Grande Sertão: Veredas – Travessias

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Grande Sertão: Veredas. Travessias

Revista IHU On-Line Edição 538 | 05 Agosto 2019Grande Sertão: Veredas. Travessias - IHU On-Line Edição 538 | 05 Agosto 2019

Editorial

Travessia. Essa é a outra forma que Guimarães Rosa encontrou de nos ensinar a escrever e dizer a palavra vida. A última palavra de sua obra Grande Sertão: Veredas é que liga o fio do tempo, o passado e o presente, de um Brasil, que tanto antes como agora, é o país que poderia ter sido, mas nunca foi. A jagunçagem, para usar um termo do autor, é uma forma política presente em muitas instâncias e nos joga diante de desafios e contradições enormes. Para tratar de literatura e do Brasil atual, oito especialistas se debruçam sobre a obra de Guimarães Rosa. A capa desta edição é assinada pela artista Anna Cunha.

Faustino Teixeira, professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF, faz uma apresentação da obra em perspectiva com vários autores e leituras de Guimarães Rosa.

Kathrin Rosenfield, professora nos programas de pós-graduação em Letras e em Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, fala sobre o dilaceramento existencial brasileiro em Grande sertão: veredas. “Um terceiro alicerce para a tradição imaginária brasileira seria a recuperação artística da musicalidade das falas regionais e das suas saborosas metáforas concretas.”

Willi Bolle, professor titular de Literatura na Universidade de São Paulo – USP, lembra que “enquanto Gilberto Freyre usa o símbolo de um entrelaçamento harmonioso (&) entre senhores e escravos, Guimarães Rosa, através dos dois pontos ( : ) acentua o antagonismo entre os donos de territórios e casas ‘grandes’ e os que moram em casebres nas ‘veredas’”.

Marcia Marques de Morais, professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas, faz uma leitura da obra de Guimarães Rosa em chave psicanalítica. “Guimarães Rosa trata a linguagem, essa sim, a verdadeira protagonista de sua obra. Esse trato, para além de ser um traço lúdico a apresentar desafios para o leitor, piscadelas do autor em direção a seu leitor, é, sem dúvida, propiciador do enlace entre literatura e psicanálise.”

Eduardo de Faria Coutinho, um dos mais renomados acadêmicos em Literatura Comparada e professor titular da disciplina na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, escreve sobre o convite ao pensar ético que Guimarães Rosa convoca. “Sufocado por um cotidiano calcado na continuidade, que se expressa pela repetição mecânica de atos e gestos, o homem, e em particular o adulto comum, não percebe a automatização a que se sujeita.”

Adair de Aguiar Neitzel, professora titular da Universidade do Vale do Itajaí – Univali, discute as mulheres rosianas. “É pelas mãos de Diadorim que Riobaldo passa do estado físico para o estético e deste para o Moral. Mas é uma relação marcada pela ambiguidade, contradição, angústia de estar se envolvendo com um homem. Essa tensão que se estabelece entre ambos, por conta de uma paixão impossível na jagunçagem, torna esse amor uma neblina.”

Eduardo Guerreiro Brito Losso, professor associado de Teoria Literária do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da UFRJ, relaciona a literatura de Guimarães Rosa à mística. “Pois acho, justamente, que a defesa de Rosa do predomínio da dimensão metafísico-religiosa de sua obra tem a ver com o desejo dele de mexer com esse perigo, já que, se tem alguém que gosta de perigos, é ele.”

Terezinha Maria Scher Pereira, professora da UFJF, relata a multiplicidade de Guimarães Rosa. “No Grande sertão: veredas, o processo é uma reflexão filosófica, existencial, para pôr em questão o panorama cultural da razão moderna, no momento do processo desenvolvimentista do Brasil do século XX.”

Este numero da revista contou com a importante e fundamental parceria do Prof. Dr. Faustino Teixeira, a quem agradecemos a generosa contribuição.

Lições de Esopo e Fedro: o lobo e o cordeiro

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Fábulas, com frequência, satirizam pessoas e grupos políticos que usam seu poder para oprimir os mais fracos.

Esopo

Λύκος καὶ ἀρήν

Λύκος θεασάμενος ἄρνα ἀπό τινος ποταμοῦ πίνοντα, τοῦτον ἐβουλήθη μετά τινος εὐλόγου αἰτίας καταθοινήσασθαι. Διόπερ στὰς ἀνωτέρω ᾐτιᾶτο αὐτὸν ὡς θολοῦντα τὸ ὕδωρ καὶ πιεῖν αὐτὸν μὴ ἐῶντα. Τοῦ δὲ λέγοντος ὡς ἄκροις τοῖς χείλεσι πίνει καὶ ἄλλως οὐ δυνατὸν κατωτέρω ἑστῶτα ἐπάνω ταράσσειν τὸ ὕδωρ, ὁ λύκος ἀποτυχὼν ταύτης τῆς αἰτίας ἔφη· “Ἀλλὰ πέρυσι τὸν πατέρα μου ἐλοιδόρησας.” Εἰπόντος δὲ ἐκείνου μηδὲ τότε γεγενῆσθαι, ὁ λύκος ἔφη πρὸς αὐτόν· “Ἐὰν σὺ ἀπολογιῶν εὐπορῇς, ἐγώ σε οὐχ ἧττον κατέδομαι.”

Ὁ λόγος δηλοῖ ὅτι οἷα ἡ πρόθεσίς ἐστιν ἀδικεῖν, παρ’ αὐτοῖς οὐδὲ δικαία ἀπολογία ἰσχύει.

 

Le Loup et L’agneau

Un loup, voyant un agneau qui buvait à une rivière, voulut alléguer un prétexte spécieux pour le dévorer. C’est pourquoi, bien qu’il fût lui-même en amont, il l’accusa de troubler l’eau et de l’empêcher de boire. L’agneau répondit qu’il ne buvait que du bout des lèvres, et que d’ailleurs, étant à l’aval, il ne pouvait troubler l’eau à l’amont. Le loup, ayant manqué son effet, reprit : « Mais l’an passé tu as insulté mon père. — Je n’étais pas même né à cette époque, » répondit l’agneau. Alors le loup reprit : « Quelle que soit ta facilité à te justifier, je ne t’en mangerai pas moins.»

