Coronavírus: nota dos bispos da Amazônia

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COVID-19: 65 bispos de 6 regionais da CNBB pedem atenção especial à região Amazônica

65 bispos e 2 administradores apostólicos de seis regionais (Norte 1, Norte 2, Norte 3, Noroeste, Nordeste 5 e Oeste 2) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgaram hoje, 4 de maio, a “Nota dos Bispos da Amazônia Brasileira sobre a situação dos povos e da floresta em tempos de pandemia da Covid-19”. No documento, assinado também pelo presidente da Comissão Episcopal Especial para a Amazônia da CNBB, o cardeal Claudio Hummes, os bispos exigem maior atenção dos governos federal e estaduais à região que tem demonstrado dados mais preocupantes quanto ao avanço do coronavírus.

Os bispos apontam que os dados são alarmantes. A região, segundo apontam, possui a menor proporção de hospitais do país, de baixa e alta complexidades (apenasCoronavírus: nota dos bispos da Amazônia Brasileira em 04/05/2020 10%). “Extensas áreas do território amazônico não dispõem de leitos de UTI e apenas poucos municípios atendem aos requisitos mínimos recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em número de leitos e de UTIs por habitante (10 leitos de UTI por 100 mil usuários)”, diz o texto.

O documento alerta ainda para o crescimento de 29,9% de desmatamento, em março deste ano se comparado ao mesmo mês de 2019. “Contribuem para esse crescimento o notório afrouxamento das fiscalizações e o contínuo discurso político do governo federal contra a proteção ambiental e as áreas indígenas protegidas pela Constituição Federal (Art. 231 e 232)”, afirma a Nota.

O arcebispo de Belo Horizonte (MG) e presidente da CNBB, dom Walmor Oliveira de Azevedo se manifestou hoje, 4 de maio, sobre a nota dos bispos da região Amazônica.

“Em profunda comunhão com os bispos da Amazônia – em nota Sobre a Situação dos Povos e da Floresta em Tempos de Pandemia da Covid-19 – , a presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) reitera pedido às autoridades que concentrem esforços no enfrentamento da covid-19, especialmente com políticas públicas destinadas aos mais pobres e vulneráveis.

Surpreende-nos que, enquanto a região amazônica e tantos outros lugares sofrem com o colapso do sistema público de saúde, sejam realizadas manifestações contra a ordem democrática. O caminho deve ser sempre o do diálogo, do entendimento, da união de esforços para debelar essa pandemia.

Os que professam genuína fé em Jesus Cristo devem estar ao lado dos mais pobres, o que significa balizar a própria vida a partir dos parâmetros da solidariedade. Para isso, o exercício do poder não pode se configurar em caminho para autoritarismos, ataques ou manipulações. A política deve ser nobre exercício para servir a sociedade, solidariamente. Prevaleça o compromisso com o bem dos mais pobres, com a solidariedade e com a democracia”.

Confira abaixo a íntegra do documento que também toca em outros pontos como a realidade de indígenas, quilombolas e ribeirinhos e o aumento da violência no campo.

 

NOTA DOS BISPOS DA AMAZÔNIA BRASILEIRA SOBRE A SITUAÇÃO DOS POVOS E DA FLORESTA EM TEMPOS DE PANDEMIA DA COVID-19

“Às operações econômicas que danificam a Amazônia
há que rotulá-las com o nome devido: injustiça e crime”
“É preciso indignar-se”.
(Papa Francisco – Querida Amazônia, 14-15)

Nós bispos da Amazônia, diante do avanço descontrolado da COVID 19 no Brasil, especialmente na Amazônia, manifestamos nossa imensa preocupação e exigimos maior atenção dos governos federal e estaduais à essa enfermidade que cada vez mais se alastra nesta região. Os povos da Amazônia reclamam das autoridades uma atenção especial para que sua vida não seja ainda mais violentada. O índice de letalidade é um dos maiores do país e a sociedade já assiste ao colapso dos sistemas de saúde nas principais cidades, como Manaus e Belém. As estatísticas veiculadas pelos meios de comunicação não correspondem à realidade. A testagem é insuficiente para saber a real expansão do vírus. Muita gente com evidentes sintomas da doença morre em casa sem assistência médica e acesso a um hospital.

Diante deste cenário de pandemia incumbe aos poderes públicos a implementação de estratégias responsáveis de cuidado para com os setores populacionais mais vulneráveis. Os povos indígenas, quilombolas, e outras comunidades tradicionais correm grandes riscos que se estendem também à floresta, dado o papel importante dessas comunidades em sua conservação.

Os dados são alarmantes: a região possui a menor proporção de hospitais do país, de baixa e alta complexidades (apenas 10%). Extensas áreas do território amazônico Nota dos Bispos da Amazônia Brasileira sobre a situação dos povos e da floresta em tempos de pandemia da Covid-19não dispõem de leitos de UTI e apenas poucos municípios atendem aos requisitos mínimos recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em número de leitos e de UTIs por habitante (10 leitos de UTI por 100 mil usuários).

Além dos povos da floresta, as populações urbanas, especialmente nas periferias, estão expostas e têm suas condições de vida ainda mais degradadas pela falta de saneamento básico, moradia digna, alimentação e emprego. São migrantes, refugiados, indígenas urbanos, trabalhadores das indústrias, trabalhadoras domésticas, pessoas que vivem do trabalho informal que clamam pela proteção da saúde. É obrigação do Estado garantir os direitos afirmados na Constituição Federal oferecendo condições mínimas para que possam atravessar este grave momento.

A garimpagem, a mineração e o desmatamento para o monocultivo de soja e a criação de gado para exportação vêm aumentando assustadoramente nos últimos anos. De acordo com o sistema Deter-B, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento na floresta Amazônica cresceu 29,9% em março de 2020, se comparado ao mesmo mês do ano passado. Contribuem para esse crescimento o notório afrouxamento das fiscalizações e o contínuo discurso político do governo federal contra a proteção ambiental e as áreas indígenas protegidas pela Constituição Federal (Art. 231 e 232). O coronavírus que nos assola agora e a crise socioambiental já fazem vislumbrar uma imensa tragédia humanitária causada por um colapso estrutural. Com a Amazônia cada vez mais arrasada, sucessivas pandemias ainda virão, piores do que esta que vivemos atualmente.

Preocupa-nos imensamente o aumento da violência no Campo, 23% a mais que em 2018. No ano de 2019, segundo dados do “Caderno Conflitos no Campo Brasil 2019”, da Comissão Pastoral da Terra (CPT Nacional), 84% dos assassinatos (27 de 32) e 73% das tentativas de assassinato (22 de 30) aconteceram na Amazônia. Causas do aumento da violência no campo e do desmatamento da floresta amazônica são sem dúvida a extinção, sucateamento, desestruturação financeira e a instrumentalização política de órgãos como o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA) e de órgãos de fiscalização e de controle agrícola, ambiental e trabalhista.

Inquieta-nos também a militarização da Conselho Nacional da Amazônia Legal, conforme Decreto nº 10.239, de 11 de fevereiro de 2020, formado somente pelo governo federal, sem a participação dos estados, dos municípios, nem da sociedade civil, e a sua transferência do Ministério do Meio Ambiente para a Vice-Presidência da República.

Nós, bispos da Amazônia brasileira que assinamos esta nota, convocamos a Igreja e toda a Sociedade para exigir medidas urgentes do Governo Federal, do Congresso Nacional, dos Governos Estaduais e das Assembleias Legislativas, a fim de:

Nós, bispos da Amazônia brasileira que assinamos esta nota, convocamos a Igreja e toda a Sociedade para exigir medidas urgentes do Governo Federal, do Congresso Nacional, dos Governos Estaduais e das Assembleias Legislativas, a fim de:

  • Salvar vidas humanas, reconstruir comunidades e relações por meio do fortalecimento de políticas públicas, em especial do Sistema Único de Saúde (SUS);
  • Repudiar discursos que desqualificam e desacreditam a eficácia das estratégias científicas;
  • Adotar medidas restritivas à entrada de pessoas em todos os territórios indígenas, em função do risco de transmissão do novo coronavírus, exceto para os profissionais dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI);
  • Realizar testagem na população indígena para adotar as necessárias medidas de isolamento e evitar a disseminação da COVID-19;
  • Fornecer os equipamentos de proteção individual (EPI) recomendados pela Organização Mundial de Saúde, em quantidade adequada e com instruções de uso e descarte corretos;
  • Proteger os profissionais de saúde que estão atuando nas frentes da saúde dos povos, acompanhando-os também nas suas fragilidades psicológicas e físicas;
  • Garantir a segurança alimentar dos núcleos familiares indígenas, quilombolas, ribeirinhos e demais populações tradicionais da Amazônia;
  • Fortalecer as medidas de fiscalização contra o desmatamento, mineração e garimpo, sobretudo em terras indígenas e tradicionais e áreas de proteção ambiental;
  • Garantir a participação da sociedade civil, movimentos sociais e de representantes das populações tradicionais nos espaços de deliberações políticas;
  • Rejeitar a Medida Provisória 910/2019, que propõe uma nova regularização fundiária no Brasil, pois ela elimina a reforma agrária, a regularização de territórios dos povos originários e tradicionais, favorece a grilagem de terras, o desmatamento e os empreendimentos predatórios, regulariza as ocupações ilegais feitas pelo agronegócio, promove a liquidação de terras públicas da União a preços irrisórios e autoriza a aquisição de terras pelo capital estrangeiro, a exploração especulativa de florestas e incentiva a invasão e devastação de terras indígenas e territórios tradicionais;
  • Rejeitar o PL 191/2020 que regulamenta o Artigo 176,1 e o Artigo 231,3 da Constituição Federal estabelecendo as condições específicas para a realização de pesquisa e lavra dos recursos minerais e hídricos em terras indígenas;
  • Revogar o Decreto nº 10.239/2020, voltando o Conselho Nacional da Amazônia Legal para o Ministério do Meio Ambiente, com a participação de representantes da FUNAI e do IBAMA e de outras organizações da sociedade civil, indígenas ou indigenistas como o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que atuam na Amazônia;
  • Revogar a Instrução Normativa 09/2020 da FUNAI, que permite que a invasão, exploração e até comercialização em terras indígenas ainda não homologadas.

A Igreja na Amazônia, após um rico processo de escuta para a realização da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, está atenta a estes cenários e exige, ecoando os gritos dos Pobres e da Terra, que sejam tomadas medidas urgentes para barrar atividades predatórias e, ao mesmo tempo, investir esforços em alternativas à falida proposta de progresso e desenvolvimento que destroem a Amazônia e atentam contra a vida de seus povos.

Nossa Senhora de Nazaré, Rainha da Amazônia, nos acompanhe e socorra em nosso desejo de servir aos pobres e na defesa intransigente da justiça e da verdade.

Brasília-DF, 04 de maio de 2020.

