Sobre grampos e ramonas

Leia sobre a crise dos grampos.

 

Festa das escutas: aumenta número de grampos no país, segundo Anatel – Alessandro Cristo – Conjur: 29 de janeiro de 2009,

O número total de ordens judiciais de interceptação telefônica no país em 2008 ultrapassou a casa dos 400 mil. Esse é o resultado de um levantamento feito pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) junto às operadoras entre 1º de janeiro e 5 de dezembro do ano passado, ao qual a ConJur teve acesso. Os números foram apresentados em reuniões este mês entre a agência e representantes das operadoras, da CPI e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

De acordo com o relatório da Anatel, foram determinados 398.024 grampos em celulares e 11.905 em telefones fixos, totalizando 409.929 pedidos de interceptações. No entanto, os números não revelam a quantidade exata de linhas grampeadas ou de alvos investigados, já que incluem também pedidos de prorrogação de escutas. Cada interceptação dura, no máximo, 15 dias. Depois desse período, é preciso nova ordem judicial para continuar a escuta. Não há indicação tampouco dos grampos feitos em linhas telefônicas, em aparelhos (número serial) ou de gravações ambientais.

Já o número de grampos ainda em execução até o dia 5 de dezembro, informado pelas operadoras à Anatel, é menor que a quantidade divulgada pelo Conselho Nacional de Justiça até novembro. O conselho apurou 11.846 escutas autorizadas pela Justiça em andamento até 20 de novembro, sem contar as realizadas em São Paulo, Mato Grosso, Alagoas, Paraíba e Tocantins. As informações em poder da Anatel, porém, mostram 10.031 escutas de celulares em andamento e 372 de linhas fixas, incluídos todos os estados da federação.

No entanto, o total de escutas caiu entre 30% e 40% no último trimestre do ano passado, segundo informações de fontes das operadoras e do Judiciário, discutidas nas últimas reuniões. A mudança se deve às duras críticas feitas pelo presidente do Supremo Tribunal Federal ao abuso da interceptação, que transformou o grampo na “rainha das provas” dos processos judiciais e dos inquéritos policiais.

As interceptações de celulares respondem por 97% dos grampos em 2008. A Tim atendeu 176.212 ordens de escuta, seguida pela Vivo, com 133.284; e pela Claro, com 45.336. Juntas, as três responderam por 80% do total de grampos. Em seguida, vêm a Brasil Telecom, com 18.410, a Oi, com 17.906, a Telemig, com 5.167, a Amazonia, com 1.397, a CTBC, com 270 e a Sercomtel, com 42.

O maior número de interceptações da Tim aconteceu no Paraná, com 33.588; seguido de Mato Grosso do Sul, com 26.101. São Paulo está na terceira posição da operadora, com 12.182 ordens de grampo. No caso da Claro, as posições de São Paulo e Paraná se invertem, mas os mesmos três estados encabeçam a lista. A operadora permitiu 13.439 grampos nos telefones paulistas, 4.445 nos sul-mato-grossenses e 3.023 nos paranenses.

Já na Vivo, a maior parte das escutas foi feita em São Paulo, onde houve 20.971 pedidos cumpridos pela operadora. Paraná e Rio de Janeiro vêm depois, com 10.960 e 10.361 requisições de grampos, respectivamente.

Entre os estados, Paraná e São Paulo lideram o ranking em número de interceptações de celulares. Com 50.421 pedidos, os paranaenses estão no topo da lista, seguidos pelos paulistas, com 46.653 autorizações. Em ambos os estados, juízes chamaram a atenção em casos polêmicos que envolveram escutas.

O papel da interceptação telefônica pôde ser sentido, no Paraná, na ação conduzida pelo juiz federal Sérgio Moro, da 2ª Vara Federal Criminal de Curitiba. Ele atuou no caso do advogado e ex-conselheiro da estatal Itaipu Binacional, Roberto Bertholdo, condenado por crimes de interceptação telefônica ilegal e exploração de prestígio. O advogado também é acusado de tráfico de influência junto à CPMI do Banestado e constrangimento ilegal. Moro, que teria sido uma das vítimas de escutas clandestinas de Bertholdo, autorizou interceptações telefônicas, quebra de sigilo bancário e escutas ambientais em áudio e vídeo da vida pessoal do advogado e de suas empresas.

