Por que você quer estudar Teologia?

Um caminho de acesso a Deus. Entrevista especial com Vitor Galdino Feller

“O risco possível de desacato à experiência religiosa é fazer da profissão de teólogo apenas um meio de subsistência, sem relações e compromissos com a fé da comunidade a que se serve, um pedestal que o afasta da vida concreta de seus irmãos de fé.” Essa é a constatação do teólogo Vitor Galdino Feller sobre a profissionalização e reconhecimento dos teólogos pelo Estado brasileiro. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Feller falou sobre a presença e o papel da teologia e a religião na sociedade contemporânea e sobre o projeto que tramita no Congresso Nacional e como ele influencia a teologia atual. Doutor em Teologia, pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, Vitor Galdino Feller é, atualmente, diretor e professor no Instituto Teológico de Santa Catarina, em Florianópolis.

Confira a entrevista completa em Notícias do Dia – IHU On-Line: 26/04/2008

Destaco quatro trechos:

IHU On-Line – Como essas mudanças propostas pelo MEC e pelo Congresso Nacional afetam a teologia praticada e ensinada hoje?
Vitor Galdino Feller – A possibilidade dada pelo MEC para o reconhecimento de cursos de Teologia provoca os estudiosos da área a buscarem um perfil sempre mais acadêmico e científico para a teologia. Mesmo que toda teologia seja confessional, porque é ciência da fé, dentro uma determinada igreja ou religião, ela tem também uma dimensão racional. Ela deve explicitar a racionalidade e a razoabilidade da fé, com vistas a evitar expressões fundamentalistas, fanáticas, proselitistas, que são contrárias à liberdade religiosa e, portanto, desumanas. Já os projetos de profissionalização do teólogo em tramitação no Congresso Nacional não batem com a realidade atual, nem com a tradição da ciência teológica. Se aprovados assim como estão, levarão ao descrédito a condição e a pretendida profissão do teólogo [sublinhado meu]. Não se pode pretender que sejam teólogos as pessoas que realizam liturgias, celebrações, cultos e ritos, que dirigem e administram comunidades, que formam pessoas segundo preceitos religiosos das diferentes tradições, que orientam e aconselham pessoas, que realizam ação social na comunidade, que praticam vida contemplativa e meditativa e que preservam a tradição de sua religião. Na Igreja Católica, por exemplo, há uma infinidade de catequistas, ministros, missionários, sacristães, secretários paroquiais, conselheiros, coordenadores de pastorais as mais diversas etc., que nem sequer estudaram teologia. A profissão dessas pessoas poderia ser outra: agentes religiosos. Não se pode considerá-los como teólogos. Além disso, não tiram seu sustento desse serviço, que exercem na forma de voluntariado e gratuitamente. É exigência da Igreja Católica que todos os candidatos ao sacerdócio estudem teologia. Nem por isso os padres são considerados teólogos. Não há que se esquecer, ainda, que, se todas as pessoas que exercem essas atividades se tornarem profissionalmente teólogos, poderão passar a exigir direitos salariais como profissionais. Além de perder-se a dimensão da gratuidade do serviço religioso, todas as igrejas deveriam tornar-se empresas, com uma série infinda de funcionários, o que tornaria inviável o exercício da fé e da evangelização e, portanto, a existência das igrejas e religiões. Teólogos devem ser os que vivem e se sustentam do trabalho no ensino e no estudo, na pesquisa e na produção teológica. Para isso, devem ter feito, pelo menos, o curso de graduação em Teologia. A exigência de um curso de pós-graduação seria ainda mais conveniente [sublinhado meu]. Em comparação com os que concluem o curso de direito e devem fazer o exame da OAB para serem considerados e poderem exercer a profissão de advogados, também o concluinte de uma graduação em Teologia, para exercer a profissão de teólogo, deve qualificar-se academicamente para isso. A própria palavra “teólogo” traz em si, etimologicamente, a exigência do estudo, da ciência, do pensamento [sublinhado meu].

IHU On-Line – Os proponentes desse projeto que está tramitando no Congresso Nacional têm trajetórias profissionais como pastores de denominações religiosas que historicamente veem a teologia com suspeita, como ressaltou o professor Ricardo Willy Rieth. Esses proponentes têm ainda rejeitado a formação acadêmica superior em Teologia. Como o senhor analisa esse fato?
Vitor Galdino Feller – Esses projetos desrespeitam a história da teologia e, portanto, de muitíssimos cientistas que se deram ao trabalho de estudar, ensinar, pesquisar e publicar produções científicas sobre a fé e os fenômenos religiosos. Esses projetos deixam a impressão de que tudo está começando agora. Além disso, esquecem que toda religião tem uma dimensão racional, que precisa ser explicitada, sob pena de ficar no emocionalismo, no devocionismo, ou de levar ao fanatismo, ao exclusivismo. Desvios perigosos para a fé, a religião e a sociedade. Fé sem razão é tão perigosa para o ser humano e a comunidade humana quanto a exacerbação da razão, na forma de racionalismo fechado ao mistério [sublinhado meu].

IHU On-Line – Como o senhor analisa o ensino da Teologia no Brasil, hoje?
Vitor Galdino Feller – Há um aumento considerável de cursos de Teologia no Brasil. Quanto mais cursos de Teologia houver, quanto mais pessoas, sobretudo lideranças leigas, fizerem teologia, mais a teologia deixará de ser eurocêntrica, clerical, androcêntrica. Ao mesmo tempo, mais as nossas igrejas e religiões poderão contribuir – para além de sua própria renovação e refundação – para a construção da ética, da solidariedade, da cidadania, do senso e da prática da justiça. Isso é comprovado pelo histórico da teologia da libertação e, agora, dos estudos sobre o pluralismo religioso tão marcante no país.

