Arqueólogos retomam escavações em Ugarit

Desenterrando o berço do alfabeto: arqueólogos retornam após 14 anos de silêncio

Após mais de uma década de silêncio, a antiga civilização de Ugarit, outrora um dos centros comerciais mais influentes da Idade do Bronze Recente, está voltando à tona. Arqueólogos retomaram as escavações perto de Latakia, no noroeste da Síria, revelando camadas há muito enterradas de uma cidade que moldou a história cultural e linguística do mundo antigo.

Localizada a cerca de 12 quilômetros ao norte de Latakia, na atual Ras Shamra, Ugarit foi uma vibrante cidade costeira que prosperou entre 1450 e 1195 a.C. Conhecida por suas extensas redes comerciais que ligavam o Egito, a Anatólia, Chipre e a Mesopotâmia, a cidade se erguia como uma encruzilhada de comércio e cultura no antigo Oriente Médio. Os estudiosos acreditam que a destruição repentina de Ugarit por volta de 1190 a.C. foi resultado das invasões dos misteriosos povos do mar, uma coalizão que remodelou o mapa do Mediterrâneo oriental.

Retorno das escavações após 14 anos

As missões arqueológicas na Síria foram praticamente interrompidas após o início da guerra civil em 2011. Agora, após um hiato de 14 anos, uma nova equipe arqueológica conjunta ítalo-síria retomou os trabalhos de campo perto da cidade costeira. A missão é liderada pelo Prof. Lorenzo d’Alfonso, da Universidade de Pavia, Itália, um dos maiores especialistas em arqueologia e história da arte do antigo Oriente Médio.Ruínas de Ras Shamra/Ugarit

Em declarações à imprensa local, d’Alfonso confirmou que a equipe, que inclui doutorandos da Turquia e da Itália, está realizando uma escavação de um mês em Tell Semhane, um monte até então inexplorado que se acredita ter ligações com o reino ugarítico. “Estamos escavando estratos da Idade do Bronze em Tell Semhane”, disse d’Alfonso. “Nenhum trabalho arqueológico anterior foi feito aqui, o que torna esta missão particularmente significativa.”

O trabalho está sendo realizado em estreita cooperação com o Museu de Latakia e a Direção Síria de Antiguidades, com planos futuros de incluir estudantes da Universidade de Damasco.

Uma nova janela para a civilização ugarítica

Segundo Muhammad al-Hasan, chefe do Departamento de Antiguidades de Latakia, as descobertas desta temporada podem fornecer informações valiosas sobre a estrutura política e social do reino de Ugarit. O sítio arqueológico, localizado a apenas cinco quilômetros do centro de Latakia, pode ter funcionado como um assentamento satélite ligado à extensa rede econômica e administrativa de Ugarit.

Hasan enfatizou a intenção da Síria de facilitar o retorno de missões arqueológicas internacionais. “Estamos oferecendo todo o apoio possível às equipes estrangeiras que trabalham na região costeira”, disse ele. “Essas colaborações não apenas revitalizam a pesquisa científica, mas também fortalecem os laços culturais.”

(…)

Uma civilização redescoberta

A redescoberta de Ugarit não é apenas um triunfo arqueológico, mas também um ato simbólico de resiliência cultural. Outrora reduzida a cinzas por invasores estrangeiros e, mais recentemente, silenciada pela guerra, o renascimento da cidade por meio de escavações marca uma renovada valorização do patrimônio ancestral da Síria.

Enquanto pás e pincéis voltam a peneirar o solo de Ras Shamra, cada fragmento desenterrado conta uma história — de mercadores, escribas e reis que construíram um dos primeiros centros de alfabetização e comércio internacional. As novas descobertas prometem lançar luz sobre como Ugarit conectou civilizações por todo o Mediterrâneo e o Oriente Médio, lembrando ao mundo que, mesmo após milênios de silêncio, a história ainda fala.

No Observatório Bíblico, você pode ler sobre Ugarit aqui e aqui. Na Ayrton’s Biblical Page, você pode ler sobre os povos do mar aqui.

 

Unearthing the Birthplace of the Alphabet: Archaeologists Return After 14 Years of Silence

After more than a decade of silence, the ancient civilization of Ugarit, once one of the most influential trade hubs of the Late Bronze Age, is coming back into focus. Archaeologists have resumed excavations near Latakia, northwestern Syria, revealing long-buried layers of a city that shaped the cultural and linguistic history of the ancient world.

Ugarit, na região siro-feníciaLocated about 12 kilometers north of Latakia, in what is now Ras Shamra, Ugarit was a vibrant coastal city that thrived between 1450 and 1195 BCE. Known for its extensive trade networks that linked Egypt, Anatolia, Cyprus, and Mesopotamia, the city stood as a crossroads of commerce and culture in the ancient Near East. Scholars believe that Ugarit’s sudden destruction around 1190 BCE was the result of invasions by the mysterious Sea Peoples, a coalition that reshaped the map of the eastern Mediterranean.

Return of Excavations After 14 Years

Archaeological missions in Syria were largely halted following the outbreak of the civil war in 2011. Now, after a 14-year hiatus, a new joint Italian-Syrian archaeological team has resumed fieldwork near the coastal city. The mission is led by Assoc. Prof. Lorenzo d’Alfonso of the University of Pavia, Italy, a leading expert in Ancient Near Eastern archaeology and art history.

Speaking to local reporters, d’Alfonso confirmed that the team, which includes doctoral students from Türkiy and Italy, is conducting a month-long excavation at Tell Semhane, a previously unexplored mound believed to have connections with the broader Ugaritic Kingdom. “We are excavating Bronze Age layers in Tell Semhane,” said d’Alfonso. “No previous archaeological work has been done here, which makes this mission particularly significant.”

The work is being carried out in close cooperation with the Latakia Museum and the Syrian Directorate of Antiquities, with future plans to include students from Damascus University.

A New Window into Ugaritic Civilization

According to Muhammad al-Hasan, head of the Latakia Department of Antiquities, this season’s findings could provide valuable insights into the political and social structure of the Ugaritic Kingdom. The site, located just five kilometers from Latakia’s city center, may have functioned as a satellite settlement linked to Ugarit’s wider economic and administrative network.

Hasan emphasized Syria’s intention to facilitate the return of international archaeological missions. “We are providing all possible support to foreign teams working in the coastal region,” he said. “These collaborations not only revive scientific research but also strengthen cultural ties.”

The Legacy of Ugarit: Birthplace of the Alphabet

Beyond its trade importance, Ugarit holds an extraordinary place in human history: it is the birthplace of the world’s first alphabetic writing system. Discovered in 1928 among thousands of clay tablets, the Ugaritic script — written in cuneiform but using an alphabet of 30 letters — revolutionized communication and became a model for later Semitic alphabets, including Phoenician and eventually Greek and Latin.

The Ugaritic archives, found in temples and palaces, include texts written in seven languages and four scripts, such as Akkadian, Hittite, and Hurrian. These texts offer a rare glimpse into Bronze Age diplomacy, trade, religion, and daily life — documenting treaties, hymns, myths, and administrative records.

Among the most famous discoveries from Ugarit are the Baal Cycle tablets, mythological poems that describe the storm god Baal’s struggle against chaos, providing early parallels to biblical narratives.

Students Bridging Cultures Through Archaeology

Turkish Ph.D. student Adahan Güney, one of the young archaeologists on-site, expressed his excitement about participating in the excavation. “Our goal is to uncover aLocalização de Ugarit e de outros sítios arqueológicos da Idade do Bronze Recente na região siro-fenícia Bronze Age settlement in its entirety,” he said. “In Near Eastern archaeology, most projects focus on temples or palaces. Here, we have the rare opportunity to study a complete settlement context, which could transform our understanding of everyday life in the Bronze Age.”

Working in four separate excavation areas, the team has already begun identifying surface artifacts and architectural remains. “We hope that by the end of the month, we will have a clearer picture of how this community functioned within the Ugaritic sphere,” Güney added.

A Civilization Rediscovered

The rediscovery of Ugarit is not just an archaeological triumph but also a symbolic act of cultural resilience. Once reduced to ashes by foreign invaders, and more recently silenced by war, the city’s rebirth through excavation marks a renewed appreciation for Syria’s ancient heritage.

As trowels and brushes once again sift through the soil of Ras Shamra, each unearthed fragment tells a story — of merchants, scribes, and kings who built one of the earliest hubs of literacy and international trade. The new findings promise to shed light on how Ugarit connected civilizations across the Mediterranean and the Near East, reminding the world that even after millennia of silence, history still speaks.

Fonte: Arkeonews – 10 November 2025

Sexta edição do Novo Testamento Grego UBS

UNITED BIBLE SOCIETIES Greek New Testament: Sixth Revised Edition. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2025, 720 p. – ISBN 9783438053107.

O texto mais atualizado do Novo Testamento Grego, com um aparato crítico de fácil acesso.UBS Greek New Testament: Sixth Revised Edition. Stuttgart: DBG, 2025, 720 p.

Após mais de dez anos de intensa preparação, uma nova edição do Novo Testamento Grego UBS (6ª edição) está agora disponível. Ela oferece o texto grego mais atualizado, com as alterações textuais dos volumes da Editio Critica Maior (ECM) sobre os Atos dos Apóstolos (2017), o Evangelho de Marcos (2021) e o Apocalipse (2024). O texto difere da 5ª edição em mais de 100 passagens e é idêntico ao da 29ª edição do Novum Testamentum Graece (NA29), que está em preparação para 2026.

O aparato crítico inclui verbetes claramente estruturados sobre todas as principais variantes do texto. A seleção das passagens foi guiada por  sua relevância para a tradução e interpretação. A importância do chamado Textus Receptus também recebeu maior atenção em comparação com as edições anteriores. A seleção dos manuscritos concentrou-se nos testemunhos mais importantes, que agora são complementados por novos manuscritos (papiros 128 a 141).

Esta sexta edição começa com uma introdução acessível em inglês e é editada por um comitê internacional e interdenominacional, também responsável pela NA29 e que trabalha em estreita colaboração com o Institute for New Testament Textual Research: Holger Strutwolf, Hugh Houghton, Christos Karakolis, David Parker, Stephen Pisano, David Trobisch e Klaus Wacht.

Os recursos incluem:
. O texto mais atualizado do Novo Testamento Grego
. Todas as alterações textuais do aparato crítico ECM
. Todas as principais variantes textuais
. Editado por um comitê internacional e interdenominacional

Uma resenha sobre a obra pode ser acessada a partir daqui ou lida aqui.

O resenhista, Peter J. Gurry, diz no começo:

Publicado pela primeira vez em 1966, o Novo Testamento Grego da UBS completa 60 anos este ano. Há muito tempo é a edição preferida para leitura manual por seu público-alvo: tradutores, estudantes e pastores. O lançamento desta nova, sexta edição, é um evento importante no mercado editorial, especialmente por vir acompanhado de um comentário textual completamente novo. Tantas mudanças ocorreram nesta edição que ela pode ser considerada a atualização mais significativa da edição da UBS em cinquenta anos (desde que a terceira edição foi lançada em conjunto com a Nestle-Aland).

 

The most up-to-date text of the Greek New Testament with an easily accessible text-critical apparatus.

After more than ten years of intensive preparation, a new edition of the UBS Greek New Testament (6th edition) is now available. It offers the most up-to-date Greek text with the textual changes from the Editio Critica Maior volumes on the Acts of the Apostles (2017), the Gospel of Mark (2021), and Revelation (2024). The text differs from the text of the 5th edition in more than 100 places and is identical to that of the 29th edition of the Novum Testamentum Graece (NA29), which is in preparation for 2026.

The apparatus includes clearly structured entries on all major variants of the text. The selection of the passages was guided by the question of their relevance for translation and interpretation. The importance of the so-called Textus Receptus has also been given greater consideration compared to previous editions. The selection of manuscripts was focused on the most important witnesses, which are now supplemented by new manuscripts (papyri 128 to 141).

This sixth edition begins with an accessible introduction in English and is edited by an international and interdenominational committee, which is also responsible for NA29 and works closely with the Institute for New Testament Textual Research: Holger Strutwolf, Hugh Houghton, Christos Karakolis, David Parker, Stephen Pisano, David Trobisch, and Klaus Wacht.

Resources include:
. The most up-to-date text of the Greek New Testament
. All text changes from the ECM critical apparatus
. All major text variants
. Edited by an international and interdenominational committee

 

Der aktuellste Text des griechischen Neuen Testaments mit einem leicht zugänglichen textkritischen Apparat.

Nach über zehn Jahren intensiver Vorbereitung erscheint jetzt eine Neuauflage des UBS Greek New Testament (6. Auflage). Sie bietet den aktuellsten griechischen Text mit den Textänderungen der Bände der Editio Critica Maior zur Apostelgeschichte (2017), dem Markusevangelium (2021) und der Offenbarung (2025). So unterscheidet sich der Text an weit über 100 Stellen vom Text der 5. Auflage. Der Text ist identisch mit dem der 29. Auflage des Novum Testamentum Graece (“Nestle-Aland”), die für 2026 in Vorbereitung ist.

Der Apparat umfasst klar strukturierte Einträge zu allen wichtigen Varianten des Textes. Bei der Auswahl der Stellen war die Frage nach der Relevanz für Übersetzung und Auslegung des Textes leitend. Auch die Bedeutung des sog. Textus Receptus wurde gegenüber früheren Auflagen verstärkt berücksichtigt. Die Auswahl der Handschriften wurde gegenüber der 5. Auflage zum einen auf die wichtigsten Zeugen fokussiert, zum andern durch neue Handschriften (Papyri 128 bis 141) ergänzt. Eine gut lesbare Einführung (auf Englisch) führt zu der Ausgabe hin.

Insgesamt ist dieses Werk dadurch besser als je geeignet für den Einstieg in die exegetische und textkritische Arbeit am Neuen Testament in seiner Originalsprache.

Es wird von einem internationalen und interkonfessionellen Gremium herausgegeben, das auch für NA29 verantwortlich ist und eng mit dem Institut für Neutestamentliche Textforschung zusammenarbeitet: Hugh Houghton, Christos Karakolis, David Parker, Stephen Pisano, Holger Strutwolf, David Trobisch und Klaus Wachtel.

Comentário textual do Novo Testamento Grego UBS6

HOUGHTON, H. A. G. A Textual Commentary on the Greek New Testament: A Companion to the Sixth Edition of the United Bible Societies’ Greek New Testament. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2025, 648 p. – ISBN 9783438053312.

Este é um comentário sobre todas as variantes textuais apresentadas na sexta edição do Novo Testamento Grego das Sociedades Bíblicas Unidas (UBS6). Abrange cadaHOUGHTON, H. A. G. A Textual Commentary on the Greek New Testament: A Companion to the Sixth Edition of the United Bible Societies’ Greek New Testament. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2025, 648 p. unidade listada no aparato no rodapé da página, bem como as leituras no texto indicadas por colchetes. Seu objetivo é descrever as diferentes leituras em cada ponto, considerar as evidências que as sustentam e explicar por que a forma foi escolhida no texto. Em muitos casos, é dada uma indicação do motivo pelo qual a unidade de variante foi selecionada para inclusão no aparato, seja sua importância para a tradução, suas implicações teológicas ou a luz que lança sobre a transmissão textual do Novo Testamento. Assim como a própria edição, este comentário destina-se a um público de tradutores, estudantes e não especialistas. Espera-se que a versão em inglês das variantes também as torne acessíveis àqueles com conhecimento limitado do grego do Novo Testamento que encontram variantes textuais em notas de rodapé em traduções contemporâneas.

Este volume é uma continuação tanto do Textual Commentary on the Greek New Testament por Bruce M. Metzger (1971, 1994) quanto de sua versão adaptada para tradutores, o Textual Guide to the Greek New Testament por Roger L. Omanson (2006). Embora tenha sido escrito independentemente dessas obras, a fim de apresentar um novo guia baseado na pesquisa atual, o texto final foi comparado com ambas para garantir uma cobertura completa nos pontos de sobreposição. Também são indicadas outras publicações que podem ser úteis para aqueles que desejam estudar uma variante específica com mais detalhes ou explorar uma interpretação diferente dos dados. No entanto, está além do objetivo deste comentário oferecer um guia abrangente para a pesquisa em cada ponto de variante. Uma visão geral da tradição textual do Novo Testamento e dos princípios da crítica textual é fornecida na Introdução, juntamente com informações sobre o contexto da UBS6 e a criação deste comentário. Os termos técnicos também são explicados em um Glossário no final do volume.

 

This is a commentary on all the textual variations presented in the sixth edition of the United Bible Societies’ Greek New Testament (UBS6). It covers every unit listed in the apparatus at the foot of the page, as well as readings in the text indicated by square brackets. Its aim is to describe the differing readings at each point, consider the evidence in support of each and explain why the form in the editorial text has been chosen. In many cases an indication is given of the reason the variation unit was selected for inclusion in the apparatus, be that its significance for translation, its theological implications, or the light it sheds on the textual transmission of the New Testament. Like the edition itself, this commentary is intended for an audi-ence of translators, students and non-specialists. It is hoped that the English rendering of variants will also make it accessible to those with limited facility in New Testament Greek who encounter textual variation in footnotes in contemporary translations.

This volume is a successor to both the Textual Commentary on the Greek New Testament by Bruce M. Metzger (1971, 1994) and its adapted version for translators, the Textual Guide to the Greek New Testament by Roger L. Omanson (2006). Although it was written independently of these, in order to present a new guide based on current scholarship, the final text was compared with both in order to ensure full coverage in places where they overlap. Indications are also given of other publications which may be useful to those wishing to study a particular variant in more detail or to explore a differing interpretation of the data. How-ever, it is beyond the scope of this commentary to offer a comprehensive guide to scholarship at each place of variation. An overview of the textual tradition of the New Testament and the principles of textual criti-cism is provided in the Introduction, along with information on the background to UBS6 and the creation of this commentary. Technical terms are also explained in a Glossary towards the end of the volume.

 

Eine fundierte Hilfe für das Verständnis der Überlieferung des Textes des griechischen Neuen Testaments.

Diese Neuausgabe des Textual Commentary bezieht sich auf den griechischen Text der 29. Auflage des Novum Testamentum Graece (NA29) und der 6. Auflage des Greek New Testament (GNT6) und kommentiert sämtliche Apparateinträge des GNT6 in knapper und verständlicher Sprache. Die Ausgabe eignet sich auch zum Gebrauch mit NA28 und NA29, da diese Ausgaben auch alle Apparateinträge des GNT6 beinhalten (mit anderer Zeugenauswahl). In einer ausführichen Einleitung werden außerdem zentrale Informationen über die neutestamentliche Textüberlieferung, grundlegende Prinzipien der Textkritik sowie den Gebrauch des Greek New Testament gegeben.

Der Autor H.A.G. Houghton ist Mitglied des Herausgebergremiums für NA29 und GNT6 und damit hervorragend geeignet, die Entscheidungen des Gremiums bei der Erarbeitung beider Ausgaben zu erläutern.

Die Ausgabe ersetzt den Kommentar von Bruce M. Metzger, der seit Jahrzehnten als Standardwerk gilt, mittlerweile aber forschungsgeschichtlich überholt ist.

Novo Testamento Grego UBS6: Reader’s Edition

UNITED BIBLE SOCIETIES Greek New Testament (UBS6): A Reader’s Edition. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2025, 672 p. – ISBN 9783438053114.

Atenção: edição sem aparato crítico. Para a edição padrão, com aparato crítico, veja o post Sexta edição do Novo Testamento Grego UBS.UNITED BIBLE SOCIETIES Greek New Testament (UBS6): A Reader's Edition. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2025, 672 p.

A Reader’s Edition da sexta edição do Greek New Testament oferece extensos recursos de tradução para o texto grego do Novo Testamento, incluindo:
. Notas de rodapé em todas as páginas com traduções para o inglês (de acordo com o contexto imediato) de todas as palavras que ocorrem 30 vezes ou menos no grego do Novo Testamento
. Traduções de expressões idiomáticas complexas
. Análise gramatical de todas as formas verbais complexas
. Um apêndice fornece traduções para o inglês de todas as palavras que ocorrem mais de 30 vezes no grego do Novo Testamento.

Para torná-la mais acessível, a edição não inclui um aparato crítico. O texto grego é idêntico ao da sexta edição do Greek New Testament (UBS6) e à 29ª edição do Novum Testamentum Graece (NA29).

Há também uma edição em espanhol.

 

The Reader’s Edition of the sixth edition of the Greek New Testament provides extensive translation aids for the Greek New Testament text, including:
. Footnotes on every page with English translations (according to the immediate context) of all words that occur 30 times or less in the Greek New Testament
. Translations of difficult idiomatic expressions
. Grammatical analysis of all challenging verb forms
. An appendix provides English translations for all words that occur more than 30 times in the Greek New Testament.

In favour of these translation aids the edition does not include a critical apparatus. The Greek text is identical to that of the sixth edition of The Greek New Testament (UBS6) and the 29th edition of the Novum Testamentum Graece (NA29).

 

Die Reader’s Edition des UBS Greek New Testament bietet umfangreiche Übersetzungshilfen zum Text des griechischen Neuen Testaments. Diese beinhalten:
. Fußnoten auf jeder Seite mit englischen Übersetzungen aller Wörter, die 30-mal oder seltener im griechischen Neuen Testament vorkommen
. Alle Wortbedeutungen werden passend zum unmittelbaren Kontext gegeben und erleichtern so unmittelbar das Verständnis
. Übersetzung schwieriger idiomatischer Wortverbindungen
. Grammatikalische Analyse sämtlicher schwieriger Verbformen
. Im Anhang finden sich Übersetzungen aller Wörter ins Englische, die im griechischen Testament häufiger als 30-mal vorkommen.

Die Ausgabe erfreut durch ein modernes, lesefreundliches Layout und ist für alle, die sich nicht mit einer Interlinear-Ausgabe zufrieden geben wollen und über Englischkenntnisse verfügen, der ideale Einstieg in das flüssige Lesen des Neuen Testaments in seiner Originalsprache. Zugunsten der Übersetzungsmöglichkeiten verzichtet die Ausgabe auf einen textkritischen Apparat.

Der griechische Text ist identisch mit dem Text der 6. Auflage des Greek New Testament (UBS6) und der 29. Auflage des Novum Testamentum Graece (NA29).

Lendo os apócrifos e homenageando Alejandro Díez Macho

Quando preciso consultar algum apócrifo do Antigo Testamento, busco a obra de DIEZ MACHO, A.; PIÑERO, A. (eds.) Apócrifos del Antiguo Testamento I-VII. Madrid: Cristiandad, 1982-2024.

No primeiro volume, de 1984, o editor e os colaboradores da obra prestam uma homenagem a seu organizador, Alejandro Díez Macho (1916-1984), que transcrevo aqui.

 

Cuando la muerte, irrespetuosa también con las grandes figuras, sorprendió al profesor Alejandro Díez Macho, sobre la mesa de este investigador infatigable quedaban, aAlejandro Díez Macho (1916-1984) medio corregir, las pruebas de imprenta del presente volumen. El editor y los colaboradores de la serie Apócrifos del Antiguo Testamento rendimos, con dolor y admiración, un homenaje a su memoria.

Alejandro Díez Macho nació el 13 de mayo de 1916 en Villafría de la Peña (Palencia). Una vez terminados los cursos de bachillerato, profesó en la Congregación de los Misioneros del Sagrado Corazón. Posteriormente realizó estudios eclesiásticos de filosofía y teología, interrumpidos por la guerra civil española. A l término de la contienda cursó en Barcelona la carrera de Filosofía y Letras en la especialidad de Filología Semítica, con premio extraordinario en su licenciatura (1943). En 1945 defendió en Madrid su tesis doctoral, titulada Mosé lbn Ezra como poeta y preceptista.

Su labor docente se desarrolló primeramente en Barcelona como profesor ayudante (1944), encargado de cátedra (1945), adjunto por oposición de lengua y literatura hebreas y lengua y literatura árabes (1946), catedrático de lengua y literatura hebrea y rabínica (1949). De Barcelona pasó a Madrid, en 1973, como catedrático de lengua y literatura hebreas en la Universidad Complutense.

Un hecho determinante en la vida del profesor Díez Macho fue, en 1949, su inclusión en el proyecto de edición de la Biblia Políglota Matritense, en el que se le encomendó la sección aramea. Este empeño fue acogido con entusiasmo por el joven catedrático, quien visitó inmediatamente varias bibliotecas en busca de manuscritos: Vaticana, Casanatense y Angélica de Roma, Palatina de Parma, Bodleyana de Oxford y Universitaria de Cambridge. Sería prolijo dar cuenta de los numerosos viajes que le llevaron a registrar bibliotecas y archivos de Europa y América con el fin de reunir materiales y cotejar textos.

En 1951 entró en contacto con el insigne aramaísta Paul E. Kahle, a quien consideró siempre como su maestro y con quien trabajó en diversas ocasiones. Enviado por el cardenal Mercati, prefecto de la Biblioteca Vaticana, estudió durante dos años (1953-1955) los manuscritos hebreos y árameos que se conservan en el Seminario Teológico Judío de Nueva York. Durante este período cambió impresiones con numerosos orientalistas de los Estados Unidos y pronunció conferencias en este país. Fruto de aquella intensa búsqueda fue la gran filmoteca de manuscritos árameos reunida por Díez Macho, que ha sido durante largo tiempo la colección más rica y selecta, hoy superada por la del Departamento de Manuscritos Hebreos de la Universidad de Jerusalén.

Un acontecimiento decisivo en la trayectoria científica del maestro cuya desaparición lamentamos fue el descubrimiento, en la Biblioteca Vaticana (1956), del manuscrito Neofiti 1, que contenía el Targum Palestinense dado por perdido desde el siglo XVI. La identificación de este manuscrito, erróneamente catalogado en dicha Biblioteca, el posterior estudio de su antigüedad y relación con los demás targumes y, por fin, su publicación en seis espléndidos volúmenes son méritos suficientes para asegurar un puesto perdurable entre los estudiosos de la Biblia. En esta línea se sitúa la edición de otros fragmentos del Targum Palestinense al Pentateuco y a los Profetas, así como el descubrimiento de manuscritos fundamentales para el Targum de Onqelos.

A su actividad en el campo de la Biblia aramea se añade su preocupación por la investigación bíblica en general. En este ámbito, el profesor Díez Macho, junto con el doctor Sebastián Bartina, dirigió la Enciclopedia de la Biblia, en seis volúmenes (Barcelona 1963-1966), en la que colaboran 306 especialistas y que ha sido traducida al italiano. También dirigió la edición de la Biblia conocida popularmente como La Biblia más bella del mundo (Buenos Aires, 7 vols.), traducción de los textos originales con comentario, para la que redactó además la mayor parte de las introducciones.

DIEZ MACHO, A.; PIÑERO, A. (eds.) Apócrifos del Antiguo Testamento I-VII. Madrid: Cristiandad, 1982-2024.Con ser mucho el peso específico de esta labor científica, lo más sorprendente es que ha sido realizada por una persona gravemente enferma durante largos años de su vida. Su calvario comenzó en 1945, cuando se hizo necesario extirparle un riñon, y se prolongó hasta el final. Dieciséis intervenciones quirúrgicas y, en 1983, la extirpación del otro riñon. A pesar de la servidumbre impuesta por la diálisis, este hombre, tenaz y siempre optimista, encontraba el modo de proseguir sus trabajos de investigación. En enero de 1984 se le efectuó con éxito un trasplante. Pero el éxito duró poco. El estado general del enfermo se fue agravando inexorablemente hasta el 6 de octubre, fecha en que se produjo su muerte.

Además de hombre de ciencia, el profesor Alejandro Díez Macho ha sido profundamente humano y religioso. Sus incontables alumnos hablan de la inmensa dedicación con que «el maestro» los atendía y acompañaba en la aventura de la investigación. Las muchas personas que lo han conocido de cerca saben de su entrega, como cristiano y sacerdote, a la contemplación y al servicio. Los amigos damos fe de que siempre fue un hombre cercano, delicado, humilde, fiel y, sobre todo, bueno.

Tenía, cuando murió, sobre su mesa las pruebas de este volumen. El no está ya con nosotros, pero nos deja trazado el camino que debemos recorrer en la continuación de esta serie de Apócrifos del Antiguo Testamento. Por eso, en los volúmenes restantes seguirá figurando como director de una obra que proyectó personalmente, para la que eligió sus colaboradores y en la que puso una gran dosis de entusiasmo y sabiduría.

El profesor Alejandro Díez Macho será, sin duda, faro orientador para quienes navegan por los mares de la Biblia y de las letras antiguas (El Editor y los Colaboradores, Apócrifos del Antiguo Testamento I, p. 7-9: In Memoriam).

Richard A. Horsley e a revolução social do profeta Jesus

Em meu artigo sobre a Leitura sociológica da Bíblia, publicado na Ayrton’s Biblical Page em 2022, apresentei Richard A. Horsley e indiquei algumas de suas publicações.

Agora descobri mais alguns livros do autor, publicados de 2022 para cá. Por isso, esta postagem, onde repito o que está no artigo e acrescento as publicações mais recentes.

O norte-americano Richard A. Horsley faz uso extensivo de métodos marxistas e materiais arqueológicos para reconstruir a situação socioeconômica da época de Jesus. Ele mostra que embora os romanos tenham imposto um modo de produção escravista em algumas cidades, o modelo geral ainda era um modo de produção tributário, com a cobrança de tributos exorbitantes aos camponeses. Assim, além dos impostos romanos, os governantes locais, como os reis herodianos e os sacerdotes de Jerusalém, exigiam seus próprios impostos do povo, enquanto tentavam bajular e imitar Roma.Richard A. Horsley (1939-)

A resistência tomou a forma de resistência camponesa, sabotagem, movimentos proféticos e messiânicos, escritos de escribas, contraterrorismo e revoltas. Neste contexto da Palestina do século I se insere a pregação profética de Jesus de Nazaré.

Como uma crítica política do Império Romano, Jesus circulou pelas aldeias da Palestina propondo a ideia do reino de Deus aos camponeses pobres de seu tempo para restabelecer uma comunidade de aliança, nos moldes da conhecida pregação profética. Uma empreitada, entretanto, que só poderia ter sucesso se partisse da conscientização da situação de opressão em que viviam. Segundo Horsley, tal proposta pode ser identificada na Q (=Quelle) e no evangelho de Marcos.

Muitos são os escritos de Richard A. Horsley ou as obras editadas por ele. Limito-me a citar algumas publicações entre os anos de 1985 e 2025. Umas poucas estão traduzidas para o português.

Bandits, Prophets, and Messiahs: Popular Movements in the Time of Jesus. New York: Harper Collins, 1985. Em português: Bandidos, Profetas e Messias: movimentos populares no tempo de Jesus. São Paulo: Paulus, 1997 [5. reimpressão: 2022].

Jesus and Spiral of Violence: Popular Jewish Resistance in Roman Palestine. Minneapolis: Augsburg Fortress, 1993. Em português: Jesus e a espiral da violência: resistência judaica popular na Palestina Romana. São Paulo: Paulus, 2010.

Archaeology, History, and Society in Galilee: The Social Context of Jesus and the Rabbis. Philadelphia: Trinity Press International, 1996. Em português: Arqueologia, História e Sociedade na Galileia: o contexto social de Jesus e dos Rabis. São Paulo: Paulus, 2000 [2. reimpressão: 2017].

Paul and Empire: Religion and Power in Roman Imperial Society. Philadelphia: Trinity Press International, 1997. Em português: Paulo e o Império: religião e poder na sociedade imperial romana. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2018.

Jesus and Empire: The Kingdom of God and the New World Disorder. Minneapolis: Augsburg Fortress, 2003. Em português: Jesus e o Império: o reino de Deus e a nova desordem mundial. São Paulo: Paulus, 2004.

The Liberation of Christmas: The Infancy Narratives in Social Context. Eugene, OR: ‎ Wipf & Stock, 2006.HORSLEY, R. A. The Pharisees, Jesus, and the Politics of Roman Palestine, Vol. 1. Eugene, OR:‎ Cascade Books, 2025.

Jesus and the Powers: Conflict, Covenant, and the Hope of the Poor. Minneapolis: Fortress Press, 2010.

The Prophet Jesus and the Renewal of Israel: Moving Beyond a Diversionary Debate. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2012.

Jesus and the Politics of Roman Palestine. Columbia: University of South Carolina Press, 2014.

You Shall Not Bow Down and Serve Them: The Political Economic Projects of Jesus and Paul. Eugene, OR: Cascade Books, 2021.

Empowering the People: Jesus, Healing, and Exorcism. Eugene, OR:‎ Cascade Books, 2022.

The Pharisees and the Temple-State of Judea. Eugene, OR:‎ Cascade Books, 2022.

Politics, Conflict, and Movements in First-Century Palestine. Eugene, OR:‎ Cascade Books, 2023.

Galileans under Jerusalem and Roman Rule. Eugene, OR:‎ Cascade Books, 2024.

The Pharisees, Jesus, and the Politics of Roman Palestine, Volume 1: Pharisees and Scribes in the Politics of Roman Palestine. Eugene, OR:‎ Cascade Books, 2025.

The Pharisees, Jesus, and the Politics of Roman Palestine, Volume 2: Jesus and the Pharisees in the Politics of Roman Palestine. Eugene, OR:‎ Cascade Books, 2025.

 

Sobre Richard A. Horsley podem ser lidos:

BOER, R. Twenty-five Years of Marxist Biblical Criticism. Currents in Biblical Research 5.3, p. 298-321, 2007.

RIBEIRO JÚNIOR, J. C. N. Jesus, a Galileia e o Império: protesto e ação contra a desordem mundial ontem e hoje: entrevista com Richard HorsleyREVER, junho de 2009, p. 143-152.

SOUZA, D. R. de. Richard Horsley. Post publicado no blog Bíblico Teológico em 21.07.2014.

Vidas dos profetas: Jeremias

Ὀνόματα προφητῶν καὶ πόθεν εἰσὶ καὶ ποῦ ἀπέθανον καὶ πῶς καὶ ποῦ κεῖνται
Nomes dos profetas e de onde eles vêm, onde morreram e como e onde estão enterrados

Vitae prophetarum: Vidas dos profetas

A tradução em espanhol do pseudepígrafo Vitae prophetarum está no II volume, de 1983, p. 513-525, da obra de DIEZ MACHO, A.; PIÑERO, A. (eds.) Apócrifos del Antiguo Testamento I-VII. Madrid: Cristiandad, 1982-2024. A tradução, do original, é de N. Fernández Marcos.

O Vitae prophetarum é um dos poucos exemplos sobreviventes de hagiografia judaica antiga, mas a obra que temos está apenas em manuscritos cristãos. Ele narra, emDIEZ MACHO, A.; PIÑERO, A. (eds.) Apócrifos del Antiguo Testamento I-V. Madrid: Cristiandad, 1982-1987. um estilo conciso e popular, os principais aspectos da vida e dos feitos de cada profeta. Em alguns casos, esses esboços biográficos são extraídos de material fornecido pelos livros bíblicos, complementados com elementos lendários. Em outros, incorporam tradições que complementam as da Bíblia, mas que encontram eco em outras obras pseudepígrafas e até mesmo na literatura rabínica. Isso é especialmente verdadeiro nas narrativas de tortura, nas quais o autor parece dar ênfase particular a esse material suplementar não encontrado na Bíblia.

Embora tenha chegado até nós em mais de quatro recensões gregas, esta coleção parece ter se originado de um único texto antigo composto em grego por um autor da Palestina. Apesar de algumas interpolações cristãs facilmente detectáveis, o material original é fundamentalmente judaico. Os estudiosos concordam neste ponto. O autor, a julgar pelo seu conhecimento de Jerusalém e da Palestina, e pelos numerosos detalhes geográficos e tradições que inclui, teria sido um judeu da Palestina no século I d.C. Apenas a vida de Jeremias, que se desenrola num contexto egípcio, provavelmente se origina em Alexandria e foi posteriormente incorporada pelo editor à coleção final.

A recensão aqui traduzida, transmitida pelo Codex Marchalianus, e aparentemente a mais antiga, consiste em vinte e três narrativas e apresenta certa semelhança formal com as coleções alfabéticas dos Apophthegmata Patrum.

Os quatro profetas maiores (Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel) aparecem primeiro, com um relato consideravelmente mais longo do que os demais (a vida de Daniel, a mais longa, compreende vinte e dois versículos). Em seguida, vêm os doze profetas menores. A estes seguem-se as vidas de Natã, Aías, Joed (identificado com o profeta anônimo de 1 Reis 13), Azarias (filho de Oded; cf. 2 Crônicas 15,1-12), Zacarias (filho de Joiada; cf. 2 Crônicas 24,20-22), Elias e Eliseu.

Com exceção dos quatro primeiros, os demais contêm pouca informação além daquela indicada no título: nome, local de origem, morte e local de sepultamento (a biografia de Joel, a mais curta, consiste em apenas um versículo). Abundam nomes de lugares, muitos dos quais não foram identificados.

O título completo da coleção é “Nomes dos profetas e de onde eles vêm, onde morreram e como e onde estão enterrados” (Ὀνόματα προφητῶν καὶ πόθεν εἰσὶ καὶ ποῦ ἀπέθανον καὶ πῶς καὶ ποῦ κεῖνται).

As origens desta composição devem ser compreendidas como envolvendo várias etapas de transmissão oral antes ou por volta do século I d.C. Como consequência dessa transmissão, e a julgar pelo que ocorreu em coleções com uma pré-história semelhante, o texto foi preservado em várias recensões, sendo quatro as principais:

. A primeira é atribuída a Epifânio de Salamina e encontra-se no Codex Parisinus Graecus 1115, copiado em 1276. Está na Bibliothèque Nationale, em Paris.
. A segunda, também atribuída a Epifânio e mais curta que a primeira, encontra-se em alguns minúsculos. O Codex Coislinianus 120 ou Codex Coisl. 120, do século X, é o principal representante da recensão curta atribuída a Epifânio. Está na Bibliothèque Nationale, em Paris, e é parte do Fonds Coislin.
. Uma terceira recensão, o Codex Vindobonensis Theologicus Graecus 40, do século XIII, foi atribuída a Doroteu de Tiro ou Antioquia e sofreu diversas revisões ao longo dos séculos. Está na Biblioteca Nacional da Áustria, em Viena.
. Finalmente, a quarta, anônima, está preservada no Codex Marchalianus (Q), Codex Vaticanus Graecus 2125, do século VI d.C. Contém um texto em grande parte livre de interpolações posteriores, e é o testemunho grego mais antigo. Constitui a base da edição de C. C. Torrey. Está na Biblioteca Apostólica Vaticana, Roma.

Início de Vitae prophetarum no Codex Vindobonensis Theologicus Graecus 40, do século XIII, atribuído a Doroteu de Tiro ou Antioquia. Biblioteca Nacional da Áustria, em Viena.A tradução de N. Fernández Marcos segue o texto de TORREY, C. C. The Lives of the Prophets: Greek Text and Translation. Philadelphia: SBL, 1946, mas leva em consideração as outras três recensões.

Há também versões em siríaco, armênio, etíope, latim e árabe.

 

Jeremias

1 Era de Anatot y murió en Tafne de Egipto, apedreado por el pue­blo. 2 Está enterrado en el lugar que habitó el faraón. Los egipcios le hon­raron porque les había hecho mucho bien. 3 Por su súplica, las serpientes que los egipcios llaman efot* los abandonaron. 4 Y todos los fieles de Dios, hasta el día de hoy, van a orar a dicho lugar y curan las mordeduras de serpiente con polvo del lugar. 5 Mas nosotros sabemos por los hijos de Antígono y Tolomeo, que ya eran ancianos, que Alejandro de Macedonia, cuando estuvo en el sepulcro del profeta y conoció sus obras maravillosas, trasladó sus restos a Alejandría y los colocó alrededor en círculo. 6 Hizo desaparecer de la tierra la estirpe de las serpientes y, de igual forma, in­trodujo las serpientes llamadas argolas**, es decir, combateserpientes.

7 Este Jeremías dio un signo a los sacerdotes egipcios: «Que sus ído­los iban a conmoverse y todas sus figuras iban a derribarse cuando llegara a Egipto una virgen recién parida con un niño de apariencia divina». 8 Por eso veneran hasta ahora a una virgen y adoran a un niño colocándolo en un pesebre***. Y al rey Tolomeo, que quería saber los motivos, le dijeron que era un secreto recibido de los antepasados por medio del santo profe­ta. Les fue confiado a nuestros padres, y nosotros, dicen, estamos espe­rando el cumplimiento de su secreto.

9 Este profeta, antes de la conquista del templo, arrebató el arca de la ley con todo lo que contenía y consiguió empotrarla en piedra, mientras decía a los que estaban presentes: 10 «El Señor se ha marchado del Sinaí al cielo y vendrá de nuevo con poder y os servirá como señal de su venida cuando todos los pueblos adoren a un árbol» . 11 Y añadió: «Nadie es capaz de extraer esta arca fuera de Aarón, y ya ninguno de los sacerdotes o pro­fetas puede extender sus tablas fuera de Moisés, el elegido de Dios».

12 En la resurrección resucitará el arca la primera, saldrá fuera de la piedra y será colocada en el monte Sinaí. Todos los santos se congregarán allí junto a ella para recibir al Señor y huyendo del enemigo que quiere acabar con ellos. 13 Hizo con el dedo el sello del nombre de Dios en la roca, y el cuño se convirtió en un grabado de hierro. Una nube cubrió el nombre, y nadie sabe el lugar ni es capaz de leerlo hasta el día de hoy e incluso hasta la consumación.

14 La roca se halla en el desierto, donde por primera vez estuvo el arca, en medio de las dos montañas en las que están enterrados Moisés y Aarón. Por la noche, una nube se vuelve como fuego conforme a la primi­tiva prescripción de que no faltaría de su ley la Gloria de Dios. 15 Dios concedió a Jeremías el favor de que él, en persona, diera cumplimiento a su secreto con el fin de que pudiera asociarse a Moisés. Y juntos están hasta el día de hoy.

 

Notas

* efot: Plural de la palabra hebrea ‘ef’a = «serpiente, víbora».

** serpientes… argolas: Todos los manuscritos añaden detrás del serpientes pri­mero: καΐ έκ του πόταμου ωσαύτως τους κροκοδείλους = «así como los cocodrilos del río». Igualmente, detrás de combateserpientes los manuscritos añaden una nota que intenta explicar la etimología de argolas, a saber: «que trajo de Argos, en el Peloponeso; de ahí que se llamen ‘argolas’, es decir, a la derecha de Argos. Pues llaman siniestro a todo lo izquierdo». En realidad, ἀργόλαι procede de la palabra hebrea hargol = «langosta». Cuando el verdadero signifi­cado de ἀργόλαι ya no se conocía, surgiría la leyenda de que fueron impor­tadas de Argos.

*** Estos versículos contienen, al parecer, claras alusiones cristianas: la virgen y un niño al que adoran colocándolo en un pesebre (v. 8), y “cuando todos los puEz 1,28-2,6 no Codex Marchalianus (Q), Codex Vaticanus Graecus 2125, do século VI d.C. eblos adoren a un árbol” (ξύλον = «árbol de la cruz», v. 11).

 

Texto grego online

Estes, Douglas, with David M. Miller, ed., “Lives of the Prophets.” Edition 2.0. No pages. In The Online Critical Pseudepigrapha. Edited by Ian W. Scott, Ken M. Penner, and David M. Miller. Atlanta: Society of Biblical Literature, 2007.

 

Ὀνόματα προφητῶν καὶ πόθεν εἰσὶ καὶ ποῦ ἀπέθανον καὶ πῶς καὶ ποῦ κεῖνται.

Ἱερεμίας

1 ἦν ἐξ Ἀναθὼθ καὶ ἐν Τάφναις Αἰγύπτου λίθοις βληθεὶς ὑπὸ τοῦ λαοῦ ἀποθνήσκει. 2 κεῖται δὲ ἐν τῷ τόπῳ τῆς οἰκήσεως Φαραώ, ὅτι οἱ Αἰγύπτιοι ἐδόξασαν αὐτὸν εὐεργετηθέντες δι᾽ αὐτοῦ. 3 ηὔξατο γὰρ καὶ αἱ ἀσπίδες αὐτοὺς ἔασαν, (ἅς) καλοῦσιν οἱ Αἰγύπτιοι ἐφώθ. 4 καὶ ὅσοι εἰσὶ πιστοὶ θεοῦ ἕως σήμερον εὔχονται ἐν τῷ τόπῳ καὶ λαμβάνοντες τοῦ χοὸς τοῦ τόπου δήγματα ἀσπίδων θεραπεύουσι. 5 ἡμεῖς δὲ ἠκούσαμεν ἐκ τῶν παίδων Ἀντιγόνου καὶ Ρτολεμαίου γερόντων ἀνδρῶν, ὅτι Ἀλέξάνδρος ὁ Μακεδὼν ἐπιστὰς τῷ τόπῳ τοῦ προφήτου καὶ ἐπιγνοὺς αὐτοῦ τὰ μυστήρια εἰς Ἀλεξάνδρειαν μετέστησεν αὐτοῦ τὰ λείψανα, περιθεὶς αὐτὰ ἐνδόξως κύκλῳ· 6 καὶ ἐκωλύθη ἐκ τῆς γῆς τὸ γένος τῶν ἀσπίδων, καὶ οὕτως ἐνέβαλεν τοὺς ὄφεις τοὺς λεγομένους ἀργόλας, ὅ ἐστίν ὀφιομάχους.

7 Οὗτος ὁ Ἱερεμίας σημεῖον δέδωκε τοῖς ἱερεῦσιν Αἰγύπτου, ὅτι δεῖ σεισθῆναι τὰ εἴδωλα αὐτῶν καὶ συμπεσεῖν τὰ χειροποίητα πάντα ὅταν ἐπιβῇ ἐν Αἰγύπτῳ παρθένος λοχεύουσα σὺν βρέφει θεοειδεῖ. 8 δι᾽ ὃ καὶ ἕως νῦν τιμῶσι παρθένον λοχὸν καὶ βρέφος ἐν φάτνῃ τιθέντες προσκυνοῦσι, καὶ Πτολεμαίῳ τῷ βασιλεῖ τὴν αἰτίαν πυνθανομένῳ ἔλεγον, ὅτι πατροπαράδοτόν ἐστι μυστήριον ὑπὸ ὁσίου προφήτου, τοῖς πατρᾶσιν ἡμῶν παραδοθέν, καὶ ἐκδεχόμεθα τὸ πέρας, φησίν, τοῦ μυστηρίου αὐτοῦ.

9 Οὗτος ὁ προφήτης πρὸ τῆς ἁλώσεως τοῦ ναοῦ ἥρπαξε τὴν κιβωτὸν τοῦ νόμου καὶ τὰ ἐν αὐτῇ καὶ ἐποίησεν αὐτὰ καταποθῆναι ἐν πέτρᾳ, καὶ εἶπε τοῖς παρεστῶσιν· 10 Ἀπεδήμησεν κύριος ἐκ Σινᾶ εἰς οὐρανὸν καὶ πάλιν ἐλεύσεται ἐν δυνάμει, καὶ σημεῖον ὑμῖν ἔσται τῆς παρουσίας αὐτοῦ, ὅτε ξύλον πάντα τὰ ἔθνη προσκυνοῦσιν. 11 εἶπεν δὲ ὅτι τὴν κιβωτὸν ταύτην οὐδεὶς ἐκβάλλει εἰ μὴ Ἀαρών, καὶ τὰς ἐν αὐτῷ πλάκας οὐδεὶς ἀναπτύξει οὐκέτι ἱερέων ἢ προφητῶν εἰ μὴ Μωϋσὴς ὁ ἐκλεκτὸς τοῦ Θεοῦ. 12 καὶ ἐν τῇ ἀναστάσει πρώτη ἡ κιβωτὸς ἀναστήσεται καὶ ἐξελεύσεται ἐκ τῆς πέτρας καὶ τεθήσεται ἐν ὄρει Σινᾶ, καὶ πάντες οἱ ἅγιοι πρὸς αὐτὴν συναχθήσονται ἐκεῖ ἐκδεχόμενοι κύριον καὶ τὸν ἐχθρὸν φεύγοντες ἀνελεῖν αὐτοὺς θέλοντα.

13 Ἐν τῇ πέτρᾳ ἐσφράγισε τῷ δακτύλῳ τὸ ὄνομα τοῦ Θεοῦ καὶ γέγονεν ὁ τύπος ὡς γλυφὴ σιδήρου, καὶ νεφέλη ἐσκέπασε τὸ ὄνομα καὶ οὐδεὶς νοεῖ τὸν τόπον οὔτε ἀναγνῶναι αὐτὸν ἕως σήμερον καὶ ἕως συντελείας. 14 καὶ ἔστιν ἡ πέτρα ἐν τῇ ἐρήμῳ, ὅπου πρώτως ἡ κιβωτὸς γέγονε μεταξὺ τῶν δύο ὀρέων, ἐν οἷς κεῖνται Μωϋσὴς καὶ Ἀαρών, καὶ ἐν νυκτὶ νεφέλη ὡς πῦρ γίνεται κατὰ τὸν τύπον τὸν ἀρχαῖον, ὅτι οὐ μὴ παύσηται ἡ δόξα τοῦ θεοῦ ἐκ τοῦ νόμου αὐτοῦ. 15 καὶ ἔδωκεν ὁ θεὸς τῷ Ἱερεμίᾳ χάριν, ἵνα τὸ τέλος τοῦ μυστηρίου αὐτοῦ αὐτὸς ποιήσειεν, ἵνα γένηται συνκοινωνὸς Μωϋσέως, καὶ ὁμοῦ εἰσὶν ἕως σήμερον.

 

Bibliografia

ALVES, L. M. Vida dos Profetas. Artigo publicado em Círculo de Cultura Bíblica, em 05.06.2023 (online)

DIEZ MACHO, A.; PIÑERO, A. (eds.) Apócrifos del Antiguo Testamento I-VII. Madrid: Cristiandad, 1982-2024.

KAISER, U. U. Vitae Prophetarum. Das wissenschaftliche Bibellexikon im Internet (WiBiLex), 2017 (online)

Lives of the Prophets. Texto grego (de C. C. Torrey) publicado em The Online Critical Pseudepigrapha (online)

SCHERMANN, T. Prophetarum Vitae Fabulosae. Leipzig, 1907, Reprint: Berlin: Walter de Gruyter, 2010 (online)

SCHWEMER, A. M. Vitae Prophetarum. Gütersloh: Gütersloher Verlagshaus,1997.

TORREY, C. C. The Lives of the Prophets: Greek Text and Translation. Philadelphia: SBL, 1946 (online)

WIKIPEDIA, Lives of the Prophets (online)

Entendendo a Bíblia Hebraica

BARTON, J. (ed.) Understanding the Hebrew Bible: Essays by Members of the Society for Old Testament Study. Oxford: Oxford University Press, 2025, 448 p. – ISBN 9780192845788.

Este é o mais recente de uma série de volumes, publicados aproximadamente a cada vinte e cinco anos desde 1924, que examinam o estado atual do estudo acadêmicoBARTON, J. (ed.) Understanding the Hebrew Bible: Essays by Members of the Society for Old Testament Study. Oxford: Oxford University Press, 2025, 448 p. do Antigo Testamento — mais frequentemente chamado de Bíblia Hebraica em contextos acadêmicos. É escrito por membros proeminentes da Society for Old Testament Study, a organização profissional para estudiosos dessa área no Reino Unido e na Irlanda, mas também com membros internacionais, alguns dos quais contribuíram para o volume. Ele oferece a acadêmicos, estudantes da Bíblia, clérigos e rabinos, e leitores em geral interessados, um panorama das principais abordagens e questões no estudo da Bíblia Hebraica desde (aproximadamente) o ano 2000.

Há capítulos sobre livros bíblicos específicos em seu contexto antigo, agrupados principalmente por gênero, mas também sobre aspectos metodológicos dos estudos bíblicos na atualidade, incluindo perspectivas interdisciplinares e questões contemporâneas, como a Bíblia em perspectivas sociológicas, teológicas, históricas, arqueológicas, literárias e linguísticas, e a influência de preocupações com gênero, raça, cultura visual e psicologia. Um interesse recente em particular é representado por um capítulo sobre a história da recepção da Bíblia Hebraica nas artes visuais, na música e na literatura (incluindo teatro e cinema). A preocupação geral é sintetizar as correntes contemporâneas de interpretação, em vez de apresentar as visões pessoais dos autores, mas também sugerir como o estudo bíblico pode ou deve se desenvolver nessas áreas. Assim como nos volumes anteriores, o que se oferece é uma visão da erudição global a partir das ilhas britânicas, que será útil para estudiosos sérios da Bíblia Hebraica em todo o mundo. Além de descreverem seus campos de estudo, os autores também fornecem bibliografias substanciais, direcionando os leitores a outras discussões modernas.

John Barton é professor emérito de Interpretação das Sagradas Escrituras da Universidade de Oxford, e pesquisador sênior, Campion Hall, Oxford, Reino Unido.

 

This is the latest in a series of volumes, published about every twenty-five years since 1924, surveying the current state of the academic study of the Old Testament–more often called the Hebrew Bible in scholarly contexts. It is written by leading members of the Society for Old Testament Study, the professional organization for scholars in that field in the UK and Ireland, but with international members too, some of whom have contributed to the volume. It provides academics, students of the Bible, clergy and rabbis, and intelligent general readers, with a snapshot of the main approaches and issues in the study of the Hebrew Bible since (approximately) the year 2000.

John Barton (1948-)There are chapters on specific biblical books in their ancient context, grouped mainly by genre, but also on methodological aspects of biblical studies today, including interdisciplinary perspectives and contemporary questions, such as the Bible in sociological, theological, historical, archaeological, literary, and linguistic perspectives, and the influence of concerns about gender, race, visual culture, and psychology. A particular recent interest is represented by a chapter on the reception history of the Hebrew Bible in the visual arts, music, and literature (including drama and film). The concern throughout, is to encapsulate contemporary currents in interpretation, rather than to put forward the contributors’ personal views, but also to suggest how biblical study may or should develop next in these areas. As with previous volumes, what is provided is a view of global scholarship as seen from these islands that will be useful to serious students of the Hebrew Bible throughout the world. As well as describing their field, the contributors also provide substantial bibliographies pointing readers to other modern discussions.

John Barton is Emeritus Oriel & Laing Professor of the Interpretation of Holy Scripture at the University of Oxford and Senior Research Fellow at Campion Hall, Oxford. Previously, he was Junior Research Fellow at Merton College, University Lecturer in Theology (Old Testament), Reader in Biblical Studies, and Fellow and Vice-Master of St Cross College. He is Corresponding Fellow of the Norwegian Academy, Fellow of the European Academy, and Former President of the Society for Old Testament Study. Professor Barton was Delegate of the Oxford University Press from 2005 to 2015.

A III dinastia de Ur 2

Estou lendo mais um livro do assiriólogo italiano Mario Liverani:

LIVERANI, M. Antico Oriente: storia, società, economia. Nuova edizione aggiornata. Roma-Bari: Laterza, 2011 [IX rist. 2024], 912 p. – ISBN 9788842095880.LIVERANI, M. Antico Oriente: storia, società, economia. Nuova edizione aggiornata. Roma-Bari: Laterza, 2011 [IX rist. 2024], 912 p.

Leio o original em italiano, mas comparo, de vez em quando, com as versões em inglês e português.

Estas são notas de leitura do capítulo 9: A III dinastia de Ur [L’età neo-sumerica] da segunda parte do livro: A Idade do Bronze Antigo [L’antica età del bronzo]

Este capítulo tem 5 seções, que serão publicadas em 2 posts:

Post 1

1. O “renascimento sumério” [1. La “rinascita sumerica”]

2. A formação e a estrutura do império de Ur III [2. L’impero di Ur III: costituzione e organizzazione]

Post 2

3. Administração e economia [3. L’amministrazione e l’economia]

4. A tradição dos escribas [4. La cultura scribale]

5. A periferia do império [5. La periferia dell’impero]

Reestruturei o texto em formato de perguntas e respostas.

 

3. Administração e economia

A Baixa Mesopotâmia prosperou durante a III dinastia de Ur?
O Antigo Oriente Médio durante a segunda metade do terceiro milênio a.C. (Períodos Protodinástico III, Akkad e Ur III). Apesar da turbulência nas áreas periféricas, a Baixa Mesopotâmia entre a “muralha do país” (ou “muralha de Martu”) e o Golfo Pérsico desfrutou de um período de grande prosperidade sob a III dinastia de Ur. As destruições acádias e os ataques externos mais recentes deixaram suas marcas, e o padrão de assentamento estabelecido no início de Ur III (e que persistiria por todo o período paleobabilônico) difere um pouco daquele do Protodinástico II-III e de Akkad. Como característica estrutural, há uma clara crise nos assentamentos menores, por duas razões concomitantes. Incursões externas, sejam amoritas ou gútias, afetaram mais as aldeias indefesas do que as cidades muradas e levaram a um movimento de concentração populacional nos centros urbanos. Além disso, a propriedade e a gestão da terra deslocaram-se acentuadamente para o centro do templo, não mais sustentadas pelo trabalho de aldeões “livres”, mas sim por um estrato de assalariados sem propriedade que também gravitavam em direção às cidades. No geral, porém, a população cresceu e parece ter atingido seu pico histórico ao longo da antiguidade pré-clássica.

Verifica-se grande atividade construtiva sob Ur-Nammu e sucessores?
. Entre as cidades, algumas que estavam entre as maiores no Protodinástico estavam agora em declínio total, especialmente no sul (Eridu, Uruk, Shuruppak); outras estavam crescendo (Umma, Larsa, Isin), enquanto outras emergiam como centros administrativos de algum tamanho (Babilônia e outras cidades do norte). O centro de gravidade deslocou-se para o norte, e a situação entre as duas áreas da Suméria e de Akkad estava agora equilibrada — como a titularidade real prontamente reconhece. A abertura de novos canais, favorecendo algumas rotas em detrimento de outras, fez com que as pessoas migrassem para o oeste, acompanhando o deslocamento milenar do Eufrates nessa direção. Essa impressionante reestruturação urbana e hidrológica se reflete na documentação escrita, que registra inúmeros projetos de construção de templos, muralhas e canais. A atividade construtiva de Ur-Nammu e seus sucessores afetou diversas cidades (começando com o prestigioso Ekur de Nippur), mas concentrou-se na capital. Aqui, o grande recinto sagrado tomou forma final, abrangendo os principais santuários da cidade. Era dominado pelo zigurate (torre escalonada do templo) construído por Ur-Nammu e destinado a uma longa história de reconstruções até o período neobabilônico. A população total de Ur foi estimada em 200 mil habitantes.

A III dinastia de Ur racionalizou e unificou a gestão econômica?
. O crescimento populacional e o planejamento urbano eram sustentados pela produção agrícola do país. Isso certamente não é novidade, nem o é a intervenção estatal que visava melhorar a infraestrutura hídrica e a nova colonização. Mas o que caracteriza o trabalho da III dinastia de Ur (e neste ponto o crédito vai principalmente para Shulgi) é um claro desejo de racionalizar e unificar a gestão econômica. Um fato externo, mas significativo, é o aumento acentuado do número de textos administrativos neossumérios em comparação com os de qualquer outro período (anterior e posterior, até o período neobabilônico) e sua uniformidade (exceto por algumas características locais) em todas as províncias do império. Além do aumento quantitativo, há um aumento qualitativo: um aumento no desejo de conciliar previsões e resultados, trabalho despendido e produto obtido, por meio do uso sistemático de parâmetros fixos. Em suma, há um claro desejo de aumentar a racionalidade econômica, de administrar de forma eficiente e homogênea um império de tamanho sem precedentes.

Há agora uma gestão direta de recursos pelo poder central?
. Impérios anteriores eram, na verdade, redes de fluxos comerciais e relações políticas, centralizadoras e subordinadas, certamente, mas sem gestão direta de recursos. AO zigurate de Ur, construído por Ur-Nammu (2111-2094 a.C.) gestão direta dos recursos é agora tentada pelos reis de Ur em todo o núcleo do império, que não está mais dividido em cidades-reino tributárias, mas em províncias, chefiadas por governadores (ensi) nomeados pelo rei. Esses governadores contam com uma burocracia homogênea, intercambiável e móvel em seus níveis superiores (os inferiores sendo inevitavelmente de origem local), e mantida unida por um intenso fluxo de mensageiros reais. A ostentação de Shulgi sobre sua destreza como escriba e administrador serve de modelo para seus oficiais e bajula seu espírito de coesão. A unificação e a racionalização dos procedimentos administrativos baseiam-se em múltiplas experiências locais e precedentes acádios, e são implementadas pela fusão das burocracias palatina e templária anteriores. Da mesma forma, em termos de gestão de propriedades, o papel unificador do rei-deus (diferente e inovador em comparação com o precedente acádio) leva a uma incorporação teórica de todas as “grandes organizações” em um único organismo e à sua reutilização como suas células constituintes. Os templos, em particular, permanecem a unidade administrativa básica da economia neossuméria.

Temos boa documentação a respeito da gestão da agricultura?
. Voltando-se para setores individuais, sua análise é possibilitada justamente pelo aumento da documentação. A gestão agrícola pode ser reconstruída a partir de uma série de textos cadastrais (de Lagash) que podem ser integrados a outros textos de vários tipos. Surge um organograma piramidal, abrangendo desde agricultores individuais até funcionários responsáveis ​​pela gestão, amostragem e inspeções. Surge uma paisagem agrícola, composta por campos extensos (faixas estreitas, com o lado longo dezenas de vezes mais longo que o lado curto), todos adjacentes, com acesso a canais de irrigação e com rendimentos meticulosamente calculados usando parâmetros fixos. A administração conhece as medidas de cada campo (lado longo e lado curto, com quaisquer adições e deduções) e, pouco antes da colheita, consegue estimar seu tamanho multiplicando a área pelos parâmetros. Qualidade do solo, incidência de salinização, distância entre sulcos, intensidade da semeadura e a relação entre a semeadura e a colheira são todos dados que a administração estabelece e calcula para alcançar um controle rigoroso da produção. A documentação refere-se a terras sob gestão pública direta, as únicas para as quais uma contabilidade precisa era necessária devido à multiplicidade de transferências de responsabilidade e à dimensão suprapessoal. Uma lacuna documental diz respeito a terras sob gestão pessoal ou familiar: tanto terras estatais concedidas em usufruto a funcionários quanto terras sob propriedade familiar “livre”, duas categorias que tendiam a se fundir a longo prazo.

O que sabemos sobre a criação de bovinos e caprinos?
O zigurate de Ur, construído por Ur-Nammu (2111-2094 a.C.). A mesma racionalização e padronização dos cálculos de previsão são implementadas na criação de gado bovino e caprino, documentada principalmente pelo centro administrativo especializado de Puzrish-Dagan (Drehem), perto de Nippur, onde o gado era concentrado antes de ser enviado para o santuário central. A criação de gado bovino, além de animais de tração, produz principalmente leite e laticínios (manteiga, queijo). Ao confiar um rebanho a uma unidade de produção, a administração toma a composição do rebanho como ponto de partida e estabelece os parâmetros de crescimento do rebanho ano a ano, bem como as quantidades de laticínios necessárias. Os parâmetros são necessariamente abstratos (o que realmente acontece dentro da unidade de produção escapa ao controle administrativo e, portanto, nos escapa): calcula-se convencionalmente que as vacas nunca morrem, mas dão à luz apenas meia cria por ano, e calcula-se convencionalmente que os recém-nascidos são alternadamente machos e fêmeas; as quantidades de manteiga e queijo são estabelecidas para cada vaca adulta com base em uma estimativa moderada, mas que a administração então exige, independentemente da situação real.

E a ovinocultura?
. A ovinocultura, por outro lado, é voltada principalmente para a produção de lã. Ao confiar o rebanho ao pastor, sua composição é conhecida, parâmetros de natalidade e mortalidade são estabelecidos, e cotas de lã são estabelecidas dependendo se os animais são ovelhas ou carneiros, pequenos ou grandes. A lã é então classificada de acordo com a qualidade (há meia dúzia de tipos diferentes) e enviada para processamento. Cada operação tem seus próprios parâmetros, e as perdas no processamento (para cardagem, fiação e lavagem) são calculadas, juntamente com os dias úteis necessários para realizar essas operações. Assim, a partir de uma determinada quantidade de lã, são necessários um certo número de dias úteis para obter uma determinada quantidade de fio em uma medida linear (distinguindo-se entre fios de urdume e de trama). E para obter uma peça de lã do tamanho desejado, calcula-se o número de dias úteis necessários, a quantidade de fios de urdume e de trama necessários e, por fim, os custos de mão de obra e matéria-prima de toda a operação.

Como era feito o controle da produção artesanal especializada como olaria e metalurgia?
. A dosagem da matéria-prima, o cálculo fixo das perdas de processamento e os dias úteis necessários também são os parâmetros básicos para outros setores artesanais onde (ao contrário da indústria têxtil, que emprega um grande número de trabalhadoras e escravas, concentradas às centenas em fábricas semelhantes a prisões) a força de trabalho é especializada. Para o trabalho de oleiro (onde as matérias-primas são baratas e facilmente disponíveis), estabelece-se um conjunto de dias (ou frações de dias) para produzir vasos de um determinado tipo e capacidade, levando a uma padronização acentuada do produto. No entanto, para a metalurgia, onde os tempos de processamento são menos facilmente quantificáveis ​​e, em última análise, menos essenciais, o controle se concentra principalmente na preciosa matéria-prima: a proporção de cobre para estanho, as perdas de processamento e o peso unitário das ferramentas individuais, garantindo o uso correto e completo do metal disponibilizado aos artesãos.

Como era administrado o comércio com outras regiões?
. De natureza diferente, mas sujeito a um controle igualmente racionalizado pela administração, é o trabalho dos mercadores, que seriam mais bem descritos como agentes comerciais da administração. Os mercadores partem com uma certa “dotação” composta por mercadorias (de exportação) de valor conhecido, ou simplesmente somas em prata, avaliada pelo peso. Ao retornarem, devem entregar (de importação) mercadorias de valor equivalente: portanto, acertam contas com a administração, que elabora um balanço (anual ou semestral) registrando as quantidades e os preços unitários das mercadorias que entram e saem, seu valor total e um “resto” creditado ou debitado ao mercador, que será incluído no cálculo da dotação do ano seguinte. Esses balanços são uma mina de informações sobre os tipos e quantidades de mercadorias comercializadas (frequentemente internas, às vezes externas) e sobre o sistema de “preços” comparados. É claro que esse mecanismo exigia uma padronização prévia de pesos, medidas, qualidade dos bens e sua equivalência em termos de peso em prata — uma padronização que já tinha uma longa história no nível local (desde a primeira urbanização da era Uruk), mas que agora se estendia ao nível imperial.

Mas estes parâmetros refletem de fato a realidade econômica ou não?
. Orçamentos e parâmetros refletem com precisão a relação entre a administração e o mercador, artesão ou pastor, mas não são um reflexo fiel da realidade econômica.Extensão aproximada do império da III dinastia de Ur, com a organização centro/periferia do reinado de Shulgi (2093-2047 a.C.). Há divergência entre os especialistas sobre o que deve ser incluído no centro ou na periferia As vacas produzem mais de meia cria por ano, mas morrem, e o crescimento real do rebanho permanece desconhecido para nós. Os níveis teóricos estabelecidos pela administração devem ser um pouco inferiores aos reais, caso contrário, o sistema entraria em colapso rapidamente. Assim, as quantidades de lã por ovelha, manteiga por vaca, colheita por semente e dias úteis por vaso ou rolo de lã são convenções administrativas que deixam aos operadores uma certa margem. A margem parece ter sido modesta para agricultores e artesãos, ampla para mercadores, em grande parte graças ao calendário anual de relatórios: ao longo do ano, o mercador detém bens e prata que pode transformar em lucro, por meio de transações comerciais intermediárias ou emprestando a juros, sem ter que prestar contas à administração. No caso do comércio, portanto, a lacuna entre a administração e a realidade é particularmente grande. Lendo os balanços, vemos o comércio “administrado”, no qual o mercador não tem lucro, nem risco, nem decisões econômicas a tomar; e é um comércio destinado à obtenção de matérias-primas. Mas o que acontece depois que o mercador deixa a administração e antes de retornar é outra questão completamente diferente. Em terras distantes, quem sabe quais procedimentos de comércio tácito, troca de presentes e escambo terão prevalecido; o sistema de preços em vigor na Suméria terá pouca correspondência com os sistemas de valores prevalecentes na fonte das matérias-primas; as etapas intermediárias de mercador para mercador, os impostos de trânsito e os direitos de preferência das elites periféricas, a possível subcontratação — tudo isso nos escapa. Mas é claro que o comércio administrado, destinado à importação, como visto pela administração central, corresponde ao livre comércio, destinado ao lucro, como administrado pelo mercador individual.

 

4. A tradição dos escribas

Há novidades na cultura dos escribas em Ur III?
. O estabelecimento, especialmente sob Shulgi, de um impressionante quadro de escribas-administradores para supervisionar o planejamento e o registro da atividade econômica do império (tanto produtiva quanto redistributiva) resultou no fortalecimento e na unificação da cultura dos escribas. A atividade institucional dos escribas era administrativa, para a qual eram apoiados pela organização estatal. Mas, sob a III dinastia de Ur, duas atividades colaterais também alcançaram níveis muito elevados: a transmissão do conhecimento dos escribas e a produção literária.

Como funcionavam as escolas dos escribas?
. A transmissão ocorria na “escola” (edubba, “casa das tabuinhas”), por escribas especialistas (ummia, algo como “professor”) que instruíam seus alunos no domínio desafiador (gráfico e mnemônico) do repertório de sinais e vocabulário, no uso de fórmulas administrativas e legais e no estilo. A escola era uma instituição anexa ao templo (como célula básica da administração estatal). Era frequentada por jovens da classe dominante (filhos de ensi e altos funcionários, e dos próprios escribas) e, assim, reproduzia-se internamente, visto que o domínio da arte da escrita era um pré-requisito para o acesso e o avanço na carreira administrativa. O treinamento era árduo, e a vida na edubba produzia composições literárias que enfatizavam a necessidade de comprometimento, a relação entre professores e alunos e as perspectivas de remuneração e ascensão social. Um senso de orgulho intelectual e prestígio desenvolveu-se dentro da escola, um privilégio concedido a uma casta fechada, que possuía uma técnica inacessível à maioria, garantindo aos escribas o controle da máquina governamental e econômica do país.

Foi feita nestas escolas a sistematização do conhecimento da época?
Cronologia esquemática da Mesopotâmia. Tudo isso existia em formas mais ou menos desenvolvidas mesmo nas antigas cidades-templo; mas agora a unificação pan-mesopotâmica do Estado trouxe uma homogeneização dos produtos da arte da escrita e um aumento nos padrões de qualidade — em termos de clareza de conceito e layout do esquema lógico que gera o documento administrativo. O resultado padrão da atividade dos escribas é a documentação administrativa. O resultado interno da escola foi o desenvolvimento e a transmissão orgânica daqueles instrumentos de trabalho que haviam sido formulados desde a primeira fase da introdução da escrita: as listas de sinais e palavras estavam a caminho de se tornarem verdadeiras “enciclopédias” que organizavam todo o conhecimento da época de forma canônica.

A produção literária nos ajuda compreender a cultura neossuméria?
. Produtos colaterais são aqueles comumente definidos como “literários”, embora uma intenção puramente literária seja sempre condicionada pela inserção funcional dos textos em um contexto cultual, político ou mesmo escolar. Coleções de material literário são diretamente relevantes para a compreensão da cultura neossuméria: a sabedoria dos escribas, vangloriando-se de dominar o universo do conhecimento e transmitindo-o aos seus alunos, teve o efeito secundário e inadvertido de transmiti-la também a nós.

Produziram almanaques agrícolas?
. Considere as “Geórgicas” neossumérias (ou, mais realisticamente, os “Almanaques” agrícolas): na forma de ensinamentos de pai para filho, eles fornecem uma visão geral abrangente do calendário agrícola, com as operações a serem realizadas e os métodos corretos para executá-las, com o melhor da tecnologia disponível.

Havia também coleções de provérbios e ditos de sabedoria?
. O modelo de ensino frequentemente serve de estrutura para coleções de provérbios e materiais de sabedoria, essenciais para reconstruir o clima social, não tanto da sociedade suméria como um todo, mas pelo menos dos administradores públicos, com seus problemas de administrar sua imagem perante superiores, superar rivalidades entre colegas, manter sempre um comportamento impecável, e assim por diante.

Há textos na forma de disputa?
. Outra forma típica de transmissão de valores sociais dominantes é a “disputa”, na qual dois personagens (o pastor e o agricultor) ou dois elementos físicos personificados (cobre e prata, a palmeira e a tamareira), escolhidos como opostos ou extremos em uma escala de valores, competem entre si, cada um elogiando suas próprias qualidades e menosprezando as do outro — tipicamente chegando à conclusão de que ambos possuem qualidades válidas e que o elemento que à primeira vista parecia mais valioso pode não permanecer necessariamente preferível após um exame exaustivo de todos os aspectos da questão. O modelo de “disputa” revela não apenas uma atitude competitiva na sociedade cada vez mais hierárquica e especializada que emergia; mas também uma tentativa de abranger os conflitos sob uma visão sintética e pacificadora, que recompensaria (em termos de apreciação social) até mesmo as funções menos prestigiosas — uma tentativa, portanto, de promover a coesão social.

E há o gênero do hino real?
. Grande parte da produção literária diz respeito diretamente à prática do culto e não pode ser discutida em detalhes aqui. No entanto, há conexões claras com os eventos e o clima ideológico da III dinastia de Ur. O estilo do “hino real” tomou forma e se espalhou, modelado no hino preexistente em louvor às divindades, como uma consequência óbvia da deificação do rei. O hino real é geralmente escrito na primeira pessoa, pelo rei, que, nesse sentido, não assumiu plenamente o papel de divindade, e é fortemente autoelogiável e autocelebrativo. Essa nova forma de propaganda real complementa a forma mais antiga da inscrição monumental: nas inscrições estão as vitórias militares e as realizações arquitetônicas dos governantes, enquanto os hinos enfatizam suas qualidades, ocasionalmente exemplificadas em episódios sem o alto nível de realização exigido pelas inscrições monumentais. A diversidade de estratégias comemorativas talvez também reflita um público diferente: a inscrição monumental, ostensivamente exibida e sobre um suporte icônico, era mais externa e ampla; o hino, apreciado por funcionários em contato mais ou menos direto com o soberano, era mais interno e seleto.

Como foi tratada a divinização dos governantes e a realidade de sua mortalidade?
. Nessa esfera limitada (funcionários, escribas, sacerdotes), algumas características da realeza neossuméria também deixaram sua marca. Central para isso é o problema da divinização dos governantes, em relação à sua mortalidade. Na época de Naram-Sin, o problema buscava uma solução heroica. Agora, a solução buscava uma solução cultual, envolvendo diretamente a esfera divina. O casamento “sagrado” com a divindade e o sepultamento, um retorno à vida após a morte, tornaram-se os momentos definidores da ideologia real. O sepultamento de Ur-Nammu ou Shulgi é um evento rico em implicações sensacionais, e os hinos do primeiro conservam ampla evidência disso. Gilgámesh ainda é o modelo de um rei-deus mortal, e Shulgi o considera seu irmão, filhos da mesma mãe Nínsun; mas mais do que por meio de atos heroicos, a busca pela imortalidade envolve uma descida ao submundo, inevitavelmente evidente no enterro cerimonial do rei.

Quais são as características dos selos deste período?
. A elaboração mitológica continuou (após a explosiva estreia iconográfica e literária sob os reis de Akkad) em resposta aos eventos atuais; mas devemos supor que elaUr-Nammu, fundador da III dinastia de Ur, no selo cilíndrico de Hash-hamer, BM 89126, British Museum, London. Leia mais sobre o selo em * iniciou sua espiral descendente com Ur III, após o qual o papel do modelo mudou dos reis divinos do período mítico original para os reis históricos da dinastia acádia. Na arte glíptica, as cenas mitológicas deram lugar a uma cena fixa de “introdução” (acompanhada por uma inscrição identificadora), que, em sua padronização, na hierarquização da relação e na presença do rei-deus, reflete claramente o clima político do ambiente dos escribas e dos sacerdotes, amplamente identificado com os detentores dos selos*. Quanto à produção mitográfica, há alusões a temas dominantes da política neossuméria: das relações com os povos ocidentais (martu) à conquista do norte (Monte Ebikh e além), da retomada do comércio de longa distância à organização funcional do mundo agrícola mesopotâmico, e assim por diante. Estas não são alusões intencionais (indiretas demais para serem eficazes), mas reflexões óbvias do mundo contemporâneo sobre a formulação e transmissão escrita da herança mítica geral do país da Suméria.

 

5. A periferia do império

É verdade que Ur III exerceu um fraco domínio sobre as regiões vizinhas?
. A capacidade do Império de Ur de afirmar a ordem e a unidade em seu núcleo interno contrasta com seu fraco domínio sobre as regiões vizinhas, que ainda estavam parcialmente desestabilizadas pela intervenção acádia e afetadas por movimentos que eventualmente afetariam o próprio dilúvio mesopotâmico.

Como era a relação de Ur III com os elamitas?
. No planalto iraniano meridional e no Golfo Pérsico, após a desestabilização trazida pelas expedições armadas acádias contra o sistema elamita, lideradas pela dinastia Awan, estabeleceu-se um novo equilíbrio no qual o Império de Ur desempenhou um papel claro, porém marginal. Na metade de seu reinado, Shulgi conquistou Susa, que permaneceu como uma das províncias do império (com um ensi nomeado pela realeza) até Ibbi-Sin, sendo assim incluída no “país interior” e totalmente integrada política e administrativamente. No entanto, nas montanhas circundantes, o restante do Elam permaneceu independente (e, da perspectiva elamita, Susa era apenas uma cidade marginal, na fronteira com a Suméria). Com as regiões de Anshan (Fars), Shimashki e Zabshali (ao norte de Susiana), os reis de Ur adotaram uma política de alternância entre amizade, contenção e ameaça. Essa política às vezes resultava em casamentos entre as filhas dos reis de Ur e os reis elamitas, e às vezes em expedições militares contra eles, mas nunca alcançou um controle político estável. De fato, a necessidade de conter a ameaça suméria foi um dos catalisadores no mundo elamita, onde a “dinastia Shimashki” se consolidou. Ela não apenas manteve sua independência, como também desempenhou um papel decisivo na queda da própria Ur.

E as relações com Barakhshi no leste?
. Além do mundo elamita, havia outras entidades políticas e culturais com as quais a III dinastia de Ur (visivelmente restringindo sua abrangência em comparação com Akkad) mantinha apenas contatos comerciais e, principalmente, mediados. A principal formação política no sul do Irã, a leste de Anshan, era Barakhshi, ocasionalmente influenciada pelo expansionismo acádio, mas que permaneceu intacta devido à sua significativa descentralização em relação à Baixa Mesopotâmia: seu centro corresponde à região de Kerman e inclui sítios como Tepe Yahya e Shahdad. Embora os contatos militares tenham sido interrompidos, um fluxo significativo de mensageiros de Barakhshi permaneceu no império de Ur; isso indica contatos comerciais (além de alguns casamentos entre famílias reais), mas por iniciativa de Barakhshi e não de Ur. No horizonte econômico de Ur, Barakhshi era agora uma terra distante, de onde se originavam pedras semipreciosas (como acontecia desde o Protodinástico) além de animais e plantas exóticas.

E com Magan e Melukhkha também no leste?
Antigo Oriente Médio. O mesmo se aplica a Magan, de onde o cobre se originava, e à distante Melukhkha, um local de produtos exóticos e marginais. Também aqui, o comércio (marítimo) era conduzido indiretamente, por iniciativa de parceiros orientais. O ponto de encontro era o “porto franco” de Dilmun, que atingiu seu auge de desenvolvimento urbano nessa época, a julgar pelos dados arqueológicos. Os mercadores sumérios não se aventuravam além de Dilmun, obtendo ali matérias-primas orientais; e a iniciativa estava principalmente nas mãos de Melukhkha — correspondendo à influência penetrante (arqueologicamente detectável) da cultura do Indo na região do Golfo. Assim, em comparação com o período acádio, houve uma reorientação do comércio e da influência política, com o centro de gravidade deslocado mais para o leste, permitindo que a Mesopotâmia mantivesse contato de forma menos agressiva e direta.

E Mari no oeste?
. Na extremidade oposta do longo corredor mesopotâmico, espremido entre o deserto siro-arábico e as montanhas iranianas, uma situação um tanto semelhante viu a influência neossuméria se estender de forma sutil e cada vez mais tênue. A pedra angular das relações com a Síria Ocidental era a cidade de Mari, já subjugada por Sargão e agora governada por uma linhagem de “governadores” (a shagina suméria, o shakkanakku acádio) que desfrutavam de uma posição mais autônoma do que os ensi. Essa linhagem de shakkanakku tornou-se totalmente independente com a crise do poder acádio e, como tal, a encontramos na época de Ur III (e até depois da queda do império), sempre mantendo intensas relações comerciais e diplomáticas com seu poderoso vizinho do sul.

E os amoritas?
. Além de Mari, o declínio do império eblaíta deixou um vácuo de poder, no qual os martu, um povo semítico ocidental de caráter tribal e pastoril, se infiltraram, pressionando ameaçadoramente até mesmo o núcleo interno do império. Durante a era amorita da Síria, algumas cidades permaneceram autônomas e capazes de manter relações comerciais ocasionais com Ur: mensageiros dos ensi de Tuttul, Ebla, Urshum e Biblos são mencionados nos documentos administrativos de Amar-Sin. Esses ensi, apesar da terminologia usada pelos escribas de Ur, não dependiam da capital imperial; eram dinastias locais e autônomas, e a consistência de suas relações parece bastante tênue.

O que acontecia no norte?
. O envolvimento político e militar de Ur no norte foi diferente e mais extenso. A fortaleza de Assur estava totalmente integrada ao império, governada por um ensi nomeado pela realeza, apesar de estar bem fora da muralha e isolada em território turbulento e hostil, a julgar pelas repetidas campanhas ali conduzidas. O plano de Shulgi e seus sucessores deve ter sido garantir militarmente uma zona-tampão para Assur e outros centros mais ao norte (Urbilum é o local de uma shagina), controlando o tráfego ao longo do Tigre e o acesso à Alta Mesopotâmia, combatendo a consolidação do elemento hurrita (Urkish-Nawar) e repelindo a pressão das populações das montanhas iranianas para fora de sua região. Esse esforço parece excessivamente oneroso em comparação com os resultados e objetivos, pelo menos à primeira vista. Deve-se notar, no entanto, que sem o esforço militar no norte, os reis de Ur teriam sido reduzidos a um poder estritamente local. Em sua busca por status imperial, eles identificaram a Alta Mesopotâmia como seu objetivo principal. Também é possível que, ao final desse corredor laboriosamente navegável, os reis de Ur vislumbrassem as riquezas minerais da Anatólia.

Como era a Anatólia nesta época?
. No final do terceiro milênio, a Anatólia foi assolada por movimentos populacionais e, em algumas áreas (o planalto central, a bacia de Konya, a Cilícia), houve umO zigurate de Ur durante as escavações feitas por Leonard Woolley de 1922 a 1934 - Penn Museum https://www.penn.museum/sites/journal/1235/ declínio drástico nos assentamentos. No entanto, permaneceu uma área de concentrações significativas de riqueza, especialmente em recursos minerais e metalúrgicos. Descobertas como as tumbas reais de Alaca Hüyük revelam elites políticas locais abastadas, em áreas que permaneceram intocadas por revoltas e migrações (e, portanto, em áreas com presença residual dos hititas). Essas elites, que baseavam sua riqueza no controle das áreas de mineração de cobre (Ergani Maden) e de prata (Bulgar Maden), podem ter permanecido em contato com as cidades da Baixa Mesopotâmia mesmo durante o período neossumério, consolidando assim ao longo do tempo o interesse já demonstrado nessa direção pelos governantes acádios com o que mais tarde seria amplamente documentado na era paleoassíria.

 

* Selo de Hash-hamer, BM 89126: feito de esteatite ou pedra-sabão, de cor verde, o selo tem 5,3 cm de altura e 3 cm de diâmetro. Foi criado por volta de 2100 a.C. e adquirido pelo Museu Britânico em 1880. Representa Hash-hamer, governador da cidade de Ishkun-Sin, em atitude de reverência entre duas deusas, sendo conduzido em direção a um rei sentado, provavelmente Ur-Nammu, fundador da III dinastia de Ur. A inscrição está em duas colunas, de acordo com o costume dos chamados “selos de apresentação” ou selos de “presente real” do período de Ur III: a primeira coluna traz o nome e os títulos do rei, enquanto a segunda coluna traz os títulos do proprietário do selo, concluindo com a frase “seu servo”. A cena de apresentação reforçava visualmente a posição subordinada do proprietário e sua conexão com a autoridade real, garantindo seu lugar na hierarquia social e burocrática. Diz a inscrição em sumério: “Ur-Nammu, o homem poderoso, o rei de Ur — Hash-hamer, o ensi de Ishkun-Sîn, seu servo”. Confira mais sobre este selo em BM;CDLI; BdTNS; Oracc; eBL. Também pode ser lido o capítulo de VERDERAME, L. “The Seal of Hašhamer, Iškun-Sîn, and Ur III Kingdom’s Early Development.” In ALIVERNINI, S. et alii (eds.) “And I Have Also Devoted Myself to the Art of Music”: Ancient Near Eastern Studies in Honor of Franco D’Agostino Presented on His 65th Birthday by His Pupils, Colleagues, and Friends. Münster: Zaphon, 2025, p. 59-72.