O papel da Bíblia no conflito Israel-Palestina

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SANDFORD, M. J. (ed.) The Bible, Zionism, and Palestine: The Bible’s Role in Conflict and Liberation in Israel-Palestine. Dunedin, New Zealand: Relegere Academic Press, 2016 – ISBN 9780473332808 (ebook)

Ebook em pdf. Gratuito. Faça o download.

 

The Bible, Zionism, and Palestine: The Bible's Role in Conflict and Liberation in Israel-Palestine

Contributors evaluate the divisive and liberatory influences and effects of the Bible on Zionism and Palestine-Israel and, conversely, the practice of biblical interpretation in a Post-Nakba world.

Tensão no Oriente Médio continua

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Leia um artigo esclarecedor:

A Turquia está ferrada – e a culpa é toda dos americanos

Em meio às crescentes tensões entre Turquia e Rússia sobre a situação na Síria, um fato importante se perdeu. É que não foi a Rússia quem criou os atuais problemas da Turquia, foram os Estados Unidos.

O problema mais crucial com que a moderna Turquia tem se defrontado é a questão curda. Trata-se de um problema crônico que ameaça a integridade da Turquia e que é percebido pela elite turca como o maior problema de segurança do país. As políticas turcas para a Síria são determinadas pela questão curda mais do que por qualquer outra coisa. O abandono da assim chamada política de problema zero com os vizinhos que Erdogan e seu governo costumavam promover, o que foi uma surpresa para muitos, está diretamente relacionada à questão curda e aos acontecimentos no Iraque após a desastrosa invasão americana (continua).

Fonte: Brasil 247 – 08.03.2016

O original, em inglês:

Turkey is screwed. And it’s all US fault – By Arras – The Saker – February 22, 2016

by Arras

Amid rising tensions between Turkey and Russia over the situation in Syria, one important fact got lost. It’s not Russia that caused the current Turkish problems. It was the USA.

The most fundamental problem modern Turkey is facing is the Kurdish question. It’s a chronic problem, which threatens the integrity of Turkey and the Turkish elite perceives it as the largest security treat the country is facing. Turkish policies in Syria are determined by the Kurdish issue more than anything else. The change from the so called policy of zero problems with neighbors, which Erdogan and his government used to promote, came as a surprise to many and is directly related to the Kurdish issue and the events in Iraq after the disastrous US invasion.

O EI está mesmo destruindo artefatos assírios?

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O terrível do terrorismo é que ele ocupa as mentes. Nas guerras e guerrilhas precisa-se ocupar o espaço físico para efetivamente triunfar. No terror não. Basta ocupar as mentes, distorcer o imaginário e introjetar medo (Leonardo Boff).

Primeiro, a notícia:

Estado Islâmico destrói estátuas milenares da civilização assíria no Iraque – Opera Mundi 26/02/2015

O EI (Estado Islâmico) divulgou, nesta quinta-feira (26/02), um vídeo em que integrantes do grupo jihadista aparecem destruindo diversas estátuas e esculturas com mais de três mil anos com marretas (…)  O material era parte do patrimônio cultural da civilização assíria, que habitou o norte do Iraque e da Síria desde o século X a.C. (…) As estátuas destruídas são parte da coleção do museu de Mossul, capital da província de Nínive e que é controlada pelo EI desde junho de 2014.

Em seguida, por recomendação de Charles E. Jones, na lista ANE-2, uma análise do episódio:

For a good preliminary analysis of today’s video of the destruction in Mosul Museum and Nineveh have a look at Sam Hardy’s Conflict Antiquities: Islamic State has toppled, sledgehammered and jackhammered (drilled out) artefacts in Mosul Museum and at Nineveh.

Um trecho do texto diz:

There is no doubt that the Islamic State is profiting from the illicit trade in antiquities. Although the criminals have destroyed some ancient artefacts (whether complete objects or fragmentary reconstructions), they have also destroyed a lot [some] of modern reproductions – as is visible, for example, around 00h03m58s. [The reinforcing steel (“rebar”) is the “skeleton” that connects fragments in reproductions.] All this video really shows is that they are willing to destroy things that they can’t ship out and sell off.

O que parece estar acontecendo é a destruição de material que eles não conseguem vender. Seriam reproduções modernas das antigas peças assírias… É bem provável que o Estado Islâmico esteja mesmo é lucrando muito com o mercado ilegal de artefatos arqueológicos da Mesopotâmia.


Atualização: 07.03.2015 – 15h45
Infelizmente a destruição de preciosos artefatos e sítios arqueológicos assírios pelo Estado Islâmico está se tornando rotina. Clique aqui e aqui.

Leia Mais:
O retorno dos jihadistas

Há quem tenha medo que o medo acabe

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Para fabricar armas, é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos, é imperioso sustentar fantasmas. Os fantasmas vão morrer apenas quando morrer o medo, mas há quem tenha medo que o medo acabe.

 

Guerra sem fim no Oriente Médio

De certa forma, pode-se argumentar que não houve uma série de guerras no Oriente Médio durante esse período de 40 anos, mas sim uma única e longa guerra

Vocês sabem qual pais é um grande produtor de petróleo, vizinho de um membro da Otan, onde há militantes muito bem armados com histórico de práticas de execução, extorsão e decapitação de pessoas? Nesse país também está em marcha uma sistemática campanha contra repórteres, além de milhares de pessoas escravizadas, tráfico de mulheres e uma série de ações de intimidação nas comunidades nativas. Quem pensou na Síria, Iraque e no grupo Isis errou, pois estamos falando do México. Além disso, os cartéis mexicanos não só já realizaram ataques e assassinatos dentro dos EUA, mas já mataram mais cidadãos norte-americanos dentro dos próprios EUA do que os atentados terroristas no dia 11 de Setembro.

Apesar de tudo isso, é o Isis que representa “um claro e real perigo “para os EUA, de acordo com general Martin Dempsey, chefe do Estado-maior, que acrescentou ser necessário formar uma coalizão internacional para enfrentá-los. O secretário de Defesa Chuck Hagel afirmou ainda que o Isis representa uma ameaça superior à de grupos como a al-Qaeda, e acredita que combatentes estrangeiros com passaportes ocidentais poderiam realizar ataques em qualquer lugar do mundo.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Washington Post-ABC News no mês de outubro, 90% dos norte-americanos avaliaram o Isis como uma séria ameaça aos interesses vitais dos EUA. Esse estado de espírito foi muito bem orquestrado pelo governo e mídia. Uma pesquisa realizada pela FAIR (o grupo de verificação da mídia nacional) sobre os principais programas de debates, mesas-redondas e entrevistas na TV entre os dias 7 a 21 de setembro (quando teve inicio exposição dos vídeos de decapitações) avaliou que, do total de 205 fontes que apareceram em programas discutindo opções militares na Síria e no Iraque, apenas seis dessas pessoas expressaram oposição à intervenção militar dos EUA. Listas de convidados foram constituídas, em sua grande maioria por funcionários e ex-funcionários da Casa Branca, bem como por oficiais militares ligados ao Pentágono. (No Debate and the New War).

Essa percepção de que o Isis representa uma “ameaça existencial” permitiu, por sua vez, que o presidente Barack Obama solicitasse ao Congresso o montante de 5,6 bilhões de dólares para o inicio de uma nova guerra liderada pelos EUA no Iraque e na Síria. Assim, a Síria poderá tornar-se o 14º país islâmico que as forças dos EUA já invadiram, ocuparam ou bombardearam, e em que os soldados norte-americanos mataram ou foram mortos desde 1980. São eles: Irã (1980, 1987-1988), Líbia (1981, 1986, 1989, 2011), Líbano (1983), Kuwait (1991), Iraque (1991-2011, 2014-), Somália (1992-1993, 2007-), Bósnia (1995), Arábia Saudita (1991, 1996), Afeganistão (1998, 2001-), Sudão (1998), Kosovo (1999), Iêmen (2000, 2002-), Paquistão (2004-).

Como se sabe, em todas essas operações militares ocorre, previamente ou posteriormente, a montagem de uma enorme infraestrutura de guerra. As estimativas de gastos giram em torno de 10 trilhões de dólares ao longo das últimas quatro décadas com o argumento de combater ameaças e promover estabilidade no Grande Oriente Médio (America’s Bases of War in the Greater Middle East. From Carter to the Islamic State 35 Years of Building Bases and Sowing Disaster By David Vine Global Research, November 17, 2014).

À medida que os EUA se tornam, cada vez mais, uma sociedade multicultural e plural, torna-se cada vez mais difícil moldar um consenso sobre questões que envolvam ações militares internacionais, exceto nas circunstâncias em que se configura a iminência de uma ameaça externa poderosa (real ou virtual). Nas últimas décadas, os policymakers e a mídia em geral nos EUA têm trabalhado para convencer a opinião publica de que supostas intencionalidades de determinados atores são uma ameaça real, independente de suas capacidades militares, e assim passaram a construir modelos explicativos sobre as causas da guerra. No nível coletivo, processos de percepção são compartilhados e comunicados para criar um estado de espírito coletivo de medo. Neste sentido, as ameaças são socialmente construídas por meio de articulações, públicas e privadas, entre especialistas, líderes políticos e militares. Por exemplo, quase não se fala de onde procede, nem muito menos quais são, os recursos e as reais capacidades militares do Isis, mas são repetidos à exaustão os vídeos de execuções e decapitações para impactar emocionalmente o público.

Como lembra o poeta Mia Couto, para fabricar armas, é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos, é imperioso sustentar fantasmas. O que requer a construção e manutenção de enorme aparato de militares, jornalistas, acadêmicos que nos ensinam que, para enfrentarmos as ameaças globais, precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão de direitos. (https://www.youtube.com/watch?v=jACccaTogxE).

Sem dúvida que tudo isso faz parte da cultura do medo que sempre existiu nos EUA, é verdade, mas que se tornou onipresente e absoluto após o 11 de Setembro. Em maio de 2004, o procurador-geral dos EUA, John Ashcroft, alertou que terroristas poderiam “atacar em qualquer lugar, a qualquer momento, e com praticamente qualquer arma”, sem, contudo, especificar sobre quem estava falando e quais eram as reais capacidades desse suposto grupo terrorista. Quando perguntaram ao então secretário de Defesa do governo Bush, Donald Rumsfeld, o que constituiria a vitória na guerra contra o terrorismo após os atentados do dia 11 de Setembro, ele respondeu que dever-se-ia convencer a opinião publica de que seria uma longa batalha. Não foi outra coisa o que disse, recentemente, uma das pessoas mais influentes em questões militares nos EUA, Leon Panetta, que já teve os cargos de chefe de Gabinete da Casa Branca na administração Clinton, diretor da CIA e secretário de Defesa na administração Obama. Em entrevista para oUSA Today advertiu que os norte-americanos precisam se preparar para uma “espécie de guerra dos 30 anos”, que deveria se estender além do Isis, incluindo as ameaças emergentes na Nigéria, Somália, Iêmen, Líbia e em outros lugares.

De certa forma, pode-se argumentar que não houve uma série de guerras no Grande Oriente Médio durante esse período de 40 anos, mas sim uma única e longa guerra, uma guerra sem fim. Supondo que o Estado islâmico seja derrotado, algo bastante provável, podemos ter certeza que de as campanhas militares seguiram seu curso. Assim como até pouco tempo atrás a Al Qaeda era a maior ameaça nunca vista anteriormente, novas ameaças, tão ou mais poderosas que o Isis, serão construídas e, provavelmente, teremos o 15º pais islâmico a ser atacado, ou o retorno para algum campo de batalha de uma guerra considerada inacabada.

Podemos vislumbrar, ainda que remotamente, que essas guerras acabem algum dia? Para responder a uma questão como essa, só recorrendo à genialidade de Mia Couto. Os fantasmas vão morrer apenas quando morrer o medo, mas há quem tenha medo que o medo acabe. E não se iludam, são pessoas poderosas que colocam à sua disposição todos os recursos que possuem para que o medo permaneça.

Reginaldo Nasser é professor do curso de Relações Internacionais da PUC-SP e do programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).

Fonte: Reginaldo Nasser: Forum/Carta Maior: 26/11/2014

O retorno dos jihadistas

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Como a ‘Guerra ao Terror’ criou o grupo terrorista mais poderoso do mundo – Patrick Cockburn: TomDispatch, em Opera Mundi 25/08/2014 

Há elementos extraordinários na política atual dos Estados Unidos em relação ao Iraque e à Síria que estão atraindo uma atenção surpreendentemente baixa. No Iraque, os EUA estão perpetrando ataques aéreos e mandando conselheiros e treinadores para ajudarem a conter o avanço do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (mais conhecido como Estado Islâmico) na capital curda, Arbil. Os EUA presumidamente fariam o mesmo se o EI cercasse ou atacasse Bagdá. Mas, na Síria, a política de Washington é exatamente oposta: há muitos opositores do EI no governo sírio e curdos sírios em seus enclaves do norte. Ambos estão sendo atacados pelo EI, que já tomou cerca de um terço do país, incluindo a maior parte de suas instalações de óleo e gás.

Mas a política dos EUA, da Europa Ocidental e do Golfo Pérsico é derrubar o presidente Bashar al-Assad, que vem a ser a política do EI e de outros jihadis na Síria. E se Assad cair, o EI será o beneficiário, já que será questão de vencer ou absorver o resto da oposição armada síria. Há uma falsa ideia em Washington e outros lugares de que existe uma oposição “moderada” síria sendo ajudada pelos EUA, pelo Qatar, pela Turquia e pelos sauditas. É, apesar disso, fraca e está enfraquecendo a cada dia. Logo o califado pode se estender da fronteira iraniana até o Mediterrâneo e a única força que pode possivelmente impedir que isso aconteça é o exército sírio.

A realidade da política dos EUA é apoiar o governo do Iraque, mas não a Síria, contra o EI. Mas uma razão para o grupo ter sido capaz de se tornar tão forte no Iraque é que ele pode extrair seus recursos e combatentes da Síria. Nem tudo o que deu errado no Iraque foi culpa do primeiro-ministro Nouri al-Maliki, como agora se tornou o consenso político e midiático no Ocidente. Os políticos iraquianos têm me dito nos últimos dois anos que o apoio estrangeiro à revolta sunita na Síria inevitavelmente desestabilizaria o país deles também. Isso agora aconteceu.

Ao continuar com essas políticas contraditórias em dois países, os EUA garantiram que o EI pudesse fortalecer seus combatentes no Iraque por meio da Síria e vice-versa. Até agora, Washington teve sucesso em não levar a culpa pelo crescimento do EI e em colocar toda a culpa no governo iraquiano. Na verdade, criou uma situação na qual o EI pode sobreviver e pode inclusive prosperar (continua).

Massacrar palestinos não dá Ibope

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Em cinco de semanas de conflito, aprovação de Netanyahu caiu de 82% para 38% em Israel – Redação: Opera Mundi 26/08/2014

Após quase 50 dias da ofensiva israelense contra a Faixa de Gaza, uma pesquisa de opinião divulgada na noite desta segunda-feira (25/08) mostra que apenas 38% da população de Israel está satisfeita com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, enquanto 50% desaprovam a conduta do premiê. A consulta realizada pela emissora local Channel 2 News evidencia uma sensível queda nos índices de aprovação do premiê; pesquisa semelhante feita quatro dias antes, em 21 de agosto, mostrava Netanyahu com 55% de aprovação. Três semanas atrás, em 5 de agosto, o índice era de 63%. Em 23 de julho, apenas cinco dias após o Exército israelense ter invadido o território palestino por terra, o chefe de governo aparecia com 82% de aprovação.

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O território palestino está sendo deletado
Sobre a radicalização da sociedade israelense

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Guerra em Gaza amplia clima de ódio e deixa democracia israelense em escombros –  Guila Flint: Opera Mundi 11/08/2014

A ofensiva israelense à Faixa de Gaza deixou o enclave palestino em escombros e também causou danos inestimáveis à liberdade de expressão e à coexistência entre judeus e árabes dentro de Israel. Em meio às tentativas de prolongar o cessar-fogo, intermediadas pelo Egito, já se pode fazer um balanço da destruição causada durante a chamada “Operação Margem Protetora”. Em Gaza os estragos são visíveis: bairros inteiros transformaram-se em montanhas de escombros, cerca de 1.900 pessoas morreram e mais de 100 mil perderam suas casas. Em Israel a destruição não é tão óbvia, mas sim permeia a sociedade e deixa o país, que se considera “a única democracia do Oriente Médio”, com sérios questionamentos sobre o futuro. “Já não se pode mais levar crianças às manifestações pacifistas em Tel Aviv”, afirmou um manifestante, depois que ativistas de organizações pela paz foram espancados por gangues de extrema-direita no centro da maior cidade de Israel. A observação expressa o clima de medo que se criou quando a maioria dos cidadãos se alinhou com a posição do governo e uma minoria significativa, daqueles que são contra, vem sofrendo uma repressão sem precedentes. O veterano jornalista Gideon Levy, do Haaretz, que cobre a questão palestina há anos, recebeu tantas ameaças de morte que o jornal acabou contratando guarda-costas que o acompanham 24 horas por dia. Levy, que denunciou o massacre aos palestinos de Gaza, é taxado como “traidor” e “quinta coluna”.

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Guerra preventiva é um crime contra a humanidade

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“Acredito que a ‘guerra preventiva’ é uma forma de crime contra a humanidade. Ela não será a primeira batalha de uma 3ª Guerra Mundial, mas o primeiro passo para uma espécie de guerra civil globalizada (…) É uma ameaça verdadeira contra a humanidade”, disse Paul Virilio [Paris, 1932], urbanista e filósofo francês, em entrevista à Folha em 06.04.2003.

A guerra enganadora de Israel, de 2014

Gideon Levy – Haaretz, em Carta Maior 29/07/2014

Afinal de contas, como uma guerra preventiva pode ser justificada? E como pode alguém pensar estar agindo corretamente diante do show de horrores das imagens de Gaza?

Começa como uma guerra de escolhas: uma política israelense diferente nos últimos meses teria evitado o conflito, que evoluiu para uma guerra sem sentido. Já é bastante óbvio que isso não resultará em qualquer conquista de longo prazo. Pode ainda deteriorar-se acabando em desastre, e no final, ser uma guerra de enganos – Israel mentiu para si mesmo até arruinar-se.

O primeiro engano foi o de que não havia alternativa. É verdade, quando vários foguetes caem em Israel, tornou-se o caso. Mas e os passos que levaram a eles? Foram passos para os quais houve outras opções. Não é difícil imaginar o que teria acontecido se Israel não tivesse suspendido as conversações de paz; se não tivesse lançado uma guerra total contra o Hamas na Cisjordânia, no rastro do assassinato de três adolescentes israelenses; se não tivesse deixado de realizar a transferência de recursos destinados ao pagamento de salários na Faixa de Gaza; se não tivesse se oposto ao governo de unidade palestina; se tivesse atenuado o bloqueio da Faixa de Gaza.

Os foguetes Qassam foram uma resposta às escolhas de Israel. Depois que os objetivos se acumularam, como sempre ocorre em guerras, – parar os foguetes, encontrar e destruir túneis, desmilitarizar Gaza – eles podem bem continuar a crescer, para sabe-se lá o que mais. “O silêncio será recebido com calma”. Lembram-se disso? Na sexta-feira, Israel rejeitou a proposta de cessar-fogo do Secretário de Estado John Kerry.

O segundo engano é que a ocupação da Faixa de Gaza acabou. Imagine um enclave sitiado, cujos habitantes estão aprisionados, com a maioria dos seus negócios e atividades controlados por um outro estado – da manutenção do registro populacional ao comando de sua economia, inclusive proibindo exportações e restringindo a pesca, e que voa no seu céu e ocasionalmente invade o seu território. Isso não é ocupação?

O terceiro engano é a afirmação de que as Forças de Defesa de Israel “fazem tudo o que está ao seu alcance” para evitar a morte de civis. Já passamos dos primeiros mil civis mortos, um número assustador deles de crianças, com uma vizinhança que foi destruída e 150 mil pessoas desalojadas e sem lugar para onde escapar. Tudo isso torna essa afirmação nada mais que uma piada cruel.

A afirmação de que o mundo apoia a guerra e reconhece sua justeza também é um engodo israelense. Embora seja verdade que os políticos ocidentais reiterem que Israel tem o direito de se defender, os corpos que vão se empilhando e os refugiados desesperados estão decepcionando o mundo e gerando ódio contra Israel. Finalmente, até os estadistas que apoiam Israel lhe deram as costas.

O próximo engodo é que a guerra mostrou ser “o Povo de Israel”  uma “nação maravilhosa”. Essa campanha mentirosa, intoxicante e autocongratulatória e melosa já dura há tempo. A nação se moveu para dar suporte às tropas, e assim vai. Mas além das vans cheias de doces e de caminhões com pacotes de roupas íntimas, e funerais para soldados cujas famílias vivem no exterior, que milhares de israelenses acompanharam, e das demonstrações de preocupação com os feridos, essa guerra também expôs outros comportamentos, em toda a sua feiura. Os “soldados do comitê de bem estar” que são o Povo de Israel, expuseram indiferença em relação ao sofrimento do outro lado. Nem um gesto de compaixão, nem um pingo de humanidade, nenhum choque, nenhuma empatia por sua dor. As imagens horríveis de Gaza – elas não são nada menos que horríveis – são recebidas aqui entre um bocejo e uma comemoração. Um povo que se comporta assim não merece os elogios que acumula sobre si. Quando as pessoas estão morrendo em Gaza e, em Tel Aviv as pessoas estão desinteressadas, não há razão para se ter ânimo.

Nem há causa para ânimo no incidente da campanha contra meia dúzia de pessoas que se opõem à guerra. Do gabinete de ministros e membros do parlamento, para as ruas e os caras da internet, um vento doente está soprando. Somente cidadãos obedientes. “Unidade israelense”? “A nação é uma grande família”? Isso é uma piada. Assim como é piada a cobertura midiática israelense em tempos de guerra, uma rede de propaganda cujos membros emitem notícias para si mesmos, a título de autoelogio ou exortação, para incitar e instigar, e para fechar os próprios olhos.

E a maior piada de todas, a mãe de todos os enganos: a crença na retidão de seus métodos. O slogan da “guerra justa” é repetido com tanta frequência, ad nauseam, que se começa a suspeitar que até aqueles que o entoam em alta voz começam a duvidar. Não fosse assim, não estariam gritando tão alto e não combateriam tão facilmente os poucos que tentam expressar uma opinião diferente. Afinal de contas, como uma guerra preventiva pode ser justificada? E como pode alguém pensar estar agindo corretamente diante do show de horrores das imagens de Gaza?

Talvez o chão esteja queimando também sob os pés dos membros desse coro de legitimadores da guerra. Talvez eles também tenham entendido que, quando as batalhas acabam, o quadro real se torna claro. É assim que sempre ocorre em guerras enganadoras. E é assim que a guerra de 2014 também vai se mostrar.

Tradução: Louise Antônia León

Israel’s war of deception 2014 – By Gideon Levy: Haaretz  27/07/2014

How can a preventable war be justified? And how can one wrap oneself in its rightness in the presence of the horror-show images from Gaza?


It began as a war of choice: A different Israeli policy in the last few months might have prevented it. It evolved into a pointless war. It’s already pretty obvious that it will not result in any long-term achievements. It could still deteriorate into a disaster, and in the end will turn out to have been… 

Quem é Gideon Levy?

Gideon Levy (Tel-Aviv, 1953), jornalista israelense, é membro da direção do jornal Haaretz. Crítico em relação à política do governo de Israel quanto aos territórios ocupados, Levy publica semanalmente, na sua coluna Twilight Zone, uma crônica sobre violações de direitos civis dos palestinos. Denuncia o recurso sistemático à violência por parte do governo de Israel e a manipulação da opinião pública do seu país, que desumaniza tanto o povo israelense como os seus adversários. Levy já recebeu vários prêmios por sua atuação na defesa de direitos humanos.

Gideon Levy is a Haaretz columnist and a member of the newspaper’s editorial board. Levy joined Haaretz in 1982, and spent four years as the newspaper’s deputy editor. He is the author of the weekly Twilight Zone feature, which covers the Israeli occupation in the West Bank and Gaza over the last 25 years, as well as the writer of political editorials for the newspaper. Levy was the recipient of the Euro-Med Journalist Prize for 2008; the Leipzig Freedom Prize in 2001; the Israeli Journalists’ Union Prize in 1997; and The Association of Human Rights in Israel Award for 1996. His new book, The Punishment of Gaza, has just been published by Verso Publishing House in London and New York.

Leia Mais:
Gideon Levy: Eu não fui para Gaza [2012] As trombetas da guerra em Israel [2009] Antropólogo judeu denuncia genocídio de Netanyahu [atualização em 30/07/2014] Corações, mentes e corpos [atualização em 31/07/2014]

Governo de Israel perdeu a compostura

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É evidente que o governo brasileiro não busca a relevância que a chancelaria israelense tem ganhado nos últimos anos. Menos ainda a relevância militar que está sendo exibida vis-à-vis populações indefesas. A irresolução da crise palestina alimenta a instabilidade no Oriente Médio e leva água ao moinho do fundamentalismo, ameaçando a paz mundial.

O que está em jogo na Faixa de Gaza – Marco Aurélio Garcia: Opera Mundi 24/07/2014

O governo brasileiro reagiu em dois momentos à crise. Na sua nota de 17 de julho “condena o lançamento de foguetes e morteiros de Gaza contra Israel” e, ao mesmo tempo, deplora “o uso desproporcional da força” por parte de Israel. Em comunicado de 23 de julho e tendo em vista a intensificação do massacre de civis, o Itamaraty considerou “inaceitável a escalada da violência entre Israel e Palestina” e, uma vez mais, condenou o “uso desproporcional da força” na Faixa de Gaza. Na esteira dessa percepção, o Brasil votou a favor da resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU (somente os Estados Unidos estiveram contra) que condena as “graves e sistemáticas violações dos Direitos Humanos e Direitos Fundamentais oriundas das operações militares israelenses contra o território Palestino ocupado” e convocou seu embaixador em Tel Aviv para consultas. A chancelaria de Israel afirmou que o Brasil “está escolhendo ser parte do problema em vez de integrar a solução” e, ao mesmo tempo, qualificou nosso país como “anão” ou “politicamente irrelevante”. É evidente que o governo brasileiro não busca a “relevância” que a chancelaria israelense tem ganhado nos últimos anos. Menos ainda a “relevância” militar que está sendo exibida vis-à-vis populações indefesas.

Leia o texto completo.

Leia Mais:
Chanceler rebate Israel: “se há anão, não é o Brasil”
‘Se há algum anão diplomático, o Brasil não é um deles’, diz ministro
Povos de todo o mundo exigem fim do genocídio israelense contra palestinos
Que tipo de anão é o Brasil? [atualização em 28.07.2014]

O território palestino está sendo deletado

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Pouca Palestina resta. Pouco a pouco, Israel está apagando-a do mapa – Eduardo Galeano: Carta Maior 21/07/2014

Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem sequer respirar sem autorização. Têm perdido a sua pátria e as suas terras, a sua água, a sua liberdade, tudo. Nem sequer têm direito de eleger os seus governantes. 