IHU On-Line – Pensar a teologia como profissão pode vir a ser um desacato à experiência religiosa pressuposta no fazer teológico?
Vitor Galdino Feller – Não creio. Afinal, na prática, a profissão de teólogo já existe. Não é oficializada pelo estado brasileiro, como o é em alguns países da Europa. Mas existe na realidade da Igreja Católica e das igrejas protestantes históricas. Nessas igrejas, a teologia já é uma profissão. Nos dois sentidos da palavra: ocupação, ofício, emprego, que requer conhecimentos especiais; e declaração ou confissão pública da fé, na medida em que se ensina e se publicam textos sobre ela. O risco possível de desacato à experiência religiosa é fazer da profissão de teólogo apenas um meio de subsistência, sem relações e compromissos com a fé da comunidade a que se serve, um pedestal que o afasta da vida concreta de seus irmãos de fé [sublinhado meu].

Leia Mais:
Para onde vai a Teologia no Brasil?
A Teologia e seu papel na sociedade brasileira
Teologia e academia no Brasil

Audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve

Space: the final frontier. These are the voyages of the starship Enterprise. Its five-year mission: to explore strange new worlds, to seek out new life and new civilizations, to boldly go where no man has gone before (Star Trek: The Original Series).

 

Stephen Hawking apela ao espírito de Colombo para conquistar o Universo

Há 50 anos, o presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower, estampou sua assinatura num documento oficial que criava a Agência Nacional da Aeronáutica e do Espaço, a NASA, como é conhecida. Pode ser que o espaço não seja mais algo que está nas manchetes, mas há cientistas que estão se esforçando para fazer ver que as grandes missões ainda estão por vir, escreve David Alandete, em reportagem para o El País, 23-04-2008. A tradução é do Cepat. Entre esses cientistas está o astrofísico, intelectual e profeta do espaço Stephen Hawking. “Vivemos uma situação como a da Europa antes de 1492”, disse ontem em Washington, num ato de comemoração do meio século da agência espacial na Universidade George Washington. “As pessoas devem ter pensado que era perda de dinheiro enviar Colombo a algo comparável com caçar patos selvagens. Mas o descobrimento mudou o velho mundo…

Notícias do Dia – IHU On-Line: 26/04/2008


Hawking: “Si la raza humana sigue otro millón de años, tendremos que ir donde nadie ha ido jamás”

El prestigioso astrofísico inglés insta a conquistar el espacio con el mismo espíritu que Colón a finales del siglo XV

El astrofísico inglés Stephen Hawking, conocido por sus prestigiosos estudios sobre el universo y la gravedad, ha abogado hoy en Washington por que el hombre se lance a la conquista del espacio con el mismo espíritu y ambición con que Cristóbal Colón partió a la exploración del Nuevo Mundo en 1492.

“Si la raza humana va a continuar otro millón de años, tendremos que ir donde nadie ha ido jamás”, ha recalcado el científico, de 66 años, en una conferencia en la Universidad de Georgetown, para celebrar los 50 años de la NASA.

“Nos encontramos en la misma situación que Europa en 1492. Es posible que hayan argumentado que era una pérdida de tiempo enviar a Colón a buscar algo que no existía. Pero el descubrimiento de América ha cambiado profundamente la antigüedad. Pensad: no tendríamos el Big Mac”, ha declarado.

Para Hawking, la exploración espacial debería incluir la creación de una base permanente en la Luna en el curso de los próximos 30 años, así como el desarrollo de un nuevo sistema de propulsión para llevar al hombre más allá del sistema solar.

Hawking, quien sufre esclerosis lateral amiotrópica y tiene que utilizar un sintetizador de voz, ha destacado que “partir a la conquista del espacio tendrá un efecto todavía más grande. Va a cambiar completamente el futuro de la raza humana, e incluso podría determinar si tenemos un futuro”, ha destacado.

Los viajes espaciales “nos permitirán tener una mejor perspectiva sobre esos problemas, y ojalá nos unan para enfrentarnos a un desafío común”, ha añadido.

¿Estamos solos? “Probablemente, no”

A la gran pregunta de si estamos solos en el universo, el astrofísico británico responde que “probablemente no”.

Si existe vida, “¿por qué no hemos detectado señales alienígenas en el espacio, algo así como concursos televisivos extraterrestres?”, se pregunta el científico, quien cree que una de las opciones es que no haya más vida. Según Hawking, si existe algo o alguien lo suficientemente inteligente para enviar señales al espacio, lo es también para fabricar armas nucleares.

“La vida primitiva es muy común y la vida inteligente es más bien rara (…). Algunos dirían que aún no existe en la Tierra”, ha señalado, para después señalar con humor: “Tened cuidado si os topáis con un extraterrestre porque podríais contraer una enfermedad para la que no tendréis defensas”.

Fonte: El País / Agencias – Madrid/Washington – 22/04/2008

Teologia e academia no Brasil

Entre a cidadania teológica e a esquizofrenia acadêmica. Entrevista especial com Ricardo Willy Rieth

Com a possibilidade aberta pelo MEC para autorização e reconhecimento de cursos de bacharelado, a partir de 1999, a Teologia alcançou uma espécie de “cidadania acadêmica”, afirmou Ricardo Willy Rieth em entrevista à IHU On-Line realizada por e-mail. Rieth analisa o percurso da teologia no Brasil, dos projetos encaminhados ao Senado e à Câmara Federal e fala sobre o ensino da teologia no país. Trabalhando com docentes e pesquisadores de diversas áreas, Rieth se diz impressionado com a ignorância teológica presente nas academias. “Mesmo aqueles que professam alguma crença, sofrem de uma “esquizofrenia acadêmica”, ou seja, são incapazes de estabelecer relações entre o saber de sua área específica e o saber religioso”, disse. Ricardo Willy Rieth é teólogo e sociólogo. É doutor em teologia pela Universidade de Leipzig, na Alemanha, onde também obteve o título de pós-doutor. Atualmente, é professor da Universidade Luterana do Brasil – Ulbra e da Escola Superior de Teologia – EST.

Da entrevista, destaco três trechos. Leia a entrevista completa em Notícias do Dia – IHU On-Line: 24/04/2008

IHU On-Line – Como o senhor analisa o ensino da Teologia no Brasil, hoje?
Ricardo Willy Rieth – É notável a expansão de cursos de Teologia em todas as regiões do Brasil. Muitos, inclusive, buscando autorização oficial. As denominações que historicamente mantinham compromisso com uma formação teológica consistente, como a Igreja Católica Apostólica Romana e as igrejas protestantes históricas, seguem nesta linha. Denominações que, no passado, negligenciavam uma formação teológica em nível superior, como algumas igrejas pentecostais, grupos de espiritismo kardecista e cultos afro-brasileiros, estão gradativamente mudando sua postura. Por outro lado, se tal expansão traz consigo um aprofundamento da qualidade do ensino e da formação é algo difícil de avaliar. Tenho percebido que estudantes de Teologia têm agido da mesma forma que universitários em geral nos últimos tempos, ou seja, optando pelo pragmatismo da formação rápida e voltada ao pronto ingresso no mercado de trabalho, em detrimento de uma formação mais pautada pela reflexão crítica acerca dos conteúdos e práticas associados à Teologia. Infelizmente, as instituições de ensino superior têm atendido, ou têm sido levadas a atender a essa demanda de seus “clientes” [sublinhado meu].

IHU On-Line – A possibilidade de criação de um Conselho Nacional de Teólogos muda, de que forma, a relação entre a Igreja e o Estado?
Ricardo Willy Rieth – Penso que não mudaria. As denominações religiosas, cristãs ou não, seguirão determinando os critérios de seleção e designação dos membros do seu clero, independente das normas propostas por um suposto conselho nacional. Eventualmente, as condições do exercício da profissão de teólogo (a) na esfera pública – capelanias militares, por exemplo – poderiam ser afetadas.

IHU On-Line – Alguém que exerça a atividade de teólogo mesmo sem ser diplomado pode ser reconhecido pelo Estado, caso esse conselho seja aprovado. Qual sua opinião sobre isso?
Ricardo Willy Rieth – Para muitos, dentre os quais me incluo, a não-exigência de diploma oficialmente reconhecido colocaria este conselho de antemão em descrédito. Aliás, os teólogos precisam esforçar-se para que seu título, “teólogo”, cujo significado, de fato, é desconhecido para amplos setores da população brasileira, seja digno de crédito e visto de forma positiva. Isso porque muitos, infelizmente, têm associado títulos mais conhecidos, como “pastor”, por exemplo, a vigarista e “picareta”, e “padre”, a pedófilo, muitas vezes com conteúdos tendenciosos apresentados pelos meios de comunicação.

Tyndale: mapas e fotos para estudos bíblicos

É uma bela coleção de links para mapas e fotos úteis para os estudos bíblicos: Mapas interativos e Google Earth – Mapas tradicionais e em PowerPoint – Fotos da região e de sítios arqueológicos. No Tyndale Tech, por David Instone-Brewer – Tyndale House, Cambridge, Reino Unido.

Interactive maps & GoogleEarth – Traditional maps & powerpoint maps – Photos of places & archaeology. By David Instone-Brewer, Tyndale House, Cambridge, UK.

Horsley no III Congresso de Pesquisa Bíblica

O III Congresso Brasileiro de Pesquisa Bíblica, promovido pela Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB), fundada em 2004, em Goiânia, acontecerá em São Paulo, provavelmente na PUC-SP, no mês de setembro de 2008. O tema central girará em torno da figura de Jesus.

Há confirmação das presenças, entre outros, do brasileiro Carlos Mesters e do norte-americano Richard A. Horsley, professor de Línguas Clássicas e Religião na Universidade de Massachusetts, Boston, USA.

No Brasil temos traduzidas as seguintes obras escritas e/ou editadas por Richard A. Horsley:

Jesus e o Império: O reino de Deus e a nova desordem mundial. São Paulo: Paulus, 2004, 156 p. – ISBN 8534921881
Original inglês: Jesus and Empire: The Kingdom of God and the New World Disorder. Minneapolis: Augsburg Fortress, 2003, 144 p. – ISBN 9780800634902

Paulo e o Império: Religião e poder na sociedade imperial romana. São Paulo: Paulus, 2004, 248 p. – ISBN 8534922322
Original inglês: Paul and Empire: Religion and Power in Roman Imperial Society. Trinity Press, 1997, 272 p. – ISBN 9781563382178

Arqueologia, História e Sociedade na Galileia: O contexto social de Jesus e dos Rabis. São Paulo: Paulus, 2000, 200 p. – ISBN 8534915679
Original inglês: Archaeology, History, and Society in Galilee: The Social Context of Jesus and the Rabbis. Trinity Press, 1996, 256 p. – ISBN 9781563381829

Bandidos, Profetas e Messias: Movimentos populares no tempo de Jesus. São Paulo: Paulus, 1995, 232 p. – ISBN 8534904464
Original inglês: Bandits, Prophets, and Messiahs: Popular Movements in the Time of Jesus. Trinity Press, 1999 [Harper Collins: 1985], 271 p. – ISBN 9781563382734

Fundamentalismo: um desafio permanente

O fundamentalismo continua a ser um desafio permanente para a leitura da Bíblia. Eu arriscaria até a dizer que ele tem crescido em extensão e ferocidade. A linguagem, pelo menos, é, sem dúvida, violenta.

No artigo Fundamentalismo e modernidade, publicado na revista Concilium, v. 241, n. 3, Petrópolis, 1992, o conhecido teólogo J. Moltmann escreve nas p. 142-143:
Os fundamentalistas não reagem às crises do mundo moderno, mas às crises que o mundo moderno provoca em sua comunidade de fé e em suas convicções básicas. A convição de fé se baseia na segurança da autoridade divina. Nas assim chamadas Religiões do Livro, é a autoridade divina do documento da revelação: a palavra de Deus é, como o próprio Deus, sem erro e infalível (…) As ciências históricas e empíricas do mundo moderno são reconhecidas enquanto concordarem com [o documento divino da revelação], mas são rejeitadas se questionarem esta autoridade intemporal (…) O documento divino da revelação não pode estar sujeito à interpretação humana mas, ao contrário, a interpretação humana deve estar sujeita ao documento divino da revelação. O fundamentalismo exclui todo juízo racional sobre a condicionalidade histórica de sua origem e sobre a diferença hermenêutica em relação às condições mudadas do presente. O conteúdo de verdade do documento da revelação é intemporal e não precisa ser constantemente explicado ou atualizado, mas apenas conservado intocável. O fundamentalismo baseado na revelação não argumenta, apenas afirma. Não pede compreensão, mas sujeição. Não se trata absolutamente de um problema hermenêutico mas de uma luta pelo poder: ou a palavra de Deus ou o ‘espírito da época’. O fundamentalismo também não é um fenômeno de retirada ou de defesa, mas de avanço sobre o mundo moderno para dominá-lo. Faz parte das várias estratégias teo-políticas atuais…

Exemplifico o que Moltmann diz acima com frases fundamentalistas retiradas dos comentários feitos hoje a Moisés pode não ter existido, sugere pesquisa arqueológica – Reinaldo José Lopes – G1: 20/04/2008.

