Cosmogonias

Histórias de criação e dilúvio na antiga Mesopotâmia

 

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RESUMO

Milhares de tabuinhas de barro com escrita cuneiforme foram recuperadas nas escavações arqueológicas da antiga Mesopotâmia. Algumas delas narram histórias de criação e dilúvio. Neste artigo vamos olhar mais de perto três dessas histórias: o Enuma Elish, a Epopeia de Gilgámesh e a Epopeia de Atrahasis. Algumas dessas histórias são chamadas hoje de cosmogonias.

ABSTRACT

Thousands of clay tablets with cuneiform writing were recovered in the archaeological excavations of ancient Mesopotamia. Some of them tell stories of creation and flood. In this paper I will look more closely at three of these stories: Enuma Elish, Gilgámesh, and Atrahasis. Some of these stories are now called cosmogonies.

 

Introdução

A planície situada nos vales dos rios Tigre e Eufrates, no Oriente Médio, é a antiga Mesopotâmia, nome que vem do grego e significa “terra entre rios”. Esta região foi habitada, em tempos remotos, por povos como os sumérios, os acádios, os assírios e os babilônios.

Os sumérios construíram sua civilização no sul da Mesopotâmia a partir do IV milênio a.C. Foram sucedidos pelos acádios e estes pelos assírios e babilônios. As escavações arqueológicas revelaram o uso da escrita cuneiforme desde o fim do IV milênio, por volta de 3200 a.C. Foram os sumérios os inventores da escrita. Além de toda a Mesopotâmia, a escrita cuneiforme foi empregada também em partes da Síria, da Ásia Menor e do Irã. Ela é chamada de “cuneiforme” porque os sinais gravados na pedra ou no barro têm a forma de cunha.

A assiriologia é o estudo das línguas, história e cultura das pessoas que usaram a escrita cuneiforme. As fontes para a assiriologia são todas arqueológicas, e incluem artefatos com ou sem textos. A maioria dos assiriologistas estuda os textos do Antigo Oriente Médio, gravados principalmente em tabuinhas de barro.

A assiriologia começou como uma disciplina acadêmica com a recuperação dos monumentos da antiga Assíria e a decifração da escrita cuneiforme, lá pela metade do século XIX. Hoje a assiriologia é estudada em muitas universidades mundo afora. O conhecimento das culturas do Antigo Oriente Médio é importante para estudantes de várias disciplinas, como, por exemplo, a Arqueologia, a História, os Estudos Clássicos e os Estudos Bíblicos.

O ano de 1842 marca o início da pesquisa arqueológica no Antigo Oriente Médio, pois foi nesta data que Paul Émile Botta, cônsul francês em Mossul, iniciou as primeiras escavações na região. Logo em seguida entrou em cena o inglês Austen Henry Layard. Ele descobriu a cidade de Nínive, capital assíria, e em 1850 encontrou mais de 20 mil tabuinhas cuneiformes da biblioteca do rei assírio Assurbanípal, que correspondem a cerca de 5 mil textos. Narrativas hoje consideradas importantes, como a Epopeia de Gilgámesh, o Enuma Elish e a Epopeia de Atrahasis, foram encontradas nestas escavações feitas por Layard e seu assistente Hormuzd Rassam. Nesta época os museus da Europa começaram a ser abastecidos com o material que para lá foi transportado. Em 1847, o Museu do Louvre, em Paris, inaugurou sua seção assíria, sendo seguido pelo Museu Britânico, em Londres, em 1853. Importantes nesta empreitada foram igualmente pesquisadores alemães e norte-americanos.

Duas forças motrizes levaram às primeiras escavações no Oriente Médio no século XIX: o colonialismo e a Bíblia.

A primeira foi o colonialismo, em seu esforço para manter o controle sobre a produção do conhecimento nas colônias e para se apropriar de recursos de todos os tipos em benefício dos colonizadores. No caso da arqueologia, o impacto do colonialismo é evidente na corrida para abastecer os museus da Europa com tesouros incomuns e exóticos e nas expedições que buscam catalogar e sistematizar o conhecimento de tudo o que for possível, como a fauna, a flora e os monumentos antigos. Assim, quando falamos da antiga Mesopotâmia, a ideia da pesquisa arqueológica que reconstrói o “berço da civilização [ocidental]” precisa ser problematizada. Sabemos hoje que o mito da “terra vazia” ou dos “recursos não utilizados” pelos nativos é um expediente típico do colonialismo: se houver espaços, recursos e patrimônio que os nativos não estejam usando por falta de interesse, ignorância ou atraso técnico, então o colonizador está autorizado a “descobrir” e se apropriar destas riquezas, que, de outro modo, acabariam perdidas ou desperdiçadas. Isto vale tanto para as riquezas materiais quanto para os recursos culturais. O processo de apropriação colonial do Oriente Médio que culminou no colapso do Império Otomano foi preparado por operações mercantis, financeiras e culturais, com destaque, entre estas últimas, para a arqueologia.

A segunda inspiração para a pesquisa arqueológica no Oriente Médio foi a Bíblia. Numerosos pesquisadores ocidentais viajaram para a região em busca dos lugares mencionados na Bíblia, buscando autenticar as histórias bíblicas. Deste modo, amparados pelo direito que lhes dava a herança religiosa judaico-cristã, legitimaram a apropriação dos recursos do território pela pesquisa arqueológica.

Entre os textos recuperados na antiga Mesopotâmia há algumas histórias que falam de criação e dilúvio. Neste artigo vamos olhar mais de perto três dessas histórias: o Enuma Elish, a Epopeia de Gilgámesh e a Epopeia de Atrahasis. Algumas dessas histórias são chamadas hoje de cosmogonias[1].

 

1. Cosmogonias mesopotâmicas

A palavra “cosmogonia” vem do grego kósmos = “organização”, “ornamento”, “o Universo”, e génesis = “origem”, “nascimento”, “geração”, e significa “a origem do mundo organizado”. Assim, cosmogonia tem a ver com mitos, histórias ou teorias sobre o nascimento ou a criação do Universo como algo organizado. Ou com a descrição da ordem original do Universo. O oposto do “mundo organizado”, ou seja, do cosmos, é o caos, a desordem, a catástrofe. O caos existe antes da criação e pode, eventualmente, voltar a existir com a destruição da criação. O dilúvio é um caso típico de caos. É comum caos e cosmos aparecerem na mesma narrativa, como duas faces da mesma moeda. Por isso falamos de “criação e dilúvio”.

Mas quando se fala em criação, os especialistas procuram definir os vários tipos encontrados na literatura do Antigo Oriente Médio, pois apenas dizer que os deuses provocam o aparecimento de seres é genérico demais. Há várias classificações possíveis, como a seguinte:

  • criação a partir do nada
  • criação a partir do caos
  • criação a partir de um ovo cósmico
  • criação a partir da separação dos deuses primordiais (como céu e terra, nos mitos sumérios)
  • criação a partir da emergência [ou aparecimento] (por ex., a terra como mãe, sem preocupação com o pai)
  • criação a partir de uma descida (como alguém que desce às profundezas à procura de um pedaço de terra).

 

Por isso precisamos distinguir entre as concepções de criação existentes nas cosmogonias do Antigo Oriente Médio e as modernas teorias sobre a origem do Universo, as cosmologias. Quatro são as diferenças principais, segundo R. J. Clifford: o processo, o produto, a maneira de narrar e o critério de verdade.

. o processo: as cosmogonias do Antigo Oriente Médio veem a criação segundo o padrão da atividade humana ou dos processos da natureza, não fazendo distinção entre natureza e humanidade, oferecendo, por isso, explicações psíquicas e sociais para fenômenos não humanos; as cosmologias modernas, entretanto, veem a criação como uma interação impessoal de forças físicas ao longo de bilhões de anos-luz, rejeitando, assim, a psicologização do processo.

. o produto: no Antigo Oriente Médio do processo criativo resulta uma sociedade humana organizada para servir aos deuses, enquanto nas cosmologias modernas a criação diz respeito ao mundo físico, mesmo quando trata da vida, deixando de lado considerações de ordem cultural e comunitária.

. a maneira de narrar: no Antigo Oriente Médio o processo de criação é narrado como um drama, com vontades em conflito que implicam uma estratégia, detalhes psicológicos que envolvem os personagens e levam a história a uma solução dramática, enquanto as cosmologias modernas explicam as origens de modo impessoal através da formulação de leis científicas.

. o critério de verdade: no Antigo Oriente Médio, as cosmogonias selecionam alguns aspectos do drama da criação e se concentram neles, de modo a tornar a história plausível: assim, o Enuma Elish está interessado na fundamentação divina da sociedade babilônica, enquanto a Epopeia de Atrahasis se concentra no equilíbrio das forças elementares necessárias para a sobrevivência dos seres humanos; as cosmologias modernas utilizam referências empíricas que são testadas cientificamente para verificar se explicam todos os dados observáveis, sendo rejeitadas como hipóteses suspeitas ou errôneas caso falhem neste teste.

Vamos olhar uma lista, deliberadamente parcial, de cosmogonias mesopotâmicas.

Textos sumérios

Enki e a ordem do mundoMarduk com seu dragão Mušḫuššu
Enki e Ninhursag (ou Mito do Dilmun)
Enki e Ninmah
Gilgámesh, Enkídu e o Mundo Inferior
História do dilúvio
Louvor à enxada
O debate entre a árvore e o junco
O debate entre a ovelha e o trigo
O debate entre o pássaro e o peixe
O debate entre o verão e o inverno
O tempo antes da criação

 

Textos acádicos

A história do dilúvio na Epopeia de Gilgámesh
A teogonia Dunnu
Atrahasis
Cosmogonia caldeia ou Fundação de Eridu
Debate entre dois insetos
Debate entre o boi e o cavalo
Debate entre o tamarindo e a palmeira
Dois encantamentos contra a ferrugem
Encantamento contra dor de dente
Enuma Elish
Refundação de um templo na Babilônia

Por que estes textos foram escritos e copiados?

Muitos destes textos eram controlados, mantidos e salvos por gerações de escribas profissionais. Além da escrita exercida como aprendizado, os escribas copiavam os textos para arquivos de templos e palácios. As cosmogonias preservadas por esta corrente da tradição são, neste sentido, “canônicas”.

Mas é importante observar que a descrição ou explicação da origem do cosmos não é o objetivo principal destes textos. Os relatos de criação e suas reproduções rituais são metáforas que descrevem e fundamentam a ordem política e religiosa da sociedade da época da produção e reprodução dos textos. Não basta ao rei assírio, por exemplo, ter o controle político e militar sobre o território e suas populações. O controle de um grande território exige um sistema ideológico que possa fundamentar a ordem monárquica em estruturas ideais e tradições religiosas. Ou seja, é necessário ter uma legitimação religiosa da ordem estabelecida e os relatos de criação servem para isso. A ordem estabelecida nas origens é a ordem mantida na atualidade do reino e vice-versa.

Os modos de narrar uma cosmogonia são variados.

Alguns textos têm uma temática cósmica, baseada na percepção de que céu e terra não são entidades separadas, mas interdependentes. A interdependência é explicada por uma cosmogonia, na qual o universo aparece através de um casamento cósmico em que o Céu fertiliza a Terra e de sua união nascem deuses, seres humanos, animais e vegetação. O cenário é o seguinte: há um período anterior à criação seguido por um dia de criação que inclui o surgimento de seres humanos e a difusão da civilização. Já outros textos têm uma temática ligada à terra, na qual a divindade dá vida à terra através de sua inundação ou inseminação com as águas subterrâneas que fluem pelos rios e canais. Os seres humanos são criados, neste caso, da argila da terra.

Como se vê na lista de cosmogonias mesopotâmicas acima, há alguns textos na forma de debate. O debate é um duelo de palavras entre dois protagonistas, personificando, geralmente, um par contrastante de animais, plantas, minerais, ocupações, estações do ano e até instrumentos e ferramentas feitos pelo homem. A discussão consiste principalmente em elogiar o valor e a importância de si mesmo e em rebaixar o oponente. O debate era frequentemente iniciado com a descrição da criação dos protagonistas, por isso estão em nossa lista de cosmogonias. É o caso do “Debate entre a árvore e o junco”. O texto descreve a origem dos dois debatedores e depois seu crescimento. Sendo as plantas enraizadas na terra e vivendo de sua fertilidade, o texto salienta a grande beleza da Terra e sua receptividade ao sêmen do Céu. Além disso, é interessante observar que como os sumérios não conheciam a abstração conceitual, o texto liga os debatedores às suas origens e, determinando seus destinos, faz da primeira ocorrência de um fato o substituto de sua definição abstrata. Por isso o debate não é entre uma árvore e um junco, mas entre a árvore e o junco. Quer dizer: é um duelo entre a primeira árvore e o primeiro junco, através do qual as características de todas as árvores e de todos os juncos aparecem.

Outro modo de narrar é através do encantamento. No “Encantamento contra dor de dente”, por exemplo, o texto era usado por um mágico que ia à casa da pessoa afetada. Ele examinava o paciente e através de um ritual descrevia o poder necessário para controlar o mal. Nesta ocasião o mágico lembrava que quando o mundo foi criado, ao verme coube comer a fruta podre, manifestando, assim, a esperança de que a divindade puna o verme que se desviou de seu destino original danificando o dente. É bom lembrar que um encantamento pode terminar com uma prece aos deuses para que restaurem a ordem da criação[2].

 

2. O Enuma Elish

2.1. Os personagens

  • Ánshar + Kíshar: representam, respectivamente, “a totalidade do mundo celeste” e “a totalidade doEságil: templo de Marduk em Babilônia. Pergamonmuseum, Berlin mundo terrestre”
  • Ánu (ou Ánum): é o deus do “céu”
  • Apsu + Tiámat: Apsu representa a água doce, subterrânea, da qual nascem fontes e rios; Tiámat é a água salgada do mar
  • Ea (ou Nudímmud) + Damkina: pais de Marduk
  • Énlil: antigo chefe do panteão mesopotâmico
  • Lahmu + Lahamu: entes monstruosos?
  • Marduk: o herói da narrativa, também chamado de Bel (= senhor)
  • Mummu: ministro e conselheiro de Apsu
  • Nannar: o deus lua
  • Qingu: esposo de Tiámat, líder de um grupo de monstros que combatem por Tiámat
  • Shámash: o deus sol

 

Os personagens principais organizados de outra forma:

  • Apsu + Tiámat
  • Lahmu + Lahamu
  • Ánshar + Kíshar
  • Ánu
  • Nudímmud (= Ea)
  • Marduk

 

2.2. Descoberta e publicação

O Enuma Elish foi recuperado na metade do século XIX pelo inglês Austen Henry Layard e seu assistente Hormuzd Rassam quando a biblioteca do rei assírio Assurbanípal foi descoberta em Nínive. Além de Nínive, cópias do Enuma Elish foram encontradas nas cidades assírias de Assur, Nimrud e Sultantepe e nas cidades babilônicas de Borsippa, Kish, Sippar, Úruk e na própria Babilônia. Quase uma centena de manuscritos gravados em tabuinhas de barro, em escrita cuneiforme e língua acádica foram preservados e hoje estão no Museu Britânico, em Londres. Não temos nenhuma narrativa completa, os textos estão fragmentados, mas é possível reconstruir a narrativa usando as cópias duplicadas.

A publicação do Enuma Elish foi feita por George Smith em 1876. O texto considerado padrão hoje, com transliteração do acádico e tradução em inglês, é o de Wilfred George Lambert[3].

 

2.3. A data da composição

O Enuma Elish está escrito em sete tabuinhas e contém cerca de 1100 linhas. As cópias mais antigas que temos podem ser datadas por volta de 900 a.C. E quando foi escrito? A data mais provável: durante o reinado de Nabucodonosor I (1125-1104 a.C.). Mas, sobre isso não há acordo. Estudiosos competentes já opinaram por datas que vão de 1700 a 750 a.C. Já se acreditou que o Enuma Elish pertencia ao período mais antigo da Babilônia, mas isto foi revisto. Uma das razões é que a supremacia de Marduk sobre os outros deuses, como aparece no Enuma Elish, não é testemunhada na época babilônica antiga. Como no conhecido Código de Hammurabi (1792-1750 a.C.), por exemplo, onde Marduk aparece como supremo sobre a terra e não sobre os deuses. Somente no reinado de Nabucodonosor I da Babilônia é que a antiga tríade composta por Ánu, Énlil e Ea se submete completamente a Marduk. Além disso foi este rei que recuperou a estátua de Marduk que havia sido levada pelos elamitas quando Babilônia fora por eles saqueada uns 50 anos antes.

O nome Enuma Elish corresponde às primeiras palavras do texto e significa “Quando acima” ou “Quando no alto”. O Enuma Elish é considerado, às vezes, em uma ou outra publicação, como o texto padrão da criação da Mesopotâmia, mas o assunto central do texto não é a criação e sim a ascensão de Marduk como chefe do panteão babilônico. Por isto o título de “O poema babilônico da criação” não é adequado. Apesar disso, esta é a mais bem elaborada cosmogonia da antiga Mesopotâmia e são vários os elementos criados por Marduk e por seu pai Ea.

O Enuma Elish era recitado na Festa do Ano Novo na cidade de Babilônia. Esta festa, o Akitu, tem forte componente político[4].

 

2.4. Resumo do poema

O poema começa falando de um tempo antes da existência dos deuses quando as águas primordiais, Apsu e Tiámat, constituíam uma massa indiferenciada e nem céus, terra e deuses existiam. Então nasceram os deuses: os casais Lahmu e Lahamu, Ánshar e Kíshar; depois, este último casal gera o deus Ánu, que gera o deus Ea (= Nudímmud).

A atividade dos deuses provoca a hostilidade de Apsu, mas, antes que ele faça algo, Ea o mata com uma magia enquanto ele dorme e constrói um palácio sobre seu cadáver. Neste palácio Ea e Damkina geram Marduk, que se manifesta como mais poderoso do que qualquer um de seus antecessores. Por sua vez, o barulho dos jovens deuses não deixa Tiámat repousar e ela encarrega seu companheiro Qingu, no comando de um grupo de monstros, de destruir os deuses, dando-lhe a Tabuinha dos Destinos. Ánshar, o rei dos jovens deuses, convida Ánu e depois Ea para comandar a resistência dos deuses, mas ambos, amedrontados, se recusam. Ea propõe, então, a Marduk que combata Qingu. Ele aceita com a condição de que a assembleia dos deuses transfira para ele o poder de determinar os destinos. Isto feito, Marduk vence e mata Tiámat em combate singular, fazendo de seu corpo dividido as duas partes do universo, os céus e a terra. Marduk torna-se o chefe dos deuses e anuncia que Babilônia será sua morada, ordenando a Ea que faça do sangue do vencido Qingu uma nova criatura, o homem. Os deuses constroem para Marduk uma cidade e um templo e o honram com 50 nomes.

 

2.5. As sete tabuinhas explicadas

O texto do Enuma Elish pode ser lido em cinco etapas ou seções. O número romano indica a tabuinha e os números arábicos as linhas do poema[5].

a. I.1-20: teogonia ou nascimento dos deuses

As oito primeiras linhas falam de um tempo anterior ao surgimento dos deuses, quando céus, terra e deuses ainda não existiam. Não ter nome ou não ser nomeado significa não existir. Mas dois elementos já estão aí: Apsu e Tiámat. Eles são diferentes dos outros casais de deuses: seus nomes não trazem o d, de dingir, que vem ligado ao nome das divindades nos textos originais. Eles não aparecem em nenhuma outra lista de deuses e nem como chefes de nenhum panteão mesopotâmico. Eles são elementos primordiais. Apsu representa a água doce, subterrânea, da qual nascem fontes e rios; Tiámat é a água salgada do mar. Entretanto, dessa massa indiferenciada de águas, desse caos, começam a nascer os deuses. O poder é exercido primeiro por Apsu e, após a morte de Apsu, por Tiámat e Qingu. Este grupo está em contraste com o outro grupo divino constituído por Lahmu e Lahamu, Ánshar e Kíshar, Ánu, Ea e Marduk. Esta genealogia dos deuses, esta teogonia, tem um propósito: providenciar uma linhagem adequada para Marduk, o herói do poema.Enuma Elish (ca. 911-612 a.C.) - CDLI Literary 002718

1. Quando, acima, os céus não haviam sido nomeados,
2. E embaixo, a terra por nome não fora chamada,
3. Existia já Apsu, o progenitor,
4. E também Tiámat, aquela que gerou a todos eles.
5. Quando suas águas eles misturavam,
6. Pastos não havia, pântanos não eram encontrados,
7. Quando nenhum dos deuses ainda existia,
8. Ninguém chamado pelo nome, nenhum destino determinado.

b. I.21-78: o primeiro confronto entre Apsu e Ea, sua solução pela vitória de Ea sobre Apsu e a construção de seu santuário

Diz o texto que a atividade dos novos deuses irrita o casal primordial e Apsu toma a decisão de destruí-los. Os jovens deuses, quando souberam dos planos de Apsu, ficaram consternados e sem ação. Mas Ea, o mais hábil dos deuses, mata Apsu com uma magia e constrói seu santuário sobre seu cadáver. Além de se apossar de sua coroa e de sua faixa, adquirindo o seu poder. Esta seção antecipa o grande conflito entre Marduk e Tiámat e prepara o terreno para a ascensão de Marduk a deus supremo do panteão babilônico. Marduk, entretanto, só vai aparecer na linha 80. Talvez a demora em mencionar Marduk tenha a função de criar um clima de suspense.

35. Apsu abriu sua boca,
36. E disse a Tiámat:
37. “O comportamento deles me perturbou profundamente,
38. Não consigo descansar de dia ou dormir de noite,
39. Vou destruir e quebrar o seu modo de vida,
40. Que reine o silêncio para que possamos dormir”.

59. Então aquele que sobressai em sabedoria, genial, cheio de recursos,
60. Ea, que tudo sabe, descobriu seus planos.
61. Ele elaborou e estabeleceu um plano de mestre,
62. E o executou de forma magistral, com sua magia

69. Ele amarrou Apsu, ele o matou.

71. Ele fez sua morada sobre o Apsu.

77. Ele estabeleceu lá a sua residência,
78. Ea e Damkina, sua esposa, habitaram lá em esplendor.

c. I.79-VI.120: o segundo confronto, entre Marduk, o filho de Ea, e Tiámat, a companheira de Apsu, e sua solução

Marduk, que nasce nesta residência no Apsu, filho de Ea e Damkina, é caracterizado como o mais sábio e forte dos deuses, poderoso desde criança, vestido com a aura de dez deuses. Um deus em tudo superior aos outros deuses.

87. Seu corpo era magnífico, seu olhar poderoso,
88. Nasceu viril, era poderoso desde o começo.
89. Quando Ánu, seu avô, o viu,
90. Ele se alegrou e sorriu, seu coração se encheu de alegria.
91. Ánu tornou-o perfeito, sua divindade era notável,
92. Era muito alto, mais alto do que qualquer um,
93. Seus membros eram incompreensivelmente maravilhosos,
94. Impossível entender, difícil até de olhar.

Entretanto, o jovem Marduk brincando com os quatro ventos, presente de seu avô Ánu, e com a poeira que ele mesmo [ou o avô?] criou, perturbava Tiámat com tempestades. Após ouvir as queixas dos deuses ancestrais, Tiámat decide reagir e quer vingar a morte de seu antigo companheiro Apsu. Cria um grupo de 11 deuses monstruosos munidos de armas poderosas e coloca seu segundo companheiro, o monstro Qingu, no comando deste temível exército para enfrentar os jovens deuses. A Tabuinha dos Destinos é dada a Qingu e suas ordens não podem mais ser revogadas. Observo que a ideia de monstros saindo de Tiámat é esperada, pois o mar, que ela representa, era, no imaginário da época do Enuma Elish, povoado por criaturas fantásticas e monstruosas.

133. Mãe Hubur, que forma tudo,
134. Forneceu armas invencíveis e deu à luz serpentes gigantes.
135. Tinham dentes afiados, eram implacáveis. . . ,
136. Com veneno em vez de sangue, ela encheu seus corpos.

141. Ela criou a Serpente, o Dragão, o Herói Peludo
142. O Grande Demônio, o Cão Selvagem e o Homem Escorpião.
143. Demônios ferozes, o Homem Peixe e o Touro Poderoso,
144. Portadores de armas implacáveis, sem medo diante da batalha.
145. Seus comandos eram tremendos, para não resistir.
146. No total, ela fez onze desse tipo.
147. Entre os deuses, seus descendentes, reunidos em assembleia,
148. Ela exaltou Qingu e enalteceu-o entre eles.

157. Ela lhe deu a Tabuinha dos Destinos e a prendeu em seu peito,
158. (dizendo:) “Sua ordem não pode ser alterada; que o comando que sai de tua boca seja firme”.

A assembleia dos deuses – Ánshar e Kíshar, Ánu e Ea e outros deuses não especificados – é incapaz de enfrentar Tiámat como antes tinha enfrentado Apsu. Quando Ea e Ánu se mostram incapazes, Marduk é indicado. A assembleia proclama sua supremacia durante a vigência da emergência. Os deuses lhe dão o poder de destruir e criar, prerrogativas reservadas somente aos grandes deuses. As demoradas deliberações feitas pelos deuses sobre como enfrentar Tiámat tomam as tabuinhas 2 e 3. Somente na tabuinha 4 Marduk é confirmado como líder dos deuses. Ali se diz:

1. Eles prepararam um assento principesco para ele,
2. E ele se sentou diante de seus pais para receber a realeza.
3. (Eles disseram:) “Você é o mais honrado entre os grandes deuses,
4. Seu destino é inigualável, seu comando é como o de Ánu.

7. Doravante sua palavra não será anulada,
8. Está em suas mãos engrandecer e rebaixar.

10. Nenhum deus ultrapassará os limites que você traçar.

13. Você é Marduk, nosso vingador,
14. Nós lhe demos a realeza sobre todo o universo.

16. Que tua arma não falhe, que destrua teus inimigos”.

31. (Eles disseram:) “Vá, corte a garganta de Tiámat,
32. E deixe os ventos espalhar seu sangue para dar a notícia”.
33. Os deuses, seus pais, decretaram o destino de Bel,
34. E o colocaram na estrada, no caminho da prosperidade e do sucesso.

Marduk prepara suas armas para a batalha: arco, rede, clava, ventos destruidores, relâmpagos e um carro puxado por quatro temíveis animais.

61. Em seus lábios trazia um feitiço,
62. Em sua mão uma planta para combater o veneno.

Na descrição da batalha entre Marduk e Tiámat se diz, entre outras coisas:

93. Tiámat e Marduk, o sábio entre os deuses, se enfrentaram,
94. Eles se envolveram na batalha, eles se agarraram no combate.
95. Bel jogou sua rede e capturou-a,
96. Ele jogou no rosto dela o vento destruidor que trazia consigo,
97. Tiámat abriu a boca para o engolir,
98. (Porém Marduk) manejou o vento destruidor de modo que ela não pode fechar os lábios.
99. Ventos ferozes encheram sua barriga,
100. Suas entranhas incharam e ela abriu a boca.
101. Ele disparou uma flecha e perfurou sua barriga,
102. Ele rasgou sua barriga e partiu seu coração,
103. A amarrou e acabou com sua vida.
104. Derrubou seu cadáver e ficou de pé sobre ele.
105. Depois de ter matado Tiámat, a líder,
106. (Marduk) dispersou a assembleia, dissolveu suas tropas.

119. Quanto a Qingu, que havia subido ao poder entre eles,
120. Ele o amarrou e o contou entre os deuses mortos.
121. Ele retirou dele a Tabuinha dos Destinos, imprópria para ele,
122. Ele a selou com um selo e a fixou em seu próprio peito.

Após sua vitória, Marduk, que tem sua supremacia garantida para sempre, corta em dois o cadáver de Tiámat e dele faz o universo. Diz o texto:

137. Ele a dividiu em duas partes como um peixe seco:
138. Com uma metade ele fez os céus,
139. Ele esticou sua pele e colocou guardas,
140. E lhes ordenou que não deixassem escapar as águas.

Agora as moradas dos deuses estão assim distribuídas: Ánu no céu, Énlil na terra e Ea no Apsu.

146. Ele instalou em seus santuários Ánu, Énlil e Ea.

Em seguida, já na tabuinha 5, diz o texto que Marduk cria constelações, estabelece os limites do ano, configura doze meses, modela sua própria estrela Neberu, faz a lua e confia-lhe a noite e determina suas fases e ciclos. Observo que o autor do Enuma Elish está mais preocupado em fixar o calendário do que expor princípios astronômicos: com as estrelas ele regulamenta o ano; com a lua, o mês; com o sol, o dia.

Marduk cria também os fenômenos atmosféricos da saliva de Tiámat: nuvens, vento, chuva e névoa. Abre fontes subterrâneas e faz o Tigre e o Eufrates fluírem dos olhos de Tiámat. Dos seios de Tiámat faz montanhas e faz a amarração que mantém unidos as três partes do universo, ou seja, o céu, a terra e o Apsu. O texto é de difícil compreensão, mas parece que esta amarração é feita com a cauda de Tiámat. E, em curta descrição, se diz que Marduk faz, com a outra metade de Tiámat, a terra. Depois de dar a seu avô Ánu a Tabuinha dos Destinos, Marduk pega os 11 monstros por ele capturados, esmaga suas armas, amarra as criaturas e delas faz estátuas que coloca no Portão do Apsu como um sinal.

1. Ele formou estações celestiais para os grandes deuses,
2. E criou constelações, as imagens das estrelas.
3. Ele nomeou o ano, marcou divisões,
4. E designou três estrelas para cada um dos doze meses.

12. Ele criou Nannar, confiando-lhe a noite.

Na sequência, Marduk unge seu corpo com óleo de cedro, veste um traje principesco, usa uma coroa, é descrito como possuindo atributos reais. Doravante sua supremacia está garantida. Ele é proclamado rei pelos deuses. Lugaldimmerankia, como o chamam agora, é um título sumério e significa “o rei dos deuses do céu e da terra”.

107. Lahmu e Lahamu…,
108. Abriram a boca e disseram aos deuses Igigi:
109. “Antes Marduk era nosso filho amado,
110. Agora ele é seu rei, fiquem atentos às suas ordens.
111. Em seguida, todos falaram juntos:
112. “Seu nome é Lugaldimmerankia, confiem nele”.

Dirigindo-se a seus progenitores, Marduk anuncia seus planos. A primeira coisa que fará é construir um templo para si mesmo. Um templo situado acima do Apsu e abaixo do céu. O templo será construído na cidade de Babilônia. Ora, sabemos que na geografia cósmica de Babilônia, a cidade e o templo de Marduk nela construído, o Eságil, estão no centro do universo. O poema faz uma reinterpretação do nome Babilônia, que significa “porta do deus”, como “as casas dos grandes deuses”.

129. Eu quero pronunciar seu nome: Babilônia, “As casas dos grandes deuses”.

No começo da tabuinha 6 é apresentada outra brilhante ideia de Marduk: a criação da humanidade para que as pessoas trabalhem e os deuses possam descansar. A criação da humanidade é uma obra realizada por seu pai Ea, que a executa com o sangue de Qingu. Em agradecimento os deuses constroem Babilônia e o Eságil, o santuário de Marduk, como uma replica do Apsu.

5. Vou recolher sangue e formar ossos,
6. Vou fazer Lullu, cujo nome será “homem”,
7. Vou criar Lullu, o homem,
8. Para que sobre ele recaia o trabalho dos deuses e eles possam descansar”.

33. De seu [Qingu] sangue, ele [Ea] criou a humanidade,
34. Sobre ela impôs as obrigações dos deuses, e delas os libertou.

d. VI.121-VII.144: Os deuses proclamam Marduk como deus supremo atribuindo-lhe 50 nomes

Pela localização e extensão, os nomes dados a Marduk constituem o clímax da epopeia, embora o leitor moderno possa até achar mais interessante a vitória de Marduk sobre Tiámat e a criação da humanidade. Obviamente nenhum deus precisava de 50 nomes para ser identificado. O que conta são os significados teológicos dos nomes. Especialmente importante é Énlil dando-lhe o próprio título de “senhor das terras” (VII.136) e Ea atribuindo-lhe o seu nome, Ea (VII.140).

121. Recitemos seus cinquenta nomes,
122. Que se conheça seu caráter, assim como seus atos.

143. Com a palavra “Cinquenta”, os grandes deuses (o chamaram)
144. Pronunciaram seus cinquenta nomes e lhe deram uma condição incomum.

e. VII.145-162: epílogo ou exortação para que se estudem os nomes e se honre Marduk

145. Que sejam lembrados e que as pessoas importantes os expliquem,
146. Os sábios e os eruditos devem falar sobre eles,
147. Um pai deve repeti-los e ensiná-los a seu filho,
148. É preciso explicá-los ao pastor e ao vaqueiro,
149. Se alguém não for negligente com Marduk, o Énlil dos deuses,
150. Possa sua terra florescer e ele mesmo prosperar.

161. Este é o poema de Marduk,
162. Aquele que derrotou Tiámat e assumiu a realeza.

Andrea Seri observa que o Enuma Elish é um texto que pode ser lido em diferentes níveis. Tem um enredo de uma história de sucesso: uma teogonia, uma batalha épica com magia, monstros, criaturas terríveis, um deus heroico, a criação do universo, assim como a narrativa da origem de Babilônia e do templo de Marduk. O tom dramático do poema torna fascinante sua leitura no Festival do Ano Novo na Babilônia.

Mas é necessário sublinhar que o Enuma Elish contém várias criações que servem a diferentes propósitos e que são introduzidas progressivamente ao longo do texto. O surgimento dos deuses no começo do poema prepara o palco para o nascimento de Marduk. Seu pai Ea realiza a primeira criação artificial ao matar Apsu e construir nele sua morada. Para lutar contra Tiámat, Marduk faz, com habilidade, armas poderosas. Ele cria o mundo matando Tiámat e usando seu corpo como matéria-prima, assim como dá a Ea a ideia de criar a humanidade. Enfim, as várias criações no Enuma Elish permitem que Marduk, agora com cinquenta nomes, assuma o lugar mais alto no panteão babilônico que antes era de Énlil. Em uma palavra: Marduk se torna Énlil[6].

 

3. A Epopeia de Gilgámesh

O texto mais completo da Epopeia de Gilgámesh foi recuperado a partir da metade do século XIX na biblioteca do rei assírio Assurbanípal, mas outras cópias foram encontradas em acádio e sumério em Assur, Nimrud, Sultantepe, Sippar, Ur, Úruk e outras localidades do Antigo Oriente Médio. Em 1872 a leitura da narrativa do dilúvio na Epopeia de Gilgámesh feita por George Smith, em Londres, causou impacto.

Esta versão clássica da Epopeia de Gilgámesh, com o nome de “Ele que o abismo viu”, suas primeiras palavras, foi composta por Sin-léqi-unnínni por volta de 1200 a.C. e está gravada em 12 tabuinhas, sendo a última apenas uma cópia de parte de outra composição bem conhecida, Gilgámesh, Enkídu e o Mundo Inferior.

A atribuição do texto a Sin-léqi-unnínni encontra-se em catálogo redigido no primeiro terço do primeiro milênio a.C. e achado em Nínive, no qual se lê: “Série de Gilgámesh: da boca de Sin-léqi-unnínni”. O autor trabalhou com uma tradição muito antiga e muito difundida na antiga Mesopotâmia, pois há fragmentos de uma versão babilônica de 1700 a.C. e poemas em sumério sobre Gilgámesh do fim do III milênio a.C.

Atualmente o texto acadêmico padrão da Epopeia de Gilgámesh é o de Andrew R. George, publicado em 2003[7].

 

3.1. Resumo do poema

A Epopeia de Gilgámesh tem dois prefácios: o primeiro (1,1-28) é o mais recente. O segundo (1,29-62), incorporado na mais recente, é da versão babilônica antiga.

1. Ele que o abismo viu, o fundamento da terra,Gilgámesh (ca. 911-612 a.C.) - CDLI Literary 002873.05
2. Seus caminhos conheceu, ele sábio em tudo,
3. Gilgámesh que o abismo viu, o fundamento da terra,
4. Seus caminhos conheceu, ele sábio em tudo,
5. Explorou de todo os tronos,
6. De todo o saber, tudo aprendeu,
7. O que é secreto ele viu, e o coberto descobriu,
8. Trouxe isto e ensinou, o que antes do dilúvio era.
9. De distante rota volveu, cansado e apaziguado,
10. Numa estela se pôs então o seu labor por inteiro.
11. Fez a muralha de Úruk, o redil,
12. E o sagrado Eanna, tesouro purificado.

29. Proeminente entre os reis, herói de imponente físico,
30. Valente rebento de Úruk, touro selvagem indomável:
31. Vai à frente, é o primeiro,
32. Atrás vai e protege os irmãos.
33. Margem firme, abrigo da tropa,
34. Corrente furiosa que destroça baluartes de pedra.
35. Amado touro de Lugalbanda, Gilgámesh perfeito em força,
36. Cria da sublime vaca, a vaca selvagem Nínsun.
37. Alto é Gilgámesh, perfeito, terrível:
38. Abriu passagens nas montanhas,
39. Cavou cisternas nas encostas do monte,
40. Atravessou o mar, o vasto oceano, até onde nasce Shámash,
41. Palmilhou os quatro cantos, em busca da vida,
42. Chegou, por sua força, ao remoto Uta-napíshti,
43. Repôs os templos arrasados pelo dilúvio,
44. Instituiu ritos para toda a humanidade.
45. Quem há que a ele se iguale em realeza
46. E como Gilgámesh diga: este sou eu, o rei?
47. A Gilgámesh, quando nasceu, renome lhe deram:
48. Dois terços ele é um deus, um terço é humano.

J. L. Brandão assinala que a narrativa se desenvolve, a partir de 1,63, ao longo das 11 tabuinhas, em 4 movimentos[8]:

a. Os excessos de Gilgámesh e a criação de Enkídu

O arrogante e poderoso Gilgámesh, rei de Úruk, dois terços divino e um terço humano, filho de um rei, Lugalbanda, e de uma deusa, Nínsun, não deixa em paz os jovens pois vive a desafiá-los para feitos esportivos, e, por outro lado, atormenta as famílias com seu insaciável apetite sexual por todas as jovens da cidade. Para rivalizar com Gilgámesh, Enkídu é criado da argila pela deusa mãe Bélet-Íli. Enkídu, criado selvagem e vivendo entre os animais, será humanizado e civilizado pelas ações da prostituta sagrada Shámhat, através do sexo, da culinária e da vida em sociedade, passando a viver em Úruk. Após uma feroz luta que acaba sem vencedores, Gilgámesh e Enkídu tornam-se grandes amigos, sendo esta amizade narrada com significativos tons eróticos.

b. Os feitos de Gilgámesh e Enkídu

Os dois amigos saem em busca de glória. Em uma expedição à floresta de cedros enfrentam o monstruoso guardião da mata, Húmbaba e levam madeira para a cidade. Após este feito glorioso, Gilgámesh desperta o desejo da deusa do amor Ishtar, que se lhe oferece como amante. Porém ele a recusa e dela desdenha como alguém que só traz infelicidade a quem dela se aproxima. Essa recusa leva a deusa a mandar contra Úruk o touro do céu para devastá-la. Mas, sempre em consequência da cooperação dos dois amigos, o touro é trucidado.

c. Enfermidade e morte de Enkídu. Gilgámesh busca a imortalidade

Os deuses decretam a morte de Enkídu em razão da morte do touro do céu. No leito de morte, Enkídu se lamenta e lança maldições. Após a morte de Enkídu, entretanto, o lamento é de Gilgámesh que não se conforma com a morte do amigo, pois reconhecendo sua própria mortalidade através da morte de Enkídu, passa a questionar o sentido da vida e o valor das realizações humanas em face do fim. E Gilgámesh parte para regiões remotas, para além do mundo dos homens, onde vive Uta-napíshti, sobrevivente do dilúvio, em busca do sentido da vida e, se possível, da imortalidade. Enfrentando vários perigos, encontra uma taberneira que lhe indica como chegar até Uta-napíshti. Após narrar como se deu o dilúvio, Uta-napíshti submete Gilgámesh a uma prova, na qual ele falha, mas também lhe indica onde achar uma planta que dá a quem a possui a eterna juventude. Entretanto uma serpente rouba-lhe a planta. Com as esperanças destruídas, Gilgámesh percebe que sua jornada foi em vão.

d. O retorno do herói a Úruk

Uta-napíshti o manda de volta para Úruk, com o barqueiro Ur-shánabi, onde ele admira as grandes muralhas que construíra. No final de sua jornada Gilgámesh não consegue a imortalidade, mas adquire sabedoria ao reconhecer os limites da condição humana. Na versão antiga encontra-se uma bela resposta da taberneira Shidúri à dor de Gilgámesh, que não foi aproveitada no poema de Sin-léqi-unnínni, mas que vale a pena considerar:

Gilgámesh, por onde vagueias?
A vida que buscas não a encontrarás:
Quando os deuses criaram o homem,
A morte impuseram ao homem,
A vida em suas mãos guardaram.

E Shidúri aconselha a Gilgámesh que aproveite a vida presente e seus prazeres enquanto pode. Mas há uma coisa interessante: como dito acima, este texto não está na versão clássica do poema, pois para Sin-léqi-unnínni o consolo de viver a alegria presente não é suficiente para vencer a fatalidade da morte. A verdadeira sabedoria é revelada, mais do que vivida. É a sabedoria de um “segredo” antigo, um “mistério” dos deuses, de tempos antigos, anterior ao dilúvio. A sabedoria adquirida por Gilgámesh na versão clássica não é a recomendada por Shidúri, mas a revelada por Uta-napíshti e gravada para a posteridade. É uma sabedoria transmitida pela palavra escrita, gravada na pedra (estela) por Gilgámesh, gravada nas tabuinhas de barro por Sin-léqi-unnínni.

 

3.2. A narrativa do dilúvio

Na tabuinha XI temos a narrativa do dilúvio feita por Uta-napíshti. Os especialistas concordam que o texto é uma adaptação de narrativa mais antiga, a Epopeia de Atrahasis. O texto pode ser lido em seis etapas:

a. Os deuses decidem em segredo mandar o dilúvio mas Ea o revela a Uta-napíshti

Assim começa Uta-napíshti o seu relato:

9. Descobrir-te-ei, Gilgámesh, palavras secretas
10. E um mistério dos deuses a ti falarei:
11. Shurúppak, cidade que tu conheces,
12. Cidade que às margens do Eufrates está
13. A cidade, ela é antiga e deuses dentro tem,
14. Ao proporem o dilúvio comandar a seu coração os grandes deuses.

Os deuses Anu, Énlil, Ninurta, Ennugi e Ea, juraram segredo sobre seu plano de mandar o dilúvio. Mas Ea contou o plano deles para Uta-napíshti e lhe disse para construir um barco. Ele lhe diz o que fazer:

27. Conserva a semente de tudo que vive no coração do barco!
28. O barco que construirás tu:
29. Seja proporcional seu talhe,
30. Seja igual sua largura ao comprimento,
31. Como o Apsu seja sua cobertura!

Uta-napíshti executa as ordens de Ea. Ao povo de Shurúppak ele diz que Énlil o odeia e ele não pode mais morar na cidade ou pisar no território de Énlil e que por isso irá para o Apsu para viver com Ea, seu senhor, que lhes dará chuva abundante, muitas aves e peixes e uma rica colheita de trigo e pão.

b. Construindo e lançando o barco

Os trabalhadores reuniram-se no portão de Atrahasis, construíram e abasteceram o barco. Então Uta-napíshti embarcou tudo o que tinha e, como determinara o deus Shámash, a porta foi selada:

81. Quanto eu tinha embarquei nele,
82. Quanto tinha embarquei de prata,
83. Quanto tinha embarquei de ouro,
84. Quanto tinha embarquei da semente de tudo que existe:
85. Fiz subir ao coração do barco toda minha família e meu clã,
86. O rebanho da estepe, os animais da estepe, os filhos dos artesãos.

95. Ao que calafetou o barco, Púzur-Énlil, o marinheiro.

c. A tempestade

Ao amanhecer uma nuvem negra surgiu no horizonte e, dentro dela, estava Adad, senhor da tempestade, enquanto os arautos da tempestade Shullar e Hanish iam à sua frente por montanhas e planícies. Tudo virou escuridão, os diques transbordaram, o vento soprou violento e as pessoas já não se reconheciam na torrente. Até os deuses ficaram apavorados com o dilúvio e se encolheram num canto como cães assustados. A inundação e o vento duraram seis dias e sete noites. A terra foi destruída como um jarro de barro. As pessoas, como peixes, boiavam nas águas.

128. Seis dias e sete noites
129. Veio vento, tempestade, vendaval, dilúvio.

d. Calma após a tempestade

No sétimo dia a tempestade passou, tudo ficou silencioso e Uta-napíshti viu que a humanidade se transformara em barro. Então ele chorou. Mas o barco encalhou no monte Nimush e ali ficou por vários dias. No sétimo dia, Uta-napíshti soltou uma pomba que voou, mas não achando onde pousar, voltou. Ele soltou uma andorinha, que também voltou. Então ele soltou um corvo, e ele não voltou ao barco.

130. O sétimo dia ao romper,
131. Amainou o vendaval, amainou o dilúvio sua guerra.
132. O que lutou como em trabalho de parto descansou, o mar.
133. Calou-se a tormenta. O dilúvio estancou.
134. Olhei o dia: posto em silêncio
135. E a totalidade dos homens tornara-se barro.

e. O sacrifício

Úta-napíshti oferece, em seguida, um sacrifício aos deuses que, atraídos por seu perfume, se reúnem como moscas ao seu redor. Os deuses conversam, então, sobre a responsabilidade do dilúvio e o extermínio dos humanos.

161. Os deuses sentiram o aroma,
162. Os deuses sentiram o doce aroma,
163. Os deuses, como moscas, sobre o chefe da oferenda amontoaram-se.

f. Uta-napíshti e sua esposa recebem a imortalidade e são levados para longe

Énlil, inicialmente indignado pela sobrevivência de um ser humano, acaba concordando em dar a Uta-napíshti e sua esposa a imortalidade e em estabelecê-los em terras longínquas. Énlil os abençoa, dizendo:

203. Antes Uta-napíshti era parte da humanidade,
204. Agora Uta-napíshti e sua mulher se tornem como nós, os deuses!
205. Resida Uta-napíshti ao longe, na boca dos rios!
206. Levaram-nos para longe, na boca dos rios puseram-nos.

 

4. A Epopeia de Atrahasis

4.1. O que é?

A Epopeia de Atrahasis (Supersábio) foi preservada em acádico em três tabuinhas, numa versão escrita pelo escriba Kasap-Aya no reinado de Ammi-Saduqa (1646-1626 a.C.), bisneto de Hammurabi. Atrahasis tem 1245 linhas. Outros manuscritos do mesmo período ou posteriores, dos períodos babilônicos médio e recente, assim como do assírio recente, concordam com esta versão de Kasap-Aya, embora existam algumas diferenças.

As tabuinhas, que estão no Museu Britânico, só foram totalmente publicadas em 1969 por W. G. Lambert e A. R. Millard. Ainda existem lacunas e muitos dados controvertidos são tema constante de debate entre os assiriólogos[9].

 

4.2. Resumo do poema

A Epopeia de Atrahasis começa falando de um tempo antes de existir a humanidade, quando o universo é dividido entre os três deuses maiores: Ánu, controla o céu; Énlil, a terra; Enki, o Apsu ou abismo. Há também uma série de divindades menores, os Igigi, que têm que trabalhar para os deuses mais antigos e superiores, os Anunnaki, ficando responsáveis ​​pela manutenção da terra, escavando cursos de água, canais e os rios Tigre e Eufrates. Na tabuinha I se lê:

1. Quando os deuses eram homens,
2. Eles fizeram trabalho forçado, eles suportaram trabalho penoso,
3. Grande, na verdade, foi a labuta dos deuses,
4. O trabalho forçado era pesado, a miséria demais:
5. Os sete grandes Anunnaki sobrecarregaram os deuses Igigi com trabalho forçado.

23. Os deuses Igigi escavaram cursos de água,
24. Canais eles abriram, a vida da terra.
25. Os Igigi escavaram o rio Tigre,
26. E, em seguida, o Eufrates.
27. Nascentes abriram das profundezas,
28. Poços … eles estabeleceram.

Insatisfeitos com o trabalho pesado, os Igigi rebelam-se e sugerem criar seres humanos para cuidar da terra para eles, bem como para fornecer os deuses com o sustento através das oferendas de grãos, vinho e sacrifícios animais. A deusa mãe Bélet-Íli concorda em fazer o ser humano com a argila fornecida por Enki e o sangue de um deus abatido. Este deus, Aw-ila, pode ter sido um dos líderes da revolta dos Igigi, mas, mais importante, é que o “espírito” deste deus torna-se parte do ser humano.

189. Bélet-Íli, progenitora, está presente,Tabuinha com a Epopeia de Atrahasis - British Museum
190. Deixe a deusa mãe criar um ser humano,
191. Que o homem assuma o trabalho dos deuses.

223. Abateram Aw-ila, que tinha o espírito,
224. Na assembleia,
225. Nintu misturou a argila com sua carne e sangue.
226. Esse mesmo deus e homem foram completamente misturados no barro.
227. No tempo restante eles ouviram o tambor.
228. Da carne do deus o espírito permaneceu.
229. Faria os vivos saberem o seu sinal,
230. Para que não seja esquecido, o espírito permanece.
231. Depois de misturar a argila,
232. Ela convocou os Anunnaki, os grandes deuses,
233. Os Igigi e os grandes deuses,
234. Eles cuspiram na argila.
235. Mami abriu a boca,
236. E disse aos grandes deuses:
237. “Vocês me ordenaram a tarefa
238. E eu a conclui.
239. Vocês abateram o deus, juntamente com seu espírito.
240. Eu afastei o vosso trabalho forçado pesado,
241. Eu transferi o vosso trabalho penoso para o homem.
242. Depositastes o clamor sobre a humanidade.
243. Eu liberei o jugo, eu fiz a restauração”.
244. Eles ouviram este discurso dela,
245. Eles correram, aliviados, e beijaram os seus pés, dizendo:
246. “Antes nós costumávamos chamá-la Mami,
247. Agora deixe o seu nome ser Senhora de todos os deuses (Bélet-kala-íli)”.

Este plano funciona bem no início, mas, eventualmente, os seres humanos multiplicam-se, e começam a fazer muito barulho como consequência do aumento da população. Énlil não suporta o distúrbio e decide eliminar a fonte do ruído, destruindo toda a humanidade.

Em primeiro lugar, Énlil envia uma praga, mas seu plano é frustrado pelo mais inteligente do povo, Atrahasis. Este é assistido por Enki, que é favorável à humanidade. Atrahasis mostra às pessoas como derrotar a praga – sacrificando ao deus específico que Énlil encarregou da propagação da doença mortal. De forma semelhante, ele leva as pessoas a derrotar as tentativas de Énlil para matar a humanidade pela seca e pela fome.

Finalmente, Énlil propõe inundar o mundo e afogar a barulhenta humanidade. Desta vez, ele obriga todos os deuses a jurar que vão aderir ao plano, a não advertirem Atrahasis, e não se deixarem influenciar por oferendas ou sacrifícios. Enki consegue avisar Atrahasis sem tecnicamente quebrar o seu juramento: ele envia a mensagem para as paredes da casa de Atrahasis, onde Atrahasis não pode deixar de ouvir. Atrahasis constrói, seguindo conselhos de Enki, um barco para ele, sua família e os animais. Toda a terra é inundada por sete dias e noites e todos morrem. Somente aqueles a bordo do barco sobrevivem.

Embora Énlil resolva o problema do barulho da humanidade, o dilúvio não é uma experiência positiva para os deuses. Privados de seus servos humanos, percebem, então, quanto estão dependentes de seus trabalhadores. Por isso, eles providenciam o repovoamento do mundo, tomando, entretanto, medidas contra a superpopulação, como a mortalidade, e limites para a reprodução, através da infertilidade das mulheres, de demônios que atacam os bebês, de grupos de mulheres celibatárias e, talvez, de outras medidas que desconhecemos. Mortalidade e reprodução limitada são, portanto, condições necessárias para que os humanos possam viver em paz com os deuses na era pós-diluviana.

 

Bibliografia

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Para uma bibliografia mais ampla e comentada, cf. Histórias do Antigo Oriente Médio: uma bibliografia, post publicado no Observatório Bíblico em 27 de maio de 2017.

>> Bibliografia atualizada em 10.01.2018

Artigos


[1]. Cf. POLLOCK, S.; BERBECK, R. (eds.) Archaeologies of the Middle East: Critical Perspectives. Hoboken, NJ: Wiley-Blackwell, 2005, p. 6; MALLEY, S. Layard enterprise: victorian archaeology and informal imperialism in Mesopotamia. International Journal of Middle East Studies, Cambridge, 40(4), p. 623-646, 2008; LIVERANI, M. Imagining Babylon: The Modern Story of an Ancient City. Berlin: Walter de Gruyter, 2016, p. 23-31; POTTS, D. T. (ed.) A Companion to the Archaeology of the Ancient Near East. 2 vols. Hoboken, NJ: Wiley-Blackwell, 2012, p. 48-69; FOSTER, B. R. Before the Muses: An Anthology of Akkadian Literature. 3. ed. Bethesda, Md.: CDL Press, 2005, p. 1-12. Para recursos online, cf. Histórias do Antigo Oriente Médio: alguns recursos online, post publicado no Observatório Bíblico em 14 de agosto de 2017.

[2]. Cf. CLIFFORD, R. J. Creation Accounts in the Ancient Near East and in the Bible. Washington: The Catholic Biblical Association of America, 1994, p. 7-98; PONGRATZ-LEISTEN, B. Religion and Ideology in Assyria. Berlin: Walter de Gruyter, 2015, p. 10-41; LIVERANI, M. Assiria: La preistoria dell’imperialismo. Bari: Laterza, 2017.

[3]. Cf. LAMBERT, W. G. Babylonian Creation Myths. Winona Lake, Indiana: Eisenbrauns, 2013. Recomendo também FELIU MATEU, L. ; MILLET ALBÀ, A. Enuma Elish y otros relatos babilónicos de la Creación. Madrid: Trotta, 2014. Saiba mais no Observatório Bíblico em O Enuma Elish e outras histórias; O Enuma Elish e outras histórias: notas de leitura e Enuma Elish e outras histórias de criação.

[4]. Cf. uma descrição da festa em Akitu – Festival do Ano Novo na Babilônia, post publicado no Observatório Bíblico em 19 de outubro de 2017.

[5]. Quando, neste artigo, um bloco de texto for transcrito será apenas a partir de traduções do inglês ou outra língua e não uma tradução do original acádico. Não recomendo sua reprodução. Para os textos, recomendo: Lambert (2013) para o Enuma Elish, George (2003) e Brandão (2017) para a Epopeia de Gilgámesh e Foster (2005) mais Bottéro/Kramer (1993) para a Epopeia de Atrahasis. Cf., sobre isso, Algumas observações sobre a reunião dos biblistas mineiros em 2017, post publicado no Observatório Bíblico em 17 de julho de 2017.

[6]. Cf. SERI, A. The Role of Creation in Enuma Elish. Journal of Ancient Near Eastern Religions, v. 12, 2012, p. 25-26. Saiba mais em A importância das várias criações no Enuma Elish, post publicado no Observatório Bíblico em 4 de outubro de 2017.

[7]. Cf. GEORGE, A. R. The Babylonian Gilgamesh Epic: Introduction, Critical Edition and Cuneiform Texts. 2 vols. Oxford: Oxford University Press, 2003; GEORGE, A. R. The Epic of Gilgamesh: The Babylonian Epic Poem and Other Texts in Akkadian and Sumerian. Rev. ed. Harmondsworth: Penguin, 2016;  AL-RAWI, F. N. H. ; GEORGE, A. R. Back to the Cedar Forest: The Beginning and End of Tablet V of the Standard Babylonian Epic of Gilgamesh. Journal of Cuneiform Studies, v. 66, p. 69-90, 2014. Cf. também BRANDÃO, J. L. Ele que o abismo viu: Epopeia de Gilgámesh. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.

[8]. Os textos aqui reproduzidos são da tradução de Brandão (2017). Cf. BRANDÃO, J. L. Ele que o abismo viu: Epopeia de Gilgámesh. Belo Horizonte: Autêntica, 2017; BRANDÃO, J. L. Como se faz um herói: as linhas de força do poema de Gilgámesh. E-Hum, Belo Horizonte, v. 8, n. 1, p. 104-121, 2015; BRANDÃO, J. L. Sin-leqi-unninni, Ele o abismo viu (Série de Gilgámesh 1). Nuntius Antiquus, Belo Horizonte, v. X, n. 2, jul.-dez., p. 125-159, 2014; ; ABUSCH, T. Male and Female in the Epic of Gilgamesh: Encounters, Literary History, and Interpretation. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 2015. Saiba mais em Histórias do Antigo Oriente Médio: uma bibliografia, post publicado no Observatório Bíblico em 27 de maio de 2017.

[9]. Cf. LAMBERT, W. G. ; MILLARD, A. R. Atra-Hasis: The Babylonian Story of the Flood. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1999; FOSTER, B. R. Before the Muses: An Anthology of Akkadian Literature. 3. ed. Bethesda, Md.: CDL Press, 2005, p. 227-280; BOTTÉRO, J. ; KRAMER, S. N. Lorsque les dieux faisaient l’homme: Mythologie Mésopotamienne. Paris: Gallimard, 1993, p. 526-601; CLIFFORD, R. J. Creation Accounts in the Ancient Near East and in the Bible. Washington: The Catholic Biblical Association of America, 1994, p. 74-82.

Última atualização: 09.09.2020 – 07h54

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