A história de Israel e Judá

A História de Israel e Judá na pesquisa atual

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Andrew Tobolowsky, do College of William and Mary in Williamsburg, Virginia, publicou, em 2018, na revista Currents in Biblical Research, um interessante artigo sobre a pesquisa da história de Israel e Judá na segunda década do século XXI: História israelita e judaíta em abordagens acadêmicas contemporâneas. O artigo está disponível online, aqui ou aqui.

TOBOLOWSKY, A. Israelite and Judahite History in Contemporary Theoretical Approaches. Currents in Biblical Research, Vol. 17(1), 2018, p. 33-58.

O artigo analisa a evolução do estudo das histórias de Israel e Judá, com ênfase nos últimos dez anos. Durante OBOLOWSKY, A. Israelite and Judahite History in Contemporary Theoretical Approaches. Currents in Biblical Research, Vol. 17(1), 2018, p. 33-58.esse período tem havido um interesse crescente em evidências extrabíblicas como o principal meio de construir histórias abrangentes, e acontece um renascimento do interesse em teorias pós-modernas. Este estudo oferece uma discussão geral sobre as tendências da última década, considerando a possibilidade dos autores judaítas só terem assumido uma identidade israelita após a queda de Israel [= reino do norte]. Depois de mostrar as principais tendências nos estudos da Bíblia e da História de Israel de modo genérico, o autor aborda o período pré-monárquico, a monarquia unida, os dois reinos de Israel e Judá e o exílio babilônico e, por fim, a época persa.

Este texto é um resumo e uma tradução livre minha. Foi publicado no blog Observatório Bíblico, em 5 postagens, a partir de 15.10.2018, onde reproduzo, também, trechos do texto original em inglês. Sempre que o assunto tiver sido tratado nesta página ou no Observatório Bíblico, colocarei um link. As principais obras citadas terão links para a Amazon Brasil.

 

1. Principais tendências no estudo da Bíblia e da História de Israel

O autor começa explicando que muito do que está acontecendo hoje na pesquisa da história de Israel e Judá (ou seja, “História de Israel”) pode ser entendido como consequência e evolução do debate dos anos 90 do século XX entre “minimalistas“, aqui representados por estudos de Davies, Thompson, Lemche e Whitelam, e “maximalistas”, aqui representados por uma obra de Provan, Long e Longman, A Biblical History of Israel, 2003 (Uma história bíblica de Israel, São Paulo: Vida Nova, 2016).

Sobre a posição “maximalista” ele comenta que não é muito comum ver hoje em dia uma defesa explícita da confiabilidade dos textos bíblicos como base para a história, mas há autores que defendem posições “positivistas”, dizendo, por exemplo, como Amihai Mazar, em 2010, que a Obra Histórica Deuteronomista pode ter se servido de fontes antigas e preservado núcleos de relatos vindos de templos e palácios.

Já sobre o “minimalismo” ele diz que a preferência dada aos dados extrabíblicos, em detrimento dos textos bíblicos, faz com as “histórias de Israel” sejam mais “científicas”. “Teorias e dados” ocupam, assim, o lugar de “histórias e fontes”. E o controle externo das fontes se torna mais necessário. A. Knauf e P. Guillaume escreveram uma abrangente história de Israel nesse sentido em 2015.

Andrew TobolowskyMas há uma “terceira via” nas pesquisas atuais, inspirada por teorias pós-modernas da história e novas perspectivas da linguística. Há teorias pós-modernas que dizem ser impossível, de fato, escrever uma história convencional de Israel. Mas pode ser possível escrever “histórias” e não uma história de Israel. Mesmo não havendo “história”, ainda pode haver “histórias”, ou pelo menos, narrativas contendo fatos precisos e sentidos históricos. O fato da Bíblia estar mais próxima da literatura não a torna menos representativa de realidades passadas, explica Hans M. Barstad em 2008.