 

O artigo

Moisés pode não ter existido, sugere pesquisa arqueológica

Escavações e inscrições mostram que povo de Israel se originou dentro da Palestina. História sobre libertação do Egito teria influência de interesses políticos posteriores.

A saga de Moisés, o profeta que teria arrancado seu povo da escravidão no Egito e fundado a nação de Israel, tem bases muito tênues na realidade, segundo as pesquisas arqueológicas mais recentes. É praticamente certo que, em sua maioria, os israelitas tenham se originado dentro da própria Palestina, e não fugido do Egito. O próprio Moisés tem chances de ser um personagem fictício, ou tão alterado pelas lendas que se acumularam ao redor de seu nome que hoje é quase impossível saber qual foi seu papel histórico original.

É verdade que as opiniões dos pesquisadores divergem sobre os detalhes específicos do Êxodo (o livro bíblico que relata a libertação dos israelitas do Egito) que podem ter tido uma origem em acontecimentos reais. Para quase todos, no entanto, a narrativa bíblica, mesmo quando reflete fatos históricos, exagera um bocado, apresentando um cenário grandioso para ressaltar seus objetivos teológicos e políticos.

Airton José da Silva, professor de Antigo Testamento do Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto (SP), resume a situação: “O Moisés da Bíblia é
claramente ‘construído’. Pode até ter existido um Moisés lá no passado que inspirou o dos textos, mas nada sabemos dele com segurança. Nas minhas aulas de história de Israel, começo com geografia e passo para as origens de Israel em Canaã [antigo nome da Palestina], não trato mais de patriarcas e nem do Êxodo”.

Data-limite

Os pesquisadores dispõem há muitos anos do que parece ser a data-limite para o fim do Êxodo. Trata-se de uma estela (uma espécie de coluna de pedra) erigida pelo faraó Merneptah pouco antes do ano 1200 a.C. A chamada estela de Merneptah registra uma série de supostas vitórias do soberano egípcio sobre territórios vizinhos, entre eles os de Canaã. E o povo de Moisés é mencionado laconicamente: “Israel está destruído, sua semente não existe mais”. Não se diz quem liderava Israel nem que regiões eram abrangidas por seu território. Trata-se da mais antiga menção aos ancestrais dos judeus fora da Bíblia.

Se a saída dos israelitas do Egito ocorreu, ela precisaria ter acontecido antes disso. A Bíblia relata que, cerca de 400 anos antes de Moisés, os ancestrais do povo de Israel, liderados pelo patriarca Jacó, deixaram seu lar na Palestina e se estabeleceram no norte do Egito, junto à parte leste da foz do rio Nilo. Os egípcios teriam permitido esse assentamento porque, na época, o mais importante funcionário do faraó era José, filho de Jacó. Décadas mais tarde, um novo faraó teria ficado insatisfeito com o crescimento populacional dos descendentes do patriarca e os transformado em escravos.

Por algum tempo, arqueólogos e historiadores acharam que haviam identificado evidências em favor dos elementos básicos dessa trama. É que, por volta do ano 1700 a.C., a região da foz do Nilo foi dominada pelos chamados hicsos, uma dinastia de soberanos originários de Canaã e de etnia semita, tal como os israelitas. (O nome “Jacó”, muito comum na época, está até registrado entre nobres hicsos.)

Pouco mais de um século mais tarde, os egípcios expulsaram a dinastia estrangeira de suas terras. Isso mataria dois coelhos com uma cajadada só. Explicaria a ascensão meteórica de José na burocracia egípcia, graças à proximidade étnica com os hicsos, e também por que seus descendentes foram escravizados — eles teriam sido associados à ocupação estrangeira no Egito.

O problema com a ideia, no entanto, é que não há nenhuma menção aos israelitas ou a José e sua família em documentos egípcios ou de outros reinos do Oriente Médio nessa época. Pior ainda, até hoje não foi encontrado nenhum sítio arqueológico no Sinai que pudesse ser associado aos 40 anos que os israelitas teriam passado no deserto depois de deixar o Egito.

Os textos egípcios também não falam em nenhum momento da fuga liderada por Moisés, se é que ela ocorreu. “Isso é um problema grave. O argumento de que os egípcios não registravam derrotas é falso: a saída de um pequeno grupo nem era um revés, e eles relatavam derrotas sim, mesmo quando diziam que tinha sido um empate”, afirma Airton José da Silva.

Apiru = hebreus?

Para Milton Schwantes, professor da Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, outro problema com a ligação entre os israelitas e os hicsos é dar ao Êxodo uma dimensão muito mais grandiosa do que seria razoável esperar do evento. “É uma cena de pequeno porte — estamos falando de grupos minoritários, de 150 pessoas fugindo pelo deserto. Em vez do exército egípcio inteiro perseguindo essa meia dúzia de pobres e sendo engolido pelo mar, o que houve foram uns três cavalos afundando na lama”, brinca Schwantes.

Ele é menos pessimista em relação aos possíveis elementos de verdade histórica na narrativa do Êxodo. Os israelitas são freqüentemente chamados de “hebreus” nesse livro da Bíblia, uma mistura de nomenclaturas que deixou os estudiosos com a pulga atrás da orelha. Documentos do Oriente Médio datados (grosso modo) entre 2000 a.C. e 1200 a.C., porém, falam dos habiru ou apiru — grupos que parecem ter vivido às margens da sociedade, atuando como trabalhadores migrantes, escravos, mercenários ou guerrilheiros.