Cette fable montre qu’auprès des gens décidés à faire le mal la plus juste défense reste sans effet.

Fonte: Fables d’Ésope. Texte établi et traduit par Émile Chambry. Paris, 1927.

 

O Lobo e o Cordeiro

Um lobo, ao ver um cordeiro bebendo de um rio, resolveu utilizar-se de um pretexto para devorá-lo. Por isso, tendo-se colocado na parte de cima do rio, começou a acusá-lo de sujar a água e impedi-lo de beber. Como o cordeiro dissesse que bebia com as pontas dos beiços e não podia, estando embaixo, sujar a água que vinha de cima, o lobo, ao perceber que aquele pretexto tinha falhado, disse: “Mas, no ano passado, tu insultaste meu pai”. E como o outro dissesse que então nem estava vivo, o lobo lhe disse: “Qualquer que seja a defesa que apresentes, eu não deixarei de comer-te”.

A fábula mostra que, ante a decisão dos que são maus, nem uma justa defesa tem força.

Fonte: Esopo, Fábulas Completas. Tradução do grego de Neide Smolka. São Paulo: Moderna, 2005.

:. Esopo viveu na Grécia no século VI a.C.

 

Fedro

Lupus et Agnus

Ad rivum eundem lupus et agnus venerant, siti compulsi. Superior stabat lupus, longeque inferior agnus. Tunc fauce improba latro incitatus iurgii causam intulit; ‘Cur’ inquit ‘turbulentam fecisti mihi aquam bibenti?’ Laniger contra timens ‘Qui possum, quaeso, facere quod quereris, lupe? A te decurrit ad meos haustus liquor’. Repulsus ille veritatis viribus ‘Ante hos sex menses male’ ait ‘dixisti mihi’. Respondit agnus ‘Equidem natus non eram’. ‘Pater hercle tuus’ ille inquit ‘male dixit mihi’; atque ita correptum lacerat iniusta nece.

Haec propter illos scripta est homines fabula qui fictis causis innocentes opprimunt. 

Fonte: The Latin Library

:. Fedro viveu em Roma no século I d.C.

Leia Mais:
‘O Lobo e o Cordeiro’ e ‘A Raposa e as Uvas’: uma leitura comparada  – Fedro, Esopo, La Fontaine, Monteiro Lobato e Millôr Fernandes (Márcio Luiz Moitinha Ribeiro e Marcos André Menezes dos Santos)

Livros, leitura, literatura: listas e mais listas

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Você gosta de livros, leitura, literatura?

Então os seguintes endereços podem lhe interessar. Ou não, pois isto é muito subjetivo. Mas dê uma olhada.

Listas e mais listasOs interessados podem encontrar muitos dos livros citados em formato eletrônico e melhor, de graça, na internet. Nas línguas originais ou em tradução. Consulte, com paciência e persistência, Mais ebooks gratuitos para Kindle e outros leitores.

:: Os 100 melhores livros de todos os tempos, a lista das listas – Por Carlos Willian Leite – Revista Bula  — Mais listas de livros… [Diriam os alemães: Listen… und noch mehr Listen!]

:: BOXALL, P. (ed.) 1001 Books You Must Read Before You Die. London: Cassell Illustrated, 2012, 960 p.  – ISBN 9781844037407

– Confira: 1001 Books To Read Before You Die – Reviewing the 1001 books
– Confira: The Greatest Books
– Confira: 100 Books to Read before You Die: Creating the Ultimate List

:: Five Books – The best books on everything

:: As 15 Livrarias Mais Maravilhosas do Mundo – Chiado Magazine

:: 37 modern libraries (= bibliotecas) from around the world – Piotr Kowalczyk: Ebook Friendly

:: As 20 bibliotecas mais bonitas do mundo –  Por Ian Castelli: Viajali

:: Estantes criativas 


O livro organizado por Peter Boxall é muito interessante. Estou usando uma versão para Kindle e apreciando muito. O autor, que conta neste livro com mais de 100 colaboradores, é Professor de literatura inglesa na Universidade de Sussex, Brighton, Reino Unido. A primeira lista é de 2006, mas procure a de 2010, que está mais internacionalizada.

A lição de Esopo: os bens e os males

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Ἀγαθὰ καὶ κακά

Ὑπὸ τῶν κακῶν τὰ ἀγαθὰ ἐδιώχθη ὡς ἀσθενῆ ὅντα· εἰς οὐρανὸν δὲ ἀνῆλθεν. Τὰ δὲ ἀγαθὰ ἠρώτησαν τὸν Δία πῶς εἶναι μετ’ἀνθρώπων. Ὁ δὲ εἶπεν <μὴ> μετ’ἀλλήλων πάντα, ἓν δὲ καθ’ ἓν τοῖς ἀνθρώποις ἐπέρχεσθαι. Διὰ τοῦτο τὰ μὲν κακὰ συνεχῆ τοῖς ἀνθρώποις, ὡς πλησίον ὄντα, ἐπέρχεται, τὰ δὲ ἀγαθὰ βράδιον, ἐξ οὐρανοῦ κατιόντα.

Ὅτι ἀγαθῶν μὲν οὐδεὶς ταχέως ἐπιτυγχάνει, ὑπὸ δὲ τῶν κακῶν ἕκαστος καθ’ ἑκάστην πλήττεται.

 

Les Biens et les Maux

Les Maux, profitant de la faiblesse des Biens, les chassèrent. Ceux-ci montèrent au ciel. Là, ils demandèrent à Zeus comment ils devaient se comporter avec les hommes. Le dieu leur dit de se présenter aux hommes, non pas tous ensemble, mais l’un après l’autre. Voilà pourquoi les Maux, habitant près des hommes, les assaillent san interruption, tandis que les Biens, descendant du ciel, ne viennent à eux qu’à de longs intervalles.

L’apologue fait voir que le bien se fait attendre, mais que chaque jour chacun de nous est atteint par les maux.

Fonte: Fables d’Ésope. Texte établi et traduit par Émile Chambry. Paris, 1927.

 

Os Bens e os Males

Por serem fracos, os bens, perseguidos pelos males, subiram ao céu. E perguntaram a Zeus como deveriam comportar-se com os homens. O deus lhes disse que deveriam aproximar-se dos homens não todos em conjunto, mas um de cada vez. Por isso, os males, como estão perto dos homens, aproximam-se constantemente deles, enquanto os bens, descendo do céu, o fazem lentamente.

