Bíblia, ciência, negacionismo e fundamentalismo

Bíblia, ciência, negacionismo e fundamentalismo – Estudos Bíblicos, v. 40 , n. 150, 2024.

Editorial: Bíblia, ciência, negacionismo e fundamentalismo – Sílvia Regina Nunes da Rosa Togneri, Luiz José DietrichBíblia, ciência, negacionismo e fundamentalismo - Estudos Bíblicos, v. 40 , n. 150, 2024.

Artigos

A leitura fundamentalista do Sl 91,11-12 em Mt 4,6 e Lc 4,10-11: um estudo exegético a respeito da instrumentalização mundana da Palavra de Deus – Pedro da Silva Morais, Renato Gonçalves da Silva

Leitura fundamentalista da tradição do AT e NT da religião cristã: delineamento de suas formas possíveis – Lucas Fernandes do Nascimento

Negação da ciência e fundamentalismo: um pouco de história e pistas para o debate – Clovis Torquato Junior, Luiz José Dietrich

Josué: a saga épica reverbera futuro adentro – Renatus Porath

A questão da historicidade dos milagres – Celso Loraschi

A revelação da ira de Deus e suas consequências aos pagãos em Romanos 1,18-32 – Osmar Debatin

Artigos – Temática Livre

A normatização do casamento judaíta no Deuteronômio (séculos VIII-V a.C.) – Fernando Mattiolli Vieira

Entre o silêncio e a interpretação: a homossexualidade nas Escrituras e a ausência de condenação direta – Luiz Carlos Nunes da Silva

O Evangelho de Mateus no ABC da Bíblia

FLICHY, O. O Evangelho de Mateus. São Paulo: Loyola, 2025, 140 p. – ISBN ‎ 9786555044539.

Sobre a coleção ABC da Bíblia:FLICHY, O. O Evangelho de Mateus. São Paulo: Loyola, 2025, 140 p.

Trata-se de uma verdadeira “caixa de ferramentas” que ajudará o leitor a fazer uma leitura sistemática e esclarecida dos livros da Bíblia. Cada volume desta coleção identifica o autor, ou autores, de determinado livro bíblico ou de um conjunto de escritos, apresenta seu contexto histórico, cultural e redacional, analisa-o literariamente, mostra sua estrutura, resume-o, aborda seus grandes temas, estuda sua recepção, influência e atualidade, e fornece um léxico de lugares e pessoas, tabelas cronológicas, mapas e bibliografia.

O original foi publicado em francês em 2016.

Odile Flichy é professora emérita de Exegese de Novo Testamento nas Faculdades Loyola, Paris.

O Evangelho de Lucas no ABC da Bíblia

DEVILLERS, L. O Evangelho de Lucas. São Paulo: Loyola, 2025, 166 p. – ISBN ‎ 9786555044997.

Sobre a coleção ABC da Bíblia:DEVILLERS, L. O Evangelho de Lucas. São Paulo: Loyola, 2025, 166 p.

Trata-se de uma verdadeira “caixa de ferramentas” que ajudará o leitor a fazer uma leitura sistemática e esclarecida dos livros da Bíblia. Cada volume desta coleção identifica o autor, ou autores, de determinado livro bíblico ou de um conjunto de escritos, apresenta seu contexto histórico, cultural e redacional, analisa-o literariamente, mostra sua estrutura, resume-o, aborda seus grandes temas, estuda sua recepção, influência e atualidade, e fornece um léxico de lugares e pessoas, tabelas cronológicas, mapas e bibliografia.

O original foi publicado em francês em 2016.

Luc Devillers, nascido em 1954, foi professor na Escola Bíblica de Jerusalém (1995-2008), presidente da Associação francesa católica para o estudo da Bíblia (2009-2014) e professor de Novo Testamento na Universidade de Friburgo, Suíça (2009-2020).

Ezequiel no ABC da Bíblia

DI PEDE, E. Ezequiel. São Paulo: Loyola, 2024, 140 p. – ISBN 9786555043976.

Sobre a coleção ABC da Bíblia:DI PEDE, E. Ezequiel. São Paulo: Loyola, 2024, 140 p.

Trata-se de uma verdadeira “caixa de ferramentas” que ajudará o leitor a fazer uma leitura sistemática e esclarecida dos livros da Bíblia. Cada volume desta coleção identifica o autor, ou autores, de determinado livro bíblico ou de um conjunto de escritos, apresenta seu contexto histórico, cultural e redacional, analisa-o literariamente, mostra sua estrutura, resume-o, aborda seus grandes temas, estuda sua recepção, influência e atualidade, e fornece um léxico de lugares e pessoas, tabelas cronológicas, mapas e bibliografia.

O original foi publicado em francês em 2021.

Elena Di Pede é professora no Departamento de Teologia da Universidade de Lorraine, França, onde ensina Exegese do Primeiro Testamento.

Patriarcas? Que patriarcas? Lester Grabbe explica 2

Estou lendo o livo de GRABBE, L. L. The Dawn of Israel: History of the Land of Canaan in the Second Millennium BCE. London: T&T Clark, 2022, 320 p. – ISBN 9780567663214.

Há uma apresentação do livro em Canaã no segundo milênio a.C., post publicado no Observatório Bíblico em 09.05.2022.GRABBE, L. L. The Dawn of Israel: History of the Land of Canaan in the Second Millennium BCE. London: T&T Clark, 2022, 320 p.

Na Parte II, sobre a Idade do Bronze Médio (ca. 2000-1600 a.C.), no capítulo 4, Lester L. Grabbe aborda a história da Síria e da Palestina. Ele diz na conclusão deste capítulo:

Este capítulo concentrou-se na Síria e na Palestina durante a Idade do Bronze Médio. Este foi um período importante para se considerar a ancestralidade dos israelitas, especialmente porque o texto bíblico, assim como alguns estudiosos, situa o conteúdo das narrativas patriarcais (Gênesis 11–50) no início do segundo milênio a.C. Mas, antes de analisar o material bíblico, seria apropriado um panorama da história da Síria-Palestina, conforme conhecida a partir de registros contemporâneos.

O capítulo 4 tem o seguinte estrutura:

4.1. Fontes

4.2. História da Síria
4.2.1. Ugarit
4.2.2. Biblos (Cubla)
4.2.3. Amoritas
4.2.4. Yamhad

4.3. História da Palestina/Canaã
4.3.1. Arqueologia
4.3.2. Referências textuais egípcias
4.3.3. Os hicsos

4.4. A questão dos patriarcas

4.5. Conclusões

Vou abordar aqui os itens sobre a questão dos patriarcas e as conclusões.

 

O texto foi publicado em 2 posts:

Patriarcas? Que patriarcas? Lester Grabbe explica 1

Patriarcas? Que patriarcas? Lester Grabbe explica 2

A bibliografia, que está no final deste post, é apenas a citada pelo autor neste item. As notas assinaladas com * são minhas.

Reestruturei o texto em formato de perguntas e respostas.

 

E a história de José?
. O principal estudo continua sendo o de D. B. Redford (1970a). Ele investigou os paralelos e referências egípcias no relato. Alguns desses elementos ocorrem já no Reino Médio [2040-1640 a.C.], mas os potencialmente antigos também aparecem em períodos posteriores da história egípcia. Além disso, vários outros só são encontrados tardiamente, nos períodos saíta [ca. 664–525 a.C.] e posteriores. Isso sugere que a narrativa foi escrita entre os séculos XVII e V a.C. (Redford 1970a: 252–3; cf. também Schipper 2018). A. Soggin (2000) a dataria ainda mais tarde. Alguns exemplos de elementos tardios ou anacrônicos incluem:

1. Gênesis 41, 43 [(O Faraó fez José) subir sobre o melhor carro que havia depois do seu, e gritava-se diante dele: “Abrec”. Assim foi ele preposto a toda a terra do Egito]: Acredita-se que Abrec (אברך) seja derivado da palavra acádia abarakku, um dos significados da qual é “administrador-chefe de uma casa privada ou real” (CAD, vol. 1 A, parte I, 32-35), às vezes escrita (ou confundida com) abriqqu; cf. Croatto 1966; Soggin 2000: 166; Redford 1970a: 226–8). Existe também a palavra fenícia הברך (Karatepe Ai 1 [discutida em SSI 3:56]), que alguns interpretam como ‘vizir’ ou similar, e que também pode ser um empréstimo do acádio. Embora palavras egípcias tenham sido propostas, esta parece ser a solução mais provável. Mas é improvável que funcionários egípcios estivessem usando uma palavra acádia no Reino Médio.

2. O nome Potifar (פוטיפרDonald Bruce Redford (1934-2024)) é claramente de origem egípcia; significa ‘aquele a quem Rá dá’ (Pʒ-di̓-pʒ-R‘) e é atestado desde o período saíta até o ptolomaico (Redford 1970a: 228–31).

3. Gênesis 40,15: ‘terra dos hebreus [העברים]’ como designação para a Palestina não teria sido usado no início do segundo milênio, especialmente considerando a origem do termo. Naturalmente, tal uso não ocorre em textos egípcios do Médio e Novo Reinos. Aparentemente, ocorre em textos dos períodos saíta, persa e ptolomaico (Redford 1970a: 201–3).

4. Gênesis 41,42: ‘colar de ouro em volta do seu pescoço’ (Schipper 2011; Redford 1970a: 208–26). A expressão egípcia ‘ouro de honra’ (nbw n[.y] hsw.t) é atestada desde o Reino Novo. O que é significativo no exemplo de José, contudo, é que um estrangeiro é investido de honra e recebe uma posição administrativa. Isso não é conhecido no Reino Novo ou em períodos anteriores, mas Schipper (2011: 334–6) cita um exemplo na época de Psamético I (século VII a.C.) em que um estrangeiro (um grego) recebe um “colar de ouro” (ΨΙΛΟΝ ΤΕ ΧΡΥΣΕΟΝ) para o pescoço e o comando de uma cidade.

5. Cabe mencionar a datação linguística. J. Joosten (2019) apontou que a história de José está em Hebraico Bíblico Padrão (também chamado de Hebraico Bíblico Clássico) e não em Hebraico Bíblico Tardio, sugerindo que a história seja pré-exílica*. É importante notar que a atribuição do livro aos períodos saíta e persa, feita por Redford, permite que a história seja datada para incluir o período do Hebraico Bíblico Padrão, mesmo de acordo com a datação de Joosten (que considera que o Hebraico Bíblico Padrão foi usado até cerca de 500 a.C., enquanto o Hebraico Bíblico Tardio foi estabelecido em meados do século V [Joosten 2005]). Isso não permitiria uma data persa posterior ou ptolomaica, mas os argumentos de Redford parecem permitir uma data entre 700 e 500 a.C.; parece que o livro não precisa ser pré-exílico, mesmo pelos padrões de Joosten, e a datação de Redford não é descartada por considerações linguísticas.