 

Assinam esta nota:

Cardeal Cláudio Hummes, OFM – Presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia

Regional Norte 1
Dom Adolfo Zon Pereira, S.X – Diocese de Alto Solimões
Dom Edmilson Tadeu Canavarros dos Santos, SDB – Arquidiocese de Manaus (Auxiliar)
Dom Edson Tasquetto Damian – Diocese de São Gabriel da Cachoeira
Dom Fernando Barbosa dos Santos, CM – Diocese de Tefé
Dom José Albuquerque Araújo – Arquidiocese de Manaus (Auxiliar)
Dom José Ionilton Lisboa de Araújo, SDV – Prelazia de Itacoatiara
Dom Marcos Marian Piatek, CSSR – Diocese de Coari
Dom Mário Antônio da Silva – Diocese de Roraima
Dom Mário Pasqualloto, PIME – Arquidiocese de Manaus (Auxiliar Emérito)
Dom Leonardo Ulrich Steiner, OFM – Arquidiocese de Manaus
Dom Zenildo Luiz Pereira da Silva, C.SS.R – Prelazia de Borba
Dom Sérgio Eduardo Castriani, CSSp – Arquidiocese de Manaus (Emérito)

Regional Norte 2
Dom Alberto Taveira Corrêa – Arquidiocese de Belém
Dom Alessio Saccardo – Diocese de Ponta de Pedras (Emérito)
Dom Antônio de Assis Ribeiro, SDB – Arquidiocese de Belém (Auxiliar)
Dom Bernardo Johannes Bahlmann, OFM – Diocese de Ôbidos
Dom Carlos Verzeletti – Diocese de Castanhal
Dom Erwin Krautler, CPPS – Diocese do Xingú (Emérito)
Dom Evaristo Pascoal Spengler, OFM – Prelazia do Marajó
Dom Irineu Roman, CSJ – Arquidiocese de Santarém
Dom Jesus Maria Cizaurre Berdonces, OAR – Diocese de Bragança
Dom Jesús María López Mauleón, OAR – Prelazia Alto Xingu /Tucumã
Dom João Muniz Alves, OFM – Diocese do Xingú
Dom José Altevir da Silva, CSSp – Diocese de Cametá
Dom José Azcona Hermoso, OAR – Prelazia do Marajó (Emérito)
Dom José Maria Chaves dos Reis – Diocese de Abaetetuba
Dom Luís Ferrando – Diocese de Bragança (Emérito)
Dom Pedro José Conti – Diocese de Macapá
Dom Teodoro Mendes Tavares, CSSp – Diocese de Ponta de Pedras
Dom Vital Corbellini – Diocese de Marabá
Dom Wilmar Santim, Ocarm – Prelazia de Itaituba

Regional Norte 3
Dom Adriano Ciocca Vasino – Prelazia de São Félix do Araguaia
Dom Dominique Marie Jean Denis You – Diocese de Santíssima Conceição do Araguaia
Dom Giovane Pereira de Melo – Diocese de Tocantinópolis
Dom Pedro Brito Guimarães – Arquidiocese de Palmas
Dom Philip Dickmans – Diocese de Miracema do Tocantins
Dom Romualdo Matias Kujawski – Diocese de Porto Nacional
Dom Wellington de Queiroz Vieira – Diocese de Cristalândia

Regional Noroeste
Dom Benedito Araújo – Diocese de Guajará-Mirim
Dom Flávio Giovenale, SDB – Diocese de Cruzeiro do Sul
Dom Joaquín Pertiñez Fernández, OAR – Diocese de Rio Branco
Dom Meinrad Francisco Merkel, CSSp – Diocese de Humaitá
Dom Mosé João Pontelo, CSSp – Diocese de Cruzeiro do Sul (Emérito)
Dom Roque Paloschi – Arquidiocese de Porto Velho
Dom Santiago Sánchez Sebastián, OAR – Prelazia de Lábrea
Pe. José Celestino dos Santos – Diocese de Ji-paraná (Administrador Diocesano)

Regional Nordeste 5
Dom Armando Martín Gutiérrez, FAM – Diocese de Bacabal
Dom Elio Rama, IMC – Diocese de Pinheiro
Dom Evaldo Carvalho dos Santos, CM – Diocese de Viana
Dom Francisco Lima Soares – Diocese de Carolina
Dom João Kot, OMI – Diocese de Zé Doca
Dom José Belisário da Silva, OFM – Arquidiocese de São Luís do Maranhão
Dom José Valdeci Santos Mendes – Diocese de Brejo
Dom Rubival Cabral Britto, OFMCap – Diocese de Grajaú
Dom Sebastião Bandeira Coêlho – Diocese de Coroatá
Dom Sebastião Lima Duarte – Diocese de Caxias do Maranhão
Dom Vilsom Basso, SCJ – Diocese de Imperatriz
Pe. Nadir Luís Zancheti – Diocese de Balsas (Administrador Diocesano)

Regional Oeste 2
Dom Canísio Klaus – Diocese de Sinop
Dom Derek John Christopher Byrne, SPS – Diocese de Primavera do Leste-Paranatinga
Dom Jacy Diniz Rocha – Diocese de São Luís dos Cárceres
Dom Juventino Kestering – Diocese de Rondonópolis-Guiratinga
Dom Milton Antonio dos Santos, SDB – Arquidiocese de Cuiabá
Dom Neri José Tondello – Diocese de Juína
Dom Protogenes José Luft, SdC – Diocese de Barra do Garças
Dom Vital Chitolina, SCJ – Diocese de Diamantino

Fonte: CNBB – 04/05/2020

A nota foi traduzida para o espanhol, francês, inglês, italiano e tukano. Em pdf, aqui.

A tomada de Laquis por Senaquerib em 701 a.C. – 3

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KALIMI, I. ; RICHARDSON, S. (eds.) Sennacherib at the Gates of Jerusalem: Story, History and Historiography. Leiden: Brill, 2014Estou lendo trechos do livro de KALIMI, I. ; RICHARDSON, S. (eds.) Sennacherib at the Gates of Jerusalem: Story, History and Historiography. Leiden: Brill, 2014, XII + 548 p. – ISBN 9789004265615.

Resumi os pontos principais do capítulo 4 sobre a tomada de Laquis.

1. Laquis na época da campanha de Senaquerib
2. O ataque assírio a Laquis

 

Nas páginas 85-89, diz David Ussishkin:

Os relevos de Laquis

Alguns anos após o controle de Judá, Senaquerib construiu seu palácio real em Nínive, hoje conhecido como Palácio do Sudoeste. Esse edifício está registrado em detalhesPalácio de Senaquerib em Nínive nas inscrições de Senaquerib, que o chama de Palácio sem Rival. O palácio foi amplamente escavado na metade do século XIX pelo arqueólogo inglês Austen Henry Layard em nome do Museu Britânico em Londres. Ele fez uma planta do edifício e descobriu um grande número de relevos feitos de placas de alabastro que adornavam as paredes.

As placas de alabastro que representam em relevo a conquista de Laquis foram dispostas nas paredes de uma sala especial localizada na parte de trás de uma suíte cerimonial central do palácio. Parece que toda a sala, e talvez também toda a suíte, pretendia comemorar a conquista de Judá e a vitória em Laquis. De acordo com a reconstrução de David Ussishkin, a “sala de Laquis”, rotulada por Layard “sala XXXVI”, tinha 11,5 metros de largura e 5 metros de comprimento. Suas paredes provavelmente estavam inteiramente cobertas pelos relevos de Laquis. Os relevos no lado esquerdo da sala foram deixados por Layard no local e foram perdidos, enquanto o restante da série, composto por doze placas, foi transferido por ele para o Museu Britânico em Londres e atualmente é exibido lá. O comprimento da série preservada é de cerca de 19 metros. Parece que a parte que faltava da série tinha cerca de 8 metros de comprimento. Consequentemente, a série original que descreve a conquista de Laquis deve ter cerca de 27 metros de comprimento. Esta é a série mais longa e detalhada de relevos assírios, representando o assalto e a conquista de uma única cidade fortaleza.

Os relevos ausentes não foram documentados, e a única dica sobre o seu conteúdo é a observação de Layard de que “consistiam de grandes formações de cavaleiros e quadrigários”. Mais adiante, da esquerda para a direita, são mostradas a infantaria, o assalto à cidade, a transferência do espólio, a punição de cativos, as famílias exiladas, Senaquerib sentado em seu trono, a tenda real e a carruagem e, finalmente, o acampamento assírio. Significativamente, a cena principal que retratava o assalto à cidade foi colocada exatamente no centro da parede do fundo da sala, em frente à entrada monumental. Dadas as boas condições de iluminação, qualquer um que passasse pela entrada podia ver o ataque de Laquis à sua frente quando entrasse na sala.

Os relevos de Laquis no British Museum, LondresA porta da cidade é mostrada no centro da cena, retratando o assalto à cidade, sendo atacada por uma máquina de cerco. Refugiados são mostrados carregando seus pertences e saindo da cidade através da porta. Nos dois lados da cidade sitiada estão representadas as muralhas da cidade. Os soldados judaítas estão nas muralhas e balcões no topo da guarita e atiram nos assírios atacantes. A rampa de assédio é mostrada à direita da guarita. Como mencionado, sete máquinas de cerco, apoiadas por arqueiros e atiradores com fundas, estão atacando as muralhas – cinco no topo do rampa de assédio e duas no portão da cidade, possivelmente colocadas em uma rampa de assédio adicional construída contra a guarita. Relevos assírios geralmente retratam uma e, em alguns casos, duas máquinas de cerco atacando as muralhas de uma cidade sitiada. O relevo que representa o cerco de Laquis é único ao mostrar nada menos que sete máquinas de cerco participando ativamente da batalha.

Mais à direita, são mostrados soldados assírios carregando o saque e prisioneiros, provavelmente oficiais de Ezequias, sendo severamente punidos, e os habitantes de Laquis deixando a cidade destruída. Os deportados levam seus pertences com eles, uma imagem trágica de famílias inteiras forçadas a sair de suas casas. A família mostrada aqui é composta por duas mulheres, seguidas por duas meninas e um homem que conduz um carro puxado por dois bois. O carro está carregado de utensílios domésticos e trouxas amarradas, nas quais duas crianças pequenas, um menino e uma menina, estão sentadas. As costelas dos bois aparecem destacadas, possivelmente para indicar que sofrem de desnutrição.

Os deportados se distinguem por sua aparência e vestuário, que provavelmente eram típicos do povo de Judá naquele período. As mulheres usam uma roupa longa e simples. Um longo xale cobre a cabeça, os ombros e as costas, chegando até a parte inferior do vestido. Os homens têm barba curta e suas cabeças estão enroladas em lenços com extremidades em franja. A roupa deles tem uma borla franjada pendurada entre as pernas. Homens e mulheres estão descalços.

A procissão dos soldados assírios carregando espólio, e a dos habitantes deportados, passa diante do rei assírio sentado em seu trono. A inscrição cuneiforme, gravada noHabitantes de Laquis deixam a cidade destruída pelos assírios em 701 a. C. fundo do relevo, identifica a cidade atacada como Laquis. O belo trono é ricamente ornamentado e é mencionado especificamente na inscrição. Quase certamente foi trazido da Assíria para Laquis para o uso de Senaquerib. O trono tem pernas muito altas, permitindo que o monarca sentado olhe de cima para as pessoas que estão à sua frente. Os pés do rei repousam sobre um escabelo alto. O trono e o escabelo eram decorados com marfim lindamente esculpido. Diante do rei está um alto oficial, possivelmente o comandante do exército (Tartan / turtanu). Ele é acompanhado por comandantes de menor patente, e dois eunucos segurando leques estão atrás do trono. Mais à direita, é mostrada a tenda real, identificada como a tenda de Senaquerib por uma curta inscrição cuneiforme, a carruagem cerimonial de Senaquerib, cavaleiros desmontados, o carro de batalha do rei e, finalmente, o acampamento fortificado assírio.