É por essa razão que ninguém encontra os bens rapidamente mas, cada dia, cada um de nós é atingido pelos males.

Fonte: Esopo, Fábulas Completas. Tradução do grego de Neide Smolka. São Paulo: Moderna, 2005.

See also: Zeus and the Good Things.

:. Esopo viveu na Grécia no século VI a.C.

Edição histórica de Grande Sertão: Veredas

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Os caminhos do sertão de João Guimarães Rosa

Nova Fronteira e Saraiva lançam edição histórica de Grande Sertão: Veredas

Daniel Louzada

“Seria preciso ser um inventor de palavras, como foi João Guimarães Rosa, para cobrir minimamente as qualificações que merece Grande Sertão: Veredas. Obra-prima da literatura, fundamental para a compreensão de nossa identidade, empreendimento artístico monumental, influência para tantos escritores, tratado universal sobre o homem. São muitas as sentenças que poderiam ser elencadas para ressaltar esse romance atemporal, um dos mais importantes do século XX.

Foi essa relevância que no início de 2011 motivou a Editora Nova Fronteira e a Livraria Saraiva a realizarem um grande projeto em conjunto: uma edição especial que trouxesse outra dimensão da obra por meio da divulgação de um material nunca publicado. Assim, surgiu a caixa Os Caminhos do Sertão de João Guimarães Rosa.

O ponto de partida foi o entusiasmo em colocar em livro pela primeira vez o importante texto A Boiada, até então restrito aos arquivos do IEB-USP. A Boiada é um documento fundamental para entender não só a construção das obras de Guimarães, mas também, de maneira geral, o esforço que precede uma grande obra literária, o seu fazer, o trabalho árduo do escritor.

Em maio de 1952, João Guimarães Rosa juntou-se à comitiva de Manoel Nardy, que inspirou o famoso personagem Manuelzão, e fez uma travessia pelo sertão mineiro. Mais do que o reencontro com sua terra natal, havia um nítido interesse do autor em cartografar esse espaço e aprender mais sobre a cultura de boiadeiros e sertanejos.

A leitura das duas cadernetas escritas nessa viagem, as quais chamou de A Boiada 1 e A Boiada 2, dão a medida desse interesse. Tanto que mais tarde as anotações foram aproveitadas especialmente na elaboração das novelas de Corpo de Baile.

O conteúdo das cadernetas é fragmentário e muito detalhado, um composto de frases, palavras, cenas, paisagens, desafios, lundus, quadras, cantigas, além de histórias e comentários a respeito do cotidiano dos homens com quem o escritor conviveu nesse período.

A partir desses fragmentos, é possível recompor o percurso de Guimarães pelo sertão e por sua literatura, pois o itinerário revelado nas anotações, apenas aparentemente sem sistematização, revela a olhos mais atentos interseções com os caminhos trilhados pelos jagunços de Grande Sertão: Veredas.

A caixa Os Caminhos do Sertão de João Guimarães Rosa, com tiragem numerada e limitada de 10 mil exemplares, é produto de extenso trabalho editorial da equipe da Nova Fronteira. Valoriza-a um novo projeto gráfico e a série de belas ilustrações que o arquiteto Paulo Mendes da Rocha produziu exclusivamente para a edição.

A caixa é composta dos seguintes livros:

Grande Sertão: Veredas – Edição exclusiva, tendo por capa a primeira página do fac-símile da obra, em que Guimarães define o título, riscando de próprio punho a sua primeira proposição datilografada: Veredas Mortas. A edição é acompanhada, ainda, por um texto explicitando o trabalho fonético da escrita rosiana e como se estabelece o Acordo ortográfico em João Guimarães Rosa. O livro também apresenta algumas capas nacionais e internacionais do romance que ganhou o mundo.

A Boiada – O fac-símile, todo impresso em cores, o original datilografado de Guimarães registrando a viagem pelo sertão. Nas margens das páginas, em canetas de cores diferentes, ele indica: Corpo de Baile, Miguilim, Grande Sertão, Batalha… Um verdadeiro registro genealógico e raro da construção da obra do autor. O volume ainda conta com a contribuição de Sandra Vasconcelos, professora de literatura brasileira do IEB-USP e de Mônica Meyer, professora e bióloga da UFMG.

Livro de Depoimentos – Com texto de apresentação da Nova Fronteira e da Saraiva, traz depoimentos inéditos em livro de nomes como Antonio Candido e Haroldo de Campos sobre o Grande Sertão: Veredas” (Matéria exclusiva do Almanaque Saraiva)

Leia o texto completo.

João Guimarães Rosa

Veja ainda no site da Saraiva: Conheça mais sob a edição – Todas as edições de Grande Sertão: Veredas – Veja detalhes do livro A Boiada – Saiba mais sobre Guimarães Rosa

Leia Mais:
Grande Sertão: Veredas – Sequências Narrativas
Saem do baú inéditos de Guimarães Rosa – Josélia Aguiar: Folha.com – 03/12/2011

Biblioteca Digital de Fernando Pessoa

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A Biblioteca que pertenceu ao escritor português Fernando Pessoa (Lisboa, 1888-1935) foi colocada online. São 1142 volumes, de todos os gêneros e em vários idiomas, densamente anotados e manuscritos.

Diz Inês Pedrosa na Apresentação:
Procurámos tornar acessível e simples a compreensão da biblioteca no seu todo – que está classificada por categorias temáticas – e a consulta de cada livro. Destacámos páginas que incluem manuscritos do próprio Pessoa – ensaios e poemas escritos nas páginas de guarda dos livros. Trata-se de uma biblioteca aberta ao infinito da interpretação – bela, surpreendente e instigante, como tudo o que Fernando Pessoa criou. Usufruam-na.

O acesso se faz através do site Casa Fernando Pessoa.

Caim, de Saramago, por Eduardo Hoornaert

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Acabei de ler uma instigante resenha do romance Caim de Saramago.

Escrita por Eduardo Hoornaert, foi publicada pela REB 70, n. 278, abril de 2010, p. 515-516.