Há muitos anacronismos nas narrativas patriarcais do Gênesis?
. As narrativas patriarcais em Gênesis, em sua forma atual, refletem uma época posterior, com muitos detalhes anacrônicos: os filisteus na terra muito antes da migração dos “povos do mar”**; os arameus (Gênesis 22,21; 24,10), que são atestados pela primeira vez por volta de 1100 a.C. em uma inscrição de Tiglat-Pileser I; os caldeus (Gênesis 11,28), que são atestados depois de 1000 a.C., mas são principalmente importantes no período neobabilônico (Ramsey 1981: 40-42) – enquanto a migração de Ur apresenta um paralelo interessante com o retorno do exílio. Houve certo debate sobre a presença de camelos no Gênesis: Albright argumentou que isso era anacrônico e fazia de Abraão um caravaneiro de jumentos, mas Gordon e alguns conservadores alegaram haver evidências da domesticação de camelos em uma época anterior. As evidências mais recentes da domesticação de camelos na Palestina, no entanto, parecem não ser anteriores à Idade do Ferro, com a concentração de ossos em Tell Jemmeh, aparentemente um centro de caravanas, datando do século VII a.C. (Sapir-Hen/Ben-Yosef 2013; Wapnish 1997; Zarins 1978; Na’aman 1994c: 225–7; Finkelstein/Silberman 2001: 37). A pesquisa mais recente conclui o seguinte: “Os dados atuais dos sítios de fundição de cobre do vale do Arabá permitem-nos identificar com maior precisão a introdução de camelos domésticos no Levante meridional, com base em contextos estratigráficos associados a um extenso conjunto de datações por radiocarbono. Os dados indicam que este evento ocorreu não antes do último terço do século X a.C. e, muito provavelmente, durante esse período… As observações do vale do Arabá estão de acordo com os relatos do Neguev e das terras povoadas, que demonstram uma alta frequência de restos de camelos apenas a partir da Idade do Ferro IIA”. [Sapir-Hen/Ben-Yosef 2013: 282–3]

 

Conclusões

Ugarit já era uma importante cidade-estado costeira no terceiro milênio a.C.?
. Este capítulo concentrou-se na Síria e na Palestina durante a Idade do Bronze Médio. Este foi um período importante para se considerar a ancestralidade dos israelitas, especialmente porque o texto bíblico, assim como alguns estudiosos, situa o conteúdo das narrativas patriarcais (Gênesis 11–50) no início do segundo milênio a.C. Mas, antes de analisar o material bíblico, seria apropriado um panorama da história da Síria-Palestina, conforme conhecida por registros contemporâneos. No norte da Síria, a cidade de Ugarit era uma importante cidade-estado costeira já no terceiro milênio a.C., embora saibamos pouco sobre ela. Mais informações estão disponíveis na Idade do Bronze Médio, mas os registros contemporâneos são escassos. A maior parte desse período parece ter estado sob o domínio de Yamhad. A única lista possível de reis provém de um texto da Idade do Bronze Recente, e não há consenso sobre uma sequência de reis para a Idade do Bronze Médio. O que sabemos sobre Ugarit nessa época provém principalmente de textos cuneiformes de Mari e similares.

Por que os amoritas permanecem um enigma?
. Um grupo importante, porém um tanto enigmático, eram os amoritas. Eles já são mencionados em textos de Ebla e da época da III dinastia de Ur e foram claramenteBabilônia, Yamhad e Qatna ca. 1750 a.C. importantes no período mesopotâmico antigo. As referências parecem ser de dois tipos: referências a tribos (principalmente) pastoris nas estepes de ambos os lados do Eufrates e na região de Jebel Bishri, que são frequentemente apresentadas como povos bárbaros e incultos; mas muitas referências são a pessoas que viviam em cidades sumérias e acádias e foram assimiladas à cultura urbana mesopotâmica. Em alguns casos, são conhecidos apenas por seus nomes, não por serem rotulados como amoritas. Grande parte da informação, especialmente sobre sua língua, provém dos nomes amoritas, além de algumas palavras incorporadas em textos cuneiformes. Embora essa língua tenha sido frequentemente designada como semítico do noroeste, a análise mais recente afirma que não há dados suficientes para classificá-la: ela tem algumas características em comum com o semítico do noroeste, mas outras importantes são mais semelhantes ao semítico do leste (o acádio). A antiga hipótese de que houve uma migração em massa de amoritas para o sul, em direção ao sul da Síria e à Palestina, foi em grande parte abandonada. Assim, os amoritas permanecem um enigma, e sua relevância para as origens israelitas é muito incerta.

Yamhad foi um importante estado no norte da Síria?
. Yamhad foi um importante estado no norte da Síria durante alguns séculos da Idade do Bronze Médio. Com capital em Alepo, possuía diversos estados menores sob seu domínio, incluindo Alalakh e, em alguns períodos, Carquemis e Ugarit. Enfrentou a oposição do estado vizinho de Qatna, mas principalmente do rei Shamshi-Adad I da Assíria. Contudo, contava com aliados em Eshnunna e Babilônia e sobreviveu aos ataques de Shamshi-Adad. Enquanto Yamhad havia sido combatida por Mari, com a morte de Shamshi-Adad, o novo governante Zimri-Lim formou uma aliança com Yamhad. Conhecemos os nomes de diversos governantes ao longo de 200 anos. Por volta de 1600 a.C., Mursili I de Hatti pôs fim ao reino sírio.

E a Palestina?
Como de costume, a Palestina é conhecida principalmente por meio da arqueologia, embora textos egípcios (incluindo os Textos de Execração) nos forneçam alguns nomes de cidades em Canaã. O período da Idade do Bronze Médio foi marcado por intensa urbanização, com a população urbana estimada em cerca de uma vez e meia maior que a rural. Muitas localidades eram fortificadas. Houve um aumento significativo de assentamentos nas regiões montanhosas, especialmente durante a Idade do Bronze Médio I, embora a região central das montanhas tenha sido povoada principalmente durante as Idades do Bronze Médio II e III. Grandes sítios arqueológicos incluem nomes conhecidos como Siquém, Silo, Hebron e Jerusalém. Hazor foi um importante entroncamento comercial com a Síria e até mesmo com a Mesopotâmia. O comércio com o Egito também foi importante, especialmente com Biblos inicialmente, mas gradualmente se deslocou para o sul. A Idade do Bronze Médio terminou com um colapso generalizado.

O que sabemos sobre os hicsos?
. A 15ª dinastia do Segundo Período Intermediário foi a dinastia dos hicsos, embora alguns argumentem que a 14ª dinastia também era composta por governantes, em parte ou totalmente, de origem asiática. O argumento de que os hicsos formaram uma força invasora que estabeleceu seu domínio pela violência está hoje em grande parte abandonado. Estudos genéticos e arqueológicos sugerem que o povo que compunha a população dos hicsos em torno de sua capital, Aváris, vivia ali há algum tempo, por várias gerações. Eles não tinham uma única origem, mas parecem ser um grupo de asiáticos ocidentais que viveram no Egito por vários séculos antes de estabelecerem domínio sobre uma parte do delta do Nilo. Há relatos de migrantes asiáticos que se estabeleceram no Egito, temporária ou permanentemente, desde o terceiro milênio a.C. No entanto, sua cultura e religião, assim como sua genética, indicam uma conexão com o Levante. Sugere-se que a elite tinha ligações principalmente com o norte do Levante.

Baixo Egito, onde está localizada a capital dos hicos, AvarisQual foi o fim dos hicsos?
. Após cerca de um século de domínio, a dinastia dos hicsos chegou ao fim. Um dos últimos reis da XVII Dinastia pode ter sido morto lutando contra os hicsos, mas o último rei da dinastia avançou ao tomar Aváris, enquanto o primeiro rei da XVIII Dinastia os perseguiu até Sharuhen (talvez Tell el-‘Ajjul ou Tel Haror/Tell Abû Hureirah). Na verdade, a maior parte da população provavelmente permaneceu onde estava, com apenas alguns membros da elite fugindo para Canaã, mas mesmo lá foram atacados e derrotados. Depois disso, não temos mais informações, mas presume-se que simplesmente se reintegraram à população de Canaã. É possível que alguns deles estejam entre os ancestrais de Israel, mas não temos como saber.

Em resumo, o que sabemos sobre os patriarcas descritos no Gênesis?
. A questão, finalmente, é se os ancestrais israelitas podem ser encontrados nas histórias sobre os patriarcas em Gênesis. Nos estudos acadêmicos de língua inglesa, era comum durante as décadas de 1950 e 1960 atribuir “historicidade substancial” às narrativas patriarcais. Isso deixou de ser verdade devido a uma série de estudos iniciados em meados da década de 1970. É verdade que houve um breve momento de euforia quando a decifração inicial dos textos de Ebla levou à alegação de que paralelos notáveis ​​com os eventos do Gênesis poderiam ser encontrados nos arquivos de Ebla. Mas essas alegações se revelaram ilusões prematuras, e com um estudo mais cuidadoso, descobriu-se que os supostos paralelos simplesmente não existiam. Diversas considerações agora minam qualquer alegação de historicidade substancial: as narrativas do Gênesis parecem refletir o século VIII a.C. ou algo próximo disso; a história de José parece se passar no período saítico (séculos VII-VI a.C.); vários dos supostos ancestrais e parentes de Abraão são, na verdade, nomes de cidades e vilas; os melhores paralelos para costumes e práticas nas histórias parecem ser de épocas posteriores, incluindo o período neobabilônico; e a arqueologia não encontrou evidências de que os locais mencionados nas histórias tenham sido povoados na Idade do Bronze Médio, enquanto alguns dos locais que se sabe terem sido habitados naquela época não são mencionados. Para a Idade do Bronze Médio, portanto, há muito pouco que possa ser considerado parte da ancestralidade israelita. As histórias dos patriarcas parecem ter sido compostas muito tarde (século VIII a.C. ou posterior) e demonstram pouca evidência de conhecimento do contexto do início do segundo milênio a.C. O que é mais promissor é que povos “asiáticos” migraram para o delta do Nilo ao longo de vários séculos, e uma dinastia de hicsos chegou a governar a região por cerca de um século. É bem possível que alguns dos ancestrais de Israel estivessem entre esses povos, mas além disso não podemos ir.

 

* Sobre a divisão do hebraico bíblico em estágios, cf. Quatro fases do hebraico bíblico, post publicado no Observatório Bíblico em 27.02.2024.

** Sobre os “povos do mar”, cf. A crise da Idade do Bronze Recente e o fenômeno dos “povos do mar”, item 2.2 da História de Israel, publicada na Ayrton’s Biblical Page – Última atualização: 19.07.2025 e 1177 a.C.: o ano em que a civilização entrou em colapso, post publicado no Observatório Bíblico em 09.07.2019.

