O que nos diz Elaine Pagels sobre Jesus de Nazaré?

Os relatos da infância de Jesus, em Mateus e Lucas, contêm muito mais adaptações literárias de narrativas da Bíblia Hebraica do que história.

Matthew’s and Luke’s birth narratives, then, likely contain more literary adaptation of Hebrew Bible stories than history.PAGELS, E. Miracles and Wonder: The Historical Mystery of Jesus. New York: Doubleday, 2025, 336 p.

Este livro está provocando alvoroço!

PAGELS, E. Miracles and Wonder: The Historical Mystery of Jesus. New York: Doubleday, 2025, 336 p. – ISBN 9780385547468.

No início de sua carreira, Elaine Pagels mudou nossa compreensão das origens do cristianismo com seu trabalho em Os Evangelhos Gnósticos. Agora, no ápice de uma carreira de décadas, ela explora o maior tema de todos: Jesus. Em Miracles and Wonder: The Historical Mystery of Jesus, ela se propõe descobrir como um jovem judeu pobre inspirou uma religião que moldou o mundo.

O livro deve ser lido como uma história de suspense, pois cada capítulo aborda uma questão fascinante e responde a ela com base nos textos deixados pelos seguidores de Jesus. Por que se diz que Jesus teve um nascimento virginal? Por que dizemos que ele ressuscitou dos mortos? Seus milagres realmente aconteceram e o que eles significaram?

O leitor, certamente, experimentará a alegria da descoberta, mas também a angústia da dúvida. A história que Pagels conta é emocionante e tensa. Não apenas Jesus ganha vida, mas também seus seguidores desesperados e perseguidos. Percebemos que alguns dos detalhes mais convincentes da vida de Jesus são as explicações que seus discípulos criaram para encobrir fatos inconvenientes. Mas foram estes detalhes e promessas que eletrizaram seus ouvintes e ajudaram a aumentar o número de seus seguidores.

Em Miracles and Wonder: The Historical Mystery of Jesus, Pagels faz mais do que investigar um mistério histórico. Ela lança luz sobre o poder duradouro de Jesus para inspirar e atrair.

Sumário

Dedication

Author’s Note

Introduction

1. The Virgin Birth: What Happened?

2. Who Is Jesus? Miracles and Mysteries

3. What Is the “Good News”?

4. The Crucifixion: What Happened, and What Could It Mean?

5. Resurrection: What Did People Say Happened—and What Can Be Known?

6. How Did Jesus “Become God”?

7. Who Is Jesus—to New Converts, Artists, and Filmmakers Engaging Him Today?

Conclusion

Illustrations

Acknowledgments

Notes

Bibliography

ELaine Pagels é Professora de Religião na Universidade de Princeton, Nova Jersey, USA. Como jovem pesquisadora no Barnard College, mudou o panorama histórico da religião cristã ao desmistificar o mito da Igreja primitiva como um movimento unificado. Suas descobertas foram publicadas no best-seller “Os Evangelhos Gnósticos” (1979). Seus livros subsequentes incluem Why Religion? Revelations, Reading Judas, Beyond Belief, The Origin of Satan, e Adam, Eve, and the Serpent.

 

Early in her career, Elaine Pagels changed our understanding of the origins of Christianity with her work in The Gnostic Gospels. Now, in the culmination of a decades-long career, she explores the biggest subject of all, Jesus. In Miracles and Wonder she sets out to discover how a poor young Jewish man inspired a religion that shaped the world.

Elaine Pagels (1943-)The book reads like a historical mystery, with each chapter addressing a fascinating question and answering it based on the gospels Jesus’s followers left behind. Why is Jesus said to have had a virgin birth? Why do we say he rose from the dead? Did his miracles really happen and what did they mean?

The story Pagels tells is thrilling and tense. Not just does Jesus comes to life but his desperate, hunted followers do as well. We realize that some of the most compelling details of Jesus’s life are the explanations his disciples created to paper over inconvenient facts. These necessary fabrications were the very details and promises that electrified their listeners and helped his followers’ numbers grow.

In Miracles and Wonder, Pagels does more than solve a historical mystery. She sheds light on Jesus’s enduring power to inspire and attract.

Eline Pagels is the Harrington Spear Paine Professor of Religion at Princeton University. As a young researcher at Barnard College, she changed the historical landscape of the Christian religion by exploding the myth of the early Church as a unified movement. Her findings were published in the bestselling book The Gnostic Gospels (1979), which won both the National Book Critics Circle Award and the National Book Award. Her subsequent books include Why Religion? Revelations, Reading Judas, Beyond Belief, The Origin of Satan, and Adam, Eve, and the Serpent.

O surgimento da Bíblia

SCHMID, K.; SCHRÖTER, J. O surgimento da Bíblia: dos primeiros textos às sagradas escrituras. Petrópolis/São Leopoldo: Vozes/Sinodal, 2023, 472 p. – ISBN ‎ 9786556000459.SCHMID, K.; SCHRÖTER, J. O surgimento da Bíblia: dos primeiros textos às sagradas escrituras. Petrópolis/São Leopoldo: Vozes/Sinodal, 2023, 472 p.

Pesquisas realizadas nas últimas décadas revisaram muitas suposições comuns sobre a história de Israel e as origens da Bíblia. Eventos como o êxodo do Egito ou a construção do Templo sob Salomão não são mais considerados históricos. Isso intensifica a questão de como as principais histórias do Antigo Testamento se originaram e quando se tornaram parte da “escritura sagrada”. Suposições comuns sobre a coleção de Evangelhos e as primeiras cartas apostólicas também estão sendo reexaminadas.

Este livro, baseado no estado atual da pesquisa, descreve o longo caminho desde as primeiras narrativas do antigo Israel, passando por textos-chave do monoteísmo judaico e do cristianismo primitivo, até os livros sagrados das religiões mundiais do judaísmo e do cristianismo.

 

Sumário

1. As bíblias do judaísmo e cristianismo

2. Cultura da escrita e produção literária na época do reinado em Israel e Judá, séculos X a VI a.C.

3. O judaísmo emergente e os escritos bíblicos nas épocas babilônica e persa, séculos VI a IV a.C.

4. Escritos e uso dos escritos no judaísmo da época helenístico-romana, séculos III a.C. a I d.C.

5. Os escritos do judaísmo antigo no cristianismo emergente, séculos I e II

6. A formação da Bíblia Cristã e o surgimento de mais literatura de tradição, séculos I a IV

7. A formação da Bíblia Judaica e o surgimento da Mixná e do Talmude, séculos I a VI

8. Sobre a história da repercussão das bíblias Judaica e Cristã

 

Konrad Schmid é Professor de Bíblia Hebraica e Judaísmo Antigo na Universidade de Zurique, Suíça. A história literária do Pentateuco e a reconstrução dos processos redacionais que levaram à sua forma final constituem o foco principal de sua pesquisa. Ele é filho de Hans Heinrich Schmid, um dos três “revisionistas” do Pentateuco.

Jens Schröter é professor de Novo Testamento e Apócrifos do Novo Testamento na Universidade Humboldt de Berlim, Alemanha.

 

Original alemão: Die Entstehung der Bibel: Von den ersten Texten zu den heiligen Schriften. 2. Auflage Paperback. München: C.H. Beck, 2024, 504 S. – ISBN 9783406831584.

SCHMID, K.; SCHRÖTER, J. Die Entstehung der Bibel: Von den ersten Texten zu den heiligen Schriften. 2. Auflage Paperback. München: C.H. Beck, 2024, 504 S.Die Forschung der letzten Jahrzehnte hat viele gängige Annahmen über die Geschichte Israels und die Entstehung der Bibel revidiert. Ereignisse wie der Auszug aus Ägypten oder der Tempelbau unter König Salomo gelten nicht länger als historisch. Damit verschärft sich die Frage, wie die großen Geschichten des Alten Testaments entstanden sind und wann sie Teil «heiliger Schriften» wurden. Auch gängige Annahmen über die Sammlung der Evangelien oder frühe Apostelbriefe stehen neu auf dem Prüfstand.

Das vorliegende Buch beschreibt auf dem aktuellen Forschungsstand den langen Weg von frühen Erzählungen des alten Israel über Schlüsseltexte des jüdischen Monotheismus und des frühen Christentums bis hin zu heiligen Büchern der Weltreligionen Judentum und Christentum.

Seminário do PIB para professores de Bíblia em 2026

Sobre a iniciativa, leia aqui.

Sobre os seminários anteriores, leia aqui e aqui.

Sobre o seminário de 2026:
:: Tema: A apocalíptica: textos bíblicos e extrabíblicos
:: Data: 26-30 de janeiro de 2026
:: Coordenadores: Professores Luca Pedroli e Luigi Santopaolo

No site do PIB se lê em italiano:

Seminario 2026 [dal 26 al 30 gennaio 2026]

Tema del seminario: L’apocalittica: testi biblici ed extra-biblici

Coordinatori del seminario sono i Proff. Luca Pedroli e Luigi Santopaolo (entrambi del Pontificio Istituto Biblico).

Il Seminario prevede ogni giorno tre lezioni magistrali comuni tra mattino e pomeriggio, e delle sedute pomeridiane di approfondimento nella seconda parte del pomeriggio (16:30-18:00) per gruppi. Queste ultime saranno o in forma seminariale o in forma di lezioni frontali.

PROGRAMMA

:. Lunedì 26 gennaio
** Enoch e le altre apocalissi extra-bibliche (1)

Da Enoch a Giovanni e oltre: traiettorie apocalittiche a partire dal giudaismo del Secondo Tempio
Prof. Edmondo Lupieri [Loyola University, Chicago]

Il Libro di Enoch: lo stato dell’arte
Prof. Alessandro Bausi [Università «Sapienza», Roma]

What is Apocalypticism?
Prof. John J. Collins [Yale Divinity School, New Haven, CT]

Sedute pomeridiane di approfondimento (in contemporanea):

Assiriologia e apocalittica
Prof.ssa Rocio Da Riva Muñoz [Universitat de Barcelona]

Iranologia e apocalittica
Prof. Gian Pietro Basello [Università degli Studi di Napoli “L’Orientale”]

2 Enoch
Prof. Luigi Santopaolo [Pontificio Istituto Biblico]

 

:. Martedì 27 gennaio
** Enoch e le altre apocalissi extra-bibliche (2)

Libro Astronomico di 1 Enoch: testo etiopico e manoscritti aramaici
Prof. Henryk Drawnel [Università Cattolica di Lublino, Polonia]

Il Libro dei Giubilei: trasmissione, traduzione, trasformazione
Prof. Daniele Minisini [Università «Sapienza», Roma]

Charisma profetico e il Libro dei Vigilanti
Prof. Luca Arcari [Università Federico II, Napoli]

Sedute pomeridiane di approfondimento (in contemporanea):

Libro dei Giubilei
Prof. Daniele Minisini [Università «Sapienza», Roma]

Canone chiuso in 4 Esdra e Flavio Giuseppe
Prof. Juan Carlos Ossandon [Pontificia Università della S. Croce, Roma]

Daniele OG e Daniele Theodotion
Prof.ssa Daniela Scialabba [Pontificio Istituto Biblico]

 

:. Mercoledì 28 gennaio
** Il Libro di Daniele e l’apocalittica extra-biblica

La profezia dello scriba: Daniele 8–12
Prof. Marco Settembrini [Facoltà Teologica dell’Emilia Romagna, Bologna]

Sintassi apocalittica (Daniele)
Prof. Luigi Santopaolo [Pontificio Istituto Biblico]

Sviluppi recenti nella ricerca di 4Esdra e 2Baruc
Prof. Peter Juhás [Universität Münster] [pomeriggio del mercoledì: libero]

 

:. Giovedì 29 gennaio
** L’Apocalisse di Giovanni

Giovanni: un ebreo del suo tempo? L’Apocalisse oggi… e domani
Prof. Daniele Tripaldi [Alma Mater Studiorum – Università di Bologna]

L’Apocalisse di Giovanni come manuale teologico
Prof.ssa Lourdes García Ureña [Universidad CEU San Pablo, Madrid]

Una, due o tre donne…? Le codificazioni simboliche femminili di Ap
Proff. Luca Pedroli [Pontificio Istituto Biblico] – Silvia Zanconato [Coordinamento Teologhe Italiane]

Sedute pomeridiane di approfondimento (in contemporanea):

Flavio Giuseppe e visioni apocalittiche della realtà
Prof. Joseph Sievers [Pontificio Istituto Biblico]

Apocalisse apocrifa di Giovanni
Prof. Emanuela Valeriani [Universität Regensburg]

L’Apocalisse come actio liturgica
Prof. Carlo Manunza [Pontificia Facoltà Teologica della Sardegna, Cagliari]

 

:. Venerdì 30 gennaio
** Apocalittica neotestamentaria

Apocalisse di Paolo
Prof. Claudio Zamagni [Università «Sapienza», Roma]

La retorica apocalittica di Marco 13
Prof. Santiago Guijarro Oporto [Pontificio Istituto Biblico]

Il mondo di Enoch nell’Apocalisse di Giovanni
Prof. Edmondo Lupieri [Loyola University, Chicago]

Venerdì pomeriggio – Lezione conlusiva

L’Apocalittica oggi, tra vecchie e nuove prospettive
Prof. Gabriele Boccaccini

 

Iscrizioni

Chi fosse interessato è pregato di dare la propria adesione, inviando una e-mail all’indirizzo: [email protected]

Termine delle iscrizioni: 10 ottobre 2025.

Sarà possibile anche la partecipazione on-line. Nel fare l’iscrizione si prega di precisare la modalità di partecipazione.

La quota di partecipazione è di € 120. Per i membri dell’Associazione ex-alunni/e in regola con l’iscrizione: € 100.

Non è richiesto il versamento di una quota al momento dell’iscrizione, ma si prega di inviare la propria adesione solo se realmente si prevede di partecipare, perché l’organizzazione finale della settimana dipenderà anche dal numero dei partecipanti.

Per ulteriori informazioni rivolgersi a: Segreteria Associazione ex-alunni/e PIB ([email protected])

Morreu James Swetnam (1928-2025)

Fui seu aluno de Grego do Novo Testamento na década de 1970 no Pontifício Instituto Bíblico. Swetnam era um professor extremamente dedicado, que acompanhava a evolução de cada um dos estudantes em seu aprendizado. Guardo ótimas recordações daquele tempo e da convivência com ele em sala de aula.

Diz o obituário na página do PIB:James Swetnam (1928-2025)

Na noite de domingo, 27 de abril, o Rev. James H. Swetnam, S.J., professor emérito da Faculdade Bíblica do Pontifício Instituto Bíblico, faleceu em St. Louis, Missouri [EUA], aos 97 anos.

Ele nasceu em 18 de março de 1928, na mesma cidade (St. Louis) onde encerrou sua jornada terrena. Aos 17 anos (1945), ingressou na Companhia de Jesus e foi ordenado sacerdote em 1958.

Após estudar filosofia e teologia na Universidade de St. Louis, matriculou-se no Pontifício Instituto Bíblico em 1960, obtendo o Mestrado em Sagrada Escritura (1962) e completando um ano de estudos que o levou ao Doutorado (1962-63). Posteriormente (1975-1978), concluiu seu doutorado em estudos bíblicos na Universidade de Oxford com a dissertação Jesus and Isaac: A Study of the Epistle to the Hebrews in the Light of the Aqedah.

Em 1963, quando alunos sem conhecimento de grego e hebraico chegavam ao Bíblico, foi-lhe pedido que organizasse um curso preparatório. Isso marcou o início do ano propedêutico, ao qual o Padre Swetnam dedicou quase quarenta anos de ensino. Gerações de alunos se lembram de sua paixão, metodologia eficaz e dedicação ao ensino. Seu método foi incorporado no volume An Introduction to the Study of New Testament Greek (1992), traduzido para vários idiomas (italiano, ucraniano, coreano, espanhol e português).

Lecionou grego e hebraico de 1963 a 2003, com a única interrupção devido ao seu doutorado em Oxford. Além de lecionar, dirigiu seminários sobre o Novo Testamento e orientou inúmeras teses de doutorado.

Além de lecionar e publicar (especialmente sobre a Carta aos Hebreus), ocupou cargos institucionais, como Vice-Reitor (1984-1993), Decano da Faculdade Bíblica (1986-1989), Pró-Reitor da Faculdade de Estudos Orientais (1996-1998) e Secretário-Geral (1991-1997).

Em 1999, foi nomeado Diretor da Associação de ex-Alunos, cargo que ocupou até 2010, por ocasião do centenário do Instituto.

Retornando à sua Província em novembro de 2010, deu continuidade ao seu trabalho bíblico e pastoral e criou o site “James Swetnam’s Close Readings”, posteriormente substituído em 2019 por James Swetnam’s Thoughts on Scripture.

“Considerei então um dom inestimável poder estudar no Pontifício Instituto Bíblico… naquele cálido dia de outubro da minha chegada a Roma, não poderia imaginar que passaria mais de meio século no Instituto, nem o grande privilégio de ajudar muitos outros a dedicar suas vidas ao estudo da Sagrada Escritura.” (J. Swetnam, Introduzione a Le persone del Biblico, 1909-2009)

 

Nella serata di domenica 27 aprile è deceduto a St. Louis, MO [USA], all’età di 97 anni, il R.P. James H. Swetnam, S.J., professore emerito della Facoltà Biblica del Pontificio Istituto Biblico.

Era nato il 18 marzo 1928 nella stessa città (St. Louis) dove ha concluso il suo cammino terreno. A 17 anni (1945) era entrato nella Compagnia di Gesù e nel 1958 era stato ordinato sacerdote.

Dopo gli studi di Filosofia e Teologia alla St. Louis University, nel 1960 si era iscritto al Pontificio Istituto Biblico, conseguendo la Licenza in S. Scrittura (1962) e completando l’Anno al Dottorato (1962-63). Successivamente (1975-1978) aveva completato il dottorato in studi biblici presso l’Università di Oxford con la dissertazione Jesus and Isaac: A Study of the Epistle to the Hebrews in the Light of the Aqedah.

Nel 1963, quando arrivavano al Biblico studenti privi di conoscenze in greco e ebraico, gli fu chiesto di organizzare un corso preparatorio. Fu l’inizio dell’anno propedeutico, a cui P. Swetnam dedicò quasi quarant’anni di insegnamento. Generazioni di studenti ricordano la sua passione, la metodologia efficace e la dedizione all’insegnamento. Il suo metodo si concretizzò nel volume An Introduction to the Study of New Testament Greek (1992), tradotto in diverse lingue (italiano, ucraino, coreano, spagnolo, portoghese).

Fu docente di greco e ebraico dal 1963 al 2003, con l’unica pausa dovuta al dottorato a Oxford. Oltre a insegnare, ha diretto seminari sul NT e supervisionato numerose tesi di dottorato.

Oltre all’insegnamento e alle pubblicazioni (specialmente sulla Lettera agli Ebrei), ha ricoperto incarichi istituzionali, come Vice Rettore (1984-1993), Decano della Facoltà Biblica (1986-1989), pro-Decano della Facoltà Orientalistica (1996-1998) e Segretario Generale (1991-1997).

Nel 1999, fu nominato Direttore dell’“Associazione ex-alunni”, ruolo che mantenne fino al 2010, in occasione del centenario dell’Istituto.

Rientrato nella sua Provincia nel novembre 2010, ha continuato la sua attività biblico-pastorale e creato il sito web “James Swetnam’s Close Readings”, poi sostituito nel 2019 da James Swetnam’s Thoughts on Scripture.

“Consideravo allora un inestimabile dono poter studiare al Pontificio Istituto Biblico… quel caldo giorno di ottobre del mio arrivo a Roma non potevo immaginare che avrei trascorso più di mezzo secolo all’Istituto né il grande privilegio di aiutare molti altri a dedicare la propria vita allo studio della S. Scrittura.” (J. Swetnam, Introduzione a Le persone del Biblico, 1909-2009)

A Carta aos Romanos

SILVA FILHO, M. G da; SILVANO, Z. A. (orgs.) Carta aos Romanos: A revelação da justiça de Deus. São Paulo: Paulinas/Paulus, 2025, 352 p. – ISBN 9786558083443.

Esta obra intitulada Carta aos Romanos: a revelação da justiça de Deus apresenta um comentário teológico introdutório, para uma aproximação a um livro que ocupa um lugar central no conjunto do Novo Testamento e na história da teologia cristã, sendo o escrito mais comentado, por sua densidade teológica.SILVA FILHO, M. G da; SILVANO, Z. A. (orgs.) Carta aos Romanos: A revelação da justiça de Deus. São Paulo: Paulinas/Paulus, 352 p.

O estudo inicia com a história dos primeiros anos da comunidade cristã em Roma. Após essa visão panorâmica do contexto das comunidades, são oferecidos os elementos introdutórios da Carta: a discussão sobre a autoria, o interlocutor ao qual é dirigida, a problemática subjacente, as características específicas, a estrutura e a indicação de alguns destaques teológicos emergentes dos conteúdos abordados, seguindo com a análise do conteúdo da missiva.

O primeiro e o segundo blocos apresentam a introdução epistolar e o desenvolvimento do conteúdo; o terceiro bloco analisa as promessas dirigidas a Israel. Por fim, são comentadas a parte exortativa e a conclusão.

Ao refletir sobre a Carta aos Romanos, o leitor é convidado a mergulhar na profundidade desse escrito, a reavivar o que significa ser cristão, ser justificados pela fé em Jesus Cristo, santificado pelo Espírito Santo e a contemplar a grandeza do amor generoso e gratuito de Deus.

 

Os autores

André L. P. Miatello Historiador com doutorado pela Universidade de São Paulo, professor associado do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais, bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq e professor colaborador da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia em História da Igreja Antiga e Medieval.

Claudio Vianney Malzoni Doutor em Ciências Bíblicas pela Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. Atualmente é professor e pesquisador do Programa de Pós-graduação em Teologia da Universidade Católica de Pernambuco.

Manoel Gomes da Silva Filho Bacharel em Teologia pela Faculdade de São Bento de São Paulo, mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), mestrando em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Lateranense de Roma, membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB) e do Grupo de Pesquisa A BIBLIA em leitura cristã da FAJE. Dissertação de Mestrado em Teologia: Judeus e cristãos em diálogo: Estudo exegético de Rm 11,1-15 e suas implicações para o diálogo judaico-cristão, a partir de Nostra Aetate. Belo Horizonte: FAJE, 2023. Disponível em pdf.

Zuleica Aparecida Silvano possui mestrado em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma e doutorado em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Teologia (FAJE), em Belo Horizonte-MG. É assessora no Serviço de Animação Bíblica/Paulinas (SAB) e professora no Departamento de Teologia da FAJE.

Mês da Bíblia 2025, segundo o SAB

SAB Mês da Bíblia 2025: Carta os Romanos. São Paulo: Paulinas, 2025, 64 p. – ISBN 9786558083283.

A Carta aos Romanos (Rm) é o tema escolhido para o Mês da Bíblia 2025. O lema é extraído de Rm 5,5: “A esperança não decepciona”. A escolha desse livro e do lemaSAB Mês da Bíblia 2025: Carta os Romanos. São Paulo: Paulinas, 2025, 64 p. visa aprofundar a temática do Ano Santo da Encarnação de Jesus Cristo: “Peregrinos de esperança”.

Com este subsídio, deseja-se que a Carta aos Romanos ajude as comunidades a celebrar a fé, a tomar consciência do itinerário espiritual realizado, pessoal e comunitariamente, e a refletir sobre um dos temas fundamentais da vida cristã: a esperança.

Este livro contém quatro encontros baseados na Carta aos Romanos, sendo precedido por um texto preparatório sobre o trecho bíblico abordado, uma celebração e a maratona bíblica. Os encontros abordam os seguintes temas: Justificação pela fé em Jesus Cristo e não pelas obras da Lei; o Batismo como participação no mistério pascal; a vivência em Cristo e a vida segundo o Espírito Santo; o agir cristão.

A celebração de encerramento trabalha o lema do mês da Bíblia “A esperança não decepciona”.

Mês da Bíblia 2025, segundo Mesters e Orofino

MESTERS, C.; OROFINO, F. Uma proposta libertadora: a Carta do apóstolo Paulo aos Romanos. São Leopoldo: CEBI, 2025, 108 p.MESTERS, C.; OROFINO, F. Uma proposta libertadora: a Carta do apóstolo Paulo aos Romanos. São Leopoldo: CEBI, 2025, 108 p.

A Carta de Paulo à comunidade de Roma é o texto escolhido para o Mês da Bíblia de 2025, inspirado no lema “A esperança não decepciona” (Rm 5,5). Em sintonia com o Ano Santo Jubilar proclamado pelo papa Francisco, este estudo convida a um mergulho na profundidade teológica e pastoral de Paulo, cujo pensamento ecoa ao longo da história da Igreja, inspirando desde Santo Agostinho até a Reforma Protestante.

Lida, muitas vezes, como um texto denso e complexo, a Carta aos Romanos traz questões fundamentais sobre fé, graça e salvação que permanecem atuais. Seu estudo comunitário nos desafia a reencontrar o vigor das primeiras comunidades cristãs, renovando nossa vivência da fé e da esperança no Cristo ressuscitado.

Mês da Bíblia 2025: Carta aos Romanos

Para o ano de 2025, a proposta de estudo e aprofundamento bíblico no Mês da Bíblia é a Carta aos Romanos. O lema inspirador para este estudo é “A esperança não decepciona” (Rm 5,5), relacionando-se com o Jubileu da Encarnação de 2025, convocado pelo Papa Francisco.CNBB: Mês da Bíblia 2025: Carta aos Romanos – Texto-Base

Mês da Bíblia 2025: Carta aos Romanos – Texto-Base

Segundo a Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética, o material “é essencial para todos os membros da comunidade que se dedicam a revitalizar o Mês da Bíblia, uma iniciativa única do Brasil, onde a comunidade se une em torno da Palavra para mergulhar em sua sabedoria e discernir os caminhos da missão com a criatividade do Espírito Santo”.

Um passeio pela pré-história com John Lubbock 3

Sumário

Post 1

1. Ohalo – margem oeste do lago de Genesaré – Israel – 20000 a.C. – c. 2 e 3
2. Azraq – Jordânia, 100 km ao sul do lago de Genesaré – 20000 a.C. – c. 3
3. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 12300 a.C. – cultura natufiana – c. 4

Post 2

4. Abu Hureyra – nas margens do Eufrates, noroeste da Síria – 11500 a.C. – cultura natufiana – c. 5
5. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 10800 e 10000 a.C. (Dryas Recente) – c. 6
6. Jericó – vale do Jordão – 9600 a.C. – PPNA [Pre-Pottery Neolithic A – Neolítico pré-cerâmico A] – c. 7
7. WF16 – Wadi Faynan, no sul da Jordânia – 9000 a.C. – c. 8
8. Wadi Ghuwayr, no sul da Jordânia – 8500 a.C. – PPNB [Pre-Pottery Neolithic B – Neolítico pré-cerâmico B] – c. 8
9. Beidha, no Wadi Gharab, 30 km ao sul de Wadi Ghuwayr, ao norte de Petra – 8000 a.C. – PPNB – c. 9

Post 3

10. Jericó – vale do Jordão – 7000 a.C. – PPNB – c. 10
11. ‘Ain Ghazal, no Wadi Zarqa – Jordânia – 6500 – PPNB – c. 10
12. Bouqras, no Eufrates, confluência com o rio Khabur – Síria – c. 11
13. Nevali Çori, margem oriental do Eufrates – Turquia – c. 11
14. Çatalhöyük, na Turquia – 7000 a.C. – c. 11

MITHEN, S. After the Ice: A Global Human History, 20,000 – 5000 BC. London: Weidenfeld & Nicolson, 2011, 664 p.

 

10. Jericó – vale do Jordão – 7000 a.C. – PPNB – c. 10

De Beidha, John Lubbock encaminha-se diretamente para oeste, seguindo um rio em meio a um vale de mata até as baixadas e por fim o rio Jordão. A vegetação é luxuriante, junco e papiro dos dois lados do rio, mas fora isso trata-se de uma paisagem seca e estéril. Além do Jordão, a terra sobe e logo se torna o que é hoje o deserto do Neguev. Amanhece. Do outro lado do rio, ergue-se um preguiçoso fiapo de fumaça de uma fogueira.

O fogo arde para um grupo de homens de Jericó que se dirige para o sul com cestos de excedente de grãos. Uma dúzia deles carrega o pesado fardo, indo a um encontro com caçadores-coletores que vivem dentro do Neguev. O grão será trocado por conchas marinhas e carne de caça selvagem.

Enquanto os mercadores se dirigem para o sul, Lubbock viaja para o norte, para visitar Jericó uma segunda vez. Segue a base das montanhas da Judeia, ao longo da margem ocidental do mar Morto. Wadis, alguns contendo pequenos riachos que logo secarão sob o sol quente, cortam as colinas. Lubbock passa por rebanhos de cabras que são levadas a pastar por meninos, e pequenos grupos que recolhem betume e sal. Chega em 7000 a.C. O assentamento mudou desde quando ele viu o primeiro trigo sendo semeado [conferir o post A fundação de Jericó]: os conjuntos de pequenas moradias circulares foram substituídos por esparramados prédios retangulares em meio não apenas a campos aráveis e rebanhos de cabras, mas a filas e filas de adobe secando ao sol. Jericó passou de uma aldeia de caçadores-coletores-cultivadores a uma cidade de camponeses, artesãos e mercadores.

Lubbock atravessa pátios e caminha entre as casas, envolvido pelo clamor da vida neolítica. Muito trabalho se faz ao ar livre — preparação de comida, corte de pedra, fabrico de cestos, tecidos e artigos de couro. Ele se lembra de Beidha; enquanto passeia pela cidade, vê bandos semelhantes de cachorros que revolvem o lixo, e o mesmo fluxo entre o fedor de carne pendurada, a simplicidade da fumaça e a fragrância de ervas fumegantes. Pára para observar uma mulher socando um pilão; o instrumento é tão grande que ela se senta numa ponta e curva repetidas vezes as costas ao estender-se com a mão de pedra até a outra — trabalho de incontáveis futuras gerações.

As casas são construídas mais de adobe que de pedra. Têm um só andar e parecem de desenho um tanto mais simples que as de Beidha, não tendo sinal dos prédios com corredores. Lubbock escolhe uma ao acaso. Portas de madeira dão-lhe acesso a três aposentos retangulares sucessivos, cada um com piso de reboco polido e esteiras de palha. Não há ninguém em casa, e pouca coisa à guisa de móveis. Um monte de esteiras e couros sugere uma área de dormir, cestas e tigelas de pedra parecem ser bens valiosos.

No terceiro aposento, veem-se numa parede três estatuetas de barro, todas femininas e com cerca de 5 centímetros de altura. Uma é particularmente impressionante — veste o que parece uma túnica solta e foi esculpida com os braços cruzados, de modo que cada mão repousa em um seio. Junto a elas, há o que parece uma cabeça humana. Lubbock ergue-a com cuidado — é literalmente uma cabeça humana, ou pelo menos uma caveira cujo rosto foi delicadamente modelado com gesso.

Crânio engessado encontrado em Jericó (Tell es-Sultan), Neolítico Pré-Cerâmico B, c. 7200 a.C. BM 12741-42 Enquanto anda pela cidade, Lubbock encontra mais cabeças rebocadas em outras casas, junto com simples caveiras colocadas em cantos de quartos ou dentro de nichos nas paredes. Após muito procurar, encontra um homem sentado dentro de casa trabalhando num rosto. Está sendo modelado na caveira de seu pai, o homem que construiu a casa e cujas mãos fizeram o piso de argamassa sob o qual agora repousam seus ossos. Depois que o corpo ficou enterrado durante vários anos, a cova foi reaberta, o crânio removido e o piso remendado com nova argamassa. Agora o filho homenageia o pai.

O homem que trabalha está de cócoras ao lado de bacias de argamassa branca, tinta vermelha e uma variedade de contas. As cavidades nasais e órbitas oculares já foram tapadas e deixadas a secar; nivelou-se a base do crânio, para que se mantenha em pé sem apoio. Agora aplica-se a camada final de fina argamassa, que logo será pintada de vermelho. Conchas de caurim serão inseridas como olhos, e depois se exporá o crânio dentro da casa. Enquanto ele amassa, afila e modela a argamassa, sua esposa colhe lentilhas nos campos, lutando com o peso do bebê amarrado às costas. Um dia esse filho exumará com amor e modelará a cabeça do pai, para assegurar que também ele continue a viver dentro da casa, mesmo depois de ter os ossos enterrados sob o piso.

 

11. ‘Ain Ghazal, no Wadi Zarqa – Jordânia – 6500 – PPNB – c. 10

O tempo de Lubbock na era neolítica do oeste asiático esgota-se rapidamente. Ele tem portanto que viajar 50 quilômetros até o lado oriental do vale do Jordão, onde encontrará a maior das cidades neolíticas, a hoje conhecida como ‘Ain Ghazal. E assim, durante dois dias, ele viaja através da densa floresta do vale do Jordão, subindo sua íngreme escarpa oriental em direção a pastagens pontilhadas de árvores dispersas.

O primeiro sinal de uma cidade estar próxima é quando as trilhas de cabras que ele segue se alargam em estradas bem palmilhadas entre pequenos campos, alguns plantados com lentilhas e ervilhas, outros com trigo e cevada. Mulheres e crianças trabalham, colhendo as lentilhas e partindo aos pares e trios para levar suas pesadas cargas até a cidade. Muitos cestos esperam para ser levados, e assim Lubbock toma um nos ombros e segue uma mulher com seus dois cansados filhos. Acompanha-os no vale hoje conhecido como Wadi Zarqa; há caminhos de pedra para atravessar o rio, onde se amarraram muitas cabras. Uma trilha conduz então diretamente ao coração da cidade.

Enquanto anda, Lubbock nota que todo trato de solo disponível foi plantado. O motivo logo se torna claro — a cidade é três ou talvez quatro vezes maior que Jericó. Os lados do vale de Wadi Zarqa próximos, porém, são inteiramente estéreis — o solo exaurido pelas repetidas safras, e depois levados pelas chuvas do inverno depois que a vegetação restante foi cortada para fornecer lenha. Algumas das encostas foram aterradas para a construção de novas casas, e famílias vivem em tendas e abrigos de taipa temporários. ‘Ain Ghazal “desfruta” de uma explosão populacional, em parte de seus próprios habitantes, em parte do influxo de pessoas cujas próprias aldeias já foram abandonadas devido à erosão e exaustão da terra circundante.

A data é 6500 a.C., e a cidade é um labirinto de construções — algumas novíssimas, algumas em reparos, outras caindo aos pedaços e abandonadas. São construídas de pedra bruta, madeira, juncos, barro e argamassa. As pessoas retornam às suas casas com o cair da noite; algumas se põem a comer, outras se preparam para dormir. Lubbock deixa o cesto diante da casa da mulher a quem seguiu, que agradecerá às crianças por terem-no carregado, para grande surpresa delas. Durante a hora seguinte ele explora a cidade, espiando por janelas e por cima dos ombros de outras pessoas. Muita coisa é igual a Beidha e Jericó, com cabeças rebocadas e pequenas estatuetas de barro exibidas em destaque. Numa das casas, ele vê um excelente modelo de uma raposa — na verdade, modelos de animais parecem particularmente importantes para as pessoas que aí vivem, sobretudo de gado, embora se doméstico ou não permaneça incerto.

Em outra casa, um grupo senta-se em torno de uma fogueira em chamas, enquanto lâminas de obsidiana, peças de coral e pedras de cores fortes passam de mão em mão. Vêm de um homem de roupas e estilo de cabelo distintos — um mercador que chegou recentemente do norte. Espiando pela porta, Lubbock vê pequenas esferas, discos e pirâmides de barro que são contados e postos em bolsas de couro. Esses artigos são inteira novidade para ele, mas o cansaço vence a curiosidade e ele encontra uma casa abandonada para dormir.

Na manhã seguinte, Lubbock acorda e encontra a cidade silenciosa e deserta: não se cozinha nos pátios, mulheres não partem para os campos, homens não erguem madeiras ou assentam pisos de argamassa. Enquanto atravessa os becos entre as casas, um baixo murmúrio se transforma num baixo balbucio de vozes. Ao dobrar uma esquina, encontra uma reunião de várias centenas de pessoas. Meninos sentam-se nos ombros dos pais, as crianças mais velhas subiram em muros e balaustradas de janelas. Todos clamam por uma visão. No momento em que Lubbock chega, as portas de madeira de um prédio se abrem e sai uma procissão. Pairam o silêncio e a quietude.

Seis homens vêm à frente, usando máscaras, túnicas e adereços de cabeça muito parecidos aos descobertos em Nahal Hemar. Trazem uma plataforma contendo um grupo de estátuas, feitas de feixes de junco revestidos de argamassa amarrados para formar torsos, braços e pernas. Há talvez doze estátuas de argamassa, algumas de cerca de 1 metro de altura, outras muito menores. Têm corpos achatados, pescoços alongados, grandes caras redondas, olhos arregalados com profundos centros negros. Os narizes são modelados como tocos; os lábios mal existem. A argamassa é branco puro; algumas estátuas estão envoltas em finas peças têxteis. Uma tem os braços cruzados sob os seios, projetando-os para o espectador, ao qual prende com seu olhar acerado.

A multidão clama para ver as estátuas, sabendo que será a sua última oportunidade, pois elas serão enterradas. Mas as pessoas também sabem que dentro de algunsAs estátuas de 'Ain Ghazal anos outro conjunto de estátuas será trazido por essas portas de madeira, e depois outro e mais outro; nova vida sempre seguirá a morte, como as plantas da primavera sempre seguem a colheita. Lubbock junta-se à procissão até uma casa abandonada e espreme-se lá dentro para ver a cerimônia de enterro e ouvir as preces e cantos. Cada estátua é erguida e depois cuidadosamente colocada num poço cavado no piso. Mais preces, e fecha-se o poço. Os “sacerdotes” retornam ao prédio de onde saíram, as portas fecham-se com estrondo. A multidão se dispersa; algumas pessoas parecem em estado de choque, algumas enlutadas, outras confusas.

A cidade de ‘Ain Ghazal teve notável crescimento, alcançando mais de 12 hectares de extensão, transbordando para o lado leste de Wadi Zarqa e abrigando duas mil pessoas ou mais. Em 6300 a.C., porém, já se acha em avançado estado de declínio terminal. Há muitas casas abandonadas e os becos entre elas estão juncados de lixo neolítico. Há pouco mais que um débil eco da outrora ebuliente cidade nas poucas casas habitadas e nos poucos homens e mulheres que ainda trabalham nos pátios. Qualquer casa recentemente construída é pequena e pobre comparada com as da cidade original.

O rio dentro de Wadi Zarqa ainda corre, mas os lados do vale estão nus — não apenas em torno da aldeia, mas até onde a vista alcança. A exaustão e erosão do solo devastaram a economia agrícola de ‘Ain Ghazal. Não resta uma única árvore à distância de uma caminhada da cidade. Seu povo teve de viajar cada vez mais longe a cada ano para plantar suas safras e encontrar forragem para suas cabras. A produção decaiu, o combustível tornou-se escasso e o rio poluído com detritos humanos. A mortalidade infantil, sempre alta, atingiu proporções catastróficas, de modo que o nível populacional despencou, agravado pela constante partida de pessoas que voltavam à vida em aldeias espalhadas. Essa é a história de todas as cidades do PPNB do vale do Jordão — completo colapso econômico.

Lubbock está agora parado acima do vale de Zarqa, e olha a cena chocante de degradação ambiental causada pela agricultura. Ele e os arqueólogos modernos se perguntam se a agricultura poderia ter sido a única causa; os núcleos de gelo mostram que entre 6400 e 6000 a.C. houve um período de temperaturas particularmente baixas e chuvas incertas, se não seca. Mas parece inteiramente impossível desenredar os impactos relativos de agricultura humana e mudança do clima na agora estéril paisagem em torno de ‘Ain Ghazal.

Ao longe, um rebanho de cabras é pastoreado para as colinas. Lubbock observa-as buscando caminho entre as rochas e desaparecendo de vista. Esse rebanho retornará a ‘Ain Ghazal, mas não por muitos meses, uma vez que surgiu uma nova economia. A vida na cidade não é mais sustentável no vale do Jordão e foi substituída pelo pastoreio nômade, o estilo de vida que continua até hoje. Dentro de poucos anos, ‘Ain Ghazal não será mais que um lugar de encontro sazonal para pastores de cabras nômades, que erguerão frágeis abrigos nas ruínas da cidade, enquanto seus animais pastam nos cardais que brotaram nas moradias desertas e locais de enterro dos deuses.

 

12. Bouqras, no Eufrates, confluência com o rio Khabur – Síria – c. 11

Ásia Ocidental entre 20000 e 5000 a.C. - Sítios citados no livro de Steven Mithen, After the Ice.John Lubbock aproxima-se do fim de sua jornada pela revolução neolítica no oeste asiático, que transformou os caçadores-coletores de Ohalo nos agricultores, artesãos, mercadores e sacerdotes de ‘Ain Ghazal. Dessa cidade, ele viajou 500 quilômetros para noroeste, em companhia de pastores e mercadores, atravessando o deserto sírio de oásis em oásis. Isso o levou ao Eufrates, onde na confluência com o rio Khabur ele visita a cidade de Bouqras, estabelecida num promontório que dá para a planície aluvial. Em seus prédios, encontra pinturas de parede — imagens de grandes gaivotas, grous ou cegonhas — a primeira visão de uma quantidade sempre crescente de obras de arte que vai encontrar nos estágios finais de sua jornada oeste asiática.

Mas Bouqras, como ‘Ain Ghazal, já passou do seu auge; muitas das casas de adobe entraram em decadência. A planície aluvial antes oferecia ampla terra para caça, pastagem e civilização. Agora chegaram os tempos difíceis, e a população diminuiu de mil para pouco mais de duas centenas no máximo. Alguns artesãos especializados continuam a trabalhar, produzindo ótimas tigelas de mármore e alabastro.

 

13. Nevali Çori, margem oriental do Eufrates – Turquia – c. 11

Lubbock parte para nordeste, seguindo o Eufrates pelas montanhas Taurus a leste e entrando nas ondulantes encostas de colinas do planalto Anatólio. Ali, o rio muda de direção, fazendo um arco para oeste por entre colinas estéreis de calcário entremeadas de planícies com florestas. Ali, não mais de 3 quilômetros ao sul do Eufrates, ele encontra a aldeia de Nevali Çori a cavaleiro das margens de um pequeno riacho tributário. Há cerca de 25 prédios abandonados — todos de um só andar, retangulares e construídos de blocos de calcário ligados com argamassa de barro — mas nenhuma pessoa. A aldeia está deserta, só se veem camundongos e ratos que correm de um lado para outro.

Várias casas foram alinhadas num terraço, com estreitas passagens entre si. Algumas são particularmente grandes, com quase 20 metros de comprimento, e divididas em aposentos vizinhos. A maioria tem piso de argamassa; onde estes decaíram, surgem canais de escoamento de pedra e túmulos.

Os pisos estão cobertos de lixo — ossos de animais, pilões quebrados, instrumentos de sílex e cestos desgastados. É evidente que o abandono da aldeia foi uma coisa feita aos poucos, com um lento declínio dos padrões de higiene e ordem. Em meio ao lixo, Lubbock encontra estatuetas de barro e sílex que caíram de prateleiras de madeira. Um rosto humano estilizado parece conhecido; lembra as máscaras usadas pelos “sacerdotes” de ‘Ain Ghazal, que por sua vez eram semelhantes às máscaras de Nahal Hemar.

A área diante das casas também é uma bagunça. Vários grandes poços de assar começaram a encher-se de aluvião; outros ainda mostram os revestimentos de pedras. Cercados de animais desabaram, e ainda há grupos de pedras de moer em meio a casas e palha. Quem quer que tenha vivido em Nevali Çori, evidentemente foi agricultor como o povo de Beidha, Jerico e ‘Ain Ghazal; mas os daqui tinham crenças religiosas bastante diferentes, como Lubbock avalia ao entrar no que os arqueólogos chamam de “prédio de culto”.

Fica na ponta noroeste do terraço, um prédio quadrado com os fundos na encosta natural. O telhado de junco quase desabou inteiramente, e as paredes desmoronam. Lubbock tem de espremer-se por entre madeiras caídas para descer os poucos degraus até o interior. Ao fazer isso, uma legião de cobras brota de debaixo do lixo no piso.

Um banco de pedra corre ao redor das paredes, dividido em partes por 10 colunas de pedra. Há outras colunas parecendo lages no meio do aposento. Estas têm capitéis em forma de T e parecem ombros humanos; quando ele olha de perto, vê um par de braços humanos esculpidos em baixo relevo em cada face. Dos degraus, olha um nicho na parede defronte. Contém uma cabeça humana, sobre a qual repousa uma cobra — cabeça e cobra esculpidas em pedra. As paredes em volta foram outrora densamente rebocadas e cobertas com exóticos murais pintados em vermelho e preto. Mas a maior parte do reboco caiu no chão, deixando as pinturas como as peças de um quebra-cabeça embaralhado.

Lubbock encontra outras esculturas, algumas de pé, algumas embutidas nas paredes e colunas. Há um grande pássaro, talvez abutre ou águia; uma terceira ave de rapina encima uma coluna com duas cabeças femininas esculpidas. E assim prossegue — mais pássaros, rostos que parecem parte animal e parte humano, outra cobra.

 

14. Çatalhöyük, na Turquia – 7000 a.C. – c. 11

Lubbock parte de Nevali Çori para oeste e faz uma longa viagem, cruzando as montanhas Taurus e entrando no planalto da Anatólia central. Passa por várias pequenas aldeias e algumas cidades maiores. Durante parte da jornada, ele viaja com pastores e em outra com pessoas que visitam parentes em aldeias distantes ou se dirigem para as “brilhantes colinas negras”.

Essas colinas são feitas de obsidiana e encontradas na região que descrevemos hoje como Capadócia. Mesmo em 7500 a.C. as pessoas já as vinham visitando havia vários anos, para recolher o vidro vulcânico depois comerciado e trocado em todo o oeste asiático. A obsidiana que Lubbock viu em Abu Hureyra, Jericó e ‘Ain Ghazal veio da Capadócia — muito provavelmente depois de passar por muitas mãos e famílias diferentes no caminho.

Não surpreende, portanto, que grandes montes de lascas e núcleos jogados fora cerquem muitas das obras em obsidiana, da qual só os melhores pedaços foram retirados. As oficinas, nas quais se podem obter enormes lucros da pedra em troca de contas, peles e minério de cobre, são abundantes. Mas a obsidiana cobre uma área demasiado grande para que se controle todo acesso. E Lubbock passa por muitos pequenos grupos que ou pegam grandes nódulos no chão ou simplesmente quebram grandes lascas de afloramentos da altamente valorizada pedra negra.

Seus companheiros se dirigem para a cidade que conhecemos hoje como Asikli Höyük, localizada na parte oeste da Capadócia, um espraiado assentamento de prédios de adobe. Mas Lubbock toma um rumo diferente, e atravessa o planalto anatólio até sua planície mais ao sul, indo para a cidade neolítica de Çatalhöyük.

Durante toda sua viagem desde Nevali Çori, a vegetação mudou constantemente de estepe para mata e de mata para estepe, sensível as muitas variações na topografia e água — vale de encostas a pique, colinas ondulantes e planície chã cortada por muitos rios. Algumas das matas são agora compostas de enormes carvalhos, por entre os quais ele capta passageiros vislumbres de gamo e gado. Enormes aves de rapina parecem circular interminavelmente no céu.

É 7000 a.C., e Çatalhöyük se acha no seu auge. Quando Lubbock se aproxima, entra numa paisagem densamente cultivada. Os sinais de derrubada de árvores sãoÇatalhöyük comuns — a mata evidentemente se transforma num precioso recurso, pois os cortes mais novos são das árvores menores. Aparecem pequenos campos, em que mulheres e crianças completam seu dia de trabalho, e meninos conduzem rebanhos de carneiros e cabras de volta à segurança noturna da cidade. Esta agora se torna visível, surgindo como uma sólida massa à meia luz do entardecer.

Çatalhöyük é inteiramente diferente de qualquer lugar que Lubbock já viu. Parece ter um muro perimetral contínuo, que não tem entrada nem desejo de receber hóspedes indesejáveis. Olhando mais de perto, Lubbock percebe que não é de modo algum um muro único, mas o resultado de muitas paredes juntas de prédios individuais que se apegam uns aos outros como com medo do que há fora deles. Um rio sujo, coalhado de lixo, estagna-se ao longo de um lado, levando a mangues e pântanos fedorentos atrás da cidade. Do outro lado há uma lagoa lodosa, em torno da qual se instalam as cabras para passar a noite.

Cada casa tem um alçapão de entrada no lado sul e pequenas janelas em qualquer parede exposta acima do telhado vizinho. Algumas portas estão abertas, soltando fumaça e a luz de tremulantes lâmpadas de azeite no ar frio da noite; às vezes um brilho mais ousado, mais forte, emana de uma lareira bem alimentada.

Escolhendo uma porta aberta, Lubbock desce por uma escada de madeira para a área de cozinha de um pequeno aposento retangular. Vê à sua frente uma lareira elevada — uma plataforma com um rebordo para evitar algum transbordamento de cinzas. Emite um profundo fulgor e um baixo calor do combustível de estrume animal. Próximo, construiu-se um forno na parede, revelando adobes ordenados, e ao lado uma bilha de barro com um buraco na base, do qual caem lentilhas. Há utensílios espalhados, um cesto com raízes e uma cabra pequena amarrada na parede. Como tal, é uma cena doméstica conhecida, que poderia ser encontrada em Jericó ou ‘Ain Ghazal. Mas então Lubbock se volta e vê uma cena monstruosa de touros irrompendo da parede.

São três, à altura da cintura — cabeças brancas com raias pretas e vermelhas, das quais brotam enormes chifres pontudos que parecem ameaçar toda a vida humana dentro da casa. Ao lado de Lubbock, uma mulher e um homem sentam-se numa plataforma elevada vizinha aos touros, cabisbaixos, comendo pão em silêncio. Entre eles, uma criança deixou seu pão intocado no prato de madeira.

Em volta dos touros as paredes são pintadas com fortes desenhos geométricos — imagens nítidas e opressivas acima de impressões palmares em preto e vermelho semelhantes às pintadas na caverna francesa de Pech Merle no LGM. Mas enquanto aquelas mãos de caçadores-coletores da Era do Gelo eram acolhedoras, estendidas em saudação aos visitantes dentro da caverna, estas mãos agrícolas de Çatalhöyük parecem mais uma advertência ou um pedido de socorro — seu povo está preso dentro de um bestiário do qual não pode escapar.

E assim começa a excursão noturna por Çatalhöyük, uma visão de pesadelo do mundo que a agricultura trouxe a esses membros da humanidade. Primeiro, Lubbock rasteja por uma pequena entrada para escapar do aposento, mas isso não leva a parte alguma, apenas a um depósito onde se empilham cestos e couros. Por isso ele retorna ao telhado e tenta outra casa, e depois outra e mais outra. Em cada uma, encontra a mesma coisa — a lareira, o forno, a bilha de grão, a plataforma, tudo disposto de forma idêntica, em aposentos de tamanho e forma quase idênticos. Muitos aposentos têm estatuetas de barro dentro de pequenos nichos, ou simplesmente no chão; algumas são evidentemente de mulheres, outras de homens, mas muitas parecem inteiramente sem sexo. A mais espantosa é uma mulher que se senta num trono, ao lado de uma bilha de grão. Tem de cada lado um leopardo; repousa uma mão em cada cabeça, e as caudas dos animais se enroscam em seu corpo.

Os touros variam de aposento para aposento, mas são sempre chocantes, sobretudo quando encontrados nos fortes raios de luar que agora entram pelas minúsculas janelas, ou pelas chamas que dão vida às feras. Há cabeças de touros com longos chifres retorcidos, outras com as caras cobertas de desenhos exóticos, e ainda outras empilhadas umas em cima das outras do chão ao teto. Alguns aposentos têm colunas de pedra com chifres, ou longas filas de chifres postas em bancos, desafiando qualquer um a sentar-se ao seu alcance.

Juntam-se a desenhos geométricos imagens de grandes abutres negros atacando perversamente pessoas sem cabeça, e cenas de gamos e bois enormes cercados por minúsculas pessoas em frenesi. As pessoas reais dormem em suas plataformas. Jazem em posições contorcidas, às vezes acordando de repente e olhando Lubbock que passa, como se pudessem ver mais um intruso em suas vidas.

Lubbock sobe e desce escadas, de aposento em aposento, de horror em horror, até cair exausto e jazer prostrado diante de outra parede esculpida. Põe-se de joelhos de frente para um par de seios femininos que emergem do adobe e reboco. Os dois mamilos estão divididos, e dentro há crânios de abutres, raposas e fuinhas: a própria maternidade violentamente conspurcada. Lubbock não aguenta mais e rasteja pelo chão para a escuridão de breu de um depósito. E ali se esconde, na esperança de que a luz do dia traga libertação desse inferno neolítico.

Çatalhöyük É o amanhecer em Çatalhöyük em 7000 a.C. Cansado após sua atormentada noite, Lubbock tornou a subir para o telhado e encontrou um ponto privilegiado do outro lado da planície. O sol ainda não nasceu e faz frio. Um pastor de cabras já deixou a cidade em busca de pasto para seu rebanho; uma mulher capina os campos que cercam a cidade. Lubbock volta-se para o leste, em direção a Nevali Çori e Göbekli Tepe, cujas obras de arte pareciam prever Çatalhöyük. Mas também o fizeram, ele pensa, os pássaros pintados de Bouqras, as estatuetas de bois e as figuras de massa de ‘Ain Ghazal.

Voltando-se para o sudeste, para as modernas terras de Israel e Jordânia onde começou sua viagem, ele lembra que as aves de rapina haviam sido reverenciadas e as cabeças retiradas de corpos humanos nas primeiras aldeias agrícolas: Jericó, Netiv Hagdud e WF16, E assim as pinturas e esculturas de Çatalhöyük talvez não sejam tão horríveis afinal — simplesmente uma expressão da mitologia que surgiu junto com os campos de trigo quando a agricultura foi inventada e desenvolvida no oeste asiático.

Ele então olha mais atrás ainda no tempo, sua chegada a Ohalo antes de seu incêndio, suas viagens pela estepe e deserto, a ceifa de trigo nas hortas selvagens de ‘Ain Mallaha. Que teriam pensado de Çatalhöyük aqueles caçadores-coletores kebaranos e natufianos? O mais provável é que tivessem ficado confusos e aterrorizados, pois pareciam confiar no mundo natural, na verdade serem eles próprios parte dele. O povo de Çatalhöyük, por outro lado, parecia temer e desprezar o agreste.

Com outra volta, Lubbock olha para oeste, para a Europa. Uma jornada por aquele continente será a próxima etapa de suas viagens pela história global. Começará nas profundezas da Era do Gelo, no extremo noroeste, onde as pessoas caçam renas e vestem-se de peles. Mas primeiro ele tem de visitar o que ainda continua sendo uma casa intermediária entre a cultura europeia e a oeste asiática — a ilha mediterrânea de Chipre.

Um passeio pela pré-história com John Lubbock 2

Sumário

Post 1

1. Ohalo – margem oeste do lago de Genesaré – Israel – 20000 a.C. – c. 2 e 3
2. Azraq – Jordânia, 100 km ao sul do lago de Genesaré – 20000 a.C. – c. 3
3. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 12300 a.C. – cultura natufiana – c. 4

Post 2

4. Abu Hureyra – nas margens do Eufrates, noroeste da Síria – 11500 a.C. – cultura natufiana – c. 5
5. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 10800 e 10000 a.C. (Dryas Recente) – c. 6
6. Jericó – vale do Jordão – 9600 a.C. – PPNA [Pre-Pottery Neolithic A – Neolítico pré-cerâmico A] – c. 7
7. WF16 – Wadi Faynan, no sul da Jordânia – 9000 a.C. – c. 8
8. Wadi Ghuwayr, no sul da Jordânia – 8500 a.C. – PPNB [Pre-Pottery Neolithic B – Neolítico pré-cerâmico B] – c. 8
9. Beidha, no Wadi Gharab, 30 km ao sul de Wadi Ghuwayr, ao norte de Petra – 8000 a.C. – PPNB – c. 9

Post 3

10. Jericó – vale do Jordão – 7000 a.C. – PPNB – c. 10
11. ‘Ain Ghazal, no Wadi Zarqa – Jordânia – 6500 – PPNB – c. 10
12. Bouqras, no Eufrates, confluência com o rio Khabur – Síria – c. 11
13. Nevali Çori, margem oriental do Eufrates – Turquia – c. 11
14. Çatalhöyük, na Turquia – 7000 a.C. – c. 11

 

4. Abu Hureyra – nas margens do Eufrates, noroeste da Síria – 11500 a.C. – cultura natufiana – c. 5

Para encontrar indícios diretos da natureza da coleta de plantas, John Lubbock tem de deixar a mata mediterrânea e a cultura natufiana. Precisa viajar 500 quilômetros até outra aldeia de caçadores-coletores a nordeste, descoberta nas planícies aluviais do Eufrates: o surpreendente sítio de Abu Hureyra.

O mato e as flores da estepe estão molhados de orvalho quando John Lubbock se aproxima da aldeia de Abu Hureyra. É o amanhecer de um dia de meados do verão em 11500 a.C. Sua jornada de ‘Ain Mallaha trouxe-o das densas florestas de carvalho das colinas mediterrâneas, por campo aberto e finalmente a estepe desprovida de árvores, até o que é o hoje noroeste da Síria. Passou por várias aldeias próximas de rios e lagos, todas desconhecidas do mundo moderno. Agora pára para contemplar a vista — ao longe há uma planície além da qual uma linha de árvores bordeja um largo rio, o Eufrates. Além disso, apenas um vago horizonte, à luz leitosa do dia nascente.

Mais alguns minutos de caminhada fazem-no avistar a aldeia; mas é preciso olhar duas vezes. Ela se funde em seu terraço de calcário, exatamente como ‘Ain Mallaha se fundia com a mata em volta, mais parecendo ter sido gerada pelo sol e moldada pelo vento do que construída por mãos humanas. A cada passo, os baixos e planos telhados cobertos de junco, reunidos à borda da planície aluvial, se tornam um pouco mais nítidos. Mesmo assim, a fronteira entre natureza e cultura permanece profundamente obscura.

As pessoas de Abu Hureyra dormem. Cães farejam-se uns aos outros e o chão, alguns coçando-se e outros roendo ossos. Os telhados chegam à altura da cintura, sustentados nas pequenas molduras de madeira de moradas cortadas em pedra mole. Lubbock desce numa delas e encontra um pequeno e estreito quarto circular de pouco mais de três metros de largura. Um homem e uma mulher dormem sobre peles e um colchão de capim seco; uma moça faz o mesmo numa trouxa de peles.

O piso está juncado de artefatos e lixo — não pilões e almofarizes como em ‘Ain Mallaha, mas mós planas e côncavas. Artefatos de pedra lascada espalham-se pelo chão, junto com cestos de vime e tigelas de pedra, e até um monte de ossos de animais coberto de moscas. Uma pequena tigela contém minúsculos micrólitos em meia-lua feitos de sílex, muito parecidos com os de ‘Ain Mallaha. Num lado da morada há um monte de entulho — a parede desabou e entrou a terra do lado de fora. Paira no ar um fedor nauseante de carne podre e ar viciado.

Grande parte da vida da aldeia se passa além dessas paredes — elas não encerram casas como pensamos nelas hoje. Nos espaços externos há cozinhas, montes de varas, feixes de junco, folhas de casca de árvore e grupos de mós. Evidentemente, muita gente trabalha junto na preparação das plantas colhidas de hortas selvagens na estepe e na mata pantanosa à beira do rio. Lubbock curva-se e deixa que as multicoloridas cascas, talos, galhos e folhas que cercam as pedras lhe escorram entre os dedos. São detritos, deixados exatamente onde caíram das mós ou desbastados dos feixes de plantas e flores. Perto dali há cestos e tigelas de pedra transbordando de nozes e sementes de variadas formas e cores.

Em outra parte da aldeia, ele encontra mais um conjunto de mós; mas estão cercadas por torrões de pedra vermelha e pó, em vez de cascas de sementes e galhos de plantas. As pedras de moer têm manchas vermelhas, da fabricação de pigmento usado para decorar corpos humanos. Ali perto, três gazelas foram estripadas mas ainda não esquartejadas; as carcaças são deixadas penduradas fora do alcance dos cachorros. As pessoas de Abu Hureyra dependem tanto da caça de gazelas quanto da coleta de plantas. Mas esses animais são caçados apenas durante pouco mais de algumas semanas cada verão, quando grandes bandos passam perto da aldeia.

Começa a vida diária em Hureyra. As gazelas não aparecem e os caçadores partem para vasculhar o vale do rio em busca de javalis e jumentos selvagens. Poucos animais vivem agora nos arredores da aldeia, por isso eles ficarão decepcionados. As mulheres e as crianças trabalham nas hortas selvagens, capinando, matando insetos e colhendo o que quer que haja amadurecido ao sol.

Dentro de poucos dias chegam os bandos, e começa a matança anual de gazelas. Os visitantes são bem-vindos na aldeia. Trazem reluzentes obsidianas negras do sul da Turquia como presentes e recebem em troca conchas de dentário, um dia colhidas nas margens do Mediterrâneo e trazidas por visitantes anteriores a Abu Hureyra.

Durante mais de mil anos os caçadores-coletores de Abu Hureyra continuarão a caçar gazelas. Os animais são tão numerosos que sua matança não tem impacto sobre o tamanho dos rebanhos. As mulheres e crianças continuarão a cuidar das hortas selvagens e a colher uma rica safra. O acúmulo de sujeira, areia, artefatos perdidos e outros detritos dentro das moradas se tornará insuportável ou simplesmente impedirá o acesso. E então as pessoas de Abu Hureyra construirão novas moradas, agora totalmente acima do solo. Mas os tempos difíceis acabarão por chegar. A seca do Dryas Recente perturbará as gazelas e dizimará a produtividade da estepe. A aldeia será abandonada, e as pessoas voltarão à vida nômade.

Uma reconstrução hipotética de Abu Hureyra - Fonte: Moore, A. A Cosmic Impact and the Beginning of Farming at Abu Hureyra in Syria. The Ancient Near East Today 9.3, 2021. Acessado em: https://anetoday.org/cosmic-impact-abu-hureyra/Retornarão em 9000 a.C., não como caçadores-coletores, mas agricultores. Construirão casas de adobe e cultivarão trigo e cevada na planície aluvial. Os rebanhos de gazelas terão retomado suas migrações e serão caçadas por mais mil anos, até o povo de Abu Hureyra de repente passar para rebanhos de carneiros e cabras. As casas serão repetidas vezes reconstruídas para que se forme um monturo, ou tell [tell é um termo arqueológico de origem árabe, e indica um monte artificial formado pelo acúmulo de detritos, resultado de uma ocupação humana contínua de um mesmo local ao longo dos séculos], de meio quilômetro de largura, 8 metros de profundidade e contendo mais de um milhão de metros cúbicos de depósitos. Os restos das primeiras moradas subterrâneas de Abu Hureyra serão enterrados fundo e perdidos da memória humana.

Os sedentários caçadores-coletores de ‘Ain Mallaha, Abu Hureyra e na verdade de todo o oeste da Ásia entre 12500 e 11000 a.C. gozavam a boa vida. A abundância de indícios arqueológicos e a excelência da pesquisa nos permitem captar na mente algumas vívidas imagens dessa vida. Podemos imaginar prontamente as bolotas sendo transportadas em cestos para ‘Ain Mallaha, e depois reduzidas a uma pasta, os caçadores do lugar tendo a primeira visão das gazelas que se aproximam, e os trajes de um morto com um adereço de cabeça de conchas, colar e faixa de dentálio na perna em El-Wad, pronto para o enterro.

Mas a imagem a ser lembrada é de algumas famílias desfrutando um dia na estepe florestal — longe dos latidos dos cães, dos fedorentos montes de lixo, dos rabugentos que ficaram para trás na aldeia. Eles não buscam caça nem plantas para colher. É um dia de descanso, e eu os vejo sentados, cercados por miríades de flores estivais. As crianças fazem guirlandas e os jovens amantes esgueiram-se para dentro do mato alto. Alguns conversam, outros dormem. Todos gozam o sol. Têm a barriga cheia e nenhuma preocupação.

John Lubbock senta-se com eles, após passar alguns dias trabalhando em Abu Hureyra. Lê seu livro, descobrindo o que o xará sabia sobre a mudança do clima — muito pouco. O John Lubbock vitoriano compreendera que teriam ocorrido imensas variações no clima porque visitara cavernas cheias de ossos de rena no ensolarado sul da França, descobrira carvalhos dentro de pântanos de turfa e vira vales cortados por rios antigos. Mas em 1865 não tinha consciência da complexidade da mudança de clima, pois a ideia de múltiplas glaciações só ganhou favor no início do século XX, e acontecimentos-chave como o Dryas Recente permaneceram desconhecidos até tempos recentes. Mesmo assim, o moderno John Lubbock se impressionou com o seu xará, sobretudo quando leu que as causas sugeridas de mudanças climáticas incluíam variação na radiação solar, alteração no eixo da Terra e mudanças nas correntes oceânicas — todas as quais foram provadas desde então e permanecem no primeiro plano do estudo científico.

Por um momento, John Lubbock esquece seu lugar na história; as borboletas, as flores, o sol e o vento são inteiramente atemporais. Mas a data é 11000 a.C., e está para ocorrer uma dramática mudança no clima; as famílias que se sentam despreocupadas na estepe oscilam à beira de uma calamidade ambiental: está para chegar o Dryas Recente.

 

5. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 10800 e 10000 a.C. (Dryas Recente) – c. 6

Mais uma vez, John Lubbock está parado na margem ocidental do lago Hula e olha a aldeia de ‘Ain Mallaha do outro lado. Cinquenta gerações, 1500 anos, se passaram desde que ele testemunhou uma vibrante atividade na aldeia em meio aos carvalhos, amendoeiras e pistaches. Os tempos mudaram. As matas são esparsas. As árvores e o mato baixo não têm o exuberante crescimento que parecia embalar as pessoas de ‘Ain Mallaha com a promessa de comida abundante. Dentro da aldeia, telhados e paredes ruíram, e algumas moradas não passam de montes de detritos. Há agora novas construções circulares, mas são coisas pequenas e desconjuntadas.

Cinquenta quilômetros a sudoeste, a aldeia de Hayonim foi inteiramente abandonada. Após 200 anos de ocupação, as pessoas deixaram a caverna para viver no terraço, usando as moradas anteriores para o enterro de seus mortos. Mas mesmo essas novas casas se acham agora desertas. Galhos e mato seco, cobras e lagartos, líquens e musgos são os únicos moradores, quando a natureza começa a retomar sua pedra, acolhendo as paredes de calcário, os pilões de basalto e as lâminas de sílex de volta à terra. O mesmo se dá em Abu Hureyra — as pessoas se foram, as moradas vazias deixadas para desmoronar, artefatos abandonados e esquecidos.

A data é 10800 a.C. A vida sedentária da aldeia existe apenas nas histórias, passadas de geração em geração, de pessoas que vivem em acampamentos transitórios espalhados por todas as matas que resistem e a agora estepe que mais parece deserto. A conquista cultural dos natufianos persiste não mais como um débil eco nos artefatos, trajes e costumes sociais dessas pessoas — pessoas às quais os arqueólogos se referem como natufianos tardios. Muitas delas se reúnem periodicamente em ‘Ain Mallaha, El-Wad ou Hayonim, trazendo os ossos de seus mortos para reenterrá-los junto dos ancestrais, no que se tornaram sítios sagrados, existindo naquele mundo de sombras entre a história e o mito.

O experimento de vida aldeã sedentária durou quase 2 mil anos, mas acabou fracassando, obrigando as pessoas a retornarem a um estilo de vida peripatético mais antigo.Ásia Ocidental entre 20000 e 5000 a.C. - Sítios citados no livro de Steven Mithen, After the Ice.

O Dryas Recente, mil anos de frio e seca, foi provocado pelo enorme influxo de águas glaciais derretidas no Atlântico Norte, quando as camadas de gelo norte-americano desabaram. O impacto disso nas paisagens do oeste asiático é logo visto nos grãos de pólen do núcleo de Hula. Os sedimentos depositados dentro desse lago após 10800 a.C. mostram uma impressionante redução na quantidade de pólen de árvores, indicando que grande parte da mata morrera por falta de chuva e de calor. Na verdade, dentro de 500 anos já haviam retornado a condições pouco diferentes das do LGM: um devastador colapso das reservas de alimentos, exatamente quando os níveis de população tinham alcançado um pico recorde. Com o duplo impacto de pressão populacional e deterioração climática, não ficaremos surpresos com o colapso da vida aldeã do Natufiano Inicial.

É um dia de outono em 10000 a.C. A noite desce sobre o lago Hula, aparentemente anunciada por uma revoada de gansos. John Lubbock instala-se perto de sua pequena fogueira, feliz por ver a escuridão baixar e o sono chegar. Mas em poucos minutos é perturbado por vozes humanas que vêm de um grupo cansado da estrada que passa a caminho de ‘Ain Mallaha. Alguns são velhos e andam com cajados; outros são jovens e carregados pelos cansados pais. Altos latidos vêm da aldeia caindo aos pedaços, respondidos por pouco mais que ganidos dos cachorros que viajam com essas pessoas. Para os cachorros, ‘Ain Mallaha será apenas mais um de muitos assentamentos visitados no correr de um ano. Mas para as pessoas, é um lugar sem igual — é seu lar ancestral e esta é a primeira visita que lhe fazem em muitos anos.

Suas viagens os levaram a vários outros dos seus acampamentos temporários — sítios abandonados quando a caça e as plantas locais ficaram demasiado esgotadas para sustentar a sua presença. Visitaram lugares onde pessoas tinham morrido e sido sepultadas. Em cada cova os ossos foram exumados e postos em cestos para serem trazidos para ‘Ain Mallaha. De algumas, trouxeram esqueletos quase completos, mantidos inteiros pela pele seca e os tendões; de outros, apenas o crânio. Sempre que descansavam na viagem, os velhos recordavam as visitas que seus pais e avós haviam feito a ‘Ain Mallaha, trazendo os ossos de seus mortos para reenterro. Os jovens ouviam avidamente. Sabiam as histórias de cor: que os ancestrais tinham morado em ‘Ain Mallaha o ano todo; que tinha abundância de comida; que eles enfeitavam os corpos com roupas elaboradas e joias; que o lobo se tornara cachorro.

Lubbock junta-se ao grupo e entra na aldeia de ‘Ain Mallaha, onde se fazem respeitosos e formais cumprimentos com o punhado de gente que vive nas decadentes moradas e guarda o sítio. Os cestos e os poucos pertences que eles trazem são arriados. Acende-se uma fogueira e partilha-se um pouco de comida antes que o sono os reclame a todos.

Durante os poucos dias seguintes, chegam mais grupos a ‘Ain Mallaha, cada um trazendo cestos com os ossos dos seus mortos. Quase cem pessoas já se reuniram, prontas para reviver o passado ancestral. Passam-se mais dois dias, enquanto se batem as matas em busca de caça e plantas comestíveis para os banquetes. Contam-se histórias, e torna-se a contá-las.

Lubbock ajuda na limpeza dos detritos de uma das moradas desabadas: pedras, galhos, madeiras podres e terra. Os antigos cemitérios de ‘Ain Mallaha são reabertos. Em meio a hinos e cantorias, retiram-se os corpos dos novos mortos dos cestos e colocam-nos na terra. Fazendo isso, o passado e o presente juntam-se num só. O ato de reenterro, os dias de festejos que se seguem, a vida comunitária, as histórias contadas e os banquetes recriam para os vivos os dias do passado ancestral. Esquece-se momentaneamente do desafio do presente — a luta pela sobrevivência durante a severidade da seca do Dryas Recente.

As pessoas permanecem em ‘Ain Mallaha o quanto suas reservas de comida permitem — dez dias, talvez duas semanas no máximo. Falam sem parar de onde estiveram, e do que pode guardar o futuro. Trocam presentes: pedras, conchas e, o mais intrigante de tudo, bolsas de couro com grãos de cereais, ervilha e lentilha.

Finalmente, os grupos partem para lados diferentes, cada um tendo ganhado novos membros e perdido outros. Estão todos agradecidos pela volta ao seu estilo de vida transitório nas áridas paisagens das colinas mediterrâneas, no vale do Jordão e além. Afinal, é o único estilo de vida que conheceram, e que adoram. Lubbock passou a adorá-lo também, sobretudo quando na companhia dessas pessoas que têm uma história para contar sobre cada vale e cada colina, cada poço e cada conjunto de árvores. Ele entra num grupo que parte caminhando para o sudeste, dirigindo-se para o vale do Jordão. Mochilas de sementes pendem de suas cinturas e balançam como pêndulos, parecendo conscientes do próprio tempo, sabendo que pouco resta para os que caçam e coletam seu alimento.

 

6. Jericó – vale do Jordão – 9600 a.C. – PPNA [Pre-Pottery Neolithic A – Neolítico pré-cerâmico A] – c. 7A Torre de Jericó em Tell es-Sultan

O capítulo completo foi publicado no Observatório Bíblico em 05.03.2025, com o título de A fundação de Jericó.

 

7. WF16 – Wadi Faynan, no sul da Jordânia – 9000 a.C. – c. 8

É 9000 a.C., e John Lubbock viajou de Jericó para o sul e acha-se no que se tornará o tell WF16. Está cercado pela grandeza do wadi, que tem uma cor verde vibrante, em vez dos amarelos e marrons crestados de hoje. Onde vi estéreis desertos, ele vê árvores de carvalho e pistache; figo, salgueiro e choupo crescem junto a um rio que corre pelo que hoje é um wadi inteiramente seco e sem árvores. Escuta conversa humana, o atrito de pedra contra pedra e o latido de cachorros. O cheiro de junípero recém-cortado impregna o ar. Pessoas neolíticas sentam-se diante de suas moradas fazendo e usando os mesmos artefatos que nós encontraremos um dia. Usam colares de contas e penas dos falcões cujos ossos escavaremos. Pontas el-Khiam são fixadas em juncos e furadeiras de arco; pilões e almofarizes estão em ação; paredes são construídas com varas de junípero.

Visitantes chegam trazendo obsidiana para trocar por contas de diorito e fardos de pelo de cabra. Lubbock observa os banquetes que têm lugar quando a caça foi boa e a moagem de minúsculas sementes secas quando foi ruim. Observa o enterro de um velho dentro de uma morada, a cabeça do cadáver posta num travesseiro de pedra. Depois que o piso de terra foi socado até ficar de novo plano, o crânio continua à mostra, possibilitando às pessoas trabalharem e dormirem em volta, confortadas pela continuação dessa presença em suas vidas.

Em 8500 a.C., WF16 torna-se silenciosa e Lubbock vê-se sozinho. Os aldeões neolíticos desapareceram e suas moradas foram abandonadas à natureza e a quem quer que possa encontrar e escavar o sítio.

 

8. Wadi Ghuwayr, no sul da Jordânia – 8500 a.C. – PPNB [Pre-Pottery Neolithic B – Neolítico pré-cerâmico B] – c. 8

Lubbock ouve vozes que sobem do wadi, onde ele serpeia dobrando uma curva e as rochas viram penhascos, e onde hoje se torna conhecido como Wadi Ghuwayr. Lubbock segue a margem do rio, roçando juncos luxuriantes, gansos e patos assustados. Não anda mais de 500 metros na margem do rio de rápida correnteza e encontra pessoas trabalhando. Algumas são de WF16, mas outras vieram de longe, talvez de outra parte no vale do Jordão ou de uma distância muito maior. Juntas constroem não apenas uma nova aldeia, mas também um tipo inteiramente novo de aldeia.

Trabalham na encosta acima da margem do rio a 10 ou 20 metros da beira d’água. Constroem casas retangulares; casas com sólidas paredes de pedra e pisos de argamassa. Fizeram-se terraços, e as posições das paredes de casas com 10 metros de comprimento e 5 de largura foram marcadas no chão. Algumas já se acham na metade da construção; as paredes chegam à altura do peito, feitas com seixos alisados pela água. Pedras pequenas e argamassa são empilhadas entre filas paralelas de seixos para fazer uma sólida parede de 50 centímetros de espessura — coisa muito distante das paredes de pedra seca de WF16. Em algumas casas, puseram-se mourões de madeira pouco para dentro das paredes, prontos para sustentar o peso de caibros.

Perto do sítio de construção arde uma fogueira para fazer a cal para os pisos de argamassa. Muitas centenas de nódulos de calcário foram colhidas dos limites superiores de Wadi Ghuwayr e são queimadas dentro de um poço. Quando se atinge a temperatura suficientemente alta, as pedras se desintegram em pó de cal. Em outra, parte da cal já está sendo misturada com água e despejada em grossa camada sobre uma base de pedras no chão de uma casa quase pronta. A argamassa aplaina todas os cantos, rachaduras e um raso poço central que será a lareira. Uma vez seca e dura, será pintada de vermelho e depois polida. Mais argamassa cobrirá as paredes, por dentro e por fora. Estas serão mantidas num branco brilhante.

Essas aldeias com casas retangulares de dois andares surgiram por todo o Crescente Fértil pouco depois de 9000 a.C. Com a máxima probabilidade, originaram-se em Jerf el Ahmar e Mureybet, onde se encontraram construções da transição de redondas para retangulares. A nova arquitetura espalhou-se rapidamente; um sinal das transformações sociais e econômicas que ocorreram agora que a nova agricultura com safras domesticadas realmente começou, e os números das populações subiram às alturas. Essas novas construções caracterizam a fase do Neolítico que Kathleen Kenyon designou como PPNB [Pre-Pottery Neolithic B – Neolítico pré-cerâmico B]. É outro mundo neolítico que John Lubbock tem de explorar agora.

 

9. Beidha, no Wadi Gharab, 30 km ao sul de Wadi Ghuwayr, ao norte de Petra – 8000 a.C. – PPNB – c. 9

Deixando os penhascos acima de Wadi Ghuwayr, John Lubbock anda para o sul até a noite começar a cair, num dia de primavera de 8000 a.C. Isso o leva a uma espetacular paisagem de calcário que corre como uma prateleira abaixo do planalto jordaniano. Depois de cruzar para lá e para cá o oeste asiático do Mediterrâneo ao Eufrates, está familiarizado com as árvores e reconhece com facilidade o carvalho, o pistache e o espinheiro, embora ainda não tenham atingido a fase de folhas completas. Enquanto anda, vê não apenas cabras selvagens sobre os rochedos, mas vislumbra um chacal que inicia seu trabalho noturno e uma lebre que encerra o dia. Reconhece as pegadas de javali e os restos da presa de um leopardo. Com tais animais em volta, dorme inquieto ao abrigo de um rochedo de calcário, que muda de cor quando o sol se põe em todo o vale do Jordão.

No dia seguinte, Lubbock continua a atravessar a mata, equilibrando-se de vez em quando à borda de precipícios rochosos para olhar o futuro deserto do Neguev do outro lado de um vasto abismo sem árvores. Após ter viajado cerca de 30 quilômetros desde Wadi Ghuwayr, chega à entrada de um vale amplo e aberto, com uma densa cobertura de árvores e definido por altos penhascos de calcário. Vê, muito apropriadamente, dois pássaros negros gritando alto, pois esse é Wadi Gharab — o vale dos corvos. Abriga a primeira cidade que Lubbock tem a oportunidade de visitar; é de fato uma das primeiríssimas cidades do mundo: Beidha.

A trilha de cabras transforma-se num caminho bastante utilizado no meio da mata onde muitas árvores foram derrubadas. Isso logo dá lugar a pequenos campos com cereais que acabam de brotar, ervilhas e pequenos brotos de uma safra desconhecida — linho. E então ele vê, ouve e sente o cheiro de cidade — uma massa de moradas de pedra retangulares, vozes humanas, latidos de cachorros, cabras balindo e fumaça de lenha. Aí não há indefinições entre os domínios da natureza e a cultura humana, como havia em ‘Ain Mallaha e Abu Hureyra. A cidade de Beidha é uma impressionante afirmação do desligamento humano do mundo natural, caracterizado pelos ângulos agudos e a ordenada disposição das construções, as cabras em seus cercados, a terra capinada para o plantio.

Abrangência da cultura natufianaPara entrar na cidade, ele atravessa uma baixa muralha que cerca as construções. É uma barreira ao solo arenoso que ameaça cobrir os pátios, agora que foi liberado pela derrubada das árvores. Uma trilha leva Lubbock por entre prédios para um pátio murado de cerca de 8 metros de diâmetro. É o centro da cidade. À frente dele, veem-se quatro câmaras construídas de pedra com grãos espalhados no chão — os restos de uma colheita; à esquerda/direita, a fachada de um prédio particularmente grande. Ele atravessa sua porta e entra num aposento de um branco reluzente — o piso, paredes e mesmo o teto densamente rebocados. A única cor é uma grossa faixa vermelha em torno da base das paredes. No centro, ergue-se uma coluna de pedra não cortada de 1 metro de altura. Atrás dela, há uma entrada para um segundo e maior aposento. É igualmente vazio e deslumbrante, com os mesmos reboco branco e faixa vermelha, que também circundam uma lareira no meio do piso e uma bacia de pedra perto da entrada. No canto oposto, um poço revestido de pedra. E é só isso. Nenhum móvel a sugerir uma casa, nem pedra lascada ou fragmentos de ossos a sugerir uma oficina, nem efígies esculpidas a sugerir um lugar de ritual ou culto, e — o mais assustador — nenhuma pessoa visível a trabalhar ou brincar.

Deixando o grande prédio, Lubbock anda entre as casas até chegar a outro pátio — menor que o último, não pavimentado e dando acesso a duas casas vizinhas. Cada uma tem de três a quatro degraus para um andar de cima, e um número semelhante para um porão embaixo. Lubbock escolhe uma casa na qual ouve vozes, sobe a escada e entra num aposento em que oito ou nove pessoas se sentam em esteiras de palha, em torno de uma lareira central. Há adultos e crianças, homens e mulheres; alguns dividem pão e carne, outros inalam fumaça de folhas. Todo o aposento está cheio de fumaça que só lentamente atravessam os juncos que formam o telhado. Os olhos de Lubbock enchem-se de lágrimas.

As pessoas espremem-se juntas; parece provável que uma família esteja recebendo outra. Suas roupas impressionam — atestado de outra pequena revolução que ocorreu durante o último milênio, e que passou praticamente despercebida pelos arqueólogos. Todas as pessoas citadas anteriormente nessa história usavam roupas feitas de couro ou pele, ou muito ocasionalmente de fibras trançadas. As de Beidha vestem com elegância tecidos feitos de tecelagem; usam a primeira forma de linho, tingido de verde e transformado em túnicas e saias.

Lubbock continua dentro da casa em Beidha, examinando cestos impermeáveis no chão e uma pilha de tricô. Pedras quentes da lareira são de vez em quando jogadas dentro dos cestos, para aquecer o líquido dentro — chá de hortelã. Um denso monte de peles, couros e tecidos no outro lado da sala sugere uma área de dormir. Uma criança jaz sobre elas com uma pele pálida e doentia. Como Lubbock tantas vezes viu em outras partes, a mortalidade infantil em Beidha é alta — uma coisa que [a arqueóloga] Diana Kirkbride descobriu quando desenterrou os muitos esqueletinhos enterrados sob os pisos.

Lubbock descobre que o trabalho se faz sobretudo no porão. Este tem um piso de terra e grossas paredes que contêm seis pequenas câmaras, três de cada lado de um curto corredor. Lajes de pedra no chão proporcionam sólidas superfícies de trabalho — algumas cobertas com lascas de pedra, outras com fragmentos de osso e chifre cortados jogados fora. Algumas câmaras foram usadas para triturar pedras em contas, outras para trabalhar couro. As duas câmaras mais próximas da entrada têm grandes mós usadas para fazer farinha de trigo e cevada.

O passeio de Lubbock entre os becos e pátios de Beidha oferece-lhe novas experiências. Nos assentamentos de caçadores-coletores que visitou houve poucas surpresas — ele quase via de um extremo da aldeia ao outro, e todos pareciam conhecer os assuntos de todos os demais. Ali, como em outras cidades neolíticas, dobrar quase qualquer esquina pode levar a uma surpresa — inesperados grupos de pessoas, uma lareira ao ar livre, uma cabra amarrada. As pessoas simplesmente não podem saber o que se passa em outra parte da cidade — mesmo apenas a alguns metros de distância — porque muita coisa se passa por trás de grossas paredes. O número de habitantes se tornou demasiado grande para as pessoas conhecerem os assuntos e parentes umas das outras. Lubbock sente que há uma atmosfera de desconfiança e ansiedade, trazida pelo impacto da vida urbana numa mentalidade que evoluiu para viver em comunidades menores.

É hora de Lubbock deixar Beidha. Embora novos prédios ainda estejam sendo construídos, a cidade será abandonada dentro de poucas gerações. A viagem de Lubbock é para o norte — um retorno a Jericó, e depois para a cidade de ‘Ain Ghazal. Sua temporada em Beidha ofereceu apenas uma visão parcial dos novos habitantes de cidades da era neolítica — uma visão em grande parte centrada em suas vidas domésticas — e portanto ele tem de visitar esses assentamentos para ficar sabendo mais sobre o mundo sagrado delas.