Esplendidamente escrito e demonstrando um domínio insuperável da língua portuguesa, o novo romance de José Saramago, prêmio nobel de literatura, intitulado Caim e recentemente editado pela Companhia das Letras (São Paulo, 2009), vem nos surpreender. Caim, irmão de Abel, é inimigo jurado de senhor deus. Condenado a viajar do futuro ao passado, das terras do amanhã às terras de ontem, sem nunca encontrar repouso, Caim vê por todo lado maus feitos de senhor deus: por que rejeitar as ofertas de Caim e aceitar as de Abel, se ambos agiram de boa vontade? Por que condenar com penas tão cruéis duas mulheres, Eva e a mulher de Lot, que agem por curiosidade, ou seja, por inteligência? Por que ordenar a Abraão matar seu próprio filho? Haverá ordem mais cruel e mais sem sentido? Por que lançar fogo e enxofre do céu sobre as crianças inocentes de Sodoma e Gomorra? Não são elas em maior número que as dez almas sem culpa que senhor deus exigiu para não exterminar as cidades e toda a planície? O que as crianças têm a ver com a perversidade de seus pais? Por que contemplar com benevolência, do alto do Sinai, a matança de três mil pessoas, só porque alguns dançaram em torno de uma imagem, no acampamento do povo no deserto, já que toda criação é feita à imagem e semelhança de deus? Por que vingar de forma tão cruel a matança de 17 soldados israelitas pelas forças de Madian, a ponto de ordenar o extermínio da cidade? E o que dizer das crueldades cometidas por Josué e seu exército na destruição total de Jericó, por ordem do senhor? A lista é interminável. Caim conclui: as ordens do senhor, além de incompreensíveis, são maldosas. O senhor deus só quer a derrota dos homens e Caim resolve combatê-lo de todas as forças. O romance termina dizendo que o senhor deus e sua criatura inconformada continuam discutindo pelos séculos afora: a única coisa que se sabe de ciência certa é que continuaram a discutir e que a discutir estão ainda (p. 172).

Que discussão é essa? Eis o que constitui o segredo do romance. O que se pode dizer que Saramago não tem a intenção de escandalizar seus (suas) leitores(as) com disparates levianos e incongruentes contra os textos bíblicos, mas pretende lutar contra uma apresentação banalizada da bíblia, que tira o sentido do texto, mas que infelizmente constitui a leitura comum nos dias em que vivemos. A estranheza que esse romance provoca em nós mostra que não conhecemos a bíblia, mas estamos presos(as) a uma apresentação da literatura bíblica feita durante séculos pelas igrejas, por meio de sermões e do catecismo. O(a) leitor(a) atento(a) descobrirá logo que Saramago não comenta textos bíblicos. O romance todo só tem uma citação (da carta aos hebreus, 11, 4) no pórtico de entrada. Pelo resto, Saramago não comenta a bíblia, ele se refere o tempo todo ao que se pode chamar de apresentação catequética da bíblia, ou seja, à ‘história sagrada’. Seu romance é uma crítica ácida e corrosiva da ‘história sagrada’ tal qual é intensamente difundida e universalmente conhecida, pois ela retira o conteúdo vivo das narrativas bíblicas e joga a carcaça morta ao povo, ou seja, um amontoado de histórias incompreensíveis e estranhas, como a história de um deus que resolve destruir a humanidade de vez (o dilúvio), manda fogo e enxofre sobre uma cidade onde, ao que parece, se pratica a homossexualidade (Sodoma e Gomorra), manda a um pai matar seu próprio filho (Abraão e Isaac), consente na matança de três mil pessoas que praticaram um rito religioso que não é de seu agrado (os israelitas no deserto) e se deleita nas crueldades cometidas pelos exércitos de Israel (tomada de Jericó por Josué).

A frase da página 88 conclui: a história do homem é a história de seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós nem nós o entendemos a ele. O homem inteligente não entende o deus do catecismo, apresentado como senhor de uma humanidade que aspira a permanecer pequena. Saramago declara-se ateísta desse senhor deus, ou seja, da imagem de um deus que se apresenta como senhor, com tudo que a imagem de um senhor evoca na mente das pessoas. ‘Eis o deus das igrejas, criação do pensamento e das intencionalidades das igrejas’, sussurra Saramago. O autor desmascara a manipulação catequética e sermonária das narrativas bíblicas. Toda a ironia de Saramago está na conjunção de duas palavras: deus senhor (ou senhor deus). O autor combate a ingenuidade com que as pessoas identificam a imagem de deus com a imagem de um senhor que manda, governa e faz o que quer, sem respeitar o interesse da pessoa humana que parece um joguete em suas mãos.

O romance de Saramago pode criar desconforto em leitores(as) acostumados(as) à apresentação de um deus senhor todo-poderoso. Pois a apresentação da história bíblica feita pelo autor é de caráter militante. Por trás do tom de leveza e humor que perpassa o texto existe a ânsia de alguém que percebe que a humanidade se deixa enganar. O alvo do romance é a fé do rebanho que se recusa a pensar com liberdade. Saramago gostaria que o ser humano fosse mais consciente de suas potencialidades e se libertasse do domínio de representações que secularmente explicam as sagradas escrituras como lhes convém. Ele desconstrói a maneira em que as narrativas bíblicas são apresentadas ao povo e, para tanto, transforma Caim em herói da liberdade humana.

Vale a pena ler Caim. É um livro que, além de proporcionar o prazer causado pelo um domínio perfeito da língua portuguesa, ajuda a pensar.

O Caderno de Saramago segundo o Times

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“O Caderno” de Saramago nas páginas do The Times


Com o título “A infinita Internet de José Saramago”, “O Caderno” foi recenseado no suplemento literário do jornal “The Times”. Aqui deixamos o texto publicado a 14 de Abril de 2010: A infinita Internet de José Saramago. O infindável blogue do Prémio Nobel está cheio de entusiasmo, indignação e energia.

Destaco aqui dois trechos, nos quais leio uma avaliação das posições políticas, literárias e religiosas de Saramago expressas no blog:

Saramago (…) em anos recentes foi por duas vezes candidato ao Parlamento Europeu. Aqui, no entanto, o seu julgamento é muitas vezes atraído pela retórica dos gemidos lunáticos. Uma coisa é escrever sobre Nicolas Sarkozy que “Nunca esperei muito deste senhor”; outra completamente diferente é acusar George W. Bush de ter “expulsado a verdade do mundo”. Saramago não pode acreditar que Silvio Berlusconi venha do mesmo país que Verdi. É fácil escarnecer de Saramago na sua ira, mas duas coisas devem ser ditas em sua defesa. Primeira, há algo estimulante na sua “recusa em aceitar” o mundo como se apresenta na desigualdade. Segunda, isto é um blogue, e não um manifesto, e como tal é pessoal, fragmentado e reactivo.

Muito mais gratificantes são as suas meditações sobre literatura, linguagem, teologia. “Deus”, escreve, num eco dos Cadernos de Lanzarote (ainda inéditos em inglês), “é o silêncio do universo e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio”. O acto de blogar inspirou certamente o lado aforístico de Saramago, e é particularmente memorável quando reflecte sobre os seus heróis literários. Aqui está uma sobre Fernando Pessoa: “Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos.” Escreve um elegante tributo a Carlos Fuentes, que “tornou compatível a maior exigência crítica, o maior rigor ético, que são os seus, com uma gravata bem escolhida.” e introduz-nos ao brilhantismo de Javier Ortiz, que escreve o seu próprio obituário. O entusiasmo de Saramago é irresistível e os seus elogios agudos. Louva Kafka “por ter demonstrado que o homem é uma barata”, Montaigne “porque não precisou de Freud para saber quem era” e Gogol “porque contemplou a humanidade e descobriu-a triste”.

Fonte: Fundação José Saramago – 19/04/2010

Quer mais polêmica bíblica? R. Crumb e o Gênesis

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A Bíblia desperta

Por Rosane Pavam

O deus dos quadrinhos encontra o deus do paraíso no Gênesis. Nesta novela gráfica de 216 páginas, prometida ao Brasil no final de outubro pela editora Conrad, o autor Robert Crumb prossegue espicaçando o establishment cultural, desinteressado de ocupar a cadeira dos tranquilos. No panteão deste Crumb de 66 anos, fervem em histórias os hebreus, os nascidos de Jacó e Esaú, o morticínio do qual sobreviveu o plantador de videiras Noé, toda a aventura egípcia, incestos e fornicações, como as viu e perpetrou o primeiro livro dos cristãos.

Na terça-feira 29, em entrevista por telefone à CartaCapital a partir da França, país onde vive há 16 anos por insistência da mulher, Aline Kominsky, e ainda trazendo na fala a forte musicalidade americana, Crumb disse esperar pelo pior. Dos judeus ortodoxos, ele aguarda a repulsa por ter reproduzido a imagem de Deus. Dos cristãos fundamentalistas, ele crê que possam vir as trevas, nascidas de sua obediência ao verbo às vezes modificado das escrituras. Problema deles, diz Crumb.

“Não matei as palavras bíblicas”, ele assevera, gentil e bem-humorado, gargalhando ao final de cada raciocínio claro, como se um “rará” semelhante ao dos gibis pudesse liberá-lo da tensão envolvida no que acaba de dizer. “Apenas reproduzi cada passagem do Gênesis, conforme o que está escrito na tradução de Os Cinco Livros de Moisés, por Robert Alter. Como ilustrador, nem sempre tive a pista para desenhar certos trechos. Mas, se essa indicação existia no texto, eu a ilustrei fielmente. Não procurei ser lúbrico, lascivo, sensual.”

Reproduzir os olhos duros do Senhor surgiu-lhe como uma possibilidade quando Crumb em pessoa o viu em um sonho, há nove anos. “Meu Deus era severamente complexo e sua face carregava raiva”, ele diz. O que o desenhista viu não diferia muito das imagens usualmente ligadas ao Criador, uma figura nascida da tradição patriarcal e tribal, não recomendada em absoluto, por Crumb, como modelo de conduta moral para estes tempos. No máximo, esse Deus escrevia sua história muito bem.

O ser supremo de Gênesis tem barba e mau humor. Os cabelos são fortes e longos, possivelmente crespos. Deus não explica por que elege um homem como herdeiro da terra e por que destrói todos os outros que praticam o mal. Nem mesmo define o mal. Essa criatura não é negra, mas, espera o desenhista, guarda traços semitas. E não é mulher porque o texto não a fez assim.

A grande pergunta com muitas respostas é por que Crumb, o revolucionário autor das fornidas senhoras inspiradas nas africanas, que pôs no devido lugar os pilantras conservadores e os libertários, o criador de Mr. Natural para que ninguém mais acreditasse em gurus, teria desejado transpor o Gênesis aos quadrinhos. Nesta entrevista, lança-se a uma especulação.

Crumb leu a Bíblia quando menino. Foi criado católico e estudou em escola “de freiras e irmãs”. Não via razão para descrer das “poderosas” histórias bíblicas que conhecia. Mas, aos 16 anos, ele se confessou a um padre pela última vez. “Do momento em que comecei a questionar a existência de Deus até a decisão de largar a Igreja passou-se pouco tempo.”

Nunca mais uma coleta de dízimo o pegou, e ele leu as terríveis histórias papais desde a Idade Média. Mas, com o tempo, o homem sem fé, estranhamente perseguidor do espírito por meio do intelecto, percebeu uma coisa. Os religiosos que se diziam seguidores da Bíblia não a liam mais.

E isto, a que ensaístas como Michel Onfray chamam de “ateísmo cristão”, incomodou o senhor Crumb. Ele achou que deveria refazer o Verbo diante do homem. Uma tarefa, como se disse, destinada a um deus. Seu trabalho nesse campo é generoso e revelador. Quando ele ilustra fielmente as parábolas alheias, aquele mundo se materializa e não nos parece tão estranho. A única surpresa causada pelo livro nasce das palavras e das tramas originais, sepultadas pela história. “A Bíblia é uma parte importante da cultura cristã, judaica e até mesmo islâmica”, defende o autor. “Mas, hoje, ninguém a enfrenta. O texto é difícil. As pessoas põem a Bíblia para dormir.”