 

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Patriarcas? Que patriarcas? Lester Grabbe explica 1

Estou lendo o livo de GRABBE, L. L. The Dawn of Israel: History of the Land of Canaan in the Second Millennium BCE. London: T&T Clark, 2022, 320 p. – ISBN 9780567663214.

Há uma apresentação do livro em Canaã no segundo milênio a.C., post publicado no Observatório Bíblico em 09.05.2022.GRABBE, L. L. The Dawn of Israel: History of the Land of Canaan in the Second Millennium BCE. London: T&T Clark, 2022, 320 p.

Na Parte II, sobre a Idade do Bronze Médio (ca. 2000-1600 a.C.), no capítulo 4, Lester L. Grabbe aborda a história da Síria e da Palestina. Ele diz na conclusão deste capítulo:

Este capítulo concentrou-se na Síria e na Palestina durante a Idade do Bronze Médio. Este foi um período importante para se considerar a ancestralidade dos israelitas, especialmente porque o texto bíblico, assim como alguns estudiosos, situa o conteúdo das narrativas patriarcais (Gênesis 11–50) no início do segundo milênio a.C. Mas, antes de analisar o material bíblico, seria apropriado um panorama da história da Síria-Palestina, conforme conhecida a partir de registros contemporâneos.

O capítulo 4 tem o seguinte estrutura:

4.1. Fontes

4.2. História da Síria
4.2.1. Ugarit
4.2.2. Biblos (Cubla)
4.2.3. Amoritas
4.2.4. Yamhad

4.3. História da Palestina/Canaã
4.3.1. Arqueologia
4.3.2. Referências textuais egípcias
4.3.3. Os hicsos

4.4. A questão dos patriarcas

4.5. Conclusões

Vou abordar aqui os itens sobre a questão dos patriarcas e as conclusões.

 

O texto foi publicado em 2 posts:

Patriarcas? Que patriarcas? Lester Grabbe explica 1

Patriarcas? Que patriarcas? Lester Grabbe explica 2

A bibliografia, que está no final do segundo post, é apenas a citada pelo autor neste item. As notas assinaladas com * são minhas.

Reestruturei o texto em formato de perguntas e respostas.

 

A questão dos patriarcas

Por que é importante discutir as narrativas patriarcais?
. Como alguns acreditam que a história de Israel começa a ser registrada a partir de Abraão e dos patriarcas, uma discussão sobre as narrativas patriarcais se faz necessária. Uma discussão completa e adequada exigiria um livro inteiro – aliás, livros inteiros já foram dedicados ao assunto –, mas podemos apresentar aqui um esboço para demonstrar que a confiança em encontrar história em Gênesis 11–50 é equivocada. Os estudiosos tendem há muito tempo a considerar os primeiros capítulos do Gênesis – as histórias da criação, de Adão e Eva, do dilúvio, da torre de Babel – como lendas. Contudo, repentinamente, ao chegar em Gn 11,27, tornou-se comum até mesmo entre os especialistas enxergar ali o início da historiografia israelita (que então atravessaria o Pentateuco e iria além, até o final de 2 Reis). Alguns ainda mantêm essa visão, embora isso seja hoje uma grande exceção.

A historicidade das narrativas patriarcais era defendida pelo Movimento da Teologia Bíblica?
. Para compreender a evolução do pensamento sobre o assunto, observe que essa perspectiva foi fundamental para o que se convencionou chamar de Movimento da Teologia Bíblica (descrito por B. Childs [1970], cujo estudo, em certo sentido, também escreveu o epitáfio do movimento). Não se tratava de uma leitura fundamentalista, mas um dos pilares centrais do Movimento da Teologia Bíblica era a “revelação de Deus na história”, o que significava que a Bíblia deveria ser “levada a sério” como história. Isso incluía o chamado período patriarcal. Houve, naturalmente, um debate, com os estudiosos norte-americanos tendendo a dar mais crédito às narrativas, enquanto os europeus se mostravam mais céticos, mas uma variedade de pontos de vista foi defendida em ambos os lados do Atlântico.

Membros importantes da “escola de Albright” pertenciam ao Movimento da Teologia Bíblica?
. O Movimento da TeWilliam Foxwell Albright (1891-1971)ologia Bíblica foi abraçado por estudiosos de diversas tradições religiosas, mas alguns dos representantes mais proeminentes pertenciam à “escola de Albright”, notadamente G. E. Wright (cf. 1950, 1952). Wright não era fundamentalista — aliás, Albright também não era —, mas a linguagem que utilizavam por vezes parecia defender uma interpretação literal da Bíblia, o que tendia a ser bem recebido pelos cristãos conservadores. Acontece que, apesar da linguagem, Wright e outros não acreditavam que os “atos de Deus” envolvessem milagres literais, como o mar se abrindo diante dos israelitas para que pudessem atravessá-lo a pé enxuto. Contudo, uma versão do “período patriarcal”, que concebia algum tipo de início histórico com Gn 11,27, foi aceita por muitos estudiosos nas décadas de 1950, 1960 e 1970.

Mas em que época os albrightianos colocavam os patriarcas?
. Um dos problemas imediatamente encontrados foi definir a que período histórico as narrativas patriarcais deveriam se referir. A escola de Albright parecia seguir uma versão da cronologia intrabíblica e situava Abraão por volta de 2000 a.C., o que faria o “período patriarcal” coincidir aproximadamente com a Idade do Bronze Médio. Mas, considerando a falta de confiabilidade dos números bíblicos em Gênesis, não havia razão para seguir a cronologia bíblica, e outros que davam crédito às narrativas patriarcais como se fossem de alguma forma história, contentavam-se em datá-las em uma época diferente. De fato, vários outros estudiosos dataram os patriarcas muitos séculos depois de Albright e Bright: no final da Idade do Bronze Médio, na Idade do Bronze Recente e até mesmo na Idade do Ferro I (cf. Dever 1977: 93–6; Clark 1977: 143–8).

Alguns exemplos?
. Por exemplo, O. Eißfeldt e H. H. Rowley defenderam o século XV a.C. A. Alt e seu aluno M. Noth seguiram o princípio de Wellhausen de que o conteúdo dos textos refletia a história da época em que foram compostos. O interesse de Alt nos textos patriarcais residia principalmente na religião que ali poderia estar refletida (cf. Alt 1966). Talvez a datação mais exótica tenha sido a de C. H. Gordon, que argumentou que Abraão era um “príncipe mercador; um tamkârum do reino hitita” (Gordon 1958: 31; 1962), que viveu no período de Amarna (século XIV a.C.), para o qual encontrou paralelos nos textos do antigo Oriente Médio.

As conclusões de John Bright são um bom exemplo das posições albrightianas?
. A escola de Albright foi particularmente eficaz em promover a ideia de que as tradições patriarcais continham “historicidade substancial” de cerca de 2000 a.C. ABRIGHT, J. História de Israel. Edição revista e ampliada a partir da 4. edição original. 7. ed. São Paulo: Paulus, 2003, 640 p. seguinte declaração de J. Bright (1980: 77) é exemplar: “Quando as tradições são examinadas à luz da evidência, a primeira afirmação a ser feita é a que já foi sugerida, isto é, que a história dos patriarcas enquadra-se autenticamente no ambiente do segundo milênio, especificamente no ambiente dos séculos descritos no capítulo precedente [séculos XX a XVII a.C.], e não no ambiente de qualquer outro período posterior. Isso pode ser registrado como um fato histórico. A evidência é tão grande que não temos nenhuma necessidade de reconsiderarmos o assunto*”.

Mas este consenso foi rompido na década de 1970?
. Contudo, esse consenso começou a ruir na década de 1970, com a publicação de dois estudos independentes, com abordagens bastante diferentes, que, no entanto, chegaram a conclusões semelhantes. Tratava-se das monografias de Thomas L. Thompson (1974) e John Van Seters (1975). Eles argumentaram que o conteúdo das narrativas patriarcais bíblicas estava repleto de dados anacrônicos e dificilmente poderia representar a história genuína do início do segundo milênio a.C. Albright havia falecido em 1971 e não estava mais presente para dominar o debate, e os estudos de Thompson e Van Seters tiveram um impacto significativo**.

Entretanto os arquivos de Ebla deram novo fôlego à historicidade das narrativas patriarcais?
. Contudo, pouco depois de sua publicação, uma nova descoberta pareceu dar considerável apoio à visão mais conservadora. Tratava-se da descoberta e decifração inicial dos arquivos de Ebla em Tell Mardikh, na Síria, a partir de 1975***. Logo após a descoberta dos textos, o epigrafista G. Pettinato começou a conceder entrevistas – às vezes a outros estudiosos, mas também à imprensa popular – nas quais apresentou paralelos surpreendentes entre os textos de Ebla e os capítulos patriarcais do Gênesis. Esses paralelos foram avidamente aproveitados por alguns para sustentar conclusões conservadoras sobre a historicidade das narrativas patriarcais. Uma das afirmações mais provocativas foi a de que não apenas os nomes de Sodoma e Gomorra, mas também os de outras cidades da planície foram encontrados em uma única tabuinha de Ebla, listados na mesma ordem que na Bíblia (por exemplo, New York Times, 16 de janeiro de 1979; veja também Archi [1979: 562–3] e as referências ali citadas).

Baseado na interpretação de Giovanni Pettinato, David Noel Freedman escreveu um artigo, em 1978, atacando Thomas L. Thompson e John Van Seters?
THOMPSON, T. L. The Historicity of the Patriarchal Narratives: The Quest for the Historical Abraham, Berlin: Walter de Gruyter, [1974] 2016, 402 p.. Com base no que (supostamente) Pettinato lhe contou, D. N. Freedman (1978) escreveu um artigo bastante polêmico no qual atacou Thompson e Van Seters. Nele, referiu-se às “descobertas arqueológicas recentes” que, segundo ele, corroboravam a historicidade básica das narrativas patriarcais, “enfraquecendo, de forma eficaz, o ceticismo e a sofística predominantes da maioria dos estudiosos continentais e americanos” (Freedman 1978: 144). Embora admita que as narrativas contenham uma “mistura do lendário e do mítico”, elas nos fornecem informações que nos permitem afirmar algo sobre as datas (pelo menos de algumas delas), os lugares de onde vieram e para onde foram, seu trabalho e até mesmo sobre seu legado de fé e prática (Freedman 1978: 145). Ele prosseguiu mencionando uma tabuinha com os nomes das cinco cidades da planície – na mesma ordem da Bíblia – embora admitisse não ter visto a tabuinha e estar se baseando em uma conversa com Pettinato. Mas, com base nisso, concluiu que Thompson, Van Seters e outros que situaram as narrativas no primeiro milênio a.C. haviam se equivocado – elas deveriam agora ser situadas no início da Idade do Bronze, o terceiro milênio a.C.

Mas Giovanni Pettinato concluiu que estava equivocado em sua interpretação dos textos de Ebla?
. Mas, justamente quando o artigo estava sendo impresso, Freedman recebeu uma notícia perturbadora: Pettinato aparentemente havia se retratado de algumas de suas identificações. O artigo de Freedman foi publicado como ele o havia escrito, mas um texto introdutório chamou a atenção dos leitores para a suposta retratação de Pettinato. O resultado foi que a defesa da historicidade, baseada no texto bíblico, foi essencialmente anulada. Levou algum tempo para a situação se estabilizar, mas, em poucos anos, o uso de Ebla como defesa das narrativas patriarcais foi silenciado. Quando o livro de Pettinato (1991) foi publicado em inglês, não havia menção a Sodoma e Gomorra ou às cidades da planície. Uma série de afirmações sobre Ebla e a Bíblia simplesmente desapareceram.

Sobre este episódio, o que disse o assiriólogo R. Biggs em 1979?
. O Washington Post (9 de dezembro de 1979) entrevistou o assiriólogo R. Biggs sobre as tabuinhas de Ebla quase na mesma época em que o artigo de Freedman foi publicado: “Na minha opinião, paralelos com a Bíblia estão completamente fora de questão neste momento”, disse Biggs em um encontro de jornalistas científicos patrocinado pelo Conselho para o Avanço da Escrita Científica. “As pessoas que buscam nas tabuinhas de Ebla provas da autenticidade da Bíblia ficarão profundamente decepcionadas”. “Pelo menos um renomado estudioso bíblico considerou a interpretação inicial como evidência da realidade histórica das duas cidades [Sodoma e Gomorra]”, disse Biggs. “Mas, infelizmente, descobriu-se que correções na leitura dos nomes eliminaram os nomes dos patriarcas e que, em todo caso, eles não constavam na mesma tabuinha que o que se supunha ser Sodoma e Gomorra.” Atualmente, ainda existe um interesse e debate vivos sobre Ebla entre os estudiosos, mas raramente os relacionam ao texto bíblico. Ebla deixou de aparecer nas discussões acadêmicas padrão sobre Gênesis.

Nenhum dos patriarcas é mencionado em fontes existentes além do Gênesis?
. O principal problema em encontrar história na “era patriarcal” é que a única informação preservada é aquela encontrada no texto do Gênesis – não há confirmaçãoVAN SETERS, J. Abraham in History and Tradition. Brattleboro, VT: Echo Point Books & Media, 2014, 350 p. externa direta, seja epigráfica ou literária. Nenhum dos patriarcas foi atestado em fontes existentes. Isso significa que os argumentos a favor da historicidade geralmente tentam apresentar uma justificativa circunstancial para considerar as narrativas do Gênesis como contendo dados históricos. Podemos agora examinar brevemente alguns dos principais argumentos usados ​​para apoiar a historicidade das narrativas patriarcais ou, inversamente, argumentos e dados que minam essa alegação de historicidade. Este é apenas um resumo, mas mais informações podem ser encontradas em Ramsey (1981) e em alguns dos outros estudos citados acima. Como já observado, poucos estão dispostos a defender a historicidade das histórias patriarcais devido às novas evidências e argumentos que surgiram desde 1970.

Há ou não registros arqueológicos das localidades associadas pelo Gênesis aos patriarcas?
. A arqueologia às vezes é usada em apoio à “historicidade substancial”, mas o estudo mais recente é predominantemente negativo. Os principais centros da Transjordânia e do Neguev associados aos patriarcas no texto carecem de vestígios do início da Idade do Ferro I. No importante sítio de Bersabeia (Gênesis 21-22), não há vestígios da Idade do Ferro I, e as investigações sobre as “cidades da planície” (Gênesis 19, 24-29) também não encontraram nada. Por um lado, muitas das principais cidades que se sabe terem existido durante a Idade do Ferro I estão ausentes do texto; por outro lado, não se conhece nenhum período no início ou meados do segundo milênio a.C. em que todos os sítios mencionados nas narrativas patriarcais tenham sido povoados: foi somente durante a Idade do Ferro I que esse povoamento completo desses sítios ocorreu.

Qual é a posição de John Bright sobre a data dos patriarcas?
A cronologia é uma questão importante: se os patriarcas são históricos, quando viveram? Se as narrativas são confiáveis, qual é o período em que são confiáveis? Alguns autores agem como se a cronologia pudesse ser tomada como certa, mas não pode. Tendo afirmado o quão bem as narrativas se encaixam no início do segundo milênio, Bright prosseguiu admitindo: “Concedendo-se tudo o que ficou acima escrito, será que a evidência nos permite fixar a data dos patriarcas, com maior precisão? Infelizmente, não permite. O mais que se pode dizer, embora seja muito desconcertante, é que os acontecimentos refletidos em Gn 12 a 50, enquadram-se muito bem no período já descrito, isto é, mais ou menos entre o vigésimo e o décimo sétimo séculos. Porém nos falta a evidência para fixar os patriarcas em algum século (ou séculos) em particular e temos, além disso, a possibilidade de que as histórias dos patriarcas combinam a memória de eventos tomados de lugares distantes no tempo [* o. c., p. 112-113].

Modo de vida nômade?
. Outrora se supunha que os patriarcas eram nômades e que isso estava exclusivamente em consonância com o contexto do início do segundo milênio a.C. (Ramsey 1981: 34-36). Muita discussão ocorreu nas últimas décadas, minando esse argumento.

E os nomes dos patriarcas?
John Van Seters (1935-2025). Muitos paralelos podem ser encontrados com os nomes nas narrativas patriarcais. Bright afirmou que eles se encaixavam no início do segundo milênio, mas vários de seus exemplos, na verdade, datam de um período posterior aos primeiros séculos do segundo milênio. Os nomes não podem ser prova, é claro, porque os nomes patriarcais podem ser encontrados na lista telefônica de quase qualquer grande cidade ocidental hoje; no entanto, é interessante notar que vários dos nomes não reaparecem na tradição israelita até o período greco-romano. Mas, como Thompson (1974: 35) aponta, a maioria dos nomes tem uma estrutura típica do semítico do noroeste. Alguns dos nomes dos ancestrais de Abraão em Gênesis 11, 10-32 são, na verdade, nomes topográficos da região de Harã, como se sabe por textos mesopotâmicos (Schneider 1952): Faleg, Sarug, Nacor, Taré, Arã são nomes de lugares, não de pessoas.

Foram encontrados vários paralelos entre os costumes de Nuzi e o mundo patriarcal?
. Os costumes têm sido uma das principais evidências. Um bom exemplo disso é o comentário de E. A. Speiser sobre o livro do Gênesis (1964). Baseando-se amplamente nos textos de Nuzi, ele os utilizou para ilustrar muitas passagens das narrativas patriarcais. Contudo, em alguns momentos, seu argumento era de que o costume bíblico podia ser encontrado nos textos de Nuzi, mas que o escritor bíblico não o compreendia – uma maneira bastante estranha de argumentar em favor da autenticidade e confiabilidade! Por exemplo, ele cita três exemplos específicos em que argumenta que o evento em si não era compreendido pelo escritor bíblico, que distorceu a situação (Speiser 1964: xl–xliii). Na verdade, muitos dos supostos costumes de Nuzi não são paralelos às passagens bíblicas, ou então o texto de Nuzi ou o texto bíblico foram mal interpretados ou deturpados: por exemplo, a ideia de que Eliezer era herdeiro por ser filho adotivo de Abraão, mas não herdaria após o nascimento de Isaac, era, na verdade, contrária ao costume de Nuzi (Donner 1969; Thompson 1974: 203-30). O fato de Abraão e Isaac terem apresentado suas esposas como irmãs (Gênesis 12,10-20; 20,1-18; 26,1-14) era interpretado como reflexo de um costume hurrita de adotar a esposa como irmã. O texto bíblico, na verdade, não sugere tal adoção (Speiser argumentou que o autor de Gênesis já não compreendia esse costume), mas a prática de Nuzi foi, de fato, mal interpretada por alguns estudiosos modernos (Greengus 1975; Eichler 1977).

Gênesis 23 teria paralelo na Nuzi do segundo milênio?
. Gênesis 23 narra a história de como Abraão comprou uma gruta em Hebron para sepultar Sara, sua falecida esposa. Argumentou-se que isso refletia um conhLester L. Grabbe (nascido em 1945)ecimento profundo dos costumes e práticas de Nuzi. No entanto, especialistas não consideraram esses argumentos convincentes. H. A. Hoffner (1969: 33-7; 1973: 214) contesta os supostos paralelos com Nuzi e conclui que “os costumes em transações imobiliárias e direitos feudais [alegados para Gênesis] são diferentes de tudo o que se conhece entre os hititas da Ásia Menor”. O melhor paralelo para Gênesis 23 parece, na verdade, vir do período neobabilônico, aproximadamente um milênio depois dos supostos paralelos com Nuzi (Tucker 1966; Petschow 1965; cf. Hoffner 1969: 34-7). Em suma, nenhum dos supostos costumes que demonstrariam um contexto do início do segundo milênio para as histórias patriarcais parece ter resistido a uma análise cuidadosa.

As referências aos patriarcas aparecem em textos bíblicos tardios?
. Com exceção de Jacó/Israel, as referências aos patriarcas são atestadas na tradição israelita apenas tardiamente. Além dos textos de Gênesis, Abraão (1 Reis 13,36; 2 Reis 13,23; Isaías 29,22; Miqueias 7,20) e Isaac (1 Reis 18,36; 2 Reis 13,23; Amós 7,9.16; Jeremias 33,26) são pouco mencionados. R. E. Clements (1974) disse o seguinte: “Nos profetas pré-exílicos, não há referência autêntica às tradições de Abraão. Miqueias 7,20 é um oráculo pós-exílico, assim como provavelmente Isaías 29,22” (TDOT 1:57).

 

* A citação foi feita a partir da tradução brasileira do livro: BRIGHT, J. História de Israel. Edição revista e ampliada a partir da 4. edição original. 7. ed. São Paulo: Paulus, 2003, p. 106.

** Cf. sobre isso: DA SILVA, A. J. Novos paradigmas no estudo do Pentateuco, artigo publicado na Ayrton’s Biblical Page em 2007; Idem, Os três revisionistas do Pentateuco, post publicado no Observatório Bíblico em 25.07.2024.

*** Sobre Ebla e a importância dos arquivos ali encontrados, cf. O mundo de Ebla 1, post publicado no Observatório Bíblico em 19.09.2025.

Judaísmo antigo e cristianismo: raízes comuns e separação de caminhos

Um artigo

The Beginnings of Christianity as an Integral Part of Early Judaism – By Markus Tiwald – The Bible and Interpretation – January 2026

O campo de pesquisa mais instigante na exegese contemporânea é, provavelmente, a questão da chamada “separação entre judeus e cristãos”. Certamente, essaMarkus Tiwald (nascido em 1966) expressão é um termo impróprio. No primeiro século, “judeus” e “cristãos” ainda não eram entidades separadas, e há um debate em andamento sobre a partir de que ponto podemos falar em “judeus” e “cristãos”. Em segundo lugar, essa “separação” foi um processo complexo que se estendeu por cerca de quinhentos anos, ocorrendo em diferentes lugares, em ritmos distintos e sob uma variedade de circunstâncias. Portanto, o foco não deve estar na “separação”, mas no fato de que o que hoje chamamos de “cristianismo”, em seus primórdios, era parte integrante do multifacetado judaísmo do Segundo Templo.

The most exciting field of research in contemporary exegesis is most probably the question of the so-called “parting of the ways between Jews and Christians.” Certainly, this expression is a misnomer. In the first century “Jews” and “Christians” were not yet separated entities and there is an ongoing discussion about from what point onward we may talk about “Jews” and “Christians.” Secondly, this “parting” was a complex process that stretched over five hundred years, occurring in different places at disparate velocities and under a variety of circumstances. Thus, the focus should not rest on the “parting” but on the fact that what we today call “Christianity” in its beginnings was an integral part of multifaceted Second Temple Judaism.

Um livro

TIWALD, M. Early Judaism and the Beginnings of Christianity: Common Roots and the Parting of the Ways. Stuttgart: Kohlhammer, 2026, 416 p. – ISBN 9783170449282. Livro disponível para download gratuito.

TIWALD, M. Early Judaism and the Beginnings of Christianity: Common Roots and the Parting of the Ways. Stuttgart: Kohlhammer, 2026, 416 p.

Jesus e seus primeiros seguidores eram judeus que nunca tiveram a intenção de formar uma nova religião separada do judaísmo. A chamada “separação de caminhos” entre judeus e cristãos foi longa e de forma alguma linear. Pelo contrário, foi um processo complexo que se estendeu por mais de quinhentos anos, ocorrendo em diferentes lugares, em ritmos diferentes e sob uma variedade de circunstâncias. Destacando a pluriformidade do judaísmo primitivo (300 a.C. – 200 d.C.) em suas implicações políticas, sociológicas, econômicas e religiosas, este livro mostra que o que hoje chamamos de “primórdios do cristianismo” foi, na verdade, parte integrante do multifacetado judaísmo.

Markus Tiwald é professor de Novo Testamento na Faculdade Católica de Teologia da Universidade de Viena, Áustria.

 

Jesus and his first followers were Jews who never intended to form a new religion apart from Judaism. The so called “parting of the ways” between Jews and Christians was long and by no means monolinear. Rather, it was a complex process that stretched over five hundred years, occurring in different places at different speeds and under a variety of circumstances. Highlighting the pluriformity of early Judaism (300 BCE – 200 CE) in its political, sociological, economic, and religious implications, this book shows that what we today call the “beginnings of Christianity” was in fact an integral part of multifaceted Judaism.

A concepção de tempo no Eclesiastes

ADAM, M. F. Time and Tradition: Temporal Thinking in Ecclesiastes in the Context of Emerging Apocalypticism and the History of Ideas in the Hellenistic Period. Tübingen: Mohr Siebeck, 2025, 335 p. – ISBN 9783161647970. Livro disponível para download gratuito.

Moritz F. Adam explora as concepções de tempo no livro de Eclesiastes e seu lugar na história do pensamento no judaísmo helenístico. Ele situa Eclesiastes em umADAM, M. F. Time and Tradition: Temporal Thinking in Ecclesiastes in the Context of Emerging Apocalypticism and the History of Ideas in the Hellenistic Period. Tübingen: Mohr Siebeck, 2025, 335 p. panorama mais amplo do pensamento apocalíptico emergente e investiga como o texto reflete, resiste e reelabora ideias predominantes sobre tempo, história, conhecimento e significado.

Adam demonstra como Eclesiastes se encontra em um momento importante de transformação conceitual na maneira como o tempo era pensado no judaísmo antigo, e como o livro reflete novas preocupações mais amplas, totalizantes e abstratas em diálogo com interlocutores contemporâneos.

Por meio de estudos textuais, discussões comparativas e engajamentos teóricos com os campos dos Estudos Clássicos e da Literatura, Adam desafia as fronteiras acadêmicas entre sabedoria, apocalíptica e outros gêneros, e destaca o discurso pluralista e aberto de Eclesiastes como parte vital do pensamento judaico antigo.

Moritz F. Adam é professor de Bíblia Hebraica e Judaísmo Antigo na Universidade de Zurique, Suíça.

 

Moritz F. Adam explores conceptions of time in the book of Ecclesiastes and its place in the history of thought in Hellenistic Judaism. He situates Ecclesiastes before a wider panorama of emerging apocalyptic thought and investigates how the text reflects, resists, and reworks prevailing ideas about time, history, knowledge, and meaning. Adam shows how Ecclesiastes stands at an important moment of conceptual transformation to the manner in which time was thought about in ancient Judaism, and how the book reflects new, broader, totalising, and abstract concerns in conversation with contemporary interlocutors. Through textual studies, comparative discussions and theoretical engagements with the fields of Classics and Literature, Adam challenges scholarly boundaries between wisdom, apocalypticism, and other genres, and highlights Ecclesiastes’ pluralistic, open-ended discourse as a vital part of ancient Jewish thought.

 

Sumário

Chapter 1: Introduction

Chapter 2: The Date and Compositional History of the Book of Ecclesiastes
A. Composition
B. Structure
C. Dating
D. Excursus: The Problem of the Abstract Orientation of the Book of Ecclesiastes and Its Deliberate Avoidance of Historical and Contextual References

Chapter 3: The Status Quaestionis in Scholarship on Ecclesiastes and Apocalypticism
A. Ancient Perspectives on Apocalyptic Dimensions in Ecclesiastes
B. Categories and Problems in the Modern History of Scholarship
C. On the Approach of this Overview on the Status Quaestionis
D. Wisdom and Apocalypticism Since the Middle of the 20th Century
E. Ecclesiastes and Apocalypticism in Recent Scholarship
F. Scholarly Engagements with the Subject of Time in Ecclesiastes

Chapter 4: Reflections on Method

Chapter 5: Polemic, Critique, and Intellectually Constitutive Interaction: Eccl 4:17-5:6 as a Test Case
A. Dreaming as a Mode of Revelation
B. Mediation by Angels

Chapter 6: Rhetoric and Discourse in Ecclesiastes and 4QInstruction: AComparative Test Case

Chapter 7: The Genre Apocalyptic: Rethinking Morphologies
A. What is Apocalypticism? Problems in Taxonomy
B. Prototype Theory
C. Constellations
D. Discourses in Ancient Jewish Thought – Three Propositions

Chapter 8: The Category of Time in the Book of Ecclesiastes and Its Place in the History of IdeasMoritz F. Adam (nascido em 1997)
A. Time as a Total Category in the Hellenistic Period
B. Time as Ordered and Arranged
C. Comparative Reflections

Chapter 9: Time and Abstraction: Moving Across Tradition as a Mode of Literary Authorisation
A. Authorisation by Ascription
B. The Historical Blending of Ideas

Chapter 10: Pluriformity and Pluralism: Literary Diversity, Hermeneutical Openness, and the Function of Texts in Second Temple Judaism
A. Ecclesiastes and Pluriformity
B. Method
C. Calendars and Total History
D. Variety and Vitality in the Dead Sea Scrolls
E. New Cultural Histories
F. Intellectual Pluralism in Ecclesiastes
G. Excursus: Literary-Theoretical Points of Comparison

Chapter 11: Conclusions

Moritz F. Adam Geboren 1997; 2018 M.A. Theologie, Oxford; 2020 M.Phil., Oxford; 2024 PhD, Zürich; 2020-24 Assistant am Lehrstuhl für Hebräische Bibel, Zürich; 2022 Research Fellow, Hebräische Universität Jerusalem; 2025 Ernest S. Frerichs Professor, Albright Institute, Jerusalem; Dozent für Hebräische Bibel und Antikes Judentum, Zürich.

Linguagem: força vital do ser humano 4

Estou lendo o livro de MITHEN, S. The Language Puzzle: How We Talked Our Way Out of the Stone Age. London: Profile Books, 2024, 544 p. – ISBN 9781800811584.

Estas são notas de leitura do capítulo 16: Conclusion: the evolution of language [Conclusão: a evolução da linguagem].MITHEN, S. The Language Puzzle: How We Talked Our Way Out of the Stone Age. London: Profile Books, 2024, 544 p.

Diz Steven Mithen na conclusão:

Este livro tenta desvendar o quebra-cabeça da linguagem: por que, quando e como a linguagem evoluiu? Reuni evidências da linguística e da arqueologia, da antropologia e da genética, da neurociência, da psicologia e da etologia. Usei-as para montar quatorze fragmentos do quebra-cabeça que agora se encontram dispersos sobre a mesa (…) Chegou a hora de encaixar esses fragmentos para completar o quebra-cabeça da linguagem. Apresento, a seguir, a minha melhor tentativa.

Para facilitar a leitura, reestruturei o texto em formato de perguntas e respostas. Este capítulo não tem notas de rodapé. As notas assinaladas com * são minhas.

O capítulo foi publicado em 4 posts:

Linguagem: força vital do ser humano 1

Linguagem: força vital do ser humano 2

Linguagem: força vital do ser humano 3

Linguagem: força vital do ser humano 4

 

6. Como conseguimos sair da Idade da Pedra conversando

Uma das regiões de maior impacto no estilo de vida humano foi o Crescente Fértil?
Crescente Fértil. Uma dessas regiões era um arco de pradarias, bosques, vales fluviais e terras altas no oeste da Ásia, conhecido hoje como Crescente Fértil. Estendia-se do que hoje é o Golfo de Aqaba, no Mar Vermelho, seguindo para o norte ao longo da costa do Mediterrâneo até o que hoje é o sul da Turquia, virando para o leste antes de se curvar para o sul através dos Montes Zagros em direção ao Golfo Pérsico. Caçadores-coletores exploraram essa região desde as primeiras dispersões do Homo erectus da África, há 1,8 milhão de anos. Ela havia sido o lar compartilhado de neandertais e dos primeiros Homo sapiens, antes mesmo do desenvolvimento da linguagem moderna. Ao longo desses tempos, o Crescente Fértil abrigou trigo e cevada selvagens, ervilhas, lentilhas e grão-de-bico selvagens, juntamente com cabras e ovelhas selvagens: os progenitores das variedades domesticadas que existem hoje no mundo.

Humanos viviam como nômades no Crescente Fértil desde 20 mil anos atrás?
. Há cerca de 20.000 anos, os humanos modernos viviam no Crescente Fértil*, caçando gazelas nas planícies e cabras selvagens nas montanhas. Eles coletavam minúsculas sementes de gramíneas silvestres, nozes, bagas, frutas e tubérculos. Pescavam e caçavam aves nos pântanos remanescentes. Viviam em pequenas comunidades que estavam sempre em movimento, à medida que os animais e as plantas nas proximidades de seus acampamentos se esgotavam.

