O que é biocodicologia?

A codicologia é o estudo da estrutura física do livro. Frequentemente chamada de “arqueologia do livro”, concentra-se nos materiais (pergaminho, papel, pigmentos, tintas etc.) e nas técnicas utilizadas na confecção de livros, incluindo sua encadernação.

A biocodicologia é o estudo da informação biológica armazenada em manuscritos. Seu objetivo é expandir o campo da codicologia, incluindo técnicas bCodex Amiatinus - Biblioteca Medicea Laurenziana, Firenze, Italiaiomoleculares, para melhor compreender como os manuscritos foram produzidos e utilizados ao longo da história e como isso pode contribuir para aprimorar nossa visão do passado.

Biocodicologia é uma disciplina científica emergente e não invasiva que analisa informações biomoleculares — especificamente DNA, proteínas e o microbioma — armazenadas em manuscritos históricos em pergaminho. Ao examinar o pergaminho como um artefato biológico, e não apenas como um suporte de texto, os pesquisadores podem identificar as espécies animais, as práticas de manejo do gado e as origens geográficas dos manuscritos. Este campo combina humanidades com ciências naturais, proporcionando uma compreensão mais profunda da história material dos manuscritos.

 

Como a ciência forense do DNA está transformando os estudos de manuscritos antigos – Por Marla Broadfoot & Nature magazine – Scientific American: 12.04.2026

Cientistas estão revelando informações biológicas ocultas em pergaminhos antigos sem deixar vestígios.

Em maio de 2006, Tim Stinson viajou para a Inglaterra para visitar as bibliotecas de Londres, Oxford e Cambridge. Na época, ele estava editando um poema do século XIV para seu doutorado na Universidade da Virgínia, em Charlottesville, e depois de meses debruçado sobre cópias granuladas em microfilme, estava ansioso para ter em mãos um original. Durante uma visita à Biblioteca Bodleiana de Oxford — um lugar tão mágico que cenas dos filmes de Harry Potter foram filmadas lá — ele finalmente recebeu um dos manuscritos que o levara a viajar tanto para ver. Mas ele ficou tão fascinado pelo livro físico que o texto contido nele se tornou secundário.

O volume tinha cerca de seis séculos, encadernado em couro marrom gasto e composto por 266 folhas amareladas de pergaminho cuidadosamente trabalhado. Apresentava marcas de uso intenso — manchas tênues marcavam as páginas e as bordas estavam desgastadas pelo manuseio repetido.

“Tinha sua própria biografia, sua própria história profunda. Parecia um sítio arqueológico entre capas”, recorda Stinson, que agora é medievalista na Universidade Estadual da CaroCodex de Leningrado - Início do livro do Gênesislina do Norte, em Raleigh. “O pergaminho tinha até um leve cheiro de animal, embora agradável.”

Stinson questionou se o DNA poderia sobreviver nas peles de animais usadas para fazer as páginas do livro e se esse DNA poderia oferecer novas maneiras de datar e contextualizar manuscritos além dos marcadores convencionais de caligrafia e dialeto. Seu irmão, um biólogo, disse que isso era teoricamente possível, mas alertou que os obstáculos tecnológicos eram enormes. As tecnologias necessárias — métodos de sequenciamento de nova geração e ferramentas computacionais associadas para decifrar os dados — ainda estavam em seus primórdios. Mesmo que existissem técnicas viáveis, era improvável que os conservadores permitissem a coleta destrutiva de amostras de artefatos culturais insubstituíveis.

Quase duas décadas depois, essa curiosidade ajudou a dar origem a um novo campo. O desenvolvimento de métodos de amostragem não destrutivos, juntamente com os avanços em genômica e proteômica, tornou possível extrair informações biológicas de pergaminhos antigos sem danificá-los visivelmente. A disciplina emergente — conhecida como biocodicologia — combina biologia molecular com codicologia, o estudo dos livros como objetos materiais.

Os resultados estão transformando a forma como os estudiosos entendem a história da humanidade. Ao analisar pergaminhos, os pesquisadores estão descobrindo evidências de redes comerciais, criação de animais, práticas médicas e rituais, mudanças climáticas, epidemias e inundações.

Nesse processo, descobriram que os pergaminhos antigos preservam mais do que apenas palavras.

 

Um arquivo biológico

Durante a Idade Média, o pergaminho era o principal material de escrita na Europa, usado para tudo, desde registros legais a textos sagrados. Era feito mergulhando peles de animais em cal, esticando-as em molduras e raspando-as até ficarem finas enquanto secavam. Mesmo depois de centenas de anos, o pergaminho conserva vestígios sutis desse processo: padrões de folículos capilares no lado do pelo, texturas mais lisas no lado da carne e variações que estudiosos experientes conseguem ler quase intuitivamente. Sua durabilidade faz dos manuscritos medievais objetos históricos preciosos.Página do Codex Amiatinus - Evangelho de Marcos, capítulo 1

Em um artigo de 2009, Stinson argumentou que os manuscritos em pergaminho representam um registro anual da vida animal e das interações entre humanos e animais ao longo de um milênio. Por que, ele perguntou, os zooarqueólogos estavam focados em escavar ossos quando um vasto arquivo faunístico, precisamente datado, permaneceu nas prateleiras das bibliotecas por séculos?

A ideia chamou a atenção de Matthew Collins, um arqueólogo biomolecular com atuação conjunta na Universidade de Copenhague e na Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Collins foi pioneiro em uma técnica conhecida como zooarqueologia por espectrometria de massa (ZooMS = Zooarchaeology by Mass Spectrometry) para identificar as espécies animais de ossos antigos. A ZooMS funciona analisando fragmentos de colágeno tipo I, a principal proteína estrutural da pele, dentes e ossos. Variações específicas de cada espécie no colágeno produzem “impressões digitais” moleculares distintas quando medidas em um espectrômetro de massa.

Collins recorda um projeto de escavação na Escócia, no qual sua equipe analisou mais de mil fragmentos ósseos. Após três anos, eles conseguiram identificar com segurança apenas 29 animais. “Foi um projeto realmente decepcionante”, diz ele. Quando percebeu que o pergaminho era feito de um material semelhante, rico em colágeno — e que os manuscritos geralmente indicam quando e onde foram produzidos — Collins ficou ansioso para explorar seu potencial científico.

 

Sem deixar vestígios

Sarah Fiddyment estava concluindo seu doutorado em proteômica cardiovascular na Universidade de Zaragoza, na Espanha, quando uma palestra fortuita sobre a aplicação de técnicas científicas ao patrimônio cultural a inspirou a fazer um pós-doutorado com Collins. Collins pediu que ela desenvolvesse um método para identificar as espécies animais em pergaminhos. Fiddyment planejava obter amostras raspando uma fina tira da borda do manuscrito. Mas, ao chegar ao Instituto Borthwick de Arquivos em York, no Reino Unido, os conservadores se recusaram a deixá-la aproximar uma faca dos documentos. “Na prática, me vi diante de um projeto de dois anos que não iria acontecer.”

O impasse refletia umO Codex de Leningrado (1008 d.C.) - Biblioteca Nacional da Rússia, São Petersburgoa antiga divisão entre as ciências e as humanidades — o que o romancista e físico britânico C. P. Snow chamou de problema das duas culturas. Os cientistas estão acostumados a perfurar núcleos de fósseis ou a cortar penas, enquanto os estudiosos de manuscritos normalmente consideram até mesmo o menor dano a uma página medieval um anátema. Qualquer método de amostragem do material biológico no pergaminho teria, portanto, que superar um obstáculo excepcionalmente grande: seus efeitos precisariam ser praticamente invisíveis, mesmo sob um microscópio.

Collins recorda aquele momento tenso nos arquivos de Borthwick como um ponto de virada. “’Não’ é uma palavra realmente poderosa para cientistas”, diz ele, “porque nos faz pensar além dos limites”. Fiddyment passou um mês nos arquivos observando os conservadores. Ela notou que eles rotineiramente limpavam o pergaminho usando borrachas brancas e grossas, daquelas que encontramos em muitas carteiras de escolas primárias. Então, ela perguntou se poderia ficar com as migalhas de borracha. “Esses pequenos fragmentos que você gera ao soprar, esses são os pedaços que eu coletei, e descobrimos que funcionou maravilhosamente bem.”

As migalhas, que mais tarde chamaram de “erdu” (abreviação de “eraser dust” = pó de borracha), revelaram-se ouro molecular. Quando uma borracha de cloreto de polivinila é pressionada sobre pergaminho, a eletricidade estática levanta partículas microscópicas da superfície, incluindo colágeno e vestígios de DNA. Fiddyment analisou as migalhas que coletou usando uma versão do protocolo ZooMS que ela chamou de eZooMS.

Fiddyment testou sua abordagem em “Bíblias de bolso” do século XIII, cujas páginas finíssimas eram tradicionalmente consideradas feitas com peles de animais como esquilos e coelhos. Sua análise mostrou o contrário. O pergaminho era feito dos materiais mais comuns: peles de bezerro, cabra ou ovelha. Essa descoberta destacou não o uso de materiais incomuns, mas sim a extraordinária habilidade artesanal envolvida.

Mas outros estudos levantaram mais perguntas do que respostas. Stinson relembra o primeiro livro em que trabalhou com Fiddyment e Collins: uma cópia brilhante do Evangelho de São Lucas, do século XII. Para seu olhar experiente, o manuscrito parecia ser feito inteiramente de pele de bezerro. “Quando os resultados chegaram, todos ficaram perplexos”, diz ele. Os testes revelaram uma alternância deliberada entre pele de bezerro e pele de carneiro. Pele de cabra também estava presente, mas apenas imediatamente após a parábola do filho pródigo, que inclui a única menção a um cabrito no texto [Lc 15,29]. “Agora, pode ser uma coincidência, não sabemos”, diz Stinson. “Mas este livro é profundamente estranho.”

 

Leitura de resíduos

Embora eficaz, o método é trabalhoso. Consiste em esfregar o mesmo pedaço de pergaminho até que migalhas suficientes se acumulem para preencher o fundo de um tubo de microcentrífuga. Na biblioteca de livros raros da Universidade Duke, em Durham, Carolina do Norte, Stinson passou dias analisando um único volume. “Honestamente”, diz ele, “depois de dois dias fazendo isso, fico com tendinite no cotovelo.”

