Patriarcas? Que patriarcas? Lester Grabbe explica 2

Estou lendo o livo de GRABBE, L. L. The Dawn of Israel: History of the Land of Canaan in the Second Millennium BCE. London: T&T Clark, 2022, 320 p. – ISBN 9780567663214.

Há uma apresentação do livro em Canaã no segundo milênio a.C., post publicado no Observatório Bíblico em 09.05.2022.GRABBE, L. L. The Dawn of Israel: History of the Land of Canaan in the Second Millennium BCE. London: T&T Clark, 2022, 320 p.

Na Parte II, sobre a Idade do Bronze Médio (ca. 2000-1600 a.C.), no capítulo 4, Lester L. Grabbe aborda a história da Síria e da Palestina. Ele diz na conclusão deste capítulo:

Este capítulo concentrou-se na Síria e na Palestina durante a Idade do Bronze Médio. Este foi um período importante para se considerar a ancestralidade dos israelitas, especialmente porque o texto bíblico, assim como alguns estudiosos, situa o conteúdo das narrativas patriarcais (Gênesis 11–50) no início do segundo milênio a.C. Mas, antes de analisar o material bíblico, seria apropriado um panorama da história da Síria-Palestina, conforme conhecida a partir de registros contemporâneos.

O capítulo 4 tem o seguinte estrutura:

4.1. Fontes

4.2. História da Síria
4.2.1. Ugarit
4.2.2. Biblos (Cubla)
4.2.3. Amoritas
4.2.4. Yamhad

4.3. História da Palestina/Canaã
4.3.1. Arqueologia
4.3.2. Referências textuais egípcias
4.3.3. Os hicsos

4.4. A questão dos patriarcas

4.5. Conclusões

Vou abordar aqui os itens sobre a questão dos patriarcas e as conclusões.

 

O texto foi publicado em 2 posts:

Patriarcas? Que patriarcas? Lester Grabbe explica 1

Patriarcas? Que patriarcas? Lester Grabbe explica 2

A bibliografia, que está no final deste post, é apenas a citada pelo autor neste item. As notas assinaladas com * são minhas.

Reestruturei o texto em formato de perguntas e respostas.

 

E a história de José?
. O principal estudo continua sendo o de D. B. Redford (1970a). Ele investigou os paralelos e referências egípcias no relato. Alguns desses elementos ocorrem já no Reino Médio [2040-1640 a.C.], mas os potencialmente antigos também aparecem em períodos posteriores da história egípcia. Além disso, vários outros só são encontrados tardiamente, nos períodos saíta [ca. 664–525 a.C.] e posteriores. Isso sugere que a narrativa foi escrita entre os séculos XVII e V a.C. (Redford 1970a: 252–3; cf. também Schipper 2018). A. Soggin (2000) a dataria ainda mais tarde. Alguns exemplos de elementos tardios ou anacrônicos incluem:

1. Gênesis 41, 43 [(O Faraó fez José) subir sobre o melhor carro que havia depois do seu, e gritava-se diante dele: “Abrec”. Assim foi ele preposto a toda a terra do Egito]: Acredita-se que Abrec (אברך) seja derivado da palavra acádia abarakku, um dos significados da qual é “administrador-chefe de uma casa privada ou real” (CAD, vol. 1 A, parte I, 32-35), às vezes escrita (ou confundida com) abriqqu; cf. Croatto 1966; Soggin 2000: 166; Redford 1970a: 226–8). Existe também a palavra fenícia הברך (Karatepe Ai 1 [discutida em SSI 3:56]), que alguns interpretam como ‘vizir’ ou similar, e que também pode ser um empréstimo do acádio. Embora palavras egípcias tenham sido propostas, esta parece ser a solução mais provável. Mas é improvável que funcionários egípcios estivessem usando uma palavra acádia no Reino Médio.

2. O nome Potifar (פוטיפרDonald Bruce Redford (1934-2024)) é claramente de origem egípcia; significa ‘aquele a quem Rá dá’ (Pʒ-di̓-pʒ-R‘) e é atestado desde o período saíta até o ptolomaico (Redford 1970a: 228–31).

3. Gênesis 40,15: ‘terra dos hebreus [העברים]’ como designação para a Palestina não teria sido usado no início do segundo milênio, especialmente considerando a origem do termo. Naturalmente, tal uso não ocorre em textos egípcios do Médio e Novo Reinos. Aparentemente, ocorre em textos dos períodos saíta, persa e ptolomaico (Redford 1970a: 201–3).

4. Gênesis 41,42: ‘colar de ouro em volta do seu pescoço’ (Schipper 2011; Redford 1970a: 208–26). A expressão egípcia ‘ouro de honra’ (nbw n[.y] hsw.t) é atestada desde o Reino Novo. O que é significativo no exemplo de José, contudo, é que um estrangeiro é investido de honra e recebe uma posição administrativa. Isso não é conhecido no Reino Novo ou em períodos anteriores, mas Schipper (2011: 334–6) cita um exemplo na época de Psamético I (século VII a.C.) em que um estrangeiro (um grego) recebe um “colar de ouro” (ΨΙΛΟΝ ΤΕ ΧΡΥΣΕΟΝ) para o pescoço e o comando de uma cidade.

5. Cabe mencionar a datação linguística. J. Joosten (2019) apontou que a história de José está em Hebraico Bíblico Padrão (também chamado de Hebraico Bíblico Clássico) e não em Hebraico Bíblico Tardio, sugerindo que a história seja pré-exílica*. É importante notar que a atribuição do livro aos períodos saíta e persa, feita por Redford, permite que a história seja datada para incluir o período do Hebraico Bíblico Padrão, mesmo de acordo com a datação de Joosten (que considera que o Hebraico Bíblico Padrão foi usado até cerca de 500 a.C., enquanto o Hebraico Bíblico Tardio foi estabelecido em meados do século V [Joosten 2005]). Isso não permitiria uma data persa posterior ou ptolomaica, mas os argumentos de Redford parecem permitir uma data entre 700 e 500 a.C.; parece que o livro não precisa ser pré-exílico, mesmo pelos padrões de Joosten, e a datação de Redford não é descartada por considerações linguísticas.

Há muitos anacronismos nas narrativas patriarcais do Gênesis?
. As narrativas patriarcais em Gênesis, em sua forma atual, refletem uma época posterior, com muitos detalhes anacrônicos: os filisteus na terra muito antes da migração dos “povos do mar”**; os arameus (Gênesis 22,21; 24,10), que são atestados pela primeira vez por volta de 1100 a.C. em uma inscrição de Tiglat-Pileser I; os caldeus (Gênesis 11,28), que são atestados depois de 1000 a.C., mas são principalmente importantes no período neobabilônico (Ramsey 1981: 40-42) – enquanto a migração de Ur apresenta um paralelo interessante com o retorno do exílio. Houve certo debate sobre a presença de camelos no Gênesis: Albright argumentou que isso era anacrônico e fazia de Abraão um caravaneiro de jumentos, mas Gordon e alguns conservadores alegaram haver evidências da domesticação de camelos em uma época anterior. As evidências mais recentes da domesticação de camelos na Palestina, no entanto, parecem não ser anteriores à Idade do Ferro, com a concentração de ossos em Tell Jemmeh, aparentemente um centro de caravanas, datando do século VII a.C. (Sapir-Hen/Ben-Yosef 2013; Wapnish 1997; Zarins 1978; Na’aman 1994c: 225–7; Finkelstein/Silberman 2001: 37). A pesquisa mais recente conclui o seguinte: “Os dados atuais dos sítios de fundição de cobre do vale do Arabá permitem-nos identificar com maior precisão a introdução de camelos domésticos no Levante meridional, com base em contextos estratigráficos associados a um extenso conjunto de datações por radiocarbono. Os dados indicam que este evento ocorreu não antes do último terço do século X a.C. e, muito provavelmente, durante esse período… As observações do vale do Arabá estão de acordo com os relatos do Neguev e das terras povoadas, que demonstram uma alta frequência de restos de camelos apenas a partir da Idade do Ferro IIA”. [Sapir-Hen/Ben-Yosef 2013: 282–3]

 

Conclusões

Ugarit já era uma importante cidade-estado costeira no terceiro milênio a.C.?
. Este capítulo concentrou-se na Síria e na Palestina durante a Idade do Bronze Médio. Este foi um período importante para se considerar a ancestralidade dos israelitas, especialmente porque o texto bíblico, assim como alguns estudiosos, situa o conteúdo das narrativas patriarcais (Gênesis 11–50) no início do segundo milênio a.C. Mas, antes de analisar o material bíblico, seria apropriado um panorama da história da Síria-Palestina, conforme conhecida por registros contemporâneos. No norte da Síria, a cidade de Ugarit era uma importante cidade-estado costeira já no terceiro milênio a.C., embora saibamos pouco sobre ela. Mais informações estão disponíveis na Idade do Bronze Médio, mas os registros contemporâneos são escassos. A maior parte desse período parece ter estado sob o domínio de Yamhad. A única lista possível de reis provém de um texto da Idade do Bronze Recente, e não há consenso sobre uma sequência de reis para a Idade do Bronze Médio. O que sabemos sobre Ugarit nessa época provém principalmente de textos cuneiformes de Mari e similares.

Por que os amoritas permanecem um enigma?
. Um grupo importante, porém um tanto enigmático, eram os amoritas. Eles já são mencionados em textos de Ebla e da época da III dinastia de Ur e foram claramenteBabilônia, Yamhad e Qatna ca. 1750 a.C. importantes no período mesopotâmico antigo. As referências parecem ser de dois tipos: referências a tribos (principalmente) pastoris nas estepes de ambos os lados do Eufrates e na região de Jebel Bishri, que são frequentemente apresentadas como povos bárbaros e incultos; mas muitas referências são a pessoas que viviam em cidades sumérias e acádias e foram assimiladas à cultura urbana mesopotâmica. Em alguns casos, são conhecidos apenas por seus nomes, não por serem rotulados como amoritas. Grande parte da informação, especialmente sobre sua língua, provém dos nomes amoritas, além de algumas palavras incorporadas em textos cuneiformes. Embora essa língua tenha sido frequentemente designada como semítico do noroeste, a análise mais recente afirma que não há dados suficientes para classificá-la: ela tem algumas características em comum com o semítico do noroeste, mas outras importantes são mais semelhantes ao semítico do leste (o acádio). A antiga hipótese de que houve uma migração em massa de amoritas para o sul, em direção ao sul da Síria e à Palestina, foi em grande parte abandonada. Assim, os amoritas permanecem um enigma, e sua relevância para as origens israelitas é muito incerta.

Yamhad foi um importante estado no norte da Síria?
. Yamhad foi um importante estado no norte da Síria durante alguns séculos da Idade do Bronze Médio. Com capital em Alepo, possuía diversos estados menores sob seu domínio, incluindo Alalakh e, em alguns períodos, Carquemis e Ugarit. Enfrentou a oposição do estado vizinho de Qatna, mas principalmente do rei Shamshi-Adad I da Assíria. Contudo, contava com aliados em Eshnunna e Babilônia e sobreviveu aos ataques de Shamshi-Adad. Enquanto Yamhad havia sido combatida por Mari, com a morte de Shamshi-Adad, o novo governante Zimri-Lim formou uma aliança com Yamhad. Conhecemos os nomes de diversos governantes ao longo de 200 anos. Por volta de 1600 a.C., Mursili I de Hatti pôs fim ao reino sírio.

E a Palestina?
Como de costume, a Palestina é conhecida principalmente por meio da arqueologia, embora textos egípcios (incluindo os Textos de Execração) nos forneçam alguns nomes de cidades em Canaã. O período da Idade do Bronze Médio foi marcado por intensa urbanização, com a população urbana estimada em cerca de uma vez e meia maior que a rural. Muitas localidades eram fortificadas. Houve um aumento significativo de assentamentos nas regiões montanhosas, especialmente durante a Idade do Bronze Médio I, embora a região central das montanhas tenha sido povoada principalmente durante as Idades do Bronze Médio II e III. Grandes sítios arqueológicos incluem nomes conhecidos como Siquém, Silo, Hebron e Jerusalém. Hazor foi um importante entroncamento comercial com a Síria e até mesmo com a Mesopotâmia. O comércio com o Egito também foi importante, especialmente com Biblos inicialmente, mas gradualmente se deslocou para o sul. A Idade do Bronze Médio terminou com um colapso generalizado.

O que sabemos sobre os hicsos?
. A 15ª dinastia do Segundo Período Intermediário foi a dinastia dos hicsos, embora alguns argumentem que a 14ª dinastia também era composta por governantes, em parte ou totalmente, de origem asiática. O argumento de que os hicsos formaram uma força invasora que estabeleceu seu domínio pela violência está hoje em grande parte abandonado. Estudos genéticos e arqueológicos sugerem que o povo que compunha a população dos hicsos em torno de sua capital, Aváris, vivia ali há algum tempo, por várias gerações. Eles não tinham uma única origem, mas parecem ser um grupo de asiáticos ocidentais que viveram no Egito por vários séculos antes de estabelecerem domínio sobre uma parte do delta do Nilo. Há relatos de migrantes asiáticos que se estabeleceram no Egito, temporária ou permanentemente, desde o terceiro milênio a.C. No entanto, sua cultura e religião, assim como sua genética, indicam uma conexão com o Levante. Sugere-se que a elite tinha ligações principalmente com o norte do Levante.

Baixo Egito, onde está localizada a capital dos hicos, AvarisQual foi o fim dos hicsos?
. Após cerca de um século de domínio, a dinastia dos hicsos chegou ao fim. Um dos últimos reis da XVII Dinastia pode ter sido morto lutando contra os hicsos, mas o último rei da dinastia avançou ao tomar Aváris, enquanto o primeiro rei da XVIII Dinastia os perseguiu até Sharuhen (talvez Tell el-‘Ajjul ou Tel Haror/Tell Abû Hureirah). Na verdade, a maior parte da população provavelmente permaneceu onde estava, com apenas alguns membros da elite fugindo para Canaã, mas mesmo lá foram atacados e derrotados. Depois disso, não temos mais informações, mas presume-se que simplesmente se reintegraram à população de Canaã. É possível que alguns deles estejam entre os ancestrais de Israel, mas não temos como saber.

Em resumo, o que sabemos sobre os patriarcas descritos no Gênesis?
. A questão, finalmente, é se os ancestrais israelitas podem ser encontrados nas histórias sobre os patriarcas em Gênesis. Nos estudos acadêmicos de língua inglesa, era comum durante as décadas de 1950 e 1960 atribuir “historicidade substancial” às narrativas patriarcais. Isso deixou de ser verdade devido a uma série de estudos iniciados em meados da década de 1970. É verdade que houve um breve momento de euforia quando a decifração inicial dos textos de Ebla levou à alegação de que paralelos notáveis ​​com os eventos do Gênesis poderiam ser encontrados nos arquivos de Ebla. Mas essas alegações se revelaram ilusões prematuras, e com um estudo mais cuidadoso, descobriu-se que os supostos paralelos simplesmente não existiam. Diversas considerações agora minam qualquer alegação de historicidade substancial: as narrativas do Gênesis parecem refletir o século VIII a.C. ou algo próximo disso; a história de José parece se passar no período saítico (séculos VII-VI a.C.); vários dos supostos ancestrais e parentes de Abraão são, na verdade, nomes de cidades e vilas; os melhores paralelos para costumes e práticas nas histórias parecem ser de épocas posteriores, incluindo o período neobabilônico; e a arqueologia não encontrou evidências de que os locais mencionados nas histórias tenham sido povoados na Idade do Bronze Médio, enquanto alguns dos locais que se sabe terem sido habitados naquela época não são mencionados. Para a Idade do Bronze Médio, portanto, há muito pouco que possa ser considerado parte da ancestralidade israelita. As histórias dos patriarcas parecem ter sido compostas muito tarde (século VIII a.C. ou posterior) e demonstram pouca evidência de conhecimento do contexto do início do segundo milênio a.C. O que é mais promissor é que povos “asiáticos” migraram para o delta do Nilo ao longo de vários séculos, e uma dinastia de hicsos chegou a governar a região por cerca de um século. É bem possível que alguns dos ancestrais de Israel estivessem entre esses povos, mas além disso não podemos ir.

 

* Sobre a divisão do hebraico bíblico em estágios, cf. Quatro fases do hebraico bíblico, post publicado no Observatório Bíblico em 27.02.2024.

** Sobre os “povos do mar”, cf. A crise da Idade do Bronze Recente e o fenômeno dos “povos do mar”, item 2.2 da História de Israel, publicada na Ayrton’s Biblical Page – Última atualização: 19.07.2025 e 1177 a.C.: o ano em que a civilização entrou em colapso, post publicado no Observatório Bíblico em 09.07.2019.

 

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Wapnish, Paula. 1997. ‘Camels’, OEANE 1:407–8.

Patriarcas? Que patriarcas? Lester Grabbe explica 1

Estou lendo o livo de GRABBE, L. L. The Dawn of Israel: History of the Land of Canaan in the Second Millennium BCE. London: T&T Clark, 2022, 320 p. – ISBN 9780567663214.

Há uma apresentação do livro em Canaã no segundo milênio a.C., post publicado no Observatório Bíblico em 09.05.2022.GRABBE, L. L. The Dawn of Israel: History of the Land of Canaan in the Second Millennium BCE. London: T&T Clark, 2022, 320 p.

Na Parte II, sobre a Idade do Bronze Médio (ca. 2000-1600 a.C.), no capítulo 4, Lester L. Grabbe aborda a história da Síria e da Palestina. Ele diz na conclusão deste capítulo:

Este capítulo concentrou-se na Síria e na Palestina durante a Idade do Bronze Médio. Este foi um período importante para se considerar a ancestralidade dos israelitas, especialmente porque o texto bíblico, assim como alguns estudiosos, situa o conteúdo das narrativas patriarcais (Gênesis 11–50) no início do segundo milênio a.C. Mas, antes de analisar o material bíblico, seria apropriado um panorama da história da Síria-Palestina, conforme conhecida a partir de registros contemporâneos.

O capítulo 4 tem o seguinte estrutura:

4.1. Fontes

4.2. História da Síria
4.2.1. Ugarit
4.2.2. Biblos (Cubla)
4.2.3. Amoritas
4.2.4. Yamhad

4.3. História da Palestina/Canaã
4.3.1. Arqueologia
4.3.2. Referências textuais egípcias
4.3.3. Os hicsos

4.4. A questão dos patriarcas

4.5. Conclusões

Vou abordar aqui os itens sobre a questão dos patriarcas e as conclusões.

 

O texto foi publicado em 2 posts:

Patriarcas? Que patriarcas? Lester Grabbe explica 1

Patriarcas? Que patriarcas? Lester Grabbe explica 2

A bibliografia, que está no final do segundo post, é apenas a citada pelo autor neste item. As notas assinaladas com * são minhas.

Reestruturei o texto em formato de perguntas e respostas.

 

A questão dos patriarcas

Por que é importante discutir as narrativas patriarcais?
. Como alguns acreditam que a história de Israel começa a ser registrada a partir de Abraão e dos patriarcas, uma discussão sobre as narrativas patriarcais se faz necessária. Uma discussão completa e adequada exigiria um livro inteiro – aliás, livros inteiros já foram dedicados ao assunto –, mas podemos apresentar aqui um esboço para demonstrar que a confiança em encontrar história em Gênesis 11–50 é equivocada. Os estudiosos tendem há muito tempo a considerar os primeiros capítulos do Gênesis – as histórias da criação, de Adão e Eva, do dilúvio, da torre de Babel – como lendas. Contudo, repentinamente, ao chegar em Gn 11,27, tornou-se comum até mesmo entre os especialistas enxergar ali o início da historiografia israelita (que então atravessaria o Pentateuco e iria além, até o final de 2 Reis). Alguns ainda mantêm essa visão, embora isso seja hoje uma grande exceção.

A historicidade das narrativas patriarcais era defendida pelo Movimento da Teologia Bíblica?
. Para compreender a evolução do pensamento sobre o assunto, observe que essa perspectiva foi fundamental para o que se convencionou chamar de Movimento da Teologia Bíblica (descrito por B. Childs [1970], cujo estudo, em certo sentido, também escreveu o epitáfio do movimento). Não se tratava de uma leitura fundamentalista, mas um dos pilares centrais do Movimento da Teologia Bíblica era a “revelação de Deus na história”, o que significava que a Bíblia deveria ser “levada a sério” como história. Isso incluía o chamado período patriarcal. Houve, naturalmente, um debate, com os estudiosos norte-americanos tendendo a dar mais crédito às narrativas, enquanto os europeus se mostravam mais céticos, mas uma variedade de pontos de vista foi defendida em ambos os lados do Atlântico.

Membros importantes da “escola de Albright” pertenciam ao Movimento da Teologia Bíblica?
. O Movimento da TeWilliam Foxwell Albright (1891-1971)ologia Bíblica foi abraçado por estudiosos de diversas tradições religiosas, mas alguns dos representantes mais proeminentes pertenciam à “escola de Albright”, notadamente G. E. Wright (cf. 1950, 1952). Wright não era fundamentalista — aliás, Albright também não era —, mas a linguagem que utilizavam por vezes parecia defender uma interpretação literal da Bíblia, o que tendia a ser bem recebido pelos cristãos conservadores. Acontece que, apesar da linguagem, Wright e outros não acreditavam que os “atos de Deus” envolvessem milagres literais, como o mar se abrindo diante dos israelitas para que pudessem atravessá-lo a pé enxuto. Contudo, uma versão do “período patriarcal”, que concebia algum tipo de início histórico com Gn 11,27, foi aceita por muitos estudiosos nas décadas de 1950, 1960 e 1970.

Mas em que época os albrightianos colocavam os patriarcas?
. Um dos problemas imediatamente encontrados foi definir a que período histórico as narrativas patriarcais deveriam se referir. A escola de Albright parecia seguir uma versão da cronologia intrabíblica e situava Abraão por volta de 2000 a.C., o que faria o “período patriarcal” coincidir aproximadamente com a Idade do Bronze Médio. Mas, considerando a falta de confiabilidade dos números bíblicos em Gênesis, não havia razão para seguir a cronologia bíblica, e outros que davam crédito às narrativas patriarcais como se fossem de alguma forma história, contentavam-se em datá-las em uma época diferente. De fato, vários outros estudiosos dataram os patriarcas muitos séculos depois de Albright e Bright: no final da Idade do Bronze Médio, na Idade do Bronze Recente e até mesmo na Idade do Ferro I (cf. Dever 1977: 93–6; Clark 1977: 143–8).

Alguns exemplos?
. Por exemplo, O. Eißfeldt e H. H. Rowley defenderam o século XV a.C. A. Alt e seu aluno M. Noth seguiram o princípio de Wellhausen de que o conteúdo dos textos refletia a história da época em que foram compostos. O interesse de Alt nos textos patriarcais residia principalmente na religião que ali poderia estar refletida (cf. Alt 1966). Talvez a datação mais exótica tenha sido a de C. H. Gordon, que argumentou que Abraão era um “príncipe mercador; um tamkârum do reino hitita” (Gordon 1958: 31; 1962), que viveu no período de Amarna (século XIV a.C.), para o qual encontrou paralelos nos textos do antigo Oriente Médio.

As conclusões de John Bright são um bom exemplo das posições albrightianas?
. A escola de Albright foi particularmente eficaz em promover a ideia de que as tradições patriarcais continham “historicidade substancial” de cerca de 2000 a.C. ABRIGHT, J. História de Israel. Edição revista e ampliada a partir da 4. edição original. 7. ed. São Paulo: Paulus, 2003, 640 p. seguinte declaração de J. Bright (1980: 77) é exemplar: “Quando as tradições são examinadas à luz da evidência, a primeira afirmação a ser feita é a que já foi sugerida, isto é, que a história dos patriarcas enquadra-se autenticamente no ambiente do segundo milênio, especificamente no ambiente dos séculos descritos no capítulo precedente [séculos XX a XVII a.C.], e não no ambiente de qualquer outro período posterior. Isso pode ser registrado como um fato histórico. A evidência é tão grande que não temos nenhuma necessidade de reconsiderarmos o assunto*”.

Mas este consenso foi rompido na década de 1970?
. Contudo, esse consenso começou a ruir na década de 1970, com a publicação de dois estudos independentes, com abordagens bastante diferentes, que, no entanto, chegaram a conclusões semelhantes. Tratava-se das monografias de Thomas L. Thompson (1974) e John Van Seters (1975). Eles argumentaram que o conteúdo das narrativas patriarcais bíblicas estava repleto de dados anacrônicos e dificilmente poderia representar a história genuína do início do segundo milênio a.C. Albright havia falecido em 1971 e não estava mais presente para dominar o debate, e os estudos de Thompson e Van Seters tiveram um impacto significativo**.

Entretanto os arquivos de Ebla deram novo fôlego à historicidade das narrativas patriarcais?
. Contudo, pouco depois de sua publicação, uma nova descoberta pareceu dar considerável apoio à visão mais conservadora. Tratava-se da descoberta e decifração inicial dos arquivos de Ebla em Tell Mardikh, na Síria, a partir de 1975***. Logo após a descoberta dos textos, o epigrafista G. Pettinato começou a conceder entrevistas – às vezes a outros estudiosos, mas também à imprensa popular – nas quais apresentou paralelos surpreendentes entre os textos de Ebla e os capítulos patriarcais do Gênesis. Esses paralelos foram avidamente aproveitados por alguns para sustentar conclusões conservadoras sobre a historicidade das narrativas patriarcais. Uma das afirmações mais provocativas foi a de que não apenas os nomes de Sodoma e Gomorra, mas também os de outras cidades da planície foram encontrados em uma única tabuinha de Ebla, listados na mesma ordem que na Bíblia (por exemplo, New York Times, 16 de janeiro de 1979; veja também Archi [1979: 562–3] e as referências ali citadas).

Baseado na interpretação de Giovanni Pettinato, David Noel Freedman escreveu um artigo, em 1978, atacando Thomas L. Thompson e John Van Seters?
THOMPSON, T. L. The Historicity of the Patriarchal Narratives: The Quest for the Historical Abraham, Berlin: Walter de Gruyter, [1974] 2016, 402 p.. Com base no que (supostamente) Pettinato lhe contou, D. N. Freedman (1978) escreveu um artigo bastante polêmico no qual atacou Thompson e Van Seters. Nele, referiu-se às “descobertas arqueológicas recentes” que, segundo ele, corroboravam a historicidade básica das narrativas patriarcais, “enfraquecendo, de forma eficaz, o ceticismo e a sofística predominantes da maioria dos estudiosos continentais e americanos” (Freedman 1978: 144). Embora admita que as narrativas contenham uma “mistura do lendário e do mítico”, elas nos fornecem informações que nos permitem afirmar algo sobre as datas (pelo menos de algumas delas), os lugares de onde vieram e para onde foram, seu trabalho e até mesmo sobre seu legado de fé e prática (Freedman 1978: 145). Ele prosseguiu mencionando uma tabuinha com os nomes das cinco cidades da planície – na mesma ordem da Bíblia – embora admitisse não ter visto a tabuinha e estar se baseando em uma conversa com Pettinato. Mas, com base nisso, concluiu que Thompson, Van Seters e outros que situaram as narrativas no primeiro milênio a.C. haviam se equivocado – elas deveriam agora ser situadas no início da Idade do Bronze, o terceiro milênio a.C.

Mas Giovanni Pettinato concluiu que estava equivocado em sua interpretação dos textos de Ebla?
. Mas, justamente quando o artigo estava sendo impresso, Freedman recebeu uma notícia perturbadora: Pettinato aparentemente havia se retratado de algumas de suas identificações. O artigo de Freedman foi publicado como ele o havia escrito, mas um texto introdutório chamou a atenção dos leitores para a suposta retratação de Pettinato. O resultado foi que a defesa da historicidade, baseada no texto bíblico, foi essencialmente anulada. Levou algum tempo para a situação se estabilizar, mas, em poucos anos, o uso de Ebla como defesa das narrativas patriarcais foi silenciado. Quando o livro de Pettinato (1991) foi publicado em inglês, não havia menção a Sodoma e Gomorra ou às cidades da planície. Uma série de afirmações sobre Ebla e a Bíblia simplesmente desapareceram.

Sobre este episódio, o que disse o assiriólogo R. Biggs em 1979?
. O Washington Post (9 de dezembro de 1979) entrevistou o assiriólogo R. Biggs sobre as tabuinhas de Ebla quase na mesma época em que o artigo de Freedman foi publicado: “Na minha opinião, paralelos com a Bíblia estão completamente fora de questão neste momento”, disse Biggs em um encontro de jornalistas científicos patrocinado pelo Conselho para o Avanço da Escrita Científica. “As pessoas que buscam nas tabuinhas de Ebla provas da autenticidade da Bíblia ficarão profundamente decepcionadas”. “Pelo menos um renomado estudioso bíblico considerou a interpretação inicial como evidência da realidade histórica das duas cidades [Sodoma e Gomorra]”, disse Biggs. “Mas, infelizmente, descobriu-se que correções na leitura dos nomes eliminaram os nomes dos patriarcas e que, em todo caso, eles não constavam na mesma tabuinha que o que se supunha ser Sodoma e Gomorra.” Atualmente, ainda existe um interesse e debate vivos sobre Ebla entre os estudiosos, mas raramente os relacionam ao texto bíblico. Ebla deixou de aparecer nas discussões acadêmicas padrão sobre Gênesis.

Nenhum dos patriarcas é mencionado em fontes existentes além do Gênesis?
. O principal problema em encontrar história na “era patriarcal” é que a única informação preservada é aquela encontrada no texto do Gênesis – não há confirmaçãoVAN SETERS, J. Abraham in History and Tradition. Brattleboro, VT: Echo Point Books & Media, 2014, 350 p. externa direta, seja epigráfica ou literária. Nenhum dos patriarcas foi atestado em fontes existentes. Isso significa que os argumentos a favor da historicidade geralmente tentam apresentar uma justificativa circunstancial para considerar as narrativas do Gênesis como contendo dados históricos. Podemos agora examinar brevemente alguns dos principais argumentos usados ​​para apoiar a historicidade das narrativas patriarcais ou, inversamente, argumentos e dados que minam essa alegação de historicidade. Este é apenas um resumo, mas mais informações podem ser encontradas em Ramsey (1981) e em alguns dos outros estudos citados acima. Como já observado, poucos estão dispostos a defender a historicidade das histórias patriarcais devido às novas evidências e argumentos que surgiram desde 1970.

Há ou não registros arqueológicos das localidades associadas pelo Gênesis aos patriarcas?
. A arqueologia às vezes é usada em apoio à “historicidade substancial”, mas o estudo mais recente é predominantemente negativo. Os principais centros da Transjordânia e do Neguev associados aos patriarcas no texto carecem de vestígios do início da Idade do Ferro I. No importante sítio de Bersabeia (Gênesis 21-22), não há vestígios da Idade do Ferro I, e as investigações sobre as “cidades da planície” (Gênesis 19, 24-29) também não encontraram nada. Por um lado, muitas das principais cidades que se sabe terem existido durante a Idade do Ferro I estão ausentes do texto; por outro lado, não se conhece nenhum período no início ou meados do segundo milênio a.C. em que todos os sítios mencionados nas narrativas patriarcais tenham sido povoados: foi somente durante a Idade do Ferro I que esse povoamento completo desses sítios ocorreu.

Qual é a posição de John Bright sobre a data dos patriarcas?
A cronologia é uma questão importante: se os patriarcas são históricos, quando viveram? Se as narrativas são confiáveis, qual é o período em que são confiáveis? Alguns autores agem como se a cronologia pudesse ser tomada como certa, mas não pode. Tendo afirmado o quão bem as narrativas se encaixam no início do segundo milênio, Bright prosseguiu admitindo: “Concedendo-se tudo o que ficou acima escrito, será que a evidência nos permite fixar a data dos patriarcas, com maior precisão? Infelizmente, não permite. O mais que se pode dizer, embora seja muito desconcertante, é que os acontecimentos refletidos em Gn 12 a 50, enquadram-se muito bem no período já descrito, isto é, mais ou menos entre o vigésimo e o décimo sétimo séculos. Porém nos falta a evidência para fixar os patriarcas em algum século (ou séculos) em particular e temos, além disso, a possibilidade de que as histórias dos patriarcas combinam a memória de eventos tomados de lugares distantes no tempo [* o. c., p. 112-113].

Modo de vida nômade?
. Outrora se supunha que os patriarcas eram nômades e que isso estava exclusivamente em consonância com o contexto do início do segundo milênio a.C. (Ramsey 1981: 34-36). Muita discussão ocorreu nas últimas décadas, minando esse argumento.

E os nomes dos patriarcas?
John Van Seters (1935-2025). Muitos paralelos podem ser encontrados com os nomes nas narrativas patriarcais. Bright afirmou que eles se encaixavam no início do segundo milênio, mas vários de seus exemplos, na verdade, datam de um período posterior aos primeiros séculos do segundo milênio. Os nomes não podem ser prova, é claro, porque os nomes patriarcais podem ser encontrados na lista telefônica de quase qualquer grande cidade ocidental hoje; no entanto, é interessante notar que vários dos nomes não reaparecem na tradição israelita até o período greco-romano. Mas, como Thompson (1974: 35) aponta, a maioria dos nomes tem uma estrutura típica do semítico do noroeste. Alguns dos nomes dos ancestrais de Abraão em Gênesis 11, 10-32 são, na verdade, nomes topográficos da região de Harã, como se sabe por textos mesopotâmicos (Schneider 1952): Faleg, Sarug, Nacor, Taré, Arã são nomes de lugares, não de pessoas.

Foram encontrados vários paralelos entre os costumes de Nuzi e o mundo patriarcal?
. Os costumes têm sido uma das principais evidências. Um bom exemplo disso é o comentário de E. A. Speiser sobre o livro do Gênesis (1964). Baseando-se amplamente nos textos de Nuzi, ele os utilizou para ilustrar muitas passagens das narrativas patriarcais. Contudo, em alguns momentos, seu argumento era de que o costume bíblico podia ser encontrado nos textos de Nuzi, mas que o escritor bíblico não o compreendia – uma maneira bastante estranha de argumentar em favor da autenticidade e confiabilidade! Por exemplo, ele cita três exemplos específicos em que argumenta que o evento em si não era compreendido pelo escritor bíblico, que distorceu a situação (Speiser 1964: xl–xliii). Na verdade, muitos dos supostos costumes de Nuzi não são paralelos às passagens bíblicas, ou então o texto de Nuzi ou o texto bíblico foram mal interpretados ou deturpados: por exemplo, a ideia de que Eliezer era herdeiro por ser filho adotivo de Abraão, mas não herdaria após o nascimento de Isaac, era, na verdade, contrária ao costume de Nuzi (Donner 1969; Thompson 1974: 203-30). O fato de Abraão e Isaac terem apresentado suas esposas como irmãs (Gênesis 12,10-20; 20,1-18; 26,1-14) era interpretado como reflexo de um costume hurrita de adotar a esposa como irmã. O texto bíblico, na verdade, não sugere tal adoção (Speiser argumentou que o autor de Gênesis já não compreendia esse costume), mas a prática de Nuzi foi, de fato, mal interpretada por alguns estudiosos modernos (Greengus 1975; Eichler 1977).

Gênesis 23 teria paralelo na Nuzi do segundo milênio?
. Gênesis 23 narra a história de como Abraão comprou uma gruta em Hebron para sepultar Sara, sua falecida esposa. Argumentou-se que isso refletia um conhLester L. Grabbe (nascido em 1945)ecimento profundo dos costumes e práticas de Nuzi. No entanto, especialistas não consideraram esses argumentos convincentes. H. A. Hoffner (1969: 33-7; 1973: 214) contesta os supostos paralelos com Nuzi e conclui que “os costumes em transações imobiliárias e direitos feudais [alegados para Gênesis] são diferentes de tudo o que se conhece entre os hititas da Ásia Menor”. O melhor paralelo para Gênesis 23 parece, na verdade, vir do período neobabilônico, aproximadamente um milênio depois dos supostos paralelos com Nuzi (Tucker 1966; Petschow 1965; cf. Hoffner 1969: 34-7). Em suma, nenhum dos supostos costumes que demonstrariam um contexto do início do segundo milênio para as histórias patriarcais parece ter resistido a uma análise cuidadosa.

As referências aos patriarcas aparecem em textos bíblicos tardios?
. Com exceção de Jacó/Israel, as referências aos patriarcas são atestadas na tradição israelita apenas tardiamente. Além dos textos de Gênesis, Abraão (1 Reis 13,36; 2 Reis 13,23; Isaías 29,22; Miqueias 7,20) e Isaac (1 Reis 18,36; 2 Reis 13,23; Amós 7,9.16; Jeremias 33,26) são pouco mencionados. R. E. Clements (1974) disse o seguinte: “Nos profetas pré-exílicos, não há referência autêntica às tradições de Abraão. Miqueias 7,20 é um oráculo pós-exílico, assim como provavelmente Isaías 29,22” (TDOT 1:57).

 

* A citação foi feita a partir da tradução brasileira do livro: BRIGHT, J. História de Israel. Edição revista e ampliada a partir da 4. edição original. 7. ed. São Paulo: Paulus, 2003, p. 106.

** Cf. sobre isso: DA SILVA, A. J. Novos paradigmas no estudo do Pentateuco, artigo publicado na Ayrton’s Biblical Page em 2007; Idem, Os três revisionistas do Pentateuco, post publicado no Observatório Bíblico em 25.07.2024.

*** Sobre Ebla e a importância dos arquivos ali encontrados, cf. O mundo de Ebla 1, post publicado no Observatório Bíblico em 19.09.2025.

Judaísmo antigo e cristianismo: raízes comuns e separação de caminhos

Um artigo

The Beginnings of Christianity as an Integral Part of Early Judaism – By Markus Tiwald – The Bible and Interpretation – January 2026

O campo de pesquisa mais instigante na exegese contemporânea é, provavelmente, a questão da chamada “separação entre judeus e cristãos”. Certamente, essaMarkus Tiwald (nascido em 1966) expressão é um termo impróprio. No primeiro século, “judeus” e “cristãos” ainda não eram entidades separadas, e há um debate em andamento sobre a partir de que ponto podemos falar em “judeus” e “cristãos”. Em segundo lugar, essa “separação” foi um processo complexo que se estendeu por cerca de quinhentos anos, ocorrendo em diferentes lugares, em ritmos distintos e sob uma variedade de circunstâncias. Portanto, o foco não deve estar na “separação”, mas no fato de que o que hoje chamamos de “cristianismo”, em seus primórdios, era parte integrante do multifacetado judaísmo do Segundo Templo.

The most exciting field of research in contemporary exegesis is most probably the question of the so-called “parting of the ways between Jews and Christians.” Certainly, this expression is a misnomer. In the first century “Jews” and “Christians” were not yet separated entities and there is an ongoing discussion about from what point onward we may talk about “Jews” and “Christians.” Secondly, this “parting” was a complex process that stretched over five hundred years, occurring in different places at disparate velocities and under a variety of circumstances. Thus, the focus should not rest on the “parting” but on the fact that what we today call “Christianity” in its beginnings was an integral part of multifaceted Second Temple Judaism.

Um livro

TIWALD, M. Early Judaism and the Beginnings of Christianity: Common Roots and the Parting of the Ways. Stuttgart: Kohlhammer, 2026, 416 p. – ISBN 9783170449282. Livro disponível para download gratuito.

TIWALD, M. Early Judaism and the Beginnings of Christianity: Common Roots and the Parting of the Ways. Stuttgart: Kohlhammer, 2026, 416 p.

Jesus e seus primeiros seguidores eram judeus que nunca tiveram a intenção de formar uma nova religião separada do judaísmo. A chamada “separação de caminhos” entre judeus e cristãos foi longa e de forma alguma linear. Pelo contrário, foi um processo complexo que se estendeu por mais de quinhentos anos, ocorrendo em diferentes lugares, em ritmos diferentes e sob uma variedade de circunstâncias. Destacando a pluriformidade do judaísmo primitivo (300 a.C. – 200 d.C.) em suas implicações políticas, sociológicas, econômicas e religiosas, este livro mostra que o que hoje chamamos de “primórdios do cristianismo” foi, na verdade, parte integrante do multifacetado judaísmo.

Markus Tiwald é professor de Novo Testamento na Faculdade Católica de Teologia da Universidade de Viena, Áustria.

 

Jesus and his first followers were Jews who never intended to form a new religion apart from Judaism. The so called “parting of the ways” between Jews and Christians was long and by no means monolinear. Rather, it was a complex process that stretched over five hundred years, occurring in different places at different speeds and under a variety of circumstances. Highlighting the pluriformity of early Judaism (300 BCE – 200 CE) in its political, sociological, economic, and religious implications, this book shows that what we today call the “beginnings of Christianity” was in fact an integral part of multifaceted Judaism.

A concepção de tempo no Eclesiastes

ADAM, M. F. Time and Tradition: Temporal Thinking in Ecclesiastes in the Context of Emerging Apocalypticism and the History of Ideas in the Hellenistic Period. Tübingen: Mohr Siebeck, 2025, 335 p. – ISBN 9783161647970. Livro disponível para download gratuito.

Moritz F. Adam explora as concepções de tempo no livro de Eclesiastes e seu lugar na história do pensamento no judaísmo helenístico. Ele situa Eclesiastes em umADAM, M. F. Time and Tradition: Temporal Thinking in Ecclesiastes in the Context of Emerging Apocalypticism and the History of Ideas in the Hellenistic Period. Tübingen: Mohr Siebeck, 2025, 335 p. panorama mais amplo do pensamento apocalíptico emergente e investiga como o texto reflete, resiste e reelabora ideias predominantes sobre tempo, história, conhecimento e significado.

Adam demonstra como Eclesiastes se encontra em um momento importante de transformação conceitual na maneira como o tempo era pensado no judaísmo antigo, e como o livro reflete novas preocupações mais amplas, totalizantes e abstratas em diálogo com interlocutores contemporâneos.

Por meio de estudos textuais, discussões comparativas e engajamentos teóricos com os campos dos Estudos Clássicos e da Literatura, Adam desafia as fronteiras acadêmicas entre sabedoria, apocalíptica e outros gêneros, e destaca o discurso pluralista e aberto de Eclesiastes como parte vital do pensamento judaico antigo.

Moritz F. Adam é professor de Bíblia Hebraica e Judaísmo Antigo na Universidade de Zurique, Suíça.

 

Moritz F. Adam explores conceptions of time in the book of Ecclesiastes and its place in the history of thought in Hellenistic Judaism. He situates Ecclesiastes before a wider panorama of emerging apocalyptic thought and investigates how the text reflects, resists, and reworks prevailing ideas about time, history, knowledge, and meaning. Adam shows how Ecclesiastes stands at an important moment of conceptual transformation to the manner in which time was thought about in ancient Judaism, and how the book reflects new, broader, totalising, and abstract concerns in conversation with contemporary interlocutors. Through textual studies, comparative discussions and theoretical engagements with the fields of Classics and Literature, Adam challenges scholarly boundaries between wisdom, apocalypticism, and other genres, and highlights Ecclesiastes’ pluralistic, open-ended discourse as a vital part of ancient Jewish thought.

 

Sumário

Chapter 1: Introduction

Chapter 2: The Date and Compositional History of the Book of Ecclesiastes
A. Composition
B. Structure
C. Dating
D. Excursus: The Problem of the Abstract Orientation of the Book of Ecclesiastes and Its Deliberate Avoidance of Historical and Contextual References

Chapter 3: The Status Quaestionis in Scholarship on Ecclesiastes and Apocalypticism
A. Ancient Perspectives on Apocalyptic Dimensions in Ecclesiastes
B. Categories and Problems in the Modern History of Scholarship
C. On the Approach of this Overview on the Status Quaestionis
D. Wisdom and Apocalypticism Since the Middle of the 20th Century
E. Ecclesiastes and Apocalypticism in Recent Scholarship
F. Scholarly Engagements with the Subject of Time in Ecclesiastes

Chapter 4: Reflections on Method

Chapter 5: Polemic, Critique, and Intellectually Constitutive Interaction: Eccl 4:17-5:6 as a Test Case
A. Dreaming as a Mode of Revelation
B. Mediation by Angels

Chapter 6: Rhetoric and Discourse in Ecclesiastes and 4QInstruction: AComparative Test Case

Chapter 7: The Genre Apocalyptic: Rethinking Morphologies
A. What is Apocalypticism? Problems in Taxonomy
B. Prototype Theory
C. Constellations
D. Discourses in Ancient Jewish Thought – Three Propositions

Chapter 8: The Category of Time in the Book of Ecclesiastes and Its Place in the History of IdeasMoritz F. Adam (nascido em 1997)
A. Time as a Total Category in the Hellenistic Period
B. Time as Ordered and Arranged
C. Comparative Reflections

Chapter 9: Time and Abstraction: Moving Across Tradition as a Mode of Literary Authorisation
A. Authorisation by Ascription
B. The Historical Blending of Ideas

Chapter 10: Pluriformity and Pluralism: Literary Diversity, Hermeneutical Openness, and the Function of Texts in Second Temple Judaism
A. Ecclesiastes and Pluriformity
B. Method
C. Calendars and Total History
D. Variety and Vitality in the Dead Sea Scrolls
E. New Cultural Histories
F. Intellectual Pluralism in Ecclesiastes
G. Excursus: Literary-Theoretical Points of Comparison

Chapter 11: Conclusions

Moritz F. Adam Geboren 1997; 2018 M.A. Theologie, Oxford; 2020 M.Phil., Oxford; 2024 PhD, Zürich; 2020-24 Assistant am Lehrstuhl für Hebräische Bibel, Zürich; 2022 Research Fellow, Hebräische Universität Jerusalem; 2025 Ernest S. Frerichs Professor, Albright Institute, Jerusalem; Dozent für Hebräische Bibel und Antikes Judentum, Zürich.

Linguagem: força vital do ser humano 4

Estou lendo o livro de MITHEN, S. The Language Puzzle: How We Talked Our Way Out of the Stone Age. London: Profile Books, 2024, 544 p. – ISBN 9781800811584.

Estas são notas de leitura do capítulo 16: Conclusion: the evolution of language [Conclusão: a evolução da linguagem].MITHEN, S. The Language Puzzle: How We Talked Our Way Out of the Stone Age. London: Profile Books, 2024, 544 p.

Diz Steven Mithen na conclusão:

Este livro tenta desvendar o quebra-cabeça da linguagem: por que, quando e como a linguagem evoluiu? Reuni evidências da linguística e da arqueologia, da antropologia e da genética, da neurociência, da psicologia e da etologia. Usei-as para montar quatorze fragmentos do quebra-cabeça que agora se encontram dispersos sobre a mesa (…) Chegou a hora de encaixar esses fragmentos para completar o quebra-cabeça da linguagem. Apresento, a seguir, a minha melhor tentativa.

Para facilitar a leitura, reestruturei o texto em formato de perguntas e respostas. Este capítulo não tem notas de rodapé. As notas assinaladas com * são minhas.

O capítulo foi publicado em 4 posts:

Linguagem: força vital do ser humano 1

Linguagem: força vital do ser humano 2

Linguagem: força vital do ser humano 3

Linguagem: força vital do ser humano 4

 

6. Como conseguimos sair da Idade da Pedra conversando

Uma das regiões de maior impacto no estilo de vida humano foi o Crescente Fértil?
Crescente Fértil. Uma dessas regiões era um arco de pradarias, bosques, vales fluviais e terras altas no oeste da Ásia, conhecido hoje como Crescente Fértil. Estendia-se do que hoje é o Golfo de Aqaba, no Mar Vermelho, seguindo para o norte ao longo da costa do Mediterrâneo até o que hoje é o sul da Turquia, virando para o leste antes de se curvar para o sul através dos Montes Zagros em direção ao Golfo Pérsico. Caçadores-coletores exploraram essa região desde as primeiras dispersões do Homo erectus da África, há 1,8 milhão de anos. Ela havia sido o lar compartilhado de neandertais e dos primeiros Homo sapiens, antes mesmo do desenvolvimento da linguagem moderna. Ao longo desses tempos, o Crescente Fértil abrigou trigo e cevada selvagens, ervilhas, lentilhas e grão-de-bico selvagens, juntamente com cabras e ovelhas selvagens: os progenitores das variedades domesticadas que existem hoje no mundo.

Humanos viviam como nômades no Crescente Fértil desde 20 mil anos atrás?
. Há cerca de 20.000 anos, os humanos modernos viviam no Crescente Fértil*, caçando gazelas nas planícies e cabras selvagens nas montanhas. Eles coletavam minúsculas sementes de gramíneas silvestres, nozes, bagas, frutas e tubérculos. Pescavam e caçavam aves nos pântanos remanescentes. Viviam em pequenas comunidades que estavam sempre em movimento, à medida que os animais e as plantas nas proximidades de seus acampamentos se esgotavam.

Há 14.500 anos comunidades humanas já construíam assentamentos na região?
. Quando as condições climáticas melhoraram, as pradarias floresceram e as populações humanas cresceram. Há 14.500 anos, as comunidades podiam permanecer no mesmo assentamento por períodos mais longos. Investiram em arquitetura, construíram grandes pilões de pedra para moer os grãos silvestres que coletavam e sepultavam seus mortos em cemitérios para reivindicar a terra. Então, há 12.500 anos, ocorreu o colapso climático que durou um milênio.

Mas ocorreu um colapso climático há 12.500 anos?
. A falta de chuvas de inverno, a queda de temperatura e o encurtamento das estações de cultivo esgotaram os alimentos vegetais que podiam ser coletados. Gazelas e outros animais tornaram-se escassos; a pesca e a caça de aves tornaram-se improdutivas. Os humanos primitivos teriam se adaptado retornando a um estilo de vida totalmente nômade, vivendo em grupos menores e refugiando-se em qualquer refúgio ambiental que encontrassem. Os humanos modernos – aqueles que usam a linguagem moderna, têm fluência cognitiva e uma riqueza metafórica – eram diferentes.

E então, para conseguir alimento, os humanos passaram a cuidar das plantas selvagens das redondezas?O Crescente Fértil por volta de 7500 a.C.
. Eles começaram a tratar as plantas ao seu redor como se fossem seus filhos: removendo pragas, fornecendo água e transplantando-as para solos mais férteis. Ao fazer isso, as plantas, principalmente o trigo e a cevada selvagens, responderam e sua produtividade aumentou. Após muitos ciclos de cultivo e colheita, seus grãos eram maiores e permaneciam presos à espiga bulbosa. Isso permitia que os grãos fossem colhidos com facilidade, em vez de cada minúsculo grão ter que ser colhido do chão, como faziam seus ancestrais de 20.000 anos atrás. Os caçadores-coletores logo estavam colhendo os cereais, usando foices feitas com lâminas de sílex inseridas em cabos de osso.

Por volta de 11.500 as plantas, assim como alguns animais, já estavam domesticadas?
. Por volta da chegada do Holoceno, há 11.500 anos, os caçadores-coletores não só se dedicavam ao cultivo de cereais, como também caminhavam para a plena autossuficiência. Isso logo se tornou evidente, pois as novas chuvas e as estações de cultivo mais longas aumentaram ainda mais a produção. Os caçadores-coletores não podiam parar de cuidar das plantas, pois estas haviam se tornado dependentes da intervenção humana: elas não conseguiam mais se autopropagar caso a colheita fosse interrompida. Comunidades em outros lugares, principalmente nos Montes Zagros, demonstravam o mesmo cuidado com os bodes selvagens que caçavam, resultando na mesma interdependência. Cabritos órfãos eram cuidados pela comunidade humana. À medida que cresciam e se reproduziam com outros bodes em cativeiro, os animais se tornavam mais dóceis, perdendo seus chifres enormes e se tornando mais receptivos ao controle humano.

Um novo conjunto de palavras foi inventado para o novo estilo de vida da criação de gado?
. Embora a domesticação de plantas e animais dependesse do pensamento e da linguagem metafóricos — usando palavras e conceitos de cuidado antes restritos ao mundo social —, seu mCulturas Hassuna, Samarra, Halaf e Ubaid do Antigo Oriente Médio anejo tornou-se possível graças à capacidade de inventar novos conceitos, novas palavras e novas ferramentas, que se retroalimentavam. Surgiu um léxico novo e em constante transformação sobre cabras, com palavras para diferentes tipos de cabras selvagens, criadas em rebanho e totalmente domesticadas, palavras que descreviam suas diferenças por sexo, idade, tamanho, saúde, cor, comportamento e assim por diante. Algumas palavras podem ter sido inteiramente novas, como a palavra para uma cabra totalmente domesticada; outras tiveram sua frequência de uso alterada em relação à época em que as cabras eram exclusivamente caçadas nas montanhas. Um novo conjunto de palavras foi inventado para o novo estilo de vida da criação de gado: palavras para currais, amarras, doenças, cortes de carne, tipos de gordura, abate e assim por diante.

O mesmo ocorreu com as plantas?
. O mesmo ocorreu com as plantas. Assim como os cultivadores de arroz modernos têm muitas palavras para o arroz, os agricultores neolíticos emergentes também inventaram muitas palavras para o trigo e a cevada, distinguindo entre as formas selvagens e domesticadas, os estágios de crescimento, as plantas saudáveis ​​e as doentes. Não apenas para as próprias plantas, mas também para os processos de semeadura, rega, capina, moagem e armazenamento. Novas palavras eram necessárias para novas ferramentas, como enxadas, mós e celeiros; essas palavras não apenas descreviam tais artefatos, mas também consolidavam novos conceitos nas mentes.

Além das novas palavras inventadas, palavras antigas eram esquecidas?
. À medida que novas palavras surgiam, outras eram esquecidas e, por fim, perdidas por completo. Havia menos interesse em rastrear animais selvagens e coletar plantas silvestres, fazendo com que as palavras para as diferenças sutis em pegadas, excrementos e frutos em amadurecimento fossem faladas com menos frequência e gradualmente esquecidas. Da mesma forma, as palavras para descrever odores que, quando viviam como caçadores-coletores, eram tão importantes quanto as palavras para cor e sabor. Por outro lado, o vocabulário para cores expandiu-se à medida que as atividades artesanais aumentaram e o comércio começou entre as comunidades com necessidade de itens atraentes, notadamente palavras para verde e azul para descrever as contas de pedra que agora eram feitas de pedra rica em cobre. A nova dieta de cereais finamente moídos reduziu o desgaste dos dentes e alterou sutilmente os sons da linguagem, aumentando as frequências de /f/s e /v/s à medida que as palavras continuavam a ser inventadas e modificadas.

Há 10 mil anos os caçadores-coletores do Crescente Fértil já haviam se tornado agricultores, sendo a comunicação fundamental para isso?
. Há 10.000 anos, os caçadores-coletores do Crescente Fértil se tornaram agricultores. Eles conquistaram esse novo estilo de vida por meio da comunicaçãEvolução da escrita cuneiforme de 3000 a 600 a.C.o, utilizando palavras para construir tanto os conceitos quanto a tecnologia necessária. A chave não estava apenas no uso de metáforas e palavras abstratas, mas também na compulsão humana de falar e no prazer de usar palavras, algo que foi gradualmente instilado na mente humana desde o início da evolução da linguagem, há mais de 2,5 milhões de anos. Há 10.000 anos, as pessoas simplesmente não conseguiam evitar falar sobre o mundo ao seu redor, sobre seus relacionamentos e novas ideias. Nem conseguiam evitar se divertir com as palavras. Com tanta conversa e bate-papo, diálogos e fofocas, discursos, conversas e tête-à-têtes, era inevitável que novos conceitos surgissem, invenções fossem feitas e os estilos de vida mudassem. E assim permanece até hoje.

Com a urbanização no Crescente Fértil o multilinguismo tornou-se mais frequente?
. Os assentamentos agrícolas neolíticos floresceram, as populações cresceram e logo se transformaram em cidades com milhares de habitantes, fornecendo lares para artesãos e comerciantes, sacerdotes e políticos. As línguas deixaram de ser esotéricas, características de pequenas comunidades autossuficientes, e passaram a ser abertas ao mundo exterior, capazes de facilitar o contato com pessoas de outras comunidades linguísticas. As palavras tornaram-se mais curtas e combinadas com um conjunto mais consistente de regras, permitindo o rápido aprendizado de idiomas por adultos de fora – aqueles que vieram para comerciar, encontrar parceiros e se juntar ao que agora eram centros de inovação, entretenimento e transformação social. Com essas mudanças na língua e no tamanho da população, o bilinguismo e o multilinguismo tornaram-se mais frequentes, senão a norma. Isso impulsionou ainda mais a criatividade e a inovação encontradas nas novas comunidades agrícolas.

Além do Crescente Fértil, a agricultura logo surgiu na China, na Mesoamérica, na Nova Guiné e em outros lugares?
. O Crescente Fértil Tabuinha com escrita protocuneiforme de Uruk IV, ca. 3200 a.C.não foi o único lugar no mundo onde isso aconteceu. Logo após o início do Holoceno, a agricultura também surgiu na China, onde o painço e o arroz, as galinhas e os porcos foram domesticados. Um pouco mais tarde, o mesmo aconteceu na Mesoamérica com o milho, a abóbora e a pimenta, e depois na Nova Guiné com o inhame e a banana. A partir desses e de outros centros de inovação, a agricultura se espalhou pelo mundo. Isso ocorreu em grande parte pela dispersão de famílias que deixaram suas terras natais em busca de novas terras para cultivar, às vezes se miscigenando com os caçadores-coletores que encontravam pelo caminho. Os caçadores-coletores que resistiram à mudança de estilo de vida foram forçados a se estabelecer em zonas marginais, muito secas ou frias para que a agricultura prosperasse.

E assim a escrita foi inventada?
. A comunicação continuou nas aldeias agrícolas, vilas e centros urbanos. Metáforas abundavam à medida que novos conceitos eram formados, novas palavras inventadas e línguas evoluíam através dos sempre presentes obstáculos de aprendizado de geração em geração, pela infinidade de expressões faladas e ouvidas diariamente e pelo desejo constante de uma comunicação eficaz e eficiente. A metalurgia foi inventada, marcando o fim formal da Idade da Pedra. Isso foi seguido pela escrita**, que levou a linguagem a uma nova fase de sua jornada, uma jornada que começou com palavras icônicas na savana africana há 1,6 milhão de anos.

Linguagem, força vital do ser humano?
. Foi durante o longo período de evolução da linguagem que nos tornamos totalmente dependentes das palavras para todos os aspectos de nossas vidas. Para manter essa dependência, a evolução não apenas nos deu a alegria das palavras, mas também fez da linguagem a força vital do ser humano [Evolution not only gave us the joy of words but made language the life force of being human].

 

* Cf. O Crescente Fértil na Pré-história e na Idade do Bronze, post publicado no Observatório Bíblico em 06.09.2025.

** Cf. Leituras sobre a decifração da escrita cuneiforme, post publicado no Observatório Bíblico em 15.03.2025.

Linguagem: força vital do ser humano 3

Estou lendo o livro de MITHEN, S. The Language Puzzle: How We Talked Our Way Out of the Stone Age. London: Profile Books, 2024, 544 p. – ISBN 9781800811584.

Estas são notas de leitura do capítulo 16: Conclusion: the evolution of language [Conclusão: a evolução da linguagem].MITHEN, S. The Language Puzzle: How We Talked Our Way Out of the Stone Age. London: Profile Books, 2024, 544 p.

Diz Steven Mithen na conclusão:

Este livro tenta desvendar o quebra-cabeça da linguagem: por que, quando e como a linguagem evoluiu? Reuni evidências da linguística e da arqueologia, da antropologia e da genética, da neurociência, da psicologia e da etologia. Usei-as para montar quatorze fragmentos do quebra-cabeça que agora se encontram dispersos sobre a mesa (…) Chegou a hora de encaixar esses fragmentos para completar o quebra-cabeça da linguagem. Apresento, a seguir, a minha melhor tentativa.

Para facilitar a leitura, reestruturei o texto em formato de perguntas e respostas. Este capítulo não tem notas de rodapé. As notas assinaladas com * são minhas.

O capítulo foi publicado em 4 posts:

Linguagem: força vital do ser humano 1

Linguagem: força vital do ser humano 2

Linguagem: força vital do ser humano 3

Linguagem: força vital do ser humano 4

 

4. O florescimento da linguagem

Mutações genéticas?
. Tanto os neandertais na Europa como os H. sapiens em África experienciaram um fluxo constante de mutações genéticas, trocas aleatórias de um dos quatro tipos de nucleótidos (A, C, G, T = Adenina, Citosina, Guanina, Timina) por outro nos 3 bilhões de pares de nucleótidos que compõem cada genoma humano. A maioria das mutações não teve impacto; algumas foram marginalmente benéficas ou prejudiciais; outras foram profundas. Algumas que ocorreram e se espalharam pelas populações de H. sapiens na África influenciaram o cérebro ainda em evolução: o cerebelo tornou-se maior e mudou de forma; os lobos occipitais reduziram de tamanho, restringindo o processamento visual, mas libertando capacidade neural para outras funções; as redes neuronais expandiram o seu alcance. Outras mutações retardaram o ritmo do desenvolvimento infantil, permitindo um período mais longo para que as novas redes neurais de longa distância entrassem em ação.

Globularização do cérebro do Homo sapiens?
. Grandes mudanças ocorreram após 300.000 anos atrás: o cérebro do Homo sapiens tornou-se mais globular, um processo que levou pelo menos mais 200.000 anos para se completar. Embora o tamanho do cérebro possa ter aumentado marginalmente, redes neurais de longa distância e novos padrões de ativação neuronal ondulatória através do cérebro globular agora conectavam áreas funcionalmente especializadas e transformavam o cérebro em um espaço de trabalho global. Acervos de conhecimento e modos de pensar que haviam evoluído para desempenhar funções especializadas, aqueles que permaneceram isolados nos cérebros do Homo heidelbergensis e do neandertal, agora podiam se integrar. Com essa fluidez cognitiva, veio um nível aprimorado de fluência verbal, proporcionado pelo cerebelo ampliado, que influenciou uma ampla gama de processos linguísticos no cérebro.

E foi então que o Homo sapiens incorporou o uso da metáfora à linguagem?
Evolução humana de Lucy até hoje. A fluidez cognitiva era inicialmente escassa e transitória, mas forneceu conexões suficientes para desencadear uma revolução linguística e cognitiva, que precisou da própria linguagem para se completar. Duas novas características foram adicionadas ao repertório linguístico. A primeira foi a metáfora, falada ou gestual: o uso do conhecimento sobre um domínio conceitual, a fonte, para informar o de outro, o alvo. Por definição, a mentalidade específica de domínio dos neandertais impedia o uso da metáfora como ferramenta de comunicação e reflexão sobre o mundo. Com a fluidez cognitiva, uma mãe Homo sapiens podia descrever sua filha como sendo tão corajosa quanto um leão, enquanto acreditava que leões tinham pensamentos e desejos semelhantes aos humanos; o tempo podia ser descrito como espaço; e o espaço por palavras derivadas do corpo humano. A tradução de conceitos metafóricos em enunciados falados, e o inverso por aqueles que ouviam, foi possibilitada por mudanças no cérebro humano: a liberação de recursos neurais do processamento visual para o da linguagem, as funções linguísticas aprimoradas pelo cerebelo maior e a conectividade expandida que transformou o cérebro em um espaço de trabalho global.

Com a metáfora veio o pensamento simbólico e uma nova dinâmica tecnológica?
. Com a metáfora veio o pensamento simbólico – o uso de uma coisa, seja um objeto natural ou um artefato manufaturado, para representar outra coisa. A metáfora também aprimorou o poder comunicativo, incluindo a capacidade de descrever e explicar habilidades e ideias tecnológicas complexas para outras pessoas. Essas metáforas podiam ser compartilhadas com mais facilidade, e seu desenvolvimento se tornava um processo colaborativo entre mentes. Lançadores de dardos e arcos foram inventados rapidamente, logo seguidos por uma série de novos tipos de ferramentas que só poderiam ser concebidas e fabricadas pelo encontro de mentes metafóricas. Assim como na própria linguagem, houve uma nova dinâmica na mudança tecnológica – uma que continua em ritmo acelerado até hoje. Depois de começarmos a viver por meio de metáforas, temos feito isso desde então*.

O uso de metáforas liberou um grau de criatividade e pensamento complexo até então inexistente?
. À medida que as metáforas eram usadas, as conexões neurais necessárias se fortaleciam com a ativação repetida de suas sinapses: a linguagem agora construía o cérebro necessário. O uso de metáforas liberou um grau de criatividade e pensamento complexo que era impossível de alcançar em uma mente focada em um domínio específico e proporcionou uma nova dinâmica à mudança da linguagem. Uma vez usada, cada metáfora começava a perder seu poder e eventualmente precisava ser substituída por outra para criar o efeito social desejado: o léxico se expandiu exponencialmente; novas metáforas nasciam assim que outras desapareciam.

Conceitos abstratos agora podiam florescer na mente humana?
. Conceitos abstratos agora podiam florescer na mente humana, necessitando de metáforas para serem compreendidos e explicados a outros. Esses conceitos precisavamPrincipais espécies de hominídeos - seis milhões de anos de evolução humana. Fonte: Steven Mithen, The Language Puzzle, 2024. ser ancorados na mente com seus próprios rótulos: palavras abstratas. Os neandertais não possuíam nada disso, dependendo de palavras concretas, cujos significados eram definidos pela experiência – a visão de um mamute, o som do vento, o cheiro de um leão, o toque de uma pedra ou o sabor de uma fruta madura. Assim, seus léxicos tinham pouco impacto em sua percepção do mundo. Os humanos modernos usam metáforas linguísticas para explicar e compreender conceitos abstratos – ideias sobre outros mundos e seres ancestrais, noções de justiça, identidade e propriedade.

E assim nasceu também a categoria do sobrenatural?
. Tais conceitos podiam ser agrupados em novas categorias sem qualquer fundamento no mundo real, o que facilitava a invenção, o aprendizado, a memorização e a explicação de outros conceitos abstratos que agora tinham uma categoria para se encaixar. Uma vez concebida a categoria do sobrenatural, esta forneceu um lar para novos conceitos e suas palavras associadas, como fantasmas, espíritos e feitiços. O léxico continuou a expandir-se e as histórias assumiram novas dimensões com enredos complexos, heróis e vilões, eventos mágicos e mundos imaginários. A arte de contar histórias tornou-se uma forma de impressionar, persuadir, educar e entreter através do uso habilidoso das palavras.

A diversidade cultural e linguística floresceu tanto para os neandertais quanto para o Homo sapiens?
. À medida que o cérebro globular e cognitivamente fluido evoluía, tais desenvolvimentos ocorriam por toda a África, do extremo norte ao sul e do leste ao oeste. As comunidades estavam conectadas por redes sociais, permitindo um fluxo continental de novas ideias, palavras, objetos e genes. A diversidade cultural e linguística floresceu a um nível inimaginável tanto para os neandertais quanto para o Homo sapiens pré-moderno, evidente nas novas formas e tradições de fabricação de ferramentas de pedra. Contudo, com o impacto das instabilidades climáticas sobre populações pequenas e frequentemente frágeis, levou tempo para que metáforas e palavras abstratas se consolidassem na linguagem – por um período, elas surgiam e desapareciam, assim como as comunidades, os idiomas que falavam e os artefatos que produziam.

E o uso do ocre vermelho?
. O impacto do ocre vermelho só se torna materialmente evidente após 200.000 anos atrás, quando sua função passou gradualmente de fornecer sinais indiciais a abrigar significado simbólico. Há 150.000 anos, conchas com furos naturais eram usadas em cordões; há 80.000 anos, as conchas eram perfuradas e coloridas deliberadamente para criar exibições mais extravagantes e transmitir mensagens simbólicas sobre identidade e crença. Há 70.000 anos, placas de ocre serviam de base para a gravação de imagens geométricas, repletas de significado simbólico.

É adequado dizer que o Homo sapiens trilhou seu caminho rumo à modernidade através do riso?
. Tais objetos desempenharam um papel ativo na construção das redes neurais necessárias para o desenvolvimento de frases metafóricas e conceitos abstratos. Conchas, com suas formas aparentemente esculpidas e cores brilhantes, vindas do mar misterioso e que outrora abrigaram criaturas estranhas, prestavam-se a histórias e ao uso como símbolos. À medida que as contas de conchas eram feitas, usadas e vistas por outros, elas repetidamente estimulavam as sinapses das redes neurais incipientes que davam origem à mente cognitivamente fluida. O mesmo ocorreu com o uso de ocre, imagens geométricas gravadas e fogo. Embora o fogo fosse controlado e usado habitualmente há mais de 300.000 anos, há 100.000 anos suas chamas noturnas sustentavam um exercício linguístico para o uso de metáforas e palavras abstratas, à medida que o discurso sobre o mundano era substituído pelo discurso sobre o mundo dos espíritos e demônios. Não apenas sobre o estranho e o maravilhoso, mas também sobre o engraçado e o absurdo. Trocadilhos, duplos sentidos e insinuações, todos dependentes de metáforas e da fluência verbal da mente moderna, agora permeavam a linguagem. Essas palavras proporcionaram aos humanos modernos uma alegria que permanecia ausente entre os neandertais, cuja linguagem era restrita a um domínio específico. O Homo sapiens trilhou seu caminho rumo à modernidade através do riso.

Se a linguagem fosse uma planta, como a descreveríamos?
A evolução da linguagem. Fonte: Steven Mithen, The Language Puzzle, 2024.. Este foi o florescimento da linguagem. Suas raízes foram as expressões holísticas, semelhantes às dos macacos, produzidas pelos australopitecos e pelo Homo habilis; seu caule, as palavras icônicas proferidas pela primeira vez pelo Homo erectus, há 1,6 milhão de anos. Palavras arbitrárias e gramaticais brotaram desse caule nas mentes e vozes do Homo heidelbergensis e seus descendentes, os neandertais na Europa e os primeiros Homo sapiens na África. Mas foi somente há 100 mil anos que as flores desabrocharam: uma infinidade de metáforas e palavras abstratas surgindo em uma profusão de cores, texturas e formas, espalhando suas sementes e fertilizando-se mutuamente por toda a África – e logo pelo mundo. Com esse conhecimento da evolução da linguagem, podemos agora dar forma ao que antes eram os ossos secos e silenciosos de nossos ancestrais humanos

 

5. Diáspora global

Há cerca de 60 mil anos o Homo sapiens se dispersou da África para o Levante e para a Arábia?
. A próxima parte da história humana é bem conhecida. Há 60.000 anos, pelo menos uma, e provavelmente várias, comunidades de Homo sapiens se dispersaram da África, viajando para o norte, em direção ao Levante, e para o leste, em direção à Arábia. Seus descendentes continuaram se deslocando enquanto seus corpos e cérebros continuavam a evoluir, criando diversidade genética entre os humanos modernos à medida que as populações se fragmentavam e seguiam caminhos separados na maior diáspora da humanidade.

Aconteceu a miscigenação de Homo sapiens e neandertais?
. Alguns se miscigenaram com os neandertais, adquirindo genes úteis para viver em novos climas setentrionais e adotando algumas novas palavras e frases ao longo do caminho, especialmente os ideofones expressivos que os neandertais usavam com tanto sucesso. Pequenas incursões exploratórias foram feitas na Europa, antes que grupos usando colares elaborados, equipados com uma variedade de armas de caça habilmente projetadas e propensos a esculpir figuras de animais em osso e pedra, varressem a região por volta de 41.000 anos atrás. Os neandertais residentes responderam com um último floreio de sua cultura, influenciada pelos símbolos visuais e pela nova tecnologia que viram, mas que lutaram para compreender. Eles se miscigenaram com os recém-chegados em um esforço para aumentar seu número. Mas as populações neandertais diminuíram até a extinção, incapazes de sobreviver às pressões combinadas das instabilidades climáticas e de seus novos vizinhos, que caçavam com mais eficiência e se protegiam do frio com roupas costuradas e moradias mais adequadas. Os humanos modernos decoraram as paredes das cavernas com pinturas de animais e seres imaginários, personificando a mente humana moderna cognitivamente fluida, metafórica e rica em conceitos abstratos. Uma mente sustentada e apoiada pelo fluxo de palavras.

Aconteceu também a miscigenação de Homo sapiens e denisovanos e a dispersão para as Américas?
. Alguns dos humanos modernos que viajaram para o leste a partir da África encontraram e se miscigenaram com os denisovanos e possivelmente com outros tipos de humanos ainda desconhecidos pela ciência, que também foram extintos. Mais adiante, barcos foram construídos para chegar à Austrália há cerca de 60.000 anos e raquetes de neve foram criadas para atravessar o Estreito de Bering rumo às Américas há 30.000 anos. Grupos humanos se dispersaram rapidamente por ambos os continentes, adaptando seu estilo de vida às estepes, montanhas e bosques, desertos, florestas tropicais e litorais. Mais espécies foram extintas, não humanos, mas a megafauna da Austrália e das Américas – mamutes, mastodontes, preguiças-gigantes e aves gigantes não voadoras. À medida que essas perdas ocorriam, as populações humanas prosperavam, assim como a diversidade cultural, linguística e genética.

Todos os aspectos da cultura material estavam em constante movimento?
. Em todo o mundo, a tecnologia e todos os aspectos da cultura material estavam em constante movimento, mudando continuamente sob a influência de inúmeros fatores ambientais e culturais. A mudança linguística foi tanto causa quanto consequência: um fluxo de novas palavras e novas maneiras de combiná-las, influenciando a forma como as pessoas percebiam e pensavam sobre o mundo, permitindo-lhes construir novos conceitos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

As pessoas falavam, pensavam e agiam dentro das limitações e oportunidades de seus ambientes?
. As pessoas falavam, pensavam e agiam dentro das limitações e oportunidades de seus ambientes. Regiões com baixa biomassa podiam sustentar apenas populaçõesDispersão do Homo sapiens para fora da África esparsas e, portanto, havia menos mentes para compartilhar suas palavras, construir novos conceitos e impulsionar a mudança tecnológica cumulativa. Em outros lugares, a abundância sazonal de recursos, como cardumes migratórios de salmão ao longo da costa do Pacífico e manadas de renas migratórias na tundra do norte, exigia novas tecnologias para serem exploradas e proporcionava oportunidades para encontros sociais. Essas eram ocasiões para a troca de informações, ideias, artefatos, alimentos, genes e pessoas que se deslocavam de um grupo social para outro. Os encontros proporcionavam oportunidades para a disseminação de novas palavras, novos significados e novas pronúncias, especialmente quando pessoas de comunidades distantes se reuniam falando dialetos ou que já haviam desenvolvido seus próprios idiomas.

Mudanças climáticas drásticas com forte glaciação até 20 mil anos atrás?
. Todos os caçadores-coletores, seja desenterrando tubérculos nos desertos australianos, caçando focas no Ártico ou catetos na Amazônia, continuaram a viver em um mundo de mudanças climáticas drásticas. O ciclo glacial-interglacial repetido, que persistiu por mais de 2 milhões de anos, entrou em declínio há 40.000 anos, levando o planeta ao auge de uma glaciação. O ponto mais baixo chegou há 20.000 anos, causando perturbações ambientais em todo o mundo. Mais uma vez, as populações humanas se fragmentaram, diminuíram em número e desapareceram completamente das regiões mais afetadas. Mas, com uma linguagem rica em metáforas e mentes cognitivamente ágeis, as comunidades humanas desenvolveram uma nova resiliência às mudanças ambientais: moradias eram construídas com ossos de mamute e cobertas com peles e turfa; agulhas de osso costuravam peles de rena; fogueiras aqueciam o interior das cavernas.

Após 20 mil anos atrás o clima começou a melhorar?
. A melhoria climática ocorreu logo após 20.000 anos atrás. Primeiro, houve um aumento gradual e depois um rápido aumento na temperatura, atingindo os níveis que desfrutamos hoje por volta de 14.500 anos atrás. As comunidades humanas responderam, expandindo mais uma vez seu território e inventando novas tecnologias, agora para explorar os animais e plantas adaptados ao calor que também estavam se dispersando de refúgios glaciais, à medida que os desertos se transformavam em pastagens e as florestas substituíam a tundra. Mas o clima logo entrou em colapso novamente. O planeta mergulhou em mais 1.000 anos de aridez e frio, causando a retração das populações e o declínio demográfico.

Há 11.500 anos começou o clima pós-glacial que temos hoje?
. O alívio veio há 11.500 anos com um segundo período rápido de aquecimento global. Isso inaugurou o clima pós-glacial quente, úmido e estável que continuamos a desfrutar hoje e que chamamos de Holoceno. Mais uma vez, os caçadores-coletores expandiram seu território e desenvolveram novas tecnologias para explorar os animais e plantas adaptados ao calor que logo começaram a prosperar.

Esta foi a primeira vez que os humanos viveram em condições tão amenas e estáveis ​​desde que a capacidade linguística moderna evoluiu plenamente?
Crânio engessado encontrado em Jericó (Tell es-Sultan), Neolítico Pré-Cerâmico B, c. 7200 a.C. BM 12741-42. Esta foi a primeira vez que os humanos viveram em condições tão amenas e estáveis ​​desde que a capacidade linguística moderna evoluiu plenamente: uma combinação de palavras icônicas, arbitrárias e gramaticais, em formas concretas e abstratas, um uso generalizado de metáforas, uma variedade de classes de palavras, estruturas morfológicas e sintáticas, tudo manifestado em uma infinidade de línguas em constante mudança em todo o mundo. A última vez que os humanos viveram em tais condições ambientais foi entre 130.000 e 115.000 anos atrás, antes que a fluidez cognitiva tivesse emergido completamente no Homo sapiens e quando os neandertais só conseguiam reagir com relutância, em vez de se adaptarem ativamente a um mundo mais quente. Desta vez foi diferente.

E, neste contexto, como os humanos passaram a ver o mundo?
. Os humanos modernos agora viam o mundo através da lente metafórica de ideias cognitivamente fluidas e abstratas, todas sustentadas pelas palavras que usavam. Como sabemos pelos caçadores-coletores que sobreviveram até os dias atuais, rios, montanhas, cachoeiras e cavernas foram obra de seres ancestrais que criaram o mundo. Os animais que caçavam não eram apenas fontes de carne e gordura, mas também podiam ser irmãos e irmãs, ou até mesmo os próprios seres ancestrais sob outra forma. Os animais e as plantas eram gentilmente oferecidos aos humanos para consumo, um presente que precisava ser retribuído com rituais e respeito pela natureza.

Em algumas regiões do mundo estas atitudes tiveram mais impacto do que em outras?
. Na maioria das regiões do mundo, essas atitudes tiveram pouco impacto material no meio ambiente e nos estilos de vida humanos. Era uma mera fachada cultural: a caça e a coleta continuavam, dentro das limitações e explorando as oportunidades que as condições ambientais permitiam. Em algumas regiões, porém, a natureza das plantas e dos animais era suscetível a mudanças. Consequências revolucionárias para a história da humanidade logo se seguiriam.

 

* Para a maioria de nós, a metáfora é uma figura de linguagem na qual uma coisa é comparada com outra, dizendo que uma é a outra, como em “Ele é um leão”. Ou, como diz a Enciclopédia Britânica: A metáfora é uma figura de linguagem que implica comparação entre duas entidades diferentes (…) uma comparação explícita sinalizada pelas palavras “semelhante” ou “como”. Mas uma nova visão da metáfora foi desenvolvida por George Lakoff e Mark Johnson em 1980 em seu estudo Metaphors We Live By (Metáforas da vida cotidiana). Sua concepção tornou-se conhecida como teoria cognitiva da metáfora ou teoria da metáfora conceptual. Para Lakoff e Johnson a metáfora não é simplesmente uma questão de palavras ou expressões linguísticas, mas de conceitos, de pensar em uma coisa em termos de outra. Segundo a teoria cognitiva da metáfora desenvolvida por Lakoff e Johnson, a metáfora é de natureza conceptual, é um mecanismo fundamental da mente, que nos permite usar o que sabemos sobre nossa experiência física e social para compreender inúmeros outros assuntos. Nessa perspectiva, a metáfora deixa de ser apenas um dispositivo da imaginação literária criativa e se converte em valiosa ferramenta cognitiva para as pessoas em seu cotidiano. As metáforas podem moldar nossas percepções e ações sem que sequer nos demos conta disso. Cf. Teoria da metáfora conceptual, post publicado no Observatório Bíblico em 23.02.2020.

Linguagem: força vital do ser humano 2

Estou lendo o livro de MITHEN, S. The Language Puzzle: How We Talked Our Way Out of the Stone Age. London: Profile Books, 2024, 544 p. – ISBN 9781800811584.

Estas são notas de leitura do capítulo 16: Conclusion: the evolution of language [Conclusão: a evolução da linguagem].MITHEN, S. The Language Puzzle: How We Talked Our Way Out of the Stone Age. London: Profile Books, 2024, 544 p.

Diz Steven Mithen na conclusão:

Este livro tenta desvendar o quebra-cabeça da linguagem: por que, quando e como a linguagem evoluiu? Reuni evidências da linguística e da arqueologia, da antropologia e da genética, da neurociência, da psicologia e da etologia. Usei-as para montar quatorze fragmentos do quebra-cabeça que agora se encontram dispersos sobre a mesa (…) Chegou a hora de encaixar esses fragmentos para completar o quebra-cabeça da linguagem. Apresento, a seguir, a minha melhor tentativa.

Para facilitar a leitura, reestruturei o texto em formato de perguntas e respostas. Este capítulo não tem notas de rodapé. As notas assinaladas com * são minhas.

O capítulo foi publicado em 4 posts:

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Linguagem: força vital do ser humano 3

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3. A evolução da linguagem

Quando e como aconteceu a dispersão do Homo erectus?
. O Homo erectus pré-usuário de palavras icônicas já havia se dispersado da África como parte de uma diáspora de mamíferos, em resposta às mudanças climáticas que transformaram as latitudes do norte em terras habitáveis. O Homo erectus foi mais longe do que outros mamíferos, notavelmente para o leste, chegando rapidamente ao que hoje é conhecido como Java por volta de 1,6 milhão de anos atrás. O Homo erectus posterior, que passou a usar palavras icônicas na África, também se dispersou quando as condições climáticas permitiram, espalhando-se por todo o continente e além. Auxiliados por palavras icônicas, eles se adaptaram rapidamente a uma gama mais ampla de ambientes do que seus congêneres pré-usuários de palavras icônicas. Alguns deixaram suas raízes africanas para trás para entrar nas latitudes mais altas da Europa e da Ásia. Sem a capacidade de fazer fogo, havia um limite para sua tolerância ao frio. Isso os fez abandonar determinadas regiões quando o clima se tornou desfavorável, apenas para retornar quando melhorou novamente. Ao longo desse tempo, o Homo erectus continuou a evoluir, com populações se isolando umas das outras e se adaptando a seus novos ambientes. As ferramentas que produziam eram condicionadas pelas matérias-primas disponíveis e pelas mudanças nas necessidades, mas giravam em torno dos temas constantes de bifaces, lascas e núcleos.

Novos ambientes fizeram surgir novas palavras icônicas?
. À medida que os grupos se dispersavam, suas palavras icônicas eram moldadas por novas sensações: os hominídeos encontravam animais com formas e tamanhos, movimentos e hábitos nunca antes experimentados; tais qualidades precisavam ser capturadas em uma nova sequência de vogais e consoantes, formando novas palavras icônicas. No Norte da África, na Ásia Ocidental e na Europa, os hominídeos se encantaram ao encontrar sílex: um material mais fácil de lascar e com bordas muito mais afiadas do que o basalto e o quartzito que usavam anteriormente; consequentemente, sua palavra icônica para pedra também adquiriu uma conotação mais precisa. O mesmo ocorreu com novos tipos de plantas, clima, características topográficas e tudo o mais que fosse necessário e possível comunicar dentro das limitações das palavras e gestos icônicos. Estes só podiam fazer descrições categóricas, capturando apenas generalidades de som, tamanho e forma, velocidade e movimento, e talvez alguns aspectos de textura e cor.

Mas a diversidade linguística ainda era limitada pela iconicidade?
Dispersão dos primeiros hominídeos da África até os confins da Ásia a partir de 2 milhões de anos atrás. Fonte: Ann Gibbons, Meet the frail, small-brained people who first trekked out of Africa, Science.org, 2016. A diversidade linguística começou a emergir, mas foi severamente limitada pela dependência da iconicidade. Os hominídeos que viviam nas frias estepes da Europa, em meio a mamutes, bois-almiscarados e renas, desenvolveram um conjunto diferente de palavras icônicas em comparação com aqueles que habitavam as savanas africanas e precisavam evocar zebras e pítons. No entanto, fortes semelhanças persistiram: a palavra icônica para mamute era quase idêntica à de elefante, devido às similaridades entre os animais em forma e tamanho. Da mesma forma, as palavras icônicas usadas na Europa e na África para leões permaneceram muito semelhantes, já que esses carnívoros, que viviam tanto nas estepes europeias quanto nas savanas africanas, outrora fizeram parte da diáspora dos mamíferos. Nas florestas perenes do leste da Ásia, o Homo erectus desenvolveu uma gama diferente de palavras icônicas, incluindo uma para bambu, um material que poderia substituir a pedra como matéria-prima para ferramentas de corte.

E a transmissão da linguagem de uma geração para outra, que consequências tinha?
. A diversidade linguística também começou a surgir por meio da transmissão da linguagem de uma geração para a seguinte e pela fala e escuta rotineiras, à medida que palavras icônicas eram mal interpretadas, mal pronunciadas e mal compreendidas. Um desejo instintivo por eficiência e eficácia levou à erosão sonora, à fusão de palavras e à composição sempre que uma nova palavra icônica se fazia necessária. O efeito de gargalo na aquisição da linguagem persistiu com o surgimento de maiores graus de composicionalidade, permitindo a criação de uma gama mais ampla de enunciados inéditos.

Temos que levar em conta também a limitação do cérebro do Homo erectus?
. Independentemente de sua origem, a diversidade linguística era fortemente limitada, pois o cérebro do Homo erectus estava atrelado a uma percepção sinestésica do mundo. Seu tamanho impunha outra restrição: variando entre 600 e 1.250 cm³, sua capacidade de armazenar novos conceitos e suas palavras associadas era limitada. Elementos arbitrários podem ter sido introduzidos em algumas palavras icônicas, permitindo a diferenciação entre animais de tamanho e aparência semelhantes, algo que palavras puramente icônicas não conseguem. Mas se essas palavras híbridas se afastassem demais de suas raízes icônicas, seu significado se perdia, assim como a própria palavra.

Por causa destes limites, as línguas faladas pelo Homo erectus tinham um alto grau de similaridade não importando onde vivesse?
. Independentemente de onde as comunidades de Homo erectus estivessem localizadas e dos tipos de ambientes em que viviam, suas línguas apresentavam um alto grau de similaridade. Um linguista moderno, viajando por seu mundo e pelos milhões de anos de sua existência, descreveria as línguas do Homo erectus como incrivelmente monótonas, usando a mesma expressão que os arqueólogos empregam ao descrever suas ferramentas de pedra acheulenses. Assim como a linguagem atingiu um limiar, o mesmo ocorreu com a tecnologia: bifaces foram produzidos por mais de um milhão de anos em todas as regiões habitadas do mundo.

Os limites da iconicidade eram eventualmente rompidos por indivíduos com cérebro maior?
. Enquanto o cérebro sinestésico fora essencial para a invenção das palavras, agora representava uma limitação para a expansão do léxico e a evolução da linguagem. A vantagem seletiva passou para os indivíduos cuja sinestesia infantil se dissipou na idade adulta – assim como acontece com os humanos modernos hoje em dia. A vantagem também foi obtida por aqueles com um cérebro maior, que possuía mais capacidade para armazenar palavras com elementos arbitrários, cujo significado precisava ser memorizado em vez de compreendido intuitivamente. Essas palavras surgiram naturalmente através da constante troca intergeracional de sons e significados, mas não conseguiram se firmar no léxico até que um cérebro maior e menos sinestésico evoluísse.

As limitações começaram a ser superadas por volta de 750.000 anos atrás, na época do Homo heidelbergensis?
. Ambas as limitações, a da iconicidade e a do armazenamento insuficiente, foram parcialmente superadas na época do Homo heidelbergensis, por volta de 750.000 anosPrincipais espécies de hominídeos - seis milhões de anos de evolução humana. Fonte: Steven Mithen, The Language Puzzle, 2024. atrás. O tamanho do cérebro atingiu 1.100–1.400 cm³, abrangendo a faixa inferior dos neandertais posteriores e dos humanos modernos. As pressões seletivas para a expansão cerebral permaneceram as mesmas: a necessidade de prever o comportamento de outros indivíduos, idealmente compreendendo seus estados mentais, incluindo a manutenção de crenças falsas; a necessidade contínua de compreender o mundo natural conhecendo os hábitos dos animais, monitorando as mudanças das estações e interpretando sinais naturais; a necessidade de transformar matérias-primas em ferramentas, não apenas pedra, mas também madeira, casca de árvore e fibras vegetais, ossos, chifres, couro, tendões e vísceras, e até mesmo as almofadas secas das patas de elefantes mortos, que podiam fornecer bandejas prontas para transporte. Embora as pressões seletivas permanecessem as mesmas do passado remoto, assim como o processo de seleção natural por meio de mutação genética, hereditariedade, competição e reprodução diferencial, as consequências para a estrutura e o funcionamento do cérebro foram profundamente alteradas.

Como foi essa expansão cerebral?
. O aprendizado estatístico e outros métodos de aprendizado de propósito geral atingiram um limite no cérebro do Homo erectus. Eles não conseguiam evoluir mais, pois existem apenas algumas regularidades que podem ser identificadas no mundo e limites para as inferências que elas permitem. Consequentemente, por meio da força combinada da seleção natural e da experiência cultural, o cérebro desenvolveu múltiplas áreas de especialização funcional, áreas do córtex e extensas redes neurais dedicadas a receber tipos específicos de entrada, armazenar tipos específicos de conhecimento e processá-los de maneiras específicas. Algumas dessas áreas podem ter se relacionado a aspectos específicos do processamento da linguagem, enquanto havia pelo menos três conjuntos de processos mentais especializados para interagir com o mundo social, o mundo natural e para manipular materiais e objetos físicos, usados ​​para fabricar ferramentas de madeira e pedra. Cada um deles fornecia formas de pensar e armazenamentos de conhecimento específicos para cada domínio.

E foi assim que a quantidade de palavras aumentou?
. A combinação da redução da sinestesia, da especialização funcional e do aumento da capacidade de armazenamento libertou o léxico. Este deixou de estar restrito a palavras icônicas, embora estas continuassem essenciais, pois eram fáceis de adquirir para as crianças, apoiavam a aprendizagem de novas palavras arbitrárias mais complexas e constituíam um meio eficaz de descrever o mundo em termos genéricos. A aprendizagem estatística também se manteve essencial: não só o número de palavras proliferou, como também a velocidade com que eram pronunciadas, exigindo que as crianças em fase de aprendizagem da língua encontrassem as palavras no que se tornara um fluxo contínuo de sons.

Palavras arbitrárias surgiam por causa do uso repetido?
. As palavras arbitrárias* emergiram à medida que os sons e os significados das palavras icônicas se transformaram pelo seu uso repetido, envolvendo erros de audição, pronúncia e incompreensão. Embora a passagem das palavras por sucessivos gargalos na aprendizagem da língua tenha desempenhado um papel fundamental nesta transformação, o mesmo aconteceu com a linguagem quotidiana na comunidade linguística – as milhares de milhões de expressões proferidas e ouvidas ao longo de milhares de anos. Essas palavras foram criadas em grupos socialmente dinâmicos, por idosos, adolescentes e jovens, por pessoas de diferentes classes sociais, por homens e mulheres, por pessoas com boa ou má articulação e audição, como forma de construir laços sociais, cooperar e competir.

Esse processo foi desencadeado pela necessidade de uma comunicação mais eficiente?
. O que impulsionou e moldou esse processo foi, como sempre, o desejo instintivo por uma comunicação eficiente e eficaz: a eliminação de sons desnecessários dentro de uma palavra, a fusão de palavras para facilitar a pronúncia, a combinação de palavras existentes quando uma nova palavra era necessária e a influência constante da mudança semântica. Embora a maioria das mudanças fosse inconsciente e passasse despercebida mesmo depois de ocorrer, houve casos de mudança deliberada, quando indivíduos ou grupos buscaram afirmar sua identidade pela forma como pronunciavam suas palavras existentes e inventaram novas – frequentemente liderados por adolescentes do sexo feminino. Algumas palavras icônicas tornaram-se arbitrárias ao manterem seus sons, mas alterarem seus significados; outras fizeram o inverso, mudando seus sons, mas mantendo o significado. A capacidade recém-desenvolvida de ler mentes auxiliou o aprendizado de palavras arbitrárias, permitindo insights sobre as mentes de quem as pronunciava. Em contrapartida, novas palavras ampliaram a capacidade de compreender as intenções, os desejos e as crenças de outras pessoas.

O léxico ampliado permitiu que os hominídeos compartilhassem ideias e conhecimento?
. O léxico ampliado, com suas palavras/conceitos armazenados por todo o cérebro, enriqueceu a comunicação e alterou o comportamento. Os hominídeos podiam compartilhar ideias e conhecimento, permitindo o surgimento de novos conceitos que não poderiam ter sido concebidos por uma única mente. Isso possibilitou que o Homo heidelbergensis expandisse ainda mais seu território, migrando para latitudes mais altas na Europa após 600.000 anos atrás. Uma de suas inovações foi a produção de fogo, que se tornou um hábito logo após 400.000 anos atrás. A lascagem bifacial e os bifaces foram substituídos por uma diversidade de métodos de fabricação de ferramentas, utilizando núcleos preparados para produzir lascas, pontas e lâminas, proporcionando um uso mais eficiente da pedra. A técnica Levallois se disseminou por volta de 300.000 anos atrás. Houve interesse em minerais coloridos para uso como protetor solar e repelente de insetos; lanças de arremesso foram fabricadas. Todos esses itens eram identificados por palavras. Isso não apenas permitiu que os membros da comunidade linguística se comunicassem sobre tais objetos, mas também ajudou as mentes individuais a conceber e gerenciar os processos de pensamento necessários para sua fabricação e uso.

E foi assim que surgiram os nomes próprios para identificar indivíduos e objetos?
. A linguagem evoluiu não apenas pelo aumento do número de palavras, mas também pela formulação de palavras de um tipo diferente. A dependência anterior da iconicidade havia limitado o uso de nomes próprios, aqueles usados ​​para indivíduos e coisas específicas em vez de categorias gerais. Estes agora floresceram, com todos os membros de grupos sociais adquirindo seu próprio nome específico e, portanto, sua identidade.

E aconteciam processos dinâmicos de mudança linguística e de derivação morfológica?
A evolução da linguagem. Fonte: Steven Mithen, The Language Puzzle, 2024.. À medida que as pessoas conversavam e a linguagem era adquirida por cada nova geração, uma combinação de erros aleatórios, decisões individuais e uma busca intrínseca por eficiência e eficácia transformou algumas palavras de objeto em palavras de ação – substantivos em verbos. E o inverso: palavras de ação tornaram-se substantivos. Outras transformações se seguiram, com substantivos e verbos se tornando adjetivos e advérbios. Estes foram usados ​​para enriquecer a comunicação sobre o mundo – descrições mais detalhadas e categorizações mais precisas de animais e plantas, de condições climáticas e tipos de materiais, de cores, sons e odores, de como as pessoas se pareciam, se moviam e se comportavam umas com as outras. A única restrição era que as palavras lexicais estavam ancoradas em sensações, referindo-se apenas ao que podia ser visto, ouvido, cheirado, tocado ou degustado: o léxico era limitado a palavras concretas.

Uma série de palavras gramaticais desenvolveu-se lentamente?
. Uma série de palavras gramaticais desenvolveu-se lentamente, os artigos definidos, como “o/a”, “ele/ela”, “eles/elas … Além de substantivos e verbos, que eram onipresentes, todos ou nenhum dos novos tipos de palavras podem ter evoluído dentro de uma mesma comunidade linguística do Homo heidelbergensis. Da mesma forma, as comunidades linguísticas desenvolveram regras diferentes para a ordem e modificação das palavras, alterando seus significados. A diversidade linguística floresceu onde quer que esses hominídeos de cérebro grande, cognitivamente especializados e não sinestésicos se sentissem em casa.

Um léxico maior e mais diversificado levou a um refinamento do trato vocal?
. A vantagem de possuir um léxico maior e mais diversificado refinou o trato vocal até sua forma moderna na época em que o H. heidelbergensis vivia e morria na Sima de los Huesos**, na Espanha, há 450.000 anos. Os genes necessários para construir esse trato vocal foram herdados por seus dois descendentes, o H. neanderthalensis na Europa e o H. sapiens na África. De forma semelhante, no trato auditivo, embora o do H. heidelbergensis tenha mantido algumas características ancestrais, estas assumiram formas ligeiramente diferentes nas duas espécies descendentes, criando diferenças sutis nas sensibilidades acústicas do H. neanderthalensis e do H. sapiens.

Mas havia a restrição do ciclo contínuo de mudanças climáticas?
. Embora a restrição da iconicidade tivesse sido superada, outras duas permaneceram, freando a evolução da linguagem e tornando as línguas do Homo heidelbergensis e seus descendentes imediatos bastante diferentes de qualquer uma das que temos hoje. A primeira restrição era o ciclo contínuo de mudanças climáticas. Entre 500.000 e 100.000 anos atrás, houve quatro períodos interglaciais, cada um tão quente e úmido quanto o atual; cada um foi seguido por um retorno gradual, porém instável, a um mundo glacial, com queda do nível do mar, expansão das geleiras nas altas latitudes e desertos nas baixas. Os ciclos de mudanças climáticas fizeram com que as populações se expandissem, dispersassem e fragmentassem repetidamente, com frequentes extinções locais – não havia estabilidade na qual a mudança cultural cumulativa pudesse se consolidar. Justamente quando uma língua atingia um nível de complexidade, talvez com suas primeiras estruturas sintáticas, sua comunidade linguística entrava em colapso, fazendo com que a língua retornasse a sequências de palavras desordenadas, a partir das quais o lento processo iterativo em direção à complexidade linguística tinha que recomeçar.

O que são domínios discretos do conhecimento no cérebro e por que isso foi uma restrição no desenvolvimento da linguagem?
. A segunda restrição estava no cérebro. Enquanto a supressão de conexões neuronais durante a infância havia removido a restrição da iconicidade no cérebro adulto, outra surgiu: a mentalidade específica de domínio. As novas áreas de especialização funcional do cérebro processavam tipos específicos de informações, que eram processadas de maneiras específicas para domínios discretos do conhecimento***, possibilitando cálculos complexos de um tipo que o aprendizado estatístico jamais conseguiria realizar. Isso teve um custo, no entanto, porque as redes neurais para cada domínio eram isoladas umas das outras. O conhecimento e as formas de pensar necessárias para a atividade no mundo social estavam dissociadas daquelas usadas para interagir com o mundo natural e para fabricar ferramentas. O único meio de estabelecer conexões era por meio das redes neurais ainda utilizadas para o aprendizado estatístico, mas estas tinham dificuldade em acessar o conhecimento especializado gerado por cada especialização funcional.

Havia dificuldades para integrar o conhecimento e as formas de pensar utilizadas em cada domínio?
. A mentalidade específica de domínio**** restringiu a natureza do pensamento e do comportamento dos hominídeos. Embora o Homo heidelbergensis, seguido pelo Homo neanderthalensis na Europa e pelo Homo sapiens na África, tenha se destacado no trabalho e na modelagem de matérias-primas, na construção de relações sociais diversas e complexas e na compreensão do mundo natural, eles foram incapazes de integrar o conhecimento e as formas de pensar utilizadas em cada domínio. Isso limitou severamente sua capacidade de pensamento criativo.

Os neandertais desenvolveram uma tecnologia especializada, mas limitada?
. Os neandertais demonstraram habilidades excepcionais em lascar pedra, moldar madeira e combinar materiais para fabricar lanças com pontas acopladas e, sem dúvida,Reconstrução em 3D do rosto de uma mulher neandertal que viveu há 75 mil anos, baseado em crânio encontrado na Caverna Shanidar, no Curdistão iraquiano, em 2018. Veja mais em: Uma breve história da humanidade 2, Observatório Bíblico, 2025. uma infinidade de outras ferramentas multicomponentes que não deixaram vestígios. Mas, seja na Europa ou na Ásia Ocidental, seja vivendo na estepe da era glacial ou em florestas, seja há 250.000 ou 50.000 anos, eles produziam a mesma gama de lascas de pedra, lâminas e ferramentas. Embora isso não representasse a monotonia do período Acheulense, equivalia a milênios de pequenas variações em torno de um único tema de tecnologia de núcleo preparado, sem nenhuma mudança direcional.

Os neandertais atacavam suas presas a curtas distâncias e eram, frequentemente, feridos ou mortos?
. A mentalidade específica de domínio dos neandertais os impediu de combinar o conhecimento de suas presas com sua habilidade de moldar materiais para inventar o arco e flecha e o lançador de dardos [atlatl]***** – ferramenta de madeira com um gancho para proporcionar maior alavancagem ao arremessar uma lança. Eles foram incapazes de desenvolver armas de caça que não apenas atingissem tipos específicos de presas em circunstâncias específicas, mas também o fizessem a uma distância segura. Sem o lançador de dardos, suas longas lanças eram arremessadas com força insuficiente para uma morte limpa e eram mais frequentemente usadas para estocadas em curta distância. Muitos neandertais morreram jovens devido a ferimentos de caça adquiridos por terem que atacar suas presas com lanças curtas de uso geral, muitas vezes sendo arremessados ​​ou pisoteados durante o processo.

Os neandertais tiveram dificuldades em usar a cultura material para interação social?
. Da mesma forma, os neandertais tiveram dificuldades em usar a cultura material para interação social, como para denotar identidade pessoal e de grupo, ou para enviar mensagens sobre status, relacionamentos e personalidade. O máximo que conseguiram foi o uso de produtos prontos do mundo natural, penas e garras de pássaros e, muito provavelmente, peles coloridas visualmente impactantes. O aprendizado de propósito geral foi suficiente para concluir que usar penas de águia identificava o indivíduo com o poder daquela ave, mas não era capaz de combinar conhecimento social e técnico para criar objetos como colares de contas que carregassem mensagens personalizadas. Marcas eram ocasionalmente feitas em paredes de cavernas, em pedaços de osso e pedra, mas estas decorriam meramente do hábito de intervir no mundo material, geralmente aplicado a tarefas funcionais como a fabricação de ferramentas ou a construção de abrigos. As marcas eram agradáveis ​​de fazer e de se ver, mas não tinham significado e eram tão ininteligíveis para outros neandertais quanto são para nós hoje.

As línguas dos neandertais evoluíram sob a restrição dessa mentalidade específica de domínio e os impactos das mudanças ambientais?
. As línguas neandertais, juntamente com as dos denisovanos na Ásia Central e as dos primeiros Homo sapiens na África, evoluíram sob a restrição dessa mentalidade específica de domínio e os impactos disruptivos das mudanças ambientais. Sua multiplicidade de línguas apresentava semelhanças significativas e diferenças importantes em relação às nossas línguas atuais. Todas possuíam palavras icônicas, híbridas e arbitrárias. Todas elas diferiam em sua gama de fonemas, classes de palavras, regras de morfologia e sintaxe, assim como encontramos entre as línguas do mundo moderno. Elas usavam prosódia, gestos e linguagem corporal para matizar e, às vezes, mudar completamente o significado de suas palavras. O conteúdo de seus léxicos refletia o que era importante para cada comunidade linguística: os neandertais que viviam em ambientes setentrionais tinham mais palavras para neve do que aqueles em climas meridionais.

Quatro grandes famílias linguísticas evoluíram no mundo neandertal?
. A extensão em que as línguas compartilhavam palavras e estruturas gramaticais refletia o tempo que suas comunidades linguísticas haviam permanecido separadas. À medida que os grupos se fragmentavam e o contato diminuía, dialetos se desenvolveram, os quais foram eventualmente substituídos por línguas ininteligíveis entre si. Quatro grandes famílias linguísticas evoluíram no mundo neandertal, associadas a aglomerados demográficos na Europa Ocidental, Europa Meridional, Ásia Ocidental e um no leste que se estendia até a Ásia Central. Dentro desses aglomerados, os neandertais viviam em pequenos grupos que frequentemente necessitavam de endogamia para sobreviver, e as próprias línguas também se tornaram endogâmicas. Como muito conhecimento já era compartilhado dentro das comunidades linguísticas coesas, pouco precisava ser dito para comunicar um pensamento, cabendo à pragmática grande parte do trabalho. As palavras neandertais evoluíram para ter poucos fonemas; tornaram-se longas, morfologicamente complexas e inseridas em estruturas gramaticais ineficientes. Os gargalos durante a aprendizagem da língua praticamente não existiam, pois as crianças ouviam todo o léxico e as expressões de sua língua antes de atingirem a idade adulta. Neandertais de uma comunidade tinham dificuldade em compreender e aprender a língua de outra.

Podemos descrever algumas características das línguas neandertais?
Taxonomia dos seres humanos. Se pudéssemos ouvir os neandertais conversando, ficaríamos impressionados com o quão nasalada era a sua voz, como as suas oclusivas – /t/, /p/ e /b/ – eram relativamente altas, e como as suas falas eram tão longas. Essas características surgiram devido a cavidades nasais e capacidades pulmonares maiores do que as encontradas nos humanos modernos. A frequência de ideofones******, aquelas palavras icônicas facilmente reconhecidas que expressam vividamente a experiência multissensorial, também seria impressionante. Além disso, se houvesse um tradutor disponível, notaríamos algo diferente de todas as línguas encontradas no mundo hoje: a ausência de metáforas e palavras abstratas, aquelas cujos significados não podem ser definidos apenas pela experiência sensorial. As palavras abstratas estavam ausentes porque a mentalidade específica de domínio era incapaz de sustentar conceitos abstratos, que exigiam o uso de analogias e metáforas que se baseavam em múltiplos domínios do conhecimento. Devido à sua mentalidade específica de domínio e tal como os seus antepassados, o ​​Homo heidelbergensis e os primeiros Homo sapiens na África, os neandertais permaneceram limitados ao uso de palavras concretas – aquelas ancoradas no mundo externo.

 

* Em linguística, palavras arbitrárias referem-se à ausência de uma conexão natural ou lógica entre a forma de uma palavra (seus sons ou letras – o significante) e o seu significado (o conceito que representa – o significado). Essa relação é estabelecida por convenção social entre os falantes de uma língua, não por uma característica inerente ao objeto ou ideia. Por exemplo, “cachorro” (português), “dog” (inglês), “chien” (francês) e “Hund” (alemão) significam a mesma coisa, mas têm sons diferentes, mostrando a arbitrariedade do signo linguístico, embora haja um acordo social para usar essas formas. A existência de milhares de línguas com palavras diferentes para o mesmo conceito (ex: “criança” em português, “child” em inglês, “niño” em espanhol) comprova essa não-naturalidade. A arbitrariedade torna a linguagem flexível, permitindo que novas palavras sejam criadas e que os sistemas linguísticos se adaptem.

** Cf. Uma breve história da humanidade 1. Post publicado no Observatório Bíblico em 11.12.2025.

*** A ideia de domínios discretos do conhecimento no cérebro é um tema central na neurociência e na ciência cognitiva, frequentemente discutido com o nome de teoria da modularidade da mente. A teoria da modularidade propõe que a mente é composta por diversos “módulos” ou sistemas especializados, cada um dedicado a um tipo específico de função ou informação, operando de forma semi-independente. Assim como o corpo tem órgãos distintos para funções específicas (coração para bombear sangue, pulmões para respirar), a mente teria “órgãos mentais” para diferentes domínios cognitivos. Por exemplo: áreas como a de Broca (produção da fala) e a de Wernicke (compreensão da linguagem) são regiões cerebrais específicas e cruciais para o processamento linguístico. Já o lobo occipital contém o córtex visual primário e áreas de associação visual, especializadas em processar e interpretar informações visuais, enquanto o córtex pré-frontal está associado ao raciocínio lógico, planejamento e controle de impulsos. A teoria da modularidade da mente foi proposta por Jerry Alan Fodor (1935-2017), filósofo e cientista cognitivo norte-americano, em 1983. Cf. FODOR, J. A. The Modularity of Mind. Cambridge, Massachusetts: MIT Press 1983, 158 p. – ISBN 9780262560252.Steven Mithen (nascido em 1960)

**** A “mentalidade específica de domínio” refere-se a uma abordagem, conjunto de crenças ou padrão de pensamento que é altamente especializado e eficaz dentro de um campo ou área de conhecimento particular. Ela implica a utilização de estratégias, conhecimentos e modos de raciocínio que são mais relevantes e potentes em um contexto específico do que seriam em um contexto geral.

***** O atlatl é uma antiga ferramenta de caça e combate, um bastão com um gancho na ponta que funciona como uma alavanca para lançar dardos ou lanças pequenas com muito mais força, velocidade e distância do que o braço humano sozinho, aumentando drasticamente a letalidade da caça a grandes animais. O atlatl foi uma inovação crucial na história humana, ampliando a capacidade de caça e sobrevivência através de um simples, mas poderoso, princípio de alavanca. A palavra atlatl tem origem na língua náuatle (ou asteca) e significa “lançador de dardos”. Foi usado pelo Homo sapiens, mas não pelo Homo neanderthalensis.

****** Ideofones são palavras ou sons que imitam ou evocam uma experiência sensorial (som, movimento, cor, ação) de forma vívida, como “zum-zum”, “tique-taque”, “fofoca”, “borbulhar”, “chuá-chuá” (da água). Estão ligados à iconicidade, onde a forma sonora reflete o significado, criando uma imagem mental vívida de sensações, ações, cores, movimentos ou estados. Retratam as ideias que expressam.

Linguagem: força vital do ser humano 1

Estou lendo o livro de MITHEN, S. The Language Puzzle: How We Talked Our Way Out of the Stone Age. London: Profile Books, 2024, 544 p. – ISBN 9781800811584.

Estas são notas de leitura do capítulo 16: Conclusion: the evolution of language [Conclusão: a evolução da linguagem].MITHEN, S. The Language Puzzle: How We Talked Our Way Out of the Stone Age. London: Profile Books, 2024, 544 p.

Diz Steven Mithen na conclusão:

Este livro tenta desvendar o quebra-cabeça da linguagem: por que, quando e como a linguagem evoluiu? Reuni evidências da linguística e da arqueologia, da antropologia e da genética, da neurociência, da psicologia e da etologia. Usei-as para montar quatorze fragmentos do quebra-cabeça que agora se encontram dispersos sobre a mesa (…) Chegou a hora de encaixar esses fragmentos para completar o quebra-cabeça da linguagem. Apresento, a seguir, a minha melhor tentativa.

Para facilitar a leitura, reestruturei o texto em formato de perguntas e respostas. Este capítulo não tem notas de rodapé. As notas assinaladas com * são minhas.

O capítulo foi publicado em 4 posts:

Linguagem: força vital do ser humano 1

Linguagem: força vital do ser humano 2

Linguagem: força vital do ser humano 3

Linguagem: força vital do ser humano 4

 

1. O ponto de partida

O Último Ancestral Comum (UAC) e seus descendentes possuíam capacidades mentais e vocalizações semelhantes às dos chimpanzés atuais?
. O Último Ancestral Comum (UAC) de chimpanzés e humanos, que viveu na África entre 8 e 6 milhões de anos atrás, possuía capacidades mentais e vocalizações não muito diferentes das dos chimpanzés atuais, sejam eles Pan paniscus (o bonobo) ou Pan troglodytes (o chimpanzé). Isso se manteve com os parentes e descendentes do UAC, incluindo Sahelanthropus tchadensis e Ardipithecus ramidus.

Para que e como esses primatas terão usado seus chamados?
. Esses primatas que habitavam florestas usavam seus chamados para influenciar o comportamento de outros membros de seus grupos. A maioria dos chamados expressava estados emocionais: chamados altos e rápidos e gritos estridentes com os dentes à mostra indicavam raiva e agressão; uivos e arrulhos mais suaves e lentos expressavam afeto e fortaleciam laços sociais. Todos os chamados eram holísticos – os elementos sonoros que continham não tinham significado em si mesmos. Os chamados variavam entre as espécies, refletindo seu estilo de vida e anatomia, e entre as comunidades, refletindo o contexto ecológico e as tradições culturais. Embora esses primatas tivessem algum controle sobre a emissão de vocalizações, eles tinham pouca influência sobre o som em si, além de torná-lo um pouco mais baixo ou mais alto, mais longo ou mais curto. Em comparação com os hominídeos posteriores, seus cérebros possuíam um número relativamente pequeno de neurônios e redes neurais localizadas. Eles tinham controle muscular limitado sobre a expiração, o acionamento das pregas vocais e as articulações da língua, dos dentes e dos lábios. As membranas vocais, os sacos aéreos, os dentes grandes e as faces protuberantes restringiam a amplitude e a consistência dos sons que emitiam. Apesar dessas limitações, as vocalizações dos primatas possuíam algumas qualidades semelhantes a palavras e sintaxe: os significados das vocalizações às vezes dependiam do contexto; os mesmos elementos sonoros eram combinados de maneiras diferentes em vocalizações diferentes. Os mais jovens precisavam complementar seus instintos geneticamente determinados para aprender quais vocalizações emitir em cada circunstância.

 

2. O surgimento das palavras

Mudanças climáticas ocorridas há cerca de 4 milhões de anos moldaram novos comportamentos dos hominídeos?
. Há cerca de 4 milhões de anos, houve uma mudança no clima global em direção à aridez, fazendo com que as florestas recuassem e os hominídeos migrassem para campos abertos com árvores esparsas. O número de espécies de hominídeos proliferou com uma multiplicidade de adaptações – os australopitecos. Alguns se tornaram herbívoros especializados em alimentos vegetais secos, enquanto outros começaram a coletar restos de carne, gordura e tutano das carcaças de presas abandonadas por carnívoros. Todos enfrentaram o desafio de viver em um ambiente aberto e abundante em predadores. Precisavam viver em grupos maiores para segurança e interpretar sinais naturais para entender o que estava acontecendo, ou prestes a acontecer, em seu mundo: as pegadas e trilhas de predadores e presas, o voo de pássaros, o cheiro de fumaça de um incêndio distante na savana.

Indivíduos melhores em aprendizado estatístico podem ter usado seus chamados vocais para obter vantagens?
Principais espécies de hominídeos - seis milhões de anos de evolução humana. Fonte: Steven Mithen, The Language Puzzle, 2024. . Como em qualquer população, mutações genéticas aleatórias criaram um conjunto de variabilidade nas habilidades cognitivas. Alguns indivíduos eram melhores em aprendizado estatístico*, detectando associações recorrentes e usando-as a seu favor. Ao observar os membros do seu grupo, eles aprenderam a prever quem lutaria pela comida e quem se submeteria sob ameaça, com quem colaborar e quem evitar. Esses indivíduos tornaram-se hábeis em lidar com a complexidade do mundo social. Usavam seus chamados vocais para construir alianças, garantir status e obter acesso a recursos, seja compartilhando comida ou roubando alimentos adquiridos por outros. Ao fazer isso, garantiram vantagem reprodutiva – seus genes significativos para aprendizado estatístico transmitiram suas habilidades sociais para a próxima geração por meio dos neurônios extras e/ou redes neurais que esses genes desenvolveram.

Reconhecer regularidades no mundo natural e construir categorias de sinais naturais também fazia parte deste processo?
. Os mesmos indivíduos, ou outros, obtiveram vantagem semelhante ao serem hábeis em reconhecer regularidades no mundo natural e construir categorias de sinais naturais – como a pegada fresca de um leopardo é um sinal de perigo e o caule seco e mole de uma haste murcha indica um tubérculo gordo enterrado abaixo. O valor de fazer tais associações expandiu ainda mais a capacidade de aprendizado e, com ela, o tamanho do cérebro. O mesmo se aplicava à importância de saber como segurar um nódulo de pedra em uma mão e golpeá-lo com a outra no ângulo e com a força corretos para destacar uma lasca. As ferramentas resultantes permitiam que restos de carne e gordura fossem retirados mais rapidamente das carcaças, e que ossos fossem quebrados para extrair a medula. A velocidade era essencial, pois os carnívoros também buscavam alimentos nutritivos, fossem pedaços de uma carcaça morta há muito tempo ou um hominídeo saboroso para comer. Eficiência e eficácia na savana eram as palavras-chave para a sobrevivência dos hominídeos.

Foram essas pressões seletivas que produziram um cérebro maior no Homo habilis?
. Há 2,8 milhões de anos, essas pressões seletivas convergiram e construíram um cérebro maior para pelo menos uma, e talvez várias, espécies de hominídeos, que hoje chamamos de Homo habilis. Processos de aprendizagem de propósito geral eram utilizados em todos os domínios e produziam resultados mutuamente benéficos: alianças sociais fortalecidas facilitavam a transmissão de habilidades de fabricação de ferramentas; estas forneciam lascas de pedra para coleta de alimento e nódulos para quebrar ossos em busca de tutano e para triturar plantas; a carne, a gordura e o tutano alimentavam o cérebro, alimentando os neurônios extras que permitiam o uso de sinais naturais para encontrar carcaças e garantir o sucesso no mundo social.

O cérebro maior do Homo habilis terá sido causa ou consequência desse processo?
. O cérebro maior do Homo habilis, que por vezes atingia 800 cm³, era tanto causa quanto consequência desse ciclo de retroalimentação social-tecnológica-dietética. Como consequência de seu tamanho, surgiram conexões entre os córtex visual, motor, auditivo e somatossensorial, conexões essas necessárias para a aprendizagem estatística. As conexões também causavam extravasamento cortical, provavelmente decorrente de mielinização insuficiente. Essa dispersão sensorial fez da sinestesia um estado mental normal e onipresente. Impressões sensoriais sobre a aparência, os movimentos e o cheiro dos predadores infiltravam-se inconscientemente em seus chamados de alarme – sons de rastejamento para cobras, chamados de ataque para leopardos, gritos semelhantes a grasnidos para pássaros**.

Os chamados foram combinados com gestos icônicos?
. Esses gritos e chamados eram frequentemente combinados sem esforço com gestos icônicos***. Os chamados emitidos durante a fabricação de ferramentas de pedra assumiam o timbre de uma martelada e a nitidez de uma lasca; sons arredondados e mãos em concha expressavam tubérculos bulbosos; sons minúsculos e penetrantes e dedos beliscados representavam piolhos e pulgas. Alguns chamados combinavam uma profusão de sensações multimodais em um único segmento sonoro: a resposta vocal ao fogo na pastagem capturava cores brilhantes e cintilantes, calor, estalos e o aroma da fumaça da lenha em um único chamado sinestésico.

Como teriam sido os chamados para a construção de relacionamentos?
A iconicidade passou a moldar os chamados para a construção de relacionamentos. Aqueles usados ​​para o vínculo social tornaram-se mais suaves e calmos, expressando em som como alguém acariciaria fisicamente um amigo. Estados emocionais – impressões sensoriais de si mesmo – eram vocalizados com mais frequência: sons como “ai” quando machucado, “oh-oh” quando surpreso e “tsk-tsk” quando decepcionado.

Como se dava a incorporação destes segmentos icônicos na vocalização dos indivíduos?
. Tais impressões sensoriais, semelhantes às dos macacos, permaneceram incorporadas às vocalizações do Homo habilis por um milhão de anos ou mais. Eles seSítios fossilíferos de hominídeos na África. Fonte: Charles Musiba et alii, The Dawn of Humanity. Elements, 2023. expressavam como segmentos sonoros dentro de vocalizações mais longas e complexas, frequentemente combinando o que chamamos de vogais e consoantes em uma sucessão de expirações rápidas. Os indivíduos mais sensíveis aos segmentos icônicos obtinham vantagem: adquiriam conhecimento sobre o mundo a partir das vocalizações sinestésicas de outros – conhecimento sobre o perigo de predadores, a localização de alimentos e o provável comportamento de outros indivíduos. Da mesma forma, aqueles que, por acaso, tinham um controle voluntário relativamente alto sobre a incorporação de segmentos icônicos em suas próprias vocalizações, controlavam o conhecimento e o comportamento de outros – solicitando ajuda para proteger uma carcaça das hienas, mas garantindo que ninguém mais soubesse sobre um cacho de frutos silvestres até que estivessem prontos para contar. Embora adquirissem seu próprio significado independente, os segmentos icônicos permaneciam muito inconsistentes em seus sons, careciam de inícios e fins suficientemente bem definidos e eram muito dependentes da presença do estímulo para serem considerados palavras.

Que outras forças seletivas podem ter impulsionado a evolução humana?
. A capacidade de explorar a iconicidade nas vocalizações não era o único meio pelo qual se obtinha vantagem reprodutiva. Múltiplas forças seletivas impulsionavam a evolução humana de inúmeras maneiras. A importância de reduzir o custo energético da locomoção, de poder carregar ferramentas e alimentos ao caminhar e de diminuir a exposição ao sol impulsionou a evolução do bipedalismo, da marcha competente do Homo habilis à caminhada e corrida eficientes do Homo erectus. Isso possibilitou percorrer distâncias maiores e explorar áreas mais extensas em um único dia. A capacidade de arremessar pedras com precisão e a longas distâncias para afugentar hienas de uma carcaça valiosa ou afastar um leão agressivo promoveu a evolução da coordenação motora e das articulações dos ombros, semelhantes às que temos hoje.

Por que seria vantajoso viver em grupos maiores?
. Os desafios de viver em um grupo maior conferiram uma vantagem social àqueles indivíduos que conseguiam usar seu aprendizado estatístico para prever o comportamento dos outros com detalhes cada vez maiores e em mais circunstâncias. Ao saber em quem confiar, a colaboração aumentou: enquanto alguns buscavam carne, outros cavavam em busca de tubérculos; seus ganhos eram reunidos e compartilhados. A vantagem seletiva também advinha do uso de ferramentas de pedra, da utilização da mesma ferramenta para diversas tarefas e da disponibilidade de lascas afiadas como navalhas sempre que fosse necessário cortar carne ou caules de plantas. Essas ferramentas eram melhor fabricadas moldando-se um nódulo em um formato que se encaixasse facilmente na mão, removendo-se lascas de ambas as faces.

O que vem a ser o dilema obstétrico que levou ao surgimento da infância?
. A capacidade de buscar alimento em áreas mais amplas e colaborar com mais eficácia, sempre com uma ferramenta à mão, aprimorou a qualidade da dieta: mais carne, frutas mais maduras e tubérculos mais carnudos. À medida que a necessidade de mastigar sementes secas e raízes duras diminuía, a estrutura robusta da face e o tamanho dos dentes molares também diminuíam. Duas tendências evolutivas entraram em conflito: o bipedalismo eficiente exigia uma pélvis estreita, enquanto cérebros maiores (dos bebês) exigiam um canal de parto maior****. O conflito foi resolvido em favor da primeira tendência. Os bebês nasciam prematuros para um mamífero do tamanho do Homo erectus e precisavam manter um ritmo de crescimento fetal fora do útero. Uma nova etapa na história de vida humana surgiu: a infância.

E a evolução do trato vocal?
. Os desenvolvimentos não linguísticos tiveram impacto na vocalização e nos gestos. Mudanças anatômicas relacionadas ao bipedalismo, ao cérebro mais pesado, aos dentes menores e ao rosto mais achatado influenciaram o formato do trato vocal. Há 1,6 milhão de anos, uma gama diferente e mais ampla de fonemas era emitida nas savanas africanas em comparação com a época em que o Homo habilis e os australopitecos emitiam seus chamados e gritos. Os músculos faciais passaram a ser tão importantes para a produção de diversos sons na mesma expiração quanto para a mastigação. A capacidade de controle muscular que permitia manipular martelos de pedra na confecção de bifaces também se aplicava ao trato vocal, possibilitando rápidas mudanças fonéticas. A infância ampliava as oportunidades de aprendizado vocal, ao mesmo tempo que criava um gargalo de aprendizado – um curto período de tempo para complementar ou suprimir os instintos genéticos sobre quais vocalizações emitir em cada circunstância. As vocalizações com elementos icônicos eram as mais fáceis de aprender e modificar, visto que bebês e crianças possuem uma predisposição perceptiva inata para sons sinestésicos.

E então segmentos sonoros icônicos foram gradualmente transformados em palavras icônicas?
Evolução humana de Lucy até hoje . Foi após o surgimento desse conjunto de características anatômicas, cognitivas e de história de vida que os segmentos sonoros icônicos foram gradualmente transformados em palavras icônicas. O impulso instintivo para uma comunicação eficiente e eficaz foi a causa. Os indivíduos com o aprendizado estatístico mais desenvolvido identificaram associações recorrentes entre sequências de sons sinestésicos em uma vocalização e seus referentes no mundo, seja uma cobra se aproximando, uma poça d’água ou uma carcaça abandonada. O desafio de identificar tais associações foi facilitado pelo fato de o hominídeo que emitia a vocalização e o ouvinte possuírem a mesma percepção sinestésica e intermodal do mundo, o que restringia os possíveis referentes da vocalização para o ouvinte. Quando uma associação recorrente era identificada, o impulso pela eficiência eliminava os sons periféricos e sem significado, isolando sua essência em um segmento independente de som icônico. Os indivíduos mais hábeis em produzir, perceber e agir de acordo com esses sons adquiriram mais conhecimento sobre o mundo e garantiram vantagem reprodutiva: eram melhores comunicadores, mais eficazes no mundo social e obtinham mais alimentos e de melhor qualidade para comer e compartilhar. Eles tinham mais relações sexuais, assim como seus descendentes, permitindo que seus genes e hábitos culturais se espalhassem pela população.

Como terá sido o processo de transformação de sons icônicos em palavras icônicas?
. À medida que os sons icônicos passavam por sucessivos gargalos de aprendizado de geração em geração, sua acústica era moldada em uma forma consistente, auxiliada pela perda evolutiva das membranas vocais e dos sacos aéreos. Como os significados dos sons icônicos estavam embutidos nos próprios sons, eles podiam ser usados ​​e compreendidos por outros sem a presença de seus referentes. Isso era de considerável valor – um som icônico com um gesto de apontar, feito por um hominídeo em pé em uma elevação para outros abaixo, comunicava tanto “fuja” quanto “corra em direção a”, dependendo se o som icônico se referia a um leão se aproximando ou a uma árvore com frutos. A combinação do gargalo de aprendizado e das capacidades de aprendizado estatístico resultou na combinação de sons icônicos em sequências curtas, dois ou três sons encadeados, cada um contribuindo para um significado geral, sendo sua ordem outro aspecto da iconicidade, ao capturar a sequência de eventos. Com sua consistência acústica, deslocamento e uso em novas combinações, o que antes eram segmentos de sons icônicos embutidos em vocalizações semelhantes às de macacos, gradualmente se tornaram palavras icônicas semelhantes às humanas.

Palavras icônicas possibilitaram a transmissão de conhecimento técnico de uma geração para outra?
. A mesma trajetória de mudança estava ocorrendo com as ferramentas de pedra. A irregularidade de forma e o uso único dos núcleos e lascas Olduvaienses foram substituídos por ferramentas bifaciais multiuso com formato consistente*****. A fabricação dessas ferramentas era facilitada pela pronúncia de algumas palavras icônicas de instrução para si mesmo, que eram então compartilhadas com outros, permitindo a transmissão do conhecimento técnico de uma geração para a seguinte. Mas, com a restrição imposta pela iconicidade verbal, um limiar tecnológico foi rapidamente atingido, o qual não pôde ser superado por mais de um milhão de anos.

A área de Broca se desenvolveu no cérebro do Homo erectus?
. Assim como as novas palavras icônicas, os bifaces podiam ser transportados para uso conforme a necessidade. Tal foi a vantagem reprodutiva obtida que, por volta de 1,5 milhão de anos atrás, o que hoje chamamos de área de Broca havia se desenvolvido no cérebro do Homo erectus, permitindo a produção tanto de palavras quanto de ferramentas. Os bifaces passaram a ser identificados por meio de uma palavra icônica, e os usuários mais proficientes de palavras criaram rótulos icônicos distintos para o machado de mão, a picareta e o cutelo. Isso os transformou em objetos para reflexão mental, contribuindo para o aprimoramento de sua fabricação. Há 700.000 anos, os machados de mão passaram a ser fabricados para serem mais finos e elegantes, frequentemente com uma forma cuidadosamente elaborada e um grau de simetria que ia muito além das exigências de uma ferramenta de açougueiro. Ao fazer isso, os artesãos demonstravam suas habilidades técnicas, combinando planejamento, coordenação motora, força física e sensibilidade estética. Os observadores prestavam atenção a isso, especialmente aqueles do sexo oposto, homens ou mulheres, buscando sinais de bons genes para transmitir à sua descendência.

Como seria a linguagem do Homo erectus?
. Com as novas palavras icônicas, a linguagem havia surgido, embora soasse bastante diferente da que temos hoje. O Homo erectus tinha capacidade limitada de controlar a respiração e, portanto, raramente produzia mais do que algumas palavras a cada expiração, muitas vezes contidas em vocalizações que continham chamados e gritos semelhantes aos de macacos. Mas, à medida que as palavras icônicas proliferavam, suas combinações se tornavam mais longas e seu conteúdo informativo aumentava. Conforme as palavras adquiriam um status independente, os chamados e gritos restantes perderam qualquer conteúdo semântico que antes possuíam. Passaram a se dedicar à expressão de estados emocionais, intensificando o uso de timbre, tom e ritmo.

O ritmo teve papel importante na construção da comunicação humana?
. Tais chamados induziam estados emocionais em outros indivíduos e, assim, eram eficazes na construção de laços sociais do tipo que não podem ser alcançados apenasSteven Mithen (nascido em 1960) por meio de palavras. As mães agora embalavam e cantavam para seus bebês; grupos de adolescentes começaram a cantar juntos antes de embarcar em tarefas colaborativas desafiadoras. O recém-descoberto senso de ritmo não apenas permitiu que os hominídeos cantassem e dançassem, mas também os auxiliou em tarefas físicas, como correr longas distâncias pela savana seguindo animais feridos. Ao entrarem em ritmo, vocal e fisicamente, os hominídeos desenvolveram duas formas distintas de comunicação: sequências de palavras icônicas ricas em informação que evoluiriam para a linguagem; e cérebros e corpos sensíveis à melodia e ao ritmo, que forneceram a base para a música. Mas não havia uma divisão estrita: mesmo nesse estágio inicial da linguagem, os significados das palavras e frases eram matizados pela alteração da entonação e da ênfase, pela adição de pausas e pela mudança de andamento. As palavras mais expressivas, aquelas que evocavam uma experiência multissensorial, como o calor, os aromas, o crepitar e as chamas de uma fogueira na savana ou a investida estrondosa de um elefante enfurecido, faziam uso de ritmo, repetição e gestos. Os linguistas de hoje as chamariam de ideofones******.

 

* O aprendizado estatístico na pré-história é uma referência ao processo cognitivo crucial de reconhecimento de padrões e tomada de decisões baseadas em probabilidades empíricas para a sobrevivência, como padrões de migração de animais, identificação de alimentos comestíveis, previsão do tempo e mudanças sazonais, aprimoramento de ferramentas etc. Na pré-história, esses processos eram realizados mentalmente e passados adiante oralmente ou por imitação, como parte do conhecimento coletivo do grupo. O aprendizado estatístico era, essencialmente, a capacidade de reconhecer a frequência de eventos e usar essa informação para fazer inferências sobre o futuro e maximizar as chances de sobrevivência.

** Mielinização insuficiente: O extravasamento ou “dispersão sensorial” é provavelmente causado por falhas na mielinização (a cobertura isolante das fibras nervosas), permitindo que os sinais de uma modalidade sensorial (como a audição) ativem involuntariamente outra (como a visão de cores). Já a sinestesia – além de ser uma figura de linguagem (como, por exemplo, “cheiro doce”) – é um fenômeno neurológico onde os sentidos se misturam, como ver cores ao ouvir música ou sentir o gosto de palavras. A sinestesia resulta de uma conectividade cruzada incomum e aumentada entre diferentes áreas sensoriais do cérebro.

*** Gestos icônicos são movimentos das mãos que imitam visualmente o que está sendo dito. O gesto se parece com a ideia que representa, como fazer o formato de uma casa para a palavra “casa” ou juntar os dedos para “pequeno”. Falar gesticulando ajuda o cérebro a visualizar e resolver problemas.

**** Cf. Wikipedia, Dilema obstétrico.

***** Cf. Uma breve história da humanidade 1. Post publicado no Observatório Bíblico em 11.12.2025

****** Ideofones são palavras ou sons que imitam ou evocam uma experiência sensorial (som, movimento, cor, ação) de forma vívida, como “zum-zum”, “tique-taque”, “fofoca”, “borbulhar”, “chuá-chuá” (da água). Estão ligados à iconicidade, onde a forma sonora reflete o significado, criando uma imagem mental vívida de sensações, ações, cores, movimentos ou estados. Retratam as ideias que expressam.

Literatura judaica em grego

Em 1998 escrevi um artigo que começava assim:

A partir do século III a.C., com a assimilação da língua e dos gêneros literários gregos, vários judeus tentam explicar aos seus conterrâneos e aos gregos cultos, especialmente de Alexandria, que o judaísmo é uma religião respeitável e recomendável pela sua antiguidade e pelos feitos de seus líderes.

Escrevendo em grego, e em gêneros literários gregos – da historiografia à filosofia – autores como Aristeias, Artápano, Teodoto, Jasão de Cirene e outros nos legam uma literatura de apologia do judaísmo, mas que é, ao mesmo tempo, excelente testemunho da resistência e da submissão desse povo e dessa cultura ao dominador grego.

Neste artigo, proponho a abordagem, em um primeiro momento, desta literatura de um modo geral e, em seguida, da Carta de Aristeias a Filócrates e de alguns historiadores como Demétrio, Eupólemo, o Samaritano anônimo, Artápano e o Pseudo-Hecateu.

Naturalmente esta é apenas uma amostragem, mas creio que bastante significativa, do processo de helenização que avança inexoravelmente entre os judeus durante os últimos três séculos antes da era cristã.

E em 24.10.2020 comentei um artigo e um livro sobre o mesmo tema em um post com o título de Gêneros gregos e autores judeus.DHONT, M. (ed.) T&T Clark Handbook of Hellenistic Jewish Literature in Greek. London: T&T Clark, 2025, 712 p.

 

Agora vejo a seguinte publicação:

DHONT, M. (ed.) T&T Clark Handbook of Hellenistic Jewish Literature in Greek. London: T&T Clark, 2025, 712 p. – ISBN 9780567692368.

Este volume oferece uma introdução crítica à literatura judaica helenística. Proporciona aos estudantes e pesquisadores uma visão geral das questões acadêmicas relativas a cada obra (abrangendo temas como data, proveniência, idioma, conteúdo, estilo, recepção, contribuição para o judaísmo antigo, etc.), bem como informações importantes sobre edições críticas, manuscritos e estudos secundários, servindo como um ponto de partida claro para qualquer pessoa interessada nesse conjunto de obras.

O volume inicia-se com uma série de ensaios temáticos, que orientam o leitor e examinam questões gerais essenciais, como idioma, geografia e identidade. O núcleo do volume apresenta panoramas das questões acadêmicas que envolvem os textos. Cada verbete fornece aos leitores as informações essenciais para o estudo aprofundado do texto e para a compreensão de seu impacto sobre o judaísmo helenístico e sua recepção posterior.

Marieke Dhont é ex-pesquisadora de pós-doutorado na Universidade de Lorraine (Metz, França) e atualmente é bolsista de pós-doutorado da Academia Britânica na Universidade de Cambridge, Reino Unido.

 

This volume provides a critical introduction to Hellenistic Jewish Literature. It offers serious students and scholars with an overview of the scholarly issues for each work (covering issues such as date, provenance, language, content, style, reception, contribution to ancient Judaism, etc.) as well as important information about critical editions, manuscripts, and secondary scholarship, serving as a clear starting point for anyone who is interested in this corpus of literature.

The volume begins with a set of thematic essays, providing orientation for the reader and examining core general issues such as language, geography and identity. The core of the volume provides overviews of the scholarly issues surrounding texts. Each entry provides readers with the core information necessary to study the text in depth and to understand its impact upon our understanding of Hellenistic Judaism and its later reception.

Marieke Dhont is a former postdoctoral researcher at the Université de Lorraine (Metz, France) and currently holds a British Academy Postdoctoral Fellowship at the University of Cambridge, UK.

 

Sumário – Table of Contents

Introduction – Sean A. Adams and Marieke Dhont

 

Part One: Thematic essays

Jews in the Greco-Roman World – Erich Gruen

Jewish (Greek) Multilingualism in the Hellenistic Era – Benjamin Kantor

Jewish Identity – Kathy Ehrensperger

Jewish Communities in the Hellenistic and Roman Eras – David Noy

Early Jewish Literatures in Christian Transmission: Manuscripts, Methods, and Ethics – Liv Ingeborg Lied

 

Part Two: Works

Jewish Greek Translations – Will Ross

Greek compositions in the LXX – Gerbern Oegema

Demetrius the Chronographer – Sylvie Honigman

Eupolemus – Robert Doran

Aristobulus – Markus Mülke

Letter of Aristeas – Ben Wright

Pseudo-Hecataeus – Ekaterina Matusova

Fragmentary Jewish Historians – Gregory Sterling

Marieke Dhont (nascida em 1987, Holanda)Artapanus – Jed Wyrick

Poetic fragments with Jewish content – Max Leventhal

The Exagoge of Ezekiel the Tragedian – Max Kramer

Pseudo-Phocylides – Michael Tilly

Sibylline Oracles 1-2 – Jane Lightfoot

Sibylline Oracles 3-5 – John Collins

Sibylline Oracles 6-12 – Ashley Bacchi

Joseph and Aseneth – Gillian Glass

The Testament of Job – Maria Ciaota

The Testaments of Abraham, Isaac, and Jacob – Robert Walker

The Testament of Moses – Jan Willem Van Henten

The Testament of the Twelve Patriarchs – Patrick Pouchelle

Judeo-Hellenistic Poem Attributed to Orpheus – Fabienne Jourdan

Lives of the Prophets – A.M. Schwemer

Greek Life of Adam and Eve – Jack Levison

Apocryphon of Ezekiel/Apocrypha Attributed to Ezekiel – Joseph Scales

Henoch in Greek – Elena Dugan

Jewish inscriptions – Noah Kaye

The Prayer of Joseph – Justin Schedtler

The Prayer of Jacob – Justin Schedtler

Early Jewish Prayers – Justin Schedtler

Philo of Alexandria – Michael Cover

Josephus – Eelco Glas

Gospels – Eve-Marie Becker

Acts of the Apostles – Kindalee DeLong

Paul – Todd Still

Catholic Epistles – Rubin McClain

Revelation – Garrick Allen

Jewish Sources in the Pseudo-Clementine Corpus – James Carleton Paget

The Contribution of Jewish Prayers Embedded in the Apostolic Constitutions to the Study of Hebrew Synagogal Prayers – Menahem Kister

The Greek Apocalypse of Ezra – Ryan Comins

Literatura Profética II 2026

A Literatura Profética II é continuação da Literatura Profética I. A carga horária semanal é de 2 horas, no segundo semestre do segundo ano de Teologia.

Ementa
Introdução e análise dos principais textos do profeta Jeremias. Introdução e análise dos livros de profetas exílicos e pós-exílicos: Ezequiel, Dêutero-Isaías (Is 40-55), Ageu, Zacarias 1-8, e Trito-Isaías (Is 56-66).

II. Objetivos
. Colocar em discussão as características e a função do discurso profético.
. Confrontar os textos dos profetas com o contexto da época.
. Possibilitar ao aluno uma leitura atualizada e crítica dos textos proféticos em confronto com a realidade contemporânea e suas exigências.

III. Conteúdo Programático
1. Jeremias
2. Ezequiel
3. Dêutero-Isaías (Is 40-55)
4. Ageu
5. Zacarias 1-8
6. Trito-Isaías (Is 56-66)

IV. Bibliografia
Básica
DA SILVA, A. J. Perguntas mais frequentes sobre o profeta Jeremias. Disponível na Ayrton’s Biblical Page. Última atualização: 30.09.2025.

SCHÖKEL, L. A.; SICRE DÍAZ, J. L. Profetas 2v. 2. ed. São Paulo: Paulus, vol. I: 2004 [3. reimpressão: 2018]; vol. II: 2002 [4. reimpressão: 2015].

SICRE DÍAZ, J. L. Introdução ao profetismo bíblico. Petrópolis: Vozes, 2016.

Complementar
DA SILVA, A. J. Arrancar e destruir, construir e plantar: a vocação de JeremiasEstudos Bíblicos, Petrópolis, n. 15, p. 11-22, 1987. Disponível na Ayrton’s Biblical Page. Última atualização: 05.09.2025.

DA SILVA, A. J. Ezequiel, um estranho personagem. Observatório Bíblico – 13 de abril de 2024.

DA SILVA, A. J. Superando obstáculos nas leituras de JeremiasEstudos Bíblicos, Petrópolis, n. 107, p. 50-62, 2010. Disponível na Ayrton’s Biblical Page. Última atualização: 09.07.2022.

NAKANOSE, S. et alii Como ler o Terceiro Isaías (56-66): novo céu e nova terra. São Paulo: Paulus, 2004 [4. reimpressão: 2019].

WIÉNER, C. O profeta do novo êxodo: o Dêutero-Isaías. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997.