Há 14.500 anos comunidades humanas já construíam assentamentos na região?
. Quando as condições climáticas melhoraram, as pradarias floresceram e as populações humanas cresceram. Há 14.500 anos, as comunidades podiam permanecer no mesmo assentamento por períodos mais longos. Investiram em arquitetura, construíram grandes pilões de pedra para moer os grãos silvestres que coletavam e sepultavam seus mortos em cemitérios para reivindicar a terra. Então, há 12.500 anos, ocorreu o colapso climático que durou um milênio.

Mas ocorreu um colapso climático há 12.500 anos?
. A falta de chuvas de inverno, a queda de temperatura e o encurtamento das estações de cultivo esgotaram os alimentos vegetais que podiam ser coletados. Gazelas e outros animais tornaram-se escassos; a pesca e a caça de aves tornaram-se improdutivas. Os humanos primitivos teriam se adaptado retornando a um estilo de vida totalmente nômade, vivendo em grupos menores e refugiando-se em qualquer refúgio ambiental que encontrassem. Os humanos modernos – aqueles que usam a linguagem moderna, têm fluência cognitiva e uma riqueza metafórica – eram diferentes.

E então, para conseguir alimento, os humanos passaram a cuidar das plantas selvagens das redondezas?O Crescente Fértil por volta de 7500 a.C.
. Eles começaram a tratar as plantas ao seu redor como se fossem seus filhos: removendo pragas, fornecendo água e transplantando-as para solos mais férteis. Ao fazer isso, as plantas, principalmente o trigo e a cevada selvagens, responderam e sua produtividade aumentou. Após muitos ciclos de cultivo e colheita, seus grãos eram maiores e permaneciam presos à espiga bulbosa. Isso permitia que os grãos fossem colhidos com facilidade, em vez de cada minúsculo grão ter que ser colhido do chão, como faziam seus ancestrais de 20.000 anos atrás. Os caçadores-coletores logo estavam colhendo os cereais, usando foices feitas com lâminas de sílex inseridas em cabos de osso.

Por volta de 11.500 as plantas, assim como alguns animais, já estavam domesticadas?
. Por volta da chegada do Holoceno, há 11.500 anos, os caçadores-coletores não só se dedicavam ao cultivo de cereais, como também caminhavam para a plena autossuficiência. Isso logo se tornou evidente, pois as novas chuvas e as estações de cultivo mais longas aumentaram ainda mais a produção. Os caçadores-coletores não podiam parar de cuidar das plantas, pois estas haviam se tornado dependentes da intervenção humana: elas não conseguiam mais se autopropagar caso a colheita fosse interrompida. Comunidades em outros lugares, principalmente nos Montes Zagros, demonstravam o mesmo cuidado com os bodes selvagens que caçavam, resultando na mesma interdependência. Cabritos órfãos eram cuidados pela comunidade humana. À medida que cresciam e se reproduziam com outros bodes em cativeiro, os animais se tornavam mais dóceis, perdendo seus chifres enormes e se tornando mais receptivos ao controle humano.

Um novo conjunto de palavras foi inventado para o novo estilo de vida da criação de gado?
. Embora a domesticação de plantas e animais dependesse do pensamento e da linguagem metafóricos — usando palavras e conceitos de cuidado antes restritos ao mundo social —, seu mCulturas Hassuna, Samarra, Halaf e Ubaid do Antigo Oriente Médio anejo tornou-se possível graças à capacidade de inventar novos conceitos, novas palavras e novas ferramentas, que se retroalimentavam. Surgiu um léxico novo e em constante transformação sobre cabras, com palavras para diferentes tipos de cabras selvagens, criadas em rebanho e totalmente domesticadas, palavras que descreviam suas diferenças por sexo, idade, tamanho, saúde, cor, comportamento e assim por diante. Algumas palavras podem ter sido inteiramente novas, como a palavra para uma cabra totalmente domesticada; outras tiveram sua frequência de uso alterada em relação à época em que as cabras eram exclusivamente caçadas nas montanhas. Um novo conjunto de palavras foi inventado para o novo estilo de vida da criação de gado: palavras para currais, amarras, doenças, cortes de carne, tipos de gordura, abate e assim por diante.

O mesmo ocorreu com as plantas?
. O mesmo ocorreu com as plantas. Assim como os cultivadores de arroz modernos têm muitas palavras para o arroz, os agricultores neolíticos emergentes também inventaram muitas palavras para o trigo e a cevada, distinguindo entre as formas selvagens e domesticadas, os estágios de crescimento, as plantas saudáveis ​​e as doentes. Não apenas para as próprias plantas, mas também para os processos de semeadura, rega, capina, moagem e armazenamento. Novas palavras eram necessárias para novas ferramentas, como enxadas, mós e celeiros; essas palavras não apenas descreviam tais artefatos, mas também consolidavam novos conceitos nas mentes.

Além das novas palavras inventadas, palavras antigas eram esquecidas?
. À medida que novas palavras surgiam, outras eram esquecidas e, por fim, perdidas por completo. Havia menos interesse em rastrear animais selvagens e coletar plantas silvestres, fazendo com que as palavras para as diferenças sutis em pegadas, excrementos e frutos em amadurecimento fossem faladas com menos frequência e gradualmente esquecidas. Da mesma forma, as palavras para descrever odores que, quando viviam como caçadores-coletores, eram tão importantes quanto as palavras para cor e sabor. Por outro lado, o vocabulário para cores expandiu-se à medida que as atividades artesanais aumentaram e o comércio começou entre as comunidades com necessidade de itens atraentes, notadamente palavras para verde e azul para descrever as contas de pedra que agora eram feitas de pedra rica em cobre. A nova dieta de cereais finamente moídos reduziu o desgaste dos dentes e alterou sutilmente os sons da linguagem, aumentando as frequências de /f/s e /v/s à medida que as palavras continuavam a ser inventadas e modificadas.

Há 10 mil anos os caçadores-coletores do Crescente Fértil já haviam se tornado agricultores, sendo a comunicação fundamental para isso?
. Há 10.000 anos, os caçadores-coletores do Crescente Fértil se tornaram agricultores. Eles conquistaram esse novo estilo de vida por meio da comunicaçãEvolução da escrita cuneiforme de 3000 a 600 a.C.o, utilizando palavras para construir tanto os conceitos quanto a tecnologia necessária. A chave não estava apenas no uso de metáforas e palavras abstratas, mas também na compulsão humana de falar e no prazer de usar palavras, algo que foi gradualmente instilado na mente humana desde o início da evolução da linguagem, há mais de 2,5 milhões de anos. Há 10.000 anos, as pessoas simplesmente não conseguiam evitar falar sobre o mundo ao seu redor, sobre seus relacionamentos e novas ideias. Nem conseguiam evitar se divertir com as palavras. Com tanta conversa e bate-papo, diálogos e fofocas, discursos, conversas e tête-à-têtes, era inevitável que novos conceitos surgissem, invenções fossem feitas e os estilos de vida mudassem. E assim permanece até hoje.

Com a urbanização no Crescente Fértil o multilinguismo tornou-se mais frequente?
. Os assentamentos agrícolas neolíticos floresceram, as populações cresceram e logo se transformaram em cidades com milhares de habitantes, fornecendo lares para artesãos e comerciantes, sacerdotes e políticos. As línguas deixaram de ser esotéricas, características de pequenas comunidades autossuficientes, e passaram a ser abertas ao mundo exterior, capazes de facilitar o contato com pessoas de outras comunidades linguísticas. As palavras tornaram-se mais curtas e combinadas com um conjunto mais consistente de regras, permitindo o rápido aprendizado de idiomas por adultos de fora – aqueles que vieram para comerciar, encontrar parceiros e se juntar ao que agora eram centros de inovação, entretenimento e transformação social. Com essas mudanças na língua e no tamanho da população, o bilinguismo e o multilinguismo tornaram-se mais frequentes, senão a norma. Isso impulsionou ainda mais a criatividade e a inovação encontradas nas novas comunidades agrícolas.

Além do Crescente Fértil, a agricultura logo surgiu na China, na Mesoamérica, na Nova Guiné e em outros lugares?
. O Crescente Fértil Tabuinha com escrita protocuneiforme de Uruk IV, ca. 3200 a.C.não foi o único lugar no mundo onde isso aconteceu. Logo após o início do Holoceno, a agricultura também surgiu na China, onde o painço e o arroz, as galinhas e os porcos foram domesticados. Um pouco mais tarde, o mesmo aconteceu na Mesoamérica com o milho, a abóbora e a pimenta, e depois na Nova Guiné com o inhame e a banana. A partir desses e de outros centros de inovação, a agricultura se espalhou pelo mundo. Isso ocorreu em grande parte pela dispersão de famílias que deixaram suas terras natais em busca de novas terras para cultivar, às vezes se miscigenando com os caçadores-coletores que encontravam pelo caminho. Os caçadores-coletores que resistiram à mudança de estilo de vida foram forçados a se estabelecer em zonas marginais, muito secas ou frias para que a agricultura prosperasse.

E assim a escrita foi inventada?
. A comunicação continuou nas aldeias agrícolas, vilas e centros urbanos. Metáforas abundavam à medida que novos conceitos eram formados, novas palavras inventadas e línguas evoluíam através dos sempre presentes obstáculos de aprendizado de geração em geração, pela infinidade de expressões faladas e ouvidas diariamente e pelo desejo constante de uma comunicação eficaz e eficiente. A metalurgia foi inventada, marcando o fim formal da Idade da Pedra. Isso foi seguido pela escrita**, que levou a linguagem a uma nova fase de sua jornada, uma jornada que começou com palavras icônicas na savana africana há 1,6 milhão de anos.

Linguagem, força vital do ser humano?
. Foi durante o longo período de evolução da linguagem que nos tornamos totalmente dependentes das palavras para todos os aspectos de nossas vidas. Para manter essa dependência, a evolução não apenas nos deu a alegria das palavras, mas também fez da linguagem a força vital do ser humano [Evolution not only gave us the joy of words but made language the life force of being human].

 

* Cf. O Crescente Fértil na Pré-história e na Idade do Bronze, post publicado no Observatório Bíblico em 06.09.2025.

** Cf. Leituras sobre a decifração da escrita cuneiforme, post publicado no Observatório Bíblico em 15.03.2025.

Linguagem: força vital do ser humano 3

Estou lendo o livro de MITHEN, S. The Language Puzzle: How We Talked Our Way Out of the Stone Age. London: Profile Books, 2024, 544 p. – ISBN 9781800811584.

