Estou lendo mais um livro do assiriólogo italiano Mario Liverani:
LIVERANI, M. Antico Oriente: storia, società, economia. Nuova edizione aggiornata. Roma-Bari: Laterza, 2011 [IX rist. 2024], 912 p. – ISBN 9788842095880.![LIVERANI, M. Antico Oriente: storia, società, economia. Nuova edizione aggiornata. Roma-Bari: Laterza, 2011 [IX rist. 2024], 912 p. LIVERANI, M. Antico Oriente: storia, società, economia. Nuova edizione aggiornata. Roma-Bari: Laterza, 2011 [IX rist. 2024], 912 p.](https://airtonjo.com/blog1/wp-content/uploads/2025/08/liverani-3-199x300.jpg)
Leio o original em italiano, mas comparo, de vez em quando, com as versões em inglês e português.
Estas são notas de leitura do capítulo 10: A crise da segunda urbanização [La crisi della seconda urbanizzazione] da terceira parte do livro: A Idade do Bronze Médio [La media età del bronzo]
Este capítulo tem 4 seções, que serão publicadas em 2 posts:
Post 1
1. A queda do império de Ur [1. Il crollo dell’impero di Ur]
2. Martu: os nômades e seu papel [2. Martu: i nomadi e il loro ruolo]
Post 2
3. Anatólia e Irã: o problema indo-europeu [3. Anatolia e Iran: il problema indo-europeo]
4. Generalidades e variedades da crise [4. Generalità e varietà della crisi]
Reestruturei o texto em formato de perguntas e respostas.
1. A queda do império de Ur
Os sinais de uma crise se multiplicavam no reinado de Ibbi-Sin?
. No início do reinado de Ibbi-Sin, o império de Ur* ainda funcionava de forma sólida em toda a sua extensão. Fórmulas de datação indicam vitórias sobre Simurrum e Khukhnur (também na região dos Zagros) e um casamento dinástico com Zabshali. Sinais de uma crise, tanto política quanto econômica, logo se multiplicaram. O uso das fórmulas de datação de Ibbi-Sin nas várias cidades, um sinal de sua dependência da capital, cessou gradualmente, começando pelas mais orientais: Eshnunna no segundo ano, Susa no terceiro, Lagash no quinto, Umma no sexto e, finalmente, Nippur no sétimo. As oferendas dos governadores provinciais às divindades de Ur cessaram por volta do sétimo ano. No sexto ano, começaram as obras das muralhas de Ur e Nippur. Assim, no sétimo ano, o reino de Ibbi-Sin estava limitado à capital e a algumas outras áreas. Simultaneamente, surgiu uma crise na produção agrícola e no abastecimento das cidades. Os preços das principais mercadorias subiram drasticamente devido à sua escassez.
Os textos literários explicam a crise como resultado de fatores naturais e de incursões de vizinhos?
. Embora os textos administrativos registrem esses fatos, os textos literários que descrevem a crise sugerem uma explicação dupla: além dos fatores naturais, como as baixas cheias dos rios Tigre e Eufrates, que levaram a dificuldades de irrigação e consequente fome, há também menção às incursões de populações bárbaras: por um lado, os Martu, que romperam a muralha construída para contê-los; por outro, os gútios e os Shimashki, que desceram dos Montes Zagros e devastaram as cidades centrais (Quis, Adab), chegando até Eridu, ao sul. Uma incursão elamita trouxe destruição à província mais exposta, a de Lagash. Um conjunto de cartas reais, preservado em uma cópia babilônica antiga, concentra-se nessa fase da desintegração do poder central. Um oficial de Ibbi-Sin, Ishbi-Erra (originalmente de Mari), enviado ao norte (a área de Isin e Kazallu) para obter grãos para abastecer a capital, escreve ao rei que é impossível cumprir a missão porque “todos os Martu entraram no interior do país, conquistando todas as grandes fortalezas uma a uma”. Ele, portanto, solicita que lhe seja confiada a defesa de Nippur e Isin.
