Uma prece pelos civis inocentes mortos no Iraque?

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Os bastidores de uma paróquia nos EUA. Uma religião patriótica que não criará revoluções

Para entender o que Bento XVI e a Igreja enfrentam nos EUA é preciso conhecer uma comunidade católica. A opinião é de Kenneth Serbin em artigo no jornal O Estado de S. Paulo, 20-04-2008. Serbin leciona história na Universidade de San Diego. É autor do livro Padres, Celibato e Conflito Social: Uma História da Igreja Católica no Brasil, a ser publicado este ano pela Companhia das Letras.

 

Eu sempre me entristeço com o fato de nenhum padre fazer uma prece pelos civis inocentes mortos no Iraque e suas famílias. Esta é uma religião patriótica que não criará revoluções. Anseio por padres com um maior conhecimento do mundo exterior e disposição para pregar sobre algo mais que a moral pessoal.

 

Durante a visita do papa Bento XVI aos Estados Unidos nos últimos dias, muitos católicos prosseguiram com suas atividades diárias provavelmente sem prestar muita atenção ao líder da sua Igreja. Uma visita papal é um evento politicamente fascinante e um dia excepcional de trabalho para a mídia norte-americana, que, espantosamente, tem pouco conhecimento de religião e ainda menos simpatia por ela. Para compreender a real importância dos desafios que Bento XVI e a Igreja enfrentam nos Estados Unidos é preciso acompanhar o que se passa nas comunidades católicas. Eu pertenço a uma dessas comunidades, a Ascension Parish, paróquia localizada num bairro de classe média de San Diego, Califórnia, chamado Tierrasanta, ou Terra Santa, que se entrecruza com conjuntos habitacionais e ruas com nomes hispânicos, uma mania antiga no sul da Califórnia, originalmente habitado por povos indígenas, depois por colonos mexicanos e espanhóis, e depois por norte-americanos. Vivemos a cerca de 30 quilômetros da fronteira de San Ysidro com Tijuana, a mais movimentada passagem fronteiriça do mundo e a única fronteira compartilhada por um país do Primeiro e um do Terceiro Mundo. O sul da Califórnia é um amálgama de pessoas nascidas principalmente nos Estados Unidos, mas procedentes, cada vez mais, da América Latina, Ásia, Oriente Médio, África e outras partes do mundo.

Nossa paróquia tem cerca de 800 famílias inscritas, embora muitas outras participem das Missas de Natal e da Páscoa. Os católicos formam um quarto da população dos Estados Unidos, mas são a maior congregação religiosa do país. A diocese de San Diego, por exemplo, tem uma população de 3 milhões de pessoas – um terço são católicos.

Como ocorre no restante dos Estados Unidos, vivemos em uma comunidade tolerante e pluralista em religião. Além da nossa paróquia, Tierrasanta tem igrejas de luteranos, mórmons, batistas, adventistas do sétimo dia, membros chineses da Igreja Unida de Cristo e outras confissões cristãs. San Diego também tem mesquitas, sinagogas e igrejas ortodoxas.

Dois dos sequestradores envolvidos nos atentados do 11 de Setembro, que jogaram seu avião contra o Pentágono, viviam a poucos quilômetros da nossa casa e frequentavam a mesquita local. Após o 11 de Setembro, a polícia passou a vigiar o local para proteger a mesquita contra possíveis retaliações, mas nunca aconteceu nada.

Minha esposa mineira e eu não nos deixamos envolver pela cultura de consumo hedonista tão fortemente criticada por Bento XVI, como também por seu predecessor, João Paulo II. Mas não temos sido devotos, no sentido de comparecer regularmente à missa e participar dos sacramentos, embora adotemos a identidade católica enraizada na história dos nossos ancestrais. Minha esposa é uma dessas típicas brasileiras católicas que acreditam firmemente em Deus, porém não se identificam muito com a instituição e o seu clero. Fui ainda muito devoto nos meus anos de faculdade, mas essa devoção começou a diminuir quando entrei na pós-graduação, embora tenha me sentido fortemente atraído pela Igreja progressista no Brasil e acabado estudando o clero brasileiro.

Somos muito conservadores e profundamente influenciados pelo catolicismo em nossas vidas pessoais, mas, em se tratando de política e das grandes controvérsias da nossa época, temos opiniões independentes da Igreja ou qualquer outra instituição.Há dois anos e meio, quando nossa filha entrou no jardim de infância, minha mulher e eu começamos a discutir que tipo de educação moral e religiosa nós lhe ofereceríamos. E rapidamente chegamos à conclusão de que ela precisava de uma estrutura moral que a guiasse em sua vida. Ela – e nós – também precisaria ter um sentido maior de comunidade. Afinal, o que é um culto religioso senão a reunião dos fiéis? Queríamos também que nossa filha tivesse um sentido das origens da sua família. E que tivesse um sentido de transcendência e da própria espiritualidade.

Nós a matriculamos nas aulas de catecismo e tentamos ir à missa com ela regularmente. Quando não participávamos da missa, líamos para ela trechos da Bíblia para crianças, em inglês e português. Antes da Páscoa, eu lia trechos da Paixão, quando ela estava na cama. E uma noite, quando eu a cobria para dormir, ela me falou que todas as histórias da Bíblia não eram necessariamente verdadeiras. Já iniciou um interessante diálogo para uma menina de 7 anos de idade!

Há algumas semanas, ela fez sua primeira confissão. Foi uma experiência aterradora. Ela nos perguntou várias vezes o que deveria contar ao padre. No dia designado para a confissão, sentou-se na cadeira diante do padre, numa sala muito bem iluminada. Através da janela, pude vê-la chorando. Sua penitência era simplesmente tentar ser uma pessoa melhor. Comentei com minha mulher que a confissão pode ter seu valor, mas a Igreja deveria pensar em introduzi-la na adolescência ou no inicio da idade adulta.No próximo mês, nossa filha fará sua primeira comunhão. Estamos felizes com isso, porque ela será cada vez menos a criança que se senta silenciosamente no banco da igreja, entediada com a missa, agarrada ao seu bichinho de pelúcia ou meio adormecida nos braços da mãe, e cada vez mais uma iniciada ativa na comunidade.

Nossa paróquia está a cargo do padre Chuck. Padre Chuck é uma pessoa a quem o papa Bento XVI e o restante da hierarquia deveriam prestar alguma atenção. Ele encontrou sua vocação já adulto e se tornou padre com mais de 50 anos de idade.

Na verdade, padre Chuck era casado quando jovem. Ele e sua mulher tiveram três filhos, e ela faleceu em 1969. Hoje ele tem vários netos e até bisnetos.

A experiência do padre Chuck como homem de família e profissional – passou 20 anos na Marinha dos Estados Unidos, tendo chegado ao posto de comandante – penetra nos seus interessantes sermões e no seu sereno modo de ser.

Não conheço a opinião dele sobre a obrigatoriedade do celibato, mas ele é claramente um exemplo de como a Igreja poderia resolver em parte o problema da sua perene escassez de padres, admitindo homens casados para o ministério. Enquanto no Brasil, nos últimos anos, as vocações vêm mais ou menos acompanhando o ritmo de crescimento da população, nos Estados Unidos o número de vocações novas caiu dramaticamente. E tal como o padre Chuck, os padres são cada vez mais velhos.

Há alguns meses, ele fez um sermão em que apresentou o pedido formal do bispado para coleta de fundos para ajudar a pagar acordos legais que a diocese firmou com vítimas abusadas sexualmente por padres, num valor de US$ 200 milhões. Padre Chuck parecia envergonhado com esse assunto, que teve uma cobertura negativa enorme por parte da mídia local. Minha mulher e eu não contribuímos com essa coleta.

Padre Chuck, outros padres que rezam a missa na paróquia de Ascension e o diácono, todos fazem sermões enfatizando a fé como instrumento para superar lutas pessoais e uma pessoa fazer de si alguém mais tolerante e amável. Nesse sentido são pregadores muito tradicionais. Ao sair da igreja um domingo, padre Chuck me saudou e a minha família, dizendo “sejam bons uns com os outros”.

San Diego e Tierrasanta, em especial, são áreas com uma forte população de veteranos militares, como o próprio padre, e no fim das orações de intercessão ele sempre reza pelos homens e mulheres das Forças Armadas e suas famílias. Há também intercessões pela paz mundial. Mas eu sempre me entristeço com o fato de nenhum padre fazer uma prece pelos civis inocentes mortos no Iraque e suas famílias.

Esta é uma religião patriótica que não criará revoluções. Anseio por padres com um maior conhecimento do mundo exterior e disposição para pregar sobre algo mais que a moral pessoal. Adoraria ouvir um sermão sobre os grandes intelectuais da Igreja do século 21, como o padre jesuíta Pierre Teilhard de Chardin, que reconciliou a revolução científica com a fé. Mas muitas pessoas não se interessam por esses assuntos. Assim, tento lembrar que “ser bom um com o outro” foi o que Jesus ensinou. Se conseguisse ter em mente essa simples mensagem, quão melhor poderia ser o mundo? Ao preparar os adultos para a primeira confissão dos seus filhos, ele insistiu para confessarmos também, e servirmos como um bom exemplo. Minha mulher não se lembrava da última vez que confessou, mas, no meu caso, sabia que tinha me confessado havia pelo menos 30 anos. Como muitas pessoas da minha geração, passei a maior parte do tempo falando mais com psicoterapeutas do que com padres.

Mas padre Chuck usa um bom argumento quanto a dar o exemplo. Talvez, algum dia, em breve, marcarei um encontro com ele para ouvir minha confissão e levarei comigo um dos livros de Teilhard de Chardin.

Fonte: IHU On-line: 20/04/2008

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