O Sepulcro Esquecido de Jesus: slogans e distorções

O termo slogan, no Random House Webster’s Unabridged Electronic Dictionary (Version 2.0, 1994), significa uma frase ou palavra-símbolo. Podemos entendê-lo como fórmula sucinta, metáfora ou versão simplificada de uma teoria. Para CARVALHO, J. S. Construtivismo: uma pedagogia esquecida da escola. Porto Alegre: ArtMed, 2001, os slogans são frases simbólicas extraídas de doutrinas teóricas ou de orientações práticas, que se tornam importantes elementos de impacto na difusão de correntes de pensamento e de movimentos intelectuais. Os slogans sempre representam uma simplificação das idéias ou das teorias que os originam, são fragmentos, ainda que representativos, de uma construção teórica que é bem mais ampla e complexa.

A divulgação ou reprodução de um slogan não visa esclarecer detalhadamente conceitos ou perspectivas, mas veicular e manter um espírito solidário em torno da doutrina ou de um programa de ação a ela associado“, explica CARVALHO, J. S. Construtivismo, p. 97.

Os slogans são assistemáticos, de tons menos solenes e mais populares, para serem repetidos com mais veemência do que para serem meditados, com caráter mais persuasivo e programático do que elucidativo.

Para APPLE, M. W. Trabalho Docente e Textos: economia política das relações de classe e de gênero em educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995, o slogan se alicerça em três princípios: 1. exerce um determinado atrativo para nos prender, oferecendo um certo vislumbre de possibilidades imaginativas para gerar um apelo e uma exigência de ação; 2. é vago o suficiente para que os grupos ou indivíduos poderosos o acolham sob seus vastos guarda-chuvas, mas especifico para oferecer alguma coisa; e 3. serve para o aqui e agora, para guiar o trabalho prático.

O termo distorção, de acordo com o Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa (Versão 1.0, dezembro de 2001), significa alteração da forma, de características estruturais, desvirtuamento, infidelidade. No Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, distorção vem de torcer, que quer dizer dobrar, vergar, entortar, alterar, desvirtuar.

Este último é exatamente o sentido original da raiz latina distortio, um substantivo feminino derivado do verbo distorquere, usado por autores clássicos como Cícero, Horácio, Sêneca e Suetônio, explica CALONGHI, F. Dizionario Latino-Italiano. 3a. ed. Torino: Rosenberg & Sellier, 1972.

Para nós, o termo distorcer se aproxima da idéia de assimilação deformante usada por Piaget. Para PIAGET, J. O juízo moral na criança. São Paulo: Summus, 1994, a assimilação deformante acaba sendo uma necessidade de deformar as coisas, um objeto de conhecimento para satisfazer o próprio interesse ou um desejo particular, ou mesmo uma idéia preconcebida a respeito de algo. Sempre que o pensamento não experimenta a necessidade efetiva de uma acomodação à realidade, sua tendência natural o impelirá a deformar as coisas. Assimilamos um conteúdo, mas podemos deformá-lo para satisfazer à necessidade psicobiológica de aproximar o pensamento da realidade.

Em suma, distorcemos ou deformamos uma idéia para podermos entender alguma coisa que ainda não está tão clara para nós. É nossa necessidade de explicarmo-nos a nós mesmos, ou a outrem, as coisas que ainda não entendemos. Para Piaget, a assimilação deformante é própria do “egocentrismo intelectual que caracteriza as formas iniciais do pensamento da criança” (O juízo moral na criança, p. 132). Mas, entendemos que essa forma de lidar intelectualmente com a realidade que ainda não conhecemos pode se estender ao longo de nossa história.

No mesmo sentido podem ser utilizados também os termos desvio, equívoco e viés, lembrando que estes termos são sinônimos de anomalia, anormalidade, ambigüidade, confusão, dúvida, imprecisão.

>>Texto escrito por Rita de Cassia da Silva em sua tese de doutorado. Publicado sob permissão.

SILVA, R. C. Saberes Construtivistas de professores do ensino fundamental: alguns equívocos e seus caminhos. Tese de Doutorado. Araraquara, 2005.

Rita de Cassia da Silva é Psicóloga pela PUC-Campinas, SP, e Doutora em Educação pela UNESP de Araraquara, SP.

O Sepulcro Esquecido de Jesus: linguagem e ideologia

A linguagem molda a visão e o pensamento dos seres humanos e, simultaneamente, molda a concepção que eles têm de si mesmos e de seu mundo. A linguagem vista assim é motivo de debate e de conflito, pois onde está a linguagem está também a ideologia. A linguagem é um ato dentro de relações sociais, diz ORLANDI, E. P. A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. 4. ed. Campinas: Pontes, 1996. Portanto, há a confrontação de sentidos e os significados estão num processo de interação.

Falamos sempre de algum lugar. Em nossa fala há também nossa posição no mundo. Mostramos onde estamos quando falamos. Não somos neutros, sempre estamos defendendo nossa posição no mundo. Nosso discurso é cheio de significações. Com nossa linguagem criamos, interpretamos e deciframos significações de forma lógica, racional, conceitual ou mítica e simbólica.

Há o discurso cotidiano ou a linguagem do senso comum, o discurso ideológico, o discurso político, o discurso religioso, o discurso cientifico etc. A análise desses discursos revela os sentidos e significados, mas esta análise também não é neutra. Ela passa pelo discurso de quem interpreta, pela sua concepção de mundo, de ser humano, de sociedade etc. Interpretar o dizer, tanto falado como escrito, é uma tarefa de tornar compreensível aquilo que requer uma explicação ou tradução. Numa tradução fazemos suposições, críticas, por vezes simplificações, e até mesmo distorcemos algumas asserções. Portanto, é necessário um exercício constante de interrogação sobre nossas críticas e suposições.

Orlandi, A linguagem e seu funcionamento, p. 135 nos diz que “Nas situações acadêmicas, tem-me parecido que o não dito, isto é, a margem do dizer que é constituída pela relação com o que foi dito, é que acaba sendo mais fecunda. Porque faz parte da incompletude e se faz desejo”. Assim, o que um autor não diz em um texto torna-se objeto de desejo daqueles que o interpretam. Conseqüentemente, o intérprete coloca no texto aquilo que é o seu modo de ver o texto. Desta maneira, o texto interpretado já não é somente o texto do autor, mas sim, o texto do autor e do intérprete. As idéias se mesclam e se transformam em outras idéias.

Quando queremos tornar compreensível uma teoria, somos orientados pelo modo como ela está expressa. No entanto, a interpretação é um modo de dizer algo que passa pela compreensão daquilo que foi dito e do nosso modo de ver as coisas. Os dados que um cientista interpreta passa pela visão que ele tem dos dados. Numa interpretação literária ou interpretação de uma teoria, há algumas regras que devemos considerar: por exemplo, o texto e o contexto. Precisamos ver como foi escrito este texto, ou seja, qual a abordagem que o autor utiliza para formular sua teoria. Ele sempre fala de algum lugar para alguém e fala de um determinado contexto histórico. Quando vamos ler a teoria, precisamos considerar estes elementos na sua construção. Se uma teoria foi construída a partir de um referencial das ciências da natureza, por exemplo, ela deve ser lida dentro dos referenciais destas ciências, levando em conta a época, os acontecimentos e interesses do momento em que foi escrita.

Nada impede que lancemos outros olhares sobre um conceito ou uma teoria, porém, sem perder de vista que cada teoria é escrita em um determinado momento e com interesses que podem ser diversos daqueles que estamos interpretando. Quando lemos a partir de nossos interesses algo que um autor disse, podemos incorrer em erros hermenêuticos, pois nossa leitura pode não corresponder ao que ele quis dizer. É o que dissemos que ele disse que pode estar errado, mas, em nossa interpretação podemos também avançar a partir das idéias originais. Uma teoria pode levar a outra.

O que dizemos ganha vida, espessura, faz história e traz conseqüências. Podemos provocar o debate, alargar ou restringir os enunciados. Quando teorizamos sobre algo, passamos por esse processo. Quando estamos lendo uma obra literária, entramos no mundo do autor, mas entramos com nossos sentimentos, idéias e desejos. Quando lemos uma teoria científica, nem sempre entramos no mundo do autor, é mais comum interpretarmos com o nosso olhar e nossa visão de mundo, o que foi escrito num outro momento e com outra concepção de mundo.

>>Texto escrito por Rita de Cassia da Silva em sua tese de doutorado. Publicado sob permissão.

SILVA, R. C. Saberes Construtivistas de professores do ensino fundamental: alguns equívocos e seus caminhos. Tese de Doutorado. Araraquara, 2005.

Rita de Cassia da Silva é Psicóloga pela PUC-Campinas, SP, e Doutora em Educação pela UNESP de Araraquara, SP.

A Tumba de Talpiot segundo James Tabor

James Tabor publicou hoje, 24 de março de 2007, em seu The Jesus Dynasty Blog, uma síntese de suas opiniões sobre a Tumba de Talpiot.

Veja:

The Talpiot Jesus Tomb: An Overview

Logo no começo, ele diz:
Here is a summary of my views of the Talpiot/Yeshua tomb and its possible connection to a hypothesized family tomb of Jesus of Nazareth.

E, após falar do contexto histórico, das estatísticas e das inscrições, ele termina dizendo:
There is more to learn and more that will come out soon on this whole subject but right now this is a summary of the evidence as I see it.

Enquanto isso, o documentário continua a ser apresentado aqui no Brasil pelo Discovery Channel.

Ainda temos mais duas apresentações: amanhã às 10h00, bom horário, e segunda-feira, às 04h00, de madrugada…

Bovon discorda de O Sepulcro Esquecido de Jesus

O Professor François Bovon, da Harvard Divinity School, um dos especialistas que participam de O Sepulcro Esquecido de Jesus, publicou um artigo no SBL Forum, no qual manisfesta sua discordância com pontos fundamentais do documentário.

Ele diz, em The Tomb of Jesus, que:

  • First, I have now seen the program and am not convinced of its main thesis. When I was questioned by Simcha Jacobovici and his team the questions were directed toward the Acts of Philip and the role of Mariamne in this text. I was not informed of the whole program and the orientation of the script.

Primeiro, agora eu vi o programa e não estou convencido de sua tese principal. Quando fui entrevistado por Simcha Jacobovici e sua equipe, as perguntas eram sobre os Atos de Filipe e o papel de Mariamne neste texto. Eu não estava informado sobre o programa como um todo e a orientação do script.

 

  • Second, having watched the film, in listening to it, I hear two voices, a kind of double discours. On one hand there is the wish to open a scholarly discussion; on the other there is the wish to push a personal agenda. I must say that the reconstructions of Jesus’ marriage with Mary Magdalene and the birth of a child belong for me to science fiction.

Segundo, tendo visto o filme, eu ouço nele duas vozes, uma espécie de discurso duplo. Por um lado, há um desejo de iniciar uma discussão acadêmica; por outro lado, há um desejo de “vender uma idéia” pessoal. Eu devo dizer que as reconstruções do casamento de Jesus com Maria Madalena e o nascimento de uma criança pertencem para mim à ficção científica.

 

  • Third, to be more credible, the program should deal with the very ancient tradition of the Holy Sepulcher, since the emperor Constantine in the fourth century C.E. built this monument on the spot at which the emperor Hadrian in the second century C.E. erected the forum of Aelia Capitolina and built on it a temple to Aphrodite at the place where Jesus’ tomb was venerated.

Terceiro, para ter mais credibilidade, o programa deveria ter tratado da tradição muito antiga do Santo Sepulcro, já que o imperador Constantino, no século IV d.C. contruiu este monumento no local em que o imperador Adriano, no século II d.C., construíra o fórum de Aelia Capitolina e nele o templo de Afrodite no lugar em que a tumba de Jesus era venerada.

 

  • Fourth, I do not believe that Mariamne is the real name of Mary of Magdalene. Mariamne is, besides Maria or Mariam, a possible Greek equivalent, attested by Josephus, Origen, and the Acts of Philip, for the Semitic Myriam.

Quarto, eu não acredito que Mariamne seja o nome real de Maria Madalena. Mariamne é, ao lado de Maria ou Mariam, um possível equivalente grego, atestado por Josefo, Orígenes e os Atos de Filipe, para o semítico Miriam.

 

  • Fifth, the Mariamne of the Acts of Philip is part of the apostolic team with Philip and Bartholomew; she teaches and baptizes. In the beginning, her faith is stronger than Philip’s faith. This portrayal of Mariamne fits very well with the portrayal of Mary of Magdala in the Manichean Psalms, the Gospel of Mary, and Pistis Sophia. My interest is not historical, but on the level of literary traditions. I have suggested this identification in 1984 already in an article of New Testament Studies.

Quinto, a Mariamne dos Atos de Filipe é parte do grupo apostólico com Filipe e Bartolomeu; ela ensina e batiza. No início, sua fé é mais forte do que a fé de Filipe. Este retrato de Mariamne combina muito bem com o retrato de Maria de Magdala nos Salmos Maniqueus, no Evangelho de Maria e na Pistis Sofia. Meu interesse não é histórico, mas sim no plano das tradições literárias. Eu sugeri esta identificação já em 1984 em um artigo de New Testament Studies.

Jacobovici entrevistado pelo Jerusalem Post

The Jerusalem Post entrevistou Simcha Jacobovici, diretor de O Sepulcro Esquecido de Jesus.

One on One: The cross he bears

‘The Lost Tomb of Jesus’ producer Simcha Jacobovici says public criticism only strengthens his belief that he’s uncovered a real revelation.