Resumindo as três abordagens acima:
1. Há um empenho em refinar os métodos tradicionais de narrar o passado israelita
2. Há um empenho em recontar o passado israelita através de “meios científicos”
3. Há um empenho em descobrir tipos alternativos de histórias nos textos bíblicos

Estas três posturas fornecem, genericamente, a geografia das abordagens históricas contemporâneas. E entre elas ainda não há vencedor claro.

Muitos estudiosos, talvez a maioria, continuam a argumentar que a acessibilidade básica de uma visão real do passado ainda é uma fronteira que vale a pena. Muitos que acreditam nisto hoje também acreditam que o texto bíblico pode não ser a melhor maneira de acessá-lo. E muitos reconhecem as preocupações de todas as três abordagens ao tentar oferecer histórias novas, mas tradicionalmente estruturadas.

O esforço de Liverani, 2003 [Para além da Bíblia: história antiga de Israel. São Paulo: Loyola/Paulus, 2008], que LIVERANI, M. Para além da Bíblia: História antiga de Israel. São Paulo: Loyola/Paulus, 2008.percorre os grandes tópicos políticos dos vários períodos, mas também explora as dimensões da “história inventada”, é um exemplo importante dessa tendência. Assim também é o enfoque de Megan Bishop Moore e Brad E. Kelle em 2011.

Em outros casos, no entanto, historiadores influenciados por preocupações pós-modernas começaram, de fato, a se concentrar diretamente nas razões pelas quais uma determinada história está codificada em textos bíblicos e o que isso significa.

Um estudo de 2013 de Reinhard Gregor Kratz, por exemplo, explora as ramificações do status da história bíblica como “história sagrada”, produzida por razões baseadas em contextos sagrados específicos.

Uma coleção de ensaios de Giovanni Garbini, um pouco mais antiga, de 2003, também explora o significado da possibilidade de que as raízes da visão bíblica da história estejam no período pós-exílico.

A recente investigação de Ian D. Wilson, de 2016, sobre realeza e memória na antiga Judeia traça este curso, explicitamente abordando a natureza do projeto de memória do período persa como uma força na criação da visão bíblica do passado.

Enquanto o estudo de Daniel Pioske, de 2015, Davi de Jerusalém: entre memória e história, explora o que a relação entre espaço físico e memória ao longo do tempo significa para a nossa apreciação das realidades passadas.

Outros, como a investigação de Carol Meyers sobre as mulheres israelitas, de 2013, ou o estudo de Rainer Kessler, de 2006 (História social do antigo Israel. São Paulo: Paulinas, 2010) sobre a história social israelita, continuam a investigar histórias que ainda não foram adequadamente contadas e que habitualmente foram obscurecidas por abordagens tradicionais do passado israelita.

 

2. Sentimento pan-israelita e o período pré-monárquico

A ideia, que tem atraído um bom número de pesquisadores, é a seguinte: enquanto Israel [= reino do norte] existia, ou pelo menos na maior parte de sua existência, os judaítas não se consideravam etnicamente israelitas. Os judaítas teriam se apropriado da identidade israelita em algum momento após a queda de Israel [Samaria caiu em 722 a.C.].

Esta proposta bastante radical foi feita por estudiosos de origens diferentes e, no mínimo, podemos dizer que éTOBOLOWSKY, A. The Sons of Jacob and the Sons of Herakles: The History of the Tribal System and the Organization of Biblical Identity. Tübingen: Mohr Siebeck, 2017, 283 p. extremamente difícil desmenti-la. De uma perspectiva extrabíblica, como notaram Daniel E. Fleming, em 2012, e Schneider, em 2002, nenhuma inscrição descreve claramente uma relação entre os reinos independentes de Israel e Judá. Isto é particularmente surpreendente no caso dos materiais neoassírios porque, como observa Schneider, os assírios já estavam controlando a região havia uns 130 anos.