As grandes e também poderosas palavras de Crumb, sua ironia ao escrever, sem nada dissimular, como flecha teleguiada ao alvo, surgem na edição em dois momentos. No prefácio, em que o artista apresenta a dificuldade em pesquisar o tema, e nas notas finais, nas quais se arrisca a alguns palpites, como o de associar o imaginário antigo às crenças da encruzilhada demoníaca, presente no blues americano. “Nunca pensei em ser romancista, sempre segui fundo como cartunista e ilustrador”, ele afirma à CartaCapital. Sua escrita visual é tão poderosa e adequada aos tempos que talvez Crumb ainda não tenha avaliado o que lhe proporcionaria a escritura de romances.

Outra razão para que concebesse esse tomo talvez tenha sido inconsciente, fundada no gênero a que ele pertence como artista. Ele pode ter quadrinizado o Gênesis primeiro, mas não foi pioneiro ao usar as figuras bíblicas nas narrativas sequenciais. Justin Green, um companheiro nascido em 1945, desenhou a primeira autobiografia de que se tem notícia no mundo da HQ, justamente sobre o confronto que um adolescente faz de seus desejos sexuais com o fervor religioso. Intitulado Binky Brown Meets the Holy Virgin Mary (Binky Brown Encontra a Virgem Santa Maria), o texto vendeu 50 mil cópias nos dez anos seguintes a seu lançamento, em 1972.

Outro artista com quem Crumb parece solidarizar-se estética e filosoficamente é o canadense Chester Brown, de 49 anos, um dos mais impressionantes autores de quadrinhos da geração posterior. Brown defende a anarquia como um ideal e quer tirar a esquizofrenia da lista de doenças mentais. Em 1983, ele começou a publicar Yummy Fur. A partir do quarto volume desta série em miniatura, tocou no Novo Testamento, mostrando Jesus segundo Marcos e Mateus. Crumb considera que seu companheiro fez o melhor possível com a história do filho de Deus, a seu ver difícil de ser contada, porque fundada em quatro evangelhos. Depois de quatro anos enfiado no Gênesis, Crumb quer afastar de si o cálice da religião e voltar a remexer a própria história. Seu próximo trabalho, ainda indefinido, inclui uma parceria com a esposa, Aline.

Crumb será avô pela primeira vez, de um menino, e “a qualquer momento”. Não tem, nem quer ter, ideia do que significa este passo. Ele anda rápido e para frente. E foi com o intuito de fazer avançar a própria arte, menos do que moralizar a sociedade em trevas, que ele, pescador da música antiga de Madagáscar ou da Grécia nos mercados de pulgas, revelou Deus à nossa antiga imagem e atual dessemelhança.

A ENTREVISTA:

Diante desse deus

02/10/2009 às 16:17:44

Rosane Pavam

Chegava a hora de falar com deus. Deram-me seu telefone de Paris, onde naquele dia, 29 de setembro de 2009, ele já respondera a jornalistas de todo o mundo, convidados à coletiva sobre seu aguardado livro Gênesis.

Não era fácil, mas parecia necessário arriscar-se a alcançar Robert Crumb, expressão máxima dos quadrinhos, ao lado do também americano Will Eisner, que eu entrevistara duas vezes nos longínquos anos 90. Não esperava que Crumb me respondesse, o que secretamente me confortava, presa que estava à redação da revista e à necessidade de elaborar um texto para as páginas abertas (leia aqui). Eu não queria falar com ele, ou simplesmente o temesse como ao ser supremo, sabe-se lá quem esse cara seja.

Crumb é imprevisível, pode atender ao telefone ou não, avisou-me seu editor brasileiro. Mas, naquele dia, o deus sobre a terra estava pronto. Ele falou primeiro, esperou e respondeu. Vivi o temor. O tremor da musculatura, a confusão dos nervos. Eu nem sabia por onde começar. O que perguntar a deus?

Ele é mais vigoroso e juvenil ao telefone do que me pareceu Eisner quando o entrevistei pela primeira vez, com setenta anos talvez, habitante da Flórida por pressão da mulher. Crumb tem 66 e mora no sul da França há 16, também por pressão da mulher.

O homem é irreverente, a voz mais jovem do que a idade lhe dá, mas também respeitoso, com toda a paciência para a dificuldade da interlocutora em chegar ao ponto com ele. A qualquer ponto. Neil Gaiman, polido em suposto, só pensara naquele restaurante de Parati em emanar sua musculatura de escritor. Se isto vale alguma coisa, o britânico não me convenceu. E pouco se importou com isso, claro. Ele tem segredos.

Crumb, não sendo Gaiman, dispensou ser sofisticado ao falar, já que desejava falar. Foi extremamente gentil e colaborativo por quase uma hora de conversa. Não elaborou teses. Respondeu sim ou não, contou um caso, riu um “rá”, expulsando ocasionalmente da garganta um diabinho irônico e feliz.

Às vezes só disse “yeah”, “good”, “that’s good”, com o sotaque tão americano tanto possível. Perguntei se apreciava os quadrinhos autobiográficos que ganharam o mundo a partir dele. Não inventei isso, lembra. E eu insisto que explique melhor por que os autobiográficos são tão bons. Ele parece achar estranho, esforça-se, alonga-se. Não é importante que o desenho seja bom neste caso, começa. As palavras são mais importantes. Penso ter sido jornalista e achado a frase.

O que ele reverencia em Gênesis são também suas palavras, não importa quão incoerentes, reiterativas, pleonásticas se pareçam. Quando Robert Crumb lhes dá sua qualidade gráfica, ele o faz com toda a ousadia, mas também com tranquilidade. Não transparece receio.

As meninas são fornidas. As escravas, um pouco menos. Mulheres bonitas, mulheres de Crumb, rostos resolvidos. Às vezes invejosos, como os de Sara. Os homens, pelo contrário, estão permanentemente assustados com a presença de Deus, esse ser incoerente, cheio de ira. Os da tribo são respeitosos por pânico, diz-nos o artista, que escreve enquanto desenha. Tudo simples, direto, sem medos ou cinzas.

É por isso, percebo, que sempre amei a arte de Robert Crumb como a maior entre todas as tentativas de fazer do quadrinho a coisa certa. De um assunto complexo como a Bíblia, o livro mais amado e pouco conhecido nestas trevas, ele tira apenas a direção retilínea, descarnada, à moda de um bom professor. Sem se importar que não o compreendam, sabendo que fez o melhor possível, com todo o cálculo. A seguir, a entrevista.

