradição pagã, mesopotâmica . Afinal, os judeus eram parte de um continuum cultural de um mundo antigo vagamente visível. Tipicamente Strauss em sua biografia de Jesus apontou que a Bíblia se originou em uma ‘condição espiritual’ que pertencia ao antigo mundo oriental, e era lógico, e tentador, procurar laços estreitos, também com respeito às tradições religiosas, entre a Bíblia hebraica e este mundo primitivo. Strauss pôde expressar tais convicções em uma época em que ainda nada era realmente conhecido sobre a antiga Mesopotâmia, um fato que ressalta a potencial veemência da controvérsia.

De fato, já em 1847 Layard recebeu a primeira pista das dificuldades que poderiam surgi, pois Rawlinson pôde informá-lo sobre as opiniões dos membros da Igreja Anglicana sobre suas atividades em Nimrud: “Eles me escreveram da Inglaterra dizendo que as antiguidades assírias despertavam grande interesse e que o clero ficou completamente alarmado com a ideia de haver anais contemporâneos para testar a credibilidade da história judaica. Um irmão meu , de fato , um membro do Exeter College e editor adjunto da ‘Oxford Magazine’ protesta veementemente contra o prosseguimento da pesquisa. Você já ouviu uma bobagem tão descarada?”

Mesmo antes disso, Layard ouviu de seu amigo Miner Kellogg que estava em êxtase com relação à importância potencial de Nimrud para a compreensão adequada do Bíblia: “Você mal pode sonhar com a importância que seus labores solitários podem ter sobre a compreensão correta das partes históricas e proféticas da Palavra Sagrada. Cada imagem que você descobre pode adicionar um elo naquela cadeia de interpretação que agora está sendo desdobrada em relação à significação daquelas passagens até então inexplicáveis e, posso dizer, aparentemente absurdas que abundam nas palavras do Antigo Testamento”.

Diante dessas expectativas e medos, e totalmente ciente da violência e amargura dos conflitos religiosos de seu tempo, Layard teve que agir com muito cuidado em sua interpretação do significado de suas descobertas, principalmente no que diz respeito à questão da cronologia. Ele claramente não era um anglicano ortodoxo, mas também não tinha o desejo de ser muito provocativo ou exibir suas próprias dúvidas religiosas.Mogens Trolle Larsen

Os relevos que foram descobertos diante de seus olhos o levaram, é claro, a especular sobre sua conexão com os relatos bíblicos da Assíria, e ele ficou particularmente impressionado com algumas passagens em Ezequiel que pareciam descrever os relevos assírios em detalhes. A conexão histórica era, portanto, óbvia, mas ele não se sentiu tentado a ir além de tais observações e de um tipo de religiosidade vaga. De fato, ele estava principalmente interessado na Bíblia na medida em que ela pudesse lançar luz sobre suas descobertas – onde outros colocavam a ênfase na direção oposta.

Enquanto os textos permaneceram ilegíveis, era impossível dizer quais eventos históricos e personagens foram retratados nos relevos de qualquer maneira, o que significava que nenhuma ligação firme entre a Assíria e a Bíblia Hebraica poderia ser estabelecida. Está claro em sua carta a Rawlinson, na qual ele escreveu sobre jogar petiscos para os conhecedores, que ele achava impossível localizar suas descobertas no tempo e, portanto, em sua relação com a história judaica. A datação dos palácios e seus construtores permaneceu uma barreira intransponível.

Mesmo assim, seus leitores e ouvintes perceberam claramente que suas descobertas poderiam adicionar séculos ou milênios à história registrada da humanidade. Um comentarista anônimo observou em 1852 que a geologia nos mostrou a Terra ‘Pré-adâmica’ habitada por alguns seres peculiares organizados; a astronomia havia resolvido as luzes bruxuleantes no céu noturno em um sistema de sóis e galáxias e mostrado que estes eram incompreensivelmente antigos. “Toda a ciência está, portanto, nos levando ao passado”, ele escreveu , e apontou que da mesma forma as descobertas de Layard tornaram disponível ao homem moderno um mundo que há muito havia perecido. No entanto, as ruas dessas cidades antigas podiam ser percorridas novamente, os palácios poderosos podiam ser adentrados e examinados, assim como os templos onde os antigos reis adoravam e os túmulos onde eles haviam sido sepultados.

Arqueologia: as 10 maiores descobertas de 2024

Na opinião de Todd Bolen do BiblePlaces Blog.

Top 10 Discoveries of 2024 – By Todd Bolen: December 30, 2024

Ele diz:

Esta pesquisa de fim de ano é minha tentativa de revisar, organizar e destacar o que foi mais importante [na arqueologia] em 2024.O arqueólogo da IAA Jacob Sharvit ( à esquerda ) e a líder ambiental da Energean, Karnit Bahartan, examinam dois jarros de armazenamento cananeus após serem recuperados do fundo do mar Mediterrâneo em 30 de maio de 2024.

Começarei com as “10 principais descobertas” relacionadas à arqueologia bíblica, priorizando descobertas feitas em Israel e no período bíblico em detrimento daquelas feitas em regiões vizinhas e períodos posteriores.

Esta pesquisa também inclui algumas das histórias mais controversas do ano e outros relatórios dignos de nota de Jerusalém, Israel e do mundo bíblico mais amplo. Temos uma seção de principais histórias relacionadas ao turismo, bem como histórias relacionadas ao comércio de antiguidades e vandalismo.

No final destacamos os melhores recursos impressos e digitais que observamos este ano, bem como as mortes de pesquisadores influentes do mundo do Antigo Oriente Médio e da Bíblia. Nossa pesquisa conclui com links para outras listas top 10.

 

I find it easy to get lost in the trees of weekly roundups and not be able to quickly recall what stood out above the rest. This end-of-the-year survey is my attempt to review, organize, and highlight what was most important in 2024.

I’ll start with the “Top 10 Discoveries” related to biblical archaeology, prioritizing items made in Israel and in the biblical eras over those made in surrounding regions and later periods.

This survey also includes a couple of the most controversial stories of the year and other noteworthy reports from Jerusalem, Israel, and the broader biblical world. We have a section of top stories related to tourism, as well as stories related to the antiquities trade and vandalism.

Near the end, we highlight the best print and digital resources we noted this year, as well as the deaths of influential figures. Our survey concludes with links to other top 10 lists.

Layard e Botta em Nínive em 1842

Estes são trechos do capítulo 1, The Mounds of Nineveh, do livro de Mogens Trolle Larsen, The Conquest of Assyria: Excavations in an Antique Land, 1840-1860. New York: Routledge, [1996] 2016.

Veja uma apresentação do livro no post A escavação arqueológica da Assíria, publicado no Observatório Bíblico em 17.08.2024. O capítulo 1, The Mounds of Nineveh,LARSEN, M. T. The Conquest of Assyria: Excavations in an Antique Land, 1840-1860. New York: Routledge, [1996] 2016, 424 p. pode ser lido na íntegra, em inglês, clicando aqui. Ou, na amostra do livro, aqui.

Layard chega a Mossul

Em um dia de calor escaldante de junho de 1842, dois cavaleiros chegaram aos portões de Mossul, uma cidade provincial no Império Otomano. Eles vinham de Bagdá, no sul, por uma estrada que os levou através da terra fértil a leste do Tigre. Eles chegaram a Mossul cruzando uma ponte frágil de barcos que conectava a cidade na margem ocidental com as aldeias do outro lado do Tigre.