Também parece que a maioria do material bíblico datado de períodos anteriores à queda de Israel exibe uma falta similar de declarações claras a esse respeito. Mas a questão é terrivelmente complexa por disputas contínuas sobre a datação de textos bíblicos. Um estudioso que defenda a opinião de que a história da ascensão de Davi ao trono é essencialmente um texto do século IX, por exemplo, dificilmente abraçaria essa história reconstruída de sentimentos étnicos. Ainda assim, em materiais proféticos, parece haver uma diferença notável entre como e com que frequência a relação entre Judá e Israel é descrita em textos supostamente mais antigos e como essas coisas são apresentadas nos livros de Jeremias, Ezequiel e, mais tarde, partes de Isaías. E o autor defende que este sentimento pan-israelita pode ser entendido em paralelo com o pan-helenismo que deu uma identidade grega a grupos regionais independentes.

Esta ideia aparece em Philip R. Davies, 2007, e em Axel Knauf, 2006. Mas eles entendem que isto ter-se-ia dado após o exílio babilônico, resgatando uma identidade israelita mantida viva na região de Benjamin. Entretanto, K. P. Hong, em 2013, e outros autores pensam que isto pode ter acontecido logo após a queda de Israel, portanto, ainda no século VIII a.C.

Mas há pouco consenso quanto aos detalhes. Assim:

. alguns argumentam que embora o pan-israelismo tenha ocorrido após a queda de Israel, suas raízes já aparecem na relação histórica entre os dois reinos de Israel e Judá: H. G. M. Williamson, 2001;  Reinhard G. Kratz, 2005; Daniel E. Fleming, 2012

. outros dizem que este fenômeno foi desencadeado pela chegada dos refugiados de Israel no sul: Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman, 2001 e Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman, 2006

. e há os que negam a existência desses refugiados: Nadav Na’aman, 2014; P. Guillaume, 2008

. alguns sugeriram que a primeira história pan-israelita – isto é, a primeira composição a fornecer um mito para a afirmação de Judá sobre a identidade israelita – é o resultado do entrelaçamento das tradições do norte sobre Saul com as tradições do sul sobre Davi: Israel Finkelstein, 2013; J. L. Wright, 2014

. Andrew Tobolowsky, em 2017, argumenta que as narrativas monárquicas e patriarcais unidas, tanto quanto a narrativa do êxodo, foram originalmente produzidas como mitos independentes explicando as origens do pan-israelismo. No entanto, este trabalho também sugere que eles apareceram na forma bíblica como história familiar somente após o desenvolvimento do conceito das tribos como “filhos de Jacó”, que teria acontecido apenas no final da época persa, permitindo uma narrativa coerente de um passado étnico compartilhado.

 

3. O Israel primitivo e a monarquia unida

Poucos estudiosos ainda dão algum valor histórico às narrativas bíblicas sobre épocas anteriores ao aparecimento de Israel em Canaã. São memórias vagas e distorcidas. As discussões sobre o período pré-monárquico também foram caracterizadas nos últimos anos por uma crescente hesitação em fazer afirmações concretas sobre a natureza das realidades étnicas anteriores à monarquia. Poucos duvidam de que a Estela de Merneptah seja uma forte evidência de que um grupo chamado Israel existia nas montanhas de Canaã já no começo da Idade do Ferro I, mas agora há um acordo quase unânime de que esse Israel era apenas um dos muitos grupos ativos naquela região e naquela época. Assim, por exemplo, Daniel E. Fleming, 2012; Amihai Mazar, 2007; Ann E. Killebrew, 2005. No entanto, enquanto para alguns essa maneira de pensar sobre etnia geralmente significa que um Israel pré-monárquico é muito difícil de ser reconstruído, para outros este “proto-Israel” está claramente relacionado com o Israel monárquico.