Laquis nos oferece uma oportunidade única de comparar um relevo assírio esculpido em pedra, que descreve detalhadamente uma cidade antiga, com o local da mesma cidade cuja topografia e fortificações são bem conhecidas por nós. Embora muitas cidades inimigas sejam mostradas nos relevos encontrados em vários palácios reais da Assíria, apenas um punhado delas pode ser identificado pelo nome. No caso de Laquis, no entanto, não apenas conhecemos bem o cenário topográfico, como também identificamos o estrato arqueológico da cidade que foi destruída pelos assírios e descobrimos os restos do ataque a essa cidade.

Nos relevos, as várias características da cidade são retratadas de acordo com as convenções rígidas e esquemáticas usuais dos artistas assírios, mas são mostradas em uma certa perspectiva, mantendo aproximadamente as proporções e relações dos vários elementos, como pareceriam para um artista observando os acontecimentos a partir de um ponto específico. Na opinião de David Ussishkin o ponto de vista a partir do qual Laquis é mostrado nos relevos está localizado a sudoeste do monte, em frente ao local presumido do acampamento assírio, entre ele e a cidade, e de frente para o principal ponto de ataque. Creio que este é o local exato em que Senaquerib, o comandante supremo, sentou-se em seu belo trono, conduziu a batalha e depois inspecionou os carregadores do saque e os deportados. Consequentemente, acredito que os relevos de Laquis apresentam a cidade sitiada como pode ser vista através dos olhos do próprio Senaquerib no seu posto de comando.

 

The Lachish Reliefs

A few years after the campaign in the Levant and the subjugation of Judah, Sennacherib constructed his royal palace in Nineveh, known today as the Southwest Palace. This extravagant edifice, its construction, size, magnificence and beauty are recorded in detail in Sennacherib’s inscriptions; he proudly called it the “Palace Without Rival.” The palace was largely excavated in 1850 c.e. by Sir Austen Henry Layard on behalf of the British Museum in London. He prepared a plan of the building and uncovered a large number of reliefs cut on alabaster slabs which adorned the walls.

O rei assírio Senaquerib em Laquis em 701 a. C.The stone slabs depicting in relief the conquest of Lachish were erected in a special room located at the back of a central ceremonial suite in the palace. It seems that the whole room—and perhaps also the entire suite— was intended to commemorate the conquest of Judah and the victory at Lachish. According to our reconstruction, the “Lachish room” (labeled by Layard “Room XXXVI”) was 11.5m (35ft) wide and 5m (15ft) long. Its walls were probably entirely covered by the Lachish reliefs. The stone reliefs on the left side of the room were left by Layard on the site and were thus lost, while the rest of the series, comprising twelve slabs, were transferred by him to the British Museum in London and are currently exhibited there. The length of the preserved series is about 19m (57ft). It seems that the missing part of the series was about 8m (24ft) long. Accordingly, the original series depicting the conquest of Lachish must have been about 27m (81ft) long. This is the longest and most detailed series of Assyrian reliefs depicting the storming and conquest of a single fortress city.

The missing relief slabs were not documented, and the only hint as to their content is Layard’s remark that “the reserve consisted of large bodies of horsemen and charioteers.” Further along, in consecutive order from left to right, are shown the attacking infantry, the storming of the city, the transfer of booty, punishment of captives, families going into exile, Sennacherib sitting on his throne, the royal tent and chariot, and finally the Assyrian military camp. Significantly, the main scene portraying the storming of the city was placed exactly in the center of the rear wall of the room, opposite the monumental entrance. Given good lighting conditions, anyone who passed through the entrance could see the storming of Lachish facing him as he entered the room.

The city-gate is shown in the center of the scene portraying the assault on the city, being attacked by a siege-machine. Refugees are shown carrying their belongings and leaving the city through the gate. On both sides of the besieged city are depicted the city-walls. Judahite warriors stand on the walls and on the “balcony” on the roof of the gatehouse and shoot at the attacking Assyrians. The siege-ramp is shown to the right of the gatehouse. As mentioned above, seven siege-machines, supported by archers and slingers, are attacking the walls—five on top of the siegeramp, and two attacking the city-gate, possibly placed on an additional siege-ramp built against the gatehouse. The royal Assyrian relief series usually portray one, and in a few cases two siege-machines attacking the walls of a besieged city. The relief portraying the siege of Lachish is unique in showing no fewer than seven siege-machines taking active part in the battle.

Further to the right are shown Assyrian soldiers carrying booty and captives—probably Hezekiah’s officials, being severely punished—and the inhabitants of Lachish Prisioneiros judaítas de Laquis levados ao rei Senaquerib em 701 a. C.leaving the destroyed city. The deported Lachishites take their belongings with them, a tragic picture of entire families forced out of their homes. The family shown here consists of two women, followed by two girls and a man leading a cart harnessed totwo oxen. The cart is laden with household goods and tied-up bundles on which two small children, a boy and a girl, are sitting. The ribs of the oxen are emphasized, possibly to point out that they suffer from malnutrition.

The deportees are distinguishable by their appearance and dress, which were probably typical to the people of Judah at that period. The women wear a long, simple garment. A long shawl covers their head, shoulders and back, reaching to the bottom of the dress. The men have a short beard and their heads are wound with scarves whose fringed ends hang down. Their garment has a fringed tassel hanging between the legs. Both men and women are barefoot.

The procession of the Assyrian soldiers carrying booty, and that of the deported inhabitants, face the Assyrian king sitting on his throne. The cuneiform inscription, carved in the background of the relief, identifies the assaulted city as Lachish. The beautiful throne is richly ornamented and is specifically mentioned in the inscription; it was almost certainly brought from Assyria to Lachish for the use of Sennacherib. The throne has very high legs, enabling the sitting monarch to look down from above at the people standing in front of him. The feet of the king rest on a high footstool. Both the throne and the stool were decorated with beautifully carved ivories. Facing the king stands a high official, possibly the commander of the army (Tartan/turtanu). He is followed by commanders of lesser rank, and two eunuchs holding fans stand behind the throne. Further to the right are shown the royal tent, identified as Sennacherib’s tent by a short cuneiform inscription, the ceremonial chariot of Sennacherib, dismounted cavalrymen, the king’s battle chariot and finally the Assyrian fortified camp, depicted in the schematic Assyrian style as described above.

Lachish provides us with a unique opportunity of comparing an Assyrian stone relief depicting in detail an ancient city with the site of the same city whose topography and fortifications are well known to us. Although many enemy cities are shown in the reliefs found in various Assyrian royal palaces, only a handful of them can be identified by name, and even fewer can be associated with places of known location and nature. In the case of Lachish, however, not only are we well acquainted with the topographical setting, but we have identified the city level that was destroyed by the Assyrians and uncovered the remains of the attack on that city.

It seems to me, in following the initial study of Richard Barnett, that the Lachish relief series portrays the city from one particular spot. In the relief, the various features of the city are depicted according to the usual rigid and schematic conventions of the Assyrian artists, but they are shown in a certain perspective, roughly maintaining the proportions and relationships of the various elements as they would appear to an onlooker standing at one specific point. In my view the particular vantage point from which Lachish is shown in the relief is located southwest of the mound, just in front of the presumed site of the Assyrian camp, between it and the city, and facing the main point of attack. I believe that this is the very spot where Sennacherib, the supreme commander, sat on his beautiful throne, conducted the battle, and later reviewed the booty bearers and the deportees. Consequently, I believe that the Lachish reliefs present the besieged city as seen through the eyes of Sennacherib himself at his command post.

A tomada de Laquis por Senaquerib em 701 a.C. – 2

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Estou lendo trechos do livro de KALIMI, I. ; RICHARDSON, S. (eds.) Sennacherib at the Gates of Jerusalem: Story, History and Historiography. Leiden: Brill, 2014, XII + 548 p. – ISBN 9789004265615.

Resumi os pontos principais do capítulo 4 sobre a tomada de Laquis.KALIMI, I. ; RICHARDSON, S. (eds.) Sennacherib at the Gates of Jerusalem: Story, History and Historiography. Leiden: Brill, 2014

1. Laquis na época da campanha de Senaquerib
3. Os relevos de Laquis

 

Nas páginas 79-85, diz David Ussishkin:

O ataque assírio a Laquis

Quando Senaquerib chegou a Laquis no comando de seu exército, ele não teve que deliberar muito sobre onde dirigir o seu ataque à cidade fortificada. A resposta óbvia foi ditada pela topografia do local e pelo terreno circundante. A cidade estava cercada por vales profundos de quase todos os lados, e somente no ângulo sudoeste havia uma ligação, através de uma depressão, com a colina vizinha. As fortificações neste lado eram especialmente reforçadas, mas o ângulo sudoeste e a porta da cidade, que ficava nas vizinhanças, eram os pontos mais vulneráveis e lógicos a serem atacados. Por isso, é bastante natural que o lado sudoeste tenha sofrido o impacto do ataque assírio.

Ao chegar a Laquis, o exército deve ter acampado, como era usual nas campanhas assírias. Deve ter sido um acampamento espaçoso, fornecendo instalações para a força expedicionária e acomodando o séquito e o quartel-general do rei. Os acampamentos militares assírios são frequentemente retratados em relevos. Eles eram geralmente redondos ou elípticos e cercados por uma paliçada ou por um muro. O acampamento construído em Laquis é retratado de maneira semelhante nos “Relevos de Laquis”, uma série de gravuras retratando o evento da tomada da cidade, descobertas no palácio de Senaquerib em Nínive.

O cerco de Laquis por Senaquerib em 701 a. C.Parece que o local do acampamento assírio pode ser determinado com certa segurança. Considerações estratégicas sugerem (a) que o acampamento assírio deveria estar localizado não muito longe do local onde seria lançado o principal ataque às muralhas da cidade; (b) que deveria estar perto da cidade, mas fora do alcance das chamas das muralhas da cidade; (c) que não deveria ter sido topograficamente inferior ou dominado taticamente pelas muralhas da cidade; e (d) que o local do acampamento deveria ser relativamente plano e espaçoso, suficientemente grande para acomodar a força expedicionária e o quartel-general do rei. Os critérios acima se encaixam na colina a sudoeste do monte, onde agora está o povoado israelense de Moshav Lachish. Como esta colina está conectada ao monte por uma depressão, a abordagem à cidade foi bastante fácil, e o acampamento estava localizado em frente ao local onde o ataque principal deveria ocorrer. Esta colina é relativamente alta e seu cume é amplo e plano, sendo quase tão alto quanto as muralhas da cidade do lado sudoeste. Infelizmente, a reconstrução do acampamento assírio neste local não pode ser fundamentada arqueologicamente. Quaisquer restos desse acampamento, se ainda preservados, agora estão sob as casas e fazendas de Moshav Lachish.

As escavações neste lado sudoeste foram iniciadas em 1932, quando Starkey descobriu e limpou o revestimento externo ao redor de todo o monte. Grandes quantidades de pedras foram descobertas neste local, e as escavações se estenderam pela encosta à medida que mais pedras foram removidas. A área da depressão no sopé do canto sudoeste e a estrada que levava à porta da cidade foram desobstruídas de muitos milhares de toneladas de alvenaria caída. Starkey acreditava que essas pedras caíram de cima, das muralhas destruídas durante o ataque assírio. David Ussishkin retomou a escavação deste lado sudoeste em 1983. Logo se tornou evidente que as pedras encontradas por Starkey estavam irregularmente amontoadas na encosta do monte, em vez de caírem de cima, e, portanto, ficou claro que elas formam os restos da rampa do cerco assírio. Estas escavações possibilitaram, em boa medida, a reconstrução do ataque assírio. Embora parcialmente removida por Starkey, a rampa de cerco colocada no fundo da encosta ainda podia ser estudada e reconstruída. Na sua parte inferior a rampa de cerco inclinada deve ter cerca de 70 metros de largura e 50 metros de comprimento. O centro da rampa de cerco era feito inteiramente de grandes pedras amontoadas que devem ter sido coletadas nos campos ao redor. Calcula-se que o total das pedras empregadas na construção da rampa devessem pesar de 13 a 19 mil toneladas.

As pedras da camada superior da rampa de cerco estavam ligadas por dura argamassa. Essa camada era a cobertura da rampa, adicionada por cima das pedras soltas, aO ataque assírio a Laquis em 701 a. C. fim de criar uma superfície compacta que permitisse aos soldados atacantes e suas máquinas de cerco se movimentarem em terreno sólido. O topo da rampa de cerco ao pé da muralha da cidade era coroado por uma plataforma horizontal feita de terra vermelha e suficientemente larga, fornecendo terreno uniforme para as máquinas de cerco assírias. É preciso enfatizar que a rampa de cerco de Laquis é, primeiro, a mais antiga rampa de cerco descoberta até hoje em escavações arqueológicas e, segundo, a única rampa de cerco assíria até agora conhecida.

Acima da rampa de cerco foram descobertas as fortificações do lado sudoeste, que eram especialmente maciças e fortes neste ponto vulnerável. A muralha externa tinha aqui uma torre construída com tijolos de barro sobre fundações de pedra, com cerca de 6 metros de altura, preservada quase em sua altura original. A torre era encimada por um balcão protegido por um parapeito, sobre o qual os defensores podiam ficar de pé e lutar. A principal muralha da cidade se estendia atrás e acima dessa torre. Foi preservada nesse ponto quase em sua altura original, cerca de 5 metros.

Quando os defensores da cidade viram que os assírios estavam construindo uma rampa de cerco como preparação para tomar as muralhas da cidade, começaram a construir uma contrarrampa dentro da muralha principal da cidade. Despejaram ali grandes quantidades de detritos do monte, retirados dos níveis anteriores da cidade, que trouxeram da parte nordeste, e construíram uma grande rampa, mais alta que a muralha principal da cidade, o que lhes proporcionou uma segunda nova linha interna de defesa.

Como resultado da construção da contrarrampa, o canto sudoeste tornou-se a parte mais alta do monte. A contrarrampa, sem dúvida, era uma muralha muito impressionante, seu ápice subindo cerca de 3 metros acima do topo da principal muralha da cidade. Alguma cerca ou muro improvisado, talvez feito de madeira, deve ter coroado a muralha, mas seus restos não foram preservados. As sondagens no centro da contrarrampa revelaram acúmulo de detritos montanhosos contendo cerâmica muito anterior, bem como lascas de calcário, que foram despejadas em camadas diagonais. Quando os assírios alcançaram os muros e superaram a defesa, estenderam a rampa de cerco sobre a muralha da cidade em ruínas para permitir o ataque à recém-formada linha de defesa mais alta da contrarrampa.

Falando das armas e munições usadas na batalha, vale mencionar primeiro a máquina de cerco, a formidável arma usada pelos assírios para destruir a linha de defesa nas muralhas. Nada menos do que sete máquinas de cerco dispostas para a batalha no topo da rampa de cerco e perto da porta da cidade são retratadas nos relevos de Laquis. O aríete era feito de uma viga de madeira reforçada com uma ponta afiada de metal. Como demonstrado no relevo, os defensores judaítas de pé na muralha lançavam tochas flamejantes nas máquinas de cerco. Como contramedida, os soldados assírios despejavam água de longas conchas nas máquinas para impedir que pegassem fogo, pois eram feitas de madeira e couro.

Mais duas descobertas únicas estão associadas às tentativas dos defensores de destruir as máquinas de cerco. O primeiro inclui doze pedras perfuradas que foramTropas assírias de Senaquerib atacam Laquis, em Judá, em 701 a. C. descobertas ao pé das duas muralhas da cidade. São grandes blocos de pedra perfurada, com uma parte superior plana, lados retos e um fundo irregular. Cada um deles tem quase 60 cm de diâmetro e pesa cerca de 100 a 200 kg. Restos de cordas queimadas e relativamente finas foram encontrados nos buracos de duas pedras.

Conforme indicado pelos restos das cordas, parece que as pedras perfuradas foram amarradas e baixadas pelos defensores da muralha da cidade. Pode-se supor que essas pedras tenham sido baixadas de alguma instalação improvisada, como uma grossa viga de madeira que se projetava da linha da parede. Os defensores provavelmente usaram as pedras na tentativa de danificar as máquinas de cerco e impedir que os aríetes batessem na parede. Eles devem ter descido as pedras sobre as máquinas de cerco e as movido de um lado para o outro como um pêndulo.

A segunda descoberta é um fragmento de uma corrente de ferro contendo quatro elos longos e estreitos, que foram descobertos nos restos de tijolos de barro queimados em frente ao revestimento externo. Os defensores provavelmente usaram a corrente de ferro para desequilibrar as máquinas de cerco. Devem ter lançado a corrente abaixo do ponto de impulso do aríete para prender seu eixo quando atingiu a parede e depois puxaram a corrente.

Algumas das munições usadas na batalha também foram encontradas. Os relevos de Laquis exibem soldados assírios com fundas atirando nos defensores das muralhas, bem como defensores judaítas atirando pedras contra os atacantes, e muitas pedras atiradas foram de fato encontradas nas escavações. São bolas de sílex ou calcário bem moldadas, semelhantes a bolas de tênis, e pesando cerca de 250 gramas ou mais.

Os relevos de Laquis exibem arqueiros assírios que apoiavam o ataque às muralhas e, de fato, cerca de mil pontas de flechas foram descobertas nas escavações no canto sudoeste. As pontas de flechas não são uniformes em tamanho ou forma, e são de tipos diferentes. Quase todos eram feitas de ferro, e algumas eram de bronze ou esculpidas em osso. A maioria das pontas de flecha foi descoberta nos destroços de tijolos de barro queimados em frente às muralhas da cidade. Aparentemente, essas flechas foram disparadas por arqueiros assírios contra os soldados judaítas que estavam nos balcões no topo das muralhas. A descoberta de tantas pontas de flecha em uma área tão pequena indica a concentração do poder de fogo assírio. Muitas pontas de flecha foram encontradas dobradas, uma indicação de que foram atiradas muito de perto contra as muralhas com arcos poderosos.

Infelizmente, os dados arqueológicos são insuficientes para responder a três perguntas básicas:
. Qual era o tamanho da população da cidade na época do cerco?
. Qual era o tamanho da força assíria?
. Quanto tempo durou o cerco?

Em relação ao número de habitantes e defensores, só podemos fazer uma estimativa aproximada. O método costumeiro para calcular o tamanho da população em umSoldados assírios em combate assentamento antigo é multiplicando a área estabelecida por um coeficiente de densidade. Adotando o coeficiente de 100 pessoas por acre, já usado por especialistas para esta época, conclui-se que pelo menos duas mil pessoas viviam em Laquis na época da invasão de Senaquerib. No entanto, esse método serve para calcular a população em um assentamento regular, enquanto Laquis era principalmente um centro militar fortificado. Além disso, é possível que o número de pessoas em Laquis tenha mudado às vésperas do cerco, seja porque as pessoas da região circundante se refugiaram ali ou devido a mudanças que foram feitas no destacamento do exército judaíta.

Quanto ao tamanho do exército assírio acampado em Laquis, ou ao tamanho da força que participou do ataque à cidade, não há dados disponíveis. Quanto à questão de quanto tempo durou o cerco da cidade, aparentemente foi um cerco breve, pois toda a campanha assíria durou apenas parte de um ano. Durante esse período, o exército assírio marchou da Assíria para Judá, subjugou a Fenícia e a Filisteia, lutou contra a força expedicionária egípcia, conquistou parte de Judá e voltou para casa. Parece que a maior parte do tempo necessário para o ataque a Laquis foi gasto na construção da rampa de cerco, enquanto o ataque às muralhas da cidade foi relativamente breve. Ephʿal tentou calcular o tempo necessário para a instalação da rampa de assédio e sugeriu que tenha demorado vinte e poucos dias. No entanto, todos os dados básicos necessários para os cálculos, como a quantidade de pedras despejadas na rampa de cerco, a distância de onde foram levadas, o número de carregadores empregados para transportá-las e os atrasos causados ​​pela oposição dos defensores, só podem ser supostos.

 

The Assyrian Attack on Lachish

When Sennacherib arrived at the head of his army at Lachish, he did not have to deliberate at length on where to direct the main thrust of his onslaught on the fortified city. The obvious answer was dictated by the topography of the site and the surrounding terrain. The city was enveloped by deep valleys on nearly all sides, and only at the southwest corner did a topographical saddle connect the mound with the neighboring hillock. The fortifications at this corner were specially strengthened, but nevertheless the southwest corner and the nearby city-gate were the most vulnerable and the most logical points to assault. Hence it is quite natural that the southwest corner bore the brunt of the Assyrian attack.

Upon arrival at Lachish, the Assyrian army must have pitched its camp, as was the common practice in Assyrian campaigns. It must have been a large camp, providing Prisioneiros judaítas sendo esfolados pelos assírios em Laquis em 701 a. C.facilities for the expeditionary force and accommodating the king’s retinue and headquarters (cf. 2 Chronicles 32:9). Assyrian military camps are often portrayed schematically in Assyrian reliefs; they were generally round or elliptical in plan and surrounded by a fence or a wall. In some portrayals a central track is shown extending across the camp, and in others it is divided into four parts by two bisecting tracks. The camp constructed at Lachish is portrayed in a similar fashion in the “Lachish reliefs” to be discussed below.

It seems that the site of the Assyrian camp can be fixed with much certainty. Strategic considerations suggest (a) that the Assyrian camp should have been located not far from the place where the main attack on the city-walls was to be launched; (b) that it should have been near the city but beyond the range of fire from the city-walls; (c) that it should not have been topographically lower than, or tactically dominated by, the city-walls; and (d) that the site of the camp should have been relatively flat and spacious, sufficiently large to accommodate the expeditionary force and the king’s headquarters. The above criteria fit the hillock to the southwest of the mound, where the Israeli village Moshav Lachish is now located. Since this hillock is connected to the mound by the saddle described above, the approach to the city was fairly easy, and the camp was located opposite the place where the main attack was to take place. This hillock is relatively high and its summit broad and flat, rising nearly as high as the city-walls in the southwest corner. Unfortunately, the reconstruction of the Assyrian camp at this place cannot be archaeologically substantiated. Any remains of such a camp, if still preserved, are now obscured by the houses and farms of Moshav Lachish.

