A ciência e as religiões

Em artigo publicado na Folha de S. Paulo de 22/02/2009 e reproduzido por Notícias – IHU On-Line no mesmo dia, Marcelo Gleiser, professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover, NH, USA, reflete sobre a relação entre a ciência e as religiões por ocasião das comemorações que lembram os feitos de Darwin e Kepler. E Galileu.

No início do artigo, ele diz:
Como escrevi em colunas recentes, neste ano celebramos dois grandes aniversários. O primeiro, o bicentenário do nascimento de Charles Darwin e o sesquicentenário da publicação de seu revolucionário “A Origem das Espécies”. O segundo, os quatrocentos anos da publicação do livro “Astronomia Nova”, em que Johannes Kepler mostrou que a órbita de Marte é elíptica, inferindo que todas as outras seriam também. No mesmo ano, 1609, Galileu Galilei apontou o seu telescópio para os céus mudando a astronomia para sempre. Em ambos os casos, as descobertas científicas criaram sérios atritos com as autoridades religiosas. Atritos que, infelizmente, sobrevivem de alguma forma até hoje, principalmente com as religiões monoteístas que dominam o mundo ocidental e o Oriente Médio: judaísmo, cristianismo e islamismo. O momento é oportuno para iniciarmos uma reavaliação das suas causas e apontar, talvez, resoluções.

E termina assim:
Fechar os olhos para os avanços da ciência é escolher um retorno ao obscurantismo medieval, quando homens viviam suas vidas assombrados por espíritos e demônios, subjugados pelo medo a aceitar a proteção de Deus. A escolha por uma devoção religiosa – se é essa a sua escolha – não deveria ser produto do medo. No fim de semana passado, a catedral de São Paulo em Melbourne, Austrália, ofereceu um simpósio sobre Darwin. Nos EUA, outro simpósio reuniu cerca de 800 pastores e rabinos para discutir modos de reconciliação entre ciência e religião. Parece que finalmente um novo diálogo está começando. Já era tempo.

 

O artigo

Como escrevi em colunas recentes, neste ano celebramos dois grandes aniversários. O primeiro, o bicentenário do nascimento de Charles Darwin e o sesquicentenário da publicação de seu revolucionário “A Origem das Espécies”. O segundo, os quatrocentos anos da publicação do livro “Astronomia Nova”, em que Johannes Kepler mostrou que a órbita de Marte é elíptica, inferindo que todas as outras seriam também.

No mesmo ano, 1609, Galileu Galilei apontou o seu telescópio para os céus mudando a astronomia para sempre.

Em ambos os casos, as descobertas científicas criaram sérios atritos com as autoridades religiosas. Atritos que, infelizmente, sobrevivem de alguma forma até hoje, principalmente com as religiões monoteístas que dominam o mundo ocidental e o Oriente Médio: judaísmo, cristianismo e islamismo. O momento é oportuno para iniciarmos uma reavaliação das suas causas e apontar, talvez, resoluções.

Simplificando, pois temos apenas algumas linhas, o problema maior não começa no embate entre a ciência e a religião. Começa no embate entre as religiões. Existe uma polarização cada vez maior já dentro das religiões entre correntes mais ortodoxas e aquelas mais liberais. As diferenças são enormes. Por exemplo, no caso do judaísmo, podemos hoje encontrar rabinas liderando congregações, algo que enfureceria ao meu avô e a seus amigos.

Nos EUA, algumas correntes protestantes, como os episcopélicos, têm pastores e bispos abertamente homossexuais. Nessas correntes mais liberais dentre as religiões se vê também uma relação completamente diferente com a ciência.

Em vez do radicalismo imposto por uma interpretação liberal da Bíblia, as correntes mais liberais tendem a ver o texto bíblico de forma simbólica, como uma representação metafórica de acontecimentos e fatos passados com o intuito -dentre outros- de fornecer uma orientação moral para a população. (A questão da necessidade de um código moral de origem religiosa deixo para outro dia.)

Escuto pastores e rabinos afirmarem regularmente que é absurdo insistir que a Terra tenha menos de 10 mil anos ou que Adão e Eva surgiram da terra. Para um número cada vez maior de congregações, é fútil fechar os olhos para os avanços da ciência.

Para eles, a preservação dos valores religiosos, da coesão de suas congregações depende de uma modernização de suas posições de modo que possam refletir o mundo em que vivemos hoje e não aquele em que pessoas viviam há dois mil anos.

O mundo mudou, a sociedade mudou, a religião também deve mudar.

Insistir na rigidez da ortodoxia é condenar a congregação a viver no passado, numa realidade incompatível com a sociedade moderna. Se o pastor ou rabino ortodoxo tem câncer e recebe terapia de radiação, ele deve saber que é essa mesma radiação que permite a datação de fósseis com centenas de milhões de anos. É hipocrisia aceitar a cura da radiação nuclear e ainda assim negar os seus outros usos.

Fechar os olhos para os avanços da ciência é escolher um retorno ao obscurantismo medieval, quando homens viviam suas vidas assombrados por espíritos e demônios, subjugados pelo medo a aceitar a proteção de Deus. A escolha por uma devoção religiosa -se é essa a sua escolha- não deveria ser produto do medo.

No fim de semana passado, a catedral de São Paulo em Melbourne, Austrália, ofereceu um simpósio sobre Darwin. Nos EUA, outro simpósio reuniu cerca de 800 pastores e rabinos para discutir modos de reconciliação entre ciência e religião. Parece que finalmente um novo diálogo está começando. Já era tempo.

Fonte: Notícias – IHU On-Line: 22/02/2009

Ditabranda? Existe isso?

O conceito de “ditabranda”, tão falso quanto uma nota de R$ 3, foi repudiado por centenas leitores da Folha e personalidades como a professora Maria Victória Benevides e o jurista Fábio Konder Comparato.

Pois é. Confira aqui

 

Folha classifica regime militar como “ditabranda”

Publicado por Paulo Kautscher em 20 fevereiro 2009

Limites a Chávez, diz Folha em editorial

Editorial da Folha de S. Paulo (*)

Apesar da vitória eleitoral do caudilho venezuelano, oposição ativa e crise do petróleo vão dificultar perpetuação no poder

O ROLO compressor do bonapartismo chavista destruiu mais um pilar do sistema de pesos e contrapesos que caracteriza a democracia. Na Venezuela, os governantes, a começar do presidente da República, estão autorizados a concorrer a quantas reeleições seguidas desejarem.

Hugo Chávez venceu o referendo de domingo, a segunda tentativa de dinamitar os limites a sua permanência no poder. Como na consulta do final de 2007, a votação de anteontem revelou um país dividido. Desta vez, contudo, a discreta maioria (54,9%) favoreceu o projeto presidencial de aproximar-se do recorde de mando do ditador Fidel Castro.

Outra diferença em relação ao referendo de 2007 é que Chávez, agora vitorioso, não está disposto a reapresentar a consulta popular. Agiria desse modo apenas em caso de nova derrota. Tamanha margem de arbítrio para manipular as regras do jogo é típica de regimes autoritários compelidos a satisfazer o público doméstico, e o externo, com certo nível de competição eleitoral.

Mas, se as chamadas “ditabrandas” -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.

Em dez anos de poder, Hugo Chávez submeteu, pouco a pouco, o Legislativo e o Judiciário aos desígnios da Presidência. Fechou o círculo de mando ao impor-se à PDVSA, a gigante estatal do petróleo.

A inabilidade inicial da oposição, que em 2002 patrocinou um golpe de Estado fracassado contra Chávez e depois boicotou eleições, abriu caminho para a marcha autoritária; as receitas extraordinárias do petróleo a impulsionaram. Como num populismo de manual, o dinheiro fluiu copiosamente para as ações sociais do presidente, garantindo-lhe a base de sustentação.

Nada de novo, porém, foi produzido na economia da Venezuela, tampouco na sua teia de instituições políticas; Chávez apenas a fragilizou ao concentrar poder. A política e a economia naquele país continuam simplórias -e expostas às oscilações cíclicas do preço do petróleo.

O parasitismo exercido por Chávez nas finanças do petróleo e do Estado foi tão profundo que a inflação disparou na Venezuela antes mesmo da vertiginosa inversão no preço do combustível. Com a reviravolta na cotação, restam ao governo populista poucos recursos para evitar uma queda sensível e rápida no nível de consumo dos venezuelanos.

Nesse contexto, e diante de uma oposição revigorada e ativa, é provável que o conforto de Hugo Chávez diminua bastante daqui para a frente, a despeito da vitória de domingo.

(*) Editorial da Folha de S. Paulo publicado na edição de 17/02/09

 

Em resposta ao editorial da Folha, publicado no último dia 17, em que classificou o regime militar vigente no Brasil entre 1965 e 1984 como uma “ditabranda”, um grupo de intelectuais lançou, no último sábado (21), um manifesto e abaixo-assinado em “repúdio à arbitrária e inverídica revisão histórica”

Diversidade linguística ameaçada

Metade das mais de 6 mil línguas do mundo está ameaçada, diz Unesco – DW: 21.02.2009

Unesco lançou nova edição do Atlas Mundial de Línguas em Perigo de Desaparecimento. No Dia Internacional da Língua Materna, linguista alemão vê relação entre pluralidade linguística e preservação da biodiversidade.

Atlas Mundial de Línguas em Perigo de DesaparecimentoNeste sábado (21/02) comemora-se o Dia Internacional da Língua Materna. O dia foi instituído em 1999 pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) para a chamar a atenção sobre a importância da diversidade cultural e linguística no planeta.

A preocupação da Unesco se volta principalmente para as línguas faladas por menos de 10 mil pessoas. Na última quinta-feira, na sede da organização da ONU em Paris, foi lançada a nova edição do Atlas Mundial de Línguas em Perigo de Desaparecimento. O atlas contém informações atualizadas sobre mais de 2.500 idiomas ameaçados em todo o mundo.

O Atlas da Unesco classifica as línguas ameaçadas em cinco diferentes categorias: mortas, fracas, seriamente em perigo, em perigo ou em situação precária. Sua realização foi possível graças à contribuição financeira do governo da Noruega, informou a organização.

 

Mais de 200 línguas desapareceram

Segundo a Unesco, metade das 6.700 línguas faladas em todo o mundo está ameaçada. Dessas, 199 são faladas hoje por menos de uma dúzia de pessoas, como o wichita, língua de 10 habitantes do estado norte-americano de Oklahoma. Na Indonésia vivem os últimos quatro falantes de lengilu.

A organização da ONU informou que, durante as três últimas gerações, mais de 200 línguas desapareceram, tais como o ubykh, uma língua da região do Cáucaso extinta em 1992, quando o último falante do idioma, o fazendeiro turco Tefvic Esenc, faleceu.

Na Europa, o Reino Unido tem 12 línguas em perigo; a Alemanha, 13; e a França, 26. De acordo com a nova edição do Atlas da Unesco, no topo da lista dos países com maior número de línguas ameaçadas aparecem a Índia (196), os Estados Unidos (192) e, em terceiro lugar, o Brasil (190).

 

Apoio governamental à diversidade linguística

A Unesco constatou também que algumas línguas antes em perigo vivenciam hoje uma renascença. Entre essas está o córnico, idioma celta da região da Cornualha, sul da Inglaterra, e o sishee, da Nova Caledônia, arquipélago da Oceania.

O linguista australiano Cristopher Moseley, que dirigiu o grupo de 25 pessoas responsável pelo Atlas, constatou que países com rica diversidade linguística, como a Índia, os EUA e o Brasil, também sofrem o maior perigo de extinção de idiomas.

A Unesco saúda os esforços de países como Peru, Nova Zelândia, Estados Unidos e México que, com sucesso, têm impedido a extinção de línguas indígenas. A vice-diretora de Cultura da Unesco, Françoise Rivière, reconhece o apoio governamental à diversidade linguística, mas acresce que “as pessoas têm que ter orgulho do idioma que falam” para que esse floresça.

 

Biodiversidade e a pluralidade linguística

No arquipélago da Nova Guiné é onde se falam o maior número de línguas no mundo. Papua-Nova Guiné, país da Oceania e que faz parte do arquipélago, é uma exceção entre aqueles com grande diversidade lingüística, pois, segundo o Atlas da Unesco, somente 98 idiomas estariam ali ameaçados.

O linguista alemão Harald Haarmann vê aí uma relação entre a preservação da biodiversidade e a pluralidade linguística. Ele explica que, com a devastação da natureza, segue-se a destruição dos povos indígenas – e de sua língua.

Segundo Haarmann, no arquipélago de Nova Guiné existiriam mais de mil línguas e uma grande variedade de espécies da fauna e da flora. A razão, segundo o cientista, estaria no fato de que a região não é atraente para estrangeiros nem tem recursos naturais. Lá existiriam duas estações: no verão chove e no inverno chove mais ainda, afirmou.

Em consequência, durante séculos, o arquipélago de Nova Guiné permaneceu isolado. O efeito foi a preservação das espécies vegetais e animais, como também da cultura e das línguas dos pequenos povos, disse Haarmann.

 

O Brasil tem 190 línguas indígenas em perigo de extinção – Leticia Mori: BBC – 4 março 2018

Moradores da fronteira do Brasil com a Bolívia, o casal Känä́tsɨ, de 78 anos, e Híwa, de 76, são os dois últimos falantes ativos da língua warázu, do povo indígena Warazúkwe.

Os dois se expressam mal em castelhano e português, e conversam entre si somente em warázu – embora seus filhos e netos que moram com eles falem em português e espanhol.

“Aquela casa desperta, para quem entra nela, uma sensação incômoda de estranheza, como se o casal idoso que vive nela viesse de outro planeta, de um mundo que eles nunca poderão ressuscitar”, escrevem os pesquisadores Henri Ramirez, Valdir Vegini e Maria Cristina Victorino de França em um estudo publicado na revista Liames, da Unicamp.

Com ajuda do casal idoso, esses linguistas da Universidade Federal de Rondônia descreveram pela primeira (e possivelmente a última) vez o idioma do povo Warazúkwe.

Känä́tsɨ (à esq.) e Híwa falam entre si uma língua que só eles conhecem | Foto: Liames/Unicamp O casal nasceu em Riozinho, em Rondônia, mas a comunidade warazúkwe em que viviam foi abandonada nos anos 1960, forçando os dois a se mudar diversas vezes entre Brasil e Bolívia até terem se estabelecido em Pimenteiras (RO).

Segundo o estudo, além de Känä́tsɨ e Híwa, ainda haveria três pessoas que poderiam conhecer o idioma. Um deles, o irmão mais velho Känä́tsɨ, sumiu há anos. Os outros dois, Mercedes e Carmelo, vivem na Bolívia, mas já não conversam mais em warázu.

“Parece que a ‘vergonha étnica’ que os warazúkwe experimentaram foi tão intensa que Mercedes não gosta de proferir palavra alguma no seu idioma e Carmelo afirma que esqueceu tudo”, diz o estudo.

 

País multilíngue

Da família linguística tupi-guarani, o warázu é apenas uma de dezenas de línguas brasileiras em perigo de extinção.

Segundo o Atlas das Línguas em Perigo da Unesco, são 190 idiomas em risco no Brasil.

O mapa reúne línguas em perigo no mundo todo – e o Brasil é o segundo país com mais idiomas que podem entrar em extinção, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.

Adauto Soares, coordenador do setor de Comunicação e Informação da Unesco no Brasil, explica que o mapa foi feito com a colaboração de pesquisadores especialistas em cada região e entidades governamentais e não governamentais.

No Brasil, as principais entidades que colaboraram foram o Iphan, a Funai, a Unaids e o Museu do Índio.

Soares explica que foram usados diversos critérios para definir se uma língua está em risco: o número absoluto de falantes, a proporpoção dentro do total da população do país, se há e como é feita a transmissão entre gerações, a atitude dos falantes em relação à língua, mudanças no domínio e uso da linguagem, tipo e qualidade da documentação, se ela é usada pela mídia, se há material para educação e alfabetização no idioma.

“Essa quadro (de línguas em perigo) pode ser revertido, e é por isso que a gente atua”, diz Soares.

A morte de uma língua não é apenas uma questão de comunicação no dia a dia: a preservação da cultura de um povo depende da preservação do seu idioma. “Se a língua se perde, se perde a medicina, a culinária, as histórias, o conhecimento tradicional. No idioma estão a questão da identidade, o conhecimento do bosque, do mato, dos bichos”, explica o linguista Angel Corbera Mori, do Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp.

 

Mais ainda

O número de idiomas em risco pode ser ainda maior do que o apontado pela Unesco, porque é possível que algumas línguas, que nunca foram estudadas, tenham ficado de fora – o warázu, por exemplo, não está incluso no mapa.

Além disso, é possível que existam dezenas de línguas em perigo em comunidades isoladas, que nunca foram descritas.

Estima-se que, antes da colonização portuguesa, existissem cerca de 1,1 mil línguas no Brasil, que foram desaparecendo ao longo dos séculos, segundo Corbera.

Ele explica que durante o período colonial, os jesuítas começam a usar o tupi como uma espécie de língua geral – o que foi visto pela Coroa portuguesa como uma ameaça. O tupi – e posteriormente outras línguas indígenas – foram proibidos. E quem desobedecesse era castigado.

A perseguição continuou por séculos. Na era Vargas, por exemplo, o português era obrigatório nas escolas, e quem desrespeitasse também estava sujeito a punição.

“A situação só melhorou a partir da Constituição de 1988”, diz Corbera.

Segundo ele, uma das principais ameaças à língua hoje é a invasão dos territórios indígenas. “Políticas de preservação e registro da língua são importantes, mas não adiantam nada se eles não têm território, se são expulsos de suas terras”, diz Corbera.

Alguns grupos que foram perseguidos têm o único registro escrito de suas línguas em trabalhos em naturalistas que visitam o país nos séculos passados. É o caso da língua dos povos do grupo Panará – nomeados pelos colonizadores de Caiapós do Sul – do aldeamento de São José de Mossâmedes, em Goiás, no século 18.

A única descrição linguística dos povos que ocupavam esse aldeia é encontrada em listas de palavras dos europeus Emmanuel Pohl (1782-1834) e Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853), como descreve o linguista Eduardo Alves Vasconcelos em um artigo publicado no ano passado.

 

Os últimos

Uma das línguas que sobreviveram, ainda que em estado crítico, é o guató. O idioma tinha, em 2006, apenas cinco falantes, de acordo com a Unesco.

Os Guatô ocupavam praticamente toda a região sudoeste do Mato Grosso, na fronteira com a Bolívia, até começaram a ser expulsos de suas terras entre 1940 e 1950, segundo o Intituto Sócio Ambiental (ISA), por causa do avanço da agropecuária.

Chegaram a ser considerados extintos pelo governo, por isso foram excluídos de programas de ajuda e políticas públicas, até meados dos anos 1970, quando missionários identificaram índios Guatô e o grupo começou a se reorganizar e lutar por reconhecimento.

Há línguas tidas como vulneráveis – possuem um número maior de falantes, mas ainda são consideradas em perigo. É o caso da língua guajajara, falada por um dos povos mais numerosos.

Há mais de 27 mil guajajaras no Brasil, segundo o sistema de informações do Ministério da Saúde. O guajajara é usado como primeira língua em muitas aldeias, mas nem todos os índios Guajajara falam o idioma. A língua guajajara pertence à família tupi-guarani e é subdividida em quatro dialetos.

 

Extintas

Das 190 línguas citadas pela Unesco, 12 já são consideradas extintas, ou seja, não têm mais nenhum falante vivo.

Uma das que foram extintas mais recentemente foi língua dos Umutina, povo indígena que vive no Mato Grosso.

Quando o Museu do Índio iniciou um trabalho de documentação de línguas, em 2009, ela ainda tinha falantes. Hoje está extinta, segundo a Unesco.

Os Umutina tiveram seu território invadido violentamente no início do século passado, segundo o ISA. Por isso acabaram perdendo sua terra tradicional e sua língua, que era do tronco linguístico Macro-Jê, da família Bororo.

Além disso, centenas de umutinas morreram devido a doenças levadas pelos brancos.

Os que sobreviveram às epidemias tiveram contato com o antigo SPI (Serviço de Proteção ao Índio, antecessor da Funai extinto em 1967). Eles foram educados em uma escola para índios que os proibia de falarem sua língua materna e de praticar qualquer tipo de atividade relacionada à sua cultura, segundo o ISA.

Hoje são 515 pessoas, de acordo com a Secretaria Especial de Saúde Indígena, que falam predominantemente português e tentam recuperar a língua com ajuda de idosos e universitários indígenas. Segundo Corbera, o muitas vezes não se consegue recuperar a língua toda, às vezes só o léxico.

“Mas é muito importante, até por questões de identidade”, conta ele.

PIB: 1909-2009

Fondato il 7 maggio 1909 dal papa Pio X con la lettera Apostolica Vinea Electa, il Pontificio Istituto Biblico festeggia nel 2009 il Centenario della sua fondazione. L’Istituto celebrerà questo evento con varie iniziative.

Veja o programa da comemoração do Centenário do Pontifício Instituto Bíblico de Roma.

 

Para conhecer a história do PIB, recomendo dois textos:

A novant’anni dalla fondazione del Pontificio Istituto Biblico – Conferenza tenuta dal Prof. Giacomo Martina in occasione del 90° anniversario del Pontificio Istituto Bíblico [07.05.1999]

Il Centenario dell’Istituto Biblico – Conferenza del Prof. Maurice Gilbert [testo italiano, inglese e francese] – Solenne atto accademico per il 100° Anniversario della fondazione dell’Istituto [07.05.2009].

Resenhas na RBL – 12.02.2009

As seguintes resenhas foram recentemente publicadas pela Review of Biblical Literature:

John M. G. Barclay and Simon Gathercole, eds.
Divine and Human Agency in Paul and His Cultural Environment
Reviewed by Stephan Joubert

George J. Brooke and Thomas Römer, eds.
Ancient and Modern Scriptural Historiography/L’Historiographie Biblique, Ancienne et Moderne
Reviewed by Ernst Axel Knauf

Maurice Casey
The Solution to the ‘Son of Man’ Problem
Reviewed by Paul Owen

David J. Chalcraft, ed.
Sectarianism in Early Judaism: Sociological Advances
Reviewed by Boris Repschinski

Martin Ebner, ed.
Herrenmahl und Gruppenidentität
Reviewed by Christoph Stenschke

Mary Ann Getty-Sullivan
Parables of the Kingdom: Jesus and the Use of Parables in the Synoptic Tradition
Reviewed by Dan O. Via

Rowan A. Greer and Margaret M. Mitchell
The “Belly-Myther” of Endor: Interpretations of 1 Kingdoms 28 in the Early Church
Reviewed by Thomas J. Kraus

Stefanie Ulrike Gulde
Der Tod als Herrscher in Ugarit und Israel
Reviewed by Matthew Suriano

Yigal Levin, ed.
A Time of Change: Judah and Its Neighbours in the Persian and Early Hellenistic Periods
Reviewed by Oded Lipschits

J. G. McConville and Karl Möller, eds.
Reading the Law: Studies in Honour of Gordon J. Wenham
Reviewed by Eckart Otto

Benjamin Edidin Scolnic
Thy Brother’s Blood: The Maccabees and Dynastic Morality in the Hellenistic World
Reviewed by Lester L. Grabbe

V. George Shillington
An Introduction to the Study of Luke-Acts
Reviewed by Nils Neumann

Stanley D. Walters
Go Figure! Figuration in Biblical Interpretation
Reviewed by Paul Elbert
Reviewed by Richard S. Briggs

Timothy L. Walton
Experimenting with Qohelet: A Text-Linguistic Approach to Reading Qohelet as Discourse
Reviewed by Andreas Wagner

Visite:
Review of Biblical Literature Blog

Charles Darwin Bicentenário

‘Salvem Darwin dos extremos’, afirma centro de pesquisas em teologia
Apenas 37% das pessoas no Reino Unido acreditam que a teoria da evolução de Darwin está “além de qualquer dúvida racional”, afirma o Theos, um centro de pesquisa público em teologia (…) Dos entrevistados, 32% acreditam que o Criacionismo da Terra Jovem (CTJ, “a crença de que Deus criou o mundo em algum momento dos últimos 10 mil anos) é tanto “definitivamente ou provavelmente verdadeiro”, e 51% dizem o mesmo a respeito do Design Inteligente (que o Theos define como “a idéia de que a evolução sozinha não é suficiente para explicar as complexas estruturas de algumas formas de vida, então a intervenção de um designer é necessária em estágios-chave”) (…) O fato de que esses dados não fazem sentido mostra como a população está confusa e geralmente se contradiz em suas opiniões, afirmam os autores do relatório “Rescuing Darwin” [Resgatando Darwin], Nick Spencer, diretor de estudos do Theos, e Denis Alexander, diretor do Faraday Institute for Science and Religion. Eles descrevem-no como um “triste estado das coisas”, em uma época em que a teoria é agora incontestável em círculos científicos e quando os avanços na genética fortaleceram-na. Os autores dizem que as razões para isso são complexas, mas parece estar na má-interpretação de que a ciência e a religião são, de alguma forma, descrições rivais da forma como o mundo funciona, ou explicações concorrentes para o mistério da vida. Eles chamam a atenção para o agnosticismo autoproclamado de Darwin, a rejeição explícita da idéia de que a evolução necessitaria do ateísmo e o comprometimento respeitoso com todos no debate – um espírito que descrevem como “muito em falta” nas discussões atuais. “A posição de Darwin e o seu espírito de engajamento precisam ser resgatados do fogo cruzado da batalha entre os religiosos militantes e os ateus militantes, que, apesar de serem pólos opostos em tantas questões, parecem concordam que a evolução ameaça a crença em Deus”…

Fonte: IHU – 15/02/2009

Leia também:
:: Conferência no Vaticano fará estudo crítico sobre design inteligente – Notícias – IHU On-Line: 15/02/2009
Uma conferência organizada pelo Vaticano sobre evolução irá incluir um estudo crítico da teoria do design inteligente, que, dizem os organizadores, representa uma teologia e ciência pobres.

:: Um feliz aniversário cristão-progressista para Charles Darwin – Notícias – IHU On-Line: 15/02/2009
Susan Brooks Thistlethwaite, professora e ex-presidente do Chicago Theological Seminary e membro sênior do Center for American Progress, publicou artigo em que analisa o amplo legado de Darwin e critica a postura dos “cristãos conservadores”, cujo enfoque na evolução “é muito mais político do que puramente teológico”.

:: Brasil tem comemorações darwinianas; saiba onde e quando – Folha Online: 12/02/2009

:: Acompanhe passo a passo como foi a viagem de Darwin pelo mundo – Folha Online: 12/02/2009

Literatura Pós-Exílica 2009: tempo sem fronteiras

A Literatura Pós-Exílica é estudada no segundo semestre do segundo ano de Teologia no CEARP. Com enorme abrangência e carga horária limitada, apenas 4 horas semanais, esta disciplina aborda 4 momentos:
1. Os profetas exílicos e pós-exílicos: de Ezequiel a Joel
2. Romance, novela, conto: de Rute a Judite
3. Historiografia: a Obra Histórica do Cronista e 1 e 2 Macabeus
4. A literatura apocalíptica: Daniel e os apocalípticos apócrifos (ou pseudepígrafos).

São privilegiados, pelo minguado do tempo, os momentos 2 e 4. Os profetas são vistos mais rapidamente, pois o profetismo já foi estudado no primeiro semestre; e, infelizmente, a historiografia é apenas mencionada. Já o item 2 é fundamental para se entender o complexo universo de conflitos em que se busca uma identidade judaica – que acaba plural – e o item 4, a apocalíptica, é a porta que deve ser cuidadosamente aberta para a entrada, no semestre seguinte, em o mundo do Novo Testamento.

Dispostos cronologicamente os livros, teríamos o seguinte panorama desta enorme literatura:
1. Os profetas exílicos e pós-exílicos
Ezequiel: 593-571 a.C.
Dêutero-Isaías: cerca de 550
Ageu: 29.8 a 18.12.520
Zacarias 1-8: 18.12.520 a 7.12.518
Isaías 56-66: entre 520 e 510
Malaquias: entre 480 e 450
Zacarias 9-14: final séc. IV – início séc. III
Joel: séc. IV ou III

2. Romance, novela, conto
Rute: ca. 450 a.C.
Jonas: ca. 450
Ester (hebr.): ca. 350
Tobias: ca. 200
Judite: ca. 150

3. Historiografia
OHCr: 1 e 2 Crônicas, Esdras e Neemias: séc. IV a. C.
1 e 2 Macabeus: entre 90 e 70

4. A literatura apocalíptica (seleção)
Daniel: 164 a. C.
O livro etiópico de Henoc: séc. II-63 a.C.
O livro eslavo de Henoc: séc. I d.C.
O livro dos Jubileus: 100 a.C.
Os Salmos de Salomão: 63-40 a.C.
Os Testamentos dos 12 Patriarcas: 130-63 a.C.
Os Oráculos Sibilinos: séc. I a.C.
Assunção de Moisés: 30 a.C.-30 d.C.
O Apocalipse siríaco de Baruc: 75-100 d.C.
O IV livro de Esdras: fim do séc. I d.C.

I. Ementa
Procura compreender a vivência dos judaítas no exílio, lendo os profetas Ezequiel e Dêutero-Isaías. De igual modo, no pós-exílio, através do estudo dos profetas da reconstrução, tais como Ageu, Zacarias, Trito-Isaías e outros. Aborda também os romances, novelas e contos (Rute, Jonas, Ester, Tobias, Judite), que apontam para a construção de uma identidade judaica, tanto dentro do país como na diáspora. A literatura histórica da época, através da Obra Histórica do Cronista (1 e 2 Crônicas, Esdras e Neemias), também é tratada. Finalmente, a significativa literatura apocalíptica, tanto canônica, como Daniel, quanto apócrifa, até Qumran. É um momento privilegiado para a preparação dos estudos neotestamentários, no contexto dos domínios persa, grego e romano sobre a Palestina. O multifacetado encontro entre o judaísmo e o helenismo é abordado em detalhes.

II. Objetivos
Possibilita ao aluno conhecer a complexidade dos vários judaísmos surgidos no pós-exílio, suas teologias e o ambiente carregado de especulações apocalípticas em que se deu a pregação de Jesus e a escrita do Novo Testamento.

III. Conteúdo Programático
1. Os profetas exílicos e pós-exílicos

  • Ezequiel
  • Dêutero-Isaías (Is 40-55)
  • Ageu
  • Zacarias 1-8
  • Trito-Isaías (Is 56-66)
  • Malaquias
  • Zacarias 9-14
  • Joel

2. Romance, novela, conto

  • Rute
  • Jonas
  • Ester
  • Tobias
  • Judite

3. Historiografia

  • A obra histórica do Cronista (1 e 2 Crônicas, Esdras e Neemias)
  • 1 e 2 Macabeus

4. A literatura apocalíptica

  • Daniel
  • Os apócrifos apocalípticos

IV. Bibliografia
Básica
ARANDA PÉREZ, G. et al. Literatura Judaica Intertestamentária. São Paulo: Ave-Maria, 2000, 522 p. – ISBN 8527606097.

SCHÖKEL, L. A.; SICRE DIAZ, J. L. Profetas 2v. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2002-2004, 1416 p. I: – ISBN 8505006992; II: – ISBN 8534919917.

SICRE, J. L. Profetismo em Israel: O Profeta, os Profetas, a Mensagem. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2008, 540 p. – ISBN 8532615880.

Complementar
ABADIE, P. O Livro de Esdras e de Neemias. São Paulo: Paulus, 1998, 80 p. – ISBN 8534911657.

ABADIE, P. O Livro das Crônicas. São Paulo: Paulus, 1998, 79 p. – ISBN 8534909318.

COLLINS, J. J.; McGINN, B.; STEIN, S. J. (eds.) Continuum History of Apocalypticism. New York: Continuum, 2003, 720 p. – ISBN 9780826415202.

COLLINS, J. J. The Apocalyptic Imagination. An Introduction to Jewish Apocalyptic Literature. 2. ed. Grand Rapids, MI/Cambridge, U.K.: Eerdmans, 1998, xiii + 337 p. – ISBN 9780802843715.

DA SILVA, A. J. Apocalíptica: busca de um tempo sem fronteiras. Acesso em: 05 fevereiro 2009.

DA SILVA, A. J. Leitura socioantropológica do Livro de Rute. Estudos Bíblicos n. 98. Petrópolis: Vozes, 2008, p. 107-120.

DIEZ MACHO A. et al. Apócrifos del Antiguo Testamento I-V. Madrid: Cristiandad, 1982-1987.

GARCÍA MARTÍNEZ, F. Textos de Qumran: Edição Fiel e Completa dos Documentos do Mar Morto. Petrópolis: Vozes, 1995, 582 p. – ISBN 8532612830.

GARCÍA MARTÍNEZ, F.; TREBOLLE BARRERA, J. Os Homens de Qumran: Literatura, Estrutura e Concepções Religiosas. Petrópolis: Vozes, 1996, 299 p. – ISBN 8532616518.

JOSEFO, F. História dos Hebreus: obra completa. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 1992, 1568 p. – ISBN 8526306413.

KILPP, N. Jonas. São Paulo: Loyola, 2008, 120 p. – ISBN 9788515035472.

KIPPENBERG, H. G. Religião e formação de classes na antiga Judeia: estudo sociorreligioso sobre a relação entre tradição e evolução social. São Paulo: Paulus, 1997, 184 p. – ISBN 8505006798.

KONINGS, J.; RIBEIRO, S. H. et al. Bíblia: Teoria e Prática. Leituras de Rute. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 98, 2008.

LACOCQUE, A. Le Livre de Ruth. Genève: Labor et Fides, 2004, 154 p. – ISBN 2830911083.

MEIN, A. Ezekiel and the Ethics of Exile. Oxford: Oxford University Press, 2006, xii + 298 p. – ISBN 9780199291397.

MESTERS, C. Como ler o livro de Rute: pão, terra, família. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 80 p. – ISBN 8534906297.

REIMER, H. et al. Segundo Isaías: Is 40-55. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 89, 2006.

RUSSEL, D. S. Desvelamento Divino. Uma Introdução à Apocalíptica Judaica. São Paulo: Paulus, 1997, 196 p. – ISBN 8534909792.

SHIGEYUKI N.; DE PAULA PEDRO, E. Como ler o livro de Malaquias: defender a tradição ou a vida? 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 76 p. – ISBN 8534908648.

SOLANO ROSSI, L. A. Como ler o livro de Zacarias: o profeta da reconstrução. São Paulo: Paulus, 2000, 56 p. – ISBN 8534916756.

STORNIOLO, I. Como ler o livro de Daniel: reino de Deus x Imperialismo. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 104 p. – ISBN 8534903131.

STORNIOLO, I. Como ler o livro de Ester: o poder a serviço da justiça. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 72 p. – ISBN 8534904715.

STORNIOLO, I.; BORTOLINI, J. Como ler o livro de Tobias: a família gera vida. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 64 p. – ISBN 8534901651.

STORNIOLO, I. Como ler o livro de Judite: a viúva que salvou o seu povo. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 96 p. – ISBN 8534902909.

WIÉNER, C. O profeta do novo êxodo: o Dêutero-Isaías. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 88 p. – ISBN 8534904227.

Leia Mais:
Em busca da competência hermenêutica
O hábito da vigilância hermenêutica: métodos
História de Israel 2009: o pouco que sabemos
Pentateuco 2009: ainda sem um novo consenso
Literatura Deuteronomista 2009: o desafio
Literatura Profética 2009: A Voz Necessária

Literatura Profética 2009: A Voz Necessária

Dando continuidade à exposição dos programas das disciplinas bíblicas que leciono na Teologia, abordarei agora a Literatura Profética, que é estudada no primeiro semestre do segundo ano de Teologia, com carga horária semanal de 4 horas. A Literatura Profética trabalha, além de questões globais do profetismo, uma seleção de textos dos profetas pré-exílicos. O texto que orienta a maior parte do estudo é o meu livro A Voz Necessária. Os profetas do exílio e do pós-exílio são estudados na Literatura Pós-Exílica, que vem logo no semestre seguinte.

I. Ementa
A disciplina apresenta, como ponto de partida, uma discussão sobre as origens, o teor e os limites do discurso profético israelita. Busca compreender a necessidade da profecia como resultado da ruptura provocada pelo surgimento do Estado monárquico que pressiona as tradicionais estruturas tribais de solidariedade. Aborda, em seguida, os profetas pré-exílicos, de Amós a Jeremias, passando por Oseias, Isaías, Miqueias, Habacuc e outros. Cada um é tratado no seu contexto, nas características de sua atuação e textos escolhidos são lidos. Procura-se identificar em cada um deles a sua função de crítica e de oposição ao absolutismo do Estado classista, em nome da fé em Iahweh, que exige um posicionamento solidário em favor dos mais fracos.

II. Objetivos
Coloca em discussão as características e a função do discurso profético e confronta os textos dos profetas pré-exílicos com o contexto da época, possibilitando ao aluno uma leitura atualizada e crítica dos textos proféticos em confronto com a realidade contemporânea e suas exigências.

III. Conteúdo Programático
1. A origem do movimento profético em Israel
2. O teor do discurso profético
3. Os profetas pré-exílicos

  • Amós
  • Oséias
  • Isaías
  • Miquéias
  • Sofonias
  • Naum
  • Habacuc
  • Jeremias

IV. Bibliografia
Básica
DA SILVA, A. J. A Voz Necessária: encontro com os profetas do século VIII a.C. São Paulo: Paulus, 1998, 144 p. – ISBN 8534910634.

SCHÖKEL, L. A.; SICRE DIAZ, J. L. Profetas 2v. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2002-2004, 1416 p. I: – ISBN 8505006992; II: – ISBN 8534919917.

WILSON, R. R. Profecia e Sociedade no Antigo Israel. 2. ed. revista. São Paulo: Targumim/Paulus, 2006, 392 p. – ISBN 8599459031.

Complementar
BLENKINSOPP, J. Isaiah 1-39: A New Translation with Introduction and Commentary. New York: Doubleday, 2000, 544 p. – ISBN 9780385513791.