Na busca por alternativas menos punitivas, Stinson fez parceria com sua colega Kelly Meiklejohn, uma cientista forense cuja experiência inclui um pós-doutorado no Laboratório do FBI em Quântico, Virgínia. Lá, ela desenvolveu métodos para identificar plantas e fungos tóxicos que haviam sido usados ​​como potenciais armas biológicas. Estes frequentemente se encontravam em forma de pó e desprovidos de características identificadoras óbvias.

A equipe testou uma série de métodos não destrutivos em manuscritos antigos comprados online. Algumas ideias foram descartadas rapidamente: a borda sem corte de uma faca de manteiga, ferramentas forenses para coleta de fibras usadas em cenas de crime e até mesmo fita adesiva de lagartixa, que possui saliências microscópicas que permitem sua adesão a superfícies sem o uso de adesivos químicos. Embora tecnicamente não destrutiva, a fita aderiu repetidamente às pinças e tubos de laboratório e continha vestígios de DNA bovino, presumivelmente provenientes do processo de fabricação.Js 1,1 no Codex de Aleppo

Por fim, os pesquisadores se concentraram em duas abordagens não destrutivas: borrachas e escovas citológicas macias, as ferramentas descartáveis ​​usadas em testes de rastreio do câncer do colo do útero. As comparações mostraram que as escovas eram mais fáceis de usar e recuperavam o DNA com a mesma eficácia que as borrachas.

O DNA extraído do pergaminho geralmente se fragmenta em pedaços minúsculos e está presente em quantidades muito baixas para serem detectadas por meio de ensaios padrão. Mas “prosseguimos com todas as amostras”, afirma Meiklejohn, porque seu laboratório utiliza um fluxo de trabalho forense desenvolvido especificamente para esse tipo de material genético.

Sua equipe converte o DNA em bibliotecas de sequenciamento e utiliza uma técnica conhecida como captura por hibridização para extrair sequências animais de interesse. “Iscas” magnéticas de RNA, projetadas para corresponder aos genomas mitocondriais de espécies comumente usadas em pergaminho, se ligam ao DNA alvo, mesmo quando as sequências diferem em até 20% das referências genômicas modernas. O material enriquecido é então sequenciado e mapeado em um painel de 16 genomas de referência, incluindo os de humanos, cães, porcos e várias espécies de cervos.

Na tela do computador, os resultados aparecem como uma pilha densa e escalonada de barras horizontais coloridas — pequenos trechos de DNA antigo que se alinham, de forma imperfeita, mas convincente, com referências modernas. Em testes repetidos, os resultados obtidos com o método de escovação corresponderam às identificações de espécies conhecidas e, muitas vezes, superaram as expectativas.

No entanto, essa abordagem tem suas peculiaridades logísticas. Quando Meiklejohn teve dificuldades para encontrar as escovas de citologia adequadas antes de uma viagem de pesquisa planejada para o Reino Unido, ela aproveitou a coincidência de sua consulta ginecológica anual para perguntar onde elas eram compradas. A clínica se ofereceu para fornecer alguns pacotes, mas outro fornecedor acabou atendendo à sua solicitação.

 

Além das espécies

Em colaboração com a Universidade Duke, a equipe aplicou sua técnica de citologia por escovação a documentos de diferentes épocas e lugares, coletando amostras de pergaminhos do século VIII ao XX, originários da Europa, Norte da África e Oriente Médio. Os resultados, ainda não publicados, baseiam-se em 351 amostras retiradas de 91 manuscritos. Os pesquisadores identificaram a espécie de origem em 58% dos casos. A maioria das amostras era de ovelhas, seguida por bovinos e caprinosLIED, L. I.; NONGBRI, B. Working with Manuscripts: A Guide for Textual Scholars. New Haven, CT: Yale University Press, 2025, 192 p., com uma única amostra curiosa indicando pele de porco. Eles descobriram que a escolha da espécie geralmente seguia padrões regionais; por exemplo, ovelhas eram a principal espécie utilizada na Inglaterra e caprinos nas regiões mediterrâneas.

Um Novo Testamento grego do século XIII apresentou uma correspondência tentadora com o veado-vermelho (Cervus elaphus hippelaphus), mas o sinal ficou um pouco aquém do limiar necessário para uma identificação definitiva.

Durante uma visita à Duke, acompanhei Stinson enquanto ele coletava amostras adicionais daquele misterioso manuscrito. Em uma sala de leitura silenciosa, Andrew Armacost, curador de coleções de livros raros, havia disposto vários volumes de manuscritos medievais sobre uma longa mesa sob uma luz clara e uniforme. As páginas dos livros estavam repletas de uma caligrafia elegante em tinta preta e vermelha — algumas encadernadas em couro escuro e rachado, outras reduzidas a folhas soltas. Enquanto observávamos, Stinson colocou luvas, programou um cronômetro e passou delicadamente um pincel em lentos círculos sobre uma área em branco do pergaminho por um minuto, antes de quebrar a ponta do pincel e guardá-la em um tubo.

Armacost teve que recusar pedidos de amostragem destrutiva de projetos promissores, por não querer ver sequer um centímetro cortado da coleção. Ele está entusiasmado com a adoção de métodos não destrutivos e curioso para saber o que eles podem revelar. “Sempre pensamos nos pergaminhos como recursos textuais”, diz ele, “mas talvez eles tenham muitas outras histórias para contar também.”

 

Um campo em expansão

Essas histórias estão começando a vir à tona. Hoje, os cientistas conseguem determinar o sexo dos animais de origem, classificar raças específicas e detectar patógenos. Por exemplo, pesquisadores detectaram varíola ovina em diversas amostras de pergaminho. Como o vírus evolui lentamente — cerca de uma mutação a cada dois anos — os cientistas podem usar análises filogenéticas para datar uma determinada cepa com uma margem de erro de aproximadamente 50 anos.

A biocodicologia também pode permitir que os cientistas reconstruam como os manuscritos antigos eram manuseados e os ambientes em que circulavam.

DE HAMEL, C. Manuscritos notáveis. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, 680 p.O sal, por exemplo, era essencial para a produção de pergaminho na Idade Média. Como diferentes regiões dependiam de tipos distintos de sal, as bactérias halófilas, ou amantes do sal, presentes nas peles podem servir como marcadores geográficos . Até mesmo os danos causados ​​por insetos contam uma história. Os “bichos-de-livro” são, na verdade, as larvas de vários besouros que penetram nas encadernações de livros medievais. Os orifícios de saída e o DNA deixado pelas larvas revelam onde os insetos — e os livros — existiam. Notavelmente, a distribuição desses besouros acompanha de perto as fronteiras geográficas da Reforma Protestante. “Nós os chamamos de besouros protestantes e católicos”, diz Stinson.

Métodos não destrutivos também podem revelar práticas raramente documentadas em textos. Fiddyment usou o eZooMS para coletar amostras de resíduos de um cinto de parto medieval, um talismã religioso usado para proteger as mulheres durante a gravidez e o parto. De um cinto do final do século XV, ela recuperou vestígios de fluido cervicovaginal, bem como evidências de leite de cabra, ovos, mel e várias espécies de plantas — ingredientes extraídos de receitas medievais para o parto. “Foi a primeira evidência direta”, diz Fiddyment, “de que as pessoas realmente o usavam.”

Alguns cientistas estão até mesmo utilizando a biocodicologia na ciência climática. Para reconstruir padrões históricos de precipitação, o grupo de Collins desenvolveu uma técnica de sucção baseada em solventes para extrair lipídios de pergaminhos antigos. Os isótopos de oxigênio preservados nos lipídios registram os níveis de precipitação e temperatura do passado, permitindo que os pesquisadores detectem eventos climáticos globais, como o “ano sem verão” de 1816, que se seguiu à erupção vulcânica do Monte Tambora, na Indonésia, em 1815. Em grande escala, Collins sugere que o pergaminho poderia rivalizar com os anéis de crescimento das árvores como um arquivo climático.

 

O futuro

Mas a capacidade de investigar questões tão abrangentes varia bastante. Enquanto pesquisadores nos Estados Unidos enfrentaram perdas abruptas de financiamento, a Europa investiu mais de € 20 milhões (US$ 23 milhões) em biocodicologia por meio de iniciativas do Conselho Europeu de Pesquisa, como Beasts to Craft e CODICUM. Collins afirma que algumas agências de financiamento valorizam o desenvolvimento de tecnologias avançadas, em parte porque os métodos desenvolvidos para manuscritosVALLEJO, I. O infinito em um junco: a invenção dos livros no mundo antigo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022, 496 p. antigos podem ter aplicações mais amplas em problemas modernos, como segurança alimentar, medicina e ciência forense.

Stinson perdeu sua bolsa do National Endowment for the Arts dos EUA, mas conseguiu fazer outra viagem de pesquisa ao Reino Unido em junho passado, usando financiamento de sua universidade. Desta vez, ele visitou o Norfolk Record Office em Norwich, onde coletou 100 amostras de pincéis de registros históricos de tribunais senhoriais. O volume de material biológico disponível era impressionante: o arquivo contém 1,7 milhão de itens em pergaminho, muito mais do que ele poderia esperar amostrar em toda a sua vida. “Este é apenas um condado”, diz ele. Os Arquivos Nacionais do Reino Unido em Londres “têm quilômetros e quilômetros” de prateleiras de pergaminho. “Estamos falando de um arquivo faunístico gigantesco. Ninguém jamais o imaginou dessa forma.”

No escritório de Norfolk, Stinson recebeu um crachá que lhe permitia circular livremente pelas instalações, com a clara advertência de que, se um alarme fosse acionado, ele teria apenas alguns instantes para sair antes que o sistema de supressão de incêndio consumisse todo o oxigênio da sala.

Ele não precisa ser lembrado de ter cuidado. Esses artefatos antigos são preciosos, não apenas pelo texto inscrito em suas páginas, mas também pelas histórias biológicas que contêm, à espera de serem lidas.

Este artigo foi publicado originalmente em Nature em 7 de abril de 2026.

Marla Broadfoot é uma escritora científica independente que mora na Carolina do Norte. Ela possui doutorado em genética e biologia molecular e é professora adjunta na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill.