The excavations in the southwest corner were started in 1932, when Starkey cleared the face of the outer revetment around the entire mound. Large amounts of stones were uncovered at this spot, and the digging extended down the slope as more stones were removed. As the excavations developed, the saddle area at the foot of the southwest corner and the roadway leading up to the city-gate were cleared of many thousand tons of fallen masonry. Starkey believed that these stones collapsed from above, from the strong fortifications of the southwest corner destroyed during the Assyrian attack. We resumed the excavation of the southwest corner in 1983. It soon became apparent that the stones encountered by Starkey were irregularly heaped against the slope of the mound rather than fallen from above, and hence it became clear that they form the remains of the Assyrian siege-ramp. The excavations at our trench enabled us to reconstruct the Assyrian attack to a large degree. Although partly removed by Starkey, the siege-ramp laid at the bottom of the slope could still be studied and reconstructed. At its bottom, the sloping siege-ramp must have been about 70m (210ft) wide, and about 50m (150ft) long. The core of the siege-ramp was made entirely of heaped large stones which must have been collected in the fields around. We estimated that the stones invested in the construction of the ramp weighed 13,000 to 19,000 tons.

The stones of the upper layer of the siege-ramp were found stuck together by hard mortar. This layer was the mantle of the ramp, added on top of the loose boulders in order to create a compact surface which enabled the attacking soldiers and their siege-machines to move on solid ground. The top of the siege-ramp at the foot of the city-wall was crowned by a horizontal platform; it was made of red soil and was sufficiently wide, thus providing even ground for the Assyrian siege-machines to stand upon.To end the discussion of the siege-ramp, it has to be emphasized that the siege-ramp of Lachish is, first, the earliest siege-ramp so far uncovered in archaeological excavations, and second, the only Assyrian siege-ramp which is known today.

Above the siege-ramp were uncovered the fortifications of the southwest corner which were especially massive and strong at this vulnerable point. The outer revetment formed here a kind of tower; it was built of mud-brick on stone foundations and stood about 6m (18ft) high, preserved nearly to its original height. The tower was topped by a kind of “balcony,” protected by a mud-brick parapet, on which the defenders could stand and fight. The main city-wall extended behind and above this tower. It was preserved at this point nearly to its original height—almost 5m (15ft).

Once the defenders of the city saw that the Assyrians were constructing a siege-ramp in preparation for storming the city-walls, they started to lay down a counter-ramp inside the main city-wall. They dumped here large amounts of mound debris taken from earlier city-levels which they brought from the northeast part of the mound, and constructed a large ramp, higher than the main city-wall, which provided them with a second, new inner line of defense.

As a result of the construction of the counter-ramp, the southwest corner became the highest part of the mound. The counter-ramp undoubtedly was a very impressive rampart, its apex rising about 3m (10ft) above the top of the main city-wall. Some makeshift fence or wall, perhaps made of wood, must have crowned the rampart, but its remains were not preserved. Our soundings in the core of the counter-ramp revealed accumulation of mound debris containing much earlier pottery, as well as limestone chips, which was dumped in diagonal layers. Significantly, once the Assyrians reached the walls and overcame the defense, they extended the siege-ramp over the ruined city-wall—we called it the “second stage” of the siege-ramp—to enable the attack on the newly-formed, higher defense line on the counter-ramp.

Prisioneiros judaítas empalados pelos assírios em Laquis em 701 a. C.Turning to weapons and ammunition used in the battle, I shall first mention the siege-machine, the formidable weapon used by the Assyrians to destroy the defense line on the walls. No fewer than seven siege-machines arrayed for battle on top of the siege-ramp and near the city-gate are portrayed in the Lachish reliefs. The siege-machine moved on four wheels, partly protected by its body, which was made in six or more separate sections for easy dismantling and reassembling. The ram, made of a wooden beam reinforced with a sharp metal point, was probably suspended from one or more ropes, like a pendulum, and several crouching soldiers must have moved it backwards and forwards. As shown in the relief, the Judahite defenders standing on the wall were throwing flaming torches on the siege-machines. As a counter-measure, Assyrian soldiers standing on the roof of the siege-machines were pouring water from long ladles on the façade of the machines to prevent them from catching fire. The relief emphasizes the fact that the fighting between the two sides took place at close quarters, something very difficult for us to imagine at the present time when long-range guns and missiles form the main weapons.

Two more unique finds are apparently associated with the attempts of the defenders to destroy the siege-machines. The first one includes twelve perforated stones which were discovered at the foot of both city-walls. These are large perforated stone blocks, with a flat top, straight sides, and an irregular bottom. Each of them is nearly 60cm (2ft) in diameter and weighs about 100 to 200kg. Remains of burnt, relatively thin ropes were found in the holes of two stones.

As indicated by the remains of the ropes, it seems that the perforated stones were tied to ropes and lowered by the defenders from the city-wall. I assume that these stones were lowered from some makeshift installation, such as a thick wooden beam projecting from the line of the wall. The defenders probably used the stones in an attempt to damage the siege-machines and prevent the rams from hitting the wall; they must have dropped the stones on the siege-machines and swung them to and fro like a pendulum.

The second find is a fragment of an iron chain containing four long, narrow links, which was uncovered in the burnt mud-brick debris in front of the outer revetment. The defenders probably used the iron chain in order to unbalance the siege-machines. We assume that they lowered the chain below the point of thrust of the ram in order to catch its shaft when it reached the wall, and then raised the chain.

Some of the ammunition used in the battle was also found. The Lachish reliefs display Assyrian slingers shooting at the walls as well as Judahite defenders shooting sling stones at the attackers, and many sling stones were indeed found in the excavations. These are well-shaped balls of flint or limestone, resembling tennis balls, and weighing about 250 grams or more.

The Lachish reliefs display Assyrian archers supporting the attack on the walls, and indeed close to one thousand arrowheads were discovered in the excavation of the southwest corner. The arrowheads are not uniform in size or shape, and different types are represented. Almost all of them were made of iron, and a few were cast of bronze or carved of bone. In some cases ashes, the remains of the wooden shafts of the arrows, could still be discerned when exposed in the excavation. Most of the arrowheads were uncovered in the burnt mud-brick debris in front of the city-walls. Apparently these arrows were shot by Assyrian archers at the Judahite warriors standing on the “balconies” on top of the walls. The discovery of so many arrowheads in such a small area indicates how concentrated the Assyrian firepower was. Many arrowheads were found bent—an indication that they were shot at the walls with powerful bows from close range.

Laquis em 701 a. C.Unfortunately, the archaeological data are insufficient to answer three basic questions: what was the size of the city’s population at the time of the siege; what was the size of the Assyrian force; and how long did the siege last? Regarding the number of inhabitants and defenders, we can only make a rough estimate. The accepted method for estimating the size of the population in an ancient settlement is by multiplying the settled area by a density coefficient. Adopting the coefficient of 100 people per acre used by Broshi and Finkelstein in their study of the Iron II period it follows that fewer than 2000 people lived at Lachish at that time. However, this method is meant to estimate the population in a regular settlement, while Lachish was mainly a military, fortified center. Moreover, it is possible that the number of people in Lachish changed on the eve of the siege, either because people from the surrounding region took refuge here, or due to changes being made in the deployment of the Judahite army.

As to the size of the Assyrian army encamped at Lachish, or the size of the force which took part in the attack on the city, no data are available. As to the question of how long the siege of the city lasted, it apparently was a brief siege, as the entire Assyrian campaign lasted for only part of one year. During that period of time, the Assyrian army marched from Assyria to Judah, subjugated Phoenicia and Philistia, fought the Egyptian expeditionary force, conquered part of Judah, and returned home. It seems that most of the time needed for the attack on Lachish was spent in laying the siege-ramp, while the attack on the city-walls was relatively brief. Ephʿal tried to calculate the time needed for laying the siege-ramp, and suggested that it took twenty-three days.8 However, all the basic data needed for the calculations, such as the quantity of stones dumped in the siege-ramp, the distance from where they were taken, the number of porters employed in carrying them, and the delays caused by opposition of the defenders, can only be surmised.

A tomada de Laquis por Senaquerib em 701 a.C. – 1

Atualizado em

Estou lendo trechos do livro de KALIMI, I. ; RICHARDSON, S. (eds.) Sennacherib at the Gates of Jerusalem: Story, History and Historiography. Leiden: Brill, 2014, XII + 548 p. – ISBN 9789004265615.

Resumi os pontos principais do capítulo 4 sobre a tomada de Laquis.KALIMI, I. ; RICHARDSON, S. (eds.) Sennacherib at the Gates of Jerusalem: Story, History and Historiography. Leiden: Brill, 2014

O capítulo foi escrito pelo arqueólogo David Ussishkin, que escavou Laquis, e trata da campanha de Senaquerib em Judá em perspectiva arqueológica com ênfase em Laquis e Jerusalém.

Na maior parte das vezes apenas traduzi alguns trechos ou organizei em outra ordem as palavras do autor. Vou publicar estas anotações em 3 posts que abordam:

1. Laquis na época da campanha de Senaquerib
2. O ataque assírio a Laquis
3. Os relevos de Laquis

O texto original em inglês é transcrito na íntegra, no final, mas retirando as notas de rodapé e as referências às imagens que ilustram o livro.

 

USSISHKIN, D. Sennacherib’s Campaign to Judah: The Archaeological Perspective with an Emphasis on Lachish and Jerusalem. In KALIMI, I. ; RICHARDSON, S. (eds.) Sennacherib at the Gates of Jerusalem: Story, History and Historiography. Leiden: Brill, 2014, p. 76-79, diz:

Laquis na época da campanha de Senaquerib

A elevação onde ficava Laquis (Tell ed-Duweir) tem cerca de 7 hectares. As encostas são muito íngremes devido às enormes fortificações da cidade antiga construída aqui. Escavações extensas foram realizadas em Laquis por três expedições arqueológicas. As primeiras escavações foram conduzidas em larga escala entre 1932 e 1938 por uma expedição britânica dirigida por James Leslie Starkey. Em 1966 e 1968, Yohanan Aharoni, na época na equipe da Universidade Hebraica de Jerusalém, realizou uma pequena escavação no ‘Santuário Solar’ do período persa. Finalmente, escavações sistemáticas, de longo prazo e em larga escala, foram dirigidas por David Ussishkin, do Instituto de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv, entre 1972 e 1993.

Durante a primeira metade do século IX a.C., um dos reis de Judá construiu ali uma formidável fortaleza, transformando Laquis na cidade mais importante de Judá depois A invasão de Judá por Senaquerib em 701 a. C.de Jerusalém. Como não há inscrições, não se sabe qual rei construiu a cidade e em que data isto foi feito. A cidade fortaleza continuou a servir como a principal fortaleza real dos reis de Judá até sua destruição por Senaquerib, em 701 a.C.

A cidade fortaleza, quase retangular, era protegida por duas muralhas: uma externa, ao redor do local, no meio da encosta, e a muralha principal da cidade se estendendo ao longo da borda superior do local. A maciça muralha externa foi descoberta na íntegra pela expedição britânica. Somente sua parte inferior, construída de pedras, foi preservada. Já a muralha principal foi construída de tijolos de barro sobre fundações de pedra. Com mais de 6 metros de espessura e cerca de 5 metros de altura, seu topo proporcionava espaço suficiente para os defensores se movimentarem e lutar.

Uma estrada levava do canto sudoeste do local até a antiga porta da cidade. O complexo da porta da cidade incluía, na verdade, duas portas: uma externa, ligada à muralha externa, e uma interna, ligada à muralha principal da cidade. E havia um pátio aberto e espaçoso entre as duas portas.

Da porta interna uma estrada levava ao palácio-forte que ficava no cume da elevação. O palácio-forte servia como a residência do governador real e como base para a guarnição.

Muito pouco se sabe sobre o palácio-forte, pois apenas suas fundações abaixo do nível do solo foram preservadas. A estrutura das fundações se assemelha a uma grande caixa que se eleva acima da superfície circundante. Algumas partes das paredes externas da estrutura da fundação foram expostas nas escavações. Essas paredes têm cerca de 3 metros de espessura. O piso do edifício se estendia no topo das fundações. É claro que um edifício magnífico e monumental se ergueu na época acima dessas fundações. Um grande pátio e dois outros edifícios foram anexados ao palácio-forte. Parece que um dos edifícios era um estábulo e que uma unidade de carros ficava estacionada ali.

Um poço profundo, principal fonte de água da fortaleza, estava localizado próximo à muralha da cidade, no canto nordeste. Aparentemente, fornecia quantidades A elevação onde ficava Laquis (Tell ed-Duweir)suficientes de água durante os períodos de paz e de guerra. A parte superior do poço era revestida por blocos de pedra e a parte inferior era escavada na rocha. O poço tem 44 metros de profundidade e ainda continha água quando os arqueólogos britânicos o descobriram na década de 30 do século XX.

A cidade foi completamente destruída por um incêndio em 701 a.C. quando Laquis foi conquistada pelo exército assírio. Parece razoável supor que, após o ataque bem-sucedido à cidade, soldados assírios com tochas nas mãos passassem sistematicamente de casa em casa e incendiassem tudo. Os restos da destruição foram encontrados onde quer que as escavações atingissem os prédios públicos e as residências particulares. As casas eram em grande parte construídas com tijolos de barro, e o fogo foi tão intenso que os tijolos de barro secos ao sol foram queimados e, em alguns casos, pode-se observar como as paredes das casas desabaram. Os pisos das casas foram encontrados cobertos com uma camada de cinzas, vasos de cerâmica quebrados e vários utensílios domésticos – todos enterrados sob o desabamento.

 

Lachish on the Eve of Sennacherib’s Campaign

Tel Lachish (Tell ed-Duweir), the site of the biblical city, is one of the largest and most prominent ancient mounds in southern Israel. The mound is nearly rectangular, its flat summit covering about 18 acres. The slopes of the mound are very steep due to the massive fortifications of the ancient city constructed here. Extensive excavations were carried out at Lachish by three expeditions. The first excavations were conducted on a large scale between 1932 and 1938 by a British expedition directed by James Starkey. In 1966 and 1968 Yohanan Aharoni, at that time on the staff of the Hebrew University of Jerusalem, conducted a small excavation, limited in scope and scale, in the ‘Solar Shrine’ of the Persian period. Finally, systematic, long-term and large-scale excavations were directed by me on behalf of the Institute of Archaeology of Tel Aviv University between 1972 and 1993.

A fortaleza de Laquis, em JudáDuring the earlier part of the ninth century b.c.e., one of the kings of Judah constructed here a formidable fortress city, turning Lachish into the most important city in Judah after Jerusalem. With the absence of inscriptions, it is not known which king built the city and at what date. The fortress city continued to serve as the main royal fortress of the kings of Judah until its destruction by Sennacherib in 701 b.c.e.

The nearly rectangular fortress city was protected by two city-walls—an outer revetment surrounding the site at mid-slope, and the main city-wall extending along the upper periphery of the site. The massive outer revetment was uncovered in its entirety by the British expedition. Only its lower part, built of stones, was preserved. It probably served mainly to support a rampart or glacis which reached the bottom of the main city-wall. This massive wall was built of mud-brick on stone foundations. Being more than 6m (20ft) thick, its top provided sufficient, spacious room for the defenders to stand and fight.

A roadway led from the southwest corner of the site to the ancient city-gate. The gate is the largest, strongest and most massive city-gate known today in the Land of Israel. The city-gate complex included in fact two gates: an outer gatehouse, connected to the outer revetment, and an inner gatehouse, connected to the main city-wall, and an open, spacious courtyard extending between the two gates.

From the inner gate, a roadway led the way to the huge palace-fort complex which crowned the center of the summit. The palace-fort served as the residence of the royal Judahite governor and as the base for the garrison.

The palace-fort is undoubtedly the largest and most massive edifice known today from ancient Judah. Very little is known about the building proper, as only its foundations below floor level have been preserved. The structure of the foundations resembles a big box rising above the surrounding surface. Some parts of the exterior walls of the foundation structure were exposed in the excavations. These walls are about 3m (9ft) thick. The spaces between the foundation walls were filled with earth and the exterior walls were supported by an earth rampart. The floor of the building extended at the top of the foundations. It is clear that a magnificent, monumental edifice rose at the time above these foundations. A large courtyard and two annexed buildings were attached to the palace-fort. It seems that one of the buildings was a stable, and that a unit of chariots was stationed here.

A fortaleza de Laquis em 701 a. C.A deep well, which formed the main water source of the settlement, was located near the city-wall in the northeast corner of the site. Apparently, it provided sufficient quantities of water during times of peace and siege alike. The upper part of the well was lined by stone blocks and the lower part was hewn in the rock. The well is 44m (132ft) deep and still contained water when the British archaeologists uncovered it.

The city of Level III was completely destroyed by fire in 701 b.c.e. when Lachish was conquered by the Assyrian army. It seems reasonable to assume that following the successful attack on the city, Assyrian soldiers holding burning torches in their hands walked systematically from house to house and set everything on fire. The remains of the destruction have been encountered wherever the excavations reached the public buildings and domestic houses of Level III. The domestic houses were largely built of mud-brick, and the fire was so intense that the sun-dried mud-bricks were baked and colored, and in some cases it can be observed how the walls of the houses collapsed. The floors of the houses were found covered with a layer of ashes, smashed pottery vessels and various household utensils—all buried under the collapse.

Pandemia: a ignorância é impotente contra a tragédia

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A pandemia desmascara arrogância da ignorância de governantes

BBC News Brasil – A atual pandemia pode nos deixar legados positivos?papo de minas - @papodeminasoficial

Chalhoub – Acho que sim. Por mais que tenhamos passado os últimos anos governados pelas fake news, nessa hora todo mundo espera a salvação pela ciência.

Espero que a epidemia ajude a desautorizar políticos levianos que têm governado várias partes do mundo com a arrogância da ignorância. Essa arrogância está agora sendo desmascarada por fatos trágicos.

No Brasil, a figura do presidente, que é uma caricatura disso, mostra como a ignorância é impotente contra a tragédia.

Não há solução fora de uma vacina, ou da descoberta de medicamentos eficazes, ou de seguir recomendações sanitárias que diminuam o estrago imediato.

Isso mudou em relação às epidemias dos séculos 19 e início do 20. Hoje há uma medicalização muito maior da sociedade e o entendimento da eficácia da medicina científica.

O que torna essa pandemia mais assustadora é que ela é uma metáfora perfeita da globalização. Ela segue a trilha das mercadorias e da circulação de pessoas de maneira tão radical e tão incontrolável quanto a ideologia neoliberal imaginava que a economia poderia ser.

Sempre houve uma relação direta entre a circulação de mercadorias e a de vírus e bactérias. A cólera e a febre amarela só viraram pandemias no século 19 quando os navios ficaram mais rápidos e quando começou a ter estrada de ferro.

Só que a pandemia atual é ainda mais rápida. Esse neoliberalismo agressivo que tomou conta das políticas econômicas internacionais criou outro problema, porque essas políticas diminuíram o Estado, e, de repente, os países se veem despreparados para lidar com uma crise aguda de saúde pública.

É por isso que ela também ataca o imaginário de forma tão radical. Ela coloca em questão todo um modo de pensar a economia nas últimas décadas, o Estado mínimo e a naturalização das desigualdades.

 

Em entrevista à BBC News Brasil, Chalhoub, professor de História e de Estudos Africanos e Afro-americanos na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, traça paralelos entre epidemias passadas e a covid-19.

Em Harvard desde 2015, Chalhoub lecionou na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) por 30 anos e foi professor visitante nas universidades de Michigan e Chicago. Além de Cidade febril, é autor de Trabalho, lar e botequim, sobre a vida nas classes baixas cariocas, e de Visões da Liberdade, sobre as últimas décadas de escravidão na cidade. Também escreveu Machado de Assis, historiador, sobre as ideias políticas do escritor, e coeditou cinco livros sobre a história social do Brasil.

Leia a entrevista completa de Sidney Chalhoub: Pandemia desmascara ‘arrogância da ignorância’ de governantes, diz historiador – Por João Fellet – BBC News Brasil: 19 abril 2020.

Um retrato de Senaquerib, rei da Assíria

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Estas são notas de leitura do capítulo 1 (Portrait of Sennacherib) do livro de ELAYI, J. Sennacherib, King of Assyria. Atlanta: SBL, 2018, p. 11-27.

 

Aparência física
. há muitas representações de Senaquerib, em várias atitudes e contextosSenaquerib, rei da Assíria de 705 a 681 a. C.
. a maior parte foi encontrada no Palácio Sudoeste, em Nínive
. sua aparência, suas vestes, seus ornamentos, suas armas: tudo muito elegante e refinado
. em muitos aspectos, ele é retratado semelhante a uma divindade
. não é um retrato realista, é um retrato convencional de um rei assírio, é uma imagem idealizada
. como ele era realmente, não sabemos

 

Nome e família
. seu nome Sīn-aḫḫē-erība significa, em acádico, “Sin substituiu os irmãos”
. possivelmente uma referência à morte de todos os seus irmãos antes de seu nascimento
. filho de Sargão II, neto de Tiglat-Pileser III
. quem era sua mãe? Atalia ou Raimâ?
. teve vários irmãos, mais velhos e mais jovens do que ele, e pelo menos uma irmã
. segundo o costume assírio, Senaquerib tinha um harém
. pelo menos duas esposas são conhecidas pelo nome: Tash-mêtu-sharrat e Naqiʾa.
. ambas usaram o título de “rainha” (sēgallu). Tash-mêtu-sharrat foi a primeira, Naqiʾa a sucedeu.
. Naqi’a foi a mãe do sucessor de Senaquerib, Assaradon
. Senaquerib teve pelo menos sete filhos, cujos nomes são conhecidos. Somente uma sua filha é conhecida pelo nome

 

Infância
. nasceu por volta de 745 a.C. e viveu sua infância provavelmente em Nimrud, onde seu pai Sargão II e seu avô Tiglat-Pileser III moravam
. sua educação não foi a de um príncipe herdeiro, porque o sucessor de Tiglat-Pileser III foi Salmanasar V, seu tio
. quando seu pai Sargão II sucedeu ao irmão, ou meio-irmão, Salmanasar V, e ele foi proclamado príncipe herdeiro, é que sua preparação para ser rei deve ter se iniciado