By Ruthie Blum Leibowitz – March 21, 2007

Canadians may recognize award-winning filmmaker Simcha Jacobovici (pronounced Yakobovitch) as The Naked Archeologist – the name of the TV show he hosts, which is premiering on Channel 8 in Israel in May. “You know,” says Jacobovici, grinning, “It’s like The Naked Chef of archeology.”

But ruins and remains are not – as he is the first to acknowledge during our hour-long interview in a Tel Aviv hotel – his field of expertise.

“What I am is an investigative journalist,” he argues for what may be the millionth time since the recent release of his ultra-controversial documentary film, The Lost Tomb of Jesus. The nearly two-hour movie he made with director James Cameron of Titanic fame – a cinematic cross between TV shows like 60 Minutes and CSI and biblical epics like The Ten Commandments – all but asserts with authority that ossuaries (bone boxes) in a tomb discovered in Jerusalem’s East Talpiot neighborhood in 1980 are none other than those of Jesus of Nazareth (a.k.a. Jesus Christ) and his family.

That Jacobovici’s having “dug up” and “dusted off” a 27-year-old find – dismissed at the time as one among many regular old relics – is rocking the archeological and theological communities is not surprising to the 54-year-old former Israeli. In fact, he insists, while he doesn’t appreciate the personal attacks, he does “welcome the debate.”

Indeed, if his previous and upcoming journalistic pursuits are any indication, Jacobovici likes stirring up trouble. So far, it’s paid off. Big-time. Among other awards, his Toronto-based company, Associated Producers, has two Emmys under its belt (one for The Selling of Innocents, on sex trafficking of children, and the other for The Plague of Monkeys, on the Ebola virus). Other topics he’s covered on film include Ethiopian Jews, the lost tribes of Israel, the sinking of the Struma refugee ship, Jesus’s brother James and terrorism. His latest film – that is going to be broadcast here during Pessah – is The Exodus Decoded, an examination, explains Jacobovici, of whether the biblical exodus was “history or fairy tale.” Uh-oh.

As it happens, Jacobovici’s own history has a touch of the fairy tale about it – a Jewish one. The son of Holocaust survivors from Romania, he was born and spent half of his childhood here, then moved to Canada, where he was an activist for Jewish causes (he chaired the North American Jewish Students’ Network; founded and chaired Network Canada, the country’s national union of Jewish students; founded the Canadian Universities Bureau of the Canadian Zionist Federation; and served on the national executive of the Canadian Jewish Congress; was invited to share the dais with prime minister Menachem Begin in 1978, following his announcement of the peace accord with Egypt; was president of the International Congress of the World Union of Jewish Students; and in 1980 – the year the “Jesus tomb” he would investigate a quarter of a century later was discovered – he was awarded the Knesset Medal for his Zionist work on North American campuses, and served as special consultant on Nazi war criminals to Canada’s solicitor-general).

Today, the married father of five is an Orthodox Jew, who dines with his Hollywood peers on the kosher food he requests. And Shabbat is sacred. “At the end of the day,” says Jacobovici, adjusting his lushly embroidered kippa crowning a head of nape-length hair, “if you refuse to compromise, others come around.” Sometimes, but not when the “others” are archeologists of the arch-critic variety.

Much has been written about your controversial film, including in these pages. But what about the man behind the movie. Who is Simcha Jacobovici?

I was born in Israel in 1953. When I was nine, my parents moved to Montreal, where I grew up. My mother had a thyroid condition, and though today Israel is one of the leaders in thyroid treatment, at the time my mother couldn’t be treated in Israel. She was one of the first people to be treated with radioactive iodine anywhere, and the first test case in Canada; thank God, she’s fine now. My father was a plastics engineer at the beginning of the plastics revolution. I attended McGill University, where I did a BA in philosophy and political science. Then I came back to Israel for two years to serve in the army – in what’s called sherut shlav bet, which is less than three years, because I was already 21. After that, I went back to Canada – to Toronto – where I did an MA in international relations. I finished my PhD work there, stayed and got married. I have five kids – four girls and a boy – ranging in age from 13 to 20 months.

How did you become a filmmaker?

I first started writing background focus pieces – more like analysis. Slowly, I got involved in investigative stuff. The first time I made a film was in 1981. I had written an article about the plight of the Ethiopian Jews. I ended up writing three pieces [on this subject] for The New York Times, and they created quite a controversy. If you’re looking for common denominators in my life, I guess I would say that Ethiopian Jews – like the original Jesus movement I am now interested in – fell between the cracks: They were blacks among Jews and Jews among blacks. The Jews who followed Jesus also fell between the cracks: Jews don’t want to delve into them so as not to Christianize Judaism, and Christians don’t want to deal with them so as not to Judaize Christianity. I feel very comfortable in the space in between. The issue of the plight of Ethiopian Jews was a marriage of my Jewish interests and my journalistic ones. Anyway, I wrote several articles on the subject, and after you write so many articles, what do you do next? So I tried to interest some documentary filmmakers in the topic – my idea was to be a consultant, because I had no training in filmmaking. But nobody wanted to do it. So, I thought, “What do I have to lose?” And I went out and made my first documentary, Falasha, Exile of the Black Jews. The film was quite well-received and controversial. It was screened in Israel and to the Foreign Affairs and Defense Committee of the Knesset. It became part of the advocacy campaign on behalf of Ethiopian Jews that led to Operation Moses, the first airlift to Israel in 1984. So, suddenly, I’d made a film, and I liked it. Since then, haven’t looked back. I have a film company called Associated Producers, and we do a lot of investigative work.

What’s your connection to archeology?

There have been a lot of academics saying I’m not an archeologist, which is absolutely true. What I am is an investigative journalist. Normally, investigative journalists follow up social-political stories; they chase President Bush around, for example, or look into nuclear, medical or other issues. And when a journalist does a medical story, nobody challenges him for not being a doctor. But history and archeology? Those are realms in which you’re supposed to worship at the altar of academia. You can cross-examine a nuclear physicist and nobody questions your right to do so. But not a professor of history. There’s this little island of history and archeology that hasn’t been much exposed to the skills of investigative journalism. What I do is act as a detective. I’m not an archeologist; I interview archeologists. I’m not an epigrapher; I interview epigraphers. My job, as it would be if I were doing any story, is to connect dots and see if a picture emerges.

How did you come to take an interest in this particular tomb? And why now – 27 years after it was uncovered?

I was doing a film, James, Brother of Jesus, for which I interviewed [renowned archeologist] Prof. Amos Kloner. He asked me why I was interested in the James ossuary. I said, “What do you mean, why am I interested in it? This is the first archeological attestation to Jesus of Nazareth – one of the most important people to have walked the face of this planet.” So he asked, “Then why are you dealing with the brother? Why don’t you deal with Jesus?” I said: “What do you mean?” He said, “I’ll show you.” And he showed it to me. He thought it was the funniest thing. I asked him why it wasn’t significant. And he said, “Oh, it’s so common.” I asked how many he’d found. I thought he’s say 20 or 50. “One,” he said. I asked who else was buried in the tomb. He said, “I don’t want to tell you, because then you’ll think you have Jesus.”

If you were so interested in ossuaries and Jesus, why hadn’t you heard of the Talpiot tomb before that moment?

I mean, it had been discovered more than two decades before this exchange with Kloner. You have to understand that this tomb has been enveloped in secrecy. It’s been in the shadows. It’s been in the academic basement. From 1980 until 1996, something very unusual happened with it: Not a word was published on it. Sixteen years of utter silence. It was found by builders, when bulldozers were preparing a construction site. The builders phoned the Israel Antiquities Authority, and three archeologists arrived. The lead archeologist, antiquities inspector Yosef (Yoske) Gat, died very soon after the finding. The two others were Amos Kloner and Shimon Gibson [now a senior fellow at the Albright Institute of Archeological Research]. Gibson is open to the possibility of this being the tomb of Jesus and his family. Kloner has been very negative throughout this whole discussion. I think he’s a sweet man, but I don’t understand him. I mean, on CBS he said: “You cannot get DNA from God.” When a man makes a statement like that, is he making it as an archeologist?

Are you insinuating that he feels professionally or otherwise threatened by your investigation?

[Here he shrugs and laughs mischievously.] As Jesus would say, “You said that.” I don’t know how he feels. I don’t work with feelings. I work with facts. The fact is that for 16 years it was his responsibility to publish something, and he published nothing. It was only after a journalist from the BBC started asking questions that he published an article in the relatively small Israeli journal, Atikot [antiquities]. And unless you’re an avid reader of Atikot, you wouldn’t know that this tomb exists. I know many academics who had no idea about it. So, [if I were Kloner], I would be embarrassed.

But if he’s right that this tomb and its ossuaries aren’t significant, why would – or should – he have made a big deal out of them?

Archeological finds are uncovered in Israel all the time. Not each and every one is widely publicized. True, things are uncovered here, though not quite all the time. But things are published about them. I mean, I’m not asking why he didn’t hold a press conference. But for 16 years not to publish anything about it? Zero? This is very unusual. Also, let’s face it: It’s the only ossuary ever found with the name “Jesus, son of Joseph” on it. Now, these people are smart people. So, even if it was only to dispel any possibility, you would think that somebody would at least address it (cont.)

S.O.S H2O – Dia Mundial da Água

Movimento de defesa marca o Dia Mundial da Água no Brasil

Representantes de ONGs, de órgãos gestores dos recursos hídricos dos governos federal e estadual, além de grandes consumidores, assinam nesta quinta-feira –Dia Mundial da Água– um documento em defesa das águas brasileiras. A Carta de Princípios Cooperativos pela Água será o início da campanha batizada de “SOS H2O”.

O objetivo da ação é eliminar a poluição e os casos de doenças relacionadas à falta de saneamento, criar incentivos ao uso sustentável da água e adotar programas educacionais em torno do tema. A assinatura do documento ocorreu durante evento no Parque Tecnológico de Itaipu, em Foz do Iguaçu (PR).

Criado em 1992 pela ONU (Organização das Nações Unidas), o Dia Mundial da Água deste ano tem como tema a escassez. Segundo informações da ANA (Agência Nacional de Águas), pesquisas recentes apontam que, se mantidas as tendências atuais, mais de 45% da população mundial não poderá contar com a quantidade mínima de água para o consumo diário em 2050.

Ainda segundo a agência, em todo o planeta, cerca de 1,1 bilhão de pessoas não têm acesso à água potável. O Brasil, apesar de o país ter cerca de 12% da água doce do mundo, também enfrenta problemas em relação à disponibilidade do recurso.

O relatório GEO Brasil Recursos Hídricos aponta uma discrepância em relação à distribuição geográfica e populacional da água no país: sozinha, a região amazônica abriga 74% da disponibilidade de água, no entanto, é habitada por menos de 5% da população. Outro aspecto que colabora para a escassez em algumas regiões é a deficiência na coleta de esgoto –somente 54% domicílios brasileiros têm acesso ao serviço.

No entanto, mesmo diante de tais indicadores, o Brasil conseguiu aumentar a proporção de habitantes com acesso à água potável de 83% em 1990 para 90% em 2004.

O avanço permite que o Brasil se aproxime da meta de elevar o indicador para 91,5% , estabelecida pelos “Objetivos de Desenvolvimento do Milênio” –uma série de metas socioeconômicas que os países-membros da ONU (Organização das Nações Unidades) se comprometeram a atingir até 2015.

Uso da água

De acordo com a ANA, há uma tendência de uso abusivo da água, por motivos que vão desde problemas na irrigação até excessos no consumo doméstico.

Dados da agência mostram que 69% dos 840 mil litros de água consumidos no Brasil a cada segundo são destinados à agricultura; o uso urbano e o uso com animais são de 11%, cada um; o consumo industrial é de 7%, e o rural, de 2%.

Fonte: Folha Online – 22/03/2007

 

Oferta de água no Oriente Médio pode cair pela metade até 2050, diz Bird

O Banco Mundial (Bird) alertou que se os países do Oriente Médio quiserem evitar um agravamento na falta de água na região, terão de cooperar uns com os outros.

Esta é uma das recomendações de um relatório divulgado recentemente pelo órgão, que traça um futuro seco para o Oriente Médio se não forem implementadas mudanças na administração da água.

“A disponibilidade de água per capita vai cair pela metade até 2050, com sérias conseqüências aos já sobrecarregados lençóis subterrâneos e sistemas hidrográficos naturais”, alerta o documento.

A história recente do Oriente Médio não inspira grandes esperanças: o ex-primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, teria dito que a Guerra dos Seis Dias, em 1967, começou quando engenheiros sírios tentaram desviar parte do fluxo de água de Israel.

Após assinar o tratado de paz com o Estado israelense, em 1979, o presidente do Egito, Anwar Sadat, disse que seu país nunca mais lutaria em uma guerra, exceto para proteger suas fontes de água. O rei Hussein, da Jordânia, também já deu declarações neste sentido.

A questão da água está sempre presente nas negociações de paz entre israelenses e palestinos, já que os lençóis de água que abastecem Israel ficam na Cisjordânia e o rio Jordão corre por uma parte dos territórios ocupados.

Porém, na opinião da especialista em administração de recursos naturais, co-autora do estudo do Banco Mundial, Julia Bucknall, a falta de água atualmente “pode ser muito mais um veículo condutor para a paz do que para a guerra, como era antigamente”.

“No nível técnico, até israelenses e palestinos estão conversando o tempo todo. A partir do momento em que os países perceberam que o problema da falta de água pode se tornar insolúvel se não for resolvido logo, os governos começaram a cooperar muito mais uns com os outros.”