Em São Paulo, as interceptações ganharam evidência pelas mãos do juiz Fausto De Sanctis, da 6ª Vara Federal Criminal, que condenou o banqueiro Daniel Dantas por corrupção ativa. O principal grampo desse caso contou com gravação de imagens feitas por um jornalista da TV Globo. O ex-presidente da Brasil Telecom, Humberto Braz, e o professor universitário Hugo Chicaroni foram condenados por tentar subornar policiais federais para que os nomes de Dantas e de seus familiares fossem retirados do inquérito. Dantas é acusado também por crimes financeiros.

Os demais estados com maior número de escutas são Mato Grosso do Sul, com 38.823; Rio de Janeiro, com 20.316; Santa Catarina, com 19.132; Minas Gerais, com 18.776; Rio Grande do Sul, com 16.856; e Mato Grosso, com 16.461. Na região Norte, o Pará se destaca com 14.131 pedidos. No Nordeste, os primeiros colocados são Pernambuco, com 11.825, Ceará, com 10.793, e Bahia, com 10.012.

Nos telefones fixos, o maior número de grampos do país ficou a cargo da Telemar Norte Leste, responsável pela cobertura na região Nordeste e em parte da Norte. A concessionária cuidou de 4.916 ordens de escutas. A Brasil Telecom, que cobre as regiões Sul, Centro-Oeste e parte da Norte, foi a segunda colocada, com 4.203. Em seguida vem a Telecomunicações de São Paulo (Telesp), controlada pela Telefônica, que atendeu a 1.837 casos. Global Village Telecom (GVT), com 435, e Embratel, com 311, vêm a seguir, seguidas por CTBC, com 122, e Sercomtel, com 77. Intelig, Suporte e Transit permitiram uma interceptação cada uma neste ano.

Das 372 escutas ainda em curso na telefonia fixa, 131 são em linhas da Brasil Telecom, 103 da Telemar, 77 da Telesp, 28 da Embratel, 23 da GVT, seis da CTBC e quatro da Sercomtel. Outras 27 concessionárias não tiveram solicitações de grampos atendidas em 2008 ou não tiveram as informações incluídas no relatório.

Dom Sérgio da Rocha: arcebispo de Teresina

Dom Sérgio da Rocha foi nomeado hoje arcebispo de Teresina, Piauí.

Dom Sérgio foi meu aluno na PUC-Campinas e, alguns anos mais tarde, ao terminar seu doutorado, meu colega. Sérgio era Professor de Teologia Moral quando foi nomeado bispo em 2001.

Parabéns, Sérgio.

Fonte: CNBB – Notícias – 03/09/2008

Dom Sérgio da Rocha foi nomeado arcebispo de Brasília em 15.06.2011. Permaneceu na Arquidiocese de Brasília até ser nomeado pelo Papa Francisco como Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, em 11 de março de 2020. A posse aconteceu no dia 5 de junho do mesmo ano, na Catedral Metropolitana de Salvador.

Lambeth: bispos brasileiros falam da Conferência

Li e achei interessante as entrevistas de dois bispos anglicanos brasileiros à IHU On-Line sobre a Conferência de Lambeth: Dom Sebastião Armando Gameleira Soares, bispo da Diocese Anglicana do Recife, e Dom Orlando Santos de Oliveira, bispo anglicano da Diocese de Porto Alegre.

A Conferência de Lambeth é uma assembleia dos bispos da Igreja Anglicana que acontece de dez em dez anos. A Conferência de 2008 teve início em 16 de julho e terminou em 3 de agosto, em Canterbury [Cantuária], Inglaterra.

Lambeth 2008 foi muito debatida entre os biblioblogueiros, pois tratou de situações e assuntos bastante polêmicos e atuais.

Nas duas entrevistas citadas há temas muito interessantes tratados pelos dois bispos, como o ecumenismo e a questão da hermenêutica bíblica.

Lembro aos leitores que Dom Sebastião Gameleira foi meu colega em Roma. Quando lá cheguei para cursar Teologia, ele estava fazendo Ciências Bíblicas no PIB (Pontifício Instituto Bíblico) e cursava, simultaneamente, Ciências Sociais.

Manuscritos do Mar Morto estarão online

Os Manuscritos do Mar Morto serão digitalizados e colocados na Internet. Isto foi amplamente noticiado pelos jornais na semana passada. Veja uma amostra das notícias nos vários links recolhidos pela newsletter Explorator 11.19, de 31 de agosto de 2008, sob o título ‘Big project in the works to put the DSS online”.

No site da IAA – Israel Antiquities Authority – na seção “Press Office”, com data de 27 de agosto de 2008, se lê:

The Dead Sea Scrolls Go Digital

The Dead Sea Scrolls will once again be revealed. Two thousand years ago hundreds of scrolls, which include the oldest written record of the Old Testament ever found, were buried in the caves of the Judean Desert. Now, sixty years after the fortuitous discovery of the first scrolls by Bedouin shepherds, the Israel Antiquities Authority (IAA), to whom they are entrusted and who diligently strives to preserve them, has decided to provide researchers and the public worldwide access to them. In a press conference that took place this morning in Jerusalem (August 27), the IAA presented a pilot program that is being conducted this week, involving the imaging of the Dead Sea Scrolls, using the latest in digital cameras. The project will involve the documentation of all of the thousands of Dead Sea Scrolls fragments belonging to about 900 manuscripts, and placing them in an internet data bank that will be available to the public. This will be accomplished by imaging the scrolls in color and infrared which allow, among other things, the reading of scores of scroll fragments that were blackened or ostensibly erased over the years and which were not visible to the naked eye until now. The pilot project is examining the means that were selected for imaging and storing the information, and is also estimating the amount of time and resources necessary for implementing a project such as this. Participating in the pilot project together with the IAA staff are international experts in the fields of imaging technologies and the management of large image databases, amongst them Dr. Greg Bearman recently retired as Principal Scientist from the Jet Propulsion Laboratory, NASA, Simon Tanner, Director, King’s Digital Consultancy Services, Dr Julia Craig-Mc-Feely, a manuscript expert photographer, and Tom Lianza, Director of Motion Picture and Television Technologies, X-rite Incorporated. Dr. Bearman has previously worked with the IAA and other national libraries on imaging of ancient texts, his group pioneered the application of modern digital electronic and spectral imaging to archeological artifacts. Simon Tanner has worked with some of the rarest artifacts around the world and helped numerous digital projects to succeed in delivering public and scholarly access to their treasures. Dr Craig-McFeely is Director of the Digital Image Archive of Medieval Music and is internationally renowned for her excellence in the digital photography of manuscript materials. Tom Lianza has extensive experience in color and imaging. He is one of the early pioneers in the field of Color Management and developed some of the earliest digital flatbed color scanners. As part of the pilot program the experts set up three separate imaging stations in a sealed and specially painted gray room: a high resolution color imager that will capture the current state of the fragments; a high resolution single wavelength infrared imager that will provide significantly increased legibility to the texts in general and of fragments that have deteriorated and have become illegible; a spectral imager with lower spatial resolution that covers the red and infrared portions of the spectrum. Spectral imaging will be used on fragments to monitor any changes in the manuscripts by measuring and monitoring their spectral reflectance…

O texto diz ainda:
The thousands of scroll fragments were photographed in their entirety only once, at the time of their discovery in the 1950s. Scholarly research and publication are largely based on these infra-red photographs, although the images represent the condition of the scrolls some fifty years ago, and even the best of them rely on photographic technology that has since been surpassed. Moreover, some of the images have themselves disintegrated. Since its foundation the IAA Dead Sea Scrolls conservation lab has limited photography to essential documentation and specific requests of images for research and publication. Thus, there is a gap in the detailed image information available to scholars, as well as a lack of an active image record that can be used to assist in the conservation efforts. The IAA initiated the digitization project in its effort to monitor the well-being of the scrolls, and to expand access to scholars and the public worldwide, while preventing further damage from physical exposure. To this end, in November 2007 the IAA convened an international committee of experts for the purpose of evaluating the most advanced imaging technologies and the management of large databases. The committee set a series of goals and objectives for the documentation and imaging project including: spectral imaging to improve monitoring for long term preservation in a non-invasive and precise manner; creating both a high resolution colour and an infra-red image of every fragment that is equal in physical quality to the scroll fragments which will thereby prevent any need to re-expose them; and documentation that will facilitate easy and uniform access to a data bank of all the manuscripts which, as previously mentioned , are composed of thousands of fragments.

Leia a notícia completa no site da IAA.

Como se vê é um projeto que prevê a digitalização dos milhares de fragmentos dos cerca de 900 manuscritos encontrados a partir de 1947 nas proximidades do Mar Morto – daí a sigla e o nome em inglês: DSS ou Dead Sea Scrolls [Manuscritos do Mar Morto]. Os Manuscritos formarão um banco de dados na Internet para acesso online.

Mas esta é uma tarefa complexa e demorada, por isso, certamente, o texto da IAA nem fala em datas. Por ser um projeto bastante amplo e sofisticado, envolverá, além da IAA, cientistas e técnicos de várias instituições especializadas na área, o que inclui desde peritos em fotografia de manuscritos até um cientista que trabalhou para a NASA.

Agradeço a Antonio Lombatti e a Jim West [blog desativado, link perdido], onde, hoje, descobri o Comunicado à Imprensa (Press Release) da IAA.

Fundamentalismo hoje

Evangélicos e católicos discutem fundamentalismo religioso

Aconteceu em São Paulo nos dias 21 e 22 de agosto o Seminário Fundamentalismo Hoje. Promovido pelo Fórum Ecumênico Brasil (FE-BRASIL) e organizado pela ASTE, CESE e KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, o evento foi realizado no Instituto Salesiano Pio XI, no Alto da Lapa, na capital paulista.

Entidades ecumênicas e igrejas de várias partes do Brasil e exterior estavam representadas. Entre elas, KOINONIA, CONIC, CAIC, CMI (Genebra), Centro Ecumênico Diego de Medellín (Chile), ICEC (Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos) ligado à Igreja Assembléia de Deus Betesda, PROFEC, CLAI, ASTE. Além das entidades ecumênicas, também houve a presença das igrejas Católica Apostólica Romana, Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.

As palestras foram proferidas por especialistas e teólogos. A abertura do seminário foi feita pelo Rev. Zwinglio Mota Dias, doutor em teologia pela Universidade de Hamburgo (Alemanha), professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UFJF, pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e editor da revista Tempo e Presença, de KOINONIA. Ele colocou com bastante clareza a realidade do fundamentalismo. No seu entendimento, os fundamentos são necessários para nossa identidade cristã. Entretanto:

“É necessária a alteridade para se revelar ao outro que também construiu sua identidade a partir de seus fundamentos. O diálogo só é possível se houver uma abertura ao diferente. O negativo no fundamentalismo é a intransigência de querer conquistar o outro, que é visto como uma ameaça. ” frisou Dr. Zwinglio.

Sobre o fundamentalismo no contexto da Igreja Católica Apostólica Romana, a responsável foi a professora Brenda Carranza, doutora em ciências sociais, professora-pesquisadora convidada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Para a Dra. Brenda o fundamentalismo moderno é uma reação à modernidade. Fundamentalismo não é uma ideologia, mas uma atitude. A atitude fundamentalista tem como princípio dois elementos:

– a defesa da verdade inegociável

– a premissa de que minha interpretação da verdade é a correta.

Segundo ela, existem quatro tipos de fundamentalismo: científico, cultural, religioso, político-religioso.

Brenda destacou que os elementos de identificação do fundamentalismo na Igreja Católica Romana são o Papa, mariologia, sacramentos, eucaristia e mediação dos santos. Ela ressaltou também que para entender o fundamentalismo da Igreja Católica Romana há que se entender o incômodo causado pela renovação carismática católica, que estabelece uma relação com Deus sem mediação, o que elimina o centro do poder simbólico e concreto: “não preciso de padre, não preciso da igreja”.

Já no contexto Evangélico ou protestante, a explanação ficou com o Rev. Leonildo Silveira Campos, pastor da Igreja Presbiteriana Independente, teólogo e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo. Leonildo traçou um histórico do fundamentalismo protestante, desde seu início nas primeiras décadas do século XX nos EUA até chegar ao Brasil. Para ele, o protestantismo brasileiro recebeu a influência do pietismo e do evangelicalismo norte americano.