Estas são notas de leitura do capítulo 16: Conclusion: the evolution of language [Conclusão: a evolução da linguagem].MITHEN, S. The Language Puzzle: How We Talked Our Way Out of the Stone Age. London: Profile Books, 2024, 544 p.

Diz Steven Mithen na conclusão:

Este livro tenta desvendar o quebra-cabeça da linguagem: por que, quando e como a linguagem evoluiu? Reuni evidências da linguística e da arqueologia, da antropologia e da genética, da neurociência, da psicologia e da etologia. Usei-as para montar quatorze fragmentos do quebra-cabeça que agora se encontram dispersos sobre a mesa (…) Chegou a hora de encaixar esses fragmentos para completar o quebra-cabeça da linguagem. Apresento, a seguir, a minha melhor tentativa.

Para facilitar a leitura, reestruturei o texto em formato de perguntas e respostas. Este capítulo não tem notas de rodapé. As notas assinaladas com * são minhas.

O capítulo foi publicado em 4 posts:

Linguagem: força vital do ser humano 1

Linguagem: força vital do ser humano 2

Linguagem: força vital do ser humano 3

Linguagem: força vital do ser humano 4

 

4. O florescimento da linguagem

Mutações genéticas?
. Tanto os neandertais na Europa como os H. sapiens em África experienciaram um fluxo constante de mutações genéticas, trocas aleatórias de um dos quatro tipos de nucleótidos (A, C, G, T = Adenina, Citosina, Guanina, Timina) por outro nos 3 bilhões de pares de nucleótidos que compõem cada genoma humano. A maioria das mutações não teve impacto; algumas foram marginalmente benéficas ou prejudiciais; outras foram profundas. Algumas que ocorreram e se espalharam pelas populações de H. sapiens na África influenciaram o cérebro ainda em evolução: o cerebelo tornou-se maior e mudou de forma; os lobos occipitais reduziram de tamanho, restringindo o processamento visual, mas libertando capacidade neural para outras funções; as redes neuronais expandiram o seu alcance. Outras mutações retardaram o ritmo do desenvolvimento infantil, permitindo um período mais longo para que as novas redes neurais de longa distância entrassem em ação.

Globularização do cérebro do Homo sapiens?
. Grandes mudanças ocorreram após 300.000 anos atrás: o cérebro do Homo sapiens tornou-se mais globular, um processo que levou pelo menos mais 200.000 anos para se completar. Embora o tamanho do cérebro possa ter aumentado marginalmente, redes neurais de longa distância e novos padrões de ativação neuronal ondulatória através do cérebro globular agora conectavam áreas funcionalmente especializadas e transformavam o cérebro em um espaço de trabalho global. Acervos de conhecimento e modos de pensar que haviam evoluído para desempenhar funções especializadas, aqueles que permaneceram isolados nos cérebros do Homo heidelbergensis e do neandertal, agora podiam se integrar. Com essa fluidez cognitiva, veio um nível aprimorado de fluência verbal, proporcionado pelo cerebelo ampliado, que influenciou uma ampla gama de processos linguísticos no cérebro.

E foi então que o Homo sapiens incorporou o uso da metáfora à linguagem?
Evolução humana de Lucy até hoje. A fluidez cognitiva era inicialmente escassa e transitória, mas forneceu conexões suficientes para desencadear uma revolução linguística e cognitiva, que precisou da própria linguagem para se completar. Duas novas características foram adicionadas ao repertório linguístico. A primeira foi a metáfora, falada ou gestual: o uso do conhecimento sobre um domínio conceitual, a fonte, para informar o de outro, o alvo. Por definição, a mentalidade específica de domínio dos neandertais impedia o uso da metáfora como ferramenta de comunicação e reflexão sobre o mundo. Com a fluidez cognitiva, uma mãe Homo sapiens podia descrever sua filha como sendo tão corajosa quanto um leão, enquanto acreditava que leões tinham pensamentos e desejos semelhantes aos humanos; o tempo podia ser descrito como espaço; e o espaço por palavras derivadas do corpo humano. A tradução de conceitos metafóricos em enunciados falados, e o inverso por aqueles que ouviam, foi possibilitada por mudanças no cérebro humano: a liberação de recursos neurais do processamento visual para o da linguagem, as funções linguísticas aprimoradas pelo cerebelo maior e a conectividade expandida que transformou o cérebro em um espaço de trabalho global.

Com a metáfora veio o pensamento simbólico e uma nova dinâmica tecnológica?
. Com a metáfora veio o pensamento simbólico – o uso de uma coisa, seja um objeto natural ou um artefato manufaturado, para representar outra coisa. A metáfora também aprimorou o poder comunicativo, incluindo a capacidade de descrever e explicar habilidades e ideias tecnológicas complexas para outras pessoas. Essas metáforas podiam ser compartilhadas com mais facilidade, e seu desenvolvimento se tornava um processo colaborativo entre mentes. Lançadores de dardos e arcos foram inventados rapidamente, logo seguidos por uma série de novos tipos de ferramentas que só poderiam ser concebidas e fabricadas pelo encontro de mentes metafóricas. Assim como na própria linguagem, houve uma nova dinâmica na mudança tecnológica – uma que continua em ritmo acelerado até hoje. Depois de começarmos a viver por meio de metáforas, temos feito isso desde então*.

O uso de metáforas liberou um grau de criatividade e pensamento complexo até então inexistente?
. À medida que as metáforas eram usadas, as conexões neurais necessárias se fortaleciam com a ativação repetida de suas sinapses: a linguagem agora construía o cérebro necessário. O uso de metáforas liberou um grau de criatividade e pensamento complexo que era impossível de alcançar em uma mente focada em um domínio específico e proporcionou uma nova dinâmica à mudança da linguagem. Uma vez usada, cada metáfora começava a perder seu poder e eventualmente precisava ser substituída por outra para criar o efeito social desejado: o léxico se expandiu exponencialmente; novas metáforas nasciam assim que outras desapareciam.

Conceitos abstratos agora podiam florescer na mente humana?
. Conceitos abstratos agora podiam florescer na mente humana, necessitando de metáforas para serem compreendidos e explicados a outros. Esses conceitos precisavamPrincipais espécies de hominídeos - seis milhões de anos de evolução humana. Fonte: Steven Mithen, The Language Puzzle, 2024. ser ancorados na mente com seus próprios rótulos: palavras abstratas. Os neandertais não possuíam nada disso, dependendo de palavras concretas, cujos significados eram definidos pela experiência – a visão de um mamute, o som do vento, o cheiro de um leão, o toque de uma pedra ou o sabor de uma fruta madura. Assim, seus léxicos tinham pouco impacto em sua percepção do mundo. Os humanos modernos usam metáforas linguísticas para explicar e compreender conceitos abstratos – ideias sobre outros mundos e seres ancestrais, noções de justiça, identidade e propriedade.

E assim nasceu também a categoria do sobrenatural?
. Tais conceitos podiam ser agrupados em novas categorias sem qualquer fundamento no mundo real, o que facilitava a invenção, o aprendizado, a memorização e a explicação de outros conceitos abstratos que agora tinham uma categoria para se encaixar. Uma vez concebida a categoria do sobrenatural, esta forneceu um lar para novos conceitos e suas palavras associadas, como fantasmas, espíritos e feitiços. O léxico continuou a expandir-se e as histórias assumiram novas dimensões com enredos complexos, heróis e vilões, eventos mágicos e mundos imaginários. A arte de contar histórias tornou-se uma forma de impressionar, persuadir, educar e entreter através do uso habilidoso das palavras.

A diversidade cultural e linguística floresceu tanto para os neandertais quanto para o Homo sapiens?
. À medida que o cérebro globular e cognitivamente fluido evoluía, tais desenvolvimentos ocorriam por toda a África, do extremo norte ao sul e do leste ao oeste. As comunidades estavam conectadas por redes sociais, permitindo um fluxo continental de novas ideias, palavras, objetos e genes. A diversidade cultural e linguística floresceu a um nível inimaginável tanto para os neandertais quanto para o Homo sapiens pré-moderno, evidente nas novas formas e tradições de fabricação de ferramentas de pedra. Contudo, com o impacto das instabilidades climáticas sobre populações pequenas e frequentemente frágeis, levou tempo para que metáforas e palavras abstratas se consolidassem na linguagem – por um período, elas surgiam e desapareciam, assim como as comunidades, os idiomas que falavam e os artefatos que produziam.

E o uso do ocre vermelho?
. O impacto do ocre vermelho só se torna materialmente evidente após 200.000 anos atrás, quando sua função passou gradualmente de fornecer sinais indiciais a abrigar significado simbólico. Há 150.000 anos, conchas com furos naturais eram usadas em cordões; há 80.000 anos, as conchas eram perfuradas e coloridas deliberadamente para criar exibições mais extravagantes e transmitir mensagens simbólicas sobre identidade e crença. Há 70.000 anos, placas de ocre serviam de base para a gravação de imagens geométricas, repletas de significado simbólico.

É adequado dizer que o Homo sapiens trilhou seu caminho rumo à modernidade através do riso?
. Tais objetos desempenharam um papel ativo na construção das redes neurais necessárias para o desenvolvimento de frases metafóricas e conceitos abstratos. Conchas, com suas formas aparentemente esculpidas e cores brilhantes, vindas do mar misterioso e que outrora abrigaram criaturas estranhas, prestavam-se a histórias e ao uso como símbolos. À medida que as contas de conchas eram feitas, usadas e vistas por outros, elas repetidamente estimulavam as sinapses das redes neurais incipientes que davam origem à mente cognitivamente fluida. O mesmo ocorreu com o uso de ocre, imagens geométricas gravadas e fogo. Embora o fogo fosse controlado e usado habitualmente há mais de 300.000 anos, há 100.000 anos suas chamas noturnas sustentavam um exercício linguístico para o uso de metáforas e palavras abstratas, à medida que o discurso sobre o mundano era substituído pelo discurso sobre o mundo dos espíritos e demônios. Não apenas sobre o estranho e o maravilhoso, mas também sobre o engraçado e o absurdo. Trocadilhos, duplos sentidos e insinuações, todos dependentes de metáforas e da fluência verbal da mente moderna, agora permeavam a linguagem. Essas palavras proporcionaram aos humanos modernos uma alegria que permanecia ausente entre os neandertais, cuja linguagem era restrita a um domínio específico. O Homo sapiens trilhou seu caminho rumo à modernidade através do riso.