“Ou seja, os hebreus talvez não fossem um grupo étnico, mas uma categoria social, de pessoas que muitas vezes eram forçadas a participar de grandes construções no Egito, sem receber o necessário para o seu sustento”, afirma Schwantes. Ele também vê sinais de memórias históricas antigas nos nomes de algumas cidades egípcias mencionadas na narrativa do Êxodo — lugares que foram ocupados por um período relativamente curto de tempo, por volta de 1200 a.C.

“O próprio nome de Moisés é um nome egípcio que os israelitas não entenderam”, diz Schwantes. Parece ser a terminação “-mses” presente em nomes de faraós como Ramsés e quer dizer “nascido de” algum deus — no caso de Ramsés, “nascido do deus Rá”. No caso do líder dos israelitas, falta a parte do nome referente ao deus.

Mar: Vermelho ou de Caniços?

O momento mais famoso da saída dos israelitas do Egito é o confronto entre Moisés e o exército egípcio no Mar Vermelho, quando, por ordem de Deus, o profeta abre as águas para seu povo passar e as fecha para engolir os homens do faraó. No entanto, é possível que a história original tenha se referido não a águas oceânicas, mas a um pântano.

Explica-se: o sentido original do hebraico Yam Suph, normalmente traduzido como “Mar Vermelho”, parece ser “Mar de Caniços”, ou seja, uma área cheia dessas plantas típicas de regiões lacustres. Assim, nas versões originais da lenda, afirmam estudiosos do texto bíblico, os “carros e cavaleiros” do Egito teriam ficado presos na lama de um grande pântano, enquanto os fugitivos conseguiam escapar. Conforme a tradição oral sobre o evento se expandia, os acontecimentos milagrosos envolvendo a abertura de um mar de verdade foram sendo adicionados à história.

O dado mais importante sobre a dimensão real do Êxodo, no entanto, talvez venha da Palestina. Israel Finkelstein, arqueólogo da Universidade de Tel-Aviv, em Israel, conta que uma série de novos assentamentos associados às antigas cidades israelitas aparecem na Palestina por volta da mesma época em que a estela de Merneptah foi erigida. Acontece que a cultura material — o tipo de construções, utensílios de cerâmica etc. — desses “israelitas” é idêntica à que já existia em Canaã antes de esses assentamentos surgirem. Tudo indica, portanto, que eles seriam colonos nativos da região, e não vindos de fora.

Para Finkelstein, isso significa que a história do Êxodo foi redigida bem mais tarde, por volta do século 7 a.C. O confronto com o Egito teria sido usado como forma de marcar a independência dos israelitas em relação aos vizinhos, que estavam tentando restabelecer seu domínio na Palestina. A figura de Moisés, talvez um herói quase mítico já nessa época, teria sido incorporada a essa versão da origem da nação.

Fonte: Reinaldo José Lopes – G1: 20/04/2008

 

Os comentários

Os muitos erros de português dos textos foram preservados como estão nos comentários, pois indicam, a meu ver, com bastante clareza, a qualidade do pensamento expresso. Lembro, entretanto, que é necessário ir à página do artigo para ver as centenas de comentários, que devem ser lidos completos e em seu contexto, com todos os seus matizes e contradições, provas e contraprovas. Estes pequenos trechos são usados aqui apenas como ilustração viva e candente do raciocínio teológico de J. Moltmann.

