Mês da Bíblia 2011: Êxodo, segundo o Centro Bíblico Verbo

CENTRO BÍBLICO VERBO A caminhada no deserto: entendendo o livro do Êxodo 15,22-18,27. São Paulo: Paulus, 2011, 112 p. – ISBN 9788534928045

Por Wesley Gonçalves de Oliveira

A equipe do Centro Bíblico Verbo publicou recentemente, a cargo da Paulus editora, um riquíssimo livro que, servindo de reflexão em encontros ou cursos bíblicos, busca oferecer às pessoas e comunidades um roteiro simples com fundamentação bíblica para assuntos importantes na pastoral.

Organizado para ser um subsídio para o Mês da Bíblia de 2011, A caminhada no deserto – Entendendo o livro do Êxodo 15,22-18,27 oferece elementos capazes de mostrar com clareza o contexto em que os textos desse livro foram escritos, incentivando o leitor a se aprofundar na mensagem e a viver os ensinamentos de Deus. Os autores são Maria Antônia Marques e Shigeyuki Nakanose.

Este subsídio pertence à coleção “Do povo para o povo” e surgiu da necessidade de socializar numa linguagem simples e didática as descobertas da pesquisa bíblica. A leitura divide-se em uma introdução e cinco encontros. Cada um traz orientações sobre o tema proposto, situando, comentando e aprofundando o texto sugerido para os debates.

A estrutura do livro é a seguinte:

  • Introdução a Êxodo 15,22-18,27: aqui temos uma visão geral das narrativas citadas, da estrutura do Livro do Êxodo (divisão, época de escrita, contexto…) e uma síntese da proposta deste estudo em cinco encontros
  • Primeiro encontro – Ex 15,22-27 e 17,1-7: a falta de água (episódios de Mara e da água da rocha) – Título do capítulo: Deus está presente em nossa caminhada
  • Segundo encontro – Ex 16,1-3.12-21: o alimento (episódios do maná e das codornizes) – Título do capítulo: A partilha gera vida
  • Terceiro encontro – Ex 17,8-16: a guerra santa (combate contra Amalec) – Título do capítulo: Deus quer a vida em plenitude para todos os povos, nações e línguas
  • Quarto encontro – Ex 18,1-12: encontro de Moisés com sua família (chegada de Jetro, de Séfora e dos filhos) – Título do capítulo: Deus se faz presente nas relações cotidianas
  • Quinto encontro – Ex 18,13-27: a descentralização do poder (epísódio dos juízes) – Título do capítulo: A centralização do poder destrói a comunidade

Os encontros salientam de modo geral a importância da partilha, reavivando a experiência da gratuidade de Deus nos milagres experimentados em nossa vida cotidiana. Além disso, os responsáveis pelo texto falam sobre as relações humanas, meditam acerca do compromisso com a justiça e a solidariedade e destacam vários temas presentes no livro do Êxodo que ainda são atuais em nossa sociedade.

É mister observar que esses textos contêm memórias das dificuldades vivenciadas no deserto. No entanto, é possível identificar algumas repetições: por exemplo, há dois relatos sobre a falta de água. Percebemos informações que causam estranheza: por exemplo, em Ex 4,20, por ordem de Javé, Moisés, sua mulher e seu filho voltam para o Egito, mas em Ex 18,2, a mulher e os filhos – que agora são dois – estão em Madiã.

Afinal, qual é o nome do sogro de Moisés? Raguel (Ex 2,16-18) ou Jetro (Ex 4,18; 18,1-12)? Os dois são apresentados como sacerdotes de Madiã e como sogros de Moisés. Outra questão que podemos observar é a insistência na observância da Lei, tema que não é próprio da realidade do deserto.

Para compreender essas questões levantadas pela leitura do texto bíblico, os autores enfatizam que é fundamental saber a época em que ele foi escrito e como foi o processo de redação. O livro do Êxodo preserva uma memória antiga, mas grande parte desse livro foi escrita no período pós-exílico, por volta do ano 400 a.C. Nesse período, a observância da Lei de Deus era fundamental.

A insistência na observância da Lei aparece diversas vezes nos textos da caminhada no deserto. Em Ex 15,26, após o relato da cura da água, lemos: “Se ouvires atento a voz de Javé teu Deus e fizeres o que é reto diante dos seus olhos, se deres ouvido a seus mandamentos e guardares todas as suas leis, nenhuma enfermidade virá sobre ti, das que enviei sobre os egípcios. Pois eu sou Javé, aquele que te restaura”.

Neste mesmo capítulo, em Ex 15,26, surge a teologia da retribuição: se o povo for obediente à Lei, ninguém ficará doente. Essa compreensão teológica é típica do tempo de Esdras e Neemias (450-398 a.C.). E, por fim, o preconceito contra os estrangeiros, que aparece na guerra contra os amalecitas (Ex 17,8-16). Esses elementos comprovam que grande parte dos textos de Êxodo 15-18 foram compostos no período do pós-exílio, por volta do ano 400 a.C.

Em Ex 16,4.28-29 o texto insiste na observância da Lei e especifica a exigência de guardar o sábado. Em Ex 18,16.20, lemos: “… e lhes faço conhecer os decretos de Deus e as suas leis. Ensina-lhes os estatutos e as leis, faze-lhes conhecer o caminho a seguir e as obras que devem fazer”. Porém, é importante perceber que, conforme a narrativa, Moisés só recebe a Lei mais à frente, em Ex 19.

É no tempo de Esdras que se dá a redação final do livro do Êxodo. Assim, podemos entender o porquê da insistência da observância da Lei, de Deus poderoso aniquilando os inimigos de Israel, e a exclusão das mulheres do cenário sociopolítico, econômico e religioso. São temas e compreensões teológicas do pós-exílio que foram inseridos na caminhada no deserto e atribuídos a Javé. Mas, nas entrelinhas de Ex 15,22-18,27, podemos encontrar a memória da partilha, da solidariedade e da experiência de um Deus que caminha com o povo.

Em suma, o Êxodo é um acontecimento sempre vivo. Deve ser lembrado sempre. É a história de um povo a caminho. Um ensinamento que deve ser celebrado de geração em geração (cf. Ex 13,8-9). Por isso somos convidados a entrar nessa caminhada e refazer esse percurso, procurando novas luzes para a nossa caminhada de hoje, afirmam os autores.

Mês da Bíblia 2011: subsídios apresentados pelos alunos

O livro do Êxodo faz parte de meu programa de Pentateuco, disciplina estudada no Primeiro Ano de Teologia do CEARP neste semestre. Em geral, apenas os 15 primeiros capítulos do livro do Êxodo são estudados quase no final do ano.

O texto proposto para ser aprofundado no Mês da Bíblia deste ano, Ex 15,22-18,27, nem entra no programa, por falta de tempo. Mesmo assim, pedi aos alunos, como fiz no ano passado com o livro de Jonas, que se encarregassem de apresentar alguns dos estudos disponíveis em português sobre estes textos. Onze textos foram apresentados e uma síntese do que foi feito será publicada a partir de hoje no blog.

A ordem de publicação é aleatória, porque os publico à medida em que os recebo. Ao clicar nos títulos dos livros, o leitor será remetido ao post sobre ele.

Ex 15,22-18,27 é formado por um conjunto de tradições sobre a caminhada no deserto, composto pelos seguintes textos:
. Ex 15,22-27: Mara, a água amarga
. Ex 16,1-36: o maná e as codornizes
. Ex 17,1-7: a água da rocha
. Ex 17,8-16: combate contra Amalec
. Ex 18,1-12: encontro de Jetro com Moisés
. Ex 18,13-27: instituição dos juízes

Os textos apresentados:

BALANCIN, E. M.; STORNIOLO, I. Como ler o livro do Êxodo: o caminho para a liberdade. 9. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 64 p. – ISBN 8534901953
Por Bruno Luiz Ferreira da Silva

CENTRO BÍBLICO VERBO A caminhada no deserto: entendendo o livro do Êxodo 15,22-18,27. São Paulo: Paulus, 2011, 112 p. – ISBN 9788534928045
Por Wesley Gonçalves de Oliveira

CNBB Travessia: passo a passo, o caminho se faz – Ex 15,22-18,27. Brasília: CNBB, 2011, 88 p. – ISBN 9788579720864
Por Ferdinando Henrique Pavan Rubio

DA SILVA, V. Deus ouve o clamor do povo: teologia do êxodo. São Paulo: Paulinas, [2004] 2010, 113 p. – ISBN 8535614435
Por Severino Germano da Silva

LOPES, M. Deus liberta escravos e faz nascer um povo novo: Êxodo 15 a 18. São Leopoldo: CEBI/Paulus, 2011, 74 p. – ISBN 9788577331284
Por André Luís Rodrigues

MESTERS, C.; OROFINO, F. A Caminhada do Povo de Deus. Os desafios da travessia: Ex 15-18. São Leopoldo: CEBI, 2011, 48 p. – ISBN 9788577331253
Por Luciano Giopato Roncoleta

PIXLEY, G. V., Êxodo. São Paulo: Paulus, 1987, 252 p. – ISBN 8505006224 [o livro em português está esgotado, mas o original espanhol está disponível online aqui] Por Mateus Morais e Silva

SAB Aproximai-vos da presença do Senhor (Ex 16,9): Mês da Bíblia 2011. São Paulo: Paulinas, 2011, 56 p.
Por Thiago José Barbosa de Oliveira Santos

SCHWANTES, M. et al. A memória popular do êxodo. 2. ed. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 16, 1996, 84 p.
Por Victor Mariano Rodrigues

VAN IERSEL, B.; WEILER, A. et al. Êxodo: paradigma sempre atual. Concilium, Petrópolis, n. 209, 1987, 144 p.
Por Sebastião de Magalhães Viana Junior

VV.AA. Animação Bíblica da Pastoral: passo a passo a travessia se faz. Vida Pastoral, São Paulo, n. 280, setembro-outubro de 2011, 64 p.
Por Edson Carlos Braz

Leia Mais:
Mês da Bíblia 2011: Ex 15,22-18,27 – Um
Mês da Bíblia 2011: Ex 15,22-18,27 – Dois
Alguns comentários do Livro do Êxodo

Um dicionário bíblico atualizado e em português

Estou falando do

BERLEJUNG, A.; FREVEL, C. (orgs.) Dicionário de termos teológicos fundamentais do Antigo e do Novo Testamento. São Paulo: Loyola/Paulus, 2011, 536 p. – ISBN 9788515037872.

Traduzido do original alemão, este dicionário comenta os termos, os conceitos e os temas centrais do Antigo e Novo Testamentos. É o mais atualizado do gênero em língua portuguesa.

O original alemão é de 2006, mas já existe uma segunda edição, sem alterações, publicada em 2009:

BERLEJUNG, A.; FREVEL, C. (orgs.) Handbuch theologischer Grundbegriffe zum Alten und Neuen Testament. 2. Auflage. Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 2009, 468 Seiten – ISBN 9783534224029.

Diz a sinopse da Paulus:
O presente dicionário é concebido tanto como livro de estudo quanto como obra enciclopédica de consulta. Comenta os termos, os conceitos e os temas centrais do Antigo e do Novo Testamento que são fundamentais para a fé cristã até os nossos tempos, tornando-se assim um subsídio e um compêndio indispensável de teologia bíblica para teólogos, estudantes e pessoas interessadas na Sagrada Escritura. O volume foi elaborado com a colaboração de renomados cientistas e pesquisadores internacionais, segundo o mais atual estado da pequisa da exegese e da teologia.

No fascículo 282 da REB, de abril de 2011, nas páginas 520-522, há uma resenha de Jaldemir Vitório (FAJE, Belo Horizonte), ainda sobre a tradução italiana de 2009. Com fortes recomendações. Aliás, ele termina assim: “Quanto sei, algo parecido em nossa língua, seja, apenas, o Vocabulário de Teologia Bíblica, de Xavier Léon-Dufour, publicado pela Editora Vozes, na década de 70″ [a edição atual é a décima, de 2009].

De minha parte, li algumas coisas de historiografia e gostei. Está bem atualizado. O assunto é tratado, quanto ao Antigo Testamento, por Ernst Axel Knauf, da Universidade de Berna, Suíça. Velho conhecido do Seminário Europeu de Metodologia Histórica.

Onde encontrar a Vida Pastoral no site da Paulus?

Um serviço de “utilidade pública”… também para os meus alunos.

Clique aqui… e eis a Vida Pastoral.

Excelente revista. Leia online, ou faça o download, disponível em PDF. É de graça…

Ora, se há uma coisa aborrecida na Internet é a volatilidade dos links…

Como disse, dia desses, John Hobbins sobre os biblioblogs:
A gripe I will air right away: it is sad that some biblical bloggers, when they hang up their skates, delete their past blogging from the internet. One of the consequences of blog-deletion is that links to posts and comments on the deleted blog no longer work.
Um desabafo que eu quero fazer já: é triste que alguns biblioblogueiros, quando “penduram as chuteiras”, apaguem seus antigos blogs da Internet. Uma das consequências da exclusão de um blog é que os links para posts e comentários no blog excluído ficam quebrados em outras páginas.

Um link é uma entidade, como se sabe, alterável, breve, caduca, descontinuada, efêmera, extinguível, findável, finita, frágil, fugaz, fugidia, fugitiva, impermanente, inconstante, indefinida, infrequente, instável, morredoura, movediça, móvel, mudadiça, passadiça, perecível, provisória, temporária, transitiva, transitória, volátil, voltívola, volúvel… Criada, aliás, à nossa imagem e semelhança…

Ecumenismo hoje: uma reflexão teoecológica

O tema de capa da Revista IHU On-Line desta semana, edição 370, publicada em 22.08.2011, é:

O ecumenismo hoje. Uma reflexão teoecológica

O que significa ser ecumênico no atual contexto contemporâneo? Que avanços e obstáculos existem na busca de unidade das Igrejas cristãs? E, diante da chamada crise ambiental, qual o papel das cristãs e dos cristãos na defesa da Criação? Por ocasião do 6º Encontro de Agentes para o Ecumenismo (Mutirão Ecumênico), promovido pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB e Conselho Latino-Americano de Igrejas – CLAI, com a participação de agentes ecumênicos dos estados do RS, SC, PR e SP, a IHU On-Line dedica esta edição ao ecumenismo hoje, em perspectiva teoecológica.

As entrevistas:

  • Dom Francisco de Assis Silva: “Ser ecumênico é abrir-se à alteridade”
  • Walter Altmann: 500 anos depois: Recordar a Reforma, olhando para os desafios comuns da cristandade
  • Manoel João Francisco: Tolerância e alteridade: princípios para confiar no outro, reconhecendo as diferenças
  • Marcelo Barros: Ecumenismo e macroecumenismo: unidade interior na diversidade de caminhos
  • Anivaldo Padilha: “O ecumenismo é movido pelo Espírito e não pode ser considerado propriedade de nenhuma igreja”
  • Nancy Cardoso Pereira: Ecumenismo, ecologia, economia: um olhar feminino e feminista
  • Haroldo Reimer: De apocalípticos a proféticos: a metanoia necessária diante da Criação
  • Erico Hammes: “A abertura para a unidade com o outro/a é inerente à identidade”
  • Paulo Homero Gozzi: Unidade, liberdade, caridade: o desafio de superar a “ignorância” em torno do ecumenismo
  • Marcelo Schneider: Nem diplomacia, nem cordialidade: um mandato apostólico fundamental
  • Arno Kayser: Criação: denominação cristã para a sinfonia do universo

Líbia: se Kadafi perde o poder, quem o ganha?

A grande pergunta que segue aberta é como os insurgentes líbios poderão converter sua vitória no campo de batalha em uma paz estável e aceita por todos. O Conselho Nacional de Transição (CNT), em Benghazi, já reconhecido por tantos estados nacionais como sendo o governo legítimo da Líbia, é de duvidosa legitimidade e de duvidosa autoridade. Os próprios insurgentes admitem que sem a guerra aérea feita a seu favor pela OTAN – com 7459 ataques aéreos sobre os partidários de Kadafi – estariam mortos ou fugindo.

La guerra civil en Libia duró más de lo esperado, pero la caída de Trípoli llegó antes de lo pronosticado. Como en Kabul en 2001 y en Bagdad en 2003, no había una postura de defender a ultranza al régimen derrotado, cuyos partidarios parecían haberse derretido una vez que vieron que la derrota era inevitable. Mientras es claro que el coronel Muammar Khadafi perdió poder, no resulta claro saber quién lo ganó. Los rebeldes estaban unidos ante un enemigo común, pero no mucho más. El Consejo Nacional de Transición (CNT) en Benghazi, ya reconocido por tantos estados extranjeros como el gobierno legítimo de Libia, es de dudosa legitimidad y autoridad. Pero hay otro problema para terminar la guerra. Los insurgentes mismos admiten que sin la guerra aérea hecha a su favor por la OTAN –con 7459 ataques aéreos sobre blancos de Khadafi– estarían muertos o huyendo. La cuestión, por lo tanto, sigue abierta a cómo pueden los rebeldes convertir pacíficamente su victoria del campo de batalla asistida por el exterior en una paz estable y aceptable para todos los partidos de Libia.

Leia o artigo.

Fonte: Patrick Cockburn, de The Independent para Página/12. Publicado em português por Carta Maior: 24/08/2011

Leia Mais:
O que está acontecendo no Egito hoje?
O que está acontecendo no Oriente Médio hoje?
As ruas do mundo falam outra vez

Resenhas na RBL – 11.08.2011

As seguintes resenhas foram recentemente publicadas pela Review of Biblical Literature:

Richard Bauckham
The Bible and Ecology: Rediscovering the Community of Creation
Reviewed by Norman Habel

Ehud Ben Zvi and Diana V. Edelman, eds.
The Production of Prophecy: Constructing Prophecy and Prophets in Yehud
Reviewed by Bob Becking

Kamila Blessing
Families of the Bible: A New Perspective
Reviewed by Yolanda Dreyer

Naomi Koltun-Fromm
Hermeneutics of Holiness: Ancient Jewish and Christian Notions of Sexuality and Religious Community
Reviewed by Michael L. Satlow

Joel M. LeMon
Yahweh’s Winged Form in the Psalms: Exploring Congruent Iconography and Texts
Reviewed by Jeremy M. Hutton

Martin McNamara
Targum and Testament Revisited: Aramaic Paraphrases of the Hebrew Bible: A Light on the New Testament
Reviewed by Joshua Ezra Burns

Sebastian Moll
The Arch-Heretic Marcion
Reviewed by Mark DelCogliano

Daniel O’Hare
“Have You Seen, Son of Man?”: A Study of the Translation and Vorlage of LXX Ezekiel 40-48
Reviewed by Francis Dalrymple-Hamilton

Calvin J. Roetzel
The Letters of Paul: Conversations in Context
Reviewed by Nijay K. Gupta

José Manuel Sánchez Caro, Rosa María Herrera García, and Inmaculada Delgado Jara, eds.
Alfonso do Madrigal, el Tostado: Introducción al Evangelio según San Mateo
Reviewed by David E. C. Ford

>> Visite: Review of Biblical Literature Blog

Resenhas na RBL – 04.08.2011

As seguintes resenhas foram recentemente (ou quase) publicadas pela Review of Biblical Literature:

Cornelis Bennema
Encountering Jesus: Character Studies in the Gospel of John
Reviewed by Nijay K. Gupta

Scott N. Callaham
Modality and the Biblical Hebrew Infinitive Absolute
Reviewed by Jeremy Hutton

Thomas B. Dozeman, ed.
Methods for Exodus
Reviewed by Danny Mathews

Jennie R. Ebeling
Women’s Lives in Biblical Times
Reviewed by Aren M. Maeir

Swift Edgar, ed.
The Vulgate Bible, Volume 1: The Pentateuch: Douay-Rheims Translation
Reviewed by Mark Elliott

Troels Engberg-Pedersen
Cosmology and Self in the Apostle Paul: The Material Spirit
Reviewed by Kevin McCruden

John Paul Heil
Colossians: Encouragement to Walk in All Wisdom as Holy Ones in Christ
Reviewed by Rodrigo J. Morales

Robert Kugler and Patrick Hartin
An Introduction to the Bible
Reviewed by Lily Vuong

Heikki Räisänen
The Rise of Christian Beliefs: The Thought World of Early Christians
Reviewed by Gosnell Yorke

Robert Titley
A Poetic Discontent: Austin Farrer and the Gospel of Mark
Reviewed by Mark A. Matson

>> Visite: Review of Biblical Literature Blog

Contador de usuários online

Há toneladas de opções. Contadores prontos, para fazer ou para personalizar. Freeware ou open source.

Mas gostei especialmente dos scripts do php easy code – ready-to-use php scripts & code examples. Dê uma olhada em online visitors counter scripts set

Acabei de colocar a opção com javascript no Observatório Bíblico e na Ayrton’s Biblical Page. Este contador de visitantes/usuários online não exige banco de dados.

Uma opção interessante de contador em php, que utiliza banco de dados, é o Daily Counter. Estou usando este contador desde 2008. É possível usá-lo tanto em páginas php como em páginas html.

Contadores prontos para blogs e sites? Além do obrigatório Google Analytics?

Ultimamente experimentei whos.amung.us, Contador de Usuários Online do BlogUtils, Feedjit, Flash-Counter…

Um ótimo lugar para ver indicações e análises de contadores e outros trecos é o Gerenciando Blog, do Adelson Smania. Veja os artigos sob a categoria monitoramento, por exemplo.

Contribuições da Teologia para a crítica à idolatria

Uma entrevista com Jung Mo Sung no IHU On-Line. Publicada hoje, 20/08/2011:

”Economia para a vida”: contribuições da teologia para a crítica à idolatria. Entrevista especial com Jung Mo Sung

“Todas as sociedades produzem deuses, que são obras de ações e interações humanas que são sacralizadas, e em seu nome se funda a ordem social existente e se exige sacrifícios de vidas humanas necessários para a reprodução da ordem”. Para o teólogo Jung Mo Sung, o neoliberalismo, hoje, apresenta uma lógica idolátrica, devido à “dimensão fascinante do capitalismo global atual”. “Diante da fascinação, não basta criticar, é preciso desvelar o processo sacrificial para desmascarar a fascinação que cega”, afirma.

Nesse contexto, “a teologia tem um papel importante a cumprir na sociedade. Podemos dizer que a crítica pela teologia da fascinação da idolatria do mercado é um papel ou uma contribuição importante a dar no espaço público da sociedade e do debate acadêmico”, defende.

Nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Sung faz também uma análise das contribuições do Concílio Vaticano II, prestes a completar 50 anos de sua convocação, além das Jornadas preparatórias para o Congresso Continental de Teologia, que irá ocorrer na Unisinos, em outubro de 2012. E também explica qual a sua compreensão da importância e do significado da “teologia pública”.

Jung Mo Sung é teólogo e filósofo leigo católico. É mestre em Teologia Moral pela Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção e doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo – Umesp, com pós-doutorado em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba. É professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Umesp.

A entrevista

HU On-Line – Qual é a importância de celebrar os 50 anos do Concílio Vaticano II? A partir dessa data especial, quais são os principais desafios que a igreja precisa discutir no atual momento histórico?

Jung Mo Sung – Uma pessoa sabe quem ela é a partir da sua memória. Quando sofre amnésia e perde completamente a memória, perde também a sua identidade, não sabe quem é, e assim não consegue compreender o seu presente e nem consegue pensar no seu futuro. Assim também funciona para instituições ou igrejas. É claro que nenhuma instituição sofre de amnésia total, mas, de forma semelhante às pessoas, a sua memória é conformada de modo seletivo. Guardamos certos fatos e esquecemo-nos de outros. Esquecer é fundamental na formação da memória e, portanto da identidade, porque não é possível guardar na memória todos os fatos. Perdoar, por exemplo, é um exercício de esquecimento.

Se sabemos quem somos a partir da nossa memória, o processo de seleção desta memória impacta não somente na identidade, mas na forma como compreendemos o presente e as tarefas e objetivos para o futuro. Assim sendo, esquecer ou lembrar-se de certos fatos ou acontecimentos do passado da Igreja Católica influencia o modo como esta igreja compreende o seu presente e os desafios do seu futuro. Por isso, celebrar os 50 anos do Concílio ou não e como se celebra são opções importantes na “organização” da memória da Igreja e, portanto, da sua identidade e do seu futuro.

Dito isso, podemos dizer que o primeiro desafio consiste na luta pela interpretação do Concílio na história recente da Igreja, pois a memória é sempre constituída de reinterpretação de fatos passados. Interpretado como uma abertura da Igreja ao Espírito de Deus e às realidades do mundo moderno, eu penso que a celebração dos 50 anos de Concílio nos coloca, em primeiro lugar, o desafio de repensar o próprio conceito de modernidade ou de mundo moderno que esteve presente no Concílio e ainda está em muitos documentos e textos teológicos de hoje.

A modernidade foi compreendida como emancipação humana, racional e secularizada, quando na verdade apresenta duas faces aparentemente contraditórias. A proposta de emancipação humana baseada na razão veio acompanhada de colonização e escravização da população do mundo não europeu ocidental. A racionalidade moderna justificou a irracionalidade da matança e exploração de centenas de milhões de pessoas em nome do progresso e civilização. Franz Hinkelammert chama a racionalidade moderna de “racionalização do irracional”.

Além disso, a dita secularização não significou negação completa da religião ou do sagrado, mas o deslocamento do sagrado para a esfera do mercado, no capitalismo, e Estado no comunismo. Na crítica teológica ao capitalismo, isso foi chamado de “idolatria do mercado”.

A compreensão da modernidade como racional e secularizada traz para a Igreja o desafio de justificar a fé diante da razão e a religião diante do mundo secular. A compreensão mais crítica do mundo moderno traz o desafio de criticar teologicamente a idolatria que explora e mata, ou não permite a vida de milhões de pessoas ao redor do mundo, além da degradação ambiental, em nome de um novo tipo sagrado. Como todo sagrado, este Império global que está se formando com a globalização econômica fascina e atrai ao mesmo tempo em que gera medo.

Hoje, especialmente o medo de ser expulso da globalização.

Diante do mundo assim, a Igreja Católica, que celebra os 50 anos do Concílio como abertura ao Espírito de Deus e “às alegrias e esperanças” e também aos sofrimentos do mundo, deve assumir o desafio de encontrar formas concretas mais eficientes de testemunhar o amor de Deus junto aos pobres e vítimas deste sistema imperial global.

IHU On-Line – Quais são as temáticas eclesiais ou teológicas que requerem uma mudança para que se dê continuidade ao espírito do Concílio Vaticano II?

Jung Mo Sung – Eu penso que uma das grandes novidades do Concílio foi tentar superar a noção de a Igreja ser ou estar “separada” do mundo que se fortalece no mundo moderno. A visão do mundo dividido em religioso e secular é uma criação do mundo moderno, pois antes tudo estava sob o “manto” do religioso; a vida em sua integralidade era explicada a partir do senso religioso. Com a emergência da modernidade e da separação entre Estado e Igreja, a secularização, surgiu o “espaço público” que ficou fora do controle ou da esfera do religioso, que ficou mais restrito ao campo da vida privada.

Uma das reações da Igreja foi a de se valorizar como uma instituição “separada” por Deus que tinha como função a salvação das almas das tentações e perigos do “mundo”; isto é, o caminho da salvação consistia em “sair” do mundo, ou pelo menos não se intrometer demasiadamente nos problemas do mundo. Por isso, a religião se via como não tendo relação com a política. E o clero, com o seu celibato, era uma expressão social visível desta teologia.

O Concílio procura superar esse dualismo Igreja/mundo, assumindo que as alegrias e esperanças do mundo também são as da Igreja e desenvolve também uma eclesiologia que procura superar a divisão interna das pessoas “separadas”, consagradas, sagradas, das pessoas comuns. E propõe uma visão da Igreja como Povo de Deus, dentro do qual todos os seus membros são iguais no Batismo, com diferentes serviços ou ministérios.

Para dar continuidade e aprofundamento neste caminho ou espírito, eu penso que é fundamental retomarmos o debate teológico em torno da Igreja como Povo de Deus a serviço do testemunho da presença do Reino de Deus no mundo. Superar a teologia da “separação”, teologia centrada na noção do sagrado. Pois, sagrado é aquilo que foi separado do mundo profano. Cristianismo não é uma religião que anuncia um novo sagrado, um sagrado mais poderoso do que outros; pelo contrário, anuncia que Deus se esvaziou do seu poder e se encarnou, entrou no mundo, na forma de um ser humano.

IHU On-Line – Passados 40 anos desde a obra seminal de Gustavo Gutiérrez, como a Teologia da Libertação deve ser compreendida hoje? De que libertação falamos no contexto contemporâneo, que não é mais o mesmo de 40 anos atrás?

Jung Mo Sung – Eu penso que é fundamental retomarmos as novidades fundamentais da Teologia da Libertação – TdL que a diferenciaram de outras teologias políticas ou progressistas da época. A principal novidade da TdL não consistiu em falar dos pobres ou da inserção política dos cristãos na sociedade, mas na sua “ruptura epistemológica”, na sua metodologia e princípios teóricos que norteiam o fazer teologia.

O primeiro elemento desta ruptura foi a relação práxis/teologia. A TdL se propôs a fazer sua reflexão teológica a partir e sobre problemas das práxis de libertação. A TdL não quis reler todos os tratados teológicos a partir dos pobres – como alguns pensam ainda hoje –, mas refletir e dar respostas e pistas de ação para perguntas que vinham das lutas diante de uma realidade tão injusta. Infelizmente, muitos dos livros considerados de TdL não explicitam qual problema ou pergunta que surge da realidade e das práticas que estão tentando elucidar.

O segundo elemento foi a ruptura com a noção de que existe uma abordagem universal ou neutra na busca da verdade ou das verdades na teologia ou em outras áreas de saber. A opção pelos pobres, além de ser uma opção que norteia a condução das práticas pastorais, é uma afirmação de que, em situações de opressão, não há um ponto de vista neutro ou universal para interpretar a realidade e a fé; e que a perspectiva bíblica é a perspectiva dos pobres ou das vítimas das relações de dominação.

Um terceiro elemento tem a ver com a noção de libertação que foi colocada na pergunta. No início da TdL, a noção de libertação era bem concreta; falava-se da libertação das relações de dependência no campo da economia política internacional e nacional. Na medida em que a TdL refletia as questões das lutas sociais, a noção de libertação era entendida de uma forma bem “encarnada”, dentro das possibilidades históricas. Com o passar do tempo, começou a predominar a noção de libertação como a passagem para um mundo “sem dominação e injustiça, um mundo de plena harmonia”. Isto é, uma noção abstrata de libertação que pressupõe a libertação de todas as contradições humanas e de todos os conflitos e problemas inerentes a todas as sociedades humanas. No fundo, a libertação passou a significar a “construção do Reino de Deus em plenitude” no interior da história. Com isso, perdeu-se a concretude histórica que se pretendeu no início da TdL com o diálogo com as ciências do social.

É claro que há outros elementos importantes nessa teologia, como a necessidade da “libertação da teologia” (a autocrítica da teologia, da Igreja, da religiosidade dos pobres, incluindo as CEBs) para que possa haver a teologia da libertação; mas o espaço aqui não permite alongar muito esse tema.
Para terminar a resposta a esta pergunta, eu penso que é importante repensarmos o próprio conceito de libertação antes de responder libertação do “quê” falamos hoje. Em outras palavras, repensar a relação entre a libertação, liberdade e a condição humana.

IHU On-Line – A partir dos debates da Jornada Teológica do Cone Sul e do Brasil, que ocorreram em junho, por onde anda a teologia hoje? Que questões centrais foram debatidas?

Jung Mo Sung – A Jornada Teológica que ocorreu em Santiago, Chile, precisa ser entendida dentro da realidade da Igreja Católica chilena. Não foi uma jornada de especialistas discutindo ou avaliando a situação da TdL hoje, mas foi um encontro que serviu mais para ser um “sinal dos tempos” na Igreja de Chile, que passa por dificuldades. Isto é, um evento que reuniu diversos setores da Igreja chilena para discutir temas que giravam fundamentalmente em torno do testemunho profético da Igreja na realidade social. Por isso, não é possível dizer por onde anda a teologia hoje a partir daquela jornada. Para interessados em mais detalhes sobre a jornada, vale a pena conferir o sítio que contém também textos discutidos lá: www.jornadasteologicas.cl.

IHU On-Line – O espaço dos leigos e leigas – especialmente mulheres – na Igreja continua sendo reduzido. A que “paradigma” esse fenômeno está associado? Que mudanças são necessárias para uma nova eclesiologia, menos clericalista?

Jung Mo Sung – Eu penso que o ponto nevrálgico na discussão de um novo modo de compreender a estrutura interna da Igreja está na articulação entre dois temas: a missão da Igreja no mundo e a tradição como parte da revelação.

Setores da Igreja Católica que reivindicam mudanças estruturais que ofereçam mais espaço de atuação e decisão para laicato (homens e mulheres) e possibilidade de ordenação das mulheres se fundamentam em dois pontos:

a) a missão da Igreja no mundo como testemunho profético capaz de questionar a sociedade e, por isso, a necessidade de adequações internas para fazer jus a este papel profético;

b) uma leitura da Bíblia que não se reduz a repetição das regras existentes no tempo bíblico, mas a que se utiliza da hermenêutica para “atualizar” o espírito da Bíblia nos dias de hoje.

Setores que se opõem a essas mudanças têm uma concepção da missão que se funda mais na “separação” do mundo ou na salvação eterna das almas, que têm pouco a ver com o testemunho profético. Além disso, esses setores costumam compreender a tradição da Igreja – incluindo aqui toda a história da conformação das estruturas institucionais e hierárquicas – como parte do processo de revelação da vontade de Deus no mundo.

Sendo assim, a modificação na relação clero/laicado e a ordenação das mulheres são vistas como contrárias à verdade revelada e guardada pelo magistério da Igreja.

Por isso, penso que a mudança eclesiológica pressupõe uma mudança na compreensão da relação entre a verdade revelada e a Igreja. O que implica em um debate teológico e mudança cultural muito interessante e difícil.

Mudanças profundas em instituições seculares como a Igreja Católica são resultados de dois movimentos: um interno, a partir de uma nova compreensão de si e da sua missão, que é fruto de uma luta interna em termos de debate teológico-ideológico e de relações força entre os grupos; e a pressão do contexto onde está localizada.

O crescimento de religiões não cristãs, como o islamismo, e principalmente de Igrejas evangélicas e pentecostais pode ser um fator de pressão para mudanças. Quando ficar mais claro que as respostas tradicionais não são capazes de fazer frente às novidades e pressões do contexto social e religioso, haverá mais espaço para mudanças desejadas por grupos internos que hoje não são hegemônicos.

IHU On-Line – Em sua opinião, qual é o espaço e a importância de uma “teologia pública”?

Jung Mo Sung – Eu penso que há dois tipos de compreensão quando se fala da “teologia pública”. O primeiro é no sentido de que a teologia e a Igreja têm ou devem ter um papel ou uma contribuição a dar na “esfera pública”. Uma visão mais ampla e mais “neutra” da teologia política ou TdL, na medida em que inclui na esfera pública a sociedade civil, além da esfera da política no sentido estrito. Eu usei o termo “neutro” para dizer que o fato de se assumir como teologia pública não conota necessariamente nenhum posicionamento ideológico ou político definido. Há autores da teologia política que são mais conservadores ou mais “liberais” (no sentido norte-americano) ou progressistas.

O segundo é a compreensão da teologia pública como uma presença pública da teologia nas universidades, dialogando com as ciências em geral. É uma forma de a teologia sair do “gueto” dos seminários ou faculdades de teologia e participar de forma amadurecida no âmbito da academia. Seria uma forma de superar a preconceito contra a teologia que surgiu após o Iluminismo.

Eu penso que esses dois tipos de compreensão da teologia pública são úteis e podem contribuir no diálogo e na inserção das igrejas cristãs na sociedade hoje. Mas “teologia pública” por si só não define suficientemente os pressupostos epistemológicos e opções éticas de cada corrente interna. Por isso, penso que é preciso adjetivar a expressão, como, por exemplo, “teologia pública neo-ortodoxa” ou “teologia pública profética”.

IHU On-Line – As novas tecnologias digitais mudaram os espaços, os tempos, os conceitos de comunidade, pertença etc. Como essa realidade se reflete (ou não) no campo teológico e pastoral?

Jung Mo Sung – A vida e os relacionamentos das pessoas e das comunidades estão marcados profundamente pela noção de tempo e espaço. Na medida em que novas tecnologias estão criando novo tipo de espaço, o espaço virtual, que permite, por exemplo, redes de relacionamentos que ultrapassam limites do espaço geográfico, elas modificam também a noção de tempo e assim a própria noção de pertença e do que é importante na vida.

Com certeza, essas modificações estão afetando a pastoral, mas ainda há poucas pesquisas e reflexões teológicas sobre isso. Como disse antes, a TdL deve se ocupar com temas e problemas que surgem das práticas pastorais sociais e, portanto, este deveria ser um tema urgente.

Deixe-me dar um pequeno exemplo como provocação para reflexões. Através de redes sociais estão surgindo comunidades virtuais de cristãos, com pessoas de diversas partes do mundo, em torno de visões teológicas ou religiosas convergentes. É claro que comunidades virtuais não possibilitam a experiência de “face a face”, que é fundamental na experiência comunitária. Todavia, elas permitem que pessoas que se sentem isoladas, seja porque vivem longe da sua comunidade de pertença original ou porque não aceitam a teologia ou a linha pastoral da sua igreja local, se vejam pertencendo ao que poderíamos chamar de versão tecnológica da “comunhão dos santos”. Há muitas pessoas que usam, por exemplo, Twitter como um “púlpito” para a divulgação de mensagens ou de pensamentos teológicos.

IHU On-Line – Em sua fala na Jornada Teológica, o senhor abordou as referências no âmbito econômico de conceitos religiosos ou teológicos como dogmatismo, fundamentalismo, sacralização do mercado, sacrifícios. O que isso revela a respeito da sociedade contemporânea?

Jung Mo Sung – Na verdade, eu citei autores fora da teologia, especialmente da área da economia e administração de empresas que usam esses termos religiosos para falar das práticas e teorias no campo econômico e das empresas. Este tipo de pesquisa e reflexão começou já na década de 1970, na TdL, com autores como Franz Hinkelammert e Hugo Assmann e eu tenho participado disso desde 1988.

A constatação do uso de termos religiosos e teológicos no campo da economia não é um acaso ou um simples uso de metáforas sem importância na economia. Este uso constante de termos e símbolos religiosos para sintetizar lógicas, práticas e cosmovisões econômicas revela que o mundo moderno não é não religioso. Pelo contrário, não se pode compreender o mundo moderno se não levar em consideração o fato de que ele se levanta contra o mundo feudal com a pregação de uma boa nova: a libertação humana pelo avanço tecnológico e econômico. Só que essa salvação, como toda religião, exige sacrifícios. A economia capitalista não nega a soteriologia da cristandade medieval, mas a modifica. Agora os sacrifícios necessários para a salvação são exigidos em nome do mercado. É por isso que os ideólogos e defensores do capitalismo se dão bem que setores conservadores das igrejas que defendem que não há salvação sem sacrifício.

Em resumo, o mundo moderno não é secularizado no sentido antirreligioso, mas é idólatra. Karl Marx e Max Weber já apontaram para esse aspecto do capitalismo.

IHU On-Line – Em sua crítica ao neoliberalismo, o senhor usa termos como “ídolo” e “idolatria”. Em que sentido?

Jung Mo Sung – Um dos conceitos teológicos fundamentais da Bíblia, se é que podemos dizer que é um conceito no sentido mais técnico, é o da idolatria. Todas as sociedades produzem deuses, que são obras de ações e interações humanas (objetos ou instituições) que são sacralizadas, e em seu nome se funda a ordem social existente e se exige sacrifícios de vidas humanas necessários para a reprodução da ordem.

Os profetas perceberam isso e desvelaram e criticaram esse processo de produção de deuses, os ídolos. Em oposição a ídolo, que se caracteriza por exigir sacrifícios de vidas humanas, a Bíblia nos apresenta Deus que não quer sacrifícios, mas misericórdia. Os seguidores de Deus misericordioso podem doar suas vidas por amor, na liberdade, mas não se sentem coagidos entregando suas vidas em sacrifício.

Um aspecto que é importante na crítica à idolatria é que o ídolo é sempre visto como deus por seus adoradores e, por isso, fascina e atrai. Quando digo que o neoliberalismo apresenta uma lógica idolátrica estou também querendo apontar para a dimensão fascinante do capitalismo global atual. Diante da fascinação, não basta criticar; é preciso desvelar o processo sacrificial para desmascarar a fascinação que cega. Nesta tarefa, a teologia tem um papel importante a cumprir na sociedade. Voltando ao tema da teologia pública, podemos dizer que a crítica pela teologia da fascinação da idolatria do mercado é um papel ou uma contribuição importante a dar no espaço público da sociedade e do debate acadêmico.

IHU On-Line – Para o senhor, a vida econômica hoje é percebida como uma religião, e o neoliberalismo, como uma nova religião econômica. É possível uma “outra economia”, justa e eticamente regulada? Sobre que parâmetros estaria assentada?

Jung Mo Sung – Uma ideia ampla como “economia justa e eticamente regulada” nos ajuda a pensar na superação da economia capitalista que conhecemos hoje. Mas, ao mesmo tempo, não é muito operacional e não oferece muitas pistas concretas para formular os pontos principais de uma “outra economia”. Isso porque entramos em uma discussão sem fim sobre o que é “justo” e “ético”; só para depois entrarmos na discussão de como ética pode regular economia.

Economia é o campo da produção e distribuição de bens materiais e simbólicos necessários para a reprodução da vida humana. Não basta que uma economia seja justa e ética – não importa aqui o que se entende por isso –, se não produz o suficiente para a reprodução da vida de toda a sociedade. Por isso, eu prefiro a proposta por Franz Hinkelammert de discutirmos em torno da “economia para a vida”. Esta expressão remete a Jo 10, 10, “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância”, e se opõe a economia capitalista que é pensada para o crescimento econômico e acumulação do capital.

Economia para a vida implica também na preservação do meio ambiente, que é condição de vida, e na vida de todas as pessoas. Aqui estamos falando de vida corporal, a única que temos e podemos cuidar de fato – pois a vida eterna é graça de Deus.

O grande desafio para quem luta por uma sociedade mais justa e humana, onde todas as pessoas tenham a oportunidade e possibilidade de ter uma vida digna e prazerosa, é responder à pergunta: como será a nova forma de coordenação da divisão social do trabalho?

Uma característica das economias não simples é o fato da fragmentação do processo produtivo. Isto é, ninguém ou nenhum grupo pequeno produz todos os bens necessários para a sua sobrevivência. Com isso, cada um faz uma parte do trabalho necessário e há a necessidade de coordenação desses trabalhos ou processos fragmentados. O comunismo propôs, como alternativa ao capitalismo, o modelo de planejamento centralizado pelo Estado. A experiência histórica nos mostrou que esse caminho é ineficiente porque é impossível conhecer de modo eficaz todos os elementos da economia para esse planejamento. O neoliberalismo propõe que o mercado seja o único ou principal instrumento de coordenação da divisão social do trabalho.

A luta por uma “economia justa” ou uma “economia para a vida” passa necessariamente por este desafio de pensarmos uma forma alternativa dessa coordenação. Propostas econômicas alternativas no âmbito de unidades produtivas (por exemplo, empresas na linha da “economia de comunhão”) ou em âmbitos microrregionais ou marginais ao mercado global (por exemplo, muitas experiências de economia solidária) são importantes e ajudam muito na vida concreta do povo. Mas, em termos de outro sistema econômico, não há como evitar o tema dessa coordenação.

A princípio, podemos dizer que há sim alternativa ao capitalismo, pois ele não é eterno, mas não será solução perfeita ou definitiva.

(Por Moisés Sbardelotto)