FINKELSTEIN, I.; MAZAR, A. The Quest for the Historical Israel: Debating Archaeology and the History of Early Israel. Atlanta: Society of Biblical Literature, 2007, 220 p. A controvérsia sobre a monarquia unida começou quando Israel Finkelstein publicou, em 1996, um estudo sobre as datações feitas com radiocarbono em vários sítios arqueológicos importantes da região, propondo o que se convencionou chamar de “cronologia baixa“. Ou seja: o que se atribuía ao século XI é da metade do século X e o que era datado na época de Salomão deve ser visto como pertencendo ao século IX a.C. Isto gerou grande debate no meio acadêmico e numerosos estudos foram publicados. Posições a favor e contra podem ser vistas no livro de 2007 que traz o debate entre Israel Finkelstein e Amihai Mazar. Esta é uma área complexa, pois envolve detalhes técnicos sobre datação por radiocarbono, difíceis para quem não é especialista. E também porque as discordâncias de Finkelstein e Mazar são sobre as interpretações dos dados e não sobre os dados em si.

Enfim, a “cronologia baixa” de Finkelstein sugere que não existiu uma monarquia unida, enquanto a “cronologia convencional modificada” de Mazar sugere uma monarquia unida na forma de um Estado incipiente e não um poderoso reino como diz a narrativa bíblica. Lembrando que muitos estudiosos têm se posicionado sobre esta questão com soluções variadas. Como Mahri Leonard-Fleckman em 2016 e Ze’ev Herzog & Lily Singer-Avitz em 2006.

Como Megan Bishop Moore e Brad E. Kelle observaram em 2011, não há evidência clara de Davi ou de suaMOORE, M. B.; KELLE, B. E. Biblical History and Israel’s Past: The Changing Study of the Bible and History. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2011, xvii + 518 p. atividade fora da Bíblia. Se ele existiu, terá sido apenas mais um chefe local na região montanhosa da Judeia. Talvez um dia Davi desapareça da história como desapareceram patriarcas, matriarcas e êxodo, mas atualmente ele continua a ser tratado pelos historiadores como um personagem real, embora bem menor do que aparece nos relatos bíblicos.

O personagem Davi e seu papel na literatura bíblica, muito mais do que o Davi histórico, tem ocupado alguns pesquisadores, como Ian D. Wilson em 2016. Ou a Jerusalém da época de Davi, como Daniel Pioske em 2015. Sem esquecer John Van Seters que, em 2009, investiga as razões da reinvenção da saga de Davi por autores da época persa.

 

4. Os dois reinos, Israel e Judá, e o exílio babilônico

Qual pesquisador ousaria, cinquenta anos atrás, escrever uma história que resgata o reino “esquecido” de Israel Norte como uma realidade totalmente distinta e independente de Judá? A falência da ideia de uma monarquia unida, vista no item anterior, ajudou a encaminhar a pesquisa nesta direção. Quer um bom exemplo? Israel FINKELSTEIN, I. O reino esquecido: arqueologia e história de Israel Norte. São Paulo: Paulus, 2015, 232 p.Finkelstein em seu livro Le Royaume biblique oublié, de 2013, em francês, publicado no mesmo ano também em inglês como The Forgotten Kingdom: The Archaeology and History of Northern Israel, e em português, em 2015, como O reino esquecido: arqueologia e história de Israel Norte. A mesma coisa pode ser dita de Daniel E. Fleming, 2012.

Abordagens que usam fontes extrabíblicas, especialmente neoassírias, são as que mais claramente recuperam Israel Norte como um lugar historicamente distinto de Judá. Assim Mario Liverani, em 2003 [Para além da Bíblia: História antiga de Israel. São Paulo: Loyola/Paulus, 2008] e Axel Knauf & Philippe Guillaume, 2016.

Muitos ensaios apresentados em congressos têm sido publicados. Por exemplo, as obras coordenadas por Lester L. Grabbe, em 2007 e 2011, resultantes das discussões do Seminário Europeu sobre Metodologia Histórica que durou 16 anos reunindo um grupo seleto de especialistas e que abordou algumas das questões mais importantes da História de Israel [confira as muitas publicações do Seminário nesta bibliografia aqui]. Sem nos esquecermos das várias obras do próprio Lester L. Grabbe, como, por exemplo, Ancient Israel: What Do We Know and How Do We Know It? London: T & T Clark, 2007 [Revised Edition: 2017].

