Um passeio pela pré-história com John Lubbock 3

Sumário

Post 1

1. Ohalo – margem oeste do lago de Genesaré – Israel – 20000 a.C. – c. 2 e 3
2. Azraq – Jordânia, 100 km ao sul do lago de Genesaré – 20000 a.C. – c. 3
3. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 12300 a.C. – cultura natufiana – c. 4

Post 2

4. Abu Hureyra – nas margens do Eufrates, noroeste da Síria – 11500 a.C. – cultura natufiana – c. 5
5. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 10800 e 10000 a.C. (Dryas Recente) – c. 6
6. Jericó – vale do Jordão – 9600 a.C. – PPNA [Pre-Pottery Neolithic A – Neolítico pré-cerâmico A] – c. 7
7. WF16 – Wadi Faynan, no sul da Jordânia – 9000 a.C. – c. 8
8. Wadi Ghuwayr, no sul da Jordânia – 8500 a.C. – PPNB [Pre-Pottery Neolithic B – Neolítico pré-cerâmico B] – c. 8
9. Beidha, no Wadi Gharab, 30 km ao sul de Wadi Ghuwayr, ao norte de Petra – 8000 a.C. – PPNB – c. 9

Post 3

10. Jericó – vale do Jordão – 7000 a.C. – PPNB – c. 10
11. ‘Ain Ghazal, no Wadi Zarqa – Jordânia – 6500 – PPNB – c. 10
12. Bouqras, no Eufrates, confluência com o rio Khabur – Síria – c. 11
13. Nevali Çori, margem oriental do Eufrates – Turquia – c. 11
14. Çatalhöyük, na Turquia – 7000 a.C. – c. 11

MITHEN, S. After the Ice: A Global Human History, 20,000 – 5000 BC. London: Weidenfeld & Nicolson, 2011, 664 p.

 

10. Jericó – vale do Jordão – 7000 a.C. – PPNB – c. 10

De Beidha, John Lubbock encaminha-se diretamente para oeste, seguindo um rio em meio a um vale de mata até as baixadas e por fim o rio Jordão. A vegetação é luxuriante, junco e papiro dos dois lados do rio, mas fora isso trata-se de uma paisagem seca e estéril. Além do Jordão, a terra sobe e logo se torna o que é hoje o deserto do Neguev. Amanhece. Do outro lado do rio, ergue-se um preguiçoso fiapo de fumaça de uma fogueira.

O fogo arde para um grupo de homens de Jericó que se dirige para o sul com cestos de excedente de grãos. Uma dúzia deles carrega o pesado fardo, indo a um encontro com caçadores-coletores que vivem dentro do Neguev. O grão será trocado por conchas marinhas e carne de caça selvagem.

Enquanto os mercadores se dirigem para o sul, Lubbock viaja para o norte, para visitar Jericó uma segunda vez. Segue a base das montanhas da Judeia, ao longo da margem ocidental do mar Morto. Wadis, alguns contendo pequenos riachos que logo secarão sob o sol quente, cortam as colinas. Lubbock passa por rebanhos de cabras que são levadas a pastar por meninos, e pequenos grupos que recolhem betume e sal. Chega em 7000 a.C. O assentamento mudou desde quando ele viu o primeiro trigo sendo semeado [conferir o post A fundação de Jericó]: os conjuntos de pequenas moradias circulares foram substituídos por esparramados prédios retangulares em meio não apenas a campos aráveis e rebanhos de cabras, mas a filas e filas de adobe secando ao sol. Jericó passou de uma aldeia de caçadores-coletores-cultivadores a uma cidade de camponeses, artesãos e mercadores.

Lubbock atravessa pátios e caminha entre as casas, envolvido pelo clamor da vida neolítica. Muito trabalho se faz ao ar livre — preparação de comida, corte de pedra, fabrico de cestos, tecidos e artigos de couro. Ele se lembra de Beidha; enquanto passeia pela cidade, vê bandos semelhantes de cachorros que revolvem o lixo, e o mesmo fluxo entre o fedor de carne pendurada, a simplicidade da fumaça e a fragrância de ervas fumegantes. Pára para observar uma mulher socando um pilão; o instrumento é tão grande que ela se senta numa ponta e curva repetidas vezes as costas ao estender-se com a mão de pedra até a outra — trabalho de incontáveis futuras gerações.