Oásis

O Oriente Médio é a região com menos disponibilidade de água por habitante –enquanto que 5% da população mundial vive na área, ela conta com apenas 1% da água fresca existente no planeta. Países como Egito, Argélia e Marrocos gastam entre 20% e 30% de seus orçamentos em suprimentos de água.

“Na medida em que as economias dos países da região e as estruturas populacionais mudarem nas próximas décadas, a demanda de água e os serviços de irrigação vão mudar, assim como a necessidade de tratar do problema da poluição industrial e urbana”, alertou Bucknall.

Outro fator que deve tornar a situação ainda mais difícil é o aquecimento global. Quando o beduíno Salim Ataig, de 23 anos, era garoto, muitas pessoas da região onde ele mora, no sudoeste da Península do Sinai, no Egito, costumavam ir até um imenso oásis na região de Wadi Kid para pegar água e levar para casa.

“Hoje o oásis não existe mais. Agora, as pessoas da cidade de Dahab têm de usar água do mar desalinizada para tomar banho e lavar a louça”, diz Ataig.

A opção para beber e cozinhar é comprar água coletada em oásis mais distantes, como o de Bir Ogda. Sessenta litros custam 16 libras egípcias (o equivalente a cerca de R$ 6) e costumam durar um ou dois dias para uma família de três ou quatro pessoas.

“Há cinco anos passou a chover muito menos aqui no Sinai. Antes disso, chovia todos os anos, mas agora não chove mais. Acho que se continuar assim vamos ter muitos problemas no futuro”, prevê Ataig.

A diminuição de água de chuva por causa das mudanças climáticas também é um dos problemas mencionados no relatório do Bird. Porém, seus autores são otimistas e dão várias alternativas para solucionar o problema.

Comércio exterior

“Um dos fatores animadores é que 85% da água são usados para agricultura. Eles vão ter de passar a usar a água deles para as coisas que gerem a maior quantidade de dinheiro e emprego”, afirmou Bucknall.

De acordo com ela, por ser mais fácil importar comida do que água, a região, que é abundante em sol, deve se concentrar em plantações de produtos como uvas, tomates, melões e morangos e importar produtos cujo plantio seja menos rentável.

A administração da água também tem de melhorar, segundo o relatório. “O mais importante é o poder público considerar a questão da água uma grande prioridade política”, disse a autora.

As mudanças propostas incluem planejamento para integrar quantidade e qualidade de água, reforma tarifária para o fornecimento de água –muitos países subsidiam serviços de má qualidade quando os consumidores prefeririam pagar por um serviço de melhor qualidade–, além do fortalecimento de agências de governo.

“Nós sabemos que as opções que nós estamos dando não são fáceis e que elas envolvem mudanças dolorosas, mas a outra opção é pior.”

Fonte: BBC Brasil – 22/03/2007

 

Water for Life

We’re finally at the end of the UN Decade for Water 2005-2015 – It is time to say good-bye

After 10 years, we’re finally at the end of the UN Water for Life Decade 2005-2015. Since 2005, we have been managing complexity on a global scale. Interactions have increased exponentially thanks to social media and the Internet; but we can’t help but regret the missed opportunities. There were many. And now we have a full stop.

Our goal during the Water for Life Decade was to promote efforts to fulfill international commitments in the water sphere by 2015. We’ve tried to raise the profile of water in the global agenda, and to focus the world’s attention on the groundbreaking, lifesaving, empowering work done by those implementing water programs and projects. We’ve tried to be a bridge, to further cooperation between governments and other stakeholders, between nations and diverse communities, between economic interests and the needs of ecosystems and the poor. And we’ve promoted efforts to ensure the participation of women in water and sanitation. We’ve done all this to contribute to achieving the water goals of the Millennium Declaration, the Johannesburg Plan of Implementation of the World Summit for Sustainable Development and Agenda 21.

For almost as long as we can remember, 2015 has been considered a critical year for the international water and sanitation agenda. Not least because we anticipated – and it has come to pass – that the General Assembly has agreed the Sustainable Development Goals in its 70th session.

In September 2015, the General Assembly finally agreed on a stand-alone water goal (number 6), “Ensure the availability and sustainable management of water and sanitation for all.” This reflects that water and sanitation has become a key priority for member states. UN and stakeholders, experts and the water community at large have contributed, engaging with politicians, policy makers, governments and water managers in water and sanitation programs and projects, in knowledge generation and management, in advice based on good practices and appropriate technologies.

The decade has been one of progress and many have contributed. The activities of the UN office to support the International Decade for Action “Water for Life” 2005-2015 of the knowledge hub, best practice programmme, communications, are being integrated in its work by the UN-Water technical advisory unit. We are especially proud of the activities of the civil society and of the UN-Water for Life Award winners. The Water for Life logo users and the partnerships which the decade has helped boost and create will respond to the challenge of the 2030 Sustainable Development Agenda of the need to be transformative and to bring about change. A call for Business “unusal”. The Canadian Water for Life Partnership, the Cultivating Water for life global partnership, the work of the Women for Water Partnership to cite a few with take the torch and continue with the spirit which has guided the Office´s actions.

Their work is necessary because 663 million people still drew water from an unimproved source in 2015, and for these people our statistics mean nothing. From 1990 to 2015, 2.1 billion people gained access to a latrine, flush toilet or other improved sanitation facilities, helping to comprise a total of 68% of the global population. Yet we missed the MDG target for sanitation by 9 percentage points. We have to keep working.

O Sepulcro Esquecido de Jesus: observações críticas

O número de apresentações
É muito bom ter esta variedade de horários, 11 ao todo, distribuídos ao longo de 7 dias, por dois motivos: oportunidade para mais pessoas assistirem e facilidade para quem gosta ou precisa observar com detalhes o documentário. Porém, é um verdadeiro “bombardeio” de tumba ou sepulcro de Jesus às vésperas da Semana Santa, em uma cultura como a nossa que, sabidamente, celebra com extrema dramaticidade ibérica, muito mais a “Paixão e Morte de Jesus” do que sua vida, seus feitos e suas propostas. Este “bombardeio” de apresentações não acontece por acaso.

1. A tumba de família de Jesus em Talpiot
A sequência de “descobertas” que se nota no primeiro segmento é a seguinte: evangelhos > Talpiot > ossuários > Jesus, filho de José > Maria > Mateus > Joset. No final do segmento, o telespectador já deveria estar convencido de que esta é, sem dúvida, a tumba da família de Jesus, pois a história de sua família está reconstruída e recuperada através das inscrições em 4 dos ossuários.

Algumas questões, entretanto, se impõem desde o começo:

  • Como se fez para que a hipótese de ser esta a tumba da família de Jesus se transformasse em certeza em apenas 22 minutos?
  • Quando e com que recursos uma pobre família da Galileia, como a de Jesus, teria construído uma tumba tão elaborada, considerada pelos especialistas como uma tumba de uma família rica?
  • Como comprovar que a genealogia de Jesus em Lc 3 é uma genealogia autêntica da família de Maria, como defende Tabor?
  • Por que é feito um uso seletivo dos evangelhos? Por que Mateus é desacreditado quando denuncia como complô de lideranças judaicas a história do roubo do corpo de Jesus pelos discípulos, enquanto Lucas e Marcos são fontes seguras para os nomes de familiares de Jesus?
  • Começar um documentário e fundamentar suas principais conclusões em uma visão conspiratória da história não é bastante problemático?
  • Onde está a percepção de que “evangelho” não é biografia nem livro de história e que, dentro de um evangelho, há vários gêneros literários?
  • Por que genealogias teológicas teriam credibilidade histórica, como a de Lucas?

Além de se discutir o uso problemático das fontes, deve-se investigar a relação entre Bíblia e Arqueologia, a arqueologia vista como caça ao tesouro… mesmo que este tesouro seja simbólico, um valor sagrado, uma relíquia, o lugar onde Jesus foi enterrado, por exemplo.

Chamo a atenção, finalmente, para a presença de Jacobovici no filme: sempre alerta, olhar inquiridor, soluções rápidas, mente aberta, inteligente… enfim, uma figura! Ele é um cineasta, um jornalista investigativo ou um personagem? Talvez seja o real protagonista do filme. De qualquer maneira, ele é o “mocinho” do filme. Vejo assim: na ausência das grandes figuras do documentário – Jesus, Maria, Madalena são apenas nomes em caixas de pedra – a figura incomum do cineasta, sempre em primeiro plano, dá segurança ao telespectador, enquanto o guia, soluciona dúvidas, resolve o que parece impossível, se emociona com as descobertas… Enfim, Jacobovici cria uma personalidade com a qual o telespectador pode se identificar sem receio de ficar perdido em suas dúvidas… Só que tudo isto é construído. A “caça ao tesouro” levou inteiros 3 anos! Nada foi encontrado “por acaso”. Caberia aqui uma discussão sobre a relação e distinção entre documentário e ficção.

2. Probabilidades estatísticas
A linha de raciocínio aqui é a seguinte: 3 especialistas contestam que os nomes encontrados indiquem algo de extraordinário, mas nada disso vale, pois a eles são contrapostas as opiniões de James Tabor que diz ser “provável” – para logo passar ao “deve ser” a tumba da família de Jesus – e do matemático Feuerverger, que apenas diz “ser possível”, mas é um matemático e professor de estatística, e isso pesa.

Cabe aqui uma observação sobre a (im)precisão das expressões que estou usando: posso não ter anotado tudo corretamente ao ver o filme! Mas, principalmente, as falas são dubladas… e as dublagens não são tão confiáveis assim! Mas não é só o que é falado que dá respaldo à tese de Jacobovici. O modo como os especialistas são apresentados, inclusive o ambiente em que são filmados, conta muito. Observo, por exemplo, que o matemático Feuerverger é sempre apresentado em ambiente acadêmico clássico, escrevendo fórmulas em tradicional quadro de sala de aula, o que dá respeitabilidade às suas opiniões, embora elas sejam extremamente cautelosas e vagas. Respeitabilidade? Lembro-me de uma das mais difundidas fotos de Einstein, na qual ele está escrevendo fórmulas no quadro… Mais para a frente veremos cientistas fazendo sofisticados exames de DNA e de pátina em modernos laboratórios, utilizando avançadas tecnologias, com marcante presença da eletrônica, em países de forte produção científica, como Estados Unidos e Canadá.

3. Busca da tumba e o ossuário de Caifás
O argumento que preside este segmento é: se Caifás é autêntico, Joset – daí toda a família de Jesus – também o é. De maneira muito clara se sugere o seguinte: a arqueologia oficial aceita muita coisa, desde que não envolva a familia de Jesus. No meu entender, sugere até mesmo um complô eclesiástico para manter a versão oficial das Igrejas. Há um “entulho ideológico” que impede o acesso à tumba de Jesus? Observo este paralelo entre o entulho físico do cano e o entulho simbólico sugerido… Aquele pode ser removido por um simples encanador, enquanto este resiste… A figura de David Mevorah simboliza esta resistência! Então, com quem fica o telespectador? Quer ver o que há além do entulho? Quer remover o seu próprio “entulho ideológico”, herdado através de sua educação religiosa formal? Por que não olhar do outro lado? Não é o que fazem os intrépidos caçadores de tesouros nos conhecidos filmes admirados por milhões?

4. Maria Madalena
Maria Madalena é a chave aqui: reputação restabelecida, liderança consolidada, ordenada (?), enquanto a atitude da hierarquia é colocada sob suspeita. A narrativa oficial é ironizada e substituída o tempo todo, sugerindo a existência de uma visão distorcida desenvolvida ao longo dos séculos. Sobre as estatísticas nada falarei: é assunto complicado, do qual nada entendo, e, por isso remeto o leitor para as explicações sobre o raciocínio de Andrey Feuerverger como estão no biblioblog de Mark Goodacre.

5. Mariamne, Madalena e os Atos de Filipe
Todo o segmento está fundado nos Atos de Filipe e na leitura de François Bovon, culminando no símbolo encontrado ao mesmo tempo em Dominus Flevit e na entrada da tumba de Talpiot. Cujo significado, aliás, permanece desconhecido. Maria Madalena é colocada nas alturas. Em determinado ponto, Tal Ilan chega a dizer que Madalena foi a verdadeira fundadora do cristianismo.

Aqui já se percebe, passado mais da metade do documentário, como o raciocínio é sempre na base de suposições que suportam outras suposições, que, por sua vez, suportam outras… É uma seqüência de: e se… e se… devia haver… se o ossuário… mas se… E desse conjunto frágil de suposições, supostamente fundadas, tiram-se facilmente conclusões, como: logo, claro, incrível… Todo o peso da argumentação recai sobre um frágil condicional. Contudo, para reforçar tal argumentação, a palavra mágica dos documentários aparece de vez em quando: “evidências”. Vamos procurar evidências… as evidências indicam… encontramos evidências…

Neste ponto o documentário já pode colocar na boca dos arqueólogos que examinaram Talpiot em 1980 algo que jamais suspeitaram: 26 anos atrás arqueólogos encontraram ossuários da família de Jesus em Talpiot… Enquanto isso, Jacobovici lança o desafio para sua equipe, mas também para o telespectador: temos de achar a tumba, a tumba da família sagrada, diz ao perceber que estavam na segunda tumba, a tumba intacta, a tumba errada.

6. DNA
Toda a seqüência está fundada no exame de DNA, uma palavra mágica hoje nos meios de comunicação, nos filmes policiais, nos tribunais, que resolve qualquer dúvida. Se o telespectador ainda não estava convencido, aqui não há como escapar: o DNA mostra que Jesus e Mariamne, quer dizer, Maria Madalena não eram filhos da mesma mãe, sendo, portanto, marido e mulher.