Leia também: Fiddyment, S., Teasdale, M.D., Vnouček, J. et al. So you want to do biocodicology? A field guide to the biological analysis of parchment. Herit Sci 7, 35 (2019).

SOTER 2026: Religiões e violências

A SOTER – Sociedade de Teologia e Ciências da Religião – comunica que seu 38º Congresso Anual terá como tema Religiões e violências: veneno, remédio ou vacina? e será realizado no campus Coração Eucarístico da PUC-Minas, em Belo Horizonte, de 7 a 10 de julho de 2026.SOTER 2026: Religiões e violências: veneno, remédio ou vacina?

Formato híbrido:
Presencial: Auditório João Paulo II – PUC Minas
Online: As transmissões serão realizadas pelo site do Congresso da SOTER – A transmissão online será exclusiva aos participantes inscritos.

O Congresso Internacional da SOTER, em sua 38ª edição, propõe como eixo temático a provocativa questão “Religiões e violências: vacina, veneno ou remédio?”. A escolha desse tema parte do reconhecimento de que as religiões ocupam um lugar central nas dinâmicas culturais, políticas e simbólicas das sociedades contemporâneas, podendo atuar tanto como instâncias de legitimação de conflitos quanto como fontes de mediação, reconciliação e promoção da paz. Nesse sentido, o evento pretende reunir pesquisadores, docentes e pós-graduandos da área de Ciências da Religião e da Teologia, bem como estudiosos de áreas afins, a fim de promover um espaço interdisciplinar de análise crítica sobre as múltiplas interfaces entre religião e violência no mundo contemporâneo.

O Congresso vai aprofundar a reflexão acadêmica sobre as diversas formas pelas quais as tradições religiosas se relacionam com contextos de violência, seja como possíveis originadoras de conflitos, como agentes preventivos diante de tensões sociais ou como mediadoras e reparadoras em situações de violência já estabelecidas. Para isso, o evento buscará examinar o fenômeno religioso em sua complexidade, bem como as diversas manifestações de violência presentes na atualidade, tais como sociopolíticas, de gênero, étnico-raciais, ecológicas e religiosas. A proposta é estimular um diálogo crítico e plural que permita compreender não apenas os discursos religiosos, mas também os contextos estruturais e históricos em que tais discursos são produzidos e se manifestam.

Assim, o Congresso Internacional da SOTER em 2026, atende o seguinte objetivo geral: discutir em que medida as religiões são originadoras de situações de violência; em que medida elas atuam preventivamente; e, por fim, em que medida elas são remediadoras de situações de violência já ocorridas.

Justificativa

O Congresso Internacional da SOTER é movido em 2026 pela urgência de analisar, sob perspectiva crítica e interdisciplinar, as complexas relações entre religião e violência no cenário contemporâneo. Em um contexto global marcado por tensões políticas, fundamentalismos, desigualdades estruturais e múltiplas formas de violência simbólica e material, o fenômeno religioso permanece como um fator de imensa influência social, capaz tanto de intensificar conflitos quanto de oferecer recursos éticos, espirituais e comunitários para sua superação. Assim, promover um espaço de debate qualificado no campo das Ciências da Religião e da Teologia torna-se fundamental para compreender criticamente os usos e abusos da religião na esfera pública, bem como para identificar perspectivas teóricas e práticas capazes de contribuir para a promoção da justiça social, da convivência plural e da defesa de grupos vulnerabilizados em sociedades cada vez mais multiculturais e multirreligiosas.

Foi Tiglat-Pileser III o fundador do império assírio?

Acabei de ler a conclusão do livro de Josette Elayi, Tiglath-pileser III, Founder of the Assyrian Empire. Atlanta: SBL, 2022, do qual já falei aqui e aqui. O título da conclusão é Assessment of Tiglath-pileser’s Reign.

Avaliação do reinado de Tiglat-Pileser

Tiglat-Pileser foi incumbido pelos deuses, principalmente por Assur, de expandir as fronteiras da Assíria e aumentar sua grande população [1].ELAYI, J. Tiglath-pileser III, Founder of the Assyrian Empire. Atlanta: SBL, 2022, 228 p.

Ele afirmou com orgulho ter cumprido sua missão: “Aumentei o território da Assíria conquistando terras (estrangeiras) e acrescentei inúmeras pessoas à sua população… Eu, Tiglat-Pileser, rei da Assíria, que pessoalmente conquistei todas as terras de leste a oeste, nomeei governadores em lugares onde os carros dos reis, meus ancestrais, jamais cruzaram… e exerci autoridade sobre os quatro cantos do mundo” [2].

Não há razão para duvidar de sua sinceridade. Tiglat-Pileser vangloriava-se de controlar o mundo inteiro, o que era verdade, pois a expansão máxima de seu império abrangia quase todo o mundo como era conhecido naquela época. No entanto, devido ao mau estado de conservação de seus anais, é difícil fazer um levantamento de suas conquistas. A inscrição mais relevante para isso é a inscrição sumária de Nimrud, composta em ou logo após 729 a.C. (décimo sétimo palû*). A inscrição é fácil de usar porque segue uma ordem geográfica: começando do sul e movendo-se no sentido anti-horário [3]. Contudo, encontramos diversas dificuldades ao tentar traçar o mapa de todas as conquistas de Tiglat-Pileser.

Para começar, a localização de muitos topônimos não pode ser identificada. Somos praticamente obrigados a presumir que todas as cidades conquistadas são conquistas genuínas e não meras bravatas. A criação de novas províncias por este rei assírio nem sempre é claramente indicada em suas inscrições, e mesmo quando o é, suas fronteiras são desconhecidas. Há também diferentes evoluções de histórias distintas associadas a cada uma dessas províncias durante seu reinado. Portanto, um mapa das províncias do império assírio em 727 a.C. só pode ser aproximado.

No sul, Tiglat-Pileser derrotou as tribos aramaicas perto de Dûr-Kurigalzu e a leste do Tigre. Ele as anexou à Assíria em 731 e nomeou um eunuco para governá-las, mas é impossível localizar esta nova província cujo nome não é especificado. Tiglat-Pileser anexou Puqudu e várias cidades na fronteira de Elam e as colocou sob a autoridade do governador provincial de Arrapha, também um eunuco. Ele conquistou as tribos caldeias dos Bît-Dakkûri, Bît-Amukkâni, Bît-Yakîn e Bît-Shilâni, mas não mencionou a criação de uma província composta por essas tribos. De fato, parte desses territórios foi anexada à Babilônia, sobre a qual ele se tornou rei em 728 a.C. As fontes também fazem referência a Balâssu, chefe dos Bît-Dakkûri, que se submeteu, ofereceu um rico tributo e se tornou vassalo da Assíria. As tribos árabes também estavam sujeitas ao rei assírio, enquanto Samsi, rainha dos árabes, jurou lealdade à Assíria, mas, mesmo assim, foi colocada sob o controle de um representante assírio.

Bem a leste, fora de cidades não identificáveis, as campanhas de Tiglat-Pileser no centro dos Montes Zagros envolveram principalmente os Bît-Hamban, Namri, Zamua e Parsua, que Tiglat-Pileser anexou à Assíria. Ele criou duas novas províncias assírias, governadas por eunucos: Bît-Hamban e Parsua. Zamua já era uma província assíria, criada por Assurnasirpal II durante a primeira metade do século IX a.C., e Namri, ou parte dela, foi integrada a Bît-Hamban. Tiglat-Pileser reconstruiu as cidades que havia destruído nessas províncias e as repovoou com populações deportadas, realocadas de outras partes do império. Nessa época, ele pode ter criado a província do arauto do palácio, localizada a nordeste de Arbela e mencionada pela primeira vez em suas inscrições. Outros povos se submeteram imediata e incondicionalmente, oferecendo ricos tributos ao rei assírio. Entre eles, os maneus, os elípeos e os medos. O rei maneu Iranzu viajou para solicitar uma audiência com Tiglat-Pileser e beijou seus pés como sinal de lealdade em sua nova cidade de Dûr-Tiglat-Pileser (não identificada).

O império assírio por volta de 727 a.C. Fonte: Josette Elayi, Tiglath-pileser III, Founder of the Assyrian Empire, 2022.No norte, o rei assírio dirigiu suas campanhas para o Monte Nal e a região de Ulluba, que estava sob influência urartiana e a apenas 100 km de Nínive. Tiglat-Pileser anexou essa região e construiu uma nova capital provincial, Assur-iqîsha, para fortalecer o controle assírio local diante de Urartu, o inimigo vindo do norte. Ele realocou populações deportadas para a região e nomeou um eunuco como governador da província. Também assentou deportados na província de Barhalzi, a noroeste de Nínive, que é mencionada neste contexto pela primeira vez em suas inscrições. Conquistou diversas outras localidades no norte, notadamente várias fortalezas urartianas, e as anexou à província do tesoureiro. Essa antiga província, criada no século IX, localizava-se a leste de Kumme e incluía a planície de Cizre, que foi anexada por Tiglat-Pileser. Ele anexou outras localidades à província de Nairi, ao sul do Lago de Van, e outras ainda à província do copeiro-chefe, cuja localização tem sido difícil para os historiadores modernos. No entanto, duas localizações foram propostas: os Montes Zagros iranianos, a leste, e Tur Abdin, no Alto Tigre. Esta última parece mais plausível. Tiglat-Pileser também deportou pessoas para a província de Tushhan, localizada nessas mesmas regiões do norte, talvez próxima à província de Amidi.

A noroeste e oeste, Tiglat-Pileser mencionou Nasibîna, uma província da região de Habur criada por Salmanasar III. Ele também fez campanha contra localidades na fronteira de Kummuhu e as adicionou à província do comandante-em-chefe. Essa província estava localizada na margem direita do Eufrates, perto de Samsat. Depois de tomar Arpad em 740, Tiglat-Pileser a transformou em uma província assíria. Da mesma forma, em 738, ele anexou Unqi e a transformou em uma província assíria. Ele fez o mesmo com a cidade de Hatarikka, onde nomeou um de seus eunucos como governador. A cidade de Simirra foi igualmente transformada em província.