“Não há diálogo. Todavia, o discurso é fundamentalista, mas a prática é relativista. Diante desse quadro, nossa participação como ecumênicos fica muito difícil. (…) “Há o relacionamento ecumênico com vários grupos afins, porém com os pentecostais temos grande dificuldade para o diálogo e ações conjuntas”, reforçou Leonildo. Para ele, haveria um canal aberto para o avanço do espírito ecumênico se nós nos confrontássemos com a nossa intolerância cultural e religiosa. Ele também coloca que será possível estabelecer avanços na direção do diálogo a partir dos seguintes itens:

– Da experiência pentecostal de evangélicos e católicos: já tem sido abertos canais de diálogo nesse sentido;

– Da intensificação do estabelecimento de diálogo para discussão de questões pontuais que separam os diferentes grupos religiosos, o que os têm levado a se enclausurarem em suas convicções particulares;

– Da discussão sobre a ascensão do fundamentalismo dogmático (que divide) em prejuízo dos valores do fundamentalismo escriturístico (que dialoga);

– Da neutralização da polarização em todas as igrejas que têm seu foco na questão do poder político;

Em todas as palestras houve espaço para os grupos de discussão, que através de um relator colocava ao grupo as impressões da discussão. Ao final do encontro, os participantes fizeram uma síntese das discussões e conclusões dos grupos.

Ao avaliar suas experiências à luz das discussões, os participantes chegaram a uma série de conclusões, ainda que provisórias, como afirma o texto, no qual constatam que “a partir do conhecimento do outro, valorizando demandas sociais concretas, tem sido possível estabelecer alternativas de diálogo com grupos historicamente resistentes ao ecumenismo”. Daí a necessidade de se criarem “espaços onde a diversidade se apresente” e de aprofundarem-se as “discussões sobre as identidades e respectivos direitos”. A importância da formação ecumênica das lideranças e dos membros da igreja, desde a infância, foi enfatizada, assim como o imperativo de se desenvolver uma pedagogia adequada, pois “torna-se necessário não confundir uma pessoa fundamentalista por convicção, com pessoas que têm idéias fundamentalistas, simplesmente por reproduzirem um pensamento do senso comum”.

O texto-síntese afirma também que “ecumenismo se dá, acima de tudo, entre pessoas” e que “as instituições só se aproximam quando há pessoas dispostas a fazer essa aproximação”. Em outro ponto, o texto constata que muitas igrejas não têm uma posição institucional ecumênica e que, em outras, “apesar de haver posição institucional não-ecumênica, muitos de seus membros estão abertos ao diálogo. Por isso, “é necessário desenvolver formas que contribuam para superar as barreiras”. Alem do diálogo em torno de reflexões bíblico-teológicas, os participantes apontaram que um possível caminho para ultrapassar essas barreiras pode ser “a discussão a partir do conceito de democracia e os valores pressupostos por esse modelo. ”.

Ao final, os participantes fizeram uma constatação e, ao mesmo tempo lançaram um desafio às igrejas ao afirmarem “que estamos diante de um fenômeno que se torna semelhante em todas as igrejas: buscar seus fundamentos para não perder sua identidade, a qual está se tornando líquida”. E essa busca deve ser tratada “de forma a nos unir e não separar, não voltadas para si mesmas, mas abrindo-se para o outro”.

Fonte: Rev. Haroldo Mendes – Koinonia: 01/09/2008

Resenhas na RBL: 27.08.2008

As seguintes resenhas foram recentemente publicadas pela Review of Biblical Literature:

Michael F. Bird
The Saving Righteousness of God: Studies on Paul, Justification and the New Perspective
Reviewed by Martin Meiser

William P. Brown, ed.
Engaging Biblical Authority: Perspectives on the Bible as Scripture
Reviewed by Craig L. Blomberg

Reta Halteman Finger
Of Widows and Meals: Communal Meals in the Book of Acts
Reviewed by Steve Walton

Ronald E. Heine
Reading the Old Testament with the Ancient Church: Exploring the Formation of Early Christian Thought
Reviewed by Martin C. Albl

Alastair Hunter
Wisdom Literature
Reviewed by Jurie le Roux

Joel S. Kaminsky
Yet I Loved Jacob: Reclaiming the Biblical Concept of Election
Reviewed by B. J. Oropeza

James A. Metzger
Consumption and Wealth in Luke’s Travel Narrative
Reviewed by Kenneth Litwak

Mareike Rake
“Juda wird aufsteigen!”: Untersuchungen zum ersten Kapitel des Richterbuches
Reviewed by Klaas Spronk