Se a linguagem fosse uma planta, como a descreveríamos?
A evolução da linguagem. Fonte: Steven Mithen, The Language Puzzle, 2024.. Este foi o florescimento da linguagem. Suas raízes foram as expressões holísticas, semelhantes às dos macacos, produzidas pelos australopitecos e pelo Homo habilis; seu caule, as palavras icônicas proferidas pela primeira vez pelo Homo erectus, há 1,6 milhão de anos. Palavras arbitrárias e gramaticais brotaram desse caule nas mentes e vozes do Homo heidelbergensis e seus descendentes, os neandertais na Europa e os primeiros Homo sapiens na África. Mas foi somente há 100 mil anos que as flores desabrocharam: uma infinidade de metáforas e palavras abstratas surgindo em uma profusão de cores, texturas e formas, espalhando suas sementes e fertilizando-se mutuamente por toda a África – e logo pelo mundo. Com esse conhecimento da evolução da linguagem, podemos agora dar forma ao que antes eram os ossos secos e silenciosos de nossos ancestrais humanos

 

5. Diáspora global

Há cerca de 60 mil anos o Homo sapiens se dispersou da África para o Levante e para a Arábia?
. A próxima parte da história humana é bem conhecida. Há 60.000 anos, pelo menos uma, e provavelmente várias, comunidades de Homo sapiens se dispersaram da África, viajando para o norte, em direção ao Levante, e para o leste, em direção à Arábia. Seus descendentes continuaram se deslocando enquanto seus corpos e cérebros continuavam a evoluir, criando diversidade genética entre os humanos modernos à medida que as populações se fragmentavam e seguiam caminhos separados na maior diáspora da humanidade.

Aconteceu a miscigenação de Homo sapiens e neandertais?
. Alguns se miscigenaram com os neandertais, adquirindo genes úteis para viver em novos climas setentrionais e adotando algumas novas palavras e frases ao longo do caminho, especialmente os ideofones expressivos que os neandertais usavam com tanto sucesso. Pequenas incursões exploratórias foram feitas na Europa, antes que grupos usando colares elaborados, equipados com uma variedade de armas de caça habilmente projetadas e propensos a esculpir figuras de animais em osso e pedra, varressem a região por volta de 41.000 anos atrás. Os neandertais residentes responderam com um último floreio de sua cultura, influenciada pelos símbolos visuais e pela nova tecnologia que viram, mas que lutaram para compreender. Eles se miscigenaram com os recém-chegados em um esforço para aumentar seu número. Mas as populações neandertais diminuíram até a extinção, incapazes de sobreviver às pressões combinadas das instabilidades climáticas e de seus novos vizinhos, que caçavam com mais eficiência e se protegiam do frio com roupas costuradas e moradias mais adequadas. Os humanos modernos decoraram as paredes das cavernas com pinturas de animais e seres imaginários, personificando a mente humana moderna cognitivamente fluida, metafórica e rica em conceitos abstratos. Uma mente sustentada e apoiada pelo fluxo de palavras.

Aconteceu também a miscigenação de Homo sapiens e denisovanos e a dispersão para as Américas?
. Alguns dos humanos modernos que viajaram para o leste a partir da África encontraram e se miscigenaram com os denisovanos e possivelmente com outros tipos de humanos ainda desconhecidos pela ciência, que também foram extintos. Mais adiante, barcos foram construídos para chegar à Austrália há cerca de 60.000 anos e raquetes de neve foram criadas para atravessar o Estreito de Bering rumo às Américas há 30.000 anos. Grupos humanos se dispersaram rapidamente por ambos os continentes, adaptando seu estilo de vida às estepes, montanhas e bosques, desertos, florestas tropicais e litorais. Mais espécies foram extintas, não humanos, mas a megafauna da Austrália e das Américas – mamutes, mastodontes, preguiças-gigantes e aves gigantes não voadoras. À medida que essas perdas ocorriam, as populações humanas prosperavam, assim como a diversidade cultural, linguística e genética.

Todos os aspectos da cultura material estavam em constante movimento?
. Em todo o mundo, a tecnologia e todos os aspectos da cultura material estavam em constante movimento, mudando continuamente sob a influência de inúmeros fatores ambientais e culturais. A mudança linguística foi tanto causa quanto consequência: um fluxo de novas palavras e novas maneiras de combiná-las, influenciando a forma como as pessoas percebiam e pensavam sobre o mundo, permitindo-lhes construir novos conceitos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

As pessoas falavam, pensavam e agiam dentro das limitações e oportunidades de seus ambientes?
. As pessoas falavam, pensavam e agiam dentro das limitações e oportunidades de seus ambientes. Regiões com baixa biomassa podiam sustentar apenas populaçõesDispersão do Homo sapiens para fora da África esparsas e, portanto, havia menos mentes para compartilhar suas palavras, construir novos conceitos e impulsionar a mudança tecnológica cumulativa. Em outros lugares, a abundância sazonal de recursos, como cardumes migratórios de salmão ao longo da costa do Pacífico e manadas de renas migratórias na tundra do norte, exigia novas tecnologias para serem exploradas e proporcionava oportunidades para encontros sociais. Essas eram ocasiões para a troca de informações, ideias, artefatos, alimentos, genes e pessoas que se deslocavam de um grupo social para outro. Os encontros proporcionavam oportunidades para a disseminação de novas palavras, novos significados e novas pronúncias, especialmente quando pessoas de comunidades distantes se reuniam falando dialetos ou que já haviam desenvolvido seus próprios idiomas.

Mudanças climáticas drásticas com forte glaciação até 20 mil anos atrás?
. Todos os caçadores-coletores, seja desenterrando tubérculos nos desertos australianos, caçando focas no Ártico ou catetos na Amazônia, continuaram a viver em um mundo de mudanças climáticas drásticas. O ciclo glacial-interglacial repetido, que persistiu por mais de 2 milhões de anos, entrou em declínio há 40.000 anos, levando o planeta ao auge de uma glaciação. O ponto mais baixo chegou há 20.000 anos, causando perturbações ambientais em todo o mundo. Mais uma vez, as populações humanas se fragmentaram, diminuíram em número e desapareceram completamente das regiões mais afetadas. Mas, com uma linguagem rica em metáforas e mentes cognitivamente ágeis, as comunidades humanas desenvolveram uma nova resiliência às mudanças ambientais: moradias eram construídas com ossos de mamute e cobertas com peles e turfa; agulhas de osso costuravam peles de rena; fogueiras aqueciam o interior das cavernas.

Após 20 mil anos atrás o clima começou a melhorar?
. A melhoria climática ocorreu logo após 20.000 anos atrás. Primeiro, houve um aumento gradual e depois um rápido aumento na temperatura, atingindo os níveis que desfrutamos hoje por volta de 14.500 anos atrás. As comunidades humanas responderam, expandindo mais uma vez seu território e inventando novas tecnologias, agora para explorar os animais e plantas adaptados ao calor que também estavam se dispersando de refúgios glaciais, à medida que os desertos se transformavam em pastagens e as florestas substituíam a tundra. Mas o clima logo entrou em colapso novamente. O planeta mergulhou em mais 1.000 anos de aridez e frio, causando a retração das populações e o declínio demográfico.

Há 11.500 anos começou o clima pós-glacial que temos hoje?
. O alívio veio há 11.500 anos com um segundo período rápido de aquecimento global. Isso inaugurou o clima pós-glacial quente, úmido e estável que continuamos a desfrutar hoje e que chamamos de Holoceno. Mais uma vez, os caçadores-coletores expandiram seu território e desenvolveram novas tecnologias para explorar os animais e plantas adaptados ao calor que logo começaram a prosperar.

Esta foi a primeira vez que os humanos viveram em condições tão amenas e estáveis ​​desde que a capacidade linguística moderna evoluiu plenamente?
Crânio engessado encontrado em Jericó (Tell es-Sultan), Neolítico Pré-Cerâmico B, c. 7200 a.C. BM 12741-42. Esta foi a primeira vez que os humanos viveram em condições tão amenas e estáveis ​​desde que a capacidade linguística moderna evoluiu plenamente: uma combinação de palavras icônicas, arbitrárias e gramaticais, em formas concretas e abstratas, um uso generalizado de metáforas, uma variedade de classes de palavras, estruturas morfológicas e sintáticas, tudo manifestado em uma infinidade de línguas em constante mudança em todo o mundo. A última vez que os humanos viveram em tais condições ambientais foi entre 130.000 e 115.000 anos atrás, antes que a fluidez cognitiva tivesse emergido completamente no Homo sapiens e quando os neandertais só conseguiam reagir com relutância, em vez de se adaptarem ativamente a um mundo mais quente. Desta vez foi diferente.

E, neste contexto, como os humanos passaram a ver o mundo?
. Os humanos modernos agora viam o mundo através da lente metafórica de ideias cognitivamente fluidas e abstratas, todas sustentadas pelas palavras que usavam. Como sabemos pelos caçadores-coletores que sobreviveram até os dias atuais, rios, montanhas, cachoeiras e cavernas foram obra de seres ancestrais que criaram o mundo. Os animais que caçavam não eram apenas fontes de carne e gordura, mas também podiam ser irmãos e irmãs, ou até mesmo os próprios seres ancestrais sob outra forma. Os animais e as plantas eram gentilmente oferecidos aos humanos para consumo, um presente que precisava ser retribuído com rituais e respeito pela natureza.

Em algumas regiões do mundo estas atitudes tiveram mais impacto do que em outras?
. Na maioria das regiões do mundo, essas atitudes tiveram pouco impacto material no meio ambiente e nos estilos de vida humanos. Era uma mera fachada cultural: a caça e a coleta continuavam, dentro das limitações e explorando as oportunidades que as condições ambientais permitiam. Em algumas regiões, porém, a natureza das plantas e dos animais era suscetível a mudanças. Consequências revolucionárias para a história da humanidade logo se seguiriam.

 

* Para a maioria de nós, a metáfora é uma figura de linguagem na qual uma coisa é comparada com outra, dizendo que uma é a outra, como em “Ele é um leão”. Ou, como diz a Enciclopédia Britânica: A metáfora é uma figura de linguagem que implica comparação entre duas entidades diferentes (…) uma comparação explícita sinalizada pelas palavras “semelhante” ou “como”. Mas uma nova visão da metáfora foi desenvolvida por George Lakoff e Mark Johnson em 1980 em seu estudo Metaphors We Live By (Metáforas da vida cotidiana). Sua concepção tornou-se conhecida como teoria cognitiva da metáfora ou teoria da metáfora conceptual. Para Lakoff e Johnson a metáfora não é simplesmente uma questão de palavras ou expressões linguísticas, mas de conceitos, de pensar em uma coisa em termos de outra. Segundo a teoria cognitiva da metáfora desenvolvida por Lakoff e Johnson, a metáfora é de natureza conceptual, é um mecanismo fundamental da mente, que nos permite usar o que sabemos sobre nossa experiência física e social para compreender inúmeros outros assuntos. Nessa perspectiva, a metáfora deixa de ser apenas um dispositivo da imaginação literária criativa e se converte em valiosa ferramenta cognitiva para as pessoas em seu cotidiano. As metáforas podem moldar nossas percepções e ações sem que sequer nos demos conta disso. Cf. Teoria da metáfora conceptual, post publicado no Observatório Bíblico em 23.02.2020.