No entanto, o número total de províncias criadas no norte da Síria não é claro, pois as inscrições mencionam dois ou seis governadores provinciais, todos eunucos. O grande reino de Aram-Damasco foi anexado em 732, e parte dele formou a província de Subutu. O rei assírio também anexou a Galileia e a Transjordânia, enquanto as cidades fenícias tornaram-se vassalas da Assíria. As cidades filisteias e os estados jordanianos do sudeste do Levante eram considerados estados-tampão entre a Assíria e o Egito e gozavam de relativa autonomia. Grande parte do antigo território de Israel foi transformada nas províncias de Dor, Meguido e Galaad, e Israel tornou-se um reino fantoche da Assíria. O reino de Judá manteve-se autônomo porque o rei Acaz aliou-se aos assírios.

Assim, por meio de sua política expansionista enérgica e sustentada, Tiglat-Pileser conseguiu, no mínimo, dobrar o número de territórios assírios que herdara inicialmente em 745 a.C., incluindo as províncias e os estados vassalos. Contudo, o controle que exercia sobre os estados vassalos era relativamente rígido em comparação ao de seus antecessores, embora oscilasse dependendo do grau de cumprimento dos acordos de vassalagem.

Em suma, em 727 a.C., a Assíria havia se tornado um império enorme. Embora fosse multiétnico e multilíngue, também apresentava um desequilíbrio entre o centro e a periferia, exigindo, portanto, monitoramento e administração rigorosos. Um império tão vasto necessitava de um sistema eficiente de comunicação administrativa. As reformas de Tiglat-Pileser visavam à criação e organização do império, mas não são muito conhecidas, não por sua menor importância, mas pela falta de evidências. Não obstante, sabemos, por exemplo, que ele reformou a logística, a estratégia e o armamento do exército. Ele criou entrepostos comerciais e centros administrativos chamados kāru ou bīt-kāri nas fronteiras do império, como apenas um aspecto do domínio assírio sobre o comércio internacional [4]. Três deles são mencionados em suas inscrições: Kâr-Adad (Aribua?) no norte da Síria, Kâr-Bêl-mâtâti perto de Cutha e Kâr-Shalmaneser (Til Barsip), nomeado por Salmanasar III [5]. Outros bīt-kāri estavam localizados no litoral do Mediterrâneo, como Siannu, Ellishu, Simirra, Rêshi-sûri, Ahtâ, Sidon e Gaza [6].

Que tipo de império foi o império assírio, e foi ele o primeiro império mundial? O império assírio é uma designação moderna**, porque os assírios chamavam seu território de “o país do deus Assur” ou “Terra de Assur” [em acádio: māt Aššur].Tiglat-Pileser III (745-727 a.C.)

(…)

James Laxer, um especialista canadense em economia política, escreve: “Falamos de um império quando uma nação, tribo ou sociedade exerce um domínio de longo prazo sobre uma ou mais nações, tribos ou sociedades externas… A capacidade de determinar o que acontece, o que as sociedades sob seu controle produzem, é o que distingue um império de outras formas de organização interna” [7]. Essa definição pode ser aplicada ao Estado assírio, visto que era suficientemente grande e caracterizado por uma expansão hegemônica permanente e uma estrutura estatal estável. No entanto, essas condições só foram atendidas a partir do reinado de Tiglat-Pileser III. A história do império assírio, portanto, estendeu-se de 745 a 610 a.C., ou seja, por pouco menos de um século e meio, mas toda a história da Assíria desde a sua origem preparou o terreno para o nascimento desse império [8]***.

O imperialismo dos grandes estados do antigo Oriente Médio manifestou-se no terceiro e segundo milênios a.C., como o dos hititas, que se espalharam pela Turquia e pelo norte da Síria. Shamshî-Adad I (Samsî-Addu), rei de Ekallâtum (e, depois, de Assur), conquistou toda a Alta Mesopotâmia e proclamou-se “rei do mundo”. Esse título já havia sido usado anteriormente por Ipiq-Adad II e Narâm-Sîn, reis de Eshnunna (Tell Asmar) [9]. O precursor e modelo do império assírio foi o reino sumério-acádio unificado, construído por Sargão de Akkad.

Mas as ações desses reis ainda se limitavam à conquista de hegemonias regionais, enquanto o desejo de dominação universal caracterizou de forma singular o primeiro milênio. Isso foi especialmente formalizado nas inscrições do rei assírio Assurnasirpal II, mas ele pouco contribuiu para a ascensão da Assíria em comparação com seus antecessores.

O verdadeiro fundador do império assírio foi Tiglat-Pileser III. Ao ascender ao trono, ele iniciou uma série de operações militares para conquistar um vasto território continental, com acesso marítimo. Ele não se contentava mais com incursões esporádicas para trazer saques, mas estabeleceu um genuíno sistema imperial e tributário, estável e eficiente, gerando uma considerável fonte de riqueza. Às vezes se diz que o primeiro império mundial foi o império persa ou o império de Alexandre. Tal afirmação só pode ser feita por ignorância do império assírio, que foi o primeiro império universal da antiguidade, tão vasto e estruturado.

Entre as diferentes definições de império, segundo Herfried Münkler, dois parâmetros decisivos caracterizam um império mundial: a duração temporal, composta por uma fase de expansão e uma fase de consolidação, e a extensão espacial. Além disso, precisa ter uma missão civilizadora [10]. Münkler contrastou os impérios civilizadores com os impérios das estepes, que se concentram na sua superioridade militar sem empreender investimentos em infraestrutura [11]. O império assírio não era nem um império das estepes nem um império civilizador; empreendeu investimentos em infraestrutura e tentou integrar os povos conquistados como assírios, sem ter uma missão civilizadora.

O Império Assírio criado por Tiglat-Pileser foi estável e forte ou efêmero e instável?

Josette Elayi (nascida na França em 1943) Tiglat-Pileser começou a organizar e estruturar a Assíria como um enorme império multiétnico, que, no entanto, era difícil de controlar e administrar, como as experiências de seus sucessores revelaram claramente. Após o curtíssimo reinado de Salmanasar V, sobre o qual quase nada sabemos, o objetivo das reformas de Sargão II era centralizar e fortalecer o poder real absoluto e estabelecer o aparato administrativo para governar o Império Assírio [12]. Diz-se que “Sargão II foi o verdadeiro fundador do império, contribuindo decisivamente para garantir seu poder e dar-lhe seu caráter final” [13].

Na realidade, Tiglat-Pileser foi o fundador do império, embora sem as conquistas de Sargão II, o império talvez não tivesse sobrevivido. Tiglat-Pileser e Sargão sucessivamente conquistaram os inimigos dos assírios, que aproveitavam todas as oportunidades para se revoltar.

Finalmente, o império assírio, legado por Sargão em 705 a.C. a seu filho Senaquerib, era mais estável e forte, mas não era fácil de governar [14]. Entre suas falhas, provavelmente, estão sua expansão excessiva e permanente, a assimetria em sua extensão (mais nas terras baixas do que nas áreas montanhosas) e a exploração desproporcional das áreas periféricas [15].

Em suma, Tiglat-Pileser foi o fundador do primeiro império mundial, um império que certamente era poderoso, mas frágil.

 

Notas

1. RINAP 1:83, 35.i.32–33; 114, 46.5.

2. RINAP 1:86, 35.ii.15′–24′.

3. RINAP 1:115–25, 47.

4. Shigeo Yamada, “Neo-Assyrian Trading Posts on the East Mediterranean Coast and ‘Ionians’: An Aspect of Assyro-Greek Contact,” Orient, Supplement 1 (2019): 222–227.

5. Shigeo Yamada, “Kārus on the Frontiers of the Neo-Assyrian Empire,” Orient 40 (2005): 58–62, 66–69; Kâr-balâti, Kâr-banapa in Assyrian heartland (?), and Kâr-Nergal in Babylonia near Cutha were probably not created in Tiglath-pileser’s reign.

6. RINAP 1:85–86, 35.ii.11′–15′; 105, 42.1′–4′; Shigeo Yamada, “Kārus on the Frontiers of the Neo-Assyrian Empire,” Orient 40 (2005): 68–69, 75.

7. James Laxer, Empire (New York: Groundwood, 2006), 9.

8. Frederick Mario Fales, L’impero assiro: Storia e amministrazioni (Rome: Laterza, 2001); Véronique Grandpierre, Histoire de la Mésopotamie (Paris: Gallimard, 2010); Karen Radner, Ancient Assyria: A Very Short Introduction (Oxford: Oxford University Press, 2015); Eckart Frahm, A Companion to Assyria (Malden, MA: Wiley Blackwell, 2017); Mario Liverani, Assyria: The Imperial Mission (Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 2017); David Nadali, Gli Assiri: Storia di una civiltà (Rome: Carocci, 2018).

9. Douglas R. Frayne, Old Babylonian Period (2003–1595 BC) (Toronto: University of Toronto Press, 1990), 547, no. 4.

10. Herfried Münkler, Imperien: Die Logik der Weltherrschaft von Alten Rom bis zu den Vereinigten Staaten (Berlin: Rowohlt, 2005), 88–89, 132.

11. See the critique of Ariel M. Bagg, “Palestine under Assyrian Rule: A New Look at the Assyrian Imperial Policy in the West,” JAOS 133 (2013): 119–143.

12. Elayi, Sargon II, King of Assyria, ABS 22 (Atlanta: SBL Press, 2017).

13. Paul Garelli and André Lemaire, Les empires mésopotamiens, Israël, vol. 2 of Le Proche-Orient Asiatique, 3rd ed. (Paris: PUF, 1997), 114.

14. Elayi, Sennacherib, King of Assyria, ABS 24 (Atlanta: SBL Press, 2018).

15. Mario Liverani, “The Fall of the Assyrian Empire: Ancient and Modern Interpretations,” in Empires: Perspectives from Archaeology and History, ed. Susan E. Alcock (Cambridge: Cambridge University Press, 2001), 384–385.

 

Abreviação

RINAP 1: Tadmor, Hayim, and Shigeo Yamada. The Royal Inscriptions of Tiglath-pileser III (744–727 BC) and Shalmaneser V (726–722 BC), Kings of Assyria. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 2011.

