Quantos idiomas deveria um biblista dominar?

Jim, I agree with you… Jim, defendo a mesma postura sua: um biblista precisa ter domínio das línguas bíblicas – hebraico, aramaico e grego, no mínimo, mais latim (porém, dependendo da área específica de estudos precisa de outras línguas antigas, como acádio, ugarítico, copta…) – e de algumas línguas modernas, especialmente inglês, francês, alemão e se possível também o italiano e o espanhol. Do contrário ficará extremamente limitado em suas possibilidades bibliográficas.

Por que digo isso? Porque Jim está engajado em uma discussão com Noah Tutak, do blog Two Tack’s Thoughts. Jim, por sua vez, argumenta no post Should Biblical Scholars Only Read English? que, para um norte-americano que lê apenas inglês, o caminho para o conhecimento bíblico permanece extremamente limitado. Ele defende, com razão, o conhecimento das línguas bíblicas e de algumas línguas modernas, as mesmas que cito acima. Ainda reclama, dizendo que, nesta área, os USA estão em franca decadência.

Mas, no contexto brasileiro, eu perguntaria: Poderia um biblista brasileiro ler somente português? Claro que não, pois seria um biblista extremamente limitado. Obras importantes demoram, às vezes, até 10 ou mais anos para serem traduzidas por aqui. E, em muitos casos, mal traduzidas. Como dizia o saudoso amigo Frei Rosário, da Serra da Piedade, Caeté, MG, para Benjamim, Emanuel e eu, enquanto tomávamos o seu vinho acompanhado de saborosos queijos: “Vocês exegetas têm a obrigação de ler qualquer obra em sua língua original, jamais leiam traduções”.

Contudo, é preciso reconhecer que, assim como um norte-americano tem uma certa ojeriza de outras línguas por ser o inglês o idioma atualmente dominante no mundo, um brasileiro costuma viver isolado de outros povos e tem enorme resistência em aprender outras línguas. E nem preciso mencionar a fraqueza de nossa estrutura escolar no ensino de línguas. Quem consegue aprender inglês numa escola pública? The book is on the table… Se estiver noutro lugar, já não dá para falar!

Felizmente os nossos biblistas costumam ter outra postura. A não ser no meio neopentecostal – onde conhecida algaravia acaba sendo confundida com “língua” e a razão perde, de longe, para a emoção – temos, pela própria condição de isolamento, que aprender as línguas dos principais povos produtores de pesquisa bíblica. Além disso, muitos de nós fazemos pós-graduação na Europa, onde o pluralismo linguístico é muito grande.

Meus professores europeus na pós-graduação de Bíblia não costumavam ler menos de 10 línguas. Muitos professores brasileiros de Bíblia que conheço alcançam esta média. E os que estão aquém? Deveriam seriamente pensar em ir além!

Editoras dizem que o Google Books está ajudando a vender mais livros

Info Online: sexta-feira, 06 de outubro de 2006

Google ajuda a vender livros, dizem editoras

Editoras internacionais estão começando a registrar aumento nas vendas pelo programa do Google que permite aos internautas ler trechos de livros online, dois anos após o lançamento do controvertido plano de digitalização de obras literárias. O Google está recrutando editoras para voluntariamente enviarem seus livros para que usuários na Internet possam mais facilmente encontrar títulos relacionados aos seus interesses, mas há algum receio de que o projeto possa levar à pirataria ou à exploração de conteúdo protegido por direitos autorais. “O Google Book Search ajudou a transformar internautas em consumidores”, disse Colleen Scollans, diretor de vendas online da Oxford University Press. Ela não quis fornecer dados específicos, mas disse que o crescimento das vendas foi “significativo”. Scollans estimou que 1 milhão de consumidores viram 12.000 títulos da editora utilizando o sistema do Google (…) Outras editoras, como a Penguin, mostraram-se menos animadas com os resultados e obtiveram maior sucesso com outras parcerias. “Nossa experiência é que a receita gerada pelo Google tem sido modesta. Programas da Amazon têm gerado mais vendas de livros”, disse o presidente-executivo da Penguin, John Makinson, à Reuters nesta semana, durante a Feira do Livro de Frankfurt (Por Jeffrey Goldfarb, da Reuters)

Arqueologia no Iraque antes e depois da invasão de 2003

Francis Deblauwe no blog The Iraq War & Archaeology escreve hoje no post Excavations since start of War que após a invasão de 2003 só duas escavações arqueológicas acontecem hoje no Iraque, segundo seu conhecimento.

Porém, na década de 80 do século passado dezenas de escavações podiam ser contabilizadas, feitas por equipes de arqueólogos dos Estados Unidos, França, Alemanha, Reino Unido, Itália, Bélgica, Países Baixos, Japão etc.

Enquanto este número foi caindo drasticamente nos anos 90 – o país ficou sob embargo – o número de saques a sítios arqueológicos foi aumentando até tornar-se um padrão costumeiro após a invasão de 2003, de tal modo que nem chega mais a chamar a atenção do mundo ocidental. Infelizmente.


Pois é: lembrando que nossa civilização tem seu berço nestas terras e que ainda há muito a ser pesquisado sob o solo mesopotâmico…

Animais que aparecem nos evangelhos sinóticos

Isso sempre me interessou. E, dia sim, dia não, estou azucrinando meus alunos com esta questão que sempre volta: a atuação de Jesus se dá, segundo o Novo Testamento, em um mundo rural, em ambiente bem diferente de nossas metrópoles. Pois – como naquela velha piada do garotinho paulistano, que, chegando pela primeira vez a um sítio, grita deslumbrado: “mãe, uma Knorr” ao ver uma galinha – corremos o risco de nada entender do que é ser pastor, do comportamento de um rebanho, de leões e outros animais selvagens que estão sempre rondando, do perigo e medo associado às trevas e da alegria que representa a luz, do valor do orvalho em terra árida, do bem que significa ter água corrente, da chuva que cai torrencialmente e muitas coisas mais…

Pois aproveite e aumente seu conhecimento sobre os animais que aparecem em parte da Bíblia, no caso, nos evangelhos sinóticos, lendo o post deste físico que também conhece Bíblia: Animals in the Synoptics.

O blog Davide’s Notes é escrito por Davide Salomoni, italiano de Urbino, físico de profissão, que trabalha no Istituto Nazionale di Fisica Nucleare em Bologna, Itália, e é também um estudante de “Divinity” da Universidade de Londres.

 

Animals in the Synoptics – October 02, 2006

This post started out of a bunch of simple questions I recently asked myself: which animals were familiar to the audience of the Gospels? What were their main metaphorical overtones? Did different Gospel authors choose to use different terms? Are there words peculiar to a given evangelist? Are there theological reasons for this? Geographical reasons? Reasons related to the expected audience of the text? To literary/source criticism?

As is often the case, the questions turned out to be not that simple, but gave me the opportunity to spend some good time with the texts in the original languages and with zoology, eventually providing some interesting insights (to me, at least). I decided to limit myself to the Synoptics. Be warned that there are no definite answers in this post, just notes.

When considering zoological terms, it is clear that many times we miss a familiarity with animals that was common in biblical times (and in biblical locations). This means that it is sometimes difficult for us to clearly understand even simple figurative meanings. A plain example is the sheep: to people used to tender flocks, or in general to observe sheeps around them, it is fairly natural that this animal might represent the tendency to get lost, to wander around, being exposed to all sorts of dangers. Take Isaiah 53:6, “All we like sheep have gone astray; we have turned every one to his own way; and the LORD has laid on him the iniquity of us all.” The similitude was vivid and obvious to the ancient Israelite, perhaps it is not anymore to our modern eyes.

Here’s a summary of animals explicitly mentioned in the Synoptics (you can find a table with all the occurences I found in the Greek text toward the bottom of this post):

. Mark: camel, locust, dove/pigeon, wild animal, flying animal (bird), swine, sheep, fish, small fish, little dog, worm, young ass (colt), cock, snake.
. Matthew: camel, locust, viper, dove/pigeon, flying animal (bird), dog, little dog, swine, fish, small fish, snake, sheep, wolf, fox, sparrow, big fish/whale, ass, young ass (colt), bull/ox (ταῦρος), fatted animal, mosquito/gnat, hen, birdling, eagle/vulture, young goat, cock.
. Luke: turtle-dove, dove/pigeon, viper, fish, flying animal (bird), swine, fox, lamb, wolf, beast of burden, snake, egg, scorpion, sparrow, raven, ox/cow (βοῦς), ass, hen, birdling, sheep, calf, young goat, eagle/vulture, camel, young ass (colt), cock.

There are some word changes for animals in parallel passages; to identify the passages, I shall use the Latin headings found in Aland, Synopsis Quattor Evangeliorum. I sometimes took the analysis of these loci as an opportunity to try and validate the hypotesis that Mark wrote first, followed by Matthew (who had access to Mark), followed by Luke (who had access to both Mark and Matthew) – specifically not positing the existence of Q. (Without excluding the possibility that other sources were available to the evangelists.) Again, I won’t provide definite answers here, since these, if at all possible, certainly require more serious work than these notes.

In the “tentatio” passage (Mt 4:1-11 // Mk 1:12-13 // Lk 4:1-13), Mark has the detail, not present in parallel accounts, that Jesus ἦν μετὰ τῶν θηρίων. Gundry suggests that one thing that is often overlooked is that Jesus was with the beasts (not the reverse), to indicate that while he stayed with them for the whole forty days, no harm came from them. Perhaps – and I know this is an unsubstantiated link, although maybe still a possibility – one could remember that in Himerius, Or. 39 we find that “Orpheus in the Thracian mountains, where he has no one to listen to him, θεριον την εκκλησιαν εργαζεται = forms a community for himself from the wild animals.” (quotation from the BDAG) At any rate, an interesting question is, why did Matthew and Luke leave out the “wild animals”, and supplied instead a more comprehensive account of the temptations? Certainly, Mk 1:12-13 is lacking in narrative (for example, in these verses we are not told the nature of Satan’s temptations, whether Jesus actually overcame them, and how), and Mt and Lk prefer to concentrate on the dialogue between Jesus and Satan, to show Jesus’ power over the tempter; in this sense, the detail about the “wild animals” was probably seen as unnecessary, and perhaps stressing a bit too much the permanence of Jesus among unclean creatures.
In the “petitio efficax” passage (Mt 7:7-11 // Lk 11:9-13), Luke adds the sentence ἢ καὶ αἰτήσει ᾠόν, ἐπιδώσει αὐτῷ σκορπίον, not present in Matthew. The New Bible Dictionary suggests that the association between egg and scorpion may be due to the fact that “the main segment of some scorpions is fat and almost egg-shaped.” (in the same passage, fish and snake could be associated because some fish may look like snakes.) Scorpions were much feared because of their painful (although not necessarily fatal) sting – cf. Rev 9:5, καὶ ὁ βασανισμὸς αὐτῶν ὡς βασανισμὸς σκορπίου, ὅταν παίσῃ ἄνθρωπον.

In the “ne solliciti sitis” passage (Mt 6:25-34 // Lk 12:22-32), Matthew has “Look at the birds of the air” (ἐμβλέψατε εἰς τὰ πετεινὰ τοῦ οὐρανοῦ), while Luke has “Consider the ravens” (κατανοήσατε τοὺς κόρακας). While “birds of the air” is an idiomatic expression to mean flying animals in general, ravens are specifically voracious and unclean birds (they are scavengers like the vulture); the use of the verb κατανοεω in Luke may point to the fact that he wants the reader to attentively consider how even these despised birds are fed by God. In this sense, Luke corrects Matthew with a more precise determination of the meaning of the sentence. An interesting feature of this verse in Luke, which perhaps also refers to the fact that he corrected Matthew, is that while Matthew speaks only of birds with a generic term (πετεινον), in Luke we do find the ravens in 12:24a, but then 12:24b has πόσῳ μᾶλλον ὑμεῖς διαφέρετε τῶν πετεινῶν, i.e. perhaps Luke changed Matthew’s birds into ravens, but then left traces of the original text in the last part of the verse using the Matthean generic term for “birds” there (for consistency, one may have expected to find ravens in 12:24b too).

In the “missio discipulorum” passage (specifically Mt 10:16 // Lk 9:3), Luke has “I am sending you as lambs in the midst of wolves” (ἀποστέλλω ὑμᾶς ὡς ἄρνας ἐν μέσῳ λύκων), while Matthew has “I am sending you out as sheep in the midst of wolves” (ἐγὼ ἀποστέλλω ὑμᾶς ὡς πρόβατα ἐν μέσῳ λύκων). Why this difference, i.e. ἀρήν vs. πρόβατον? The contrast between lamb and wolf is a well-attested one, cf. Is 65:25, “the wolf and the lamb shall graze together” (LXX: τότε λύκοι καὶ ἄρνες βοσκηθήσονται ἅμα) or even Homer, Iliad 22,263. Luke’s choice could refer to the Isaian passage above or to sacrificial offering, cf. e.g. Is 1:11, “I do not delight in the blood of bulls, or of lambs, or of goats” (LXX: στέαρ ἀρνῶν καὶ αἷμα ταύρων καὶ τράγων οὐ βούλομαι). There is also a possible reference to the Paschal lamb (a theme much more developed in John and Revelation, though). In the same verse, Matthew also has “so be wise as serpents and innocent [or harmless, simple] as doves” (γίνεσθε οὖν φρόνιμοι ὡς οἱ ὄφεις καὶ ἀκέραιοι ὡς αἱ περιστεραί), absent in Luke. Did Luke amend Matthew to refer to Isaiah using ἀρήν (a word found only here in the entire NT) instead of πρόβατον? Note that the contrast between sheep and wolf is also attested (e.g. John 10:12, ὁ μισθωτὸς […] θεωρεῖ τὸν λύκον ἐρχόμενον καὶ ἀφίησιν τὰ πρόβατα…), and the LXX has “sheep” (for the Heb. שׂה, a word with a wide semantic latitude, i.e. sheep, lamb, goat, young sheep, young goat [BDB]) in Gen 22:8, Isaac’s sacrifice: Ὁ θεὸς ὄψεται ἑαυτῷ πρόβατον εἰς ὁλοκάρπωσιν, τέκνον, a verse perhaps providing a possible connection between the full Matthean passage and the ἀκέραιος (simplicity/innocence) of the diad sheep/child. If Luke did change Matthew, perhaps he also removed Mt 10:16b not seeing it as a meaningful addition to the flow of the sentence, while Matthew would have suggested the antiparallels sheep/wolf and serpent/dove to better convey, on the one hand, the contrast between innocent and ravenous conduct; and to underline, on the other hand, the radical changes required for discipleship (while the first diad is negative, the second is positive). Note that Matthew 10:16b is attested in Ignatius ad Polyc. 2:2, Φρονιμος γινου ως οφις εν απασιν, και ακεραιος εις αει ως η περιστερα, and in POxy 655 col. ii, 11-23, […] γει[νεσθε φρονι]μοι ω[ς οφεις και α]κεραι[οι ως περιστε]ρα[ι], cf. Evang. Thomae copt., Logion 39, “you, however, be as shrewd as serpents and as innocent as doves.”
In the “qui me confitetur” passage (Mt 10:26-33 // Lk 12:2-9), the zoological term used by Matthew and Luke (στρουθίον, sparrow) is the same. There is a difference in counting, though: Mt 10:29 has “Are not two sparrows sold for a penny?”, while Lk 12:6 has “Are not five sparrows sold for two pennies?” It is possible that Matthew has a reference here to the two small birds mentioned in the cerimonial of purification from leprosy of Lev 14:49ff – and it is possible that Luke wants to show that, if with one ἀσσάριον (rendered “penny”), a very small coin (the tenth part of a drachma), one can buy two sparrows, with two pennies one can buy not four (2 x 2), but five of them – to stress how little value these birds had: and still, ἓν ἐξ αὐτῶν οὐκ ἔστιν ἐπιλελησμένον ἐνώπιον τοῦ θεοῦ.

In the “ingressus triumphalis in Jerusalem” passage (Mt 21:1-9 // Mk 11:1-10 // Lk 19:28-40), Mark and Luke use only πῶλος (young ass/colt), while Matthew uses both πῶλος and ὄνος (ass). Why did Matthew add ὄνος? Note that Mark and Luke agree verbatim also in the detail – not present in Matthew – that εὑρήσετε πῶλον δεδεμένον ἐφ’ ὃν οὐδεὶς οὔπω ἀνθρώπων ἐκάθισεν. Matthew here apparently wants to remind the reader of Zec 9:9, (“Rejoice greatly, O daughter of Zion! Shout aloud, O daughter of Jerusalem! behold, your king is coming to you; righteous and having salvation is he, humble and mounted on a donkey, on a colt, the foal of a donkey”), and that’s possibly the reason why he added the reference to the ὄνος. One cultural bias we may have at this point is that it may seem strange to us that Jesus rode an ass, rather than a horse. But horses were associated with power and wars (cf. Rev 6:2; 19:11,14), and asses with peaceful occasions, as Zec 9:9 shows fairly well. In summary, while Luke might have decided to stick to the Markan text, Matthew seems to have amended it, removing the remark that that was a colt “on which no one has ever yet sat”, and adding the reference to the ὄνος, and the typically Matthean explanatory text in 21:4f. (Τοῦτο δὲ γέγονεν ἵνα πληρωθῇ τὸ ῥηθὲν διὰ τοῦ προφήτου λέγοντος, etc.)

In the “Jesus in Jerusalem templum purgat” passage (Mt 21:10-17 // Mk 11:15-17 // Lk 19:45-46), Matthew and Mark say that Jesus “overturned the tables of the money-changers and the seats of those who sold pigeons.” (Luke omits this part.) Pigeon here is περιστερά, a word which apparently can mean both pigeon and dove, and actually several translations (see later) have “those who sold doves” rather than “pigeons”.
First of all, let me make a few general comments about the dove. The dove is known to us – to be sure – as a symbol of the Holy Spirit, but its symbolic meaning probably originates in the Ancient Near East with a link between divinity and love; for example, in the episode of the descent of the Spirit upon Jesus (“like a dove”, ὡς περιστερὰν), Mark 1:11 has Σὺ εἶ ὁ υἱός μου ὁ ἀγαπητός, ἐν σοὶ εὐδόκησα. In this drawing (taken from the Anchor Bible), after an old Syrian cylinder seal impression, one can see “the goddess of love [who] apparently bares herself in front of the storm-god, who strides over the mountains. A dove, which flies from her toward him, symbolizes her love for him and her readiness to make love.” (AB) In early Christianity, it is common to find the dove in connection with the idea of peace, like for example in this titulus found in a Roman catacomb. (note also the orante and the olive branch.)
Now, back to the text of Mt 21:12 and Mk 11:15, it is interesting to note that the ESV translates the same word περιστερά as “dove” in Mark 1:10, but as “pigeon” in Mark 11:15. The latter incident refers to the prescriptions of Lev 12:6,8, i.e. instructions on the purification of a woman who has conceived a male child; in particular, she is to offer a lamb, but (v.8) “if she cannot afford a lamb, then she shall take two turtledoves or two pigeons, one for a burnt offering and the other for a sin offering. And the priest shall make atonement for her, and she shall be clean.” This is the ESV translation, which has “pigeon” for both Lev 12:8 and Mk 11:15, and this seems correct at least from the standpoint of consistency, since Mk 11:15 refers to the customs explained in Lev 12. Other translations, like the KJV, WEB, NRSV, do not show consistency of terms between Lev 12:8 and Mark 11:15: they all translate יונה in Lev 12:8 as “pigeon” but περιστερά in Mark 11:15 as “dove”. The NIV, on the other hand, has “two doves or two young pigeons”, thus rendering תּר as “dove” instead of turtledove (why?). A consistent translation is the Vulgate, but using the word “dove” rather than “pigeon”: “duos turtures vel duos pullos columbae” in Lev 12:8 and “cathedras vendentium columbas evertit” in Mark 11:15. I find a bit difficult to imagine how “pigeon” can be the right translation in passages like Lev 12:8, since for example Lev 1:14 clarifies that the only bird fit for sacrifice are the turtledove and יונה, and I (but perhaps that’s a cultural bias) would not easily associate pigeons with purity, given their familiarity with waste and given the fact they can easily carry diseases — doves would seem a more appropriate match. As a matter of fact, the New Bible Dictionary suggests that יונה is the “rock dove (Columba livia), which was domesticated in antiquity and has been used widely as a source of food and for message-carrying.” On the other hand, the BDAG points out that the difference between pigeon and dove “cannot be precisely determined from usage in our texts.”
Anyway, what could have happened here is that Mark had the harshest account: Jesus overturned tables, “and he would not allow anyone to carry anything through the temple”, Mk 11:16 (καὶ οὐκ ἤφιεν ἵνα τις διενέγκῃ σκεῦος διὰ τοῦ ἱεροῦ); Matthew retained the account of the overturning of tables and seats, perhaps assuming the practice was meaningful to his readers (Lev 12:6 etc), but removed the harsh detail of Mk 11:16 that Jesus would block people from bringing anything into the temple; finally, Luke further domesticated the account, retaining only the information that Jesus “began to drive out those who sold”, Lk 19:45 (ἤρξατο ἐκβάλλειν τοὺς πωλοῦντας, compare ἤρξατο ἐκβάλλειν here with the stronger Matthean ἐξέβαλεν), and connecting back to the original (Markan?) source at verse 46, quoting Isaiah 56:7, together with Mark 11:17 and Matthew 21:13.

In the “pseudochristi et pseudoprophetae” passage (Mt 24:23-28 // Lk 17:23-24,37b) we find the word ἀετός, which is normally “eagle”. But in both passages there is apparently some confusion between eagle and vulture; in fact, ad sensum in both Mt 24:28 and Lk 17:37 ἀετός should be translated vulture, rather than eagle. It is interesting that in Hebrew too one word (נשׁר) seems to cover both meanings, perhaps due to the difficulty of identifying who’s who from a distance. Mic 1:16 has “make yourselves as bald as the eagle” (“eagle” is in ESV, NASB, KJV, RSV, NRSV, Vulgate), but eagles have their head covered with feathers, so this may be the griffon vulture, and a proper translation could then be “as bald as the vulture” (“vulture” is in NIV, WEB).

In the “negationem Petri praedicit” passage (Mt 26:30-35 // Mk 14:26-31 // Lk 22:31-34) only Mark has the detail “before the rooster crows twice”, πρὶν ἢ δὶς ἀλέκτορα φωνῆσαι. (δις is also not in the parallel Jn 13:36-38.) On the other hand, δις is found in the fragment from Fayyum, [πρι]ν αλεκτρυων δις κοκ[κυσει], but then it is fairly difficult to say whether the manuscript the fragment comes from is an abridgement of the Synoptic accounts, or rather a source upon which the Synoptics (notably Mark here) were based – in New Testament Apocrypha, Schneemelcher writes that “a secondary, indeed an abridged, rendering of the synoptic material has to be assumed, and the text must be considered an excerpt or fragment of a gospel hitherto unknown to us. The brevity of the fragment forbids sure statements of any kind: the completions also remain questionable.” (see https://www.earlychristianwritings.com/fayyum.html)

Here are some further notes about animals occurring elsewhere in the Synoptics:

To make sense of passages like Mark 5:11 and parallels, where the word χοῖρος (swine) occurs, it is well to remember the purity prescriptions surrounding the swine; indeed the herds of swines mentioned in the Gospels were kept by Gentiles (Mk 5:1, Καὶ ἦλθον εἰς τὸ πέραν τῆς θαλάσσης εἰς τὴν χώραν τῶν Γερασηνῶν), not by Jews. (We can then also understand the command not to throw pearls before swines.) The OT reference here is apparently to Isaiah 65:1-4, speaking of “a nation that was not called by my name”, where there are people who, among other despicable things, “sit in tombs, and spend the night in secret places [cf. Mk 5:2]; who eat pig’s flesh, and broth of tainted meat is in their vessels [hence the herds of swines]”.

Sometimes we have troubles even figuring out what an animal mentioned in the Bible looks like, if we are unfamiliar with it or with the zoological terms used to identify it. Now, for what regards dogs (κύων), we probably have no such problems; but, given our sensitivities of modern westerners, we may have difficulties understanding how dogs could be seen with contempt and disgust in the biblical world. If you visit cities and towns in the Near East, you will soon find out how many straw, filthy and sick dogs may be there, looking for food among waste, etc. What can be interesting is that the dog (κύων) of Mt 7:6 (Μὴ δῶτε τὸ ἅγιον τοῖς κυσίν) may be different from the little dog (κυνάριον) mentioned in the incident of the Syro-Phoenician woman in Mt 15:26f, where we might have a reference to a pet dog similar to ours, as suggested by Mt 15:27, καὶ γὰρ τὰ κυνάρια ἐσθίει ἀπὸ τῶν ψιχίων τῶν πιπτόντων ἀπὸ τῆς τραπέζης τῶν κυρίων αὐτῶν.

The term κῆτος (whale / big fish) is only used in Mt 12:40; it is difficult to precisely understand what type of animal was meant here. Homer and Herodotus use κῆτος for a wide range of sea animals. κῆτος is used in the passage Matthew is directly referring to, i.e. Jonah 2:1, καὶ προσηύξατο Ιωνας πρὸς κύριον τὸν θεὸν αὐτοῦ ἐκ τῆς κοιλίας τοῦ κήτους (LXX).

As for gnats (κώνωψ), the passage in Mt 23:24 only makes sense if one remembers how numerous these tiny insects may be (especially in hot climates), and that – given their impurity, cf. Lev 11:20 – a pharisaic practice was to drink water through a straining cloth (a filter), to avoid swallowing the insects. So, the Pharisees are guilty of filtering the smallest insects, but then τὴν δὲ κάμηλον καταπίνοντες, i.e. gulping the camel, the biggest known animal, which was also unclean (Lev 11:4).

There are two related terms that are sometimes both translated as “ox”, i.e. ταῦρος (Mt 22:4) and βοῦς (Lk 13:15). The BDAG states that βοῦς may mean both ox (when masculine) and cow (when feminine), in which case indeed Lk 13:15 should be “ox”. For what regards oxen and specifically ταῦροι, they were apparently widely used as sacrificial animals, as in Mt 22:4, but also in Acts 14:13 (in a pagan context) and Heb 9:13; 10:4 (in a Jewish context).

Finally, in the following table you can find the explicit occurences of animals I noted in the Synoptics (NA26/27).

E continua…

Arqueólogos franceses descobrem grande edifício comunitário de 8.800 a.C. na Síria

Arqueólogos descobrem edifício de 11 mil anos na Síria

da France Presse, em Damasco

Arqueólogos revelaram nesta terça-feira a descoberta de um edifício de 11 mil anos nas margens do rio Eufrates, no norte da Síria.

“A descoberta notável de um grande edifício circular datado de 8.800 a.C acabou de ser feita perto de Ja’de”, disse o diretor da equipe de arqueólogos franceses que fez a descoberta.

O edifício, muito maior do que casas normais, “tinha um uso coletivo, provavelmente para todos da cidade ou de um grupo”, disse Eric Coqueugniot.

“Parte deste edifício comunitário tem a forma da cabeça de um touro e preserva ornamentações pintadas, as mais antigas conhecidas no Oriente Médio”, disse. “As pinturas geométricas multicoloridas que decoram o edifício seriam expostas no museu de Aleppo, norte da Síria, acrescentou.

“Muitas armas de caça e ferramentas domésticas foram descobertas neste nível. A maior parte destas ferramentas é feita de sílex e muito poucas de pedra vulcânica”, afirmou.

Coqueugniot chefia a equipe do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS, na sigla em francês), a maior estrutura científica da França, que levou ao trabalho de escavação no local pelos últimos 15 anos.

Fonte: Folha Online: 03/10/2006

Política e moralismo

Quando as dimensões concretas da sociedade não são levadas em conta, as questões políticas sofrem uma redução de seu conteúdo, perdendo sua autonomia. São consideradas de maneira abstrata, conduzidas ao espaço da ética, restritivamente, e resolvidas no moralismo.

 

Choque de Ética? Aliança com Garotinho desmonta discurso de Alckmin

O PSDB também sabe dar tiro no próprio pé. Ou, como disse o prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, um “tiro na cabeça”. Assim está sendo considerada, até mesmo por aliados, a decisão do candidato tucano à Presidência da República, Geraldo Alckmin, de aceitar o apoio do ex-governador do Rio, Anthony Garotinho, e de sua mulher, a atual governadora Rosinha Matheus, nesse segundo turno. A aliança com o casal Garotinho _ atingido por diversas denúncias de desvio de dinheiro público e outras práticas políticas condenáveis _ joga por terra a tentativa do PSDB de construir um discurso “pela ética” na disputa presidencial. Outro efeito bombástico dessa aliança é sacramentar o racha no PMDB do Rio, já que o candidato do partido ao Governo, Sérgio Cabral Filho, fechou acordo com o PT e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O tiro no pé de Alckmin começou a sangrar com mais intensidade na manhã dessa quarta-feira (4), depois que a adversária de Cabral Filho no segundo turno, Denise Frossard (PPS), declarou publicamente que, em caso de confirmação da aliança com Garotinho, prefere “retirar o apoio” ao tucano: “Eu rejeito o apoio do Geraldo Alckmin e não autorizo que ele utilize minha imagem em sua campanha. Depois que o vi sentado ao lado do casal Garotinho e aceitando o apoio deles, cheguei à conclusão de que Alckmin não gosta do Rio”, disse a candidata em entrevista à rádio CBN. Frossard voltou a qualificar os governos de Garotinho e Rosinha como “desastrosos” do ponto de vista ético: “O [Mário] Covas deve estar se revirando no túmulo com essa aliança fechada pelo Alckmin”.

Ao anunciar o rompimento com a candidatura do PSDB à Presidência, Denise Frossard confirmou uma tendência que já havia sido desenhada na véspera por César Maia, que é o principal avalista de sua candidatura ao Governo do Rio. Principal liderança do PFL da Região Sudeste, César não escondeu a perplexidade com o gesto político de Alckmin. Em entrevista publicada pelo jornal O Globo nessa quarta-feira, o prefeito do Rio diz que os eleitores podem ver em Alckmin “uma Dona Flor” e que nem ele nem Frossard “querem ser um dos dois maridos de Dona Flor” frente ao eleitorado fluminense.

“Do ponto de vista político, no Rio, a aliança com Garotinho é um tiro na cabeça. Parece que Alckmin não entendeu a eleição no Rio. É uma boa justificativa para o eleitor da Heloísa Helena, que não consegue digerir o Garotinho, votar no Lula”, disse César. O pefelista também garantiu que não vai subir em palanques com o tucano: “Agora vou ter cuidado. Se eu estiver junto com o Alckmin e o meu eleitor perceber o Garotinho dentro da campanha do Alckmin, esse beijo da morte pode pegar em mim. O Rio é o meu espaço político. Nesse momento, essa proximidade pode ser virótica. Preciso tomar muito cuidado. Tomar banho de sal, como dizia o [Leonel] Brizola”.

O recado de César à direção do PSDB foi claro. Sua consequência imediata foi a intervenção do presidente nacional tucano, Tasso Jereissati, na reunião da Executiva estadual do partido que caminhava para aprovar o apoio a Cabral Filho no segundo turno. Esse apoio seria possível devido à hostilidade com que César passou a tratar o ex-pupilo Eduardo Paes e parte da direção estadual do PSDB depois que estes bancaram candidatura própria em vez de apoiar Frossard no primeiro turno. Esse afastamento aproximava os tucanos fluminenses de Cabral Filho, mas um telefonema de Tasso mudou os rumos da reunião como que por milagre: “A prioridade é eleger Geraldo Alckmin”, disse Paes ao fim do encontro, resumindo a orientação passada por Tasso.

Alckmin sem palanque

O tiro no pé de Geraldo Alckmin pode sangrar ainda mais, pois, com a debandada de César Maia e Denise Frossard de sua candidatura, é provável que ele fique sem um palanque forte no Rio durante toda a campanha do segundo turno. A situação deve divertir Lula, pois há duas semanas atrás todos os grandes jornais fluminenses apostavam que Alckmin poderia ter os dois palanques no Rio. Agora, com o acordo firmado entre Cabral Filho e Lula e a nova posição de Frossard, periga acontecer o contrário. O próprio Garotinho tenta minimizar esse problema: “Faremos palanques nossos para o Alckmin. Palanques do Garotinho e da Rosinha”, disse.

Apesar das inúmeras pressões, Alckmin parece disposto a não voltar atrás na aliança com Garotinho. Resta saber o que isso significará em termos de votos. Ex-prefeito de Piraí e vice na chapa de Cabral Filho, Luiz Fernando Pezão, que também coordena a campanha do PMDB no interior, nos dá uma pista: “O Alckmin vai perder mais do que ganhar no interior do Estado. Todos os prefeitos que apoiam o Sérgio já estão fechados com o Lula. O candidato a governador é o Sérgio, não é o Garotinho”, resume.

Fonte: Maurício Thuswohl – Carta Maior: 04/10/2006

Conseguiria Mozart reverter a agressividade da elite brasileira neste vale-tudo de luta pelo poder?

Folha Online: 30/09/2006 – 20h48

Música de Mozart acalma alunos em sala de aula, diz estudo

da Ansa, em Londres

A música do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) acalma os alunos em sala de aula e pode reverter comportamentos agressivos, melhorando substancialmente o rendimento dos estudantes, afirma um estudo de cientistas britânicos.

Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Derby, no centro da Inglaterra, concluiu que fazer com que os alunos entre três e sete anos ouçam Mozart não só acalma os ânimos da classe como melhora o rendimento escolar. Os autores do estudo, Simon Brownhill, Fiona Shelton e Clare Gratton, também afirmaram que os concertos do compositor austríaco ouvidos durante aulas de matemática deram resultados “surpreendentes” nos alunos, especialmente nos que apresentam “problemas graves de conduta”.

O livro em que o estudo foi publicado, intitulado “101 Essential Lists for Managing Behaviour in the Early Years” (101 aspectos essenciais para controlar o comportamento de crianças nos seus primeiros anos) evidenciou que a música de Mozart “pode ser uma ferramenta muito poderosa na luta contra o mau comportamento em sala de aula”.

Além de Mozart, os especialistas demonstraram que certas obras do russo Tchaikovsky (1840-1893), em especial a sua “Introdução” de 1812, “anima” os alunos. Também provaram que, ouvindo certos temas, as crianças aceitam algumas tarefas específicas. Por exemplo, para fazê-las limpar ou se acomodar na sala, recomendam a música-tema do filme “Missão Impossível”.

Outra recomendação é permitir que os alunos ouçam suas músicas preferidas, para recompensá-los pelo bom comportamento.

 

Play Mozart to tackle poor behaviour, teachers urged

The Guardian: Friday September 29, 2006

Teachers should play Mozart in the classroom to help calm unruly children and improve their work, according to a new book published today.

The soothing sounds of symphonies and string concertos and have been deployed as weapons in the fight against crime at train stations and other public spaces in recent years.

Today a new book from academics at the University of Derby suggests that the approach may also work with badly behaved three to seven-year-olds in primary schools.

In particular, playing Mozart during maths lessons has been shown to improve pupils’ work, say authors Simon Brownhill, Fiona Shelton, and Clare Gratton.

Their book, 101 Essential Lists for Managing Behaviour in the Early Years, says: “Music can be a very powerful tool in the fight against poor behaviour.”

Tchaikovsky’s 1812 Overture could “liven up” dozing pupils, while a quieter piece would calm them down.

The authors also recommended tying particular music to a particular activity, such as the Mission Impossible theme tune to “tidy up time”.

The book advises: “Play quiet music when the children are working to manage noise levels.

“Play dance music to relieve restless children on the carpet – ‘Get up and move!’

“Play music by Mozart whilst the children are working; it has been proven that his music helps children to learn, particularly during mathematics.”

Favourite pop songs could be played as a reward for good behaviour, they suggested.

The book also suggested giving pupils red and yellow cards – as referees in football – to badly behaved children.

And old toilet rolls make very good “behaviour binoculars”, as Mr Brownhill explained: “The results are amazing as children sit up and behave as you tell them you are going to use the binoculars to scan the room for good behaviour.”

E a imprensa colaborou com mais esta tentativa de atentado político

Delegado da PF vazou fotos em ação articulada com PSDB

O ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, disse neste sábado, que o delegado da Polícia Federal, Edmilson Bruno, foi o responsável pelo vazamento das fotos do dinheiro à imprensa, em uma ação articulada com a oposição, notadamente o PSDB. Segundo Tarso, na sexta-feira, o delegado chamou seis jornalistas, passou para eles em CD com as fotos do dinheiro e afirmou “Eu estou fazendo isso para f…o governo e o Lula”.

A informação foi confirmada pelo assessor especial do presidente lula e chefe de campanha, Marco Aurélio Garcia, ao site Terra Magazine. Segundo Garcia, após manifestar sua intenção de arrebentar Lula e o governo, o delegado teria dito: “agora eu vou subir para fazer o boletim de ocorrência sobre o furto das fotos porque eu preciso me cobrir”.

Em entrevista coletiva à imprensa, em Porto Alegre, Tarso Genro disse que o delegado responsável pela perícia da investigação sobre o caso do dossiê fez uma encenação como se as fotos lhe tivessem sido roubadas. “Ele cometeu um duplo delito. Fez um registro falso de Boletim de Ocorrência, de uma parte, e de outra, vazou documentos para fins políticos, documentos que pertencem a um processo que está sob segredo de justiça”.

“Isso é tão ou mais grave do que o envolvimento de qualquer pessoa na compra ou elaboração de qualquer dossiê”, acrescentou o ministro. Ele anunciou que já foi aberta uma sindicância administrativa pela Polícia Federal para apurar a responsabilidade do delegado no caso. Durante a entrevista, Tarso Genro destacou que estava falando em nome do governo.

“A manifestação institucional do governo neste momento é de que se trata de um atentado político, que repete um cenário conhecido no país, e que merece uma rejeição tão profunda e radical como a produção e compra de dossiês. Na opinião do governo, isso é uma ação política da oposição, chefiada pelo PSDB, que vinha reiteradamente requisitando essas fotos mesmo sabendo que elas estavam sob segredo de justiça. Portanto, estamos autorizados a concluir que se tratou de uma articulação política de baixo nível, de baixo calão, que visa perturbar o processo eleitoral e gerar impressionismos de última hora”, acrescentou.

Delegado admite ser autor do vazamento

O delegado Edmilson Bruno confessou, neste sábado, que foi o responsável pelo vazamento das fotos e anunciou que, em uma entrevista coletiva na segunda-feira, dirá “coisas surpreendentes”, informou a Agência Estado. Inicialmente ele havia negado ser o autor da distribuição das fotos com o dinheiro apreendido pela Polícia Federal. Segundo sua primeira versão, o CD com as fotos havia sumido de seu arquivo pessoal entre quinta à noite e sexta de manhã. Ao perceber o desaparecimento do CD, relatou então, admitiu ter feito ligações para alguns jornalistas para checar se alguém tinha o CD.

Foi ele quem comandou a operação na madrugada de 15 de setembro, no Hotel Íbis, em São Paulo, onde foram presos Valdebran Padilha e Gedimar Passos com o dinheiro. Há 10 anos trabalhando na Polícia Federal, ele declarou-se “apartidário” e que teria votado em Lula em 2002.

Para Tarso Genro, o eleitor brasileiro tem maturidade, inteligência e experiência para não cair em armadilhas deste tipo. “Assim como a população não aceita dossiês falsos ou verdadeiros comprados, também não aceita esse tipo de atitude que vem sendo sintetizada em várias manifestações, particularmente através do presidente do PSDB (Tasso Jereissati) e de seu candidato (Geraldo Alckmin). Essa é a manifestação institucional e oficial do governo e do presidente Lula a respeito do assunto”.

Este episódio, acrescentou, representa um fato perturbador do processo eleitoral e também da investigação. “O Estado brasileiro, através da Polícia Federal, vinha apurando o caso do dossiê sem interromper qualquer tipo de ação policial ou administrativa sobre o assunto. A visão política do governo é de que isso é uma ação da oposição, particularmente do PSDB, perturbado politicamente pela provável e, na nossa opinião, já efetiva, vitória do presidente Lula nas eleições deste domingo”.

Para Tarso, trata-se de um segundo episódio Abílio Diniz. “Naquela oportunidade, foi utilizada uma imagem para vincular o candidato Lula aos seqüestradores do Abílio. Agora, as fotos vazadas pelo delegado têm o evidente objetivo de vincular o episiódio de São Paulo à candidatura Lula. Trata-se de um jogo de imagens que conta com a claríssima colaboração de decisiva parte da chamada grande mídia”, declarou ao site Terra Magazine.

Estavam presentes na coletiva, em Porto Alegre, jornalistas de alguns dos principais meios de comunicação do país: O Globo, O Estado de São Paulo, RBS, Rede Globo, Rede Bandeirantes, SBT e Rede Record, entre outros. Vamos ver agora como a imprensa noticia a denúncia do ministro Tarso Genro: se vai dá-la com o destaque que merece ou se vai escondê-la, ou minimizá-la.

Fonte: Marco Aurélio Weissheimer – Carta Maior: 30/09/2006

 

Garcia diz que PT pode provar que vazamento de fotos teve motivação política

O coordenador da campanha eleitoral do PT à Presidência, Marco Aurélio Garcia, afirmou que há provas de que o vazamento das imagens do dinheiro apreendido pela Polícia Federal que seria usado na suposta compra do dossiê contra candidatos tucanos teve motivação política.

Segundo Garcia, os profissionais de imprensa que receberam as fotos teriam gravado a conversa com o membro da PF responsável pelo vazamento em que este afirmaria que sua intenção era prejudicar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e o PT.

“Temos absoluta certeza de que estas fotos foram passadas por um delegado a vários profissionais e, no momento em que foram passadas, foi dito por este delegado que o propósito dele era, sim, um propósito político e que ele pretendia prejudicar com essas fotos –ele usou uma expressão de baixo calão que eu não vou repetir, mas que começa com ‘F’– tanto o governo quanto o PT”, relatou.

O coordenador da campanha do PT especulou ainda sobre a participação de partidos da oposição no vazamento. “Há informações, que não estão confirmadas, que haveria interferência dos dois partidos da oposição, inclusive por incentivo monetário”, disse.

Garcia não confirmou que a gravação tenha sido repassada à campanha de Lula, mas cobrou que a íntegra das informações relacionadas ao vazamento seja publicada pelos meios de comunicação que dispõem do registro.

Para ele, a imprensa agiu de forma “parcializada” ao deixar de noticiar um delito, uma vez que o membro da PF não tinha autorização para divulgar as imagens e ainda teria afirmado que sairia dali para registrar um boletim de ocorrência sobre o furto de um CD com as fotos, que lhe ajudaria a esconder sua participação.

De acordo com Garcia, o membro da PF responsável pelo vazamento é o delegado Edmílson Pereira Bruno, que atuou na prisão dos petistas no Hotel Íbis, quando também foram apreendidos os R$ 1,7 milhão que pagariam o dossiê. Bruno negou que seja responsável pelo vazamento e afirmou ontem que um CD com as fotos teria sido roubado de sua sala. O caso está sendo investigado por sindicância interna da PF.

Ao ser informado que Bruno teria ligado para algumas redações para dizer que gostaria de tornar público que ele é o responsável pelo vazamento, Garcia disse não ter “a menor dúvida” de que a atitude foi tomada porque o delegado ficou sabendo que a campanha de Lula já sabia de sua participação.

O delegado Bruno, apesar de figurar entre os principais agentes da PF no momento da prisão de Valdebran Padilha e Gedimar Passos, foi extra-oficialmente afastado das investigações. Para Garcia, é pouco provável que este fato apenas o teria motivado a divulgar as fotos do dinheiro. “Um funcionário público não opera por ressentimento”, afirmou.

“Não acredito [que a atitude do delegado] tenha sido só por razões ideológicas”, disse Garcia, fazendo nova menção ao incentivo monetário que supostamente teria sido oferecido pela oposição.

O caso

A 15 dias das eleições, a Polícia Federal apreendeu vídeo, DVD e fotos que mostram o candidato do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra, na entrega de ambulâncias da máfia dos sanguessugas.

O material contra Serra seria entregue pelo empresário Luiz Antônio Vedoin, chefe dos sanguessugas e sócio da Planam, a Gedimar Pereira Passos, advogado e ex-policial federal, e Valdebran Padilha da Silva, filiado ao PT do Mato Grosso.

Gedimar e Valdebran foram presos, em São Paulo, com R$ 1,7 milhão. Eles estavam no hotel Ibis, e aguardavam por um emissário do empresário, que levaria o dossiê contra o tucano. O PT nega que o dinheiro seja do partido.

O emissário seria o tio do empresário, Paulo Roberto Dalcol Trevisan. A pedido de Vedoin, o tio entregaria o documento a Valdebran e Gedimar. Os quatro envolvidos foram presos pela PF.

Em depoimento, Gedimar disse que foi ‘contratado pela Executiva Nacional do PT’ para negociar com a família Vedoin a compra de um dossiê contra o tucano, e que do pacote fazia parte uma entrevista –supostamente à “IstoÉ”– acusando Serra de envolvimento na máfia.

Ele disse ainda que seu contato no PT era alguém de nome “Froud ou Freud”. Após a denúncia, o assessor especial da Presidência da República, Freud Godoy, pediu afastamento do cargo. Ele nega as acusações.

Após o episódio, outros nomes ligados ao PT começaram a ser relacionados ao dossiê. A crise derrubou o coordenador da campanha à reeleição de Lula, Ricardo Berzoini, presidente do PT. Ele foi substituído por Marco Aurélio Garcia.

Ex-secretário de Berzoini no Ministério do Trabalho, Oswaldo Bargas (coordenador de programa de governo da campanha), e Jorge Lorenzetti –analista de mídia e risco do PT e churrasqueiro do presidente– procuraram a revista “Época” para oferecer o dossiê. Também caíram.

O ex-diretor do Banco do Brasil Expedito Afonso Veloso também foi afastado da instituição, após denúncia sobre seu suposto envolvimento com o dossiê. Valdebran disse que recebeu parte do dinheiro de uma pessoa chamada “Expedito”. Ele teria participado da operação de montagem e divulgação do documento.

Em São Paulo, o candidato ao governo Aloizio Mercadante (PT) afastou o coordenador de comunicação da campanha Hamilton Lacerda, que teria articulado a publicação da reportagem da “IstoÉ” contra Serra.

Fonte: Cristina Charão – Folha Online: 30/09/2006