 

Personalidade
. costuma-se deduzir sua personalidade das inscrições, mas estas foram feitas por escribas que usavam um modelo estereotipado aplicado a vários reis
. vê-se aí, entretanto, muito orgulho, alto conceito de si mesmo, inteligência, homem perfeito, com representações de si mesmo em várias localidades do império
. tendo vivido como príncipe herdeiro por mais de 15 anos, ele era um homem experiente quando subiu ao trono
. não sonhava em conquistar o mundo, suas campanhas militares foram para conter revoltas e reconquistar territórios perdidos
. as cruéis punições a que submetia seus inimigos derrotados seguiam um padrão assírio de intimidação e terror psicológico
. aplicou-se muito mais em ser grande construtor e disso se orgulhava
. as campanhas militares eram uma necessidade, as grandes obras eram uma realização
. os relatos de seus feitos como construtor ocupam, com frequência, muito mais espaço nas inscrições reais do que as suas campanhas militares
. as obras em Nínive, que ele transformou na capital do império*, especialmente o “palácio sem rival”, chamado pelos arqueólogos de “Palácio Sudoeste”, são grandiosas
. ele se orgulhava de ter introduzido em seu reino uma série de inovações arquitetônicas, metalúrgicas e hortícolas
. não temos como saber suas crenças pessoais, mas os textos o mostram exaltando os tradicionais deuses assírios, especialmente o deus Assur
. rituais religiosos tradicionais são retratados em suas gravuras, na guerra e na paz
. em suma, Senaquerib queria projetar uma imagem de inteligência, capacidade, justiça, piedade, benevolência e energia

 

Na conclusão do livro, na p. 203, a autora faz uma avaliação do reinado de Senaquerib. Ela começa assim:

Quem exatamente era Senaquerib? Ele era diferente da imagem negativa transmitida a nós através dos séculos, porque atacou Judá e destruiu Babilônia. Ele também era diferente da imagem de propaganda que queria promover através de suas inscrições reais e dos relevos do palácio: uma imagem de inteligência, habilidade, justiça, piedade, benevolência e energia. De fato, essas duas imagens divergentes não são completamente falsas, pois contêm alguns elementos de sua personalidade…

Who exactly was Sennacherib? He was different from the negative image conveyed to us through the centuries because he attacked Judah and destroyed Babylon. He was also different from the propaganda image that he wanted to promote through his royal inscriptions and his palace reliefs: an image of intelligence, ability, justice, piety, benevolence, and energy. In fact, these two converse images are not completely false, as they contain some elements of his personality… (Conclusion: Assessment of Sennacherib’s Reign, in ELAYI, J., o. c., p. 203)

 

* A Assíria teve 4 capitais:

1. Assur: capital da Assíria desde o II milênio a.C. e cidade de grande importância religiosa ao longo de toda a sua história
2. Kalhu (Nimrud), escolhida como capital por Assurnasírpal (reinou de 883 a 859 a.C.)
3. Dur-Sharrukkin (Khorsabad), construída por Sargão II a partir de 713 a.C.
4. Nínive, escolhida como capital por Senaquerib (reinou de 705 a 681 a.C.)

O cerco de Jerusalém por Senaquerib em 701 a.C.

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Senaquerib governou a Assíria durante 24 anos, de 705 a 681 a.C. No quarto ano de seu reinado, em 701 a.C., ele partiu para a Fenícia e a Palestina em sua terceira campanha militar. Seus alvos foram Lulî, rei de Sidon; Ṣidqâ, da cidade de Ascalon; os nobres e os habitantes da cidade de Ekron e seus aliados egípcios e etíopes; Ezequias, rei de Judá em Jerusalém.

Em meu artigo sobre O contexto da Obra Histórica Deuteronomista escrevi:

Em 701 a.C. Senaquerib começou por Tiro, vencendo-a. Logo os reis de Biblos, Arvad, Ashdod, Moab, Edom e Amon se entregaram e pagaram tributo a Senaquerib. Somente Ascalon e Ekron, juntamente com Judá, resistiram. Senaquerib tomou primeiro Ascalon. Os egípcios tentaram socorrer Ekron e foram derrotados. E foi a vez de Judá. Senaquerib tomou 46 cidades fortificadas em Judá e cercou Jerusalém.

Testemunhos arqueológicos da devastação foram encontrados em várias escavações por todo o território. Especialmente significativos são a representação assíria daSenaquerib, rei da Assíria de 705 a 681 a.C. tomada de Laquis encontrada no palácio de Senaquerib em Nínive – hoje está no British Museum – e a escavação, feita pelos britânicos na década de 30 e por David Ussishkin, da Universidade de Tel Aviv, na década de 70 do século XX, da poderosa fortaleza, esta que era a segunda mais importante cidade do reino e protegia a entrada de Judá.

Entretanto, por motivos ainda hoje desconhecidos, talvez uma peste, Senaquerib levantou o cerco de Jerusalém e retornou à Assíria. A cidade voltou a respirar, no último minuto, mas teve que pagar forte tributo aos assírios. Não se sabe porque Jerusalém se salvou. 2Rs 19,35-37 diz que o Anjo de Iahweh atacou o acampamento assírio. Existe uma notícia de Heródoto, História II,141, segundo a qual num confronto com os egípcios os exércitos de Senaquerib foram ataca­dos por ratos (peste bubônica?). Talvez Senaquerib tenha partido por causa de alguma rebelião na Mesopotâmia. Ou ainda: há autores que pensam que Jerusalém nem precisou ser sitiada para ser vencida. Nos Anais de Senaquerib se diz o seguinte: “Quanto a Ezequias do país de Judá, que não se tinha submetido ao meu jugo, sitiei e conquistei 46 cidades que lhe pertenciam (…) Quanto a ele, encerrei-o em Jerusalém, sua cidade real, como um pássaro na gaiola…”.

 

ELAYI, J. Sennacherib, King of Assyria. Atlanta: SBL, 2018, p. 76-81 diz:

O cerco de Jerusalém por Senaquerib em 701 a.C. é uma questão difícil, principalmente por causa das contradições entre as fontes assírias e bíblicas.

Muitos autores pensam que não houve um cerco de Jerusalém, mas somente um bloqueio da capital que ficou isolada do resto do país. Como dão a entender os Anais de Senaquerib que dizem: Quanto a ele (Ezequias), eu o confinei (e-sir-šu) dentro da cidade de Jerusalém, sua cidade real, como um pássaro em uma gaiola. Montei bloqueios (ḫal-ṣu.MEŠ) contra ele e o fiz ter pavor de sair pelo portão da cidade.

Um bloqueio de Jerusalém cortaria suprimentos e deixaria a cidade sem qualquer socorro externo. O objetivo era fazer Ezequias se render. Enquanto isso o exército assírio poderia continuar a conquista do território.

Teria Senaquerib sido incapaz de tomar Jerusalém? Seriam as técnicas de cerco assírias não tão avançadas como se alardeava? Ou seria Jerusalém muito bem fortificada? Mas se Senaquerib conquistou Laquis, por que não poderia fazer o mesmo com Jerusalém? Além do que, técnicas de bloqueio já tinham sido usadas por Tiglat-Pileser III, avô de Senaquerib, contra o rei Rezin de Damasco.

Por outro lado, os textos bíblicos em 2Rs 18,13-19,37; Is 36-37; 2Cr 32 trazem várias informações que não estão nas textos assírios de que dispomos. Ezequias se prepara militarmente, melhora suas defesas, negocia com emissários assírios, embora tal negociação pareça, pela linguagem usada, ser coisa mais dos redatores dos textos bíblicos do que um fato histórico.

Como consequência do bloqueio, Judá perdeu territórios para os filisteus, segundo os textos assírios. E isto é plausível, pois a prática assíria de tirar partes do território de vassalos rebeldes e entregá-las a reis leais é conhecida.

O resultado do bloqueio é a submissão de Ezequias a Senaquerib e o pagamento de pesado tributo, um dos maiores de todos os citados nas várias campanhas militares de Senaquerib.

Uma questão continua sendo debatida: por que Ezequias envia o tributo após a volta de Senaquerib para Nínive, como narram as fontes assírias?

Alguns acham que, por Ezequias aceitar pagar o tributo, Senaquerib pode voltar ao seu país, pois o pagamento estava, nas circunstâncias, garantido. Outros acham que Ezequias quer, com o envio do tributo, evitar outro ataque de Senaquerib.

Mas, pode-se também entender a coisa toda na dinâmica das guerras da época: Senaquerib volta a Nínive com a cavalaria e sua guarda pessoal, antes da infantaria de seu exército que se move mais lentamente, com os produtos do saque em carros de boi e os prisioneiros de guerra em lentas montarias ou a pé.

Entretanto é mais provável que os assírios tenham deixado tropas no território, que poderiam retaliar caso Ezequias não demonstrasse submissão pagando o tributo.

E agora a questão principal: por que Senaquerib deixa Jerusalém sem destruí-la?

Os textos assírios não o dizem, mas os relatos bíblicos sim.

O debate acadêmico tem trabalhado 4 aspectos dos relatos bíblicos:

1. 2Rs 18,13-16 – o pagamento do tributo teria levado ao recuo de Senaquerib. Mas se o tributo foi pago posteriormente em Nínive, não teria sido isso que levou ao recuo do rei assírio
2. 2Rs 19,7 – a profecia de Isaías, mas isto é teologia, não história
3. 2Rs 19, 8-9 – uma intervenção egípcia, mas mesmo que isso tivesse acontecido, por que Senaquerib se retiraria do território?
4. 2Rs 19,35-36 – a ação do Anjo de Iahweh, que pode ser uma versão teológica da praga de ratos relatada por Heródoto – mas a autora considera o argumento circular, pois Heródoto é usado para explicar o relato bíblico e vice-versa.

Ou seja: nenhum aspecto dos relatos bíblicos explica realmente o que aconteceu.

Os textos assírios e bíblicos nos deixam ver duas ideologias em confronto: do ponto de vista assírio, Senaquerib é o poderoso rei que nunca sofre uma derrota; do ponto de vista bíblico, Ezequias é o rei fiel a Iahweh que é por ele socorrido.

E se a política assíria tivesse como objetivo apenas quebrar a força da rebelião na região, como fazia rotineiramente em outras situações, e não destruir tudo?

O que para Judá pode ter parecido um grande evento militar, era coisa corriqueira para a Assíria, tal a diferença de forças em jogo.

Mas e Laquis? Laquis pode ter sido destruída para servir de exemplo de como resistir era inútil.

Com a perda do território da Sefelá, Judá ficou sem o controle da rota comercial para o Egito. Ficou arrasado economicamente. Mas um Judá submisso ainda preenchia, junto com as cidades filisteias, a função de estado tampão com o Egito.

E a ameaça babilônica, neutralizada na campanha seguinte, em 700 a.C. poderia ser a que realmente preocupava Senaquerib.