 

* Na ideologia política da antiga Mesopotâmia, particularmente no império assírio, o tempo não era meramente uma progressão linear de datas. Em vez disso, era uma relação estrutural entre os deuses, o rei e a terra, concebida através do termo acádio palû. Emprestado do sumério BALA, palû é um termo multifacetado que se traduz como “reinado”, “mandato”, “rotação” ou “dinastia”. Era uma ferramenta fundamental da retórica real usada em inscrições reais médio-assírias e neoassírias para legitimar o governo de um rei, definir sua legitimidade e estruturar sua narrativa cronológica. Seu uso em textos assírios é mais matizado do que simplesmente um “reinado” no sentido moderno. Implica um “mandato” concedido pelo deus supremo, Assur. O palû de um rei era visto como um período de favor divino, caracterizado por prosperidade agrícola, sucesso militar e governo ordenado. Confira, sobre isso: CDLI Wiki: Assyrian palû e Os palûs de Tiglat-Pileser III.

** O termo “império” vem do latim, imperium, que era o poder executivo supremo e a autoridade legal exercida por magistrados de alta patente na República Romana para comandar forças militares e interpretar a lei. Derivado do termo latino imperare, “comandar”, era concedido a cônsules e pretores para agirem no melhor interesse do Estado. Era temporário, limitado a uma província específica e autorizado por lei.

*** Recomendo a leitura de A imperialização da Assíria: uma abordagem arqueológica, post publicado no Observatório Bíblico em 16.02.2022.

As deportações em massa na época de Tiglat-Pileser III

No artigo O contexto da Obra Histórica Deuteronomista, publicado em Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 88, p. 11-27, 2005 e em minha página, escrevi:

A Assíria parecia inerte, até que, em 745 a.C., subiu ao trono Tiglat-Pileser III (= Teglat-Falasar III), aquele que iria tornar-se um dos maiores reis da Assíria, o verdadeiro fundador de seu império. Desde sua ascensão, Tiglat-Pileser III empreendeu uma série de operações militares. Depois de garantir sua retaguarda e as grandes vias de comunicação com o Irã e o Golfo Pérsico, os exércitos assírios tomaram o caminho do sul. As conquistas de Tiglat-Pileser III são mal documentadas, mas sabe-se que de 743 a 738 a.C. ele desbaratou a coalizão siro-urártia e se impôs aos dinastas aramaicos.

O sucesso da expansão imperialista assíria nesta época se explica, pelo menos em parte, pela agressiva política de Tiglat-Pileser III, que não se limitava apenas a recolher tributos, como seus antecessores, mas submetia permanentemente os territórios conquistados. As rebeliões eram punidas com invasão, destruição, deportação e incorporação do território ao império assírio.Tiglat-Pileser III (745-727 a.C.)

Ou seja, com Tiglat-Pileser III a guerra converteu-se em guerra de conquista: o território ocupado era incluído nos limites da terra de Assur e dividido em províncias dirigidas por governadores (bel pihati) que dispunham de guarnições permanentes. As tropas assírias estavam, portanto, sempre a postos para sufocar as dissidências e empreender novas operações. Por outro lado, o rei deportou numerosas populações para regiões distantes, a fim de separá-las de seu meio natural e impedir quaisquer veleidades de rebelião. Isto criou um amálgama de populações de diferentes origens e culturas, submetidas, entretanto, a uma única jurisdição, pois Tiglat-Pileser III computou-as entre os habitantes da terra de Assur, obrigando-as, como tais, às mesmas contribuições e corveias. Em todo o império praticou-se essa política de conquista e assimilação. Liverani calcula que esta prática assíria de “deportação cruzada” de populações, envolveu, ao longo de três séculos, algo como 4 milhões e meio de pessoas. Quebrava-se, deste modo, a resistência política e se preservava a economia local*.

Acabei de ler o capítulo 6 do livro de Josette Elayi, Tiglath-pileser III, Founder of the Assyrian Empire. Atlanta: SBL, 2022. O capítulo tem por título The First Phase of the Campaigns (745–744).

No item 6.4. A New Deportation Policy, p. 92-96, aprendi um pouco mais sobre as deportações feitas pelo reis assírios. Transcrevo.

 

6.4. Uma Nova Política de Deportação

A criação de numerosas províncias estava ligada a uma nova política de deportações em massa na estratégia global de Tiglat-Pileser.

Tiglat-Pileser certamente não foi o primeiro rei assírio a empregar a técnica de deportações em massa. Antes dele, vários reis realizaram deportações em massa de civis em regiões conquistadas. Alguns números mínimos podem ser calculados com base nas inscrições reais: 12.900 para Assurnasirpal II; 167.500 para Salmanasar III; e 32.200 para Shamshî-Adad V [122]. O uso de deportações para realocar prisioneiros de guerra não era apenas uma prática assíria, mas também uma prática em todo o Antigo Oriente Médio e Egito desde o terceiro milênio [123].

No entanto, Tiglat-Pileser foi o primeiro a usar a técnica de deportação em tal escala e como parte de um programa deliberado de expansão política e econômica. Ele também foi o iniciador das deportações cruzadas, nas quais uma região conquistada era parcialmente esvaziada de seus habitantes e repovoada por deportados vindos de uma região remota [124]. Os números mínimos de deportados calculados para seu reinado foram 368.543 + 25.055 [125].

A estratégia de deportações de Tiglat-Pileser foi aplicada desde sua primeira campanha: “[Daqueles [Ara] que deportei, [distribuí] (e assentei […] mil para a província do comandante-em-chefe, 10.000 (para) a província do arauto do palácio, […] mil (para) a província do copeiro-chefe, […] mil (para) a província da terra] de Barḫa(l)zi, (e) 5.000 (para) a província da terra de Zamua ”[126].

O objetivo de Tiglat-Pileser era claramente mover os deportados o mais longe possível de suas países de origem até as fronteiras do império e dispersá-los em países distantes uns dos outros. De fato, a província do comandante-em-chefe estava localizada no noroeste, as províncias do copeiro-chefe e de Barhalzi ficavam ao norte do coração da Assíria, e as províncias do arauto do palácio e de Zamua estavam na fronteira leste [127].

Quais foram os motivos de Tiglat-Pileser para adotar essa estratégia de deportações em massa?

ELAYI, J. Tiglath-pileser III, Founder of the Assyrian Empire. Atlanta: SBL, 2022, 228 p.A deportação era, antes de tudo, uma punição para as populações que não haviam aceitado o jugo assírio e que haviam se revoltado, como as tribos arameias [128]. Deste modo, os deportados são representados como prisioneiros que, juntamente com o gado, são levados para fora de uma cidade babilônica em um relevo no palácio de Tiglat-Pileser [129]. O fato de as pessoas serem expulsas de suas casas e de sua terra natal era uma punição muito severa. A deportação também servia como dissuasão para evitar rebeliões. Por exemplo, o rei assírio levou a família real de Hanunu de Gaza para a Assíria como refém antes de devolver Hanunu ao seu posto de rei, para que ele não ousasse se revoltar novamente [130].

Deportações em massa foram realizadas em estados recalcitrantes e fontes de perigo potencial, como Arpad, Hamat ou Damasco. O desenraizamento dos habitantes enfraqueceu seus laços com a terra natal e reduziu a possibilidade de um renascimento nacional. Sua dispersão por diversos lugares foi uma forma de fragmentar as entidades nacionalistas. Como os deportados formavam um grupo minoritário em suas novas comunidades, não tinham outra escolha senão serem leais ao rei assírio, que se tornou seu único protetor. Por isso, muitos deportados foram assentados em cidades fronteiriças e áreas fronteiriças sensíveis, a fim de criar uma espécie de zona de amortecimento contra estados hostis.

Por outro lado, sua deportação criou espaço para que os assírios estabelecessem uma organização administrativa e militar permanente e eficiente nas áreas ocupadas, a terra natal dos deportados. Tiglat-Pileser utilizou os deportados em sua política de defesa: eles foram integrados ao exército, em particular à infantaria. Isso foi um meio de ampliar o exército assírio, que se tornou cada vez mais necessário devido à expansão contínua do império. Esses deportados recrutados não tinham nenhum apego sentimental ao país onde trabalhavam, que geralmente ficava longe de sua terra natal. Assim, o exército assírio tornou-se multiétnico.

A deportação em massa também era uma fonte de trabalhadores profissionais qualificados e artesãos, frequentemente levados para o coração da Assíria para trabalhar para o rei. Esses trabalhadores eram distribuídos conforme a necessidade; por exemplo, podiam ser enviados para cidades recém-fundadas para trabalhar em projetos de construção, como palácios e templos [131].

Outro objetivo da deportação em massa era demográfico: repovoar cidades mais antigas, transformando-as em cidades novas e reconstruídas e em cidades estratégicas. Quando Tiglat-Pileser destruía uma cidade, geralmente enviava deportados para reconstruí-la e repovoar a região. Por exemplo, em sua primeira campanha, ele reconstruiu Humut, chamando-a de Kâr-Assur, assentou pessoas ali vindas de terras estrangeiras conquistadas e impôs impostos e tributos sobre elas como habitantes da Assíria [132].

Outro objetivo era repovoar regiões abandonadas ou desoladas e empregar os deportados para trabalho agrícola. Uma carta de Tiglat-Pileser para Ninurta-Bêlu-Usur mencionava esse tipo de deportado: “este campo de milho que está sendo cultivado é para os deportados que estão chegando. Quando vierem de Damasco, haverá 100 (homers de) trigo e 20 (homers de) cevada para enviá-los de Orontes.” [133]. Em uma passagem danificada dos anais, o rei assírio provavelmente utilizou os deportados arameus para cultivar “os assentamentos abandonados na periferia da minha [terra] que se tornaram desolados [durante o(s) reinado(s) de reis (anteriores)], dos meus [ancestrais]…” [134].

Expandir o império não tinha apenas interesses políticos para o rei assírio, mas também interesses econômicos. Tiglat-Pileser substituiu a antiga técnica de pilhagem e destruição de cidades por uma estratégia mais sensata e sustentável do ponto de vista econômico. Explorar os prisioneiros em vez de matá-los era certamente uma operação mais lucrativa.

Por isso, o rei também utilizou deportados para garantir rotas comerciais que levassem aos recursos de que necessitava e para restabelecer o comércio de longa distância, em particular de metais como prata, estanho, cobre e ferro [135].