BRUEGGEMANN, W. A Commentary on Jeremiah: Exile and Homecoming. Grand Rapids, MI/Cambridge, U.K: Eerdmans, 1998, 502 p. – ISBN 9780802802804.

CARROLL R., M. D. Amos -The Prophet and His Oracles: Research on the Book of Amos. Louisville: Westminster John Knox, 2002, xiv + 224 p. – ISBN 9780664224554.

CARROLL, R. P. Jeremiah. 2v. Sheffield: Sheffield Phoenix Press, 2006. vol. I: 512 p. – ISBN 9781905048632; vol II: 384 p. – ISBN 9781905048649.

CROATO, J. S. et al. Os livros Proféticos: a voz dos profetas e suas releituras. RIBLA, Petrópolis, n. 35/36, 2000/1/2.

DA SILVA, A. J. Arrancar e destruir, construir e plantar. A vocação de Jeremias. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 15, p. 11-22, 1987.

DA SILVA, A. J. Nascido Profeta: a vocação de Jeremias. São Paulo: Paulus, 1992, 143 p. – ISBN 8505012666.

DA SILVA, A. J. Perguntas mais Frequentes sobre o Profeta Amós. Acesso em: 05 fevereiro 2009.

DA SILVA, A. J. Perguntas mais Frequentes sobre o Profeta Isaías. Acesso em: 05 fevereiro 2009.

DA SILVA, A. J. Perguntas mais Frequentes sobre o Profeta Jeremias. Acesso em: 05 fevereiro 2009.

DA SILVA, A. J. Vale a Pena Ler os Profetas Hoje? Acesso em: 05 fevereiro 2009.

GAMELEIRA SOARES, S. A. et al. Profetas ontem e hoje. 3. ed. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 4, 1987.

HAUSER, A. J. (ed.) Recent Research on the Major Prophets. Sheffield: Sheffield Phoenix Press, 2008, xiv + 389 p. – ISBN 9781906055134.

HOLLADAY, W. L. Jeremiah: Reading the Prophet in His Time – and Ours. Minneapolis: Augsburg Fortress, 2006, 180 p. – ISBN 9780800638993.

SCHWANTES, M. A terra não pode suportar suas palavras“ (Am 7,10): reflexão e estudo sobre Amós. São Paulo: Paulinas, 2009, 208 p. – ISBN 8535614346.

SCHWANTES, M. et al. Profetas e profecias: novas leituras. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 73, 2002.

SICRE, J. L. A Justiça Social nos Profetas. São Paulo: Paulus, 1990, 670 p. – ISBN: 8505009541.

SICRE, J. L. Profetismo em Israel: O Profeta, os Profetas, a Mensagem. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2008, 540 p. – ISBN 8532615880.

SWEENEY, M. A. Zephaniah. Minneapolis: Augsburg Fortress, 2003, 250 p. – ISBN 9780800660499.

Leia Mais:
Em busca da competência hermenêutica
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Pentateuco 2009: ainda sem um novo consenso
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Os lefebvrianos?

Os lefebvrianos estão “profundamente desgostosos” com o Papa Francisco – IHU – 18 dezembro 2018

O Papa Francisco concedeu-lhes faculdades para ouvir confissões e celebrar matrimônios, mas os lefebvrianos não estão dispostos a retribuir gestos recíprocos de aproximação. O Superior Geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, Davide Pagliarani, revelou que os ultratradicionalistas estão “profundamente desgostosos com a principal característica do atual pontificado, que é a aplicação completamente nova do conceito de misericórdia”.

A reportagem é de Cameron Doody, publicada por Religión Digital, 17-12-2018. A tradução é de André Langer.

A misericórdia do Papa Bergoglio “fica reduzida a uma panaceia para todos os pecados, sem promover uma verdadeira conversão, à transformação da alma pela graça, à mortificação e à oração”, defendeu Pagliarani em uma entrevista concedida ao jornal austríaco Salzburger Nachrichten. “Em sua Exortação pós-Sinodal Amoris Laetitia, continuou o religioso – no cargo desde julho –, o Papa dá aos cristãos a oportunidade de decidir sobre questões de moral conjugal caso a caso, de acordo com sua consciência pessoal”, o que “contradiz claramente a orientação clara e necessária dada pela lei de Deus”.

Como se essa acusação de heresia fosse pouco, o padre Pagliarani passou a imputar a Francisco a importação para o catolicismo da “espiritualidade de Lutero”, isto é, de “um cristianismo sem necessidade de renovação moral, um subjetivismo que já não reconhece nenhuma verdade universalmente válida”. “Tudo isso causou uma profunda confusão no meio do clero e dos fiéis”, prosseguiu o italiano, uma vez que “cada pessoa busca a verdade, mas para encontrá-la precisa ser guiada pelo sacerdote, da mesma maneira como o aluno precisa da direção de seu professor”.

Além disso, de acordo com o líder dos ultraconservadores, o Ano Lutero de 2017 foi um dos maiores erros do Pontificado de Francisco, porque em vez de servir para converter os protestantes e trazê-los de volta “à verdadeira Igreja… confirmou-os em seus erros”. Por isso, para Pagliarani, Cristo “fundou uma única Igreja, que é a Igreja romana. Esta verdade teológica precisa ser proclamada tanto quanto a retidão da moral e o esplendor da missa tradicional segundo o rito tridentino”.

Consequentemente, o que os lefebvrianos pedem a Francisco é que “transmita fielmente o depósito da fé” e que acabe com “a crise que abala a Igreja nos últimos 50 anos”. Uma crise “que foi desencadeada por uma nova concepção de fé centrada na experiência subjetiva de cada um: acredita-se que o indivíduo é o único responsável por sua fé e pode escolher livremente qualquer religião, sem distinção entre verdade e erro”, o que “contradiz a lei divina objetiva”.

“O Papa teria que declarar errado o decreto sobre a liberdade religiosa [do Vaticano II] e corrigi-lo”, explicou Pagliarani. “Estamos convencidos de que algum Papa o fará e retornará à doutrina pura que era a referência antes do Concílio… É inconcebível que a Igreja tenha estado errada durante dois milênios e que tenha sido capaz de encontrar a verdade somente durante o Concílio, de 1962 a 1965”.

Literatura Deuteronomista 2009: o desafio

Lecionar Literatura Deuteronomista é um desafio e tanto. Enquanto as questões da formação do Pentateuco são discutidas há séculos, a noção da existência de uma Obra Histórica Deuteronomista (= OHDtr) só foi formulada muito recentemente, como se pode ver aqui.