Um dos homens era um carteiro turco que estava a caminho de Constantinopla, a mais de dois mil quilômetros de distância, com correio imperial oficial. O outro era um jovem vestido como um bakhtiyari, uma tribo que vivia no Cuzistão, a região montanhosa do sudoeste do Irã. No entanto, um olhar mais cuidadoso logo perceberia que ele era um europeu. E, de fato, depois de ter se separado de seu companheiro de viagem, que entrou no palácio do paxá local, ele foi direto para o vice-consulado britânico, onde foi recebido como um velho amigo. Ele era o aventureiro britânico de vinte e cinco anos, Austen Henry Layard.

Layard encontra Botta

No mesmo dia, ele foi apresentado ao novo cônsul francês em Mossul, Paul-Émile Botta, de quarenta anos, e o encontro entre esses dois teve um significado muito especial, pois pode-se dizer que marcou o início da exploração arqueológica da antiga Mesopotâmia. Botta e Layard estavam destinados a se tornarem os descobridores da antiga Assíria.

O que levou Botta e Layard a este lugar esquecido por Deus? O encontro deles foi acidental, nenhum deles conhecia o outro antes de se conhecerem em Mossul, mas descobriram que tinham interesses em comum. Layard estava a caminho de Constantinopla levando correspondência oficial britânica, mas como seu companheiro tinha negócios a tratar com o Paxá, eles tiveram que ficar na cidade por alguns dias. Isso deu a Layard a oportunidade de conhecer Botta, que era o cônsul francês recentemente nomeado em Mossul.

Botta e Layard em Nuniya

Eles não estavam realmente interessados em Mossul, mas olhavam com fascínio para os montes que estavam localizados do outro lado do rio, na margem oriental do Tigre. Uma série de enormes muralhas circundam uma área retangular de alguns quilômetros de comprimento e largura, e neste recinto ficavam alguns montes bem grandes. Os moradores locais chamavam toda a área de ‘Nuniya’, e acreditava-se que ali estava Nínive, a antiga capital assíria.

Hoje, esse nome provavelmente significa pouco para a maioria das pessoas, mas no século XIX ele ressoaria na mente de qualquer europeu razoavelmente educado, que conheceria as histórias sobre esta cidade do Antigo Testamento e de uma série de lendas contadas por autores clássicos. Nínive tinha sido o centro de um dos maiores e mais importantes impérios do mundo antigo, cujo poder, segundo a tradição, cobria todo o antigo Oriente Médio, incluindo a Palestina e o Egito. Era também, no entanto, um império que não havia deixado nenhum vestígio concreto para trás. A Assíria havia desaparecido, deixando nada além de mitos e lendas.

Exceto que havia esses vastos montes perto de Mossul, que, de acordo com a lenda local, cobriam as ruínas da cidade antiga. Essa tradição era de fato conhecida pelos eruditos da Europa , aqueles poucos que tinham ouvido falar do lugar, mas nunca foi uma informação que tivesse sido vista como particularmente importante ou interessante.

Layard já tinha visto os montes alguns anos antes, quando estava a caminho do sul em direção a Bagdá, e ele tinha ficado “profundamente comovido por sua grandeza desolada e solitária”. Ele agora revisitou Nínive na companhia de Botta e ouviu com excitação e ciúmes que o francês havia sido colocado em Mossul com o propósito de iniciar escavações na cidade antiga.

Nínive na Bíblia Hebraica

Botta e Layard vagavam pelos grandes montes próximos a Mossul envolvidos em especulações. O que estava escondido no chão sob seus pés? Esta era realmente a Nínive mencionada no Antigo Testamento? Lá a cidade aparece como a poderosa capital dos assírios, de onde seu império era governado, lar de reis como Tiglat-Pileser III, Salmanasar, Senaquerib e Assaradon*.

No Livro de Jonas [ca. 450 a.C.] lemos que Nínive era uma grande cidade, com uma população estimada em mais de cem mil habitantes.

Como capital dos assírios que atormentaram Judá e Israel, Nínive naturalmente não foi mencionada de forma positiva na Bíblia Hebraica. O profeta Naum [ca. 612 a.C.] canta um hino de puro êxtase pela destruição final de Nínive, na sua visão, uma cidade manchada de sangue, mergulhada em enganos, cheia de pilhagens, nunca vazia de presas.

Muitas outras passagens no Antigo Testamento expressam o mesmo ódio insondável aos assírios e sua enorme capital, pois foi daqui que começaram as campanhas intermináveis que acabaram por esmagar Israel e enviar os israelitas para o exílio em outras províncias do império assírio.

Xenofonte passou por lá em 401-400 a.C.

Como todos os europeus razoavelmente bem-educados, Botta e Layard conheciam os clássicos gregos e romanos. Eles sabiam que o primeiro relato das ruínas assírias foi dado pelo general grego Xenofonte, que liderou dez mil mercenários para a Babilônia e de volta nos anos 401-400 a.C.

Paul Émile Botta (1802-1870)Seu exército acampou uma noite em sua viagem de volta perto do Tigre em uma ruína que ele chama de “Larissa”, que deve ser o monte agora conhecido como Nimrud, um lugar que ocupa um papel central neste livro. Xenofonte pensou que esta “grande cidade deserta” havia sido construída pelos medos e pelo povo iraniano. No dia seguinte, o exército chegou a outra ruína que, Xenofonte descreveu como “uma grande fortificação indefesa perto de uma cidade chamada Méspila”. Este nome deve ser uma versão estranha de ‘Mossul’ e as ruínas que ele descreveu devem ser as mesmas que ocuparam Botta e Layard.

Xenofonte pode dar essa descrição seca e factual, mas ele nem sabe o nome do local. No entanto, ele esteve aqui apenas duzentos anos após a queda de Nínive, que aconteceu em 612 a.C., quando uma força combinada de medos e babilônios assaltou suas muralhas e destruiu a cidade. Parece que no curto espaço de tempo Nínive foi esquecida e que, embora as ruínas em si dificilmente pudessem ser esquecidas, os nomes antigos dessas cidades, para não falar de sua história, desapareceram da memória comum.

Benjamim de Tudela: 1173

Um visitante da Europa, o rabino Benjamim de Tudela, passou por lá em 1173 e viu as ruínas de Nínive – “agora bastante decrépitas” – e mais alguns as visitaram depois dele, como Riccoldo da Monte di Croce (1290), Leonhard Rauwolf (entre 1573 e 1576), Anthony Sherley (1599), John Cartwright (1601), Pietro della Valle (1616-25) e J. B. Tavernier (1644).

Carsten Niebuhr: 1766

Em março de 1766, cerca de setenta e cinco anos antes de Botta e Layard se encontrarem em Mossul, Carsten Niebuhr passou alguns dias aqui em seu caminho para casa da desastrosa expedição dinamarquesa à Arábia Félix. Sabemos que Botta leu o grande relato desta viagem publicado por Niebuhr, mas não está claro se Layard ouviu falar dele.