Além de artesãos qualificados, Tiglat-Pileser também precisava de mão de obra não qualificada. Os deportados foram levados para o coração da Assíria para produzir grãos para cidades importantes como Nimrud, Assur e Nínive. Descobertas arqueológicas mostraram que sítios especializados, que funcionavam como fazendas satélites, circundavam essas cidades [136]. Era mais barato usar deportados do que contratar assírios nativos como agricultores.

A estratégia econômica de Tiglat-Pileser também se revela em sua decisão de não deportar populações quando isso era considerado mais benéfico. Uma cidade rica que não representasse ameaça ao império fornecia uma fonte alternativa de riqueza: tributos e impostos. Se isso excedesse o valor da deportação e reassentamento, o rei assírio preferia a opção de deixar a cidade autônoma, como era o caso, por exemplo, da maioria das cidades fenícias e filisteias. Para acompanhar e salvaguardar essa opção, espiões assírios eram responsáveis ​​por monitorar a lealdade dos vassalos assírios [137]. Em resumo, o uso ou não uso da deportação em massa por Tiglat-Pileser foi altamente inovador e contribuiu para a fundação do império assírio.

As numerosas deportações que Tiglat-Pileser decidiu realizar durante suas campanhas pelas diferentes fronteiras do império [138] parecem, na maioria das vezes, ter sido cuidadosamente planejadas e, ao fazê-lo, fornecem respostas às seguintes questões: é benéfico deportar tal ou tal população? Quais habitantes devem ser escolhidos para serem deportados? Para qual país devem ser deportados? Quais outros deportados devem ser assentados em seu lugar?

Mesmo que a viagem dos deportados fosse bem organizada pelos assírios, que os autorizavam a levar suas famílias, juntamente com seu gado e seus bens, as condições do deslocamento eram muito duras devido ao esgotamento, à dificuldade em encontrar suprimentos e às epidemias relacionadas ao grande número de pessoas transferidas. A taxa de mortalidade durante a viagem podia chegar a entre 5 e 20 por cento [139].Josette Elayi (nascida na França em 1943)

Quando os deportados chegavam ao seu destino, eram devidamente recebidos e instalados em seus novos lares. Tiglat-Pileser repetiu diversas vezes em seus anais que desejava integrar os deportados, tratando-os exatamente como assírios, com os mesmos direitos e deveres. Por exemplo, quando assentou 555 montanheses cativos de Bît-Sangibûti na cidade de Til-karme, escreveu: “Considerei-os habitantes da Assíria e [impus-lhes o trabalho forçado como os assírios]” [140].

Ao mesmo tempo, Tiglat-Pileser permitiu que os deportados mantivessem sua cultura específica. O status socioeconômico e jurídico dos deportados não era uniforme; suas condições não eram idênticas, mas dependiam de suas ocupações, de seus empregadores, de sua capacidade pessoal e de onde viviam [141].

De qualquer forma, as consequências da deportação em massa realizada por Tiglat-Pileser foram uma enorme mistura de populações, um aumento na multietnicidade do império assírio e a aceleração da difusão do aramaico como língua comum do império.

 

Notas

* Cf. LIVERANI, M. Para além da Bíblia: História antiga de Israel. São Paulo: Loyola/Paulus, 2008, p. 193-194.

122. Bustenay Oded, Mass Deportations and Deportees in the Neo-Assyrian Empire (Wiesbaden: Reichert, 1999), 20; Daniel Sarlo, “The Economics of Mass Deportations in the Neo-Assyrian Period under Tiglath-Pileser III (744–727 BCE),” NMC 1020 (2013): 1.

123. Oded, Mass Deportations and Deportees, 42 (with bibliography).

124. Joannès, Dictionnaire de la civilisation mésopotamienne, 227–30; Sarlo, “Economics of Mass Deportations,” 1–21.

125. Oded, Mass Deportations and Deportees, 20.

126. RINAP 1:27, 5.9–10.

127. Radner, “Provinz. C. Assyrien,” 42–68.

128. Oded, Mass Deportations and Deportees, 41–74; Sarlo, “Economics of Mass Deportations,” 3–13.

129. Richard D. Barnett and Margarete Falkner, The Sculptures of Aššur-naṣir-apli II (883–859 B.C.), Tiglath-pileser III (745–727 B.C.), Esarhaddon (681–669 B.C.) from the Central and South-West Palaces at Nimrud (London: British Museum, 1962), 52–53, pls. V–VI (BM 118882).

130. RINAP 1:127, 48.14′–18′.

131. Max E. L. Mallowan, Nimrud and Its Remains, vol. 1 (London: Collins, 1966), 75–76; Melanie Gross, “Craftsmen in the Neo-Assyrian Empire,” in What’s in a Name? Terminology Related to the Work Force and Job Categories in the Ancient Near East, ed. A. Garcia-Ventura, AOAT 440 (Münster: Ugarit-Verlag, 2018), 369–95.

132. RINAP 1:27, 5.3–4.

133. SAA 19:6, 3.s.1.

134. RINAP 1:27–28, 5.11–12.

135. N. B. Jankowska, “Some Problems of the Economy of the Assyrian Empire,” in Ancient Mesopotamia: Socio-economic History, ed. Igor Mikhailovich Diakonoff (Moscow: Nauka, 1969), 253–76; Frederick Mario Fales, “Palatial Economy in Neo-Assyrian Documentation: An Overview,” in Palatial Economy in the Ancient Near East and in the Aegean First Steps towards a Comprehensive Study and Analysis, ed. Pierre Carlier, Francis Joannès, François Rougemont, and Julien Zurbach (Rome: Fabrizio Serra Editore, 2017), 171–294.

136. Bradley J. Parker, “Archaeological Manifestations of Empire: Assyria’s Imprint on Southeastern Anatolia,” AJA 107 (2003): 541.

137. Villard, “Quelques aspects du renseignement militaire dans l’empire néo-assyrien,” 87–97.

138. RINAP 1:27, 43–44, 46, 53, 55, 59, 61–63, 65, 68, 70, 97, 100, 102, 119, 121; Oded, Mass Deportations and Deportees, 116–35.

139. Joannès, Dictionnaire de la civilisation mésopotamienne, 228–29.

140. RINAP 1:70, 27.1–2.

141. Oded, Mass Deportations and Deportees, 75–115.

 

Abreviações

RINAP 1: Tadmor, Hayim, and Shigeo Yamada. The Royal Inscriptions of Tiglath-pileser III (744–727 BC) and Shalmaneser V (726–722 BC), Kings of Assyria. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 2011.

SAA 19: Luukko, Mikko. The Correspondence of Tiglath-pileser III and Sargon II from Calah/Nimrud. SAA 19. Helsinki: Helsinki University Press, 2012.

Como foi a morte de Jesus?

Paixão de Cristo: como foi a morte de Jesus, segundo a ciência

Edison Veiga – BBC News Brasil – 31.03.2026

Religiosidade à parte, poucos duvidam que tenha vivido há 2 mil anos um homem chamado Jesus, em parte do que hoje é Israel.

E que ele foi um judeu dissidente que acabou liderando um grupo de seguidores. Sua atuação acabou incomodando o Império Romano. E, às vésperas da Páscoa judaica, ele acabou condenado, torturado e morto por crucificação — uma prática de pena capital comum na época.

Depois de sua morte, seguidores se encarregaram de espalhar seus ensinamentos. Terminava a história e começava o mito, a religião, a teologia.MEIER, John P. Um Judeu Marginal. Repensando o Jesus Histórico. Volume Um: As Raízes do Problema e da Pessoa. Rio de Janeiro: Imago, 1993, 483 p.

Essa transição ocorreu principalmente graças a um profícuo escritor da época, pioneiro da Igreja Cristã e autor de muitos textos que hoje estão na Bíblia: Paulo de Tarso (c. 5-67). Na década de 50 do primeiro século da nossa era, cerca de 20 anos depois da morte de Jesus, ele produziu sete cartas cujos textos sobreviveram ao tempo.

“Nessas cartas reparamos que há uma mudança de enfoque. Paulo não mais trabalha com o Jesus histórico, ele trabalha com o Jesus da fé”, explica o historiador André Leonardo Chevitarese, autor de, entre outros, Jesus de Nazaré: Uma Outra História, e professor do Programa de Pós-Graduação em História Comparada do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Diante disso, a primeira conclusão é que, desconsiderando a religiosidade decorrente da figura de Jesus, ele foi um condenado político.

“Jesus histórico conheceu uma morte política. Religião e política são coisas muito unidas, principalmente quando estamos tratando de uma liderança popular”, acrescenta Chevitarese.

“Não há como separar as andanças [de Jesus] como algo só político ou só religioso. As fronteiras são muito fluidas. E isso acaba sendo chave para compreender o movimento de Jesus com Jesus [ainda vivo] e o movimento de Jesus sem Jesus [depois da morte dele, com as pregações dos primeiros seguidores].”

 

Paixão e morte

A morte na cruz, cujo simbolismo acabou se confundindo com a própria religiosidade cristã, não era um acontecimento raro naquela época.

“A crucificação era a pena de morte usada pelos romanos desde o ano 217 a.C. para escravos e todos aqueles que não eram cidadãos do Império”, explica o cientista político, historiador especializado em Oriente Médio e escritor italiano Gerardo Ferrara, da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, de Roma.

“Era uma tortura tão cruel e humilhante que não era reservada a um cidadão romano. Era precedida pelo açoite, infligido com vários instrumentos, conforme a origem e a proveniência social dos condenados.”

“A crucificação não foi invenção romana mas estava amplamente disseminada no Império Romano. Fazia parte de uma rotina dentro dos territórios que hoje chamamos de Israel”, pontua Chevitarese. “Mais ou menos uns 40 anos depois da morte de Jesus, quando houve a tomada de Jerusalém, milhares de judeus foram crucificados.”

CROSSLEY, J.; KEITH, C. (eds.) The Next Quest for the Historical Jesus. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2024, 656 p. Os Evangelhos dedicam-se também a narrar as últimas horas de Jesus, detalhando seu sofrimento. De acordo com as escrituras sagradas, ele teria sido levado de uma instância a outra nessas horas de julgamento, com certa hesitação entre as autoridades. Chevitarese diz que historicamente isso não pode ser verdade.