 

Dizem os Anais de Senaquerib:

The Chicago/Taylor Prism

(iii 18) Moreover, (as for) Hezekiah of the land Judah, who had not submitted to my yoke, I surrounded (and) conquered forty-six of his fortified cities, (iii 20) fortresses, and small(er) settlements in their environs, which were without number, by having ramps trodden down and battering rams brought up, the assault of foot soldiers, sapping, breaching, and siege engines. I brought out of them 200,150 people, young (and) old, male and female, (iii 25) horses, mules, donkeys, camels, oxen, and sheep and goats, which were without number, and I counted (them) as booty.

(iii 27b) As for him (Hezekiah), I confined him inside the city Jerusalem, his royal city, like a bird in a cage. I set up blockades against him and (iii 30) made him dread exiting his city gate. I detached from his land the cities of his that I had plundered and I gave (them) to Mitinti, the king of the city Ashdod, Padî, the king of the city Ekron, and Ṣilli-Bēl, the king of the city Gaza, and (thereby) made his land smaller. (iii 35) To the former tribute, their annual giving, I added the payment (of) gifts (in recognition) of my overlordship and imposed (it) upon them (text: “him”).

(iii 37b) As for him, Hezekiah, fear of my lordly brilliance overwhelmed him and, after my (departure), he had the auxiliary forces and his elite troops whom (iii 40) he had brought inside to strengthen the city Jerusalem, his royal city, thereby gaining reinforcements, along with 30 talents of gold, 800 talents of silver, choice antimony, large blocks of …, ivory beds, armchairs of ivory, elephant hide(s), elephant ivory, (iii 45) ebony, boxwood, every kind of valuable treasure, as well as his daughters, his palace women, male singers, (and) female singers brought into Nineveh, my capital city, and he sent a mounted messenger of his to me to deliver (this) payment and to do obeisance.

The Jerusalem Prism

(iii 18) Moreover, (as for) Hezekiah of the land Judah, who had not submitted to my yoke, I surrounded (and) conquered forty-six of his fortified cities, (iii 20) fortresses, and small(er) settlements in their environs, which were without number, by having ramps trodden down and battering rams brought up, the assault of foot soldiers, sapping, breaching, and siege engines. I brought out of them 200,150 people, young (and) old, male and female, (iii 25) horses, mules, donkeys, camels, oxen, and sheep and goats, which were without number, and I counted (them) as booty.

(iii 27b) As for him (Hezekiah), I confined him inside the city Jerusalem, his royal city, like a bird in a cage. I set up blockades against him and (iii 30) made him dread exiting his city gate. I detached from his land the cities of his that I had plundered and I gave (them) to Mitinti, the king of the city Ashdod, Padî, the king of the city Ekron, and Ṣilli-Bēl, the king of the city Gaza, and (thereby) made his land smaller. (iii 35) To the former tribute, their annual giving, I added the payment (of) gifts (in recognition) of my overlordship and imposed (it) upon them (text: “him”).

(iii 37b) As for him, Hezekiah, fear of my lordly brilliance overwhelmed him and, after my (departure), he had the auxiliary forces and his elite troops whom (iii 40) he had brought inside to strengthen the city Jerusalem, his royal city, thereby gaining reinforcements, along with 30 talents of gold, 800 talents of silver, choice antimony, large blocks of …, ivory beds, armchairs of ivory, elephant hide(s), elephant ivory, (iii 45) ebony, boxwood, every kind of valuable treasure, as well as his daughters, his palace women, male singers, (and) female singers brought into Nineveh, my capital city, and he sent a mounted messenger of his to me to deliver (this) payment and to do obeisance.

Rassam Cylinder

(49) (As for) Hezekiah of the land Judah, I surrounded (and) conquered forty-six of his fortified walled cities and small(er) settlements in their environs, which were without number, (50) by having ramps trodden down and battering rams brought up, the assault of foot soldiers, sapping, breaching, and siege engines. I brought out of them 200,150 people, young (and) old, male and female, horses, mules, donkeys, camels, oxen, and sheep and goats, which were without number, and I counted (them) as booty.

(52) As for him (Hezekiah), I confined him inside the city Jerusalem, his royal city, like a bird in a cage. I set up blockades against him and made him dread exiting his city gate. I detached from his land the cities of his that I had plundered and I gave (them) to Mitinti, the king of the city Ashdod, and Padî, the king of the city Ekron, (and) Ṣilli-Bēl, the king of the land Gaza, (and thereby) made his land smaller. To the former tribute, their annual giving, I added the payment (of) gifts (in recognition) of my overlordship and imposed (it) upon them.

(55) As for him, Hezekiah, fear of my lordly brilliance overwhelmed him and, after my (departure), he had the auxiliary forces (and) his elite troops whom he had brought inside to strengthen the city Jerusalem, his royal city, thereby gaining reinforcements, (along with) 30 talents of gold, 800 talents of silver, choice antimony, large blocks of …, ivory beds, armchairs of ivory, elephant hide(s), elephant ivory, ebony, boxwood, garments with multi-colored trim, linen garments, blue-purple wool, red-purple wool, utensils of bronze, iron, copper, tin, (and) iron, chariots, shields, lances, armor, iron belt-daggers, bows and uṣṣu-arrows, equipment, (and) implements of war, (all of) which were without number, together with his daughters, his palace women, male singers, (and) female singers brought into Nineveh, my capital city, and he sent a mounted messenger of his to me to deliver (this) payment and to do obeisance.

 

Vídeos sobre Nínive, o palácio de Senaquerib em Nínive e a tomada de Laquis:Palácio de Senaquerib em Nínive - Archaeology Illustrated

3D Digital Art Ancient Nineveh – Ashurbanipal, Assyria – 3D by Kais Jacob – 18 de março de 2016

Flyover of the ancient citadel at Nineveh – Learning Sites – 28 de novembro de 2017

Southwest Palace, Nineveh, flyover and flythrough showing Carlos Museum fragments in context – Learning Sites – 2 de maio de 2019

The Lachish Reliefs – Megalim Institute – 2 de dezembro de 2013

As inscrições reais do período neoassírio

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Fontes neoassírias? Os textos estão disponíveis no Projeto RINAP, da Universidade da Pensilvânia.

The Royal Inscriptions of the Neo-Assyrian Period (RINAP)

Numerous royally commissioned texts were composed between 744 BC and 609 BC, a period during which Assyria became the dominant power in southwestern Asia. Eight hundred and fifty to nine hundred such inscriptions are known today. The Royal Inscriptions of the Neo-Assyrian Period (RINAP) Project, under the direction of Professor Grant Frame of the University of Pennsylvania, will publish in print and online all of the known royal inscriptions that were composed during the reigns of the Assyrian kings Tiglath-pileser III (744–727 BC), Shalmaneser V (726–722 BC), Sargon II (721–705 BC), Sennacherib (704–681 BC), Esarhaddon (680–669 BC), The Taylor Prism - Library of Ashurbanipal - Date: 691BC - British MuseumAshurbanipal (668–ca. 631 BC), Aššur-etel-ilāni (ca. 631–627/626 BC), Sîn-šumu-līšir (627/626 BC), Sîn-šarra-iškun (627/626–612 BC), and Aššur-uballiṭ II (611–609 BC), rulers whose deeds were also recorded in the Bible and in some classical sources. The individual texts range from short one-line labels to lengthy, detailed inscriptions with over 1200 lines (4000 words) of text.

These Neo-Assyrian royal inscriptions (744–609 BC) represent only a small, but important part of the vast Neo-Assyrian text corpus. They are written in the Standard Babylonian dialect of Akkadian and provide valuable insight into royal exploits, both on the battlefield and at home, royal ideology, and Assyrian religion. Most of our understanding of the political history of Assyria, and to some extent of Babylonia, comes from these sources. Because this large corpus of texts has not previously been published in one place, the RINAP Project will provide up-to-date editions (with English translations) of Assyrian royal inscriptions from the reign of Tiglath-pileser III (744–727 BC) to the reign of Aššur-uballiṭ II (611–609 BC) in seven print volumes and online, in a fully lemmatized and indexed format. The aim of the project is to make this vast text corpus easily accessible to scholars, students, and the general public. RINAP Online will allow those interested in Assyrian culture, history, language, religion, and texts to efficiently search Akkadian and Sumerian words appearing in the inscriptions and English words used in the translations. Project data will be fully integrated into the Cuneiform Digital Library Initiative (CDLI) and the Open Richly Annotated Cuneiform Corpus (Oracc).

 

Sobre os Anais de Senaquerib, confira:

A. Kirk Grayson & Jamie Novotny, ‘Survey of the Inscribed Objects Included in Part 1‘, RINAP 3: Sennacherib, The RINAP 3 sub-project of the RINAP Project, 2019.

 

Um exemplo de como ler as inscrições:

Precisa conferir os Anais de Senaquerib sobre a invasão de Judá em 701 a.C. durante o reinado de Ezequias?

O texto cuneiforme original transliterado e em tradução para o inglês está aqui. Uma opção é: clique em Sennacherib [261] > Sennacherib 022 – Chicago/Taylor Prism, leia a partir de (iii 18).

Lembrando, porém, que há outros textos, no mesmo endereço, que tratam da invasão de Judá em 701 a.C., como o Jerusalem Prism e o Rassam Cylinder.

O jeito assírio de organizar um império

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Curso online gratuito sobre o império assírio:

Organising an Empire: The Assyrian Way – By Karen Radner

Discover the mighty kingdom of Assyria, which came to be the world’s first great empire three thousand years ago. From the 9th to the 7th centuries BC, during the imperial phase of Assyria’s long history, modern day northern Iraq was the central region of a state reaching from the Mediterranean Sea to the Persian Gulf, and incorporating what is now Iraq, Syria, and Lebanon, as well as half of Israel, and wide parts of south-eastern Turkey, and Western Iran.

In its geographical extent, this state was unprecedentedly large, and the distinct geography of the Middle East, with deserts and high mountain ranges, posed challenges to communication and cohesion. What were the mechanisms that kept the Empire running? This course explores the methods the Assyrian government employed to ensure unity and maintain loyalty across vast distances, using traditional as well as innovative strategies. Some of these imperial techniques have marked parallels in the ways modern multi-national corporations are operating, others will strike you as profoundly alien.

This course focusses on how the Assyrians organised their empire by analysing key aspects, namely:Karen Radner

· The CEO – the king, a religious, political and military leader, who is charged to govern by his master, the god Assur;

· Home Office – the royal palace in the central region and the royal court that form the administrative centre of the state;

· The Regional Managers – the governors and client-rulers to whom local power is delegated;

· Human Resources – the Empire’s people are its most precious assets, its consumers and its key product, as the goal of the imperial project was to create “Assyrians”; an approach with lasting repercussions that still reverberate in the Middle East today; and finally

· The Fruits of Empire – it takes a lot of effort, so what are the rewards?

When we explore these topics we will contextualise them with information about the lives led by ordinary Assyrian families.

Taking this course will provide you with an overview of the political, social, religious, and military history of the world’s first superpower. It will give you insight into the geography and climatic conditions of the Middle East and contribute to your understanding of the opportunities and challenges of that region. It will present you with a vision of the Middle East at a time when its political and religious structures were very different from today.

Karen Radner (1972) é uma assirióloga austríaca. Professora de História do Antigo Oriente Médio na Ludwig-Maximilians-Universität München, Alemanha.