Niebuhr fornece um mapa de Mossul que mostra uma área que ele chama de Nínive do outro lado do rio. Ele assinalou os dois grandes montes: o menor ao sul é mostrado como uma vila moderna, que leva o nome de ‘Nuniya’, enquanto o maior ao norte é chamado de ‘Kalla Nuniya’, ou seja, ‘o Castelo de Nínive’. Niebuhr diz que havia uma vila localizada também neste monte e era chamada de ‘Koindsjug’. Este é obviamente o mesmo nome que é dado atualmente ao monte como tal, ‘Kuyunjik’, sob o qual ele aparece na literatura arqueológica.

As longas linhas de fortificações, as vastas muralhas da antiga Nínive, não podem ser encontradas no mapa de Niebuhr. Elas circundam toda a área e foram a única característica notada por Xenofonte, mas Niebuhr simplesmente não as viu quando atravessou a área a caminho de Mossul. Ele provavelmente os considerou inicialmente como colinas naturais e, como nunca teve oportunidade de medi-los cuidadosamente, naturalmente teve que ignorá-los em seu mapa. Como um filho do Iluminismo, ele não podia simplesmente inventar ou adivinhar e desenhar algumas linhas onde eles poderiam ter estado.

Ele dá uma visão especial da vila que ele chama de Nuniya, que ele diz ter sido construída ao redor de uma mesquita que, de acordo com a tradição judaica e muçulmana, continha o túmulo do profeta Jonas. Esta é outra memória da antiga Nínive, é claro, pois Jonas fora enviado por Deus a Nínive para alertar seus habitantes a abandonarem suas vidas pecaminosas.

Claudius Rich: 1820

O desenho e o mapa de Niebuhr, embora não muito corretos ou esteticamente agradáveis, foi um grande avanço, mas o estudo real do local começou com Claudius Rich que era o “Residente” em Bagdá, onde representava os interesses da grande Companhia das Índias Orientais no início do século XIX.

Em 1820 , ele fez medições cuidadosas de toda Nínive e produziu um mapa notavelmente preciso no relatório que foi publicado em 1836, após sua morte. Aqui encontramos os principais montes e as fortificações, muros que cercam uma área enorme e que são facilmente rastreáveis na paisagem. Encontramos os dois montes agora chamados Kuyunjik e Nebbi Yunus, isto é, o nome árabe para o monte sul, que significa “o Profeta Jonas”.

Rich conta que lhe disseram que os habitantes locais haviam, alguns anos antes, encontrado “um imenso baixo-relevo, representando homens e animais, cobrindo uma pedra cinza da altura de dois homens”. Ele também diz que “toda a cidade de Mossul saiu para vê-lo, e em poucos dias ele estava cortado ou quebrado em pedaços”.

Em Nebbi Yunus, ele viu grandes blocos de pedra com inscrições em algumas casas, alguns deles aparentemente ainda em seus lugares originais. Um deles, um pedaço de uma laje de alabastro com escrita cuneiforme, estava localizado na cozinha de uma casa miserável, e parecia ser parte da parede em uma pequena passagem que dizem continuar bem para dentro do monte. Algumas pessoas cavaram nele no ano passado, mas como ele passava por baixo das casas e eles estavam preocupados em não miná-las, eles o encheram novamente com entulho e apenas a parte da passagem que estava completamente aberta, e que faz parte da cozinha, pode agora ser vista.

Rich passou muitos anos em Bagdá e visitou ruínas em todo o país que hoje é o Iraque, fazendo medições e coletando achados. Ele já havia publicado um livreto contendo suas medições das ruínas da Babilônia. Ele conseguiu reunir uma pequena coleção de antiguidades do país, e após sua morte isso foi vendido ao Museu Britânico por sua viúva. Ali as antiguidades foram exibidas em uma caixa de vidro como um dos poucos testemunhos concretos da existência das culturas antigas na Assíria e na Babilônia. Layard tinha visto a coleção no museu, e sabemos que a publicação do livro de Rich teve um papel na decisão tomada pelas autoridades francesas de enviar Botta a Mossul para escavar Nínive.

Um pouco se sabia sobre a antiga Assíria

Assim, um pouco se sabia sobre a antiga Assíria, mas a caixa de vidro no Museu Britânico não conseguiu preparar ninguém para a realidade de Mossul. A desolação total de Nínive, e das outras ruínas antigas em toda a Mesopotâmia, as havia condenado ao silêncio, mesmo na já extensa literatura europeia preocupada com as ruínas do antigo Oriente Médio. Simplesmente não havia nada para ver aqui, apenas montes cobertos de grama, e nenhum vestígio que pudesse evocar memórias de grandeza passada. Em Nínive o visitante precisava de uma imaginação muito viva para evocar imagens de esplendor e beleza dos montes silenciosos e estranhamente anônimos.

Layard vagou entre colinas cobertas de grama e campos de milho cercados por longas fileiras de muros desmoronados, imaginando se eram realmente os restos de Nínive. E se fossem, o que então estava escondido no subsolo? Aqui devem estar os palácios gloriosos do rei assírio e os templos de seus deuses, e talvez fosse possível descobrir um pouco de tudo isso, encontrando evidências concretas de um passado que havia deixado tão poucos vestígios que parecia pertencer ao reino do mito e não do fato.

Uma tarefa gigantesca

A tarefa contemplada por Botta e Layard era muito mais complicada do que eles poderiam imaginar. A arqueologia de campo estava em sua mais tenra infância na Europa, e é obviamente uma proposta muito mais simples enfrentar um túmulo da Idade do Bronze do que começar em um monte que cobre as ruínas de uma cidade inteira.

A diferença em tamanho por si só é impressionante: Kuyunjik tem cerca de 15 m de altura e quase um quilômetro de comprimento, e Nebbi Yunus não é muito menor. Toda a área cercada pelos muros de Nínive tem cerca de 2,5 km de largura e cerca de 5 km de comprimento. Escavar um monte como Kuyunjik em sua totalidade usando técnicas adequadas de registro e escavação é uma tarefa que exigiria séculos para uma força de trabalho substancial. No entanto, eles estavam sonhando com uma descoberta total da cidade antiga.

No sul da Itália, um tipo de escavação já havia sido conduzida por um longo tempo nos sítios de Pompeia e Herculano, e é provável que Botta e Layard vissem sua tarefa como comparável ao trabalho realizado lá. No entanto, as duas cidades romanas estavam cobertas por lava e cinzas em chamas que as selaram em uma espécie de distorção temporal. Escavá-las era simplesmente uma questão de remover a cobertura, revelando as ruínas por baixo.

Os montes assírios constituíam um tipo de desafio bem diferente, pois um sítio como Kuyunjik é o resultado da atividade de milênios. As pessoas viviam aqui praticamente desde sempre, e o monte contém os restos de construções em um padrão complexo, situados uns sobre os outros, ruínas de vilas, cidades, templos e palácios, que se seguiram durante um período de tempo que, neste caso em particular, abrange pelo menos sete mil anos. Às vezes, casas individuais eram derrubadas, as paredes eram empurradas para que uma nova casa pudesse ser construída no local. Em outras ocasiões, todo o assentamento foi destruído e reassentado depois de um tempo. O resultado de todos esses atos e eventos individuais é a criação de uma espécie de bolo insano em camadas construído por um chef confeiteiro louco.