Antes de ilustrar o Gênesis, sua intenção era refazer a história de Adão e Eva. Por que mudou de ideia?
Enquanto eu lia sobre a história de Adão e Eva, percorri o Livro do Gênesis muito detalhadamente. Pesquisei sobre os antigos na Mesopotâmia e na Suméria. E, ao fim, todas as histórias se ligavam de alguma forma ao Gênesis. Achei então que, melhor do que fazer uma história em torno de Adão e Eva, seria ilustrar, apenas, o grande livro. Com o Gênesis, minha intenção era manter as palavras, não matá-las.

E você abdicou de suas próprias palavras, usualmente muito bem conduzidas dentro dos quadrinhos. Um leitor poderá sentir falta delas. Você já pensou em um dia escrever romances?
Nunca. Sempre caminhei pela ilustração e o cartum. Nunca nem tentei começar uma ficção só usando palavras.

Você acredita em Deus?
Não sou religioso. Mas fui criado no catolicismo. Em escola católica, de freiras e irmãs. Acredito que, quando criança, não tinha razões para desacreditar no que me contavam. Por volta de 15, 16 anos, comecei a fazer meus questionamentos. Rapidamente rompi com o catolicismo depois que comecei a questioná-lo. E passei a estudar outras ideias sobre o assunto, sobre as coisas chocantes que não lhe contam sobre a Igreja, sobre o comportamento dos papas. Especialmente na Idade Média, comportavam-se muito mal. Ainda se comportam.

Parei de me confessar aos 16 anos. Nunca mais me tornei membro de uma igreja estabelecida ou de uma religião. Não sigo qualquer doutrina religiosa, de maneira alguma. Contudo, ainda me sinto muito interessado pela procura espiritual, mas de uma maneira mais ligada ao intelecto.

Eu certamente acredito que existe uma força que move nossos destinos. Maior do que nós. Não sabemos o que é. É grande demais para que nós tenhamos qualquer chance de saber do que se trata.

Mas é interessante estudar, perguntar-se, imaginar o que ela poderia ser. Eu pessoalmente não acho que alguém vá encontrar inspiração no Gênesis. As histórias são boas, mas como guia espiritual ou moral, não servem. Você terá problemas se ler o livro com essa intenção! É primitivo. A moral é tribal. Existe um plano. E o cara se sente honrado em segui-lo. Deus nos deu essa terra, essa terra pertence a nós, toda essa história…

Contudo, procurei sempre ilustrar o que está no texto. Ló fez sexo com suas duas filhas, coisa muito estranha. Isto está escrito e eu desenhei. Eu evitei ser cômico, lúbrico, sensual, explícito. Se as pessoas se sentirem ofendidas com o que virem, problema delas. Não podemos agradar a todos. Especialmente pessoas seriamente religiosas. Não posso ajudá-las.

Às vezes o texto não descrevia exatamente o que estava acontecendo. E então inventei o que ilustrar, até certo ponto. A cena diz: “Antes que Deus decidisse destruir a raça humana… Porque ele viu o mal no coração do homem.” Mas o que ele viu? Que mal o homem fez? Então eu tinha de mostrar que mal esse homem estava fazendo. Eu não estava indo contra o texto, porque o texto me deixava livre para imaginar que mal seria esse. Mas se o texto dissesse que os personagens se deitavam no chão, sim, eu os deitava no chão. Pessoas fazendo sexo, sim, eu desenhei.

Seu Deus é tradicional, um velho homem barbudo. Foi assim que ele se apresentou em seu sonho?
No meu sonho de 2000 ele era muito mais complexo. Mas eu decidi desenhá-lo velho, de longas barbas e severo, com a face do patriarca. E o fiz homem porque assim ele é descrito _ Ele, segundo o texto bíblico. Tudo isto partiu dos hebreus. Eu até pensei em fazê-lo mais judeu… em uma segunda leitura, havia mais componentes africanos… A história toda pertence à tradição semita. A europeia faz Deus com os cabelos loiros. Então decidi desenhá-lo de cabelos mais escuros, na tradição semítica.

Esse Deus que você viu no sonho não seria apenas você?
Eu? Bem, tudo o que aparece nos sonhos remete a alguma parte de nós mesmos. Pelo menos é o que dizem. Mas a imagem do sonho, tão vívida, definitivamente não pertencia a mim, estava do lado de fora. A verdade é que ele entrou em mim, falando comigo de alguma forma. Mas eu só fui capaz de visualizar essa criatura. Sua face era muito severa. E também repleta de ira. Um deus muito velho, com barba. O deus do Gênesis é o da justiça. Não é bonitinho, nem especialmente amigável.

Tudo parece muito respeitoso sob este aspecto para que alguém se incomode com suas ilustrações.
Eu imagino que os fundamentalistas, especialmente alguns judeus ortodoxos, se sentirão muito incomodados. Porque, segundo eles, não se pode ver a face de Deus, de forma alguma.

Talvez estejamos vivendo um momento especialmente de trevas, em que a liberdade de ação ou de pensamento pareça indesejável a grande parte das pessoas.
Concordo. Vivemos um momento obscuro.

Nunca lhe interessou desenhar o Novo Testamento?
Sempre me interessou o Gênesis. E a história do Novo Testamento apresenta algumas dificuldades para ser contada. Você tem de escolher uma entre as quatro versões de Mateus, Marcos, Lucas ou João. Não há como narrá-las todas. Ou então é preciso encontrar uma maneira de extrair as histórias interessantes e seguir com elas. Isto seria o que eu faria, provavelmente. Mas Chester Brown já contou essas história, e muito bem, em suas leituras dos evangelhos de Marcos e Mateus.

Você é visto como alguém nostálgico, ligado ao passado, aos primeiros anos americanos, à arte e à ação dos anos 60. Mas se vê pessoalmente assim?
Talvez eu me veja mais como um cultural carrier, trazendo coisas do passado que valem continuamente no presente. Nós não podemos simplesmente apagar o passado. Meu estilo de desenhar é muito tradicional. Uma velha maneira de ilustrar. Não penso que deva inovar nisso. Não acho que seja necessário.