. Tentar combater a bíblia, palavra viva de Deus com a ciência, estudos de homens, é uma aberração
. Atacando a fé do povo com uma idiotice sem fatos
. Irmãos, irmãs, povos e nacões… deixemos a ciencia e continuemos olhando pra Cristo, autor e consumador da nossa fé
. Abaixo os Ateus e Cientistas
. Um dia todos…inclusive esses historiadores…vão perceber que Ele existe sim!!!… Porém…será tarde….Ele está voltando…
. Esses cientistas não cre em Deus e nem na biblia por isso falam essas aberrações
. Devemos orar e pedir a Deus em nome de Jesus Cristo que nos revele a verdade atravès da fé. Não nos cabe questionar um passado tão distante que NINGUEM pode dizer com 100% de acerto o que de fato aconteceu
. Quem afirma tal coisa, não passa de um débil mental e um grande idiota. Sou capaz de apostar que é um ateu e nem em DEUS o idiota deve crer. Besta
. Sabendo que a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem, se torna um absurdo os ateus (atoas) questionarem a Bíblia. Creio piamente na Bíblia escrita, fala e inspirada por Deus! As coisas espirituais se discernem espiritualmente seus atoas!
. Se eles querem realmente provar algo concreto, que vão pesquisar o fundo do mar vermelho ao invés de propor supostamente
. Esses cientistas deviam deixar a fé das pessoas em paz, pois é só isso que nos resta
. Isso é inaceitável, a bilbia a palavra de Deus, esta acima do que qualquer coisa, ela é verdade absoluta e ponto final, isso explica o seu valor de geração em geração, não é uma simples expeculação absurda, com este assunto que vai torna-la mentirosa
. Estao se preocupando demais com coisas que nao irao mudar. Sao fatos! E fatos nao se mudam ou alteram. Se querem uma resposta para tudo que aconteceu; deveriam procurar conhecer mais esse Deus maravilhoso que temos. Certamente, se calariam
. Que se explodam esses malucos que ficam perdendo tempo em desmentir a Bíblia, se a Bíblia não é verdadeira pq, se perde tanto tempo tentando desvendá-la? Eu continuo acreditando nela. Eles só sabem jogar teses e teses no ar, mas provar que é verdade? Não vi nada até agora
. A Biblia é bem clara quando diz que quando Jesus estiver as portas de sua volta, varios lidres e estudiosos tentarão distorcer o que dis a verdadeira palavra de Deus, e lendo essa reportagem so posso alertar a todos que Jesus esta realmente as portas e esta reportagem é mais um sinal dessa tese!
. Para o crente não importa o que os ´sábios´ dizem da Bíblia, mas o que a Bíblia diz dos ´sábios´: (loucos que serão julgados pelo o Autor, O SENHOR DEUS)
. Esses cientistas, estão todos malucos, querem acabar com a palavra de DEUS atravéz da internet, mas o povo que acredita realmente na palavra de DEUS jamais deixará se levar por essas balelas
. O q voceis estão tentando fazer desmentindo as coisas do SENHOR estão escrita na palavra faz tempo, cuidado a criatura é inferior ao CRIADOR, está chegando o grande dia, nós da igreja sabemos o q temos VISTO e ouvido nas manifestações do ESPIRITO SANTO.Tomem cuidado, todos ficaremos fente a frente
. Todos esse cientistas vao para o inferno quando eles fizerem apassagem desta vida para a outra eles vao tomar um susto eles pensam que DEUS nao esta tomando conhecimento de tudo ai ja e tarde aguardem seus ateus.
. Abomino todos os teólogos que insistem em diminuir ou negar acontecimentos bíblicos. De Adão e Eva ao fim dos tempos
. Lamentavelmente, desde o início, a ciência procura anular completamente os relatos bíblicos. O interessante é que, em TODOS os casos, principalmente os mais polêmicos, os cientistas acabam por reconhecer que a Bíblia tinha razão
. O que representa a biblía para estes pesquisadores arqueológicos? Eu acho que eles devem dobrar o Joelho e pedir a DEUS que de sabedorias a eles, pois parece falta muito a eles
. Esse cientista e apenas um pequeno cumedo de feijão que ñ sabe de nada
. O diabo continua querendo engar o povo atravès da ciência dizendo que a Bìblia è mentira!
. Por mais que tentem desmiter os fatos biblicos nunca conseguiram enganar a todos com esses estudos, a ciencia não é nada diante do poder de DEUS
. Po…sobrou até pra moisés… mais eu continuo com a biblia…ela é infalível!
. O que vejo é homens tentando apagar e esquecer a existência de um Deus ´Jeová´, poderoso em Glória e Autoridade… Coitado dos Cientistas
. Pesquisadores todos idotas e tolos
. Realmente estes estudiosos da biblia sao homens de pequena fe! Como se pode dizer que fatos como o exodus eh ficcao, eh a mesma coisa dizer que Jesus nao existiu
. Eu ach que esses pesquisadores tem um pacto com o demonio, em tudo querem ahcar erros, ipocritas
. Todos nós que somos cristaos, sabemos que esse professor idiota, esta sendo usado para deturpar a palavra de DEUS, pois a SANTA BIBLIA fois escrita por maos de homens inspirado pelo ESPIRITO SANTO DE DEUS, ninguem sabe onde foi enterrado MOISES,senao o PAI que estas nos CEUS portanto sai de RÈ satanas
. Cientistas da ´nova era´ se preocupam em desmoralizar, desmentir a Biblia , distorcer os fatos,d a verdadeira realidade espiritual. De repente Jesus Cristo não existiu ou se existiu casou com Maria Madalena e DÚS nunca existiu ou se existe se trata de uma energia. Paciencia, os iniquos acreditam neles.
. Como diria Jô Soares: ´Cientistas desocupados´
. A ciencia tenta despistar mais sempre comprova o q esta escrito na biblia
. Infelizmente, temos esses artigos, escrito e somente gostaria de saber, se esses estudiosos, não tem nada mais importante, para estudar, e deixar a Bíblia, quietinha com seus ensinamentos
. O inimigo de Deus usa pessoas como essas que querem manchar a verdade Biblica
. Porque estes cientistas não dão uma chegadinha na parte do deserto onde estão as inscrições antigas sobre a travessia do mar vermelho, em pedras, é na parte onde os turistas não vão
. Penso que o povo de Deus tem que ficar bastante atento com resultados dessas pesquisas que tem sido feitas, na minha opinião essas afirmações vai aumentar cada vez mais, qual o objetivo é fazer que muitos cristão comece a duvidar de tudo , que esta por traz disso tudo nos sabemos é o inimigo.
. Tudo o que está escrito na Bíblia é verdade, sem tirar e nem acrescentar uma vírgula sequer. Estes cientistas mentirosos e herejes deveriam sim, é dedicar suas pesquisas em algo útil, como a cura de doenças como o câncer, ou quem sabe, achar solução para o aquecimento global
. A ciência ainda tá fria, muito fria, ela acredita que o homem foi a lua e que planetas existem, e que ha matéria no espaço, o homem ainda nem se conhece, não conhece a Terra, imagine conhecer o NADA (luz). Moises existiu sim.
. Existem inúmeros livros que trabalham a infabilidade e inerrância das Escrituras Sagradas. Por que a mídia nunca procura esses autores?
. Penso que não devemos discutir algo tão grandioso como Deus e sua palavra
. Bem que hoje estava sentindo um CHEIRINHO de ENXÔFRE, era o HÁLITO dos ATEUS!
. Os cientistas buscam, a toda força diga-se de passagem, descaracterizar, ou ainda pior, pormenorizar os fatos bíblicos que contam a história não só dos hebreus, como de toda humanidade. Nunca vão conseguir.CREMOS NA BIBLIA SIM. O QUE NÃO CREMOS É QUE VIEMOS DO MACACO.NUNCA VI MACACO VIRAR GENTE!!
. ATEUS!!! ELE pedirá: Dá conta da sua ADMINISTRAÇÃO!!!
. Pessoal… essa matéria não tem outro objetivo a não ser levantar `polêmica` e chamar a atenção p/ alguns cientistas desocupados… vão pesquisar a cura para doenças que estão matando as pessoas… vão pesquisar meios de acabar com a fome… a ciência sequer conseguiu provar que existiu a evolução…
. Os que creêm em Deus devem saber que a verdade divina não pode ser abalada nem mesmo pela maior prova humana. Para mim, creio em uma ciência que comprova a verdade de Deus. Firmem-se vocês tb.
. O que estou vendo nestes estudos, é, mais uma tentativa de desacreditar os textos sagrados da bíblia, que é a palavra de DEUS, e isto é próprio de quem sabe que esta derrotado e tenta de todas as maneras desviar a mente das pessoas. A bíblia não precisa de defensor ela é palavra de DEUS.
. Até hoje a ciencia sempre pos em prova a veracidade da Biblia. Até agora nao tem conseguido provar sequer um erro em seus fatos e dados historicos. Admiro muito um sacerdote que se diz professor de AT duvidar dos relatos Biblicos, apenas pelo metodo da induçao filosofica. Tenho duvida de sua fé.
. Essas pesquizas são financiadas por Satanás afim de confundir as pessoas e enfraquecer a crença em Deus. Esse tipo de matéria deveria ser censurado. Afinal de quem seria o interesse em desmistificar a Bíblia?
. “Ai daquele que acrecentar um til nas escrituras sagradas”. diz a ‘biblia’ a palavra de Deus

Nos dias 20 e 21 foram publicados 497 comentários de leitores sobre o artigo… Já tive a honra de ser esculhambado por vários fundamentalistas! Aliás, a tônica fundamentalista predomina. É um reverbério fascinante! E trágico, constato mais uma vez.