Além disso, há dois problemas com a disciplina: carga horária exígua para estudar textos de livros tão complexos como, por exemplo, Josué ou Juízes – a disciplina tem apenas 2 horas semanais durante o primeiro semestre do segundo ano de Teologia – e uma bibliografia ainda insuficiente em português. Há excelente debate acadêmico hoje, contudo está em inglês e alemão, principalmente. Aparece na bibliografia complementar, mas é praticamente inacessível aos alunos.

Para completar, prefiro estudar o livro do Deuteronômio aqui e não no Pentateuco, também por duas razões: a disciplina Pentateuco já é por demais sobrecarregada e o Deuteronômio é a chave que abre o significado da OHDtr. Por isso, ele faz muito sentido aqui.

Por outro lado, há uma integração muito grande da Literatura Deuteronomista com três outras disciplinas bíblicas: com a História de Israel, naturalmente; com a Literatura Profética, irmã gêmea; com o Pentateuco, através do elo deuteronômico.

I. Ementa
A Obra Histórica Deuteronomista (OHDtr) tentará responder aos desafios do presente repensando o passado no final da monarquia e na situação de exílio e pós-exílio. Faz isso percorrendo toda a história da ocupação da terra, desde as vésperas da entrada em Canaã até a derrocada final da monarquia em Israel e Judá.

II. Objetivos
Pesquisar a arquitetura, as idéias basilares e a teologia da Literatura Deuteronomista como uma obra globalizante, e de cada um de seus livros, a fim de dar fundamentos para sua interpretação e atualização.

III. Conteúdo Programático
1. O contexto da Obra Histórica Deuteronomista
2. O Deuteronômio
3. O livro de Josué
4. O livro dos Juízes
5. Os livros de Samuel
6. Os livros dos Reis

IV. Bibliografia
Básica
FINKELSTEIN, I. ; SILBERMAN, N. A. A Bíblia não tinha razão. São Paulo: A Girafa, 2003, 515 p. – ISBN 8589876187.

RÖMER, T. A chamada história deuteronomista: Introdução sociológica, histórica e literária. Petrópolis: Vozes, 2008, 208 p. – ISBN 9788532637550.

SKA, J.-L. Introdução à Leitura do Pentateuco. Chaves para a Interpretação dos Cinco Primeiros Livros da Bíblia. São Paulo: Loyola, 2003, 304 p. – ISBN 8515024527.

Complementar
DA SILVA, A. J. et al. Obra Histórica Deuteronomista. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 88, 2005. Acesso em: 05 fevereiro 2009.

DA SILVA, A. J. O contexto da Obra Histórica Deuteronomista. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 88, p. 11-27, 2005. Acesso em: 05 fevereiro 2009.

DE PURY, A. (org.) O Pentateuco em Questão. As Origens e a Composição dos Cinco Primeiros Livros da Bíblia à luz das Pesquisas Recentes. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2002, 324 p. – ISBN 8532615899.

DE PURY, A.; RÖMER, T.; MACCHI, J.-D. (eds.) Israël construit son histoire: l’historiographie deutéronomiste à la lumière des recherches récentes. Genève: Labor et Fides, 1996, 535 p. – ISBN 2830908155.

FARIA, J. de Freitas (org.) História de Israel e as pesquisas mais recentes. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2003, p. 43-87 – ISBN 8532628281.

GONZAGA DO PRADO, J. L. A invasão/ocupação da terra em Josué: Duas leituras diferentes. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 88, p. 28-36, 2005. Acesso em: 05 fevereiro 2009.

KRAMER, P. Origem e Legislação do Deuteronômio: Programa de uma sociedade sem empobrecidos e excluídos. São Paulo: Paulinas, 2009, 192 p. – ISBN 8535618155.

KNOPPERS, G. N.; McCONVILLE J. G. (eds.) Reconsidering Israel and Judah: Recent Studies on the Deuteronomistic History. Winona Lake, Indiana: Eisenbrauns, 2000, xxii + 650 p. – ISBN 9781575060378.

LIVERANI, M. Para além da Bíblia: História antiga de Israel. São Paulo: Loyola/Paulus, 2008, 544 p. – ISBN 9788515035557.

LOWERY, R. H. Os reis reformadores: culto e sociedade no Judá do Primeiro Templo. São Paulo: Paulinas, 2009, 351 p. – ISBN 8535612912.

MOREGENZTERN, I.; RAGOBERT, T. A Bíblia e seu tempo – um olhar arqueológico sobre o Antigo Testamento. 2 DVDs. Documentário baseado no livro The Bible Unearthed [A Bíblia não tinha razão], de Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman. São Paulo: História Viva – Duetto Editorial, 2007.

NAKANOSE, S. Uma história para contar… a Páscoa de Josias: metodologia do Antigo Testamento a partir de 2Rs 22,1-23,30. São Paulo: Paulinas, 2000, 344 p. – ISBN 8535606297.

PERSON, R. F. Jr. The Deuteronomic School: History, Social Setting and Literature. Atlanta: Society of Biblical Literature, 2002, xviii + 306 p. – ISBN 9781589830240.

RÖMER, T. C. (ed.) The Future of the Deuteronomistic History. Leuven: Leuven University Press/Peeters, 2000, xii + 265 p. – ISBN 9789042908581.

SCHEARING, L. S. ; MCKENZIE, S. L. (eds.) Those Elusive Deuteronomists. The Phenomenon of Pan-Deuteronomism. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1999, 288 p. – ISBN 9781841270104.

STORNIOLO, I. Como ler o livro de Josué: terra = vida, dom de Deus e conquista do povo. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 48 p. – ISBN 8534910022.

STORNIOLO, I. Como ler o livro do Deuteronômio: escolher a vida ou a morte. 4. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 88 p. – ISBN 8534908923.

STORNIOLO, I. Como ler o livro dos Juízes: aprendendo a ler a história. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 64 p. – ISBN 8534910006.

STORNIOLO, I. Como ler os livros dos Reis: da glória à ruína. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1999, 72 p. – ISBN 853491544X.

STORNIOLO, I.; BALANCIN, E. M. Como ler os livros de Samuel: a função da autoridade. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 56 p. – ISBN 8534907374.

VAN SETERS, J. The Pentateuch: A Social-Science Commentary. London: T & T Clark, 2004, 240 p. – ISBN 9780567080882.

VV.AA. Recenti tendenze nella ricostruzione della storia antica d’Israele. Roma: Accademia Nazionale dei Lincei, 2005, 202 p. – ISBN 8821809331.

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