Também não acho que a tecnologia seja a melhor coisa do mundo. Acho que temos de ser muito cuidadosos em relação a ela. Usar a tecnologia é uma coisa, mas depender das máquinas para tudo talvez não seja a melhor ideia. Voltar-se intimamente à natureza, talvez. Isto veio dos anos 60. Ser mais respeitoso com a terra, com o ambiente, abrindo mão de um materialismo. O amor à riqueza material veio dos anos 80 americanos.

Concordo com muito daquilo que houve nos anos 60. Questionar a autoridade era uma das coisas que se fazia então. Não aceitar o que vem do poder, do governo, da economia, da propaganda, questionar tudo isso seriamente – nós fazíamos isso nos anos 60. Mas coisas ruins também partiram de lá, como pisar fundo no álcool ou nas drogas.

Você já pensou em se voltar solitariamente à natureza, para uma vida recolhida, em que possa reverenciá-la?
Não é possível viver junto à natureza sozinho. Bem, há pessoas que conseguem viver ainda sozinhas ou em comunidades, seguindo seus ideais. Mas eu não consigo. Admiro quem consiga, mas a maioria, como eu, não se sente capaz.

Trabalhar a partir do Gênesis teria essa intenção de mostrar como é duro viver em sociedade, conviver com o outro, lutar contra as adversidades? Você, ao ilustrar o livro, tinha um propósito de combater os obscurantismos?
Não sei. Acho que minha ideia era expor a Bíblia. Muitas das histórias são tremendamente poderosas. As pessoas hoje em dia não são muito próximas dessa leitura. O texto é difícil de enfrentar. As pessoas põem a Bíblia para dormir. Ilustrando-a agora, ela volta à evidência. É uma parte importante de toda a cultura ocidental. Da cultura cristã, judaica e até mesmo islâmica.

Estou mostrando cada palavra do Gênesis. Esta é a parte mais importante do trabalho. Não há lições morais que possam ser apreendidas dali. São histórias profundas, mas para as pessoas de hoje eu não penso que possam servir. A moral é muito velha, tribal.

Seu Noé planta videiras. Você bebe vinho hoje, na França?
Já bebi, mas parei com o álcool há muitos anos, quinze ou dezesseis. Estou numa fase sóbria, sabe.

E tem lido bastante?
Mais do que já li em toda a minha vida. Tem muita coisa que eu quero saber. Encomendo livros pela internet. Não uso diretamente o computador, mas minha mulher sim. E minha secretária pega as coisas de que preciso na rede. Os sites que expõem o que está acontecendo, sobre o qual não somos informados e não nos damos conta. Como o Media Democracy. Leio textos de jornalismo investigativo, numa tentativa de saber o que permanece escondido de nós. Eu raramente escolho poesia, romances. Gosto de história, de investigação.

E os quadrinhos?
Alguma coisa de quadrinhos, também. O site Top of My Head traz muitas informações. O livro Stitches, de David Small, que saiu agora nos Estados Unidos, é sensacional, a história autobiográfica de um garoto com câncer na Detroit dos anos 50.

Você percebe esse aumento no número de livros de HQ que contam uma trajetória pessoal, dando-lhe um contexto histórico?
Sim. As autobiografias são uma ótima coisa para os quadrinhos, por esta razão histórica. Mesmo que os desenhos não sejam incríveis, as histórias são interessantes. As histórias importam mais do que a qualidade do desenho. A primeira mulher a fazer histórias autobiográficas foi minha mulher, Aline Kominsky. E o primeiro homem não fui eu, foi Justin Green, um americano da minha geração. Quando comecei a fazer quadrinhos autobiográficos, eles me pareciam necessários, mas não eram absolutamente fáceis de fazer.

Já leu um livro brasileiro?
Nunca, mas me interessa a música brasileira antiga. Todos os estilos dos anos 20 e 30, os 78 rotações. Não há nada por aqui, alguém tem de me trazer essas coisas do Brasil… Não sei de nomes especiais que me interessem, já que eu me interesso por muitos deles.

Pixinguinha, talvez?
Sim, Pixinguinha, esse! É muito bom. Diga a seus leitores que eu desejaria conhecer os 78 rotações de antes da Segunda Guerra Mundial…

Já esteve no Brasil?
Fui convidado para festivais de quadrinhos, essas coisas, mas nunca estive no Brasil. Gostaria de ir para lá algum dia, deus sabe quando.

Conhece alguma coisa da política brasileira? De o presidente americano Barack Obama, por exemplo, ter dito ao presidente brasileiro que ele era “o cara”?
Não, nunca ouvi falar disso.

Você continua a procurar por discos de 78 rotações para sua coleção?
Sim, e não faço isso pela internet. Faço caminhando, pelos mercados de pulga parisienses ou de outros lugares. Ainda estou atrás de música interessante da França, dos Estados Unidos, de toda parte. A música de Madagascar é maravilhosa. A do Norte da África, da Argélia, do Marrocos, do Egito, grande música. Da Índia, tão estranha no início. É uma musicalidade totalmente diferente da americana, pela qual não procuro mais. Há grande música em toda parte, como na Indonésia. Música grega, armênia, suíça.

Você compõe música?
Não componho, só toco. Não sou um músico muito desenvolvido, sou muito simples. Um estilo nada especial. Não é meu talento principal o de tocar música.

Você gosta do que Woody Allen faz musicalmente?
Eu gosto de alguns dos filmes de Woody Allen, mas não de sua música.

E não desenho mais a partir de temas musicais, como fiz em Blues. Meu próximo projeto será em colaboração com minha mulher, Aline. Mas não sei ainda exatamente o quê. Provavelmente algo relacionado a nossas vidas. Não será religião. Não penso que eu vá voltar a isso. Acho que já tive o suficiente da Bíblia nos quatro anos em que desenhei o Gênesis.

Tem algum plano de voltar a morar nos Estados Unidos?
Provavelmente nunca mais retorne aos EUA. Vou para lá agora, mas somente por um mês. E meu neto pode nascer a qualquer momento. É o filho de minha filha. Não faço qualquer ideia do que signifique ser avô.

Você gostaria de dizer alguma coisa mais aos leitores brasileiros?
Questione a autoridade. Fique longe da minha filha e das drogas.

Fonte: CartaCapital – 02/10/2009