Ruth Anne Reese
2 Peter and Jude
Reviewed by Wilhelm Pratscher

David M. Scholer, ed.
Social Distinctives of the Christians in the First Century: Pivotal Essays by E. A. Judge
Reviewed by Tsalampouni Ekaterini

Svensk Exegetisk Årsbok: Psykologi och Exegetik
Reviewed by Lena-Sofia Tiemeyer

John Collins x Israel Knohl: A Visão de Gabriel

Quem estiver acompanhando o debate sobre o texto apocalíptico escrito com tinta em pedra, e que, aparentemente, antes da época de Jesus, fala da ressurreição do Messias ao terceiro dia, caso que pode ser visto aqui, aqui, aqui, aqui e aqui, não pode perder, de jeito nenhum, o embate de ideias entre John Collins, da Yale University, USA, e Israel Knohl, da Universidade Hebraica de Jerusalém, que pode ser lido no biblioblog de John Hobbins, Ancient Hebrew Poetry em duas postagens de hoje, 26 de agosto de 2008:

Os biblioblogs e a hegemonia do inglês

O meu post Top Bible Blogs? He was only joking! do dia 23 deste mês, provocou alguma repercussão. Veja o post, com data de 25/08/2008, de Douglas Mangum, em seu blog Biblia Hebraica: Top Foreign Language Bible Blogs?

De modo geral, Douglas Mangum tem razão. Para quem é falante nativo da língua inglesa, especialmente para os americanos (dos EUA), deve parecer tremenda perda de tempo ficar “lutando” para aprender outra língua moderna, já que (quase) todas as obras são traduzidas para o inglês e boa parte é produzida diretamente em inglês. Sem dúvida, é a língua franca de nossos dias.

Brincamos por aqui que, mesmo quando queremos falar mal do domínio do idioma inglês, somos obrigados a falar em inglês para sermos compreendidos… Mas ainda consideramos que a principal língua bíblica é o alemão (Deutsch)! Nesta ordem: Alemão, Hebraico, Grego, Aramaico…

Em meu post eu quis brincar, mas também provocar, como já fiz outras vezes. É só ler, por exemplo, o que escrevi, em 18 de setembro de 2007: Biblical Studies Carnival: considere 10 linguas! A experiência do pluralismo lingüístico europeu talvez nos faça ver o mundo com outros olhos.

Por outro lado, em 29 de setembro de 2006 publiquei um post com o seguinte título: Por que os links da Ayrton’s Biblical Page apontam, em grande parte, para páginas em inglês? Isto aconteceu quando tomei conhecimento, via El País, de que a Internet no habla español. Vale reler o post: naquele momento, apenas 4,6% das páginas da Internet eram em espanhol, enquanto que 45% eram em inglês, segundo o articulista. E o texto diz, em determinado ponto: “Si se divide el número de usuarios por el número de páginas del mismo idioma, el inglés tiene el ratio más elevado con un 1,47, después se coloca el francés con un 1,25 y el alemán con un 1,23. El de España, con un 0,58”.

O que ainda dá razão a Douglas Mangum, embora só contemple, neste caso, uma língua, o espanhol.

Mas existe o outro lado: o livro de Mario Liverani, Oltre la Bibbia: Storia Antica di Israele. 6a. ed. Roma-Bari: Laterza, [2003] 2007, 526 p. – ISBN 9788842070603, só provocou repercussão na comunidade biblioblogueira quando foi traduzido do original italiano de 2003 para o inglês e publicado no final de 2005 como Israel’s History and the History of Israel. [London: Equinox Publishing. Paperback em 2007: ISBN 9781845533410].

Neste caso, enquanto o mundo de língua inglesa, em boa parte, apenas ouvia falar do livro de Liverani e aguardava sua tradução, eu já o utilizava em italiano desde o início de 2004… É só ver os posts da época nos biblioblogs e o alvoroço que causou a publicação da obra em língua inglesa, sinal de que muitos biblistas o consideravam inacessível em italiano!

Mas um caso é apenas um caso. Não se pode generalizar.

Construindo Profecia e Profetas em Yehud

Com previsão de publicação para outubro de 2009, este livro sobre profetas e livros proféticos, organizado por Diana Edelman, da Universidade de Sheffield, Sheffield, Reino Unido, e Ehud Ben Zvi, da Universidade de Alberta, Edmonton, Canadá, parece interessante. Seu título: A Produção da Profecia: Construindo Profecia e Profetas em Yehud.