Mas quem pode ver isso, andando por esses montes gramados? Na verdade, havia indicadores, pois algumas aldeias ainda podiam ser encontradas no topo de alguns dos montes antigos. Em alguns casos, cidades inteiras ainda estavam empoleiradas em um monte, dando uma indicação de como elas tinham sido acumuladas – enquanto, ao mesmo tempo, obviamente impediam os arqueólogos de fazerem suas tarefas.

No entanto, é razoável sustentar que Botta e Layard realmente não podiam saber que quebra-cabeça complexo e intrincado estava escondido sob seus pés. Botta já havia começado sua tarefa arqueológica antes da chegada de Layard e havia se dado conta das dificuldades de sua empreitada, embora os primeiros problemas que ele enfrentou não fossem realmente de natureza arqueológica.

Botta investiga Nebbi Yunus

Ele havia colocado alguns trabalhadores em Nebbi Yunus para investigar as antigas fundações de pedra que, como Rich havia visto, regularmente aparecia embaixo deAusten Henry Layard (1817-1894) casas modernas , mas ele teve que desistir desse trabalho por causa da oposição violenta tanto do Paxá quanto dos líderes religiosos locais, que temiam que suas atividades pudessem violar ou destruir a mesquita sagrada com o túmulo do profeta Jonas. Essa oposição motivada religiosamente se tornaria um verdadeiro pesadelo para ambos os homens nos anos que se seguiram.

Quando ele começou suas atividades arqueológicas, Botta tinha pouco para prosseguir. As investigações de Rich ajudaram, é claro, e seu relato deixou claro que ruínas de fato existiam aqui, então havia razão para confiar na visão tradicional de que esta era Nínive. Mas o que exatamente ele deveria procurar? Havia muitas histórias sobre pedras com imagens e escritas estranhas, mas onde elas estavam? Quando Layard chegou a Mossul, Botta não conseguiu mostrar resultados de seus esforços até então.

Tendo sido forçado a abandonar Nebbi Yunus, ele pareceu hesitante ao enfrentar o desafio de Kuyunjik, então se concentrou por algum tempo em coletar antiguidades e reunir informações sobre onde descobertas haviam sido feitas anteriormente. Mesmo neste campo, seus resultados foram modestos, e ele estava convencido de que muito poucas descobertas tinham de fato sido feitas nas proximidades de Mossul. Ele concluiu que Rich havia coletado a maioria das antiguidades que tinham sido descobertas aqui.

Em sua visita anterior à área, Layard ficou especialmente fascinado por um enorme monte conhecido como Nimrud, que ficava perto do Tigre, ao sul de Mossul. Ele parou aqui e sonhou em descobrir os palácios do passado que ele estava convencido de que estavam escondidos aqui. Desde aquela visita, ele viu muitas outras ruínas na Babilônia ao sul e nas montanhas iranianas, e teve várias oportunidades de falar com pessoas profundamente interessadas no passado do país. Portanto, ele tinha muito a dizer a Botta e parece provável que o entusiasmo do jovem inglês ajudou a manter as atividades de Botta vivas.

A breve visita de três dias tornou-se o início de uma amizade pessoal entre dois homens que obviamente se admiravam e respeitavam. O relacionamento deles era livre tanto da rivalidade pessoal quanto nacionalista-chauvinista que viria a marcar o trabalho dos arqueólogos na antiga Mesopotâmia durante os anos que se seguiram.

Layard foi para Constantinopla – onde permaneceu como membro da equipe do embaixador. Enquanto ele mergulhava em novas aventuras na capital turca, Botta continuou suas atividades infrutíferas e regularmente escrevia a Layard sobre seu trabalho. Ele, por sua vez, tentou encorajar Botta a continuar e sugeriu que ele tentasse sua sorte em Nimrud.

Botta investiga Kuyunjik

Em dezembro de 1842, meio ano após a visita de Layard, Botta finalmente colocou um grupo de trabalhadores em Kuyunjik , onde eles cavaram algumas trincheiras, mas mesmo aqui ele não teve sorte. Somos informados de que ele não encontrou nada, o que significa que ele só encontrou coisas que não significavam nada para ele: cacos de cerâmica, fragmentos de pedra, tijolos, às vezes com inscrições. Era impossível reconhecer um plano ou qualquer construção na perturbação caótica de
edifícios que outrora coroaram este local.

Cacos de cerâmica, o mais importante grupo de achados para o arqueólogo moderno, nada diziam para Botta ou seus trabalhadores. Eles tinham que encontrar algo monumental para simplesmente se tornarem cientes de que havia algo para encontrar e, para começar, Nínive não ofereceu nada útil. Portanto , ele tinha pouco a contar em suas cartas a Layard.

Botta escava Khorsabad

Foi somente em abril do ano seguinte, 1843, que ele pôde escrever algo verdadeiramente positivo sobre suas atividades. Porém, por outro lado, era uma mensagem sensacional que ele pôde enviar: ele finalmente havia descoberto a antiga Assíria!

Já quando seus trabalhadores começaram a escavar em Kuyunjik, ele recebeu a visita de um homem que veio de uma vila chamada Khorsabad. Ele explicou que este assentamento, a cerca de 25 km de Mossul, foi construído no topo de um monte e que pedras com figuras e inscrições foram descobertas ali em várias ocasiões. Botta recebia muitas dessas visitas e ouvia histórias que sempre acabavam sendo pura imaginação, então ele não levou a sério o homem de Khorsabad. Em março, após meses de trabalho infrutífero em Kuyunjik, ele ficou tão frustrado que ele decidiu descobrir se havia alguma realidade por trás da história.

Ele enviou uma equipe de trabalhadores para Khorsabad, onde eles deveriam cavar alguns buracos, e três dias depois ele recebeu uma mensagem dizendo que eles haviam encontrado relevos e inscrições. Mesmo assim, Botta estava cético e enviou um de seus funcionários para fazer um desenho de uma dessas inscrições, e foi somente quando ele retornou com algo que parecia genuíno que Botta finalmente decidiu mudar suas operações para Khorsabad.

Em 5 de abril, ele pôde enviar uma carta a Paris na qual anunciava que tinha descoberto ‘as ruínas de um monumento que é notável tanto pelo número como a natureza das esculturas que o adornam’. Triunfantemente ele pôde concluir: ‘Acredito ser o primeiro a descobrir esculturas que podem ser consideradas pertencentes à época em que Nínive ainda estava florescendo’.

Esta mensagem, que Botta enviou a Paris através de Constantinopla, onde Layard a leu com entusiasmo, tornou-se o início de uma fase agitada de descobertas com escavações em vários montes por todo o país. Uma civilização que havia desaparecido subitamente emergiu do solo.

* A Assíria teve 4 capitais:

1. Assur: capital da Assíria desde o II milênio a.C. e cidade de grande importância religiosa ao longo de toda a sua história
2. Kalhu (Nimrud), escolhida como capital por Assurnasírpal (reinou de 883 a 859 a.C.)
3. Dur-Sharrukkin (Khorsabad), construída por Sargão II a partir de 713 a.C.
4. Nínive, escolhida como capital por Senaquerib (reinou de 705 a 681 a.C.)

Algumas referências**

BOTTA, P. E. M. Botta’s Letters on the Discoveries at Nineveh. London: Forgotten Books, 2018.

GUINSBURG, J. O Itinerário de Benjamim de Tudela. São Paulo: Perspectiva, 2017.

LAYARD, A. H. Autobiography and Letters from his childhood until his appointment as H.M. Ambassador at Madrid. London: Forgotten Books, 2019.

NIEBUHR, C. Travels Through Arabia and Other Countries in the East. Norderstedt: Hansebooks, 2018.

RICH, C. J. Narrative of a Residence in Koordistan, and On the Site of Ancient Nineveh, 2 vols. Legare Street Press, 2022-2023.

XENOFONTE A retirada dos dez mil. Lisboa: Bertrand Editora, 2014.

**Estas obras antigas podem, em geral, ser acessadas gratuitamente na internet. Tente aqui.

A escavação arqueológica da Assíria

LARSEN, M. T. The Conquest of Assyria: Excavations in an Antique Land, 1840-1860. New York: Routledge, [1996] 2016, 424 p. – ISBN 9781138991620.

Até meados do século XIX, o passado mesopotâmico não era apenas distante e exótico, mas estava envolto em mitos e lendas, e nenhuma evidência concreta de suaLARSEN, M. T. The conquest of Assyria: excavations in an antique land, 1840-1860. New York: Routledge, [1996] 2016, 424 p. existência podia ser encontrada em nossos museus. No entanto, os nomes de reis como Senaquerib e Tiglat-Pileser, ou de cidades como Babilônia e Nínive, faziam parte da bagagem intelectual de europeus cultos – embora hoje não sejam significativos nem mesmo para a maioria dos acadêmicos.

A razão de sua antiga proeminência foi sua importância no mundo do Antigo Testamento, um livro que dominou o mundo da Europa do século XIX. Assim, quando essas cidades e reis, de repente, se tornaram realidade concreta, à medida que palácios cheios de tesouros, relevos e textos emergiam dos montes da Assíria, é compreensível que o interesse público fosse enorme.

Desde então, as disciplinas de Arqueologia do Antigo Oriente Médio e da Assiriologia, que se desenvolveram com base no fluxo contínuo de novas evidências das culturas antigas da Mesopotâmia, afastaram-se em grande medida dos seus laços com os estudos bíblicos. A tentativa agora é estudar e compreender a Assíria e a Babilônia em seus próprios termos, como complexos culturais e históricos de interesse por direito próprio, e que não devem ser vistos principalmente como provedores de material comparativo e ilustrativo para o estudo da Bíblia.

Essa emancipação disciplinar, necessária e óbvia, removeu até certo ponto a ampla base de interesse público que essas atividades desfrutavam e talvez tenha diminuído suas possibilidades de estabelecer uma conexão com os interesses e problemas contemporâneos. Os pioneiros, que são o assunto deste livro, tiveram um ponto de partida mais fácil do que nós quando se esforçaram para interessar seu próprio tempo em suas conclusões sobre o caráter e o significado das culturas antigas, e sua excitação e absorção nesses assuntos animam e energizam suas descrições.

Uma das consequências desse sentimento de relevância óbvia para as novas descobertas em uma estrutura religiosa e intelectual europeia foi a apropriação do mundo antigo para formar a base para a história do Ocidente. Aqui estava o “berço da civilização”, civilização sendo, claro, a Europa, e dessa forma essas disciplinas acadêmicas, até certo ponto, podem ser vistas como as “enteadas do imperialismo”. O que deu às descobertas mesopotâmicas seu interesse peculiar foi o sentimento de que os arqueólogos estavam caçando o próprio começo da história humana, conforme percebido à luz dos escritos sagrados. Ao mesmo tempo, foi enfatizado, repetidamente, que os restos antigos não significavam nada para os árabes locais. Essas cidades dos mortos ficaram escondidas na areia por milênios, ignoradas por aqueles que passavam por elas ou montavam suas tendas em cima delas.

Este livro é sobre o “estranho de olhos brilhantes do Frangistão” que falava inglês e que quebrou o silêncio oriental, Austen Henry Layard, bem como sobre os outros pioneiros, Paul-Émile Botta, Hormuzd Rassam, Henry Rawlinson e Victor Place, que na Assíria encontraram o que era visto como parte da herança histórica da Europa, apesar da percepção de que sua arte era estranha e primitiva.

As vidas e atividades desses homens nos apresentam uma imagem da Europa e do Oriente Médio no século XIX. A base para sua compreensão e interpretação do que eles desenterraram estava, é claro, enraizada em seu tempo, suas percepções e preconceitos. No entanto, suas descobertas também se tornaram parte daquela grande revolução intelectual que varreu a Europa na segunda metade do século XIX, quando descobertas científicas e acadêmicas mudaram a visão de mundo tradicional herdada e lançaram as bases para nossa própria compreensão do mundo (Trechos do Prefácio).

No começo do capítulo 1, The Mounds of Nineveh, leio:

Em um dia de calor escaldante de junho de 1842, dois cavaleiros chegaram aos portões de Mossul, uma cidade provincial no Império Otomano. Eles vinham de Bagdá, no sul, por uma estrada que os levou através da terra fértil a leste do Tigre. Eles chegaram a Mossul cruzando uma ponte frágil de barcos que conectava a cidade na margem ocidental com as aldeias do outro lado do Tigre.

Um dos homens era um carteiro turco que estava a caminho de Constantinopla, a mais de dois mil quilômetros de distância, com correio imperial oficial. O outro era um jovem vestido como um bakhtiyari, uma tribo que vivia no Cuzistão, a região montanhosa do sudoeste do Irã. No entanto, um olhar mais cuidadoso logo perceberia que ele era um europeu. E, de fato, depois de ter se separado de seu companheiro de viagem, que entrou no palácio do paxá local, ele foi direto para o vice-consulado britânico, onde foi recebido como um velho amigo. Ele era o aventureiro britânico de vinte e cinco anos, Austen Henry Layard.

No mesmo dia, ele foi apresentado ao novo cônsul francês em Mossul, Paul-Émile Botta, de quarenta anos, e o encontro entre esses dois teve um significado muito especial, pois pode-se dizer que marcou o início da exploração arqueológica da antiga Mesopotâmia. Botta e Layard estavam destinados a se tornarem os descobridores da antiga Assíria.

Mogens Trolle Larsen é professor emérito de assiriologia na Universidade de Copenhague, Dinamarca.

 

Da resenha de Paul Zimansky, Bulletin of the American Schools of Oriental Research, n. 313 (1999), p. 92-95:

A obra de Mogens Trolle Larsen, uma história da descoberta das capitais neoassírias e da decifração da escrita cuneiforme, pode ser apreciada como uma história de aventura, mesmo por aqueles que não têm interesse nesta área.

The Conquest of Assyria trata de um período de menos de duas décadas, começando em 1842 e terminando em meados da década de 1850. Seu tema central é a carreira arqueológica de Austen Henry Layard, embora as outras figuras-chave na redescoberta do Império Assírio – Botta, Hincks, Rassam e Rawlinson – não sejam negligenciadas.

Mogens Trolle Larsen The Conquest of Assyria pode ser visto como um complemento útil para os próprios relatos clássicos de Layard, uma vez que é necessário um intérprete do julgamento sólido e da experiência moderna de Larsen para entender o que as primeiras expedições na Assíria realmente realizaram. Layard tinha apenas o testemunho remoto e hostil da Bíblia e fontes clássicas de terceira mão e não confiáveis, como Diodoro Sículo, para interpretar suas descobertas. Ele não tinha a mínima ideia de como datar qualquer coisa e os textos cuneiformes que ele descobriu eram, na maior parte, ilegíveis. Em suma, sem os serviços de um guia, ao ler Layard, o leitor moderno perde muito.