Por que Ibbi-Sin não conseguiu enfrentar a crise?
. Ibbi-Sin, incapaz de enfrentar pessoalmente o perigo e a desintegração, confia em Ishbi-Erra, que, no entanto, aproveita a situação para obter autonomia. Se as incursões dos gútios e dos amoritas trazem destruição e ocupação temporária, a ocupação elamita no leste e a autonomia do norte sob o novo reino de Isin reduzem o império a uma entidade política limitada a algumas cidades. É difícil dizer por que Ibbi-Sin não ofereceu uma resistência militar eficaz; e é difícil dizer se os fatores econômicos da crise precedem ou sucedem os fatores políticos e militares. Os textos literários os colocam no mesmo nível, considerando os vários elementos da crise como uma expressão da decisão dos deuses de abandonar suas cidades e provocar o fim de Ur — não por causa de qualquer “pecado” por parte dos governantes, mas simplesmente porque “Ur recebeu de fato a realeza, mas não lhe foi dado um reinado eterno. Desde tempos imemoriais, desde a fundação da Terra até a multiplicação dos povos, quem jamais viu um reinado que prevalecesse para sempre?“**
Ur foi então sitiada e destruída pelos elamitas?
. Ibbi-Sin continuou a reinar por um longo tempo (25 anos no total), até o golpe final. Um ataque elamita à capital forçou Ibbi-Sin a se entrincheirar dentro das muralhas; o cerco foi longo e a cidade sucumbiu à fome. Os elamitas invadiram a cidade e saquearam suas imensas riquezas, profanando seus santuários mais venerados. Ibbi-Sin foi capturado e levado prisioneiro para Susa, enquanto uma guarnição elamita permaneceu em Ur por algum tempo, até que uma mudança na atitude divina (esta é a interpretação teológica da época) permitiu sua libertação por Ishbi-Erra e sua reconstrução. Na tradição posterior registrada nas coleções de presságios, o nome Ibbi-Sin tornou-se sinônimo de infortúnio e destruição: “presságio de Ibbi-Sin, sob cujo reinado Elam reduziu Ur a um monte de ruínas”; “presságio de Ibbi-Sin que significa destruição”***.
A “Lamentação pela destruição de Ur” retrata, em chave teológica, o enorme impacto causado pela destruição da cidade?
. A destruição de Ur, que até poucos anos antes fora a capital do império, a cidade mais poderosa do mundo, causou um enorme impacto. A “Lamentação pela destruição de Ur” é um texto longo, composto quando a reconstrução e a recuperação política da cidade já haviam começado (pois o texto termina profetizando tal recuperação), mas ainda próximo aos acontecimentos, que recebem uma interpretação orgânica em sentido teológico. Nas entrelinhas da interpretação teológica, são extraídas informações históricas confiáveis, como a divisão da crise em duas partes: a primeira com a crise geral do império (descrita cidade por cidade), a segunda com a destruição da capital. Todos os aspectos da crise são destacados, caso a caso: do ecológico ao produtivo, do jurídico ao cultural, do político ao militar.
Podemos com
parar a “Lamentação pela destruição de Ur” com a “Maldição de Akkad”?
. A interpretação teológica atribui o desastre a uma decisão da assembleia dos deuses que, uma vez tomada, não pode ser revertida (apesar dos repetidos e apaixonados apelos do deus da lua Nanna-Sin em nome de sua cidade) até que seja totalmente implementada — após o que uma nova fase positiva pode começar. É útil comparar essa explicação com a (quase contemporânea) referente à crise do império acádio. A “Maldição de Akkad”**** atribui a catástrofe a falhas específicas de Naram-Sin, sejam elas de culto (restauração do Ekur), comportamentais (desprezo por presságios) ou administrativas (abusos tributários). Os dois textos compartilham a noção de um ciclo alternado de ascensão e queda até mesmo das formações políticas mais poderosas, mas a culpa atribuída aos reis acádios é diferente do destino insondável de Ur. Um sinal de que, aos olhos do mundo sacerdotal e dos escribas do sul, a dinastia de Ur havia tido muito mais sucesso do que a de Akkad em concretizar as expectativas de justiça e boa administração do país, evitando o julgamento negativo que a teologia da história teria acarretado.
2. Martu: os nômades e seu papel
Como era a relação entre a cidade e a tribo pastoril?
. Na erosão progressiva e no colapso final do império de Ur, os nômades semitas ocidentais, chamados Martu em sumério e Amurru em acádio (daí “amoritas”), desempenharam um papel fundamental. A relação entre a cidade e a tribo pastoril existia há milênios, em formas gradualmente adaptadas às novas realidades organizacionais e econômicas. Na Mesopotâmia (assim como no vale do Nilo), o domínio político e territorial absoluto das cidades, da economia de produção agrícola e do próprio sistema hidrológico do país marginalizou a presença nômade como uma força “externa” e reestruturou a atividade pastoril em uma atividade sedentária ou, pelo menos (quando as condições para o pastoralismo transumante persistiram), integrou-a e a ela subordinou-a. Na faixa siro-palestina, contudo, as condições ecológicas mantiveram um sistema mais complexo e matizado: modestas ilhas de urbanização e exploração agrícola intensiva intercalavam-se com áreas montanhosas (com florestas e pastagens) ou estepes semiáridas. A notável expansão da “segunda urbanização” em áreas ecologicamente desafiadoras — na fronteira entre a faixa agrícola de sequeiro e a zona semiárida — sofreu uma estagnação e um declínio acentuado no final do terceiro milênio. É difícil determinar em que medida esse declínio se deveu ao fracasso (a longo prazo) da urbanização marginal, cujos custos eram muito altos em comparação com o potencial de rendimento agrícola, e qual a influência da flutuação climática (diminuição das chuvas). O fator climático, antes demonizado como anti-histórico, está ganhando maior credibilidade à medida que dados paleoecológicos mais confiáveis se tornam disponíveis.
A faixa siro-palestina tem uma ecologia e economia mistas?
. Essa faixa siro-palestina, com ecologia e economia “mistas”, estende-se em arco pela Alta Mesopotâmia, seguindo os contornos das isoietas. Ela foi definida como uma “zona dimórfica” (Michael Rowton), um termo agora usado em estudos orientalistas para designar uma área com economia mista, agrícola e pastoril. É importante notar o uso inadequado do termo, introduzido (por Marcel Mauss) para indicar um fenômeno completamente diferente, a saber, o “dimorfismo social”, que se refere à mesma área ou população assumindo duas morfologias distintas em diferentes épocas do ano. Nesse sentido, nossa “zona dimórfica” não o é por abrigar tanto tribos pastoris quanto cidades e vilas agrícolas, mas sim porque a população (agropastoril integrada) se distribui centralmente (em terras irrigadas) durante a estação seca do verão e se dispersa (em pastagens de estepe) durante a estação chuvosa do inverno e da primavera, seguindo os ritmos da transumância horizontal que sazonalmente divide e reúne núcleos familiares e patrimoniais extensos.
O componente urbano gerou um crescimento paralelo do componente pastoril?
. O crescimento organizacional do componente urbano gerou um crescimento paralelo do componente pastoril. Já na fase inicial da urbanização, o estabelecimento de cidades-estado ampliou a dimensão política, resultando na formação (e ação politicamente unificada) de tribos até mesmo extensas. A formação de grandes estados territoriais resultou na formação de confederações tribais. Os cidadãos continuavam a ver os nômades como bárbaros, desprovidos dos elementos constitutivos da civilização (casas e cidades, agricultura e um estilo de vida sedentário, túmulos e culto); mas obviamente os pastores não só tinham a sua própria cultura, como também a sua própria dimensão política e organizacional, o que se tornará evidente quando a documentação nos permitir compreender os seus aspectos reais para além dos antigos estereótipos etnográficos.
Havia pastores amoritas na Síria e no norte da Mesopotâmia?
. O componente pastoril na área siro-palestina e, posteriormente, na região da Alta Mesopotâmia, é claramente identificado linguisticamente (conhecido por nós por seus nomes próprios) como uma população semítica “ocidental” (amorita), distinta dos acádios “orientais”. Antes da descoberta dos arquivos de Ebla, acreditava-se que o componente amorita ocupava toda a área siro-palestina no terceiro milênio. Os arquivos de Ebla, no entanto, mostraram que o centro-norte da Síria era ocupado por uma população cuja língua (“eblaíta”) era distinta tanto do acádio quanto do amorita — uma língua ocidental, mas influenciada na escrita por sua proximidade e semelhança com o elemento acádio (“tradição de Kish”) da Mesopotâmia central. O componente amorita é, portanto, secundário e torna-se dominante na Síria após o colapso do sistema político eblaíta. Sua penetração na Mesopotâmia ocorre ainda mais tarde e só se dissemina após o colapso de Ur III.
Qual é a origem das populações de língua semítica?
. Este papel secundário do elemento amorita na própria Síria levanta, em termos atualizados, o antigo problema das origens semíticas: isto é, a existência de uma área que serviu como reservatório para a difusão de populações de língua semítica nas áreas agrícolas e urbanizadas do antigo Oriente Médio. Esse reservatório deve agora ser procurado ao longo da fronteira sudoeste do antigo Oriente Médio, que, seguindo a interface entre terras agrícolas e semiáridas, passa pela Palestina e Transjordânia e abrange toda a Arábia Ocidental, do Hejaz ao Iêmen — terras cuja exploração arqueológica da Idade do Bronze apenas começou. Dessa fronteira transjordaniana e do norte da Arábia, ondas ou pulsações sucessivas, alternando com fases recessivas, emergem da documentação (escrita e arqueológica): dos pastores gassulianos do final do Calcolítico aos nossos Martu, e até as pulsações subsequentes na Idade do Ferro e além.
Quais características linguísticas dos Martu nós conhecemos?
. Além dos estereótipos etnográficos dos escribas sumérios, os Martu são conhecidos por nós através de diversas fontes documentais. A fonte onomástica revela características linguísticas (a conjugação do prefixo em ya-, bastante diferente do i- acádio) e outras mais estritamente onomásticas (formações adjetivas terminadas em -ānum; sintagmas nominais de dois elementos, tanto nominais quanto verbais, mas sempre com o teóforo na segunda posição; em oposição aos sintagmas de três elementos com o teóforo na primeira posição, típicos da onomástica acádia). Revela também, até certo ponto, algumas características da organização tribal, especialmente as relações de parentesco (elementos típicos: ‘ammu, “tio paterno”, e ḫālu, “tio materno”; a importância do “nome do pai”, sumu-abim) e a religiosidade (prevalência inicial de um “deus” genérico, Ila; rápida assimilação de divindades como Hadad, Dagan, Ishtar e outras, provenientes do panteão sírio).
E há também textos administrativos e históricos sobre os Martu em Ebla, Akkad e no Egito?
. A segunda fonte documental é a informação sedentária fornecida em textos administrativos e históricos. Os textos administrativos mostram os Martu envolvidos em trocas comerciais com os habitantes das cidades, como pastores e tropas mercenárias, mas também como portadores de suas atividades artesanais, particularmente a metalurgia (a “adaga Martu”, um exemplo típico) e o curtimento de couro. Os textos históricos permitem reconstituir a história das relações entre as tribos pastoris e os estados sedentários, uma história unilateral de expedições em vão destinadas a empurrar os nômades o mais longe possível. Os Martu já são atestados nos textos de Ebla, depois nos de Akkad e, finalmente, nos de Ur III, quando sua pressão e infiltração na Mesopotâmia já eram intensas, o que pressupõe uma expansão prévia para a Síria. No outro extremo, fontes egípcias contemporâneas (Império Médio) revelam preocupações semelhantes com a pressão nômade e medidas similares: expedições punitivas contra um inimigo que, no entanto, era muito móvel e esquivo para ser derrotado de vez ou subjugado organicamente; por fim, a construção de uma linha de fortificações para proteger o delta do Nilo das incursões vindas do Sinai, um contraponto à muralha que os reis de Ur construíram para proteger a planície mesopotâmica. A contenção da pressão nômade por estados sedentários é um fenômeno recorrente na história do antigo Oriente Médio, com aspectos de mistificação propagandística (visando tranquilizar a população agrícola quanto à segurança) revelados pela atitude muito diferente da documentação administrativa (visando explorar as contribuições dos nômades para a economia e a milícia urbana).
No final do terceiro milênio os nômades se expandiram para regiões urbanizadas?
. No entanto, o fi
nal do terceiro milênio testemunhou uma fase de intensificação, de aumento da pressão que resultou na visível expansão dos nômades para terras urbanizadas, tanto no Egito, no início do Segundo Período Intermediário, quanto na Mesopotâmia, com o colapso do império de Ur. Evidências arqueológicas dessa intensificação da presença nômade no final do terceiro milênio têm sido buscadas. A Palestina (a região mais extensamente explorada) exibiu uma fisionomia distinta durante esse período, que foi denominado “Período Intermediário da Idade do Bronze Antigo/Médio”. A extensa rede de cidades da Idade do Bronze Antigo III, que também se estendia às áreas periféricas do sul e da Transjordânia, entrou em colapso repentino e dramático. Antes de um ressurgimento da urbanização com a disseminação (a partir do norte e da costa libanesa) da cultura da Idade do Bronze Médio I, há uma espécie de interlúdio em que as evidências arqueológicas provêm principalmente de necrópoles contendo bens funerários e refletindo costumes funerários que sugerem a presença de tribos nômades. Em particular, a necrópole de Jericó inclui grupos de túmulos diversificados por bens funerários (correspondentes a diferentes grupos tribais), demonstra a prática de sepultamentos secundários (explicáveis pela utilização da necrópole por grupos transumantes), revela a presença de elites guerreiras (com excelente armamento metálico) e exibe tipos de cerâmica de uma tradição diferente em comparação com as fases precedentes e subsequentes.
A presença do modo de vida pastoril na Síria, Palestina e Alta Mesopotâmia neste período intermediário é uniforme ou não?
. A análise do período intermediário, como uma fase em que todo o país regrediu da urbanização para o pastoralismo transumante, recebeu correções substanciais: não apenas pontos específicos da análise foram retificados, mas, sobretudo, identificou-se uma continuidade da vida urbana em alguns centros (como Meguido). Contudo, no que diz respeito à Palestina (próxima à extremidade sudoeste da urbanização), a avaliação do período intermediário como marcado por uma forte presença tribal/pastoril pode ser considerada válida. A extensão do paradigma à Síria e à Alta Mesopotâmia é menos aceitável. Na Síria, o colapso da segunda urbanização não pode ser explicado unicamente pela destruição de Ebla. Trata-se de um fenômeno de recuo da ocupação agrícola para áreas mais favoráveis em termos de água e solo, um fenômeno tipicamente duradouro, mas que teve início abrupto no final da Idade do Bronze Antigo. Nos espaços recém-disponíveis, a pressão tribal encontrou uma saída mais fácil, produzindo a amorreização da Síria que, mesmo com base na onomástica, pode ser datada entre o fim dos arquivos de Ebla e a documentação de Ur III e Isin-Larsa. Mas na Síria, a continuidade dos centros urbanos remanescentes é certa, assim como a evidente continuidade das formas cerâmicas, apesar da evolução tecnológica e de gosto que marcou o início da Idade do Bronze Médio. Um quadro semelhante emerge na Alta Mesopotâmia: organização urbana decrescente e complexa, penetração nômade nos espaços recém-abertos, continuidade cultural marcada por mudanças significativas na tecnologia e no gosto — mudanças, contudo, não atribuíveis a influências externas, mas sim explicáveis pela evolução interna.
A onda amorita ocupou primeiro a Palestina, depois a Síria e a Alta Mesopotâmia, chegando na Baixa Mesopotâmia?
. Em fases sucessivas, e com uma tendência decrescente, a onda amorita ocupou primeiro a Palestina, depois a Síria e a Alta Mesopotâmia, encontrando finalmente sua
saída e exaustão na Baixa Mesopotâmia. A natureza violenta desta última fase, documentada em textos neosumérios, foi de certa forma necessária devido à sólida organização político-militar do império de Ur. As fases precedentes podem ter sido de natureza diferente, refletindo situações de menor resistência e maior facilidade de penetração capilar. Como resultado dessa penetração, encontramos uma camada onomástica amorita estabelecida predominantemente na Síria e na Alta Mesopotâmia, e em menor grau na Baixa Mesopotâmia, no início do segundo milênio. No plano político, encontramos dinastias amoritas (cujas origens tribais diretas, no entanto, seriam arriscadas de se assumir, dada a assimilação sociocultural ocorrida nesse ínterim) governando várias cidades sírias e mesopotâmicas, como consequência da amorreização étnica. É importante notar que, enquanto o elemento amorita ganhava vantagem na área que antes correspondia a Ebla e à “tradição de Kish”, o elemento acádio, simultaneamente, ganhava vantagem na zona que antes era suméria. Não que a chegada dos amoritas tenha levado os acádios a se deslocarem mais para o sul. Eles já dominavam há muito tempo toda a Mesopotâmia central e baixa, onde, no entanto, as tradições escribais e políticas sob Ur III haviam se sobreposto ao peso do elemento sumério, agora residual. A chegada dos amoritas marcou a divisão política e cultural que permitiu ao acádio se tornar dominante, emergir definitivamente no nível da escrita e confinar o sumério ao papel de língua cultural e tradição religiosa e literária. A antiga simbiose sumério-acádia foi substituída pela nova simbiose acádio-amorita.
* Sobre Ur, leia dois posts: A III dinastia de Ur 1 e A III dinastia de Ur 2, publicados no Observatório Bíblico, respectivamente, em 23.10.2025 e 25.10.2025.
** Esta citação provém da obra literária suméria conhecida como Lamentação por Sumer e Urim (também conhecida como Lamento por Ur), um poema que lamenta a queda da cidade de Ur e o fim da III Dinastia de Ur (ca. 2004 a.C.). Serve como uma justificativa divina para o colapso da III Dinastia de Ur, destacando que, embora a cidade de Ur tenha sido escolhida pelos deuses para abrigar a realeza, nenhum reinado humano está destinado a durar para sempre. Confira BLACK, J. et alii The Literature of Ancient Sumer. Oxford: Oxford University Press, 2004.
*** O “Presságio de Ibbi-Sin” refere-se a um texto divinatório babilônico (extispício = prática antiga de adivinhação que consiste na inspeção das entranhas – fígado, intestinos, pulmões – de animais sacrificados, comum em rituais na Mesopotâmia) que prevê uma catástrofe, baseado na queda histórica do último rei da III dinastia de Ur. O texto registra que, durante o reinado de Ibbi-Sin, os elamitas, liderados por Kindattu, destruíram a cidade de Ur, aprisionando o rei e pondo fim ao domínio sumério, por volta de 2004 a.C.
**** Sobre A Maldição de Akkad, leia o post O império de Akkad 3, publicado no Observatório Bíblico em 08.10.2025.