O que estamos vendo aqui é liberdade de pensamento em relação às versões oficiais das Igrejas ou independência para chutar em todas as direções? E se os personagens fossem membros da mesma família, mas com outro grau de parentesco? E por que foram retiradas amostras exatamente destes dois ossuários e não dos outros? No debate que é apresentado após o filme, ao serem pressionados sobre isso, Jacobovici e Tabor alegam que os outros haviam sido aspirados, limpos pelo IAA para alguma exposição – não documentada por eles – e por isso não continham nenhuma amostra de DNA que pudesse ser facilmente retirada. Ora, por que não providenciaram a retirada de amostras por métodos mais sofisticados, se ficaram 3 anos trabalhando no documentário? Argumenta Jacobovici que ele é apenas um jornalista, que ele fez o seu trabalho, que apresentou o que achava relevante… e que ele espera que os cientistas prossigam com o trabalho mais sofisticado… Claramente, ele não quer correr nenhum risco de ver sua proposta desacreditada por provas científicas.

7. Descoberta a verdadeira tumba
Encontrada a tumba de Talpiot, o leitmotiv é: emoção pela descoberta. A indicação decisiva vem, diz o documentário, da “visita quase profética de uma mulher cega”. Noto aqui a presença do providencial, o desígnio invisível que guia os caçadores para a descoberta decisiva: “visita quase profética”. Interessante: após mais de 1 hora de convencimento do telespectador, entra-se, de fato, na tumba. É tanta espera, tanta ansiedade, que é um alívio quando ele, telespectador, também entra na tumba guiado pela mão segura de Jacobovici.

8. O décimo ossuário está desaparecido: pode ser o Ossuário de Tiago?
O segmento está todo fundado no Ossuário de Tiago como sendo o ossuário desaparecido da coleção de Talpiot. Ora, quem acompanhou a polêmica sobre o Ossuário de Tiago sabe que tal identificação é bastante problemática. Oded Golan e outros envolvidos com este ossuário foram parar nos tribunais israelenses, julgados por fraude, o processo está em andamento. Claro, nada disso é dito no documentário.

Quero observar aqui que são tantos os dados, tão complexos, tão “científicos”, relatados de maneira tão bem dosada, que um leigo no assunto só pode aceitar o que lhe é apresentado como autêntico, pois não há como distinguir o possível do real, o “se” do comprovado.

9. A pátina combina: o ossuário desaparecido é o Ossuário de Tiago
De maneira quase mágica é resolvido o problema do décimo ossuário desaparecido, recorrendo-se ao controvertido Ossuário de Tiago. Remeto o leitor para a discussão dos especialistas e que foi postado nos biblioblogs. Procure nos links deste post aqui. Agora, o caso do livro de Jonas é, literalmente, “pura picaretagem”. Jesus falava em códigos?

10. Judá, filho de Jesus e Madalena
Um final em grande estilo: finalmente foi encontrado o filho de Jesus. Isto resolve muitos problemas, não? Torna Jesus alguém mais humano, resolve o problema de sua ligação com Madalena e põe um ponto final no irritante debate dos exegetas sobre a identidade do discípulo amado.

Mas ao selar a tumba com seus segredos, deixa aberta a perspectiva de continuação, com “O sepulcro esquecido de Jesus 2”.

Enfim, como disse Milton Moreland, do Rhodes College de Memphis, em encontro regional da SBL nos USA na semana passada: “The fake became the real”. Expressão que significa, em tradução livre, A fraude se transformou em verdade. O que ele está dizendo é que os caçadores de relíquias no Oriente Médio tomaram o lugar da real pesquisa arqueológica. E mais: vendem ao público a ideia de que esta é a autêntica arqueologia.

O Sepulcro Esquecido de Jesus: o filme

O documentário, de duas horas de duração, seguido por um debate de uma hora, está programado para os seguintes horários, segundo o Discovery Channel:

  • domingo, dia 18: 20h00
  • segunda, dia 19: 00h00, 6h00 e 13h00
  • quarta, dia 21: 00h00 e 22h00
  • quinta, dia 22: 01h00 e 6h00
  • sábado, dia 24: 20h00
  • domingo, dia 25: 10h00
  • segunda, dia 26: 04h00

São, portanto, 11 apresentações. Assisti a do dia 18 e, novamente, a primeira e a terceira do dia 19.

O documentário foi realizado por Simcha Jacobovici em parceria com James Cameron.

São 10 segmentos, de cerca de 7 minutos cada um, com intervalos de 3 ou 4 minutos, totalizando algo como 1 hora e meia de programa e meia hora de intervalo. Exceções são o primeiro segmento que tem 22 minutos, três vezes mais do que a média, e o quinto, com seus 12 minutos de duração.

O documentário é dublado em sua maior parte. Em português, um narrador guia o telespectador, e também em português estão as falas dos personagens, como os documentaristas, pesquisadores e especialistas consultados. Em hebraico, acompanhadas por legendas em português, as falas de algumas pessoas da região de Talpiot, em Jerusalém, onde a tumba se encontra.

A música de fundo utilizada é bastante suave. Ao ser apresentado em letras grandes, no início de cada segmento, o título do documentário, um sopro de vento retira a poeira existente sobre a escrita, limpando a imagem, como se fosse soprada a poeira real dos objetos arqueológicos examinados. Algumas vezes, após a “solução” do documentário para determinada hipótese, cenas fictícias, representando a vida dos personagens que são objeto do filme, são inseridas, ilustrando, deste modo, graficamente, o que acabou de ser investigado.

Verificar uma lista de pessoas envolvidas no documentário pode ajudar na compreensão do que é feito:

  • Amos Kloner, Professor na Universidade Bar-Ilan, em Ramat Gan, Israel. Arqueólogo a serviço do IAA em 1980, ele elaborou e publicou um relatório oficial sobre a tumba de Talpiot na época de sua descoberta.
  • Andrey Feuerverger, Professor de Matemática e Estatística da Universidade de Toronto, Canadá.
  • Carney Matheson, Professor de Antropologia na Universidade de LakeHead, Thunder Bay, Ontário, Canadá.
  • Charles Pellegrino, arqueólogo, é co-autor do livro The Jesus Family Tomb, junto com Simcha Jacobovici.
  • David Mevorah, Curador do Museu de Israel, em Jerusalém.
  • François Bovon, Professor da Harvard Divinity School, USA.
  • Frank Moore Cross, Professor Emérito da Harvard Divinity School, USA.
  • James D. Tabor, Professor do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, USA. Doutor em Estudos Bíblicos pela Universidade de Chicago, com ênfase nas áreas de Origens Cristãs e Judaísmo Antigo. Entre outras coisas, Tabor é o autor de um polêmico livro sobre o Jesus Histórico, The Jesus Dynasty: The Hidden History of Jesus, His Royal Family, and the Birth of Christianity. New York: Simon & Schuster, 2006, 384 p. O livro foi traduzido para o português: A dinastia de Jesus: a história secreta das origens do cristianismo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006, 368 p. ISBN 8-5000-2030-X. Ele é, no documentário, o principal assessor bíblico de Simcha Jacobovici. Está sempre ao seu lado, explicando ao telespectador várias questões arqueológicas e bíblicas.
  • John Dominic Crossan, Professor Emérito de Estudos Religiosos na Universidade DePaul, de Chicago, USA, é irlandês. Especialista de renome sobre o Jesus Histórico, Crossan escreveu grande número de obras sobre o assunto.
  • Simcha Jacobovici, diretor, roteirista e produtor do documentário. Nascido em Israel e naturalizado canadense, Jacobovici formou-se em Artes e Filosofia pela Universidade de McGill e cursou pós-graduação em Artes e Relações Internacionais pela Universidade de Toronto, ambas no Canadá. Tem, em seu currículo, vários prêmios como cineasta.
  • Shimon Gibson, arqueólogo britânico que trabalha em Israel e em territórios da Autoridade Palestina. Professor do Instituto W. F. Albright de Pesquisa Arqueológica, em Jerusalém. Doutorado em Londres, com especialização em cenários antigos do Levante, Gibson foi um dos primeiros arqueólogos a atuar na escavação e mapeamento do interior da tumba de Talpiot quando descoberta em 1980.
  • Stephen Cox, cientista forense.
  • Tal Ilan, Professora de Estudos Judaicos da Freie Universität Berlin – Universidade Livre de Berlim, Alemanha -, é israelense. Fez seus estudos na Universidade Hebraica de Jerusalém onde doutorou-se com uma tese sobre as mulheres judias na Palestina greco-romana.

1. A tumba de família de Jesus em Talpiot
O documentário começa com uma advertência sobre a inexistência de consenso entre os especialistas sobre o que será apresentado, deixando ao telespectador a tarefa de elaborar seu próprio julgamento. E, como primeira cena, opta pela ficção, representando o crucificado e enfatizando que a morte mais famosa da História é, sem dúvida, a de Jesus de Nazaré. Mas não isenta de controvérsias, pois, a partir do texto de Mt 28,11-15, se conclui que realmente seus discípulos o sepultaram em segredo e um ano depois, juntamente com seus familiares, recolheram seus ossos e os depositaram em um ossuário na tumba da família em Jerusalém.

Recua-se no tempo. Agora estamos vendo as máquinas descobrindo acidentalmente a tumba em 1980, quando operários preparavam o terreno para a construção de um conjunto de edifícios em Talpiot, subúrbio de Jerusalém. Os arqueólogos descobrem ali dentro 10 ossuários que são retirados e examinados pela Autoridade Israelense de Antiguidades, o IAA. Seis deles tinham inscrições. Catalogados, são transferidos para o Museu Rockefeller, em Jerusalém, trancados e ignorados pelo IAA, enquanto que os ossos neles existentes, como de costume, são retirados e enterrados em outro túmulo. A tumba de Talpiot é novamente fechada. Tudo é mostrado com cenas fictícias, somado a fotos da época e entrevistas com moradores locais que testemunharam a descoberta.

Ficamos sabendo também que os ossuários só foram utilizados pelos judeus durante os 100 anos que precederam a destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C. Embora cerca de mil ossuários tenham sido encontrados na região, apenas 20% deles contêm inscrições. Daí ser impressionante o encontro de 6 ossuários com inscrições em uma mesma tumba.

Três especialistas são entrevistados: Shimon Gibson, que estava lá em 1980 e registrou a descoberta, Tal Ilan e James Tabor. Este último defende como viável e normal o sepultamento de Jesus em uma tumba provisória e sua transferência para o sepulcro permanente na tumba da família em Talpiot. Frank Moore Cross explica como se lê a inscrição de um ossuário: “Jesus, filho de José”, enquanto Jacobovici fica impressionado com a descoberta, dizendo: “incrível”! John Dominic Crossan, em rápida aparição, ao ser questionado sobre as conseqüências da descoberta dos ossos de Jesus, garante que, caso isto se confirme, não afetará sua fé. Com a contribuição de Tabor, são feitas algumas reflexões sobre o significado da ressurreição de Jesus e sua ascensão aos céus, e o especialista não vê contradição entre as narrativas evangélicas e o encontro do túmulo de Jesus – com Jesus dentro!

Após ser feito um quadro genealógico da família de Jesus, com belos recursos visuais, é apresentado como caso raro o osssuário que traz o nome “Maria”, versão latinizada do hebraico Miriam. Mas se explica que, após a morte de Jesus, Maria, sua mãe, continuou seus ensinamentos, reunindo muitos discípulos, vários deles romanos convertidos, daí a latinização de seu nome.

Assim, cada nome encontrado nos ossuários da tumba de Talpiot vai sendo referendado pelos evangelhos. Inclusive Mateus, que não é o apóstolo, mas uma forma do nome Matatias, nome sacerdotal, da família dos Macabeus, que está na genealogia de Lc 3,23-38 pelo parentesco de Maria com esta família. Aliás, é dito que na genealogia de Lucas, que é a da família de Maria, há vários personagens com o nome Mateus. E, finalmente, o grande trunfo: o nome Yose ou Joset está também em um ossuário e este é o nome de um dos irmãos de Jesus, citado em Mc 6,3;15,40.47, mas é a primeira vez que este nome aparece, nesta forma – um apelido – em um ossuário.

Ao final deste primeiro segmento, com 4 ossuários e respectivas inscrições examinadas, já temos a afirmação de que esta é a tumba da família de Jesus. Observa-se que falta José, o pai de Jesus, que não foi enterrado em Talpiot pois ao morrer antes dos outros, na Galiléia, por lá ficou.

2. Probabilidades estatísticas
Após um resumo do primeiro segmento, pergunta-se por que, estando todos juntos na mesma tumba, ninguém prestou atenção a estes nomes? Ora, estes nomes eram muito comuns na Palestina do século I, confirmam Shimon Gibson, Amos Kloner e Frank Moore Cross. Então recorre-se ao matemático Andrey Feuerverger, que explica: se em uma rua de Jerusalém gritássemos, naquela época, o nome “Jesus”, cerca de 4% dos homens responderiam; se fosse “Maria”, 25% das mulheres responderiam. Mas a reunião de Jesus + José + Maria + Joset dá uma baixa possibilidade de se ter alguma resposta, por isso a descoberta dos nomes na tumba precisa ser levada a sério, pois pode tratar-se de uma família do Novo Testamento.

Neste ponto, Jacobovici, sempre alerta, diz que é preciso descobrir mais evidências. Então é preciso localizar a tumba em Talpiot, que ficou debaixo dos blocos de apartamentos. Devem ser cruzados os dados do IAA com a análise das plantas dos apartamentos de Talpiot, sabendo, inclusive, que, em 1980, duas tumbas foram encontradas e uma não foi explorada. Como chegar a uma tumba que está debaixo dos edifícios? Através de uma câmera robótica que vai ser descida pelos canos ali existentes. Que canos? Ora, os rabinos ortodoxos pedem, ao ser localizada uma tumba que será bloqueada por construções, que seja colocado um cano que vá até ela, mantendo uma passagem livre para os espíritos das pessoas ali enterradas.

3. Busca da tumba e o ossuário de Caifás
O segmento apresenta a tentativa de introdução de uma câmera operada por controle remoto através do cano que leva à tumba. O operador é Bill Tarant, perito em câmera robótica. Mas a tentativa falha, pois o cano está obstruído por entulho. Sugere-se, então, chamar um encanador para a desobstrução da passagem. Enquanto isso, Tabor argumenta: se acharam a tumba de Caifás por acaso, em 1990, por que não a de Jesus? O ossuário de Caifás é, em seguida, apresentado. Ele serve de alavanca para Jacobovici desafiar David Mevorah, Curador do Museu de Israel, que, cético, se recusa a acreditar na descoberta da tumba de Jesus. Ele argumenta que o nome “Caifás” em ossuário ornamentado e também a inscrição “José, filho de Caifás” não são descobertas comuns como os nomes da tumba de Talpiot. Mas Jacobovici também argumenta que o nome Joset, de Talpiot, só foi encontrado ali. De qualquer maneira, o documentário conclui que parece haver duplo critério por parte do Curador: Caifás, sim; Talpiot, não. Qual é a razão? Por que aceitam descobertas como autênticas, desde que não se mexa com Jesus?

4. Maria Madalena
O quarto segmento trata do quinto ossuário, onde se lê “Mara” e “Mariamne”. Ora, estamos falando de Maria Madalena ou Maria de Magdala, que tem um irmão chamado Filipe. Por que o nome está em grego, o único nome em grego na tumba de Talpiot? Porque em Magdala se falava, além do aramaico, o grego. O documentário explica que Maria Madalena não deve ser confundida nem com a mulher adúltera de Jo 8,1-11 e nem com a pecadora de Lc 7,36-50, como muitas pessoas costumam fazer. Especialistas falam e se dizem surpresos e/ou curiosos com um possível encontro de Madalena em ossuário da tumba de Talpiot. Então fala o matemático Andrey Feuerverger sobre as chances de ser esta a tumba da família de Jesus, se Mariamne for mesmo Maria Madalena.

Também se explica o papel de Madalena no século I: ela foi importante, missionária, ordenada, sendo, porém, suprimida por uma Igreja dominada por homens, assim como foram rejeitados dois textos importantes: O Evangelho de Maria Madalena e Os Atos de Filipe.

5. Mariamne, Madalena e os Atos de Filipe
Relata-se aqui que em um antigo mosteiro do monte Athos, na Grécia, foi descoberto o livro Os Atos de Filipe. E aparece no documentário François Bovon, explicando que Mariamne é o nome de Maria Madalena nos Atos de Filipe. Assim o documentário continua a explicar quem foi Madalena: missionária, apóstolo, pregadora, forte, fiel, íntima de Jesus. Isto legitima o seu título como “Mara”, que em aramaico significa “Mestra”.

Mas, não há uma tradição de que Maria Madalena foi para a França após a morte de Jesus? Não nos Atos de Filipe, escrito do século IV. Ela teria morrido em Jerusalém e sepultada ali. Deste modo, estariam Madalena e Jesus na mesma tumba? O que isso significa?

Por fim, o encanador desobstruiu o cano e a câmera chegou à tumba, com uma enorme surpresa: ossuários são vistos, esta é a tumba errada, é a segunda tumba, a tumba que não foi explorada. Portanto, a tumba dos ossuários da família de Jesus fica 20 metros dali, ao sul.

Mas esta tumba está em um contexto e Jacobovici vai visitar a rede de tumbas dos primeiros discípulos de Jesus descoberta pelos franciscanos em Dominus Flevit na década de 50. Ora, foi ali que se encontrou um ossuário com o nome de Simão bar Jonah, que seria o ossuário de Simão Pedro. Mas ele não morreu e foi sepultado em Roma, segundo a tradição? Sim, mas em Roma nada foi encontrado, enquanto que em Jerusalém há este ossuário… Jacobovici descobre emocionado, bem ali, no cemitério dos discípulos de Jesus, o símbolo que está na fachada da tumba de Talpiot, um ^ (um v invertido, como uma divisa militar) com um círculo em relevo dentro dele.

6. DNA
Mas nos ossuários de Jesus e Mariamne não haveria amostras de DNA? Entram em cena Stephen Pfann e Steven Cox, que recolhem amostras destes dois ossuários, junto com amostras aleatórias, levando tudo para o Canadá, para análise. Carney Matheson, ao analisar as amostras não consegue material suficiente para uma análise de DNA nuclear, mas sim para o DNA mitocondrial que apenas revela se duas ou mais pessoas são filhos da mesma mãe. E acontece o grande achado científico: o DNA mitocondrial revela que as duas pessoas não eram irmãos. Há polimorfismos nas duas sequências: eles não têm a mesma mãe. Logo, se estão na mesma tumba, podem ser marido e mulher. Se Jesus e Madalena eram marido e mulher, especula o documentário, por que esta união foi mantida em segredo? Certamente para ocultar uma dinastia, conclui, pois sendo Jesus alguém que lutava contra a ordem constituída, descendentes seus certamente seriam mortos. E aqui o filme apresenta cenas – com atores – do cotidiano de casados de Jesus e Madalena.

7. Descoberta a verdadeira tumba
Antigo construtor é consultado, descobre-se uma laje suspeita, e no momento exato em que se especula se seria ali, chega uma moradora dos apartamentos de Talpiot, uma mulher cega, que confirma ser ali mesmo a entrada da tumba. É feita a retirada da laje: a tumba verdadeira aparece. Jacobovici desce: emoção.

8. O décimo ossuário está desaparecido: pode ser o Ossuário de Tiago?
Reabertura da tumba 26 anos após a sua descoberta. Grande achado. Mas não é que um dos ossuários de Talpiot desapareceu? Isto está registrado pelo IAA, que encontrou 10 ossuários na tumba, mas só possui 9 em seu acervo. Roubado? Por quem? Porém, em outubro de 2002 veio a público o Ossuário de Tiago, propriedade do israelense Oded Golan. Que é entrevistado e explica, mais uma vez, porque demorou tanto para perceber a importância deste ossuário.

Tiago, Filho de José, Irmão de Jesus: esta é a inscrição no ossuário. Então o documentário fala sobre Tiago, irmão de Jesus: líder do movimento de Jesus em Jerusalém após a sua crucifixão, Tiago foi tão importante que mereceu do historiador judeu Flávio Josefo mais atenção do que o próprio Jesus e acabou apedrejado por ordem de Anás. Explica Tabor que a inscrição “irmão de Jesus” pode ter sido acrescentada por fraudadores, como defendem muitos especialistas, mas que isto não muda nada. O ossuário é autêntico, assim como a primeira parte da inscrição, e o exame da pátina – depósito de materiais que se forma na superfície de objetos antigos – dirá se ele veio da tumba da Talpiot.

Entra em cena o arqueólogo Charles Pellegrino, que recolhe a pátina para exame. E Feuerverger reforça: se o Ossuário de Tiago for o desaparecido de Talpiot, isto tem um forte valor comprobatório. Fato extraordinário, ainda diz Feuerverger.

9. A pátina combina: o ossuário desaparecido é o Ossuário de Tiago
No Laboratório Criminal de Suffolk, dirigido por Robert E. Genna, nos USA, especialistas forenses analisam amostras de pátina dos ossuários com sofisticados aparelhos eletrônicos. E descobrem que a pátina dos ossuários de Mariamne e de Tiago combinam, mas as amostras aleatórias enviadas para o laboratório não. Logo, o Ossuário de Tiago é o décimo ossuário de Talpiot, o ossuário desaparecido, aumentando assim a probabilidade de ser esta a tumba da família de Nazaré. O narrador explica que “essa é uma evidência fundamental de que o Ossuário de Tiago vem de Talpiot”.

Enquanto isto, o documentário mostra Jacobovici e equipe na tumba. Descobrem que o chão está cheio de páginas das Escrituras em decomposição, ou seja, a tumba teria sido transformada em genizá – depósito de velhos manuscritos – por ocasião de sua abertura em 1980. Jacobovici toma um manuscrito do livro de Jonas e explica que este livro é o código para se entender Jesus. O documentário informa que os evangelhos registram que Jesus falava sempre usando parábolas e códigos, coisa natural para quem luta contra o governo. E que, quando questionado sobre o que iria fazer, disse: leiam o livro de Jonas e vocês saberão.

10. Judá, filho de Jesus e Madalena
Finalmente é examinado um ossuário de uma criança e que contém a inscrição Yehuda bar Yeshua, Judá, filho de Jesus. O filho de Jesus e Madalena? Embora o Novo Testamento nada diga sobre um filho de Jesus, isto pode ter sido mantido em segredo para ocultar, dos romanos, a sua linhagem, pois era forte a perseguição na época. E o discípulo amado de Jo 19,25-27 que estava com sua mãe ao pé da cruz e a quem Jesus se dirige pouco antes de morrer? Não seria a mulher Maria Madalena e o discípulo que Jesus amava, seu filho? Isto é representado com atores no documentário.

Mas ter uma criança na tumba de Talpiot talvez estrague tudo, talvez não seja a tumba da família de Jesus de Nazaré… Mas se não for a tumba de Jesus, temos de admitir uma enorme coincidência com tantos nomes da família todos reunidos…

Vozes são ouvidas: é o IAA que comparece, expulsa Jacobovici e equipe da tumba e exige que a lacrem. Que fechem a tumba “da família de Jesus”. O que é feito, pois o IAA não autorizara a entrada de ninguém lá. E o documentário termina perguntando: “Quem sabe que segredos ainda existem lá dentro e quanto tempo permanecerão ocultos sob os apartamentos de Talpiot?”

O Sepulcro Esquecido de Jesus: aguarde a resenha

Estou preparando uma resenha do documentário O Sepulcro Esquecido de Jesus. Deverá ficar pronta ainda hoje e será publicada neste biblioblog até o final do dia. Aguarde.

Embora não seja minha especialidade – pois trabalho com Bíblia Hebraica -, tentarei fazer uma descrição do filme, dos personagens envolvidos e algumas observações críticas sobre o significado de todo esse episódio.

Enquanto isso, veja os horários de apresentação do documentário na TV. Tem duas horas de duração, seguido por um debate de uma hora. Foi programado para os seguintes horários, segundo o Discovery Channel:

  • domingo, dia 18: 20h00
  • segunda, dia 19: 00h00, 6h00 e 13h00
  • quarta, dia 21: 00h00 e 22h00
  • quinta, dia 22: 01h00 e 6h00
  • sábado, dia 24: 20h00
  • domingo, dia 25: 10h00
  • segunda, dia 26: 04h00

São, portanto, 11 apresentações ao longo de 7 dias.

Jon Sobrino

“Hoje há menos profetas e piorou a honradez com o real”. Carta de Jon Sobrino a Ellacuría

Jon Sobrino, teólogo, jesuíta, escreve uma “carta” para Ignacio Ellacuría, reitor da Universidade Centro Americana de San Salvador – UCA, assassinado, no dia 16 de novembro de 1989, juntamente com outros cinco companheiros jesuítas e duas mulheres.

O texto foi publicado por Eclesalia, 04-11-2011. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o texto.

Jon Sobrino - nasceu em Barcelona em 27 de dezembro de 1938Querido Ellacu: É uma ficção escrever-te, porém talvez deste modo nos digamos a nós mesmos coisas que podem ser importantes. E com isso também quisera ambientar um pouco o aniversário de teu martírio. Vou falar-te de três coisas de atualidade, tais como as vejo, as quais têm que ver com o que tu foste e disseste.

1. O “sempre” do povo crucificado. Já não se fala muito de “povos crucificados” como o fizeste tu e Monsenhor Romero, chegando a essa genial formulação, creio que independentemente um do outro e guiados pelo mesmo espírito salvadorenho e cristão. E menos ainda se insiste em que esse povo crucificado é “sempre” o sinal dos tempos como o escreveste no exílio de Madri. A razão para esse silêncio não é que volte a estar em voga o pensamento utópico de Ernst Bloch, filósofo, ou de Teilhard de Chardin, teólogo. Tampouco é que o mundo esteja melhorando, pois continua gravemente enfermo, como disseste em teu último discurso. Creio que a razão é que hoje há menos profetas e que piorou a honradez com o real. Falar do “sempre” não só não é politicamente correto, senão que é loucura impensável. Porém não é preciso dar-lhe voltas. Continuam existindo Haiti e Somália, e entre nós se propagou uma nova epidemia: o homicídio. De 12 a 15 assassinatos diários nos últimos anos. É a enfermidade que produz mais mortes. O “light “avançou muito no modo de pensar e o politicamente correto se apoderou da linguagem: “vulnerabilidade”, “os menos favorecidos”, “países em vias de desenvolvimento”. Nada soa mal.

Por isso, mencionar o “sempre” do povo crucificado parece ser coisa de masoquistas não redimidos. Porém não é assim. No país sempre chove cada ano e sempre há torrentes, destruição e morte. Mas, também são sempre os mesmos que sofrem as consequências, os que vivem em desfiladeiros, em favelas e casas pobres. A pergunta de Gustavo Gutiérrez continua sendo a pergunta fundamental: “onde dormirão os pobres?”. Há povos depredados como o Congo, povos ignorados como Haiti, povos inundados, como os nossos… Continuam sendo o povo crucificado.

E os ricos e poderosos? Sempre sofrem alguns danos, porém quase sempre os superam sem muito custo. E nada digamos das crises financeiras. Investem-se bilhões de dólares ou euros para não se fundir o sistema. O povo crucificado não dá a vida, por suposto, porém os povos ricos sim, e ademais têm a profunda convicção de serem os escolhidos: dão, por suposto, a vida, e estão convencidos de que o bom viver lhes é devido. Se lhes ocorre algo grave elevam a realidade a escândalo metafísico. Porém, se ocorrem coisas muito mais graves na África ou no Bajo Lempa [em El Salvador], não há tal escândalo. Pertence ao existencial histórico de terem nascido pobres. É o “sempre” do pecado.

Porém quero acrescentar, Ellacu, e insistir em que há também outro “sempre”. Há muita gente honrada que trabalha para que “o povo inundado – falamos de El Salvador – não acabe morrendo como “povo deslocado” ou como “povo afogado”, A entrega e a bondade também têm seu “sempre”. É o sempre da graça.

E às vezes surge um Dean Brackley. Quando lhe dizem que muitos rezam por ele, contesta com muita simplicidade: “Rezem pelos que têm câncer e não podem ter a atenção médica que eu tenho. E rezem pelos que nestes dias ficaram sem casa e sem comida”. Retornaremos a Dean.

2. “O que fazer com os bons”. A pergunta pode causar estranheza, porém me foi imposta, devido à agitação que causou a audiência de Madri. Trabalhar para que se julgue os responsáveis últimos de tantos assassinatos neste país, os de vocês e os de duas mulheres inocentes, é coisa muito boa e muito necessária. Pode trazer muitos bens. Pode ser uma grande ajuda, e muito necessária, para que se acabe, ou diminua a impunidade.

Por certo não saiu nos noticiários, porém muito nos alegramos de que os militares argentinos que em 1976 ordenaram o assassinato do bispo Enrique Angelelli, sejam julgados 35 anos depois. É um exemplo, pouco extenso, de que a verdade pode triunfar sobre a mentira e o encobrimento, que têm milhões de dólares e armas sofisticadas a seu serviço: que a justiça pode triunfar sobre a crueldade e a vileza; que a civilização da impunidade, muito afim à civilização da riqueza contra a qual nos advertiste fortemente até o final, se veja um pouco freada. Com o julgamento dos militares argentinos não desaparecem todos os males e o mundo do capital, ainda com alguns avanços e algo de democracia, segue produzindo vítimas impunemente. E conseguiu criar uma civilização do encobrimento, embora sempre haja quem o desmascare de diversas formas: bispos como Casaldáliga, ou “os indignados”… Esperamos que a audiência de Madri tenha êxito e que em El Salvador ocorra o que houve na Argentina, embora, evidentemente, haja forças poderosíssimas que estão contra de que isso ocorra.

Nesta situação, me veio à mente uma pergunta que pode parecer estranha. Dito com simplicidade, parece que sabemos o que fazer “com os maus”, de modo que nosso proceder com eles produza bens, por suposto: instaurar verdade e justiça no país, chegar a oferecer perdão – embora mais difícil que perdoar é deixar-se perdoar. E há gente muito boa que trabalha em favor disso.

Também sabemos, ao menos em princípio, o que fazer com as vítimas: o que Puebla diz que Deus faz com os pobres, “tomar sua defesa e amá-los”. E estas não são, em absoluto, palavras inocentes, pois tomar sua defesa supõe inevitavelmente entrar em graves conflitos com aqueles que os oprimem. Significa entrar “na luta pela justiça”, “a luta crucial de nosso tempo”, como o disse a Congregação Geral XXXII. Não muitos o fazem, porém a idéia é bem clara.

Mas, sabemos o que fazer “com os bons”, com os santos? Certamente, pô-los a produzir, aprender deles, de suas idéias e convicções e seus modos de atuar… E agradecer-lhes. É o que costumamos dizer e procuramos fazer.

Porém nos interrogamos verdadeiramente o que fazer com eles? Topamos nestes dias com a pergunta sobre o que fazer com Dean Brackley. Velamos e acompanhamos seu cadáver. O amor e o agradecimento transbordaram, com lágrimas e gozo, em muitas celebrações, no cemitério.

Porém me permanece o desassossego de saber o que fazer com Dean, com Monsenhor Romero, com pessoas como vocês. Com Jesus de Nazaré. A resposta é simples: ser como eles, segui-los em seu fazer e em seu ser, imitá-los, historizadamente, como tu dizias. Em definitivo, deixar-nos afetar “pelos bons” e os santos em nosso fazer. E mais profundamente ainda em nosso ser.

Entenda-me bem, Ellacu. Bom e necessário é saber reagir ante o que fazem “os maus”, e atuar adequadamente com eles. Bastantes pessoas e instituições o fazem. Porém creio que devemos avançar na forma de reagir como é devido ante “os bons”, tentando ser como eles. Difícil, sim. Porém necessário para humanizar este mundo. E também esta igreja.

3. Dean Brackley. Ellacu, estas palavras terão ressonância para ti. “Com Dean Brackley Deus passou entre nós”. Penso que não haja maior confissão de fé do que afirmar que Deus continua passando por nosso mundo. É a fé que mais me locupleta. E como Deus se faz presente em seres humanos, elas e eles, jovens e velhos, salvadorenhos e norte-americanos, mártires e confessores, como se dizia antes, o mistério se desdobra de muitas formas, convergentes, e assim é um mistério maior. Deus passou com D. Oscar Romero e Deus passou com Dean.

Nos muitos testemunhos desta Carta às Igrejas – Amor e Testemunho o intitulamos – se narra essa passagem de Deus. Escolho apenas um, o da doutora Miny: “Dean, I love you so much… for ever” [Dean, amo-te tanto… para sempre]. É linguagem bela e de eternidade. Linguagem que remete a Mistério. Também Dean, semanas antes de morrer, falou em seu testamento da passagem de Deus, nele, com grande humildade, simplicidade e lucidez. Agora, em outra linguagem, mais conceitual, porém espero que compreensível, quero falar-te de Dean ante Deus e de Dean com Deus.

O primeiro é que Dean morreu empapado de Deus. Assim o vejo, embora nesse mistério só se possa entrar nas pontas dos pés. Em seu último livro conta Dean seus problemas com Deus, suas épocas de agnosticismo, que não foi coisa de pouca monta. Recordou-me algumas palavras tuas de junho de 1969 que citei muitas vezes: “Rahner leva com elegância suas dúvidas de fé”, e pensei que algo semelhante ocorria a ti. Porém ao longo do livro, Dean oferece sua própria fé, profunda e simples, e muito real. E os leitores ficam surpreendidos ao ler o prólogo escrito pela encarregada da editorial para julgar sobre a qualidade do livro. Ela se reconhece agnóstica, sem que o assunto de Deus a preocupe muito. Porém confessa que, lendo o texto, seu interesse profissional se converteu em interesse existencial, pessoal. O texto a levou a Deus, e Dean a batizou um ano depois. Lutando com Deus, como Jacó, o deixando-se seduzir por Deus, como Jeremias, Dean chegou a Deus. E ficou empapado de Deus.

Nesse processo Dean confessa com imensa gratidão que se encontrou com os pobres. Quantas vezes escreveste, Ellacu, que os pobres são o lugar do evangelho e o lugar de Deus. E também recordo as palavras de Porfírio Miranda: “O problema não é buscar Deus, senão buscá-lo lá onde Ele disse que estava. Nos pobres”. É certo que nem sempre se encontra Deus, mesmo estando entre os pobres, pois entre eles e trabalhando por eles, há agnósticos que são esplêndidos seres humanos, e continuam sendo agnósticos. Porém na maior tradição de Jesus, o Deus que se encontra entre os pobres tem um sabor especial. Penso que a misericórdia se pode tornar mais delicada, a justiça mais firme, a verdade mais sem componentes e a fidelidade mais sem medir os custos.

O Dean empapado de Deus foi um exemplo notável de interesse por todas e cada uma das pessoas com as quais conviveu e as quais buscou. Todas e cada uma delas, companheiros jesuítas, familiares, paroquianos de Jayaque e da UCA, amigos e amigas, salvadorenhos, norte-americanos e europeus e, por suposto, os deserdados e pequenos tinham um nome muito concreto para ele. Cada um era intercambiável com outros e isso fez com que seu serviço fosse de grande fineza. E me recorda Jesus que conhecia todas as suas ovelhas por seus nomes.

E seu Deus foi, na verdade, o da criação. Não por moda, algumas das quais são muito boas, Dean pôs grande interesse na mulher e no feminismo, no ecumenismo, e era muito amigo de pessoas de outras igrejas, ou da ecologia e creio que até das causas indígenas. Os argumentos fundamentais não eram categoriais, nem tomados de normas da hierarquia nem da doutrina social. Creio que para Dean o grande argumento era que Deus é um Deus de todos.

Dean me recordou umas palavras de Monsenhor Romero que citei muitas vezes. São de 10 de fevereiro de 1980, em meio da barbárie que reinava no país. Disse Monsenhor: “Quem me dera, queridos irmãos, que o fruto desta pregação fosse que cada um de nós fôssemos encontrar-nos com Deus e que vivêssemos a alegria de sua majestade e de nossa pequenez!” Para Monsenhor Romero Deus não apequenava o homem, porém para o homem era bom apequenar-se ante Deus.

Isto me recorda Dean. Nunca pensou que era grande. Nunca se pôs em primeiro lugar, nem falava de si mesmo quando as coisas saíam bem: – “foi um sucesso” – embora as tivesse feito ele. Simplesmente se alegrava do bem. Recordava-me Paulo em sua carta aos Coríntios: “O amor é paciente, é afável, o amor não tem inveja, não se jacta nem se envaidece, desculpa sempre, confia sempre, espera sempre, agüenta sempre”. Nisto Dean me recordava o grande Padre Arrupe. Creio que sempre pensou nos demais antes do que em si mesmo. Nunca se preocupou em que reconhecessem o bem que fazia. Não é frequente, e por isso surpreende e impacta. E ajuda também a desabsolutizar-nos e a viver com alegria nossa pequenez ante Deus, como dizia Monsenhor.

Uma última reflexão. Ellacu, Dean não morreu mártir como vocês, porém seus últimos meses foram um martírio, de corpo pelos sofrimentos de um câncer de pâncreas muito doloroso, e de alma quando lhe assaltavam medos, de sentir-se só, ou que não se lembrassem dele. Não morreu crucificado, porém viveu até o final participando ativamente das cruzes deste mundo. Trabalhou com poder, isto é, com força e energia, para baixá-los da cruz. E morreu com amor silencioso e indefeso. Como o Deus crucificado.

As últimas palavras de Dean são palavras de gratidão, a fundo perdido, sem poder pôr pé em terra firme. Porém a gratidão vive de outros e para outros, de Deus e para Deus, Os agradecidos podem fazer que a realidade seja graça. Ellacu, se me permitem a expressão – creio que é um neologismo – os agradecidos podem “buenar” (tornar boa) a realidade. É o que fez Deus.

Ellacu, já vês que, em meio de muitos males e apesar de tudo, estamos contentes. Vocês, Julia Elba e Celina, Jon Cortina e o padre Ibisate, e agora nosso querido Dean Brackley, estiveram conosco. E estando com vocês Deus esteve conosco. Não se pode pedir mais.

Fonte: IHU – 7 novembro 2011

 

Congregação para a Doutrina da Fé
Notificação sobre as obras do P. Jon SOBRINO S.I.:
Jesucristo liberador. Lectura histórico-teológica de Jesús de Nazaret (Madrid, 1991) e
La fe en Jesucristo. Ensayo desde las víctimas (San Salvador, 1999).
(…)
O Sumo Pontífice Bento XVI, na Audiência concedida a 13 de Outubro de 2006 ao abaixo assinado Cardeal Prefeito, aprovou a presente Notificação, decidida na Sessão Ordinária do Dicastério, mandando que seja publicada.
Dado em Roma, na sede da Congregação para a Doutrina da Fé, a 26 de Novembro de 2006, Festa de N. S. Jesus Cristo, Rei do Universo.
William Cardeal Levada
Prefeito
Angelo Amato, sdb
Arcebispo titular de Sila
Secretário

 

Obras notificadas (original espanhol e tradução em português):

SOBRINO, J. Jesucristo liberador. Lectura histórico-teológica de Jesús. 4. ed. Madrid: Trotta, [1991] 2001, 352 p. ISBN 978-84-87699-20-7
SOBRINO, J. La fe en Jesucristo. Ensayo desde las víctimas. Madrid: Trotta, 1999, 512 p. ISBN 978-84-8164-268-1

SOBRINO, J. Jesus, o Libertador. I – A História de Jesus de Nazaré. Petrópolis: Vozes, 1994, 392 p. ISBN 85-326-0980-5
SOBRINO, J. A Fé em Jesus Cristo: ensaio a partir das vítimas. Petrópolis: Vozes, 2001, 512 p. ISBN 8-5326-2394-8

 

A ‘Penitência Perpétua’ imposta a Jon Sobrino

Eduardo Hoonaert – Adital: 13/03/2007

No dia 15 de março, a Congregação Vaticana para a Defesa da Fé procede à promulgação de uma ‘penitência’ infligida ao padre jesuíta Jon Sobrino, nascido em 1938 em Bilbao, Espanha, e residente desde 1958 em El Salvador, onde foi teólogo de Dom Oscar Romero. A penitência consistirá no ‘silêncio mais absoluto’ do teólogo, não naquele ‘silêncio de um ano’ imposto a Leonardo Boff, mas num silêncio perpétuo, no apagar ‘per saecula saeculorum’ de uma voz que incomoda. Qual a razão de tão severo procedimento? Onde foi que Sobrino pisou feio? O texto do Vaticano explicita: ‘O teólogo não afirma abertamente a consciência divina de Jesus histórico’, ‘ele oculta a divindade de Jesus’.

Eis aí mais um capítulo de uma história que já cobre diversos séculos e não está prestes a ter um desfecho próximo. Ela começa exatamente num quarto simples da cidade de Haia, na Holanda, em 1670, quando Spinoza contesta pela primeira vez a autoria dos primeiros cinco livros da bíblia (Pentateuco) por Moisés, supostamente inspirado por Deus. Para Spinoza, o Pentateuco é uma coletânea de narrativas populares antigas e prescrições sacerdotais reunidas por Esdras e outros intelectuais após o retorno das elites judaicas do exílio babilônico no século V aC, portanto sete séculos após a morte de Moisés. As palavras de Spinoza caíram como uma bomba, não só sobre a cultura do Ocidente (cristãos e judeus), mas igualmente sobre o mundo islamita. Desde então, os tremores causados por Spinoza (e colegas) se alargaram e não mais deixaram as autoridades religiosas cristãs, judaicas e islamitas em paz. Pois Spinoza foi ganhando adeptos sempre mais numerosos no decorrer dos últimos três séculos. Os exegetas passaram a estudar as línguas bíblicas (hebraico, aramaico e grego), ensaiaram uma leitura da bíblia em consonância com os ditames da ciência moderna e enfrentaram corajosamente obstáculos eclesiásticos. Graças à progressiva introdução da idéia de tolerância no decorrer do século XVIII, tanto na França como na Alemanha, ninguém mais foi queimado vivo por emitir opiniões contrárias às autoridades, como ainda aconteceu com Giordano Bruno, em 1600. As idéias humanitárias triunfaram com a Revolução Francesa de 1789.

O instituto eclesiástico sempre reagiu de forma muito nervosa diante de qualquer tentativa de se mexer com os antigos dogmas e nunca permitiu que se discutisse a maneira com que a extraordinária riqueza de metáforas, símbolos, parábolas e visões da bíblia ficou sendo ‘engarrafada’ em fórmulas dogmáticas. Ninguém podia nem de longe mexer com o símbolo da fé cristã, promulgado pela assembléia episcopal de Nicéia (325). Foi aí que as sugestivas imagens religiosas do evangelho de João (a Palavra de Deus desce do céu à terra, divulga a mensagem de um Deus Pai e volta ao céu, depois de ter deixado na terra o Espírito Santo) foram traduzidas em dogmas.

Mesmo assim, muitos continuaram mexendo com o que era ‘intocável’ e daí surgiu um labirinto tão intricado de explicações, controvérsias, hipóteses e condenações, que é praticamente impossível seguir tudo. Só quero lembrar que os papas católicos sempre quiseram colocar um dique contra a invasão do espírito científico em área que lhes parecia privativa, mas em vão. O embate fez muitas vítimas, entre as quais se destaca o sacerdote francês Alfred Loisy (1857-1940) cujo livro ‘O Evangelho e a Igreja’ (L’Évangile et l’Église), publicado em 1902, defendia a tese (já sustentada por intelectuais do império romano, como Porfírio) de que os evangelhos não correspondem fielmente à história de Jesus. Mas não só no mundo católico os estudos ‘modernos’ causaram problemas, o mundo protestante também foi afetado. Adolfo von Harnack, grande estudioso protestante alemão, encontrou também forte oposição por parte da igreja luterana.

Mas tudo isso não parou o movimento. No século XIX nascem a egiptologia, a assiriologia, a epigrafia semita etc. No século XX entram a filologia e a arqueologia bíblica, provocando sucessivos sustos nos que acreditam nas ‘eternas verdades’ da bíblia. Ao mesmo tempo, avança-se no mapeamento de um universo religioso imaginário comum a todos os povos que mantiveram contato com o povo hebreu, não só a Mesopotâmia, mas também o Egito. Percebe-se que as grandes imagens bíblicas são comuns ao imaginário religioso do Oriente médio: o céu (Deus Criador), a terra (expulsão do paraíso terrestre), o ar (ascensão), o sopro animador (Espírito Santo). Mesmo os utensílios agrícolas de cada dia como a enxada, o arado, a pá, o torno (Deus torneiro), a fornalha (inferno) servem como símbolos religiosos. No inferno vivem demônios, monstros e outras ameaças, no céu atuam os anjos, protetores da vida. Fala-se em ‘filhos de Deus’ (título dado aos faraós do Egito) e em virgens que geram deuses. Estudiosos como Sir James George Frazer abrem campo para um estudo dos imaginários religiosos em escala planetária.

Vai se diluindo sempre mais a idéia de que ‘a bíblia tinha razão’, assim como a referência absoluta à formulação do Concílio de Nicéia (325). Já no século XIX, estudiosos alemães lançam dúvidas sobre o valor histórico do evangelho de João, base do dogma de Nicéia. Em torno de 1900 já é consenso que os evangelhos de Mateus e Lucas assimilam muita coisa do imaginário popular, enquanto se recompõe um evangelho Q (dos anos 50), que não diviniza Jesus. O evangelho de Tomé, grande estrela da descoberta de Nag Hamadi (1945), faz sua entrada no rol dos evangelhos cujo estudo se impõe a quem quiser pesquisar as origens cristãs. Na virada do século vinte e um, a lingüística (Ricoeur, Bakhtin, Wittgenstein, Frege, Habermas, Gadamer) entra por sua vez nos estudos bíblicos e demonstra a necessidade de se estudar a mediação literária para se chegar ao Jesus da história. Assim a perspectiva de Bultmann (1926) (que dizia que não se pode dizer praticamente nada sobre Jesus a partir dos evangelhos) é revertida e os especialistas estão de acordo que podemos conhecer Jesus, mas não da forma com que ele está sendo apresentado pela tradição das igrejas. O problema é Nicéia, não são os evangelhos.

A questão de fundo, que aparece na condenação de Jon Sobrino, está na teimosia que caracteriza grandes instituições. Resistindo a qualquer tentativa de reformulação de suas fórmulas (sempre passageiras), elas se precipitam para a morte. A história já comprovou suficientemente que grandes impérios se destroem a si mesmos, por um processo que o historiador inglês Toynbee chamou de ‘híbris’ (autoconfiança exagerada, falta de percepção da realidade, prepotência). Foi o que aconteceu sucessivamente com o império babilônico, o império persa, o império romano e recentemente o império soviético. A prepotência do Vaticano fica patente nas palavras usadas para afastar Jon Sobrino do ensino eclesiástico. Temos de reconhecer que impérios de forte impregnação no imaginário popular podem demorar séculos antes de entrar num colapso definitivo. Desse modo, é possível que muitas pessoas não cheguem a perceber o problema, nem enxerguem que tudo está desmoronando em seu redor. Os líderes, de sua parte, perdem contacto com a realidade vivida e vão se fechando em sua concha. Eles se agarram a voláteis aclamações populares e mediáticas (o papa em Aparecida), sem conseguir investigar a fundo o que está acontecendo. Enquanto isso, ninguém entende mais o símbolo de Nicéia nem presta atenção ao que está dizendo quando recita formalmente o ‘símbolo da fé’ na liturgia da missa. Essas palavras viram relíquias mortas, mas, mesmo assim, muitos crentes preferem morrer com elas a colaborar na elaboração de um cristianismo renovado. Uma instituição que condena estudiosos como Jon Sobrino precipita a sua própria queda. Pois ele luta pela vida do cristianismo, contrariamente ao que sua condenação pelo Vaticano faz crer. Os que mais parecem defender a igreja são os que a condenam à morte, enquanto os que a criticam querem sua vida. Neste momento, temos de felicitar o teólogo Sobrino por seu compromisso com a vida.

 

Somos todos pecadores

Marcelo Barros – Adital: 13/03/2007

Desde criança aprendi que a Quaresma é tempo de nos reconhecermos pecadores e exercermos a solidariedade. Este pensamento me vem mais profundamente à mente neste dia em que soube que, à lista dos mais de 450 teólogos condenados pelo Vaticano desde o início do pontificado de João Paulo II, o atual papa acrescentou mais um: Jon Sobrino, teólogo que foi assessor de Dom Oscar Romero até o martírio deste e, em 1989, não morreu junto com Ignácio Ellacuría e os outros martirizados na UCA porque, por acaso, naquela ocasião, tinha viajado à África. Tomara que os executores deste assassinato não interpretem esta atual condenação do Vaticano a Jon Sobrino como uma confirmação de que, no fundo, aqueles jesuítas eram mesmo mais subversivos do que cristãos e não contavam com a solidariedade nem dos seus irmãos católicos. Pior ainda, podem pensar que o padre Jon Sobrino, vivo por acidente, afinal, é condenado até pela hierarquia de sua própria Igreja. Em El Salvador, a condenação ao teólogo que assessorou Romero pode explicitar que o Vaticano assume o fato de pensar de forma totalmente contrária a São Romero das Américas, cujo aniversario do martírio recordaremos nestes dias. Para muitos de nós, latino-americanos, esta condenação tem quase o sentido de um segundo assassinato dos mártires de El Salvador.

Jon Sobrino é culpado de ser um teólogo profundamente espiritual, inserido na caminhada dos pobres da América Latina. Ele nos ensina a seguir Jesus Cristo, pobre e servidor, testemunha do reino de Deus a ser encontrado nos povos que, hoje, no mundo, vivem crucificados, vítimas do Império, como Jesus. Sobrino nos propõe como caminho espiritual o Princípio Misericórdia não como atitude eventual, mas como princípio unificador da vida.

Neste momento, sofro com a injustiça sofrida pelo irmão, mas sofro mais ainda porque puniram um companheiro que, no fundo, não cumpre o seu ministério de forma isolada e como livre atirador. Tudo o que ele faz e ensina é como membro de um grupo latino-americano ao qual tenho a graça imensa de pertencer. Não posso me comparar a ele, nem como teólogo, menos ainda como mestre espiritual. Mas, certamente, sou ao menos culpado dos mesmos pecados. Não me parece justo ficar calado e deixar que o irmão seja condenado sozinho. Ele não é o único que, para pensar e escrever, tenta manter uma liberdade pessoal, sem a qual a teologia se torna mera repetição acadêmica de fórmulas já gastas. Também reflito sobre a pessoa de Jesus Cristo procurando uni-lo mais à humanidade, resgatar seus traços humanos nos Evangelhos e libertá-lo da camisa de força de dogmas formulados pelos concílios presididos pelo imperador romano. Se eu me apresento, quem sabe, outros também criem coragem de seguir Jesus no caminho da entrega de si mesmos e o Vaticano descubra que os hereges são muito mais numerosos? Afinal, somos todos pecadores.

 

O que está por trás da condenação de Jon Sobrino?

Jung Mo Sung – Adital: 14/03/2007

En los últimos días circuló en algunos diarios y por internet la información, después confirmada por diversas autoridades eclesiásticas, de que el teólogo Jon Sobrino había sido “suspendido” – es decir, se le ha prohibido dar clases en los seminarios, dar conferencias, publicar textos, etc. – en razón de algunas posiciones teológicas presentadas en sus últimos libros de cristología.

Esta noticia tomó a mucha gente por sorpresa, pues estamos casi en la víspera de la V Conferencia del Celam y pocos esperaban que el Vaticano tomase, en este momento, una actitud semejante en contra de uno de los principales y más influyentes teólogos de América Latina. (Esto puede ser una señal de qué característica tendrá el desarrollo de la V Celam).

La Congregación para la Doctrina de la Fe publicó hoy, 14 de marzo de 2007, la “Notificación sobre la obra del Padre Jon Sobrino” con la intención de “llamar la atención hacia ciertas proposiciones que no están de acuerdo con la doctrina de la Iglesia”. Lo que me llamó la atención, a primera vista, en este documento fue lo recurrente de expresiones del tipo: “a pesar de que el Autor afirma que…. no siempre se presta la debida atención…”, “el Autor evidentemente no la niega, pero no la afirma con la debida claridad…”; “Es verdad que el Autor afirma…. [pero] no se explica correctamente…”.

Esto revela que, si hay problemas doctrinarios en los textos de Sobrino, éstos no son tan graves al punto de justificar esta sanción. Si fuesen otros teólogos de todos los continentes también deberían estar en esta lista, pues ninguna obra teológica consigue ser tan completa y tan “ortodoxa” que no se le pueda imputar la crítica de que “falta explicitar más claramente…” o “no afirma con la debida claridad y fuerza…”.

La única forma de no caer en este problema sería reproducir simplemente las conclusiones de los grandes concilios, y también de los menores (para evitar cualquier problema) y los documentos de la Iglesia que tratan sobre las cuestiones dogmáticas y el propio Catecismo de la Iglesia Católica (que fue citado en la Notificación como un argumento de autoridad para criticar a Sobrino). Es decir, no producir teología para no correr estos riesgos.

Este razonamiento, si es llevado al extremo, conduce a una conclusión un poco absurda de prohibir o evitar la publicación de cualquier obra de teología. Lo que demuestra que la cuestión central no es ésta. Yo pienso que la verdadera razón aparece en la Nota Explicativa de la Notificación, que fue publicada junto con la Notificación. La Nota dice, al comienzo, que: “La preocupación por los más simples y más pobres fue, desde el comienzo, uno de los trazos característicos de la misión de la Iglesia”. De esta manera afirma que no hay divergencia fundamental entre la posición de la Congregación para la Doctrina de la Fe y la de Sobrino y la de los sectores de la Iglesia Católica que defienden la opción por los pobres.

Pero, el problema estaría en la comprensión de lo que significa esta “preocupación por los más pobres”. Para la Congregación, “la primera pobreza de los pobres es no conocer a Cristo” y, por ello, la primera y la principal misión de la Iglesia en relación con los pobres es presentarles al verdadero Cristo, aquél que fue la figura principal “en el plan divino de salvación por la entrega a la muerte del ‘Siervo, el Justo’” (Notificación, n. 10).

Para la Congregación, el primer problema del pobre no es el hambre y todas las otras condiciones infrahumanas que devienen de la pobreza en una sociedad capitalista, sino que es el no conocer a Cristo y no saber que Él fue enviado por Dios para sufrir y morir en la cruz para salvarnos de la condena que el propio Dios nos daría. Con esto, no habría diferencia fundamental entre el pobre y el rico que no conocen al verdadero Cristo presentado por la Iglesia Católica. Es por ello que la Nota Explicativa afirma que no se puede expresar la opción por los pobres en términos sociológicos.

El verdadero problema que la obra de Sobrino suscita no es el hecho de que no haya explicitado con el debido énfasis la divinidad de Cristo, sino el haber asumido que el problema primero y principal del pobre es el hambre, la muerte antes de tiempo. Algo que parece ser muy obvio para casi toda la sociedad, ya que después de todo la pobreza es una cuestión económica y social.

Pero… ¿por qué la Congregación de la Doctrina de la Fe y el propio Vaticano tienen tanta dificultad en ver que el sentido de la palabra “pobre” es aquel que pasa hambre y no aquél que todavía no conoció a Cristo? Quiero aquí elaborar una hipótesis. Si asumimos la visión de que la pobreza es una cuestión de vida y muerte en el campo económico y social, la Iglesia Católica, a partir de su fe, se convierte en una entre otras instituciones religiosas o no, que están preocupadas con esa cuestión; por otro lado, si asumimos que el gran problema del pobre es que no conoce al verdadero Cristo, que sólo la Iglesia Católica conoce más plenamente, la Iglesia se convierte en la principal institución en la gran tarea de luchar contra la pobreza.

Lo que hay detrás del castigo de Jon Sobrino y también de una buena parte de las disputas que ocurrirán en la V Celam es la comprensión del papel de la Iglesia Católica en el mundo y de su relación con el Reino de Dios. Si los pobres ante quienes debemos estar al servicio son pobres en el sentido de “tuve hambre y me diste de comer” (Mt 25), la Iglesia debe verse como un instrumento para anunciar y revelar la presencia de Dios en el mundo y de su Reino, luchando por la superación de las injusticias y opresiones para construir una sociedad más humana, digna de ser llamada humana-divina. Si la Iglesia pretende crear un nuevo sentido para la palabra “pobre”, para verse como la institución más importante del mundo, podrá escribir documentos y notificaciones, pero el mundo no la escuchará, pues no conseguirá entender lo que ella quiere decir.

 

Sombras da Inquisição

Frei Betto – Adital: 16/03/2007

Hoje é um dia triste para mim. Dói no fundo do meu coração, no âmago de minha fé cristã. O papa Bento XVI, às vésperas de sua primeira viagem à América Latina, faz um gesto que imprime um gosto amargo às boas-vindas: condena o teólogo jesuíta Jon Sobrino, de El Salvador.

Conheço Sobrino de longa data. Estivemos assessorando os bispos latino-americanos em Puebla, em 1979, por ocasião da primeira visita do papa João Paulo II ao nosso Continente. Participamos juntos de muitos eventos, empenhados em nutrir a fé das Comunidades Eclesiais de Base que, hoje, fazem da América Latina a região com o maior número de católicos no mundo.

Sobrino é acusado de, em suas obras teológicas, não dar suficiente ênfase à consciência divina do Jesus histórico. Fica, pois, proibido de dar aulas de teologia, e todos os seus futuros escritos devem ser submetidos à censura vaticana.

O parecer condenatório da comissão da Congregação da Doutrina da Fé, ex-Santo Ofício, parte, sem dúvida, de preconceitos. A leitura atenta das obras de Sobrino revela que, em nenhum momento, ele nega a divindade de Jesus. Nega é o docetismo, heresia já condenada pela Igreja nos primeiros séculos da era cristã, baseada na idéia de que Jesus, de humano, só tinha a aparência, em tudo mais era divino. O que faria da encarnação um embuste e daria asas à fantasia de que, ali na Palestina do século I, o homem Jesus, dotado de onisciência, poderia muito bem ter a antevisão do atual conflito entre palestinos e judeus…

Os evangelhos mostram claramente que Jesus tinha consciência de sua filiação divina. Ao contrário de seus contemporâneos, tratava Javé de modo muito íntimo, carinhoso: Abba, ‘meu pai querido’, uma das raras expressões aramaicas – a língua que Jesus falava – a constar do texto bíblico. Contudo, esses mesmos evangelhos mostram que Jesus, como todos nós, sofreu tentações, teve medo da morte, chorou, experimentou a solidão, pediu ao Pai para, se possível, afastá-lo do cálice de sangue. Ou seja, em tudo foi igual a nós, como afirma Paulo na Carta aos Filipenses, exceto no pecado, pois amava assim como só Deus ama.

Roma, sem dúvida, ainda padece do platonismo impregnado na teologia liberal desde Santo Agostinho. Fala da divindade como se fosse contrária à humanidade. A Criação divina é indivisível. Como diz Paulo, “nele (Deus) vivemos, nos movemos e existimos” (Atos dos Apóstolos 17, 28).

Bem diz Leonardo Boff ao referir-se a Jesus: “Humano assim como ele foi, só podia ser Deus mesmo”. A nossa humanidade não é a negação da divindade, assim como não o era a de Jesus. A divindade é a plenitude da humanidade e esta, o prenúncio daquela. “Somos da raça divina”, afirmou Paulo aos atenienses (Atos dos Apóstolos 17, 28).

Roma, que tanto lida com símbolos, parece desprezar a América Latina ao ignorar que Jon Sobrino vive em El Salvador, cujo arcebispo, dom Oscar Romero, foi assassinado pelas forças de direita ao celebrar missa na catedral, em 1980. No próximo dia 24 comemoram-se 27 anos de seu martírio. Sobrino mora en San Salvador, na mesma casa na qual, em 1989, quatro padres jesuítas, mais a cozinheira e sua filha de 15 anos, foram assassinados pelo Esquadrão da Morte.

Como renovar a Igreja Católica se suas melhores cabeças estão sob a guilhotina de quem enxerga heresia onde há fidelidade do Espírito Santo: Hans Kung em 1975 e 1980; Jacques Pohier em 1979; Schillebeeckx em 1980, 1984 e 1986; Leonardo Boff em 1985; Charles Curran em 1986; Tissa Balasuriya, em 1997; Anthony de Mello, em 1998; Reinhard Messner, em 2000; Jacques Dupuis e Marciano Vidal, em 2001; Roger Haight, em 2004. Nenhum deles, porém, foi excomungado como apregoam os fundamentalistas católicos.

O que está por trás da censura a Sobrino é a visão latino-americana de um Jesus que não é branco nem tem olhos azuis. Um Jesus indígena, negro, moreno, migrante; Jesus mulher, marginalizado, excluído. Aquele Jesus descrito no capítulo 25 de Mateus: faminto, sedento, maltrapilho, enfermo, peregrino. Jesus que se identifica com os condenados da Terra e dirá a todos que, frente a tanta miséria, se portam como o bom samaritano: “O que vocês fizeram a um dos menores de meus irmãos, a mim o fizeram” (Mateus 25, 40).

 

Sobre a condenação do teólogo JON SOBRINO

Roberto Zwetsch – Adital: 16/03/2007

Como candidato ao ministério pastoral, fiz meu primeiro exame de teologia em 1977. Na época, tínhamos provas orais e escritas. Para a prova oral de teologia sistemática, um colega e eu escolhemos estudar o livro “Cristología desde América Latina (Esbozo a partir del seguimiento del Jesús histórico)” (México: CRT, 1976), do teólogo espanhol Jon Sobrino, que por aquela época já vivia há muito em El Salvador, trabalhando junto com o bispo Dom Oscar Romero.

O que nos encantou naquelas leituras foi, se bem me recordo, duas coisas: em primeiro lugar, a ênfase no Jesus histórico, naquele que caminhou junto aos pobres da Palestina anunciando-lhes o reino de Deus e despertando uma nova esperança. Em segundo lugar, a idéia do seguimento ou discipulado como fundamental para compreender a fé de Jesus, a fé que se realizou em sua história humana e divina, ao mesmo tempo. O que diferenciou Jesus em seu tempo é que ele, decididamente, compreendeu a Deus e sua justiça, não de forma abstrata e ahistórica, mas desde e para os pobres reais com quem se encontrava nas vilas e cidades da Palestina.

Agora este teólogo, que desde então tem aprofundado como poucos aquele esboço de cristologia em inúmeros livros de primeira qualidade, é condenado ao silêncio pela Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano. Lamentável e, desde um ponto de vista protestante, um grande equívoco. Sobretudo, quando estamos às vésperas da V CELAM – a grande Conferência dos Bispos Católico-Romanos da América Latina que irá realizar-se em maio deste ano, na cidade de Aparecida do Norte, SP, Brasil. É bem estranho que esta condenação a um teólogo que estudou em profundidade a vida e obra de Jesus e suas repercussões na vida dos pobres, ocorra no momento em que a conferência irá justamente enfocar o tema “Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida”.

Jung Mo Sung, um dos jovens teólogos brasileiros que conhece bem a obra de Sobrino, afirmou em artigo que a questão central nesse caso não é o que tem sido dito na imprensa. Isto é, que Sobrino não teria deixado suficientemente claro em suas obras a divindade de Jesus para realçar em demasia a humanidade e sua opção pelos pobres.

A hipótese de Mo Sung é outra e se baseia em informes também do Vaticano. Ele escreveu: “O verdadeiro problema que a obra de Sobrino suscita não é o fato de ele não ter explicado com a devida ênfase a divindade de Cristo, mas ter assumido que o problema primeiro e primário do pobre é a fome, a morte antes do tempo. O que parece ser muito óbvio para quase toda a sociedade, afinal a pobreza é uma questão econômica e social”. E a razão estaria no fato de que a cúpula da Igreja Romana não aceita este conceito de pobre. Pois isto exigiria uma conversão da igreja que ela, ao que parece, não está disposta a realizar. O que está por trás dessa punição é, também, o teor do que se estará discutindo na Conferência dos Bispos em Aparecida, isto é, a compreensão do papel da Igreja Católica Romana no mundo e a sua relação com o reino de Deus.

De certa forma, Sobrino passa a ser agora, involuntariamente, o símbolo de um recado do Vaticano aos que ainda guardam boa lembrança do Vaticano II (1962-1965) e dos encontros dos bispos em Medellín (1968) e Puebla (1979). Muitos cristãos de diferentes igrejas desejariam ardentemente voltar a reencontrar-se com uma igreja no caminho da luta pela superação da pobreza, da fome e da violência que massacra os povos e lhes impõe uma forma de vida completamente alheia aos desejos do Deus de Jesus. Pobres sim, diz Roma, mas somente sob a ótica de pessoas que ainda não conhecem a Cristo. A fome, a pobreza, a injustiça não podem se tornar o foco central da mensagem da igreja.

Ora, se a igreja cristã espiritualiza desse jeito o evangelho do Crucificado que se identifica com os crucificados do nosso tempo, é de se perguntar se ela compreendeu o que diz Mateus em seu evangelho, repercutindo as palavras de Jesus: “Tive fome, e me destes de comer, tive sede, e me destes de beber, era forasteiro e me hospedastes; estava nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; preso e fostes ver-me” (Mateus 25.35s). Esta palavra de Jesus se tornou critério, na América Latina, para a compreensão do papel da igreja no mundo. Sua missão se define a partir do serviço aos pobres no sentido lato e não metafórico do termo.

É isto que estará em jogo nos bastidores da V CELAM e certamente terá repercussões também no âmbito ecumênico entre as demais igrejas cristãs. Afinal, a palavra de Jesus compromete a todas as pessoas que confessam seu nome. Sobrino merece mais respeito do que sua igreja lhe está dando neste momento, por sua trajetória humana, teológica e social.

Certamente, o princípio misericórdia que deu título a um dos livros de Jon Sobrino deverá ser resgatado nesse momento de dor e incompreensão. Para Sobrino, a misericórdia está na origem do divino e do humano. Deus é misericordioso para com as pessoas e seu desejo mais fundo é erradicar o sofrimento injusto para restabelecer a alegria (evangelho, literalmente, quer dizer, boa notícia!). Por isto, é no exercício da misericórdia que melhor entendemos ao Deus de Jesus. E a misericórdia não deve ser confundida com simples assistencialismo ou benemerência. Pois a misericórdia divina é altamente conflitiva. Quando falamos de um Deus crucificado que resgata o sentido de vida do ser humano, estamos denunciando os poderes que neste mundo crucificam os pobres. Por isso, não cabe ingenuidade ou falsas promessas na mensagem cristã. Hoje, na América Latina, assumir o rosto de uma igreja misericordiosa significa voltar a assumir decididamente a luta dos pobres contra a pobreza e as causas da injustiça e da violência.