The Conquest of Assyria conta uma história familiar com melhor equilíbrio e mais detalhes do que já foi contada antes. Seu autor é um assiriologista talentoso que escreve tão bem quanto qualquer jornalista, mas é menos propenso a erros. Este trabalho é adequado para permanecer como o tratamento básico sobre o assunto por algum tempo e merece um público amplo.

Da resenha de Zainab Bahrani, Journal of the American Oriental Society, vol. 118, n. 4 (1998), p. 573-574:

Larsen não disfarça sua intensa admiração por Layard e escreve o livro como uma biografia do homem: sua infância, suas aventuras, seus amores, seus triunfos e tribulações. O material de origem são os próprios trabalhos publicados de Layard e uma série de cartas não publicadas na British Library, que fornecem informações novas e interessantes sobre Layard e seus pontos de vista.

No entanto, Larsen frequentemente lê os textos de Layard sem analisá-los criticamente, falhando, assim, em considerar que eles foram escritos para impressionar um público, na esperança de levantar fundos, ao descrever aventura e perigo em uma terra desconhecida. Suas cartas também são apresentadas de forma semelhante. O desprezo de Larsen pela motivação de Layard, na verdade, transforma sua própria narrativa em uma hagiografia.

Apesar disso, ele fornece uma boa quantidade de informações sobre a recepção da arte assíria no Ocidente. Ele enfatiza corretamente que as primeiras escavações foram realizadas com o único propósito de abastecer o British Museum e o Louvre, e que a competição entre essas duas instituições era uma disputa de ambição imperial.

O livro é escrito em um estilo que imita a literatura de viagem britânica do século XIX. Layard é denominado “nosso jovem herói”, um recurso narrativo usado no literatura romântica inglesa. Essa técnica narrativa do século XIX também afeta o conteúdo do livro. Descrições orientalizantes da Mesopotâmia como “infinita, monótona e plana” ou “decrépita”, “não é um lugar agradável para se passar o verão, ou qualquer outra época do ano” são do próprio Larsen. Ao participar do mundo que ele está reconstruindo, Larsen parece desinteressado nos resultados de pesquisas recentes nas ciências humanas. Na verdade, ele parece desconhecer todo o campo da crítica pós-colonial.

Aqueles que esperam este livro como o primeiro da fila de análises críticas da disciplina ficarão desapontados. Mas como um conto de aventura e mistério, o livro é bem-sucedido. O público em geral apreciará a história de como o cuneiforme veio a ser decifrado ou a explicação do que é um zigurate. Como um trabalho acadêmico, no entanto, o livro acende um alerta por sua adoção de estereótipos que todos nós desejamos deixar para trás.

 

This book is about the ‘bright-eyed stranger from Frangistan’ who spoke the English word which broke the Oriental silence, Austen Henry Layard, as well as about the other pioneers, Paolo Emilio Botta, Hormuzd Rassam, Henry Rawlinson and Victor Place, who in Assyria found what was seen as part of Europe’s historical heritage, despite its perceived alien and primitive art.

The lives and activities of these men present to us a picture of Europe and the Middle East in the nineteenth century. The basis for their understanding and interpretation of what they unearthed was of course rooted in their time, its perceptions and prejudices. Yet, their discoveries also became part of that great intellectual revolution that swept through Europe in the second half of the nineteenth century, when scientific and scholarly discoveries changed the traditional inherited world view and laid the foundations for our own understanding of the world.

Mogens Trolle Larsen is a Professor Emeritus of Assyriology at the University of Copenhagen, in Denmark.

História e arqueologia de Jerusalém

FINKELSTEIN, I. Jerusalem the Center of the Universe: Its Archaeology and History (1800–100 BCE). Atlanta: SBL Press, 2024, 472 p. – ISBN 9781628374995.

Para algumas tradições religiosas, Jerusalém parece ser o centro do universo. A cidade conquistou enorme importância para três grandes religiões monoteístas.FINKELSTEIN, I. Jerusalem the Center of the Universe: Its Archaeology and History (1800–100 BCE). Atlanta: SBL Press, 2024, 472 p.

Mas como uma cidade localizada às margens do deserto, nas terras altas semiáridas do sul de Israel, com pouca terra agriculturável, alcançou tal domínio?

Para fornecer respostas a esse enigma, Israel Finkelstein coletou vinte e quatro de seus melhores artigos e ensaios cobrindo a Idade do Bronze Médio até o final do período helenístico. Com cuidado crítico e bem informado, ele analisa evidências arqueológicas que frequentemente estão em tensão com o texto bíblico.

Tópicos de especial interesse incluem a arqueologia do século X a.C.; Saul, Davi e Salomão na Bíblia e na arqueologia; a primeira expansão da cidade no século IX; seu crescimento total no final do século VIII ao VII; Jerusalém e Judá sob o Império Assírio; os dias do rei Josias; e as transformações nas eras persa e helenística.

Pequenos adendos atualizam o leitor sobre os desenvolvimentos recentes.

Israel Finkelstein é professor emérito de Arqueologia na Universidade de Tel Aviv e Diretor da Escola de Arqueologia e Culturas Marítimas da Universidade de Haifa, Israel.

Jerusalem is the center of the universe, the hub of the three great monotheistic religions, yet how did a city located on the desert fringe, in the semi-arid southern highlands of Israel with little tillable land achieve such dominance? To provide answers to this enduring riddle, Israel Finkelstein has collected twenty-four of his best articles and essays covering the Middle Bronze Age to the late Hellenistic period. With critical and well-informed care, he analyzes archaeological evidence that often stands in tension with the biblical text. Topics of particular interest include the archaeology of the tenth century BCE; Saul, David, and Solomon in the Bible and archaeology; the first expansion of the city in the ninth century; its full growth in the late eighth to seventh centuries; Jerusalem and Judah under the Assyrian Empire; the days of King Josiah; and transformations in the Persian-Hellenistic era. Short addenda update the reader on recent developments.

Israel Finkelstein is Professor Emeritus of Archaeology at Tel Aviv University and the Head of the School of Archaeology and Maritime Cultures at the University of Haifa.

Ânforas da Idade do Bronze encontradas no litoral de Israel

O naufrágio mais antigo em águas profundas é uma ‘cápsula do tempo’ da Idade do Bronze

Um antigo naufrágio perdido em águas profundas rendeu as primeiras pistas: ânforas de uma era perdida do comércio internacional e da civilização

Por Ilan Ben Zion – 20 de Junho de 2024

A luz dourada do sol incidia sobre as duas ânforas, ainda cobertas de lama marrom, enquanto elas rompiam as ondas do Mediterrâneo. A subida do fundo do mar, a mais de um quilômetro e meio de profundidade e a 90 quilômetros da terra, levou três horas. Foi a primeira luz do dia que viram em pelo menos 3.200 anos, e vieram do únicoO arqueólogo da IAA Jacob Sharvit ( à esquerda ) e a líder ambiental da Energean, Karnit Bahartan, examinam dois jarros de armazenamento cananeus após serem recuperados do fundo do mar Mediterrâneo em 30 de maio de 2024. naufrágio da Idade do Bronze descoberto em águas profundas.

Os arqueólogos recuperaram esses jarros de armazenamento cananeus, apenas dois de um carregamento de dezenas localizado longe da costa norte de Israel, em maio.

“É o único navio deste período encontrado no fundo do mar”, uma das últimas fronteiras da arqueologia , diz Jacob Sharvit, diretor de arqueologia marinha da Autoridade de Antiguidades de Israel. Apenas um punhado de outros navios da Idade do Bronze Recente foram descobertos – todos eles em águas costeiras rasas do Mar Mediterrâneo, inclusive no Mar Egeu.

Sharvit ajudou a liderar uma complexa operação arqueológica no mar, juntamente com a Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA) e a empresa de gás offshore Energean para recuperar os jarros do fundo do mar.

Na Idade do Bronze, as pessoas enviavam estes jarros de armazenamento através do Levante, começando por volta de 2000 a.C., quando o comércio marítimo no Mediterrâneo explodiu.

“Eles são sempre pontiagudos ou arredondados na parte inferior”, por isso balançam com o movimento do navio, mas não tombam e quebram, diz Shelley Wachsmann, especialista em arqueologia náutica da Texas A&M University, que não esteve envolvido na pesquisa.

Essas cerâmicas comuns evoluíram de forma tão consistente ao longo dos séculos que podem ser datadas com segurança com um exame de sua forma e design. Com base no pescoço dos jarros recentemente descobertos, no ângulo pronunciado dos seus ombros e na sua base pontiaguda, estima-se que estas ânforas datam entre 1400 e 1200 a.C., afirmou a IAA num recente comunicado de imprensa.

Naquela época, o navio e a sua tripulação navegavam num mundo de intenso comércio internacional, diplomacia e relativa estabilidade no Mediterrâneo oriental, que era dominado pelos impérios egípcio e hitita. Navios mercantes que transportavam azeite, vinho, minérios, madeira, pedras preciosas e inúmeras outras mercadorias navegavam nos mares entre a Grécia, Chipre, a Anatólia, o Levante e o Egito.

“Este é o momento em que o Mediterrâneo é globalizado”, diz Eric Cline, professor de arqueologia na Universidade George Washington. “Há muito comércio, muita diplomacia e muitas interconexões” entre os impérios egípcio, hitita e assírio e as terras entre eles, diz Cline, cujo livro recém-publicado, After 1177 BC: The Survival of Civilizations, explora as consequências do colapso desta ordem internacional da Idade do Bronze Recente.

Na nossa era de globalização, esta desintegração atrai particular interesse entre os estudiosos que procuram pistas sobre como civilizações estáveis ​​naufragaram no passado.

Os primeiros sinais do naufrágio surgiram em 2023, durante uma pesquisa ambiental que a Energean conduziu antes do desenvolvimento de um novo campo submarino de gás natural. As varreduras de sonar da pesquisa foram destinadas a localizar e proteger pontos críticos ecológicos em águas profundas da construção submarina, diz Karnit Bahartan, líder ambiental da Energean.

Pesquisas submarinas do campo de gás Leviathan, nas proximidades, realizadas em 2016 pela Noble Energy (agora parte da Chevron), revelaram pelo menos nove sítios arqueológicos em águas profundas, incluindo um naufrágio do final da Idade do Bronze. Mas os detalhes das descobertas nunca foram divulgados e os locais nunca foram escavados, de acordo com um relatório do Haaretz em 2020.

“O que estávamos fazendo era procurar áreas sensíveis, habitats sensíveis, qualquer coisa que pudesse valer a pena salvar”, lembra Bahartan.

Um exame mais detalhado dos impactos do sonar revelou que a maioria era lixo moderno, diz Bahartan enquanto folheia as fotografias tiradas por um veículo operado remotamente (ROV). As imagens mostram sacolas plásticas, espreguiçadeiras, tambores de óleo e vaso sanitário de porcelana, com assento incluído. Ocasionalmente, diz ela, ela e seus colegas podem encontrar uma ânfora solitária ou fragmentos de cerâmica.

Mas um sinal do sonar revelou um grande conjunto de frascos projetando-se do fundo do mar. “Eu não sabia se era algo dramático ou não. Então o enviei para a Autoridade de Antiguidades [de Israel]”, diz Bahartan.

A Energean ofereceu ao IAA uma carona a bordo do Energean Star, um navio offshore de abastecimento e construção. A missão dos arqueólogos: recuperar jarros e quaisquer outros artefatos do fundo do mar, 1,8 quilômetros abaixo, para determinar a origem do navio.

A seis horas do porto de Haifa, o Energean Star pairou sobre as coordenadas do naufrágio e um guindaste baixou ao mar um ROV do tamanho de um caminhão, amarelo-canário e preto. Demorou uma hora para descer até o fundo. Aproximando-se do fundo do mar, os operadores lançaram o ROV em direção ao local.

Sharvit ficou paralisado com a transmissão de vídeo na apertada sala de controle: um redemoinho de neve marinha passava correndo na escuridão acima de um fundo marinho indefinido. Em poucos minutos, formas negras projetando-se do sedimento cinza apareceram.

“É uma loucura”, disse Sharvit na época. “Eu não vejo. Eu só ouço meu batimento cardíaco.”

Dezenas de jarros, quase idênticos e com cerca de meio metro de comprimento, agrupados em uma área oblonga de aproximadamente 15 metros de comprimento e 6,5 metros de largura. Escavações limitadas com a draga do ROV indicaram que havia uma segunda camada de jarros abaixo daqueles que saíam do lodo.

Ânforas cananeias da Idade do Bronze Recente, ca. 1300-1200 a.C.O ROV circunavegou os destroços, gravando um vídeo de alta resolução que seria montado em um fotomosaico do local. Sharvit escolheu alguns jarros das bordas que poderiam ser extraídos com o mínimo de perturbação.

Sharvit esperava encontrar os pertences pessoais da antiga tripulação para ajudar a descobrir a origem do navio, mas não encontrou nenhum. O IAA está realizando uma chamada análise petrográfica da cerâmica para tentar identificar de onde ela veio; análises de resíduos e oligoelementos poderiam ajudar a identificar seu conteúdo.

Cline, que não esteve envolvido na missão da IAA nem no seu estudo preliminar, diz que a data proposta “colocaria os destroços mesmo no meio do período mais interligado da Idade do Bronze Recente no Egeu e no Mediterrâneo oriental, o que é emocionante”.

Wachsmann, da Texas A&M, diz que um naufrágio preservado da Idade do Bronze foi uma “descoberta incrível” porque “cada naufrágio é basicamente uma cápsula do tempo. Tudo o que aconteceu naquele navio afundou em um momento.”

A ausência de ação das ondas, tempestades e atividade humana significa que este navio está provavelmente mais bem preservado do que os destroços encontrados perto da costa, diz ele. “Qualquer coisa que tenha ficado enterrada no sedimento sobreviverá lá e provavelmente estará em melhores condições”, acrescenta Wachsmann.

Se algum pedaço do casco sobreviveu, entretanto, não foi visível durante a operação do IAA.

“Aparentemente, o navio virou e afundou”, diz Sharvit. “Presumo que existam alguns restos de madeira do navio enterrados sob a pilha de jarros na lama.”