EDELMAN, D.; BEN ZVI, E. (eds.) The Production of Prophecy: Constructing Prophecy and Prophets in Yehud. London: Equinox Publishing, 2009, 256 p. – ISBN 9781845534998 (Hardback) – ISBN 9781845535001 (Paperback).

O livro é fruto de pesquisa sobre a construção da profecia e dos livros proféticos durante a época persa (538-332 a.C.) apresentada nos Encontros Anuais da EABS – European Association of Biblical Studies [Associação Européia de Estudos Bíblicos] – de 2006 e 2007.

A profecia bíblica aparece nesta época como um fenômeno escrito, possivelmente orientado para leituras públicas específicas. Os autores estudam a relação dos livros proféticos com outros textos, como os Livros dos Reis e a Obra Histórica Deuteronomista, além, é claro, de abordar o contexto social e ideológico no qual os livros proféticos surgem. A obra trabalha também com a construção de figuras de profetas do passado e as relaciona com a construção mais ampla do passado em Yehud, nome da província judaica na época persa. Os capítulos deste livro trazem abordagens genéricas, metodológicas e comparativas, além de tratar de questões e/ou livros específicos, como o Dêutero-Isaías, Jeremias, Amós e Jonas.

Além de Diana Edelman e Ehud Ben Zvi, vejo os nomes de Philip R. Davies, Rainer Albertz, Erhard Gerstenberger, Ernst Axel Knauf, Thomas Römer e Rannfrid I. Thelle. De todos estes autores, o único de quem ainda nada li é este último, Rannfrid I. Thelle, que me parece ser um norueguês da Universidade de Oslo. Quanto aos outros, posso recomendá-los “de olhos fechados”, pois são velhos conhecidos dos estudos de História de Israel e da Obra Histórica Deuteronomista.

Da página da Editora, transcrevo, em inglês, a Descrição e o Sumário do livro:
Description
The editors have organized a long-term research program on Israel and the Production and Reception of Authoritative Books in the Persian and Hellenistic Periods at the Annual Meeting of the European Association of Biblical Studies. The first announced topic of enquiry was the construction of prophecy and prophetic books during the Persian period, for which dedicated sessions were held at the EABS meetings in 2006 and 2007. The present volume includes revised versions of the presentations made by Rainer Albertz, Ehud Ben Zvi, Philip R. Davies, Diana Edelman, Erhard S. Gerstenberger, Ernst Axel Knauf, Thomas C. Römer, and Rannfrid I. Thelle.

The general image that emerges from the volume is that of biblical prophecy as a written phenomenon, though perhaps open to selected public readings. The relationship between prophetic and other authoritative written texts (e.g., the Book of Kings, the Deuteronomistic History) is explored, as well as the general social and ideological setting in which the prophetic books emerged. The volume deals with the construction of images of prophets of the past and relates them to the general construction of the past in Yehud. It includes both general, methodological and comparative contributions and studies on particular issues/books (e.g., Deutero-Isaiah, Jeremiah, Amos and Jonah).

Contents
1. Diana Edelman and Ehud Ben Zvi, Introduction
2. Ehud Ben Zvi, Towards an Integrative Study of the Production of Authoritative Books in Ancient Israel
3. Diana Edelman, From Prophets to Prophetic Books: The Fixing of the Divine Word
4. Philip R. Davies, The ‘Booth of David’ and the Function of the Book of Amos
5. Ehud Ben Zvi, The Concept of Prophetic Books and its Historical Setting
6. Rainer Albertz, Public Recitation of Prophetical Books? The Case for the First Edition of Deutero-Isaiah
7. Erhard S. Gerstenberger, Postexilic Prophecy: Socio-Historical and Cultic Origins; Zoroastrian Analogies, and its Relationship to Torah
8. Ernst Axel Knauf, Kings among the Prophets
9. Diana Edelman, Jonah Among the Twelve: The Extended Family of God and The Triumph of Torah over Prophecy
10. Thomas C. Römer, The Formation of the Book of Jeremiah as a Supplement to the so-called Deuteronomistic History
11. Rannfrid I. Thelle, Babylon in Jeremiah: Reflections of a Discourse on Power in the Persian Period