Isto porque, a julgar pelos relatos, Jesus foi morto na antevéspera da Páscoa judaica. “A festa da Páscoa é uma festa política, pois é quando se celebra a passagem da escravidão para a liberdade, a saída do povo hebreu do Egito para a ‘terra onde corre o leite e o mel'”, lembra o historiador.

“Então imaginemos: uma cidade abarrotada de judeus, como a autoridade romana vai botar um judeu para carregar uma cruz pela cidade, no meio de tantos judeus? Seria um convite à rebelião. Com uma pessoa como Jesus ninguém poderia perder tempo. Foi pego e imediatamente crucificado.”

Para Chevitarese, os relatos que existem dando conta de acontecimentos entre a prisão de Jesus, na madrugada de quinta para sexta, e sua crucificação, horas mais tarde, não são históricos; são teologia.

Alguns dias antes, no que acabou se eternizando como Domingo de Ramos, Jesus tinha entrado em Jerusalém. Foi uma rara aparição dele em uma grande cidade, o que teria transformado-o em alvo fácil das autoridades.

Mas por que ele incomodava? Porque liderava um grupo justamente proclamando um novo reino, o Reino dos Céus, ou reino de seu pai. E seu discurso era de um reino diametralmente oposto ao Império Romano, segundo quatro pilares básicos. “Ele se torna messias por conta dessa ideia”, defende Chevitarese.

O primeiro pilar do reino defendido por Jesus era a justiça. Não qualquer justiça, mas a justiça divina. “E ele se referia a Deus como papai, seu pai celestial. Essa justiça tão equilibrada, era claro, se opunha a outro reino, aquele que já estava instalado e que controlava a Judeia: o dos romanos”, compara o historiador. “Ele está dizendo: aqui no meu reino tem justiça; o do César é o reino da injustiça.”

O segundo ponto é que Jesus proclamava um reino de paz, também em oposição ao estado bélico do governo imposto pelos romanos, um império que avançava sobre outros povos.

O terceiro pilar é comensalidade: comida, bebida, fartura na mesa dos pobres, dos camponeses. “O grupo que acompanhava Jesus ouvia sua pregação e, de alguma maneira, achava interessante o que ele estava dizendo”, diz Chevitarese. Por fim, Jesus falava de um reino de igualdade, com a coparticipação de todos. “O ministério de Jesus é de homens e mulheres, iguais”, nota o historiador.

“O importante é que [nesses discursos] política, religião, economia, sociedade, tudo isso se inseria num programa messiânico. Não estava claro onde começava a política e terminava a religião, nem onde terminava a religião e começavam as questões sociais. Tudo estava interligado”, completa.ANDRADE, N. J. Killing the Messiah: The Trial and Crucifixion of Jesus of Nazareth. New York: Oxford University Press, 2025, 296 p.

“Jesus morre por causa de um reino, o reino de Deus. Esse é o movimento de Jesus com Jesus. A geração seguinte, o movimento de Jesus sem Jesus, ressignifica a morte dele como uma morte sacrificial, que ganha dimensão estritamente religiosa.”

As autoridades romanas que serviam na região já estavam mapeando os movimentos de Jesus. E encontraram a oportunidade perfeita quando ele resolveu entrar em Jerusalém. “Viram-no criando confusão no templo, às vésperas da Páscoa, com a cidade cheia de judeus vindos das mais diferentes regiões e pensaram: rapidamente esse homem tem de ser preso, crucificado”, diz o historiador.

“Todos os evangelistas concordam em situar a morte de Jesus em uma sexta-feira, dentro do feriado da Páscoa”, comenta Ferrara. Autor do livro Vita di Gesù Cristo, o padre, biblista e arqueólogo italiano Giuseppe Ricciotti (1890-1964) reuniu várias informações históricas, cruzou-as e concluiu que o mais provável é que a execução tenha ocorrido no equivalente ao 7 de abril do ano 30.

 

A morte na cruz

Eram três as maneiras de se executar um condenado na Roma antiga. Segundo explica Chevitarese, um objetivo as unia: não permitir a preservação de vestígios de memória — em outras palavras, impossibilitar que restos mortais fossem sepultados.

Geralmente aos circos romanos eram destinados os condenados por crimes como assassinato, parricídio, crimes contra o Estado e estupros. Na arena, esses criminosos enfrentavam feras até a morte — seus restos eram devorados pelos bichos. Uma segunda forma de execução era a fogueira, que também não deixava muitos resíduos do corpo.

A crucificação era a pena destinada a escravos que atentavam contra a vida dos seus senhores e aqueles que se envolviam em rebeliões. Além de todos os que não eram cidadãos romanos, caso de Jesus. “Ainda vivos, na cruz, aves de rapina já começavam a comer o condenado. Três ou quatro dias depois, a carne desse indivíduo, apodrecendo, caía da cruz e cães e outros animais terminavam de fazer o serviço”, contextualiza Chevitarese.

No início dos anos 2000, o médico legista norte-americano Frederick Thomas Zugibe (1928-2013), professor da Universidade de Columbia e ex-patologista-chefe do Instituto Médico Legal, fez uma série de experimentos com voluntários para monitorar os efeitos que uma crucificação teria sobre o corpo humano. Os resultados foram publicados no livro A Crucificação de Jesus.

DE SOUZA NOGUEIRA, P. A.; MACHADO, J. (orgs.) Morte e ressurreição de Jesus: um debate com John Dominic Crossan. São Paulo: Paulinas, 2009, 167 p.

Para seus estudos, ele utilizou uma cruz de madeira com 2,34 metros na vertical e 2 metros na horizontal. Indivíduos — todos adultos jovens, na faixa dos 30 anos — foram suspensos nela e tiveram suas reações monitoradas eletronicamente, com eletrocardiograma, medição de pulsação e aferição de pressão sanguínea.

Atados assim, os voluntários não conseguiam encostar as costas na cruz e relataram fortes cãibras causadas pelo desconforto da posição, além de formigamentos constantes nas panturrilhas e nas coxas.

Na época de Jesus diferentes formas de cruz eram utilizadas nas execuções. As principais eram a em forma de T e a em forma de punhal. Não há consenso entre pesquisadores sobre qual teria sido a utilizada por Jesus. Ferrara acredita que teria sido a segunda.

Para o médico Zugibe, Jesus carregou, em seu caminho até o local da execução, apenas a parte horizontal. Ele escreveu que a estaca vertical costumava ser mantida no local das crucificações, fora da cidade.

E baseou-se no fato de que a parte horizontal pesava cerca de 22 quilos. A soma de ambas as partes tinha entre 80 e 90 quilos, o que tornaria impossível de ser carregada em uma longa caminhada — que, conforme seus estudos, teria sido de 8 quilômetros no caso de Jesus.

“Detalhes da punição são confirmados pelo uso romano e por documentos históricos: os condenados eram amarrados ou pregados no patíbulo com os braços estendidos e erguidos no mastro vertical já fixado”, esclarece Ferrara.

“Os pés eram amarrados ou pregados, por outro lado, ao poste vertical, sobre o qual uma espécie de assento de apoio se projetava na altura das nádegas. A morte era lenta, muito lenta, e acompanhada por um sofrimento terrível. A vítima, levantada do solo a não mais de meio metro, estava completamente nua e podia ficar pendurada por horas, senão dias, sacudida por espasmos de dor, náuseas e a impossibilidade de respirar corretamente, já que o sangue nem sequer podia fluir para os membros que estavam tensos a ponto de exaustão.”

O que é um entendimento quase unânime entre os pesquisadores é que as cravas eram pregadas nos pulsos, e não nas palmas das mãos — por conta da compleição óssea, as mãos “se rasgariam” com o peso do corpo. “A estrutura das mãos e a ausência de ossos importantes impediriam o suporte de um peso tão grande e a carne das mãos seria dilacerada”, ressalta Ferrara.

O médico Zugibe concluiu que os pregos tinham 12,5 centímetros de comprimento. Ele defendia que Jesus tinha sido pregado, sim, nas mãos, mas não no centro da palma e sim pouco abaixo do polegar. Já suspenso na cruz, os pés de Jesus também foram fixados com cravas — segundo o médico, um ao lado do outro, e não sobrepostos como o imaginário consagrou. Essas perfurações, por atingirem nervos importantes, teriam sido causadoras de dores insuportáveis e contínuas.

“Quanto tempo um indivíduo leva para morrer assim? Morre-se de cãibra, que vai atrofiando seus músculos e levando-o a morrer por falta de ar, com muitas dores, dores gigantescas no corpo todo”, narra Chevitarese. Ferrara, por sua vez, defende que Jesus tenha morrido por infarto do miocárdio, em decorrência do esforço exaustivo.

Por meio de seus experimentos, Zugibe analisou as três hipóteses mais aceitas para a morte de Jesus: asfixia, ataque cardíaco e choque hemorrágico. Sua conclusão é que Jesus teve parada cardíaca em virtude da hipovolemia, ou seja, a diminuição considerável do volume sanguíneo depois de toda a tortura e das horas pregado na cruz. Teria morrido, portanto, de choque hemorrágico.EDWARDS, J. C. Crucified: The Christian Invention of the Jewish Executioners of Jesus. Minneapolis: Fortress Press, 2023, 237 p.

“[A morte na cruz] é uma morte de violência física absurda. O tempo dependia das condições físicas em que se encontrava o crucificado. Se a tortura anterior tivesse sido muito intensa, isso de certa forma poderia fazer com que ele morresse mais rápido”, diz Chevitarese. Ferrara acredita que “a agonia de Jesus não tenha durado mais do que algumas horas, talvez até menos do que duas, provavelmente devido à enorme perda de sangue devido à flagelação [anterior]”.

 

Torturas

Se o condenado à morte de cruz era visto pelos romanos como parte de uma “escória”, um não cidadão considerado criminoso e oriundo dos estratos sociais mais baixos, é de se supor que os carrascos não poupassem esses indivíduos de toda sorte de agressões. Para tanto, o instrumento utilizado na tortura era um chicote específico chamado de azorrague.

No caso de Jesus, Ferrara acredita que tenha sido utilizado um com bolas de metal com pontas feitas de osso, capaz de rasgar a pele e arrancar pedaços de carne. “Justamente por ele ser um ‘criminoso’ de baixa classe social e de origem não nobre, no caso um judeu de pequena província oriental do império”, justifica ele.