As casas são construídas mais de adobe que de pedra. Têm um só andar e parecem de desenho um tanto mais simples que as de Beidha, não tendo sinal dos prédios com corredores. Lubbock escolhe uma ao acaso. Portas de madeira dão-lhe acesso a três aposentos retangulares sucessivos, cada um com piso de reboco polido e esteiras de palha. Não há ninguém em casa, e pouca coisa à guisa de móveis. Um monte de esteiras e couros sugere uma área de dormir, cestas e tigelas de pedra parecem ser bens valiosos.

No terceiro aposento, veem-se numa parede três estatuetas de barro, todas femininas e com cerca de 5 centímetros de altura. Uma é particularmente impressionante — veste o que parece uma túnica solta e foi esculpida com os braços cruzados, de modo que cada mão repousa em um seio. Junto a elas, há o que parece uma cabeça humana. Lubbock ergue-a com cuidado — é literalmente uma cabeça humana, ou pelo menos uma caveira cujo rosto foi delicadamente modelado com gesso.

Crânio engessado encontrado em Jericó (Tell es-Sultan), Neolítico Pré-Cerâmico B, c. 7200 a.C. BM 12741-42 Enquanto anda pela cidade, Lubbock encontra mais cabeças rebocadas em outras casas, junto com simples caveiras colocadas em cantos de quartos ou dentro de nichos nas paredes. Após muito procurar, encontra um homem sentado dentro de casa trabalhando num rosto. Está sendo modelado na caveira de seu pai, o homem que construiu a casa e cujas mãos fizeram o piso de argamassa sob o qual agora repousam seus ossos. Depois que o corpo ficou enterrado durante vários anos, a cova foi reaberta, o crânio removido e o piso remendado com nova argamassa. Agora o filho homenageia o pai.

O homem que trabalha está de cócoras ao lado de bacias de argamassa branca, tinta vermelha e uma variedade de contas. As cavidades nasais e órbitas oculares já foram tapadas e deixadas a secar; nivelou-se a base do crânio, para que se mantenha em pé sem apoio. Agora aplica-se a camada final de fina argamassa, que logo será pintada de vermelho. Conchas de caurim serão inseridas como olhos, e depois se exporá o crânio dentro da casa. Enquanto ele amassa, afila e modela a argamassa, sua esposa colhe lentilhas nos campos, lutando com o peso do bebê amarrado às costas. Um dia esse filho exumará com amor e modelará a cabeça do pai, para assegurar que também ele continue a viver dentro da casa, mesmo depois de ter os ossos enterrados sob o piso.

 

11. ‘Ain Ghazal, no Wadi Zarqa – Jordânia – 6500 – PPNB – c. 10

O tempo de Lubbock na era neolítica do oeste asiático esgota-se rapidamente. Ele tem portanto que viajar 50 quilômetros até o lado oriental do vale do Jordão, onde encontrará a maior das cidades neolíticas, a hoje conhecida como ‘Ain Ghazal. E assim, durante dois dias, ele viaja através da densa floresta do vale do Jordão, subindo sua íngreme escarpa oriental em direção a pastagens pontilhadas de árvores dispersas.

O primeiro sinal de uma cidade estar próxima é quando as trilhas de cabras que ele segue se alargam em estradas bem palmilhadas entre pequenos campos, alguns plantados com lentilhas e ervilhas, outros com trigo e cevada. Mulheres e crianças trabalham, colhendo as lentilhas e partindo aos pares e trios para levar suas pesadas cargas até a cidade. Muitos cestos esperam para ser levados, e assim Lubbock toma um nos ombros e segue uma mulher com seus dois cansados filhos. Acompanha-os no vale hoje conhecido como Wadi Zarqa; há caminhos de pedra para atravessar o rio, onde se amarraram muitas cabras. Uma trilha conduz então diretamente ao coração da cidade.

Enquanto anda, Lubbock nota que todo trato de solo disponível foi plantado. O motivo logo se torna claro — a cidade é três ou talvez quatro vezes maior que Jericó. Os lados do vale de Wadi Zarqa próximos, porém, são inteiramente estéreis — o solo exaurido pelas repetidas safras, e depois levados pelas chuvas do inverno depois que a vegetação restante foi cortada para fornecer lenha. Algumas das encostas foram aterradas para a construção de novas casas, e famílias vivem em tendas e abrigos de taipa temