Livro em homenagem a Thomas Römer

MACCHI, J.-D.; NIHAN, C. (eds.) The Ancestors of Genesis and the Exodus Traditions: A Festschrift for Thomas Römer. Berlin: De Gruyter, 2026, 726 p. – ISBN 9783111612560.

Os textos estão em inglês, francês e alemão. O livro está disponível para download gratuito, em pdf, na University Press Library Open.MACCHI, J.-D.; NIHAN, C. (eds.) The Ancestors of Genesis and the Exodus Traditions: A Festschrift for Thomas Römer. Berlin: De Gruyter, 2026, 726 p.

Dizem os editores Jean-Daniel Macchi e Christophe Nihan* na Introdução do livro:

O presente volume reúne 35 contribuições em homenagem a Thomas Römer, escritas por colegas, alunos e amigos (…)

Thomas Römer estudou Teologia nas Universidades de Heidelberg e Tübingen [Alemanha], bem como Estudos Religiosos na École Pratique des Hautes Études, em Paris (…). Lecionou por vários anos na Faculdade de Teologia da Universidade de Genebra [Suíça] (…). Foi lá que concluiu seu doutorado sob a supervisão do Prof. Albert de Pury, tese publicada em 1990. Em 1993, foi nomeado Professor Titular da Faculdade de Teologia da Universidade de Lausanne [Suíça], cargo que ocupou até sua aposentadoria em 2020. Em 2008, foi nomeado Professor do Collège de France, em Paris, para a Cátedra “Milieux bibliques”. Em 2013, foi nomeado Professor Extraordinário da Universidade de Pretória [África do Sul]. Em 2019, foi eleito Administrador do Collège de France, cargo que ainda ocupa. Ao longo de sua carreira, Thomas Römer recebeu diversos prêmios e distinções, dos quais apenas alguns podem ser mencionados aqui. Em 2015, foi nomeado Doutor honoris causa pela Universidade de Tel Aviv [Israel]. Em 2016, foi eleito “Académicien” pela Académie des Inscriptions et Belles Lettres de Paris. Em 2019, foi nomeado “Chevalier de l’ordre de la Légion d’honneur” e, posteriormente (2023), “Commandeur de l’ordre des Arts et Lettres”, a mais alta distinção civil na França para alguém que trabalha na área das Humanidades.

Sua tese, publicada em 1990 [Israels Väter. Untersuchungen zur Väterthematik im Deuteronomium und in der deuteronomistischen Tradition], foi dedicada à menção dos “pais” no Livro de Deuteronômio e, de forma mais ampla, nos textos deuteronomistas da Bíblia Hebraica. Este estudo foi escrito no contexto da significativa renovação da discussão sobre a composição do Pentateuco que ocorreu na Europa desde a década de 1970, e para a qual a monografia de Thomas Römer representa uma contribuição substancial.

Essencialmente, Römer argumentou nesta obra que a menção dos “pais” em textos pertencentes à tradição deuteronomista não se refere aos Patriarcas do Gênesis (Abraão, Isaque e Jacó), mas sim à geração do Êxodo. Essa descoberta implica que existem pelo menos duas concepções distintas das origens de Israel no Pentateuco: a primeira destaca o papel dos Patriarcas na genealogia de Israel e suas reivindicações de herança da terra, enquanto a outra situa as origens de Israel no êxodo do Egito. Foi somente em um estágio posterior, quando as tradições que compõem o Pentateuco foram gradualmente reunidas, que essas duas concepções sobre as origens de Israel foram combinadas e parcialmente harmonizadas.

Em muitos aspectos, este estudo representou um marco na discussão sobre a composição do Pentateuco. Em particular, pôs fim a uma das últimas hipóteses importantes herdadas da Hipótese Documentária, a saber, a ideia de que a camada narrativa mais antiga, como a chamada “Javista”, já abrangia todo o Pentateuco ou Hexateuco. Se a combinação das tradições sobre os Patriarcas e o Êxodo é um desenvolvimento tardio, pós-Deuteronomista, então a criação de uma grande narrativa que se estende de Gênesis a Deuteronômio, ou mesmo de Gênesis a Josué, deve ser situada não no início, mas sim no fim do processo de composição.

Essa conclusão, por sua vez, abriu caminho para uma melhor compreensão do processo pelo qual tradições de diferentes origens foram reunidas para formar gradualmente o mosaico complexo que hoje se encontra no Pentateuco canônico. Simultaneamente, também abriu caminho para uma melhor compreensão da criatividade envolvida nos estágios finais da composição do Pentateuco. Os redatores tardios do Pentateuco não eram meros compiladores de fontes anteriores; eram escribas habilidosos (“autores”, se preferir usar esse termo) que buscavam conciliar tradições concorrentes sobre as origens de Israel.

Assim, a tese de Römer abriu muitas linhas de pesquisa que foram continuadas em estudos posteriores, especialmente (embora não exclusivamente) no contexto europeu.

Thomas Römer (nascido em Mannheim, Alemanha, em 1955)Nos 35 anos que se seguiram à publicação de sua tese, Thomas Römer desenvolveu muitas outras áreas de pesquisa em sua vasta produção acadêmica (mais de 20 livros de sua autoria ou coautoria e 300 artigos e capítulos de livros). Contudo, a relação entre as origens de Israel e a produção da literatura israelita antiga, bem como o papel de múltiplas, e até mesmo contraditórias, representações dessas origens nesse processo, permaneceu como um fio condutor em suas publicações.

Aqui vamos sugerir que pelo menos cinco áreas principais de pesquisa podem ser identificadas nas publicações de Thomas Römer, todas relacionadas, de uma forma ou de outra, com essa preocupação geral com a representação das origens de Israel como um campo complexo, até mesmo contestado, dentro da Bíblia Hebraica e de outras literaturas judaicas antigas.

(1) A composição do Pentateuco permaneceu uma área privilegiada de pesquisa, à qual Thomas Römer dedicou inúmeros artigos e capítulos de livros, abordando uma ampla gama de tópicos. Estes incluem (mas não se limitam a): a composição das histórias sobre Abraão, Jacó e José; a formação das tradições do Êxodo; o Livro de Números como uma espécie de “ponte” entre Gênesis-Levítico e Deuteronômio; ou a alternativa entre Pentateuco e Hexateuco nas redações tardias da Torá. O denominador comum de todos esses estudos é a exploração de um modelo alternativo para a composição do Pentateuco, no qual tal composição resulta da conexão gradual de fontes ou composições literárias originalmente separadas, em vez de uma narrativa abrangente original.

(2) Thomas Römer também dedicou vários estudos aos deuteronomistas e seu papel na representação da história de Israel. Essa abordagem culminou, de certa forma, com a publicação, em 2005, de sua monografia A chamada história deuteronomista: Introdução sociológica, histórica e literária, na qual ele argumenta a favor de um modelo de três estágios na composição da narrativa de Deuteronômio a Reis, estendendo-se do final do período neoassírio até o período persa. Nesse contexto, também devem ser mencionados seus estudos sobre as redações deuteronomistas de Jeremias, nos quais ele aborda a espinhosa questão das semelhanças e diferenças entre as edições deuteronomistas de Jeremias e Reis.

(3) Além do Pentateuco e da História Deuteronomista, uma parte significativa da obra de Thomas Römer foi dedicada a questões relativas à religião do antigo Israel e às transformações do deus nacional, Iahweh. Diversas publicações tratam da persistência de elementos “politeístas” na religião do antigo Israel, enquanto outras abordam o surgimento do monoteísmo javista. É evidente que os dois aspectos estão intimamente interligados e, juntos, proporcionam uma visão abrangente das continuidades, bem como das descontinuidades, entre o antigo Israel e o judaísmo primitivo, a partir de uma perspectiva da história da religião.

(4) Intimamente relacionado com seu trabalho sobre o Pentateuco, mas sob uma perspectiva diferente, Thomas Römer também publicou diversos estudos sobre as tradições gregas a respeito de Moisés. Em particular, ele demonstra como essas tradições podem nos ajudar a redescobrir aspectos de Moisés que foram marginalizados na Bíblia Hebraica – como a representação de Moisés como guerreiro, por exemplo. Ele também argumenta nesses estudos que as tradições bíblicas sobre Moisés são melhor compreendidas como uma seleção, feita durante os períodos persa tardio e helenístico, dentro de uma tradição mosaica muito mais ampla.

(5) Por fim, as publicações de Thomas Römer na última década têm sido cada vez mais caracterizadas pela interação com arqueólogos, especialmente da escola de Tel Aviv. Em uma série de publicações, várias delas em coautoria com Israel Finkelstein, Römer explora as maneiras pelas quais os estudos bíblicos e a arqueologia podem colaborar para lançar nova luz sobre a história de Israel e a produção da literatura israelita, especialmente no contexto do período neoassírio e dos reinos de Samaria e Judá. Embora algumas dessas pesquisas também apontem para as dificuldades, às vezes até mesmo para os limites, de tal abordagem, não há dúvida de que uma colaboração renovada e intensificada entre esses dois campos abre novos caminhos para pesquisas futuras.

Como o título indica, o presente volume homenageia a rica contribuição acadêmica de Thomas Römer, concentrando-se no tema dos ancestrais de Israel em Gênesis e Êxodo.

Embora este tema esteja particularmente ligado ao trabalho de Römer sobre o Pentateuco, várias das contribuições aqui reunidas também se relacionam a outros aspectos de sua pesquisa, incluindo (mas não se limitando a) a história da religião de Israel, a relação entre a Bíblia Hebraica e a arqueologia, ou a História Deuteronomista e os Profetas.

Especificamente, o volume foi dividido em cinco partes:

A primeira parte, intitulada “Os ancestrais de Gênesis: Novas perspectivas sobre figuras antigas”, contém ensaios que tratam dos ancestrais de Israel no Livro de Gênesis.

A segunda parte, “As histórias sobre os ancestrais de Israel como fonte para a história e a religião de Israel”, compreende ensaios que abordam as tradições de Gênesis e Êxodo sob a perspectiva da arqueologia, da história e da história das religiões.

A terceira parte, “A conexão entre Gênesis e Êxodo na perspectiva da história da tradição e da crítica da redação”, discute várias questões relacionadas às continuidades e descontinuidades que podem ser observadas entre os dois primeiros livros da Bíblia Hebraica.

A quarta parte inclui ensaios que abordam “As origens, o contexto e o desenvolvimento das tradições do Êxodo” sob diversas perspectivas.

Finalmente, a quinta seção (“Os ancestrais de Israel fora do Gênesis”) explora os múltiplos aspectos da recepção dos ancestrais de Gênesis em outras partes da Bíblia Hebraica, especialmente nos Profetas Posteriores, nos Escritos e até no Alcorão.

(…)

* Jean-Daniel Macchi, Universidade de Genebra, Suíça. Christophe Nihan, Universidade de Münster, Alemanha.

Tiglat-Pileser III, fundador do império assírio

ELAYI, J. Tiglath-pileser III, Founder of the Assyrian Empire. Atlanta: SBL, 2022, 228 p. – ISBN 9781628374292 [gratuito no projeto ICI da SBL].

A maioria dos historiadores modernos considera Tiglat-Pileser III, rei da Assíria de 745 a 727 a.C., o verdadeiro fundador do império assírio. Nesta biografia e história de seu reinado, Josette Elayi explora questões sobre como Tiglat-Pileser conseguiu expandir o império assírio após um período de fragilidade, quais os efeitos da dominação assíria sobre Israel e Judá e como foram diferentes os destinos dos dois reinos. Utilizando fontes arqueológicas e escritas da época, Elayi completa sua trilogia de biografias, que inclui Sargão II e Senaquerib. Elayi oferece mais um recurso essencial para estudiosos e estudantes da história assíria e da Bíblia Hebraica.ELAYI, J. Tiglath-pileser III, Founder of the Assyrian Empire. Atlanta: SBL, 2022, 228 p.

 

Most modern historians consider Tiglath-pileser III, king of Assyria from 745 to 727 BCE, to be the true founder of the Assyrian Empire. In this biography and history of his reign, Josette Elayi explores questions surrounding how Tiglath-pileser managed to expand the Assyrian Empire after a period of weakness, what effects Assyrian domination had on Israel and Judah, and how the two kingdoms’ fates differed. Using archaeological and written sources for the period, Elayi completes her trilogy of biographies, which includes Sargon II and Sennacherib. Elayi provides yet another essential resource for scholars and students of Assyrian history and the Hebrew Bible.

Josette Elayi (1943-) est une historienne de l’Antiquité, auteur de nombreux ouvrages dont une remarquable Histoire de la Phénicie (Perrin, 2013). Chercheuse et enseignante, elle a vécu de nombreuses années au Proche Orient.

 

Diz a autora na Introdução de seu livro:

Diversas obras acadêmicas modernas, grandes e pequenas, mencionam Tiglat-Pileser III. Toda história geral da Assíria ou da Mesopotâmia inclui breves estudos, sendo o último o útil livro escrito por Eckart Frahm*. O primeiro foi Tiglath Pileser III, de Abraham S. Anspacher, publicado em Nova York em 1912; este relato sucinto, baseado na primeira publicação das inscrições de Tiglat-Pileser por Rost, oferece uma visão geral de algumas de suas campanhas militares. A maioria das obras, por exemplo, as de Michael Astour, Stephanie Dalley, Stefan Zawadski, Jacob Kaplan e Sajjad Alibaigi**, estavam relacionadas a um aspecto histórico específico do reinado de Tiglat-Pileser, como sua ascensão ao trono, o exército assírio e as expedições militares. Diversas outras obras, como as de Albrecht Alt, Ernst Vogt, Mordechai Cogan, Nadav Na’aman, Gershon Galil e Luis Robert Siddall***, focaram-se em expedições a Israel e Judá. Obras de Richard D. Barnett e Julian E. Reade focaram-se no palácio de Tiglat-Pileser em Nimrud****.

Meu objetivo específico neste livro é estudar, pela primeira vez, a história do reinado de Tiglat-Pileser, que foi fértil em eventos, em todas as suas facetas — política, militar, econômica, social, ideológica, religiosa, técnica e artística —, sabendo que alguns aspectos são consideravelmente mais documentados do que outros. No entanto, assim como a história do reinado de Sargão II, a de Tiglat-Pileser é pouco documentada no que diz respeito à sua origem familiar, sua juventude e o período anterior à sua ascensão ao trono. Portanto, é difícil propor uma avaliação abrangente dos fatores psicológicos que moldaram seu caráter e como, por sua vez, esses fatores influenciaram sua abordagem à política.

A história do reinado de Tiglat-Pileser pertence a uma trilogia, juntamente com a de Sargão II e a de Senaquerib, ou seja, avô, pai e filho*****. O presente livro proporciona uma compreensão do curso do reinado de Tiglat-Pileser em relação às suas escolhas pessoais e ao contexto de sua época. Diversas questões são levantadas e respondidas sempre que possível: Tiglat-Pileser foi um usurpador? Em que circunstâncias ascendeu ao trono? Quais eram suas qualidades e habilidades? Quais eram suas deficiências? O que ele tentou alcançar e como buscou atingir seus objetivos? Ele tinha um plano ou programa claro no início de seu reinado? Pode ser considerado o verdadeiro fundador do império assírio? Como conseguiu construir o império? Ele achava mais importante expandir ou embelezar o império? Era mais um conquistador ou um administrador? Era mais um reformador ou um conservador? Suas realizações foram mais inovadoras ou representaram uma continuidade? O que se pode dizer sobre sua evolução pessoal durante seu reinado? Em que áreas ele obteve sucesso ou, inversamente, fracassou?

(…)

Josette Elayi (1943-)Para determinar se Tiglat-Pileser foi o verdadeiro fundador do império assírio, o capítulo 1, “O reino da Assíria em 745 a.C.”, deve primeiro definir o que constituía o Estado assírio e em que condições se encontrava quando ele ascendeu ao trono. Para responder a essa pergunta, precisamos comparar a Assíria de 745 a.C. com a de 727 a.C.

O capítulo 2, “Tiglat-Pileser III foi um usurpador?”, investiga a questão da legitimidade de Tiglat-Pileser, visto que sua ascensão ao trono está longe de ser clara. Isso, por si só, apresenta diversos problemas. Este capítulo abrange o estudo do nome de Tiglat-Pileser, sua família, sua juventude, sua função anterior, sua aparência física e sua personalidade, com base em inscrições, mesmo que distorcidas pela propaganda real.

O capítulo 3, “A ascensão de Tiglat-Pileser III ao trono”, examina o difícil contexto histórico dos primeiros anos de reinado de Tiglat-Pileser e as primeiras medidas que ele adotou para consolidar sua posição.

O capítulo 4, “A neutralização de altos dignitários”, explica como altos dignitários, como Shamshi-ilu, ascenderam ao poder e como Tiglat-Pileser procedeu à restauração do poder real.

O capítulo 5, “A estratégia de conquista”, investiga os objetivos do rei, seu cuidadoso planejamento estratégico militar e o papel do Ocidente nessa estratégia.

Nos capítulos 6 a 10, o livro segue uma ordem cronológica, baseada principalmente nos diversos textos dos anais. O capítulo 6, “A primeira fase das campanhas (745-744)”, analisa as campanhas prioritárias de Tiglat-Pileser, a criação de novas províncias e a nova medida de deportação de populações. O capítulo 7, “A segunda fase das campanhas (743–738)”, analisa as campanhas subsequentes conduzidas contra a coalizão da Síria e Urartu, com a criação de novas províncias ocidentais. O capítulo 8, “A terceira fase das campanhas (737–735)”, analisa as campanhas contra Média e Urartu e a criação do novo conceito de estado-tampão. O capítulo 9, “A quarta fase das campanhas (734–732)”, abrange as diferentes campanhas em direção aos estados ocidentais de Damasco, às cidades fenícias e filisteias, a Israel e a Judá. O capítulo 10, “A quinta fase das campanhas (731–727)”, trata das campanhas contra as tribos caldeias e arameias, concluindo com a conquista da Babilônia.

O capítulo 11, “O rei está morto! Viva o rei!”, concentra-se na morte misteriosa de Tiglat-Pileser e na nomeação de um príncipe herdeiro, Salmanasar V.

O capítulo 12, “Atividades de construção”, examina os projetos de construção iniciados pelo rei.

Finalmente, “Conclusão: avaliação do reinado de Tiglat-Pileser III” oferece uma avaliação do reinado de Tiglat-Pileser, sua contribuição para a transformação do reino da Assíria no império assírio e as consequências positivas e negativas de suas decisões e ações.

Ao final do livro, os leitores encontrarão ferramentas de pesquisa: uma bibliografia selecionada para cada capítulo; um índice dos textos antigos utilizados; um índice dos nomes pessoais citados, seguido de breves comentários e datas de reinado para situá-los em uma perspectiva diacrônica e sincrônica; e um índice dos autores modernos citados. Três mapas, que localizam as referências geográficas do livro, são fornecidos no corpo do texto, juntamente com uma cronologia do reinado de Tiglat-Pileser.

 

* Eckart Frahm, A Companion to Assyria (Malden, MA: Wiley Blackwell, 2017).

** Michael Astour, “The Arena of Tiglath-pileser III’s Campaign against Sarduri II (743 B.C.),” Assur 2 (1979): 69–88; Stephanie Dalley, “Foreign Chariotry and Cavalry in the Armies of Tiglath-pileser III and Sargon II,” Iraq 47 (1985): 31–48; Stefan Zawadski, “The Revolt of 746 BC and the Coming of Tiglath-pileser III to the Throne,” SAAB 6 (1992): 21–33; Jacob Kaplan, “Recruitment of Foreign Soldiers into the Neo-Assyrian Army during the Reign of Tiglath-pileser III,” in Treasures on Camel’s Humps, Historical and Literary Studies from the Ancient Near East Presented to Israel Eph‘al, ed. Mordechai Cogan and Dan’el Kahn (Jerusalem: Magnes Press, 2008), 135–52; Sajjad Alibaigi, “The Location of the Second Stele Commemorating Tiglath-pileser III’s Campaign to the East in 737 BC,” SAAB 23 (2017): 47–53.

*** Albrecht Alt, “Tiglatpileser III, erster Feldzug nach Palästina,” in Kleine Schriften zur Geschichte des Volkes Israel, vol. 2 (Munich, 1953), 150–62; Ernst Vogt, “Die Texte Tiglat-pilesers III. über die Eroberung Palästinas,” Bib 45 (1964): 348–54; Hayim Tadmor and Mordechai Cogan, “Ahaz and Tiglathpileser in the Book of Kings: Historiographic Considerations,” Bib 60 (1979): 491–508; Nadav Na’aman, “Tiglath-pileser III’s Campaigns against Tyre and Israel (734–732 B.C.E.),” Tel Aviv 22 (1995): 268–78; Na’aman, “Tiglath-pileser III’s Annexations According to the Iran Stele (IIB),” NABU (1998): 16, no. 14; Gershon Galil, “A New Look at the Inscriptions of Tiglath-pileser III,” Bib 81 (2000): 511–20; Luis Robert Siddall, “Tiglath-pileser III’s Aid to Ahaz,” ANES 46 (2009): 93–106.

**** Richard D. Barnett and Margarete Falkner, The Sculptures of Aššur-naṣir-apli II (883–859 B.C.), Tiglath-pileser III (745–727 B.C.), Esarhaddon (681–669 B.C.) from the Central and South-West Palaces at Nimrud (London: British Museum, 1962), 34–46; Julian E. Reade, “The Palace of Tiglath-pileser III,” Iraq 30 (1968): 69–73.

***** Josette Elayi, Sargon II, King of Assyria, ABS 22 (Atlanta: SBL Press, 2017); Elayi, Sennacherib, King of Assyria, ABS 24 (Atlanta: SBL Press, 2018).

O colapso da Idade do Bronze 4

MILLEK, J. Destruction and Its Impact on Ancient Societies at the End of the Bronze Age. Columbus, GA: Lockwood Press, 2023, 394 p. – ISBN 9781948488839.

Interessado em entender as origens de Israel, tenho lido alguns estudos sobre o colapso das civilizações do antigo Oriente Médio no final da Idade do Bronze, por volta de 1200 a.C. O capítulo 1 deste livro é muito útil por apresentar um panorama das discussões sobre o tema.MILLEK, J. Destruction and Its Impact on Ancient Societies at the End of the Bronze Age, Columbus, GA: Lockwood Press, 2023, 394 p.

Diz a editora que este estudo de Jesse Millek oferece uma reavaliação inovadora das destruições que supostamente ocorreram em sítios arqueológicos do Mediterrâneo Oriental no final da Idade do Bronze Recente, e desafia as inúmeras teorias abrangentes que foram propostas para explicá-las. O autor demonstra que terremotos, guerras e destruição desempenharam um papel muito menor nesse período do que a literatura das últimas décadas tem afirmado, e argumenta que o fim da Idade do Bronze Recente foi um processo muito menos dramático e mais prolongado do que geralmente se acredita.

O capítulo 1, Destruição e o fim da Idade do Bronze [Destruction and the End of the Bronze Age], tem 4 seções que serão publicadas em 4 posts:

1. Colapso, crise e o ano de 1200 a.C. [Collapse, Crisis, and the Year 1200 BCE]

2. Breve história da destruição por volta de 1200 a.C. [A Brief History of Destruction ca. 1200 BCE]

3. 1200 a.C. e o fim da Idade do Bronze Recente: consenso, termo impróprio ou rótulo [1200 BCE and the End of Late Bronze Age: Consensus, Misnomer, or Shorthand]

4. Objetivo, propósito e organização do estudo [Purpose, Scope, and Organization of the Work]

A bibliografia, necessária para a consulta das notas de rodapé, pode ser acessada em pdf, aqui.

Reestruturei o texto do capítulo 1 em formato de perguntas e respostas.

Jesse M. Millek é, desde 2023, pesquisador visitante da Universidade de Leiden, Países Baixos, no Nederlands Instituut voor het Nabije Oosten (NINO). É doutor (2017) em Estudos do antigo Oriente Médio pelo Institute for Ancient Near Eastern Studies (IANES) da Eberhard Karls Universität de Tübingen, Alemanha. Tem “Habilitation Equivalent” (2021) em Estudos do antigo Oriente Médio, Departamento de Estudos do Oriente Médio, Universidade de Michigan, Ann Arbor, Michigan, EUA. Tema da Habilitação: “Desastres e destruições e seus efeitos nas sociedades antigas do Mediterrâneo Oriental no final da Idade do Bronze”.

 

Objetivo, propósito e organização do estudo

Que problemas afetam as pesquisas sobre a destruição do final da Idade do Bronze?
. A partir da discussão acima, podemos destacar várias questões relacionadas ao volume percebido de destruição e aos efeitos dessa destruição sobre o fim da Idade do Bronze Recente em todo o Mediterrâneo Oriental, que precisam ser abordadas. Os três principais problemas são os seguintes:
(1) Mais de um século de pesquisas sobre o fim da Idade do Bronze Recente produziu listas e mapas de destruição cada vez maiores, mas, com o tempo, essas listas e mapas se tornaram incontestáveis ​​e não houve uma revisão completa para verificar se todos os sítios citados foram de fato destruídos por volta de 1200 a.C.
(2) Este primeiro problema é agravado pelo fato de não haver ferramentas interpretativas amplamente utilizadas para determinar, primeiro, se um sítio apresenta evidências de destruição; segundo, se houver evidências de destruição, qual a extensão do sítio afetada; e terceiro, o que pode ter causado a destruição. Atualmente, o que para um arqueólogo é cinza, para outro é incêndio. Assim, na ausência de quaisquer padrões para o que constitui uma destruição e como definir e descrever eventos de destruição, ficamos numa situação em que, se algum estudioso afirma que “o sítio X foi destruído por volta de 1200 a.C.”, então ele foi destruído, sem muitas perguntas, e o sítio aparece posteriormente em listas ou mapas de destruição.
(3) O fim da Idade do Bronze Recente tornou-se um termo genérico para destruições que são separadas por mais tempo do que a maioria dos subperíodos da Idade do Bronze Recente ou da Idade do Ferro. Isso levou ao problema de que eventos cronologicamente díspares foram colocados em mapas de destruição por volta de 1200 a.C., mesmo que os próprios eventos sejam separados por décadas – ou até mesmo por um século ou mais.

A combinação desses três fatores leva a resultados inadequados?
O Mediterrâneo Oriental: principais sítios destruídos na catástrofe. Fonte: Robert Drews, The End of the Bronze Age, 1993. A combinação desses três fatores criou uma situação em que inúmeros sítios arqueológicos foram listados como destruídos quando, na verdade, nunca o foram, ou, em alguns casos, pelo menos não por volta de 1200 a.C. Em outros casos, embora certos sítios certamente tenham sofrido destruição por volta de 1200 a.C. em todo o Mediterrâneo Oriental, a gravidade dessas destruições foi frequentemente exagerada, visto que apenas um único edifício de todo o sítio foi encontrado queimado ou em ruínas. Contudo, geralmente, nas seções de resumo e conclusão dos relatórios de sítios e escavações, os arqueólogos tendem a relatar novamente que “o sítio X foi destruído em um incêndio por volta de 1200 a.C.”, sem especificar a extensão da destruição. Ou, em outros casos, há uma manipulação flagrante dos dados para fazer parecer que uma área maior do sítio do que a descoberta durante a escavação foi destruída [28]. Por vezes, tem-se dado mais atenção ao que poderia ter causado algumas das destruições, mas mesmo aqui existe frequentemente uma divergência interpretativa, em que certos estudiosos acreditam que todas as destruições foram provocadas pelo homem e resultaram de guerras ou ações humanas violentas, enquanto outros preferem causas naturais, como terremotos, como a principal causa da destruição. Poucos consideram a possibilidade de um incêndio acidental em um tabun [tradicional forno de barro, portátil e em forma de cúpula, usado para assar e cozinhar] ter destruído uma casa, que a construção de uma fortaleza sobre uma base de areia possa ter levado a uma falha estrutural de engenharia, e muitas vezes não há um exame detalhado de todas as evidências disponíveis sobre o que poderia ter causado a destruição, se é que se pode determinar uma causa.

O livro tem dois objetivos principais?
. Para abordar essas questões e chegar a uma compreensão mais clara do que ocorreu por volta de 1200 a.C., este volume persegue dois objetivos principais:
1. O primeiro é estabelecer uma estrutura interpretativa para a classificação e interpretação sistemática de eventos de destruição. Este sistema será aplicável a sítios arqueológicos em todo o antigo Oriente Médio e no Egeu, independentemente do período em estudo. Pretende-se que seja um método geral para classificar o que é um evento de destruição, como descrevê-lo, a sua escala e para definir critérios para avaliar a possível causa da destruição, caso seja possível determiná-la, eliminando também a linguagem desnecessária que apenas confunde em vez de auxiliar a nossa compreensão da natureza da destruição. Se não houver evidências razoáveis ​​com base nesses critérios, então nenhuma causa pode ou deve ser atribuída ao evento de destruição.
2. O segundo objetivo deste volume é aplicar sistematicamente este método interpretativo e de análise às destruições no final da Idade do Bronze Recente em todo o Mediterrâneo Oriental, fornecendo uma avaliação singular para determinar quantos sítios foram de fato destruídos por volta de 1200 a.C. e, onde houver evidências razoáveis, o que causou essas destruições. Isso ajudará a testar certas teorias sobre o fim da Idade do Bronze Recente que se baseiam em um número massivo de destruições, seja por guerras ou por terremotos. Parte desta análise também consiste em avaliar o grau em que a destruição por volta de 1200 a.C. desempenha um papel na literatura acadêmica. Embora listas e mapas abundem, e haja longas discussões sobre a destruição no final da Idade do Bronze Recente, nem todas as listas ou mapas são iguais, e há vários sítios mencionados como destruídos em algumas publicações que são omitidos em outras. Ou, como frequentemente ocorre, muitos sítios foram citados como destruídos por volta de 1200 a.C., mas esses sítios não obtiveram o mesmo nível de publicidade que outros e existem como referências isoladas de destruição por volta de 1200 a.C. Assim, um dos principais aspectos deste trabalho é reunir essas referências, listas e mapas de destruição em um todo coeso para determinar com precisão quantas cidades, vilas e aldeias foram citadas como destruídas por volta de 1200 a.C.

Então este estudo desafia várias suposições sobre a destruição no final da Idade do Bronze?
. Ao aplicar um método rigoroso aos eventos de destruição em todo o Mediterrâneo Oriental, seguindo a mesma rubrica, este estudo visa desafiar várias suposições sobre a destruição no final da Idade do Bronze Recente. Embora sejam discutidas várias teorias para o fim da Idade do Bronze Recente como um todo e para regiões individuais, o objetivo deste volume não é responder o que causou cada mudança, transição, crise ou colapso da Idade do Bronze Recente para a Idade do Ferro. Em vez disso, busca-se examinar o efeito que a destruição teve sobre as sociedades no final da Idade do Bronze Recente, seja como um fenômeno generalizado ou localizado. Por exemplo, não se tentará responder à pergunta: Quais situações sociopolíticas, geopolíticas, ambientais, governamentais e econômicas poderiam ter levado à queda do Império hitita? Em vez disso, busca-se responder à pergunta: Há evidências de que a destruição, seja por que causa for, ajudou a exacerbar ou causou diretamente a queda do Império hitita? Esses outros fatores certamente desempenharam um papel em maior ou menor grau, mas levar todos eles em consideração e tentar responder à pergunta “O que causou o fim da Idade do Bronze Recente?” é assunto para outro livro. Isso é especialmente verdadeiro ao se examinar uma área geográfica tão ampla quanto a considerada neste volume.

Quais regiões este livro vai estudar?
. Isso nos leva à delimitação geográfica do volume. O foco está na Grécia, Creta, nas ilhas do Egeu, na Anatólia, em Chipre e em todo o Levante. Há, naturalmente, outras regiões que poderiam ser incluídas, visto que há muita discussão sobre os eventos na Itália por volta de 1200 a.C., sendo a destruição um dos componentes (ver Kilian 1983; Jung 2009, 2012b, 2018b). Há também referências à destruição mais próxima do Egito, no Sinai (ver Oren 1984; Hoffmeier 2018), e poderíamos expandir a pesquisa para o interior, até a Mesopotâmia (ver Brown 2013) ou mesmo para a Europa Central (ver Kristiansen e Suchowska-Ducke 2015). No entanto, ampliar este estudo para além das fronteiras do Mediterrâneo Oriental se tornaria uma busca interminável por mais destruição. Em um período de cinquenta anos, algum sítio em qualquer região sofrerá destruição, e poderíamos aumentar a área geográfica indefinidamente. Haverá sempre outro local além da colina seguinte que foi queimado, sofreu falhas estruturais, desabou devido às chuvas de inverno ou foi incendiado por causa de uma lamparina a óleo acesa de forma descuidada. A área geográfica em estudo já abrange 153 eventos de destruição relatados e, lamentavelmente, as outras regiões terão que aguardar um estudo separado.

Como este estudo se desenvolve, capítulo por capítulo?
. O capítulo dois apresenta a teoria e o método para interpretar eventos de destruição e servirá como base para o restante do livro.
. O capítulo três concentra-se nos 61% de todos os sítios que se alega terem sido destruídos por volta de 1200 a.C., mas que ou não foram destruídos por volta de 1200 a.C., ou não atendem aos critérios para um evento de destruição, ou foram simplesmente identificados erroneamente como destruídos, mesmo sem evidências ou alegações dos arqueólogos de que o sítio em questão tenha sido destruído por volta de 1200 a.C.Jesse M. Millek
. Os capítulos quatro, cinco, seis e sete concentram-se na destruição em uma região específica, começando pela Grécia e Creta, seguida pela Anatólia, Chipre e, finalmente, o Levante. Cada capítulo oferecerá um exame extenso das evidências de destruição, da escala e da possível causa de cada destruição, e de como essas informações, quando consideradas em conjunto, afetam as várias teorias para o fim da Idade do Bronze Recente em cada região e qual o efeito, se houver, que a destruição pode ter tido sobre ela.
. Ao longo dos capítulos três a sete, cada sítio será discutido individualmente, ainda que por vezes a discussão seja breve. Embora possa parecer que algumas destas informações poderiam ser simplesmente apresentadas num gráfico, tabela ou mapa, isso apenas perpetuaria os problemas atuais que afetam o estudo da destruição no final da Idade do Bronze, nomeadamente, o fato de, na maioria das vezes, os sítios serem simplesmente listados como tendo sido destruídos sem qualquer explicação. Assim, embora por vezes possa parecer prolixo, devemos examinar as evidências arqueológicas concretas antes de chegarmos a qualquer conclusão.
. O capítulo 8 conclui este estudo com uma apresentação do panorama geral da extensão da destruição ocorrida por volta de 1200 a.C. e sua escala, além de uma discussão sobre a existência de tendências mais amplas e generalizadas no padrão de destruição. Este capítulo final busca responder à questão do efeito da destruição sobre as diversas sociedades do Mediterrâneo Oriental por volta de 1200 a.C., bem como estabelecer um caminho para futuros estudos sobre a destruição nesse período e em épocas posteriores.

 

Notas

28. Veja a discussão sobre Enkomi no capítulo 6.

O colapso da Idade do Bronze 3

MILLEK, J. Destruction and Its Impact on Ancient Societies at the End of the Bronze Age. Columbus, GA: Lockwood Press, 2023, 394 p. – ISBN 9781948488839.

Interessado em entender as origens de Israel, tenho lido alguns estudos sobre o colapso das civilizações do antigo Oriente Médio no final da Idade do Bronze, por volta de 1200 a.C. O capítulo 1 deste livro é muito útil por apresentar um panorama das discussões sobre o tema.MILLEK, J. Destruction and Its Impact on Ancient Societies at the End of the Bronze Age, Columbus, GA: Lockwood Press, 2023, 394 p.

Diz a editora que este estudo de Jesse Millek oferece uma reavaliação inovadora das destruições que supostamente ocorreram em sítios arqueológicos do Mediterrâneo Oriental no final da Idade do Bronze Recente, e desafia as inúmeras teorias abrangentes que foram propostas para explicá-las. O autor demonstra que terremotos, guerras e destruição desempenharam um papel muito menor nesse período do que a literatura das últimas décadas tem afirmado, e argumenta que o fim da Idade do Bronze Recente foi um processo muito menos dramático e mais prolongado do que geralmente se acredita.

O capítulo 1, Destruição e o fim da Idade do Bronze [Destruction and the End of the Bronze Age], tem 4 seções que serão publicadas em 4 posts:

1. Colapso, crise e o ano de 1200 a.C. [Collapse, Crisis, and the Year 1200 BCE]

2. Breve história da destruição por volta de 1200 a.C. [A Brief History of Destruction ca. 1200 BCE]

3. 1200 a.C. e o fim da Idade do Bronze Recente: consenso, termo impróprio ou rótulo [1200 BCE and the End of Late Bronze Age: Consensus, Misnomer, or Shorthand]

4. Objetivo, propósito e organização do estudo [Purpose, Scope, and Organization of the Work]

A bibliografia, necessária para a consulta das notas de rodapé, pode ser acessada em pdf, aqui.

Reestruturei o texto do capítulo 1 em formato de perguntas e respostas.

Jesse M. Millek é, desde 2023, pesquisador visitante da Universidade de Leiden, Países Baixos, no Nederlands Instituut voor het Nabije Oosten (NINO). É doutor (2017) em Estudos do antigo Oriente Médio pelo Institute for Ancient Near Eastern Studies (IANES) da Eberhard Karls Universität de Tübingen, Alemanha. Tem “Habilitation Equivalent” (2021) em Estudos do antigo Oriente Médio, Departamento de Estudos do Oriente Médio, Universidade de Michigan, Ann Arbor, Michigan, EUA. Tema da Habilitação: “Desastres e destruições e seus efeitos nas sociedades antigas do Mediterrâneo Oriental no final da Idade do Bronze”.

 

1200 a.C. e o fim da Idade do Bronze Recente: consenso, termo impróprio ou rótulo?

Qual foi a proposta do historiador alemão Arnold Heeren, no século XIX, que fez 1200 a.C. tornar-se uma data fundamental?
. Para entender como 1200 a.C. se tornou a resposta consensual para a pergunta “Quando terminou a Idade do Bronze Recente?”, vale a pena explicar brevemente a história e a origem dessa data como um marco significativo na história do Mediterrâneo Oriental [19]. O primeiro uso significativo de 1200 a.C. veio da obra do historiador alemão Arnold Heeren, que, em 1817, datou a queda de Troia em “cerca de 1200 a.C.” (135). Heeren prosseguiu em 1826, utilizando sua data “aproximada” estabelecida para a destruição de Troia para também marcar o fim da Décima Nona Dinastia egípcia. Ele utilizou a lista real do sacerdote egípcio Maneton, do século III a.C., na qual o último faraó da Décima Nona Dinastia era Thuoris, conhecido na narrativa histórica de Homero como Pólibo, marido de Alcandra, que também era faraó quando Troia caiu (Heeren 1826, 324; 1838, 449–50). Combinando isso com a datação anterior de Heeren para a guerra de Troia, a Décima Nona Dinastia passou a ter que terminar em 1200 a.C. Portanto, já duzentos anos antes, Heeren datou dois eventos cruciais, a queda de Troia e o fim da Décima Nona Dinastia egípcia, em 1200 a.C., estabelecendo-a como uma data fundamental na história do Mediterrâneo Oriental antigo.

Outros eventos importantes também foram datados por volta de 1200 a.C.?
. A partir daí, durante o restante do século XIX, outros eventos cruciais foram datados por volta de 1200 a.C. [20]. John Anderson, em 1881 (48, 92), encerrou o auge do Reino Novo do Egito em 1200 a.C., observando também que foi quando começou a “migração das raças helênicas”. O surgimento dos povos do mar foi adicionado a 1200 a.C. em 1882 por W. M. Ramsay (258), um evento que foi novamente mencionado por W. M. Flinders Petrie em 1890 (277) e por Harry Reginald Hall em 1902 (158). Em 1892, confirmou-se que a civilização micênica caiu em 1200 a.C. (Smith 1892, 466), enquanto o ataque dos dórios foi situado em 1200 a.C. em 1897 (Dawkins 1897, 392). Apenas alguns anos depois, em 1910, John Garstang (1910, 211, 391) afirmou que o Império hitita havia caído diante da primeira invasão dos frígios em 1200 a.C. Assim, no início do século XX, 1200 a.C. havia se tornado um ano absolutamente essencial para toda a história inicial do Mediterrâneo Oriental.

Esta data tem algo a ver com o êxodo do Egito e a conquista de Canaã por Josué, segundo a Bíblia?
Estela de Merneptah (ca. 1208 a.C.) - Museu Egípcio, Cairo. Uma questão importante precisa ser abordada aqui. Parece haver uma concepção errônea a respeito do ano 1200 a.C. como a data relacionada ao êxodo e à conquista bíblicos, e que essa suposta conexão seja a origem da reputação de 1200 a.C. Por exemplo, como Ernst Axel Knauf (2008, 74) escreveu, “‘1200 a.C.’ baseia-se em dois biblicismos egiptológicos: a suposição de que os israelitas foram empregados na construção da ‘Cidade de Ramsés’ sob o reinado de Ramsés II, e que a menção de Israel em Canaã por Merneptah… refere-se ao Israel ‘pós-êxodo’ da Bíblia”. No entanto, isso simplesmente não pode ser o caso. Isso ocorre porque, como observado acima, 1200 a.C. já era um ano significativo na história do Mediterrâneo Oriental por cerca de setenta a oitenta anos antes da descoberta da estela de Merneptah por Flinders Petrie em 1896 [21]. Foi somente após essa descoberta que Israel foi associado a 1200 a.C., quando Flinders Petrie argumentou contra a ocorrência do êxodo durante a Décima Oitava Dinastia, favorecendo uma data posterior (1896, 623–26). No entanto, ao discutir a estela de Merneptah, Flinders Petrie mencionou 1200 a.C. apenas em associação com o reinado de Merneptah, e não com Israel (1896, 626). Contudo, no mesmo ano em que Flinders Petrie encontrou a estela, William Hayes Ward (1896, 409) fez a afirmação e a associação entre 1200 a.C. e Israel, declarando: “Tudo o que se pode dizer agora é que, por volta de 1200 a.C., Merneptah encontrou israelitas na Palestina”. De fato, analisando as histórias anteriores do mundo antigo, Israel, o êxodo e a conquista não tiveram nada a ver com 1200 a.C. Prince, em 1838 (8–11), utilizou a cronologia bíblica tradicional que situava a conquista no final do século XV a.C., durante a Décima Oitava Dinastia, enquanto Anderson, em 1881, situou o êxodo em 1652 a.C., uma data bem anterior à queda de Troia ou ao fim da Décima Nona Dinastia, que ele próprio situou em 1184 a.C. e 1200 a.C., respectivamente (1881, 48, 90, 92, 291). Assim, Israel foi um recém-chegado ao grupo de 1200 a.C., visto que, antes de 1896, a queda de Troia, o fim da Décima Nona Dinastia egípcia, os ataques dos povos do mar e a queda da civilização micênica haviam sido todos situados por volta de 1200 a.C. A ligação de Israel com o ano de 1200 a.C. ocorreu somente depois que a data já havia sido elevada à categoria de ano significativo na história do Mediterrâneo oriental.

Mas a Idade do Bronze Recente não terminou em todas as regiões e sítios na mesma data, não foi?
. Após sua consolidação no século XIX, durante o século XX o ano de 1200 a.C. tornou-se sinônimo do fim da Idade do Bronze Recente e vice-versa. Contudo, atualmente, na literatura em geral, o termo “circa” foi estendido para além de qualquer significado razoável da palavra. Como já foi observado em diversos casos, alguns dos quais serão discutidos adiante e outros ao longo deste volume, a Idade do Bronze Recente não terminou em todas as regiões ou sítios arqueológicos simultaneamente. Certos sítios perderam ou mantiveram sua cultura material ou seus sistemas administrativos da Idade do Bronze Recente décadas ou séculos antes e depois de 1200 a.C. Por exemplo, em Zeyve Höyük-Porsuk, na Anatólia, o caráter da Idade do Bronze Recente do sítio terminou entre 1514 e 1430 a.C. (Beyer 2010, 100–101), enquanto em Arslantepe terminou no início do século XIII a.C. (Manuelli et al. 2021) e em Tille Höyük somente depois de 1090 a.C. (Griggs e Manning 2009). No Levante meridional, a Idade do Bronze Recente em Hazor terminou por volta de 1250 a.C. (Ben-Tor e Zuckerman 2008), enquanto outros sítios como Azekah, Lachish e Megiddo têm uma chamada fase LB III, assim como Sarepta no Levante central, estendendo a Idade do Bronze até o final do século XII a.C. [22]. Na Grécia, Iklaina foi destruída e perdeu seu caráter palatino em meados do século XIII a.C., enquanto a vizinha Pilos persistiu até o início do LH IIIC Inicial (cerca de 1180 a.C.), cerca de setenta anos depois. Para Chipre, a Idade do Bronze em geral persistiu até o final do Período Recente IIIA em 1100 a.C. (Steel 2004, 185; Iacovou 2008, 635–37; 2014, 662–63, 667), exceto, isto é, em sítios como Kalavasos-Ayios Dhimitrios, Maroni-Vournes e Alassa, todos abandonados entre 1200 a.C. e 1150 a.C., antes do fim da Idade do Bronze Recente em outros sítios da ilha.

Apesar disso, eventos de longa duração são datados como acontecidos “por volta de 1200 a.C.”?
. Este fenômeno pode ser observado em todo o Mediterrâneo Oriental, pois não houve uma única mudança radical, mas um período de transformação que durou décadas, senão mais. No entanto, na literatura, esse período não especificado é geralmente referido como o fim da Idade do Bronze Recente ou como “cerca de 1200 a.C.”, mesmo que sua duração seja estendida para até 150 anos ou mais. Por exemplo, Israel Finkelstein (2016, 113) oferece a seguinte definição para esse período: “O fim da Idade do Bronze Recente começou em meados ou na segunda metade do século XIII [isto é, a destruição de Hazor] e continuou até cerca de 1100 a.C. [a data recente para a destruição do estrato VIIA de Meguido]”. Essa expansão do termo “circa” para abranger mais de um século é evidente em mapas de destruição, como Drews, que lista o evento de destruição de Hazor em meados do século XIII a.C. juntamente com Lefkandi, que sofreu uma destruição em meados do século XII a.C.; no entanto, ambos são listados como sendo de cerca de 1200 a.C. [23]. Em Nur e Cline 2000, 56–57, os autores afirmam explicitamente que estão se concentrando em destruições que ocorreram entre 1225–1175 a.C., e ainda assim um dos principais eventos de destruição discutidos no artigo é Troia VIh, que mesmo na época ainda era datada de 1250 a.C. e mais tarde foi recuada para 1300 a.C.

Eventos distantes no tempo são, assim, indevidamente agrupados para criar uma crise determinada?
. Reunir eventos de destruição de um período cronológico tão amplo e comprimi-los em uma única data, como “1200 a.C.”, para criar um hipotético momento de caos catastrófico, é um exemplo perfeito do que Dario Puglisi (2013, 177) denominou Premissa de Atlântida, que é “uma premissa inconsciente segundo a qual as destruições relacionadas a uma mudança histórica radical ou, mais especificamente, ao desaparecimento de uma ‘civilização’ altamente desenvolvida, como a mítica Atlântida, precisam ser inseridas em um período de tempo muito curto, arqueologicamente indetectável”. No entanto, frequentemente, no caso do final da Idade do Bronze Recente, essa não é uma premissa inconsciente, mas uma prática flagrantemente aceita. Eventos temporalmente deslocados foram agrupados para criar uma crise ou onda de destruição em um único momento ou em um período de tempo comprimido, mesmo que esses eventos cronologicamente não tenham nenhuma relação entre si [24].

Esta “ginástica cronológica” é inútil?
. Ao longo da história, nunca haverá um período sem grandes destruições, especialmente considerando uma área geográfica tão vasta, e poderíamos facilmente expandir as fronteiras do fim da Idade do Bronze Recente para incluir as destruições do século XIV a.C., alegando que todas fazem parte do mesmo processo de desintegração [25]. Estender o que constitui o fim da Idade do Bronze Recente torna o termo praticamente inútil. Se aplicássemos o mesmo tipo de ginástica cronológica aos períodos históricos, ligando eventos que abrangem 150 anos como causalmente relacionados, e não como fenômenos separados que se sucedem, a resposta acadêmica provavelmente seria pouco receptiva [26]. Assim, embora o passado obviamente afete o futuro de uma forma ou de outra, os eventos do passado não precisam estar causalmente ligados aos eventos do futuro, nem precisam fazer parte de algum processo abrangente maior.

Podemos colocar o fim da Idade do Bronze entre 1225 e 1175 a.C.?
. Como a Idade do Bronze Recente terminou em momentos diferentes em diferentes regiões e com resultados distintos, o que deveria constituir o fim da Idade do BronzeMedinet Habu: Ramsés III x Povos do Mar Recente como um intervalo de datas funcional que define um conjunto de eventos que podem ser razoavelmente agrupados cronologicamente [27]? Ou seja, que período de tempo deveria marcar o fim da Idade do Bronze Recente? De forma bastante simples, deveria ser definido como os anos entre 1225 e 1175 a.C., ou por volta de 1200 a.C., como o conhecemos há quase dois séculos. A razão para isso é que muitas das características marcantes do fim da Idade do Bronze Recente estão presentes em diversas regiões dentro desse período de cinquenta anos. A escrita Linear B, a escrita ugarítica e a escrita em grande parte — embora não em toda — da Anatólia e do Levante foram abandonadas; a maioria dos principais palácios da Grécia sofreu algum tipo de destruição e o sistema palatino foi amplamente dissolvido; o Império hitita, como era conhecido na Idade do Bronze Recente, entrou em colapso; Ugarit foi destruída; várias sub-regiões sofreram aparente despovoamento; cerâmicas LH IIIC de fabricação local aparecem por todo o Levante e Chipre; e há, é claro, os infames confrontos de Merneptah e Ramsés III com os povos do mar. Tudo isso ocorreu, até onde sabemos atualmente, entre 1225 e 1175 a.C. Mesmo esse período temporal “estreito” de cinquenta anos é mais do que uma geração, provavelmente misturando eventos que não estão conectados, já que poderiam estar dispersos no tempo e no espaço. No entanto, como não podemos ser mais precisos do que isso, devemos permitir alguma margem de erro no período que abrange o final da Idade do Bronze Recente.

E assim 1200 a.C. acaba sendo um ponto médio adequado para marcar o fim da Idade do Bronze?
. A razão para a escolha de 1200 a.C. não é meramente para dar continuidade a uma tradição de dois séculos, mas sim porque representa um ponto médio natural entre essas duas datas que contêm muitos dos principais eventos tipicamente considerados característicos do fim da Idade do Bronze Recente. Se a data fosse por volta de 1175 a.C., abrangendo o período entre 1200 e 1150 a.C., isso deixaria de fora grandes eventos de destruição, como os de Gla, Laquis Nível VII, Afeq, Tarso e Mersin, entre outros. Além disso, excluiria a primeira incursão dos povos do mar durante a época de Merneptah e o aparecimento inicial da cerâmica LH IIIC produzida localmente, tipicamente definida como evidência da chegada dos filisteus ao sul do Levante (Asscher et al. 2015a). Da mesma forma, mesmo que a data para o “fim da Idade do Bronze Recente” fosse estendida para 1150 a.C., isso ainda não abrangeria o fim da hegemonia egípcia sobre o Levante meridional, as destruições em larga escala e em múltiplos edifícios descobertas em Azeca, Laquis Nível VI, Bet-Shean e Tell Deir Alla, nem o fim da Idade do Bronze em Chipre, eventos que ocorreram após 1150 a.C. O ano de 1199 a.C. seria uma data igualmente válida, mas historiadores e arqueólogos tendem a preferir arredondar as datas quando não há, no calendário, um ano preciso para um evento histórico, e o mesmo se aplica a este caso (Millek 2021a; b em publicação). Assim, 1200 a.C., como um ano específico, não tem nenhum significado ou importância especial além de ser um ponto médio natural facilmente conhecido entre duas datas que contêm muitos dos marcadores típicos do fim da Idade do Bronze Recente. Esta conclusão é, em muitos aspectos, semelhante àquela alcançada por Sturt Manning (2007, 78), que afirmou que: “Por sua vez, considerando o fenômeno dos povos do mar e as mudanças associadas ao fim do período Cipriota Tardio IIC, ou ao fim do período Heládico Tardio IIIB, ao colapso do Império hitita, e assim por diante, uma data por volta de 1200 a.C. ainda pode ser usada como uma aproximação numérica adequada, desde que tenhamos em mente que o período relevante pode, na verdade, ter sido algumas décadas antes ou depois (e não precisa ter sido contemporâneo em todas as culturas/áreas relevantes), e que os processos envolvidos abrangeram períodos de tempo, em vez de eventos pontuais”.

Podemos utilizar a ideia de “fim da Idade do Bronze Recente” pelo menos como uma ferramenta acadêmica?
. É preciso esclarecer também que o “fim da Idade do Bronze Recente”, conforme definido aqui, é mais uma ferramenta acadêmica que delimita um período de tempo contendo um conjunto de eventos que podem estar correlacionados cronologicamente e, em alguns casos, possivelmente causalmente. O “fim da Idade do Bronze Recente” — ou seja, o período entre 1225 e 1175 a.C. — não pretende abranger todos os casos em que características culturais da Idade do Bronze Recente desapareceram antes dessas datas ou persistiram depois delas. Fazer isso incluiria inúmeros eventos microrregionais que não estão conectados entre si cronológica, geográfica ou causalmente.

Fim da idade do Bronze Recente ou cerca de 1200 a.C. são, portanto, apenas rótulos acadêmicos para o período em questão?
Jesse M. Millek. Para que haja uma discussão significativa sobre os aspectos tipicamente associados ao fim da Idade do Bronze Recente, como os listados acima, essa discussão deve ser limitada cronologicamente. Incluir todos os sítios ou regiões onde a fase da Idade do Bronze Recente terminou ou persistiu em um único e abrangente “fim do(s) processo(s) da Idade do Bronze Recente” só criaria confusão ou, pior ainda, sucumbiria à Premissa da Atlântida, ao colocar todos esses eventos como “cerca de 1200 a.C.”, quando, na verdade, estão separados por um século ou mais. Portanto, ao falar do “fim da Idade do Bronze Recente”, não estou considerando o fim físico das características da Idade do Bronze Recente em todos os sítios e regiões. Em vez disso, “fim da Idade do Bronze Recente” ou “cerca de 1200 a.C.” são rótulos acadêmicos para o período mencionado acima, que engloba um conjunto de eventos e processos comumente entendidos como constituindo o fim da Idade do Bronze Recente (ver Millek, 2022. Troy, the Sea Peoples and 1200 B.C.: The Origins and Future of an Iconic Date).

 

Notas

19. Para uma discussão mais aprofundada, veja: Millek, 2022. The Impact of Destruction on Trade at the End of the Late Bronze Age in the Southern Levant. In: F. Hagemeyer (ed.), Jerusalem and the Coastal Plain in the Iron Age and Persian Periods. Tübingen: Mohr Siebeck, 39-60; Millek, 2022. Troy, the Sea Peoples and 1200 B.C.: The Origins and Future of an Iconic Date. Ugarit-Forschungen 52: 159-178.

20. A queda de Troia também foi datada por volta de 1200 a.C. por Maunder (1850, 383) e Bell et al. (1859, 478), enquanto Reinisch (1864, 1) também situou o fim da Décima Nona Dinastia em 1200 a.C.

21. Petrie 1896. Veja também a discussão em Drower 1985, 221.

22. Anderson 1988, 390; Kleiman, Gadot e Lipschits 2016, 110; Finkelstein et al. 2017a, 264; Garfinkel et al. 2021, 422. Garfinkel et al. 2021 utiliza Iron IA e LB III como rótulo para o Nível VI.

23. Drews 1993, 9 fig. 1; um problema que foi levado para o mapa de Cline; Cline 2014, 110–11 fig. 10.

24. Veja minha discussão sobre a destruição de Hazor e Laquis durante o final da Idade do Bronze e Laquis e Ascalon no Ferro II em Millek 2018b: 256–58.

25. Como Bonacossi 2013, 127–28 já sugeriu fazer para o Levante do norte, ou Kreimerman 2017, 191 fez, recorrendo a evidências textuais das Cartas de Amarna para elucidar a situação no Levante do sul por volta de 1200 a.C.

26. Como mencionei em outro lugar, a cidade de Hamburgo, na Alemanha, sofreu destruição pesada tanto em 1842 quanto em 1942. A primeira começou com um incêndio acidental, enquanto a segunda foi resultado de bombardeio durante a Segunda Guerra Mundial (Millek 2018b, 257). Ou, para dar outro exemplo, a Guerra Civil Americana não resultou na eleição de Donald Trump, dois eventos que estão separados pelo mesmo período de tempo que separou a destruição de Qatna em 1340 a.C. e Ras Shamra em 1185 a.C. (Millek 2019a, 170).

27. Mas não causalmente, pois essa é uma questão completamente diferente.

O colapso da Idade do Bronze 2

MILLEK, J. Destruction and Its Impact on Ancient Societies at the End of the Bronze Age. Columbus, GA: Lockwood Press, 2023, 394 p. – ISBN 9781948488839.

Interessado em entender as origens de Israel, tenho lido alguns estudos sobre o colapso das civilizações do antigo Oriente Médio no final da Idade do Bronze, por volta de 1200 a.C. O capítulo 1 deste livro é muito útil por apresentar um panorama das discussões sobre o tema.MILLEK, J. Destruction and Its Impact on Ancient Societies at the End of the Bronze Age, Columbus, GA: Lockwood Press, 2023, 394 p.

Diz a editora que este estudo de Jesse Millek oferece uma reavaliação inovadora das destruições que supostamente ocorreram em sítios arqueológicos do Mediterrâneo Oriental no final da Idade do Bronze Recente, e desafia as inúmeras teorias abrangentes que foram propostas para explicá-las. O autor demonstra que terremotos, guerras e destruição desempenharam um papel muito menor nesse período do que a literatura das últimas décadas tem afirmado, e argumenta que o fim da Idade do Bronze Recente foi um processo muito menos dramático e mais prolongado do que geralmente se acredita.

O capítulo 1, Destruição e o fim da Idade do Bronze [Destruction and the End of the Bronze Age], tem 4 seções que serão publicadas em 4 posts:

1. Colapso, crise e o ano de 1200 a.C. [Collapse, Crisis, and the Year 1200 BCE]

2. Breve história da destruição por volta de 1200 a.C. [A Brief History of Destruction ca. 1200 BCE]

3. 1200 a.C. e o fim da Idade do Bronze Recente: consenso, termo impróprio ou rótulo [1200 BCE and the End of Late Bronze Age: Consensus, Misnomer, or Shorthand]

4. Objetivo, propósito e organização do estudo [Purpose, Scope, and Organization of the Work]

A bibliografia, necessária para a consulta das notas de rodapé, pode ser acessada em pdf, aqui.

Reestruturei o texto do capítulo 1 em formato de perguntas e respostas.

Jesse M. Millek é, desde 2023, pesquisador visitante da Universidade de Leiden, Países Baixos, no Nederlands Instituut voor het Nabije Oosten (NINO). É doutor (2017) em Estudos do antigo Oriente Médio pelo Institute for Ancient Near Eastern Studies (IANES) da Eberhard Karls Universität de Tübingen, Alemanha. Tem “Habilitation Equivalent” (2021) em Estudos do antigo Oriente Médio, Departamento de Estudos do Oriente Médio, Universidade de Michigan, Ann Arbor, Michigan, EUA. Tema da Habilitação: “Desastres e destruições e seus efeitos nas sociedades antigas do Mediterrâneo Oriental no final da Idade do Bronze”.

 

Breve história da destruição por volta de 1200 a.C.

Como foi que a ideia de destruição passou a ocupar papel tão importante nos estudos sobre o final da Idade do Bronze?
. Como a destruição se entrelaçou com as investigações sobre o fim da Idade do Bronze Recente é, em certa medida, uma questão controversa, já que nunca houve um momento em que a destruição e o fim da Idade do Bronze Recente não estivessem conectados. Essa associação tem suas raízes na mitologia grega, especificamente no relato de Homero sobre a queda e subsequente destruição de Troia. Já em 1838, na obra de Philip Alexander Prince, Parallel Universal History: Being an Outline of the History and Biography of the World, Divided into Periods [História universal paralela: um esboço da história e biografia do mundo, dividida em períodos], uma visão geral inicial da compreensão completa da história humana, o autor (1838, 1) subdividiu a história em dezessete períodos, o primeiro começando com a criação do mundo em 4004 a.C., conforme calculado pelo bispo James Usher. Seu Período II começou com Moisés, mas, importante ressaltar, terminou com a queda e destruição de Troia em 1184 a.C. (8–20). Devemos lembrar que isso foi antes mesmo de Schliemann ter colocado uma pá na terra de Hisarlık, Micenas ou Tirinto; antes mesmo de Maspero escrever sobre os peuples de la mer; antes de Emmanuel de Rouge (1855, 1867) traduzir as inscrições do ano 8 de Ramsés III; e até mesmo antes da existência de um reino hitita ser reconhecida (ver discussão em Sayce 1888). Em suma, antes mesmo de existir uma Idade do Bronze Recente como a entendemos hoje, a reconstrução histórica de Prince terminou com a destruição de Troia [11]. Esse conceito intelectual imerso na mitologia grega tomou forma ao longo das décadas seguintes do século XIX, começando com o trabalho de Emmanuel de Rouge e Gaston Maspero, e foi alimentado pelas evidências reveladas pelo crescente campo da arqueologia com a descoberta da destruição em Tirinto, Micenas e Troia. Esses eventos foram atribuídos à invasão dórica ou à invasão grega de Homero (Schliemann 1880, 343–44; Tsountas e Manatt 1897, 341; Dörpfeld 1902, 184–92).

As escavações arqueológicas na primeira metade do século XX confirmaram a destruição?
.  Durante a primeira metade do século XX, escavações em Pilos, Micenas, Krisa, Troia, Hattusa, Karaoğlan, Yumuktepe, Tarso, Ras Shamra, Carquemis, Megido, Tell Beit Mirsim, Beth-Shemesh, Betele Tel Gerisa, entre outros, revelaram “evidências de destruição”, que foram então datadas por volta de 1200 a.C. com base nas sequências cerâmicas e sincronias que haviam sido desenvolvidas durante o mesmo período. Essa “destruição” foi associada não apenas aos povos do mar e aos dórios, mas também aos frígios, aos filisteus e à conquista da terra prometida por Josué [12]. Começava a parecer à comunidade acadêmica que um padrão de destruição estava emergindo, o qual apenas solidificava a “verdade” das narrativas históricas encontradas nos poetas gregos, nos escritores bíblicos e nos escribas egípcios.

Isto se tornou um padrão para a Grécia micênica?
. Na segunda metade do século XX, começaram a surgir listas de sítios destruídos, e passou-se a assumir que houve uma onda massiva de destruição por volta de 1200 a.C. As obras gerais de Per Ålin (1962, 148–50), John Hooker (1976, 148–52, 166–80) e R. Hope Simpson e Oliver Dickinson (1979) forneceram muitas das destruições que agora consideramos padrão para a Grécia micênica, como Krisa, Pilos, Micenas, Tirinto, Gla, Orcômeno, o Menelaion em Esparta, Nicória, Kastro-Palaia em Volos, que na época era considerada Iolkos, bem como sítios micênicos mais distantes, como Mileto [13]. Como Carl Blegen (1962), que descreveu o fim do Heládico Tardio IIIB* como “marcado em quase toda a Grécia continental por um rastro de calamidade e desastre”.

O mesmo ocorreu em Chipre, no Levante e na Anatólia?
DREWS, R. The End of the Bronze Age: Changes in Warfare and the Catastrophe ca. 1200 BC. Princeton: Princeton University Press, 1993, 264 p. . Em 1975, os quatro eventos de destruição mais comumente associados ao fim do Cipriota Tardio IIC em Chipre**, Enkomi, Sinda, Kition e Maa Paleokastro, foram publicados por Hector Catling (1975, 209; veja também Desborough 1975, 660, que omite apenas Maa), enquanto Paul Åström (1985, 8) adicionou Hala Sultan Tekke à lista uma década depois. No Levante, novamente muitos dos locais comumente associados ao fim da Idade do Bronze Recente já estavam em listas de destruição em 1975, incluindo Ras Shamra, Alalakh, Tell Sukas, Carchemish, Hama, Hazor, Tell Abu Hawam, Tel Dor, Meguido, Beth Shean, Tell Deir Alla, Ashkelon, Lachish, Betel e Tell Beit Mirsim (Katzenstein 1973, 59; Barnett 1975, 370. Para a Anatólia, a lista adequada de destruições só surgiu em 1983, com o artigo de Kurt Bittel “Die archäologische Situation in Kleinasien um 1200 v.Chr. und während nachfolgenden vier Jahrhunderte” [A situação arqueológica na Ásia Menor por volta de 1200 a.C. e durante os quatro séculos seguintes]. Embora já existisse a suposição de que “onde quer que as escavações tenham sido feitas, elas indicam que o país hitita foi devastado, suas cidades queimadas” (Goetze 1975, 266), devemos agradecer ao artigo de Bittel de 1983 pela maioria das destruições comumente citadas na Anatólia, como Hattusa, Karaoğlan, Alaca Höyük, Maşat Höyük, Fraktin, Yumuktepe, Tarso e Norşuntepe. É importante ressaltar que Bittel (1983, 32 fig. 2) incluiu um mapa das destruições por volta de 1200 a.C. na Anatólia, o que representou um avanço na apresentação das destruições no final da Idade do Bronze Recente, adicionando uma dimensão visual.

E tem mais, da Itália a oeste ao Irã a leste?
. Para o Egeu, Klaus Kilian, na década de 1980, expandiu as listas anteriores de destruição, adicionando sítios como Midea, Prophetis Elias, Tebas, Atenas, Lefkandi e Kastanas em um gráfico de destruições por volta de 1200 a.C., muitas das quais ele supôs terem sido causadas por terremotos (1983, 56–57 fig. 1). No início da década de 1990, Amihai Mazar (1990, 290), William Dever (1992, 110 fig. 13.1), Marguerite Yon (1992) e Anne Caubet (1992) adicionaram outros sítios à lista cada vez maior de destruição no Levante, com Ras el-Bassit, Ras Ibn Hani, Emar, Tell Keisan, Ashdod, Tel Zeror, ‘Afula, Aphek, Gezer, Tel Sera’, Tel Batash, Tel Zippor e Tel Haror. De fato, a ideia de que a destruição era desenfreada por volta de 1200 a.C. no Mediterrâneo Oriental e além já estava consolidada, sendo esta uma ideia sintetizada por Åström (1985, 3), que escreveu: “Por volta de 1200 a.C., podemos observar destruições generalizadas na região do Mediterrâneo e no antigo Oriente Médio, da Itália a oeste ao Irã a leste. Poucos foram os sítios habitados que não sofreram com incêndios naquela época. Per Alin escreveu um livro inteiro sobre as destruições na Grécia no final do período Heládico Tardio IIIB. O Império hitita caiu. As principais cidades de Chipre foram destruídas. Ugarit foi abandonada. Cidades na Palestina foram cobertas por camadas de cinzas”.

O livro de Robert Drews, de 1993, foi decisivo ao mostrar uma destruição generalizada em todo o Mediterrâneo Oriental por volta de 1200 a.C.?
. Até o final da década de 1980 e início da década de 1990, embora listas de sítios destruídos fossem abundantes e muitos dos eventos de destruição comuns tivessem sido estabelecidos academicamente, foi em 1993 que a destruição no final da Idade do Bronze foi além das listas de destruição regional e do conceito de que a destruição era generalizada em todo o Mediterrâneo Oriental. A natureza disseminada da destruição por volta de 1200 a.C. foi visualmente consolidada com a publicação do livro de Robert Drews, de 1993, The End of the Bronze Age: Changes in Warfare and the Catastrophe ca. 1200 BC. Princeton: Princeton University Press [O fim da Idade do Bronze: mudanças na guerra e a catástrofe por volta de 1200 a.C.]. Drews dedicou as primeiras trinta e três páginas de seu livro à discussão das destruições que ele situou por volta de 1200 a.C., começando pela Anatólia e percorrendo todo o Mediterrâneo Oriental, de Chipre à Síria, ao sul do Levante, à Mesopotâmia, ao Egito, à Grécia, às ilhas do Egeu e a Creta. Isso marcou a primeira vez que tal esforço foi empregado para demonstrar categoricamente a amplitude e a extensão da destruição em todo o Mediterrâneo Oriental e além por volta de 1200 a.C.

A influência de Drew persiste até hoje, como pode se ver na obra de Eric Cline?
. Embora a teoria de Drews sobre as causas do fim da Idade do Bronze Recente nunca tenha sido amplamente adotada, sua influência na percepção da quantidade deO Mediterrâneo Oriental: principais sítios destruídos na catástrofe. Fonte: Robert Drews, The End of the Bronze Age, 1993 destruição e nos sítios destruídos persiste até hoje. Em particular, foi seu mapa, “O Mediterrâneo Oriental: principais sítios destruídos na catástrofe” (1993, 9 fig. 1), que teve o efeito mais duradouro. Isso é mais evidente nos mapas de destruição produzidos após Drews, como o de Nur e Cline (2000, 44 fig. 1), Carol Bell (2006, 137 mapa 1) e Cline (2014, 110–11 fig. 10), que copiaram explícita ou implicitamente o mapa de Drews [14]. Além disso, para o público em geral, o mapa de destruição de Drews e, por extensão, o fac-símile desse mapa feito por Cline, tornaram-se a fonte comum no mundo não acadêmico sobre quais sítios foram destruídos por volta de 1200 a.C. [15]. O que é particularmente importante notar sobre este mapa é que, em seu capítulo sobre destruição por volta de 1200 a.C., Drews descreve vários outros sítios como tendo sido destruídos, como Tell Jemmeh, Khirbet Rabud ou Koukounaries de Paros, mas, por algum motivo, ele não exibiu esses sítios em seu mapa de destruições. No entanto, esses mesmos sítios posteriormente não apareceram como destruídos em publicações ou mapas posteriores. O impacto e a influência de Drews em nossa compreensão de quão perversa foi a destruição e quais sítios foram destruídos por volta de 1200 a.C. são atestados em algumas das resenhas de seu livro da década de 1990. Um desses críticos vai dizer que, “O capítulo dois, ‘A Catástrofe analisada’, é uma lista extensa da devastação por sítio arqueológico, tratando da Anatólia, Chipre, Síria, Levante Meridional, Mesopotâmia, Egito, Grécia e Ilhas do Egeu, e Creta, cada um por sua vez. Para qualquer pessoa que tenha se perguntado onde encontrar um levantamento abrangente da destruição, estas páginas servirão admiravelmente” (Collins 1996: 129).

Assim, no final da década de 1990, a ideia de “destruição” já estava consolidada?
. Foi com o livro de Drews, em conjunto com Bittel 1983, Kilian 1988, Caubet 1992 e um artigo de 1997 de Cynthia Shelmerdine, que acrescentou vários sítios destruídos na Grécia, que surgiu a lista agora padrão de destruições para o final da Idade do Bronze Recente [16]. Embora, naturalmente, outros sítios tenham sido listados como destruídos em vários livros ou artigos, provenientes de escavações antigas ou novas, verifica-se que quase todas as destruições mencionadas em uma lista de destruições por volta de 1200 a.C. provavelmente se referem a uma dessas obras ou a um derivado posterior delas [17]. Assim, no final da década de 1990, a destruição havia se consolidado como uma das principais causas ou fatores que contribuíram para o fim da Idade do Bronze Recente em todo o Mediterrâneo Oriental.

Entretanto, será que muitas citações na literatura sobre o tema não são de segunda mão?
. Aqui reside um dos principais problemas da atual pesquisa sobre o fim da Idade do Bronze Recente. Ao longo de 150 anos de pesquisas e escavações, o conjunto de referências cresceu excessivamente e, na maioria das vezes, ao discutir a destruição na Idade do Bronze Recente, essas listas ou mapas modernos são citados em vez de se recorrer ao material original. Por exemplo, em vez de ler os inúmeros livros e artigos que descrevem o fim da Idade do Bronze Recente em Alaca Höyük, na Anatólia, é mais fácil simplesmente citar Bittel (1983), que afirma que o sítio foi destruído, por ser uma autoridade respeitada no assunto. O mesmo pode ser dito de Iria, uma pequena vila na Argólida. É mais fácil citar Shelmerdine, que afirma que o sítio foi destruído, do que consultar o único relatório escrito sobre o sítio por Hartmut Döhl (1973), que, aliás, relatou as descobertas de Iria em um artigo que a própria Shelmerdine sequer citou.

Ainda mais grave, não terá o discurso atual sobre a destruição se desconectado do material arqueológico?
CLINE, E. H. 1177 B.C.: The Year Civilization Collapsed. Princeton: Princeton University Press, 2021 (Revised and Updated Edition). Em muitos aspectos, o discurso atual sobre a destruição no final da Idade do Bronze Recente se desconectou do material arqueológico real em que a discussão supostamente se baseia. Isso é agravado pelo fato de não haver consenso sobre o que constitui ou não evidência de destruição. A palavra do escavador é tomada como suprema, e se o escavador de um sítio afirma que ele foi destruído por volta de 1200 a.C., essa informação é aceita sem questionamento, sem considerar se as evidências arqueológicas realmente demonstram que o sítio sofreu um evento de destruição [18]. Essa situação é ainda mais acentuada pela clara ausência de uma teoria ou método padrão para interpretar eventos de destruição – ou mesmo para definir o que constitui uma destruição (ver cap. 2). Assim, cabe a cada escavador, arqueólogo e historiador decidir por si mesmo o que é ou não destruição, ou quais sítios foram de fato destruídos.

Existe um padrão, em arqueologia, para definir “destruição”?
. Não existem diretrizes universalmente aceitas para identificar destruição, algo que é padrão em quase todas as outras áreas da arqueologia, desde sequências cerâmicas até tipologias de templos. Quase tudo é classificado e categorizado, muitas vezes até nos mínimos detalhes, como se algo [na tipologia cerâmica] é uma linha ondulada ou um chevron [ziguezague], ou se uma borda é alargada ou não. No entanto, com a destruição, isso simplesmente não acontece, o que resultou em uma livre interpretação, com cada estudioso aplicando seu próprio padrão para definir o que é uma destruição, como descrevê-la e qual foi a sua causa. Além disso, há outra questão importante, além do que exatamente foi ou não destruído no final da Idade do Bronze Recente ou dos materiais citados, que assola os estudos sobre esse período de transição. Essa questão é, obviamente, quando exatamente terminou a Idade do Bronze Recente?

 

* O Heládico Tardio (Late Helladic ou LH) é o período da Idade do Bronze Recente na Grécia continental (ca. 1600–1050 a.C.), correspondendo ao florescimento da civilização micênica. Marcado por palácios fortificados, arquitetura monumental e alta cerâmica de intercâmbio, subdivide-se em LH I, II e III. O Heládico Tardio IIIB corresponde aproximadamente aos anos de 1330–1200 a.C.

** O Cipriota Tardio (Late Cypriot ou LC) marca o final da Idade do Bronze em Chipre, caracterizado por intensa produção de cobre, urbanização e, por intenso comércio com a costa do Levante e o Mar Egeu.

 

Notas

11. Chapman (1989, 92) descobriu que o uso mais antigo da terminologia das três idades para a arqueologia levantina data de uma carta escrita em 1902 por Macalister, que usou esta periodização para explicar as sete camadas que havia descoberto em Gezer.

12. Woolley 1921; Wace et al. 1923; Albright 1926, 1930, 1932, 1939; Grant 1929, 1939; Vincent 1929; Arik 1939a, 1939b, 1939c; Loud 1948; Schaeffer 1948; Blegen et al. 1950; Garstang 1953; Goldman et al. 1956; Blegen e Rawson 1966; Bittel 1970, 132; 1977, 41. Cada um destes será discutido com mais detalhes nos capítulos subsequentes. Além disso, embora algumas dessas publicações sejam posteriores à primeira metade do século XX, as escavações foram realizadas durante esse período e o material só foi publicado após 1950.

13. Ver também Barnett 1975, 370; Desborough 1975, 659.

14. Na versão recentemente revisada e atualizada de 1177 a.C. por Cline (2021, 104–5), ele alterou ligeiramente o cabeçalho da figura de seu mapa para “Sítios destruídos ou afetados por volta de 1200 a.C.” (ver Cline 2021, 211 n. 62 para a razão por trás dessa mudança). No entanto, essa pequena alteração apenas torna o mapa mais confuso, pois não houve mudanças nos sítios listados no mapa. Assim, agora existe muita ambiguidade sobre quais sítios Cline presume que foram destruídos e quais foram meramente afetados. Também não há uma definição do que “afetado” implica. Por exemplo, nem Tille Höyük nem Lidar Höyük sofreram grandes mudanças por volta de 1200 a.C. Carchemish e Kition floresceram sem qualquer evidência de destruição e, se foram “afetados”, foi apenas positivamente. Em 1250 a.C., Hazor sofreu destruição de vários edifícios, estava desabitada por volta de 1200 a.C. e não poderia ter sido afetada, pois não havia nada para ser afetado. Da mesma forma, não há evidências de qualquer destruição ou impactos reais datados de cerca de 1200 a.C. em Hama, Qatna e Tell Nebi Mend (veja a discussão sobre todos esses sítios no capítulo 3). Além disso, sítios como Hama ou Qatna, embora listados no mapa, não são discutidos no texto, e não há uma mensagem clara sobre se Cline presume que esses sítios foram destruídos ou afetados, dada a falta de discussão. Assim, em vez de ajudar a esclarecer quaisquer equívocos, essa pequena alteração no título da figura apenas gerou mais confusão.

15. Isso fica claro na página da Wikipédia sobre o final da Idade do Bronze Recente, onde Drews e Cline são amplamente citados.

16. Shelmerdine 1997, 581 n. 275. Ela lista: “Sítios destruídos: Argólida: Micenas, Tirinto, Midea e Iria; Lacônia: Menelaion; Messênia: Pilos; Acaia: Teico e Dimaion; Beócia e Fócida: Tebas, Orcômeno e Crisa”. Este artigo foi republicado em 2001, sendo esta a versão mais citada.

17. Por exemplo, Knapp e Manning (2016) baseiam-se completamente em Bittel para a sua lista de sítios destruídos na Anatólia, enquanto utilizam Shelmerdine (2001) e Deger-Jalkotzy (2008) para o Egeu. No entanto, Deger-Jalkotzy (2008) é apenas uma referência a Shelmerdine (2001); veja a discussão no capítulo 3.

18. Muitos exemplos disso serão discutidos no capítulo 3.

O colapso da Idade do Bronze 1

MILLEK, J. Destruction and Its Impact on Ancient Societies at the End of the Bronze Age. Columbus, GA: Lockwood Press, 2023, 394 p. – ISBN 9781948488839.

Interessado em entender as origens de Israel, tenho lido alguns estudos sobre o colapso das civilizações do antigo Oriente Médio no final da Idade do Bronze, por volta de 1200 a.C. O capítulo 1 deste livro é muito útil por apresentar um panorama das discussões sobre o tema.MILLEK, J. Destruction and Its Impact on Ancient Societies at the End of the Bronze Age, Columbus, GA: Lockwood Press, 2023, 394 p.

Diz a editora que este estudo de Jesse Millek oferece uma reavaliação inovadora das destruições que supostamente ocorreram em sítios arqueológicos do Mediterrâneo Oriental no final da Idade do Bronze Recente, e desafia as inúmeras teorias abrangentes que foram propostas para explicá-las. O autor demonstra que terremotos, guerras e destruição desempenharam um papel muito menor nesse período do que a literatura das últimas décadas tem afirmado, e argumenta que o fim da Idade do Bronze Recente foi um processo muito menos dramático e mais prolongado do que geralmente se acredita.

O capítulo 1, Destruição e o fim da Idade do Bronze [Destruction and the End of the Bronze Age], tem 4 seções que serão publicadas em 4 posts:

1. Colapso, crise e o ano de 1200 a.C. [Collapse, Crisis, and the Year 1200 BCE]

2. Breve história da destruição por volta de 1200 a.C. [A Brief History of Destruction ca. 1200 BCE]

3. 1200 a.C. e o fim da Idade do Bronze Recente: consenso, termo impróprio ou rótulo [1200 BCE and the End of Late Bronze Age: Consensus, Misnomer, or Shorthand]

4. Objetivo, propósito e organização do estudo [Purpose, Scope, and Organization of the Work]

A bibliografia, necessária para a consulta das notas de rodapé, pode ser acessada em pdf, aqui.

Reestruturei o texto do capítulo 1 em formato de perguntas e respostas.

Jesse M. Millek é, desde 2023, pesquisador visitante da Universidade de Leiden, Países Baixos, no Nederlands Instituut voor het Nabije Oosten (NINO). É doutor (2017) em Estudos do antigo Oriente Médio pelo Institute for Ancient Near Eastern Studies (IANES) da Eberhard Karls Universität de Tübingen, Alemanha. Tem “Habilitation Equivalent” (2021) em Estudos do antigo Oriente Médio, Departamento de Estudos do Oriente Médio, Universidade de Michigan, Ann Arbor, Michigan, EUA. Tema da Habilitação: “Desastres e destruições e seus efeitos nas sociedades antigas do Mediterrâneo Oriental no final da Idade do Bronze”.

 

Colapso, crise e o ano de 1200 a.C.

Houve um colapso das civilizações no Mediterrâneo Oriental no final da Idade do Bronze?
. Em todo o Mediterrâneo Oriental, desde os palácios micênicos da Grécia até as margens do Nilo, os anos em torno de 1200 a.C. são frequentemente descritos como anos de crise, colapso, transição e mudança. A descrição apresentada nesta introdução sobre as possíveis causas e consequências do fim da Idade do Bronze Recente não reflete minhas opiniões pessoais sobre esses assuntos. Como se verá ao longo deste texto, discordarei de muitas dessas suposições ou, em alguns casos, demonstrarei que são falaciosas. A narrativa introdutória a seguir, sem nuances, visa fornecer uma breve visão geral de muitas das suposições, teorias e, em alguns casos, explicações canônicas comuns para as mudanças e transformações que ocorreram no final da Idade do Bronze Recente, por volta de 1200 a.C.

É possível descrever resumidamente o que aconteceu no final da Idade do Bronze, por volta de 1200 a.C.?
. Enquanto o mundo da Idade do Bronze Recente era marcado pelo comércio entre os grandes reis, impérios disputando o poder e a construção de monumentos históricos, após os eventos dos anos que cercaram 1200 a.C., tudo mudou, muitos diriam para pior. Populações foram deslocadas e se movimentaram livremente pelo Mediterrâneo Oriental, causando devastação por onde passavam. A escrita foi abandonada no Egeu, em Ugarit e em partes da Anatólia e do Levante, assim como a construção de arquitetura monumental em todo o Mediterrâneo Oriental. O comércio que florescera durante a Idade do Bronze Recente chegou ao fim com o colapso do sistema mundial que alimentava os cofres dos ricos e da elite. O sistema palatino que havia construído alguns dos maiores monumentos antigos da Grécia foi dissolvido com a destruição desses palácios, enquanto o império dos hititas foi desmantelado. O domínio do Egito sobre parte do Levante durou até o reinado de um último grande faraó, Ramsés III, mas mesmo esse império, que dominou o Levante por quase trezentos anos, não conseguiu resistir à maré da mudança, uma onda trazida pelo movimento dos “povos do mar”, que por sua vez eram apenas vítimas de um sistema corrupto e de uma seca devastadora que assolava o Mediterrâneo Oriental.

Esta narrativa é dominante na literatura acadêmica sobre a época?
. Essa descrição, sem dúvida bastante dramática, do fim da Idade do Bronze Recente reflete o tipo de narrativa grandiosa que permeia a literatura acadêmica. O ano de 1200 a.C., em particular, ocupa um lugar de destaque nos comentários históricos relativos ao antigo Oriente Médio e ao mundo clássico — embora outras datas, especialmente 1177 a.C. e 1184 a.C., também sejam apresentadas. O ano de 1177 a.C. é uma das datas atribuídas à chegada dos povos do mar às margens do Delta do Nilo durante o oitavo ano do reinado de Ramsés III, enquanto 1184 a.C. é uma das datas tradicionalmente sugeridas para a Guerra de Troia [1]. O ano de 1200 a.C., no entanto, serve como um ponto de apoio na narrativa histórica reconstruída, cujo antes e depois são vistos em forte contraste — grandes impérios antes e colapso depois — mesmo que esse ano específico do calendário não tenha um significado especial [2]. Devido à importância atribuída a 1200 a.C., um grande esforço acadêmico tem sido dedicado a tentar reconstituir a série de eventos que levaram à crise, ao colapso e à transição, bem como às mudanças e transformações que ocorreram posteriormente [3].

Foi a partir do final do século XIX, com o egiptólogo Gaston Maspero, que se propôs a teoria da invasão dos “povos do mar”?
Medinet Habu: Ramsés III x Povos do Mar. Esse discurso em torno do fim da Idade do Bronze Recente se estende por mais de 150 anos, desde que Gaston Maspero (1873, 1886, 1896) lançou as bases para muitas das ideias ainda atuais sobre o tema. Ele baseou suas ideias na mitologia grega e nos textos recentemente traduzidos do templo mortuário de Ramsés III em Medinet Habu, em Tebas Ocidental, com foco particular em uma história do oitavo ano de reinado de Ramsés. Esses textos, e seus relevos associados, supostamente contavam a história de vários grupos nômades que “conspiraram em suas ilhas” para saquear os grandes reinos do Mediterrâneo Oriental, com o objetivo final de atacar o próprio Egito. No entanto, eles foram detidos pelos valentes esforços de Ramsés III tanto em uma grande batalha naval quanto em uma batalha terrestre. Esses grupos receberam o nome de “povos do mar”, embora o termo nunca tenha sido usado em nenhum texto antigo. Foram esses textos de Medinet Habu, descrevendo os movimentos dos “povos do mar”, combinados com a mitologia, que deram origem à ideia de que grupos de pessoas em movimento pressionavam outros grupos, como os dórios, que por sua vez deslocavam as populações da Grécia, transformando-as nos povos do mar, que então passaram a atacar o restante do Mediterrâneo Oriental [4].

As escavações arqueológicas confirmaram o ataque dos povos do mar no final da Idade do Bronze?
. A explicação monocausal para o fim da Idade do Bronze Recente, que apresentava o ataque dos povos do mar, frequentemente acompanhados pelos dórios e frígios, persistiu até o final do século XIX e meados do século XX. No entanto, essa ideia inicial, baseada no mito grego e na “história” egípcia, foi desenvolvida e aparentemente confirmada pelas escavações arqueológicas que começaram para valer na última parte do século XIX. Essa tendência teve início com as escavações de Heinrich Schliemann em Troia, Micenas e Tirinto, enquanto escavações em todo o restante do Mediterrâneo Oriental revelaram evidências corroborativas do fim da Idade do Bronze Recente, já que muitos sítios arqueológicos apresentaram indícios de grandes incêndios.

Mas, ultimamente, a mudança climática tem sido apontada como a principal causa do colapso da Idade do Bronze Recente?
. Contudo, ao longo dos últimos sessenta anos, outras ideias que divergiam dos povos do mar e dos dórios como os principais fatores causais do colapso foram apresentadas, embora os próprios povos do mar ainda não tenham sido descartados academicamente – eles apenas se transformaram. A mudança climática, representada pelo resfriamento e ressecamento do meio ambiente em todo o Mediterrâneo Oriental, tem sido apontada como a causa do fim da Idade do Bronze Recente [5]. A seca, que durou cem anos ou mais, supostamente pressionou o sistema econômico centralizado e rígido dos palácios em todo o Mediterrâneo Oriental. Cidades e nações começaram a passar fome, como ilustrado vividamente em diversos textos e, eventualmente, como muitas teorias propõem, a mudança climática induziu uma revolta entre as populações, transformando camponeses famintos em povos do mar devastadores, o que levou, por fim, à queda de nações e estados [6]. Outros, embora invoquem a mudança climática como um fator, atribuem o colapso a revoluções e levantes camponeses contra uma classe dominante cruel e injusta, que forçou suas populações a contraírem dívidas e, eventualmente, à escravidão por dívidas sem perdão periódico [7]. Os impérios e entidades políticas, já sob pressão, foram então levados à ruína pela chegada dos povos do mar (Liverani 1987; 2003, 27–29; 2020, 21).

Foi Robert Drews que, em 1993, propôs como causa da catástrofe a chegada na região de povos com forças militares superiores às locais?
. Outra teoria foi defendida por Robert Drews, que denominou o fim da Idade do Bronze Recente de “catástrofe”, acreditando que os anos em torno de 1200 a.C. representaram “possivelmente o pior desastre da história antiga, ainda mais calamitoso do que o colapso do Império Romano do Ocidente” (1993, 3). Drews detalhou as principais teorias propostas até então (1993, 33–96) e, por sua vez postulou que toda a destruição causada no final da Idade do Bronze Recente em todo o Mediterrâneo Oriental se deveu a invasores equipados com armas avançadas e técnicas militares que as forças de carros das nações de elite não conseguiam resistir (1993, 97–226).

Outros pesquisadores, porém, falam em eventos sísmicos como um fator fundamental para a catástrofe?
. Outros, no entanto, preferiram uma solução mais baseada na natureza, considerando terremotos e eventos sísmicos repetidos como o catalisador que ajudou a provocar o fim do mundo como era conhecido por volta de 1200 a.C.[8]. De acordo com essa teoria, esses terremotos, no que Amos Nur e Eric Cline (2000) denominaram “tempestade sísmica”, onde um evento sísmico era seguido por outro mais adiante na falha geológica, contribuíram para a ruína de nações já fragilizadas.

E se foram várias as causas do colapso, como alguns defendem?
. Colapso de sistemas e teorias semelhantes, como a teoria da complexidade, misturas de todas as anteriores, também foram amplamente adotadas. Terremotos, mudanças climáticas, revoltas camponesas, guerras, povos do mar, destruição e o colapso do comércio convergiram nos anos de 1200 a.C. para provocar o fim de uma era, inaugurando um novo mundo [9]. Relações comerciais, trocas de presentes, casamentos internacionais e a troca de bens, ideias e pessoas foram interrompidas assim que essa “tempestade perfeita” (conforme o título do capítulo 5 de Cline 2014, p. 139) de circunstâncias desmantelou o sistema que sustentava os impérios, reinos e poderosas entidades políticas da Idade do Bronze Recente.

“Destruição” é um conceito comum às várias teorias?
. Existem, naturalmente, muitas outras teorias relacionadas ao fim da Idade do Bronze Recente, tanto para o Mediterrâneo Oriental como um todo quanto para regiõesDREWS, R. The End of the Bronze Age: Changes in Warfare and the Catastrophe ca. 1200 BC. Princeton: Princeton University Press, 1993, 264 p. específicas ou mesmo sítios arqueológicos individuais [10]. No entanto, apesar da variedade dessas teorias e dos diversos fatores causais propostos, há uma base quase universal compartilhada por todas elas: a destruição. Para algumas teorias, o papel da destruição é mais evidente, como na reconstrução de Drews. Seu livro, The End of the Bronze Age: Changes in Warfare and the Catastrophe ca. 1200 BC. [O Fim da Idade do Bronze], começa com um levantamento dos sítios destruídos por volta de 1200 a.C., e foi a destruição causada por seus invasores tecnologicamente avançados que provocou o fim da Idade do Bronze Recente. Ele afirmou que, “Em um período de quarenta a cinquenta anos, entre o final do século XIII e o início do século XII, quase todas as cidades importantes do Mediterrâneo Oriental foram destruídas, muitas delas para nunca mais serem ocupadas” (1993, 4).

Podemos detalhar mais o papel desta “destruição”?
. Os povos do mar, independentemente da forma que assumam na literatura, sejam eles egeus, camponeses empobrecidos ou uma população assolada pela fome, contribuíram para a ruína de sociedades prósperas ou decadentes por meio da destruição física que causaram em todo o Mediterrâneo Oriental. A “tempestade sísmica” também auxiliou no fim da Idade do Bronze Recente por meio da destruição, mesmo que a teoria não afirme que todos os sítios arqueológicos foram destruídos ou mesmo que todos os sítios destruídos tenham sido atingidos por um terremoto (Nur e Cline 2000, 61; Nur e Burgess 2008, 244). O sistema da Idade do Bronze Recente que conectava as elites, embora prejudicado por atividades de pirataria e debilitado pela seca e por tensões internas e externas, foi finalmente rompido pela destruição causada por inúmeras causas presumidas. A destruição também teria sido um fator importante no abandono de locais prestigiosos e outrora centrais, como Pilos, Hattusa, Sarissa, Ras Shamra, Emar, Hala Sultan Tekke, Hazor e Laquis, para citar apenas alguns.

Assim, “destruição” é o conceito mais poderoso para descrever a catástrofe ocorrida por volta de 1200 a.C.?
. Em muitos aspectos, a destruição representa a manifestação física do fim da Idade do Bronze Recente. Antes da destruição de Hattusa, o Império hitita governava grande parte da Anatólia e da Síria, sendo uma das grandes potências do mundo antigo. Após sua destruição, o império ficou em ruínas. Antes de Ras Shamra ser incendiada, era um importante centro comercial, repleto de atividade internacional. Após sua destruição, o comércio cessou e seu palácio foi substituído por estábulos para os pastores locais. De fato, a destruição, frequentemente na forma de incêndios de grandes proporções, é a metáfora tangível e visível da catástrofe tão associada aos anos de 1200 a.C.

Além da destruição física, precisamos considerar também a tragédia das populações atingidas pela catástrofe?
. Assim a destruição funciona como um símbolo nas narrativas arqueológicas e históricas não apenas da destruição física de sítios ou impérios e do fim da Idade do Bronze Recente, mas também de outras tragédias menos observáveis ​​materialmente. William Dever (2017, 105) articulou este ponto de forma bastante apropriada, dizendo: “Arqueólogos e historiadores falam de destruição com certa leviandade… Mas não foram apenas sítios arqueológicos que foram destruídos… foram pessoas, com suas vidas perdidas ou devastadas. Milhares podem ter sido massacrados, milhares de outros transformados em refugiados ou desabrigados”. A destruição no final da Idade do Bronze não se resumiu à queima de alguns palácios ou ao desmoronamento de algumas muralhas. Na literatura e no imaginário popular, a destruição representa a perda da complexidade, a perda da escrita, a perda das conexões comerciais e, talvez mais tragicamente, a perda de casa e lar, a perda de vidas, o deslocamento de populações inteiras, migrações forçadas e a fome e a inanição que levaram povos outrora inocentes a recorrer à violência para se alimentar. A destruição por volta de 1200 a.C. é, portanto, muito mais do que apenas cinzas, incêndios, desmoronamento de tijolos de barro e cerâmica quebrada; é devastação e desolação manifestas.

Deste modo, é quase impossível separar o fim da Idade do Bronze Recente do conceito de destruição?
. É por essa razão que, em quase todas as discussões sobre o fim da Idade do Bronze Recente, a destruição é pelo menos mencionada, se não profundamente debatida, pois não há fim da Idade do Bronze Recente na narrativa acadêmica sem destruição. Os dois conceitos estão tão entrelaçados que é quase impossível separar o fim da Idade do Bronze Recente do conceito de destruição. Como a destruição desempenha um papel tão importante não apenas nas teorias sobre o que causou o fim da Idade do Bronze Recente, mas também a personifica, a pergunta que se impõe é: como a destruição passou a desempenhar um papel tão crucial nas narrativas de todas as regiões do Mediterrâneo Oriental por volta de 1200 a.C.?

 

Notas

1. Para 1177, ver Cline 2014, 2021. Para a Guerra de Troia, esta data foi calculada por Eratóstenes; ver Forsdyke 1957; Mylonas 1964; Blegen 1975, 163.

2. Ver discussão em Knauf 2008, 78, bem como a discussão mais adiante neste capítulo.

3. Apresento aqui uma lista selecionada de livros dos últimos quarenta anos que abordam o tema do fim da Idade do Bronze Recente no Mediterrâneo Oriental por volta de 1200 a.C.: Dothan 1982; Sandars 1985; Karageorghis 1990; Dothan e Dothan 1992; Ward e Joukowsky 1992; Drews 1993; Gitin, Mazar e Stern 1998; Oren 2000; Fischer 2003; T. Harrison 2008; Bachhuber e Roberts 2009; Middleton 2010, 2020b; Yasur-Landau 2010; Galil et al. 2012; Killebrew e Lehmann 2013b; Yener 2013b; Cline 2014, 2021; Garbati e Pedrazzi 2015; Kopanias, Maner e Stampolidis 2015; Sommer 2016; Cunningham e Driessen 2017; Fischer e Bürge 2017b; Driessen 2018; Niesioÿowski-Spanò e Wÿcowski 2018; Charaf e Welton 2019, 2020; Milek 2019c; e de Martino e Devecchi 2020. Há, naturalmente, uma enorme quantidade de outros artigos, capítulos de livros, dissertações e relatórios de escavações que analisam o fim da Idade do Bronze Recente, mas são numerosos demais para serem mencionados aqui – embora muitos sejam citados ao longo do volume.

Jesse M. Millek4. Ver discussão em Dothan e Dothan 1992, 26–28; Drews 1993, 55–59; Silberman 1998, 269–70.

5. Ver Carpenter 1966; Weiss 1982; Gallet et al. 2006; Issar e Zohar 2007, 163–66; Kaniewski et al. 2010, 2011, 2013, 2019; Drake 2012; Langgut, Finkelstein e Litt 2013; Kaniewski, Guiot e Van Campo 2015; Kaniewski e Van Campo 2017a, 2017b; e Finkelstein et al. 2017b.

6. Para respostas que contrariam os modelos ambientais do colapso, ver Middleton 2012; Knapp e Manning 2016; Karakaya e Riehl 2019.

7. Liverani 1987; 2003, 27–29; 2020, 21; Zuckerman 2007; Van de Mieroop 2008, 332–37; Klengel 2013; Jung 2016.

8. Schaeffer 1948, 565–66; 1968; Kilian 1983, 1988, 1996; Nur e Cline 2000; Nur e Burgess 2008; Cline 2014, 140–42.

9. Ver, por exemplo, Dever 1992; Frank 1993, 389–97; Betancourt 2000; Killebrew 2005, 24–42; Monroe 2009, 284–98; Cline 2014, 160–63; 2021, 167–80; Knapp e Manning 2016.

10. Ver discussão em Drews 1993, 33–96; Middleton 2010; 2017, 129–81; Cline 2014; Millek 2019c, 29–88, 140–44. Uma dessas teorias é a da privatização do comércio, defendida separadamente por Artzy (1985, 1997, 1998) e Sherratt (1994, 1998, 1999, 2000, 2003, 2010; ver também Sherratt e Sherratt 1991, 1993, 1998), segundo a qual a economia palatina centralizada foi gradualmente substituída e subvertida por atividades empresariais privadas. No entanto, essa teoria foi refutada na literatura; ver Manning e Hulin 2005; Routledge e McGeough 2009; Zuckerman 2010; Cline 2014, 152–54; Janeway 2017, pp. 118–19; Millek 2019c, 140–44.

Uma introdução à crítica textual da Bíblia

CRAWFORD, S. W.; WASSERMAN, T. (eds.) The Oxford Handbook on Textual Criticism of the Bible. Oxford: Oxford University Press, 2025, 732 p. – ISBN 9780197581315.

Esta obra oferece uma visão geral das disciplinas da crítica textual da Bíblia Hebraica e do Novo Testamento, conforme praticadas no século XXI.CRAWFORD, S. W.; WASSERMAN, T. (eds.) The Oxford Handbook on Textual Criticism of the Bible. Oxford: Oxford University Press, 2025, 732 p.

Este volume explora inicialmente questões abrangentes como a formação dos cânones judaico e cristão; os pressupostos filosóficos nos métodos e objetivos da crítica textual; a complexa relação entre a crítica literária e a crítica textual; e como campos afins, como a História do Livro, a Filologia Nova/Material e a crítica paratextual, desafiam e enriquecem a crítica textual bíblica tradicional.

Em seguida, aborda-se a crítica textual dos livros da Bíblia Hebraica, um campo que passou por uma mudança paradigmática desde a descoberta dos Manuscritos do Deserto da Judeia. Cada capítulo discute essa mudança de diversas maneiras, representando diferentes filosofias e abordagens sobre como a crítica textual pode ser praticada em um mundo pós-Manuscritos do Deserto da Judeia.

Por fim, o texto discute a crítica textual do Novo Testamento e apresenta capítulos dedicados aos manuscritos gregos e às evidências indiretas do texto em versões e citações antigas, bem como métodos passados ​​e atuais para avaliar essas evidências, incluindo o Método Genealógico Baseado na Coerência (CBGM).

Sidnie White Crawford é professora emérita de Bíblia Hebraica na Universidade de Nebraska e professora visitante no Seminário Teológico de Princeton, USA. Reconhecida internacionalmente como uma estudiosa dos Manuscritos do Mar Morto e da crítica textual da Bíblia Hebraica, ela é autora de The Text ofSidnie White Crawford (nascida em 1960) the Pentateuch: Textual Criticism and the Dead Sea Scrolls (2022) e Scribes and Scrolls at Qumran (2019). É presidente do Conselho Editorial do Antigo Testamento de Hermeneia e editora-chefe de The Hebrew Bible: A Critical Edition. Crawford atuou como editora geral (Bíblia Hebraica, Deuterocanônicos) na revisão de 30 anos da New Revised Standard Version.

Tommy Wasserman é professor de Estudos Bíblicos no Ansgar University College, em Kristiansand, Noruega. Publicou diversos livros e artigos sobre crítica textual do Novo Testamento. Ele é editor de TC: A Journal of Biblical Textual Criticism (SBL Press) e de New Testament Tools Studies and Documents (Brill). É secretário do International Greek New Testament Project, que supervisiona a publicação de edições críticas do Novo Testamento grego, e membro do conselho do Center for the Study of New Testament Manuscripts.

 

The Oxford Handbook of the Textual Criticism of the Bible provides an overview of the disciplines of textual criticism of the Hebrew Bible and the New Testament as practiced in the twenty-first century. This volume first explores overarching issues like the formation of the Jewish and Christian canons; philosophical presuppositions in the methods and goals of textual criticism; the complex relationship between literary criticism and textual criticism; and how related fields of Book History, New/Material Philology, and paratextual criticism pose challenges and enrich traditionalTommy Wasserman (nascido em 1970) biblical textual criticism. Subsequently addressed is the textual criticism of the books of the Hebrew Bible, a field which has undergone a paradigm shift since the discovery of the Judean Desert scrolls. Each chapter discusses this shift in various ways, representing different philosophies of and approaches to the ways in which textual criticism can be practiced in a “post-Judean Desert texts” world. Finally, the text discusses the textual criticism of the New Testament and provides chapters concerned with the Greek manuscripts and the indirect evidence of the text in early versions and citations, as well as past and current methods for evaluating this evidence including the Coherence-Based Genealogical Method (CBGM).

Sidnie White Crawford is Professor of Hebrew Bible emerita at the University of Nebraska and a Visiting Professor at Princeton Theological Seminary. An internationally recognized scholar in the Dead Sea Scrolls and textual criticism of the Hebrew Bible, she is the author of The Text of the Pentateuch: Textual Criticism and the Dead Sea Scrolls (2022) and Scribes and Scrolls at Qumran (2019). She is the Chair of the Old Testament Editorial Board for Hermeneia, and Editor-in-Chief for The Hebrew Bible: A Critical Edition. Crawford served as a general editor (Hebrew Bible, Deuterocanon) for the 30-year review of the New Revised Standard Version.

Tommy Wasserman is Professor of Biblical Studies at Ansgar University College, Kristiansand. He has published numerous books and articles in New Testament textual criticism. He is the editor of TC: A Journal of Biblical Textual Criticism (SBL Press) and of New Testament Tools Studies and Documents (Brill). He is secretary of the International Greek New Testament Project that oversees the publication of critical editions of the Greek NT and serves on the board of the Center for the Study of New Testament Manuscripts.

Uma introdução histórica à Bíblia Hebraica

RÖMER, T. O Antigo Testamento. Petrópolis: Vozes, 2026, 192 p. – ISBN 9788532673510.RÖMER, T. O Antigo Testamento. Petrópolis: Vozes, 2026, 192 p.

O Antigo Testamento continua a ser fonte inesgotável de estudos, debates e interpretações. Neste livro, Thomas Römer revisita seus textos com olhar renovado e oferece uma leitura crítica e instigante que dialoga com os desafios contemporâneos. A obra percorre desde a formação e transmissão das tradições bíblicas até o estudo da Torá, dos profetas, dos escritos sapienciais e apocalípticos, situando-os em seus contextos históricos, sociais e culturais.

O original foi publicado em francês em 2019. A segunda edição é de 2024.

Thomas Römer (nascido em 1955), biblista suíço de origem alemã, é professor no departamento de Milieux Bibliques do Collège de France, Paris. Veja suas publicações aqui.

Morreu Takamitsu Muraoka (1938-2026)

Morreu em 10 de fevereiro de 2026, aos 88 anos de idade, o professor Takamitsu Muraoka. Muraoka sofreu um AVC na manhã de Natal e nunca se recuperou completamente.Takamitsu Muraoka (Hiroshima, 09.02.1938 - Leiden, 10.02.2026)

Muraoka estudou com M. Sekine na Universidade Kyoiku de Tóquio e com Chaim M. Rabin na Universidade de Jerusalém, concluindo seu doutorado em 1970. Muraoka lecionou em instituições ao redor do mundo, incluindo as Universidades de Manchester (1970–80), Melbourne (1980–91) e Leiden (1991–2003).

Muraoka é mais conhecido por seu trabalho com línguas semíticas. Entre suas publicações mais importantes nessa área está sua edição revisada e atualizada da gramática do hebraico bíblico de P. Joüon (2006). Ele escreveu uma ampla gama de outras obras influentes, incluindo estudos linguísticos e gramáticas para o siríaco clássico, o hebraico moderno e o aramaico egípcio e de Qumran. Muraoka também fez importantes contribuições para o estudo do grego, especificamente a língua da Septuaginta.

A história não contada do reino de Judá

LIPSCHITS, O. The Untold Story of the Kingdom of Judah. Berlin: Walter de Gruyter, 2026, 468 p. – ISBN 9783119143639.

Este livro foi escrito por um grande amor pelo texto bíblico e por uma curiosidade ainda maior sobre as pessoas que o escreveram.LIPSCHITS, O. The Untold Story of the Kingdom of Judah. Berlin: Walter de Gruyter, 2026, 468 p.

Os diferentes capítulos do livro são um convite a uma jornada seguindo aqueles que compuseram as descrições históricas na Bíblia Hebraica, numa tentativa de descobrir quem eram, quando escreveram e onde. As principais questões do livro não são o que a descrição histórica representa e o quanto ela de fato reflete o que realmente aconteceu, mas o que os autores da historiografia bíblica sabiam sobre o passado antigo de Israel e Judá, o que escolheram incluir em suas descrições e qual história escolheram não contar. A história não contada é uma chave importante para entender o propósito da historiografia bíblica, o público-alvo para o qual foi escrita e a mensagem que transmitia.

A principal conclusão é que a historiografia bíblica não foi escrita para contar o que a história foi, mas para explicar o presente tendo como pano de fundo os eventos passados ​​e, por meio disso, ensinar uma lição sobre a maneira correta de se comportar no presente, a fim de garantir um futuro melhor.

É assim que a historiografia bíblica deve ser lida e compreendida.

Veja o sumário do livro, em pdf, aqui.

Oded Lipschits (nascido em Jerusalém, 1963) é professor do Departamento de Arqueologia e Estudos do Antigo Oriente Médio da Universidade de Tel Aviv, Israel.

 

This book was written out of a great love for the biblical text and out of an even greater curiosity about the people who wrote it.

Oded Lipschits (nascido em Jerusalém, 1963) The different chapters of the book are an invitation to a journey following those who composed the historical descriptions in the Hebrew Bible, in an attempt to find out who they were, when they wrote and where. The main questions in the book are not what the historical description is and how much it indeed reflects what really happened, but what the authors of the Biblical historiography knew about the ancient past of Israel and Judah, what they chose to include in their descriptions and what story they chose not to tell. The untold story is an important key to understanding the purpose of biblical historiography, the target audience for which it was intended and the message it carried.

The main conclusion is that biblical historiography was not written to tell what history was, but to explain the present against the background of past events, and through this to teach a lesson about the right way to behave in the present, in order to ensure a good future.

This is how Biblical historiography should be read and understood.

Oded Lipschits (born in Jerusalem, May 15, 1963) is an Israeli professor in the Department of Archaeology and Ancient Near East Studies at Tel Aviv University.