De acordo com as pesquisas realizadas pelo médico Zugibe, o modelo de chicote utilizado para o açoitamento de Jesus era feito com três tiras. Condenados assim costumavam receber 39 golpes com o instrumento — na prática, portanto, era como se fossem 117 chibatadas, já que essas pontas feitas de osso de carneiro funcionavam como objetos perfurocortantes.

Isso, segundo explicações do médico, resultaria em tremores e até desmaios, e um quadro de hemorragias intensas, danos no fígado e no baço e acúmulo de sangue e líquidos nos pulmões.

No caminho até o local de crucificação, não havia limites para as torturas. Eram espancados, ridicularizados, vítimas de intensa violência. Relatos bíblicos afirmam que, por sarcasmo, uma coroa de espinhos teria sido cravada na cabeça de Jesus.

Zugibe queria descobrir qual era a planta utilizada para a tal coroa. Depois de entrevistar botânicos e estudiosos de biomas do Oriente Médio, chegou a duas possíveis espécies que seriam capazes de fornecer espinhos grandes o suficiente. Conseguiu as sementes e cultivou ele próprio as árvores para, depois, analisá-las.

Acabou concluindo que foram utilizados ramos de uma árvore conhecida como espinheiro-de-cristo-sírio. Segundo o legista, os ferimentos causados por esse espinho na cabeça seriam capazes de, mais do que provocar intenso sangramento na face e no couro cabeludo, atingir nervos da cabeça — causando dores imensas.

 

Sepultamento

Chevitarese defende que a crucificação de Jesus, ao contrário do que narra a Bíblia, tenha ocorrido longe de testemunhas oculares, justamente porque tudo teria sido feito rapidamente e de modo a não provocar uma revolta da população.

COOK, J. G. Crucifixion in the Mediterranean World. Tübingen: Mohr Siebeck, 2014, XXIV + 522 p.E que, também ao contrário do relato religioso, não houve sepultamento de Jesus, tampouco restos mortais preservados. “Crucificados não eram enterrados. Ficavam na cruz e, ainda vivos, aves de rapina já sabiam que eles não podiam se mexer. E comiam olhos, nariz, bochecha, aquilo ficava abarrotado de aves de rapina comendo o corpo ainda vivo”, explica ele.

“[O corpo] passava alguns dias ali, quatro, cinco dias, pendurado. A carne começava a apodrecer. Caía. Despencava. Cães e outros animais se aproveitavam desses restos humanos para fazer seu banquete”, relata.

Para ele, o que prova essa tese é que milhares de escravos foram crucificados no período e não há registros de cemitérios ou mesmo de ossadas descobertas dos mesmos. “Historicamente, crucificado não era enterrado”, crava. “Teologicamente, é claro que Jesus precisava ser enterrado — para depois ressuscitar.”

Esta reportagem foi publicada [pela BBC] originalmente em abril de 2021 e republicada em março de 2026

 

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O Evangelho de Mateus: introdução e comentário

CARTER, W. Matthew 1:1–16:20: Introduction and Commentary. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2025, 925 p. – ISBN 9780802870087.

CARTER, W. Matthew 16:21-28:20: Introduction and Commentary. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2025, 725 p. – ISBN 9780802884794.

Baseando-se em décadas de trabalho focado no Evangelho de Mateus, Warren Carter apresenta os frutos dessa pesquisa em uma obra magistral de perspicácia histórica e rigor metodológico.CARTER, W. Matthew 1:1–16:20: Introduction and Commentary. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2025, 925 p.

Neste notável comentário em dois volumes, Carter situa o Evangelho de Mateus no contexto das tradições judaicas e das negociações com o imperialismo romano após a destruição de Jerusalém em 70 d.C. Ele apresenta o Evangelho como uma luz sobre como uma comunidade de seguidores de Jesus constantemente lidava com o poder romano. Carter dedica especial atenção às estratégias de Jesus para lidar com o domínio romano, mostrando como Jesus, alternadamente, o replica, se adapta a ele, resiste a ele e desenvolve um modo de vida comprometido com o império de Deus.

Além de examinar o Evangelho de Mateus em seu contexto histórico e social, Carter lança nova luz sobre a recepção do livro, ilustrando como os estudiosos o interpretaram desde a época da igreja primitiva até os dias atuais. Este fascinante comentário é um recurso essencial e singular para estudiosos do Novo Testamento e estudantes de teologia.

 

Diz o autor no Prefácio do livro:

Os autores dos comentários desta série Illuminations têm quatro tarefas, indicadas pelos seguintes títulos em cada capítulo deste volume. A primeira é fornecer uma tradução do texto bíblico em discussão. A segunda é oferecer uma interpretação do texto. A terceira é apresentar comentários sobre questões mais técnicas relativas ao texto. A quarta é abordar a história e a recepção que envolvem o texto.

Não escrevi este comentário como um estudo abrangente do Evangelho de Mateus. Nem o preenchi com dados aleatórios e desconexos. Em vez disso, este comentário desenvolve a tese central de que o Evangelho de Mateus aborda um conflito infra-sinagogal no contexto do mundo pós-70 d.C. e da enorme afirmação do poder imperial romano que ocorreu durante esse período. A noção de violência horizontal no contexto da pressão vertical destrutiva e dominante exercida pelo Império Romano conecta esses contextos.

Ao longo do texto, utilizo o máximo possível de estudos acadêmicos relevantes, mas não pretendo catalogar ou debater cada contribuição. Alguns lamentarão que eu não tenha discutido suas contribuições específicas, mas espero que compreendam que as limitações de espaço não permitiram tal aprofundamento.

Reconheço a maravilhosa oportunidade que a Orbis Books me proporcionou ao publicar O Evangelho de São Mateus: Comentário sociopolítico e religioso a partir das margens, em 2000. Essa obra foi minha primeira chance de defender essa tese em todo o evangelho. Nos últimos vinte anos, pude, em diversos contextos e formatos, desenvolver, refinar, fundamentar e aprofundar essa abordagem de Mateus. Esse trabalho fundamenta esta análise, assim como minha experiência de infância em uma antiga colônia do Império Britânico e minha atual residência nos Estados Unidos, o império mais poderoso que o mundo já conheceu.CARTER, W. Matthew 16:21-28:20: Introduction and Commentary. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2025, 725 p.

As discussões sobre a história da recepção do texto [em alemão, Wirkungsgeschichte; em inglês: History of Consequences] apresentam seu próprio desafio, visto que há quase dois milênios de material do qual se poderia extrair informações, muito mais do que seria possível abordar aqui. Muitos livros foram escritos traçando discussões interpretativas de perícopes individuais, mas nenhuma análise completa de Mateus em formato de livro jamais poderá ser verdadeiramente abrangente.

Minha abordagem, portanto, foi escolher, para cada capítulo, algo das discussões anteriores que eu considerasse interessante de alguma forma. Embora a história do trabalho de interpretação seja frequentemente eurocêntrica e focada no texto, procurei incluir uma variedade de mídias (por exemplo, homilias antigas e modernas, sermões infantis, pinturas e outras mídias visuais, hinos), métodos diversos (por exemplo, estudos sobre deficiência, abordagens feministas, teoria crítico-imperial, estudos sobre danos morais) e diferentes contextos geográficos (europeu, centro-americano, sul-africano, chinês, norte-americano) e sociais (por exemplo, direitos civis, várias opressões, formação da identidade eclesial, preconceitos antissemitas, cultura popular).

 

Algumas avaliações que estão na página da editora:

“Uma investigação revitalizadora do Evangelho de Mateus, revelando sua complexa interação com as forças socioeconômicas e o impacto destrutivo do poder imperial romano — ao qual resiste, contesta, se acomoda e, por sua vez, reinscreve. Um recurso indispensável para uma nova geração de intérpretes bíblicos que lutam com os legados duradouros e as realidades contemporâneas do império.” Robert J. Myles, University of Divinity, Austrália.

“Karl Barth resgatou a mensagem apocalíptica de Paulo na Carta aos Romanos para uma Alemanha perdida em um evangelho cultural liberal e nacionalista. Brian Blount desmantelou o racismo sistêmico e resgatou uma palavra libertadora para os afro-americanos no livro do Apocalipse. Elisabeth Schüssler Fiorenza expôs o machismo dos intérpretes bíblicos, ao mesmo tempo que propôs esperança para as mulheres. E agora Warren Carter expôs o colonialismo e o imperialismo persistentes e sistemáticos das interpretações equivocadas do Evangelho de Mateus pelos nacionalistas americanos. Carter tem sido a voz da crítica ao imperialismo por mais de duas décadas. Às vezes, discordei, mas sua conquista é monumental. A coerência de seu método e a profundidade de sua análise do texto de Mateus influenciarão os estudos sociopolíticos sobre Mateus por décadas.” Scot McKnight, Seminário Teológico de Houston.

 

Sobre a Coleção Illuminations.

 

Warren Carter is the Meinders Professor of New Testament at Phillips Theological Seminary in Tulsa, Oklahoma, USA. He is the author of more than twenty books, including Jesus and the Empire of God, God in the New Testament, The New Testament: Methods and Meanings (with Amy-Jill Levine), Seven Events That Shaped the New Testament World, and Matthew and the Margins (em português: O Evangelho de São Mateus: Comentário sociopolítico e religioso a partir das margens. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2021, 718 p.)

 

Warren Carter - nascido na Nova Zelândia em 1955

Building on decades of focused work on the first Gospel, Warren Carter brings the fruit of that research to bear in a tour de force of historical insight and methodological rigor.

Within this remarkable two-volume commentary, Carter situates the Gospel of Matthew within the context of Jewish traditions and negotiations of Roman imperialism after the destruction of Jerusalem in 70 CE. He positions the Gospel as illuminating how a community of Jesus-followers constantly navigates Roman power. He pays particular attention to Jesus’s strategies for dealing with Roman rule, showing how Jesus alternately replicates it, accommodates it, resists it, and develops a way of life committed to the empire of God.

In addition to examining the Gospel of Matthew in its historical and social context, Carter shines new light on instances of the book’s reception, illustrating how scholars have interpreted it from the era of the early church up to the present. This fascinating commentary is an essential and distinctive resource for New Testament scholars and students of theology.