As escavações em águas profundas são caras, complexas e repletas de problemas técnicos, diz Sharvit, acrescentando que provavelmente não retornará ao local.

“Mesmo que não sejamos nós, outros pesquisadores poderão escavar o navio no futuro”, diz ele.

Ilan Ben Zion é correspondente da Agência France-Presse e jornalista freelancer baseado em Israel.

 

Oldest Deep-Sea Shipwreck Is a ‘Time Capsule’ from the Bronze Age

An ancient shipwreck lost in deep waters has yielded its first clues: amphorae from a lost age of international trade and civilization

By Ilan Ben Zion – June 20, 2024

Golden sunlight fell on the two amphorae, still caked in brown ooze, as they breached the Mediterranean’s waves. Their ascent from the seafloor, more than a mile down and 60 miles from land, had taken three hours. It was the first daylight they had seen in at least 3,200 years, and they came from the only Bronze Age shipwreck discovered in deep waters.

Archaeologists retrieved these Canaanite storage jars, just two from a cargo of dozens located far off northern Israel’s coast in May.

“It’s the only ship from this period that was found in the deep sea,” one of the final frontiers of archaeology, says Jacob Sharvit, director of marine archaeology at the Israel Antiquities Authority. Only a handful of other Late Bronze Age ships have been discovered—all of them in shallow coastal waters of the Mediterranean Sea, including in the Aegean Sea.

Sharvit helped spearhead a complex archaeological operation far offshore, along with the Israel Antiquities Authority (IAA) and offshore gas firm Energean to retrieve the jars from the seafloor.

In the Bronze Age people shipped these storage jars across the Levant starting around 2000 B.C.E., when maritime trade in the Mediterranean exploded.

“They’re always either pointy or rounded at the bottom,” so they rock with ship’s motion but don’t tip over and break, says Shelley Wachsmann, a nautical archaeology expert at Texas A&M University, who was not involved in the research.

These workaday ceramics evolved so consistently over the centuries that they can be reliably dated with an examination of their shape and design. Based on the recently discovered jars’ neck, the pronounced angle of their shoulders and their pointed base, these amphorae are estimated to date to between 1400 and 1200 B.C.E., the IAA said in a recent press release.

At that time, the ship and its crew sailed a world of prolific international trade, diplomacy and relative stability in the eastern Mediterranean, which was dominated by theO arqueólogo da IAA Jacob Sharvit ( à esquerda ) e a líder ambiental da Energean, Karnit Bahartan, examinam dois jarros de armazenamento cananeus após serem recuperados do fundo do mar Mediterrâneo em 30 de maio de 2024. Egyptian and Hittite empires. Merchant ships carrying olive oil, wine, ores, timber, precious stones and numerous other goods plied the seas between Greece, Cyprus, Anatolia, the Levant and Egypt.

“This is the time that the Mediterranean is globalized,” says Eric Cline, a professor of archaeology at George Washington University. “You’ve got lots of commerce, lots of diplomacy and lots of interconnections” between the Egyptian, Hittite, and Assyrian empires and the lands between them, says Cline, whose newly published book, After 1177 B.C.: The Survival of Civilizations, explores the aftermath of the collapse of this Late Bronze Age international order.

In our own era of globalization, this disintegration draws particular interest among scholars looking for clues into how stable civilizations foundered in the past.

The first signs of the shipwreck surfaced in 2023, during an environmental survey that Energean conducted ahead of its development of a new undersea natural gas field. The survey’s sonar scans were meant to locate and protect deep-sea ecological hotspots from undersea construction, says Karnit Bahartan, Energean’s environmental lead.

Subsea surveys of the nearby Leviathan gas field conducted in 2016 by Noble Energy (now part of Chevron) reportedly turned up at least nine deep-sea archaeological sites, including a Late Bronze Age shipwreck. But details of the finds were never disclosed, and the sites were never excavated, according to a Haaretz report in 2020.

“What we were doing is looking for sensitive areas, sensitive habitats, anything that can be worth saving,” Bahartan recalls.

Closer examination of the sonar hits revealed that most were modern trash, Bahartan says as she flips through photographs taken by a remotely operated vehicle (ROV). The images show plastic bags, deck chairs, oil drums and a porcelain toilet, seat included. Occasionally, she says, she and her colleagues might find a solitary amphora or ceramic fragments.

But one sonar blip turned out to be a large assemblage of jars jutting out of the seabed. “I didn’t know if it was something dramatic or not. I just sent it to the [Israel] Antiquities Authority,” Bahartan says.

Energean offered the IAA a ride onboard the Energean Star, an offshore supply and construction vessel. The archaeologists’ mission: retrieve jars and any other artifacts from the seafloor 1.1 miles (1.8 kilometers) below to ascertain the origin of the ship.

Six hours out of Haifa’s port, the Energean Star hovered over the wreck’s coordinates, and a crane lowered a truck-sized, canary-yellow-and-black ROV into the sea. It took an hour to descend to the bottom. Nearing the seabed, operators released the ROV toward the site.

O arqueólogo da IAA, Jacob Sharvit, observa enquanto os operadores de ROV retiram jarros de armazenamento cananeus de 3300 anos do fundo do mar Mediterrâneo em 30 de maio de 2024.Sharvit was transfixed on the video feed in the cramped control room: a swirl of marine snow rushed by in the inky darkness above a featureless seafloor. Within minutes, black forms projecting from the gray sediment hove into view.

“It’s crazy,” Sharvit said at the time. “I don’t see. I only hear my heartbeat.”

Dozens of jars, nearly identical and about half a meter long, clustered in an oblong patch roughly 46 feet long and 19 feet across. Limited excavation with the ROV’s dredger indicated there was a second layer of jars beneath those poking out of the silt.

The ROV circumnavigated the wreck, taking a high-resolution video that would be stitched into a photomosaic of the site. Sharvit picked out a couple jars from the fringes that could be extracted with minimal disturbance.

Sharvit had hoped to find the ancient crew’s personal effects to help nail down the ship’s origin but spotted none. The IAA is running a so-called petrographic analysis of the ceramics to try to pinpoint where they came from; analyses of residue and trace elements could help identify their contents.

Cline, who was not involved in the IAA mission or its preliminary study, says the proposed date “would place the wreck right in the middle of the most interconnected period of the Late Bronze Age in the Aegean and eastern Mediterranean, which is exciting.”

Texas A&M’s Wachsmann says that a coherent Bronze Age wreck was an “incredible find” because “every shipwreck is basically a time capsule. Everything that went down on that ship went down at one moment.”

The absence of wave action, storms and human activity means this ship is likely better preserved than wrecks found close to shore, he says. “Anything that got buried in the sediment is going to survive there, and it’s probably going to be in a better condition,” Wachsmann adds.

If any of the hull survived, however, it was not visible during the IAA’s operation.

“Apparently the ship landed on its side and sank that way,” Sharvit says. “I presume that there are some wooden remnants of the ship buried beneath the heap of jars in the mud.”

Deep-sea excavations are expensive, complex and fraught with methodological problems, Sharvit says, adding that he likely won’t return to the site.

“Even if it’s not us, then other researchers can excavate the ship in the future,” he says.

Ilan Ben Zion is a correspondent with Agence France-Presse and a freelance journalist based in Israel.