Valiosas contribuições sobre os séculos X e IX a.C. estão também na obra coordenada por H. G. M. Williamson, em 2007. Para o século VII a.C., vale conferir os estudos de C. L. Crouch, publicados em 2014 (aqui e aqui).

Para a época do exílio e além, Oded Lipschits publicou, com outros autores, uma série de estudos sobre Judá e os judeus da época neobabilônica (2003 e 2005) e da época persa (2006 e 2011). Ainda sobre o exílio e a restauração: Brad E. Kelle et alii, 2011; Gary N. Knoppers et alii, 2009; Bob Becking et alii, 2009.

GRABBE, L. L. Ancient Israel: What Do We Know and How Do We Know It?. London: T&T Clark, 2007; Revised Edition: 2017, 352 p. É importante notar que o mito da terra vazia foi denunciado em vários estudos. A ideia de que com o exílio dos judaítas para a Babilônia em 586 a.C. o território de Judá teria ficado vazio não se sustenta. Isto foi abordado desde 1996 por Hans M. Barstad. O tema voltou a ser tratado por ele, em 2008, e por outros, como Bob Becking et alii, em 2009; J. A. Middlemas, em 2009; Oded Lipschits &  J. Blenkinsopp, em 2003. O mito da terra vazia com a destruição do reino do norte em 722 a.C. também começa a ser estudado, como mostram M. Dijkstra & K. Vriezen, em 2014.

Finalmente, para terminar este item, o autor chama a atenção para o estudo de Uriah Y. Kim, Decolonizing Josiah: Toward a Postcolonial Reading of the Deuteronomistic History, de 2005. Ele denuncia a influência de nosso modo de fazer história moderna no Ocidente sobre o modo como entendemos a historiografia deuteronomista. O propósito do Deuteronomista jamais teria sido o de narrar os fatos tais como aconteceram, mas muito mais o de afirmar o espaço, talvez muito subjetivo, conquistado por Josias e sua corte no contexto do imperialismo assírio.

 

5. A época persa

A época persa tem sido extensamente reavaliada nos estudos da última década. Se há uma mudança de paradigma nos estudos, é aqui que ela acontece. Propostas estão sendo abandonadas, como a de uma “revolução religiosa” no Yehud ou, pelo menos parcialmente, a teoria da Autorização Imperial Persa. Estas propostas podem ser conferidas em E. Stern, 1999, 2006, 2010; Christian Frevel et alii, 2014; James W. Watts, 2001.

DAVIES, P. R. ; RÖMER, T. (eds.) Writing the Bible: Scribes, Scribalism and Script. Abingdon: Routledge, 2014, 224 p. Constata-se que na época persa surgiu um significativo interesse pelo passado, presente na visão bíblica da história que então se desenvolveu. Assim, têm sido publicados muitos estudos recentes sobre o período persa, considerado como época crucial para a formação textual de todos os tipos, incluindo o Tetrateuco, Pentateuco, Hexateuco e Eneateuco, bem como de outros materiais que tentam pensar a identidade judaica.

Por exemplo: Erhard Blum, em T.B. Dozeman ; K. Schmid (eds.), A Farewell to the Yahwist? The Composition of the Pentateuch in Recent European Interpretation (2006) e em  T. B. Dozeman ; T. Römer ; K. Schmid (eds.), Pentateuch, Hexateuch or Enneateuch? Identifying Literary Works in Genesis through Kings (2011); J. C. Gertz, em T. B. Dozeman ; K. Schmid (eds.), A Farewell to the Yahwist? The Composition of the Pentateuch in Recent European Interpretation (2006); Thomas Römer, em Joel S. Baden (ed.), The Strata of the Priestly Writings: Contemporary Debate and Future Directions (2009); Konrad Schmid, 2007, 2012a e 2012b; Thomas Römer & M.Z. Brettler, 2000; E. Ben Zvi, 2011; David S. Vanderhooft, 2011; J. Berquist, 2006.

A Obra do Cronista também tem sido reavaliada. O Cronista sempre foi relegado a segundo plano, quando comparado com a Obra Histórica Deuteronomista quanto à sua peculiar reconstrução histórica. Mas hoje, como sugere E. Ben Zvi, em 2009, podemos avaliar o seu poderoso senso de centralidade “etnocultural”, que parece ter sido uma característica da época persa. O Cronista queria apresentar aos seus leitores uma visão diferente da perspectiva Deuteronomista. Por isso suas divergências.

Outros chamam a atenção para os erros e contradições do livro de Esdras, ao mesmo tempo em que defendem a historicidade das memórias de Neemias (Ne 1,1-7,5; 12-13). Assim, Lester L. Grabbe, 1998; David M. Carr, 2011; J. Blenkinsopp, em James W. Watts (ed.), Persia and Torah: The Theory of Imperial Authorization of the Pentateuch (2001).

Tudo isso nos mostra que, para compreendermos a reconstrução pós-exílica, devemos olhar menos o período imediato após a ascensão de Ciro, no século VI a.C., e muito mais o final da época persa, ou seja, o final do século V e o começo do seculo IV a.C. Nesta época é que teria ocorrido a “recuperação” do passado de Israel pelos autores bíblicos.

Observa-se, então, que os principais estudos da época persa não buscam a descoberta de novos dados, embora isto também tenha ocorrido, mas a interpretação de dados já conhecidos com métodos mais adequados. Como observa Ian D. Wilson, em 2016, a questão não é se alguns corpora bíblicos contêm material que remonta à Idade do Ferro, o que já foi demonstrado, mas como este material está representado nas formas discursivas pós-monárquicas. O que parece ser urgente é a construção de um modelo mais eficaz que consiga relacionar a história das tradições bíblicas com a construção de sua narrativa em um tempo determinado por um limitado grupo de atores.

Neste sentido trabalha K. L. Noll, em 2008, quando questiona o alcance das tradições bíblicas: em que proporção as tradições bíblicas chegaram às pessoas que viveram naquela época e naquela região? Parece cada vez mais claro, por exemplo, que muitas tradições nunca chegaram em Elefantina. Philip R. Davies e Thomas Römer, em 2014, também discutiram isso. Os ensaios desta obra tratam da divulgação de textos, da formação de livros e cânones e dos efeitos sociais e políticos da escrita e do conhecimento textual. As questões centrais discutidas incluem o status do escriba, a natureza da “autoria”, a relação entre copiar e redigir e o status relativo do conhecimento oral e escrito.

Quanto tempo demorou para a Bíblia se tornar, não apenas canônica, mas “sagrada”? Quer dizer: tratada com o SATLOW, M. How the Bible Became Holy. New Haven: Yale University Press, 2014, 416 p. respeito devido às Escrituras como autoridade última e como algo que não poderia mais ser alterado. Datas limites para a canonização têm sido apresentadas de maneira consistente, mas a questão da “sacralidade” está apenas começando a ser tratada. Michael L. Satlow, em 2014, aborda isso.

Os estudos de Eva Mroczek, de 2015 e 2016, sobre a cultura literária extrabíblica, em épocas em que tipicamente se presumia uma “hegemonia do bíblico”, são importantes. Thomas Römer também estudou, em 2012, a relação entre as narrativas bíblicas e o mundo mais vasto dos textos judaicos posteriores.

No último parágrafo do artigo, Andrew Tobolowsky nos diz que estes estudos não apenas descrevem o que está sendo pesquisado sobre a época persa e sua literatura, mas nos indicam o rumo que as pesquisas estão tomando. Devemos continuar enfrentando estas questões, tentando descobrir o que significa uma visão bíblica de história criada em um contexto específico por um conjunto específico de razões. E são diferentes interpretações de uma mesma história. Mais: histórias que levaram algum tempo para se tornar um relato significativo das vivências de Israel. Conhecer isso determinará o modo como contaremos a história, ou melhor, as histórias de Israel. Isto está apenas começando.

> Este texto foi publicado também no Observatório Bíblico a partir de 15.10.2018.

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Última atualização: 01.09.2020 – 15h30

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