Uma prece pelos civis inocentes mortos no Iraque?

Os bastidores de uma paróquia nos EUA. Uma religião patriótica que não criará revoluções

Para entender o que Bento XVI e a Igreja enfrentam nos EUA é preciso conhecer uma comunidade católica. A opinião é de Kenneth Serbin em artigo no jornal O Estado de S. Paulo, 20-04-2008. Serbin leciona história na Universidade de San Diego. É autor do livro Padres, Celibato e Conflito Social: Uma História da Igreja Católica no Brasil, a ser publicado este ano pela Companhia das Letras.

 

Eu sempre me entristeço com o fato de nenhum padre fazer uma prece pelos civis inocentes mortos no Iraque e suas famílias. Esta é uma religião patriótica que não criará revoluções. Anseio por padres com um maior conhecimento do mundo exterior e disposição para pregar sobre algo mais que a moral pessoal.

 

Durante a visita do papa Bento XVI aos Estados Unidos nos últimos dias, muitos católicos prosseguiram com suas atividades diárias provavelmente sem prestar muita atenção ao líder da sua Igreja. Uma visita papal é um evento politicamente fascinante e um dia excepcional de trabalho para a mídia norte-americana, que, espantosamente, tem pouco conhecimento de religião e ainda menos simpatia por ela. Para compreender a real importância dos desafios que Bento XVI e a Igreja enfrentam nos Estados Unidos é preciso acompanhar o que se passa nas comunidades católicas. Eu pertenço a uma dessas comunidades, a Ascension Parish, paróquia localizada num bairro de classe média de San Diego, Califórnia, chamado Tierrasanta, ou Terra Santa, que se entrecruza com conjuntos habitacionais e ruas com nomes hispânicos, uma mania antiga no sul da Califórnia, originalmente habitado por povos indígenas, depois por colonos mexicanos e espanhóis, e depois por norte-americanos. Vivemos a cerca de 30 quilômetros da fronteira de San Ysidro com Tijuana, a mais movimentada passagem fronteiriça do mundo e a única fronteira compartilhada por um país do Primeiro e um do Terceiro Mundo. O sul da Califórnia é um amálgama de pessoas nascidas principalmente nos Estados Unidos, mas procedentes, cada vez mais, da América Latina, Ásia, Oriente Médio, África e outras partes do mundo.

Nossa paróquia tem cerca de 800 famílias inscritas, embora muitas outras participem das Missas de Natal e da Páscoa. Os católicos formam um quarto da população dos Estados Unidos, mas são a maior congregação religiosa do país. A diocese de San Diego, por exemplo, tem uma população de 3 milhões de pessoas – um terço são católicos.

Como ocorre no restante dos Estados Unidos, vivemos em uma comunidade tolerante e pluralista em religião. Além da nossa paróquia, Tierrasanta tem igrejas de luteranos, mórmons, batistas, adventistas do sétimo dia, membros chineses da Igreja Unida de Cristo e outras confissões cristãs. San Diego também tem mesquitas, sinagogas e igrejas ortodoxas.

Dois dos sequestradores envolvidos nos atentados do 11 de Setembro, que jogaram seu avião contra o Pentágono, viviam a poucos quilômetros da nossa casa e frequentavam a mesquita local. Após o 11 de Setembro, a polícia passou a vigiar o local para proteger a mesquita contra possíveis retaliações, mas nunca aconteceu nada.

Minha esposa mineira e eu não nos deixamos envolver pela cultura de consumo hedonista tão fortemente criticada por Bento XVI, como também por seu predecessor, João Paulo II. Mas não temos sido devotos, no sentido de comparecer regularmente à missa e participar dos sacramentos, embora adotemos a identidade católica enraizada na história dos nossos ancestrais. Minha esposa é uma dessas típicas brasileiras católicas que acreditam firmemente em Deus, porém não se identificam muito com a instituição e o seu clero. Fui ainda muito devoto nos meus anos de faculdade, mas essa devoção começou a diminuir quando entrei na pós-graduação, embora tenha me sentido fortemente atraído pela Igreja progressista no Brasil e acabado estudando o clero brasileiro.

Somos muito conservadores e profundamente influenciados pelo catolicismo em nossas vidas pessoais, mas, em se tratando de política e das grandes controvérsias da nossa época, temos opiniões independentes da Igreja ou qualquer outra instituição.Há dois anos e meio, quando nossa filha entrou no jardim de infância, minha mulher e eu começamos a discutir que tipo de educação moral e religiosa nós lhe ofereceríamos. E rapidamente chegamos à conclusão de que ela precisava de uma estrutura moral que a guiasse em sua vida. Ela – e nós – também precisaria ter um sentido maior de comunidade. Afinal, o que é um culto religioso senão a reunião dos fiéis? Queríamos também que nossa filha tivesse um sentido das origens da sua família. E que tivesse um sentido de transcendência e da própria espiritualidade.

Nós a matriculamos nas aulas de catecismo e tentamos ir à missa com ela regularmente. Quando não participávamos da missa, líamos para ela trechos da Bíblia para crianças, em inglês e português. Antes da Páscoa, eu lia trechos da Paixão, quando ela estava na cama. E uma noite, quando eu a cobria para dormir, ela me falou que todas as histórias da Bíblia não eram necessariamente verdadeiras. Já iniciou um interessante diálogo para uma menina de 7 anos de idade!

Há algumas semanas, ela fez sua primeira confissão. Foi uma experiência aterradora. Ela nos perguntou várias vezes o que deveria contar ao padre. No dia designado para a confissão, sentou-se na cadeira diante do padre, numa sala muito bem iluminada. Através da janela, pude vê-la chorando. Sua penitência era simplesmente tentar ser uma pessoa melhor. Comentei com minha mulher que a confissão pode ter seu valor, mas a Igreja deveria pensar em introduzi-la na adolescência ou no inicio da idade adulta.No próximo mês, nossa filha fará sua primeira comunhão. Estamos felizes com isso, porque ela será cada vez menos a criança que se senta silenciosamente no banco da igreja, entediada com a missa, agarrada ao seu bichinho de pelúcia ou meio adormecida nos braços da mãe, e cada vez mais uma iniciada ativa na comunidade.

Nossa paróquia está a cargo do padre Chuck. Padre Chuck é uma pessoa a quem o papa Bento XVI e o restante da hierarquia deveriam prestar alguma atenção. Ele encontrou sua vocação já adulto e se tornou padre com mais de 50 anos de idade.

Na verdade, padre Chuck era casado quando jovem. Ele e sua mulher tiveram três filhos, e ela faleceu em 1969. Hoje ele tem vários netos e até bisnetos.

A experiência do padre Chuck como homem de família e profissional – passou 20 anos na Marinha dos Estados Unidos, tendo chegado ao posto de comandante – penetra nos seus interessantes sermões e no seu sereno modo de ser.

Não conheço a opinião dele sobre a obrigatoriedade do celibato, mas ele é claramente um exemplo de como a Igreja poderia resolver em parte o problema da sua perene escassez de padres, admitindo homens casados para o ministério. Enquanto no Brasil, nos últimos anos, as vocações vêm mais ou menos acompanhando o ritmo de crescimento da população, nos Estados Unidos o número de vocações novas caiu dramaticamente. E tal como o padre Chuck, os padres são cada vez mais velhos.

Há alguns meses, ele fez um sermão em que apresentou o pedido formal do bispado para coleta de fundos para ajudar a pagar acordos legais que a diocese firmou com vítimas abusadas sexualmente por padres, num valor de US$ 200 milhões. Padre Chuck parecia envergonhado com esse assunto, que teve uma cobertura negativa enorme por parte da mídia local. Minha mulher e eu não contribuímos com essa coleta.

Padre Chuck, outros padres que rezam a missa na paróquia de Ascension e o diácono, todos fazem sermões enfatizando a fé como instrumento para superar lutas pessoais e uma pessoa fazer de si alguém mais tolerante e amável. Nesse sentido são pregadores muito tradicionais. Ao sair da igreja um domingo, padre Chuck me saudou e a minha família, dizendo “sejam bons uns com os outros”.

San Diego e Tierrasanta, em especial, são áreas com uma forte população de veteranos militares, como o próprio padre, e no fim das orações de intercessão ele sempre reza pelos homens e mulheres das Forças Armadas e suas famílias. Há também intercessões pela paz mundial. Mas eu sempre me entristeço com o fato de nenhum padre fazer uma prece pelos civis inocentes mortos no Iraque e suas famílias.

Esta é uma religião patriótica que não criará revoluções. Anseio por padres com um maior conhecimento do mundo exterior e disposição para pregar sobre algo mais que a moral pessoal. Adoraria ouvir um sermão sobre os grandes intelectuais da Igreja do século 21, como o padre jesuíta Pierre Teilhard de Chardin, que reconciliou a revolução científica com a fé. Mas muitas pessoas não se interessam por esses assuntos. Assim, tento lembrar que “ser bom um com o outro” foi o que Jesus ensinou. Se conseguisse ter em mente essa simples mensagem, quão melhor poderia ser o mundo? Ao preparar os adultos para a primeira confissão dos seus filhos, ele insistiu para confessarmos também, e servirmos como um bom exemplo. Minha mulher não se lembrava da última vez que confessou, mas, no meu caso, sabia que tinha me confessado havia pelo menos 30 anos. Como muitas pessoas da minha geração, passei a maior parte do tempo falando mais com psicoterapeutas do que com padres.

Mas padre Chuck usa um bom argumento quanto a dar o exemplo. Talvez, algum dia, em breve, marcarei um encontro com ele para ouvir minha confissão e levarei comigo um dos livros de Teilhard de Chardin.

Fonte: IHU On-line: 20/04/2008

O Êxodo do Egito: da Bíblia à arqueologia

Moisés pode não ter existido, sugere pesquisa arqueológica – Reinaldo José Lopes – Do G1, em São Paulo: 20/04/2008 – 09h00
Escavações e inscrições mostram que povo de Israel se originou dentro da Palestina. História sobre libertação do Egito teria influência de interesses políticos posteriores.

Leia… eu também estou por lá!

 

Leia ainda:
Bíblia abriga duas versões contraditórias da criação do mundo – Reinaldo José Lopes – Do G1, em São Paulo: 06/04/2008 – 09h00 – Atualizado em 07/04/2008 – 10h53

Obs.: Não deixe de ler os comentários feitos pelos leitores: há uma fartura de posições fundamentalistas! Seria até divertido… se não fosse trágico!

 

Em Biblical Studies Carnival XXIX, publicado hoje, 01.05.2008, diz Jim West sobre este post:

“Airton Jose da Silva points to an interesting assertion- that archaeology proves that Moses didn’t exist. Enjoy, if you dare. But be forewarned, archaeology cannot prove a negative”.

Jim alerta que a arqueologia não pode provar uma negativa. Perfeito. Só que o artigo é do Reinaldo José Lopes, do G1, canal de notícias do sistema Globo, e tem por título Moisés pode não ter existido, sugere pesquisa arqueológica.

Que não deve ser entendido, obviamente, como archaeology proves that Moses didn’t exist [arqueologia prova que Moisés não existiu], mas archaeology suggests that Moses didn’t exist [arqueologia sugere que Moisés não existiu]. Leia mais aqui.