Para justificar-se, o terrorismo de Estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe álibis. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo os seus autores quer acabar com os terroristas, conseguirá multiplicá-los. Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem sequer respirar sem autorização. Têm perdido a sua pátria, as suas terras, a sua água, a sua liberdade, tudo. Nem sequer têm direito de eleger os seus governantes. Quando votam em quem não devem votar, são castigados. Gaza está sendo castigada. Converteu-se numa ratoeira sem saída, desde que o Hamas ganhou legitimamente as eleições em 2006 (…) São filhos da impotência os rockets caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com desleixada pontaria sobre as terras que tinham sido palestinas e que a ocupação israelense usurpou. E o desespero, à orla da loucura suicida, é a mãe das ameaças que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está a negar, desde há muitos anos, o direito à existência da Palestina. Já pouca Palestina resta. Pouco a pouco, Israel está a apagá-la do mapa. Os colonos invadem, e, depois deles, os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacralizam o despojo, em legítima defesa. Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva (…)  Em cada uma das suas guerras defensivas, Israel engoliu outro pedaço da Palestina, e os almoços continuam. O repasto justifica-se pelos títulos de propriedade que a Bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinos à espreita. Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, o que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, o que escarnece das leis internacionais, e é também o único país que tem legalizado a tortura de prisioneiros. Quem lhe presenteou o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está a executar a matança em Gaza?

Leia o texto completo e observe o mapa. O texto pode ser lido também aqui.

Ya poca Palestina queda. Paso a paso, Israel la está borrando del mapa – Eduardo Galeano: Sin Permiso 20/07/2014

Desde 1948, los palestinos viven condenados a humillación perpetua. No pueden ni respirar sin permiso. Han perdido su patria, sus tierras, su agua, su libertad, su todo. Ni siquiera tienen derecho a elegir sus gobernantes.

Para justificarse, el terrorismo de Estado fabrica terroristas: siembra odio y cosecha coartadas. Todo indica que esta carnicería de Gaza, que según sus autores quiere acabar con los terroristas, logrará multiplicarlos. Desde 1948, los palestinos viven condenados a humillación perpetua. No pueden ni respirar sin permiso. Han perdido su patria, sus tierras, su agua, su libertad, su todo. Ni siquiera tienen derecho a elegir sus gobernantes. Cuando votan a quien no deben votar, son castigados. Gaza está siendo castigada. Se convirtió en una ratonera sin salida, desde que Hamas ganó limpiamente las elecciones en el año 2006. Algo parecido había ocurrido en 1932, cuando el Partido Comunista triunfó en las elecciones de El Salvador. Bañados en sangre, los salvadoreños expiaron su mala conducta y desde entonces vivieron sometidos a dictaduras militares. La democracia es un lujo que no todos merecen. Son hijos de la impotencia los cohetes caseros que los militantes de Hamas, acorralados en Gaza, disparan con chambona puntería sobre las tierras que habían sido palestinas y que la ocupación israelí usurpó. Y la desesperación, a la orilla de la locura suicida, es la madre de las bravatas que niegan el derecho a la existencia de Israel, gritos sin ninguna eficacia, mientras la muy eficaz guerra de exterminio está negando, desde hace años, el derecho a la existencia de Palestina. Ya poca Palestina queda. Paso a paso, Israel la está borrando del mapa. Los colonos invaden, y tras ellos los soldados van corrigiendo la frontera. Las balas sacralizan el despojo, en legítima defensa. No hay guerra agresiva que no diga ser guerra defensiva. Hitler invadió Polonia para evitar que Polonia invadiera Alemania. Bush invadió Irak para evitar que Irak invadiera el mundo. En cada una de sus guerras defensivas, Israel se ha tragado otro pedazo de Palestina, y los almuerzos siguen. La devoración se justifica por los títulos de propiedad que la Biblia otorgó, por los dos mil años de persecución que el pueblo judío sufrió, y por el pánico que generan los palestinos al acecho. Israel es el país que jamás cumple las recomendaciones ni las resoluciones de las Naciones Unidas, el que nunca acata las sentencias de los tribunales internacionales, el que se burla de las leyes internacionales, y es también el único país que ha legalizado la tortura de prisioneros. ¿Quién le regaló el derecho de negar todos los derechos? ¿De dónde viene la impunidad con que Israel está ejecutando la matanza de Gaza? (continua)

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* O verbo inglês delete, ‘apagar, excluir, remover, suprimir’ – aquele do teclado dos nossos computadores! –  vem do latim deleo, ‘destruir, apagar, suprimir’. Entrou no inglês no século XV e, no português, o uso de deletar pode ser datado por volta de 1975, segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss de 2009. É o mesmo verbo usado na expressão latina Carthago delenda est.

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