E a imprensa colaborou com mais esta tentativa de atentado político

Delegado da PF vazou fotos em ação articulada com PSDB

O ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, disse neste sábado, que o delegado da Polícia Federal, Edmilson Bruno, foi o responsável pelo vazamento das fotos do dinheiro à imprensa, em uma ação articulada com a oposição, notadamente o PSDB. Segundo Tarso, na sexta-feira, o delegado chamou seis jornalistas, passou para eles em CD com as fotos do dinheiro e afirmou “Eu estou fazendo isso para f…o governo e o Lula”.

A informação foi confirmada pelo assessor especial do presidente lula e chefe de campanha, Marco Aurélio Garcia, ao site Terra Magazine. Segundo Garcia, após manifestar sua intenção de arrebentar Lula e o governo, o delegado teria dito: “agora eu vou subir para fazer o boletim de ocorrência sobre o furto das fotos porque eu preciso me cobrir”.

Em entrevista coletiva à imprensa, em Porto Alegre, Tarso Genro disse que o delegado responsável pela perícia da investigação sobre o caso do dossiê fez uma encenação como se as fotos lhe tivessem sido roubadas. “Ele cometeu um duplo delito. Fez um registro falso de Boletim de Ocorrência, de uma parte, e de outra, vazou documentos para fins políticos, documentos que pertencem a um processo que está sob segredo de justiça”.

“Isso é tão ou mais grave do que o envolvimento de qualquer pessoa na compra ou elaboração de qualquer dossiê”, acrescentou o ministro. Ele anunciou que já foi aberta uma sindicância administrativa pela Polícia Federal para apurar a responsabilidade do delegado no caso. Durante a entrevista, Tarso Genro destacou que estava falando em nome do governo.

“A manifestação institucional do governo neste momento é de que se trata de um atentado político, que repete um cenário conhecido no país, e que merece uma rejeição tão profunda e radical como a produção e compra de dossiês. Na opinião do governo, isso é uma ação política da oposição, chefiada pelo PSDB, que vinha reiteradamente requisitando essas fotos mesmo sabendo que elas estavam sob segredo de justiça. Portanto, estamos autorizados a concluir que se tratou de uma articulação política de baixo nível, de baixo calão, que visa perturbar o processo eleitoral e gerar impressionismos de última hora”, acrescentou.

Delegado admite ser autor do vazamento

O delegado Edmilson Bruno confessou, neste sábado, que foi o responsável pelo vazamento das fotos e anunciou que, em uma entrevista coletiva na segunda-feira, dirá “coisas surpreendentes”, informou a Agência Estado. Inicialmente ele havia negado ser o autor da distribuição das fotos com o dinheiro apreendido pela Polícia Federal. Segundo sua primeira versão, o CD com as fotos havia sumido de seu arquivo pessoal entre quinta à noite e sexta de manhã. Ao perceber o desaparecimento do CD, relatou então, admitiu ter feito ligações para alguns jornalistas para checar se alguém tinha o CD.

Foi ele quem comandou a operação na madrugada de 15 de setembro, no Hotel Íbis, em São Paulo, onde foram presos Valdebran Padilha e Gedimar Passos com o dinheiro. Há 10 anos trabalhando na Polícia Federal, ele declarou-se “apartidário” e que teria votado em Lula em 2002.

Para Tarso Genro, o eleitor brasileiro tem maturidade, inteligência e experiência para não cair em armadilhas deste tipo. “Assim como a população não aceita dossiês falsos ou verdadeiros comprados, também não aceita esse tipo de atitude que vem sendo sintetizada em várias manifestações, particularmente através do presidente do PSDB (Tasso Jereissati) e de seu candidato (Geraldo Alckmin). Essa é a manifestação institucional e oficial do governo e do presidente Lula a respeito do assunto”.

Este episódio, acrescentou, representa um fato perturbador do processo eleitoral e também da investigação. “O Estado brasileiro, através da Polícia Federal, vinha apurando o caso do dossiê sem interromper qualquer tipo de ação policial ou administrativa sobre o assunto. A visão política do governo é de que isso é uma ação da oposição, particularmente do PSDB, perturbado politicamente pela provável e, na nossa opinião, já efetiva, vitória do presidente Lula nas eleições deste domingo”.

Para Tarso, trata-se de um segundo episódio Abílio Diniz. “Naquela oportunidade, foi utilizada uma imagem para vincular o candidato Lula aos seqüestradores do Abílio. Agora, as fotos vazadas pelo delegado têm o evidente objetivo de vincular o episiódio de São Paulo à candidatura Lula. Trata-se de um jogo de imagens que conta com a claríssima colaboração de decisiva parte da chamada grande mídia”, declarou ao site Terra Magazine.

Estavam presentes na coletiva, em Porto Alegre, jornalistas de alguns dos principais meios de comunicação do país: O Globo, O Estado de São Paulo, RBS, Rede Globo, Rede Bandeirantes, SBT e Rede Record, entre outros. Vamos ver agora como a imprensa noticia a denúncia do ministro Tarso Genro: se vai dá-la com o destaque que merece ou se vai escondê-la, ou minimizá-la.

Fonte: Marco Aurélio Weissheimer – Carta Maior: 30/09/2006

 

Garcia diz que PT pode provar que vazamento de fotos teve motivação política

O coordenador da campanha eleitoral do PT à Presidência, Marco Aurélio Garcia, afirmou que há provas de que o vazamento das imagens do dinheiro apreendido pela Polícia Federal que seria usado na suposta compra do dossiê contra candidatos tucanos teve motivação política.

Segundo Garcia, os profissionais de imprensa que receberam as fotos teriam gravado a conversa com o membro da PF responsável pelo vazamento em que este afirmaria que sua intenção era prejudicar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e o PT.

“Temos absoluta certeza de que estas fotos foram passadas por um delegado a vários profissionais e, no momento em que foram passadas, foi dito por este delegado que o propósito dele era, sim, um propósito político e que ele pretendia prejudicar com essas fotos –ele usou uma expressão de baixo calão que eu não vou repetir, mas que começa com ‘F’– tanto o governo quanto o PT”, relatou.

O coordenador da campanha do PT especulou ainda sobre a participação de partidos da oposição no vazamento. “Há informações, que não estão confirmadas, que haveria interferência dos dois partidos da oposição, inclusive por incentivo monetário”, disse.

Garcia não confirmou que a gravação tenha sido repassada à campanha de Lula, mas cobrou que a íntegra das informações relacionadas ao vazamento seja publicada pelos meios de comunicação que dispõem do registro.

Para ele, a imprensa agiu de forma “parcializada” ao deixar de noticiar um delito, uma vez que o membro da PF não tinha autorização para divulgar as imagens e ainda teria afirmado que sairia dali para registrar um boletim de ocorrência sobre o furto de um CD com as fotos, que lhe ajudaria a esconder sua participação.

De acordo com Garcia, o membro da PF responsável pelo vazamento é o delegado Edmílson Pereira Bruno, que atuou na prisão dos petistas no Hotel Íbis, quando também foram apreendidos os R$ 1,7 milhão que pagariam o dossiê. Bruno negou que seja responsável pelo vazamento e afirmou ontem que um CD com as fotos teria sido roubado de sua sala. O caso está sendo investigado por sindicância interna da PF.

Ao ser informado que Bruno teria ligado para algumas redações para dizer que gostaria de tornar público que ele é o responsável pelo vazamento, Garcia disse não ter “a menor dúvida” de que a atitude foi tomada porque o delegado ficou sabendo que a campanha de Lula já sabia de sua participação.

O delegado Bruno, apesar de figurar entre os principais agentes da PF no momento da prisão de Valdebran Padilha e Gedimar Passos, foi extra-oficialmente afastado das investigações. Para Garcia, é pouco provável que este fato apenas o teria motivado a divulgar as fotos do dinheiro. “Um funcionário público não opera por ressentimento”, afirmou.

“Não acredito [que a atitude do delegado] tenha sido só por razões ideológicas”, disse Garcia, fazendo nova menção ao incentivo monetário que supostamente teria sido oferecido pela oposição.

O caso

A 15 dias das eleições, a Polícia Federal apreendeu vídeo, DVD e fotos que mostram o candidato do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra, na entrega de ambulâncias da máfia dos sanguessugas.

O material contra Serra seria entregue pelo empresário Luiz Antônio Vedoin, chefe dos sanguessugas e sócio da Planam, a Gedimar Pereira Passos, advogado e ex-policial federal, e Valdebran Padilha da Silva, filiado ao PT do Mato Grosso.

Gedimar e Valdebran foram presos, em São Paulo, com R$ 1,7 milhão. Eles estavam no hotel Ibis, e aguardavam por um emissário do empresário, que levaria o dossiê contra o tucano. O PT nega que o dinheiro seja do partido.

O emissário seria o tio do empresário, Paulo Roberto Dalcol Trevisan. A pedido de Vedoin, o tio entregaria o documento a Valdebran e Gedimar. Os quatro envolvidos foram presos pela PF.

Em depoimento, Gedimar disse que foi ‘contratado pela Executiva Nacional do PT’ para negociar com a família Vedoin a compra de um dossiê contra o tucano, e que do pacote fazia parte uma entrevista –supostamente à “IstoÉ”– acusando Serra de envolvimento na máfia.

Ele disse ainda que seu contato no PT era alguém de nome “Froud ou Freud”. Após a denúncia, o assessor especial da Presidência da República, Freud Godoy, pediu afastamento do cargo. Ele nega as acusações.

Após o episódio, outros nomes ligados ao PT começaram a ser relacionados ao dossiê. A crise derrubou o coordenador da campanha à reeleição de Lula, Ricardo Berzoini, presidente do PT. Ele foi substituído por Marco Aurélio Garcia.

Ex-secretário de Berzoini no Ministério do Trabalho, Oswaldo Bargas (coordenador de programa de governo da campanha), e Jorge Lorenzetti –analista de mídia e risco do PT e churrasqueiro do presidente– procuraram a revista “Época” para oferecer o dossiê. Também caíram.

O ex-diretor do Banco do Brasil Expedito Afonso Veloso também foi afastado da instituição, após denúncia sobre seu suposto envolvimento com o dossiê. Valdebran disse que recebeu parte do dinheiro de uma pessoa chamada “Expedito”. Ele teria participado da operação de montagem e divulgação do documento.

Em São Paulo, o candidato ao governo Aloizio Mercadante (PT) afastou o coordenador de comunicação da campanha Hamilton Lacerda, que teria articulado a publicação da reportagem da “IstoÉ” contra Serra.

Fonte: Cristina Charão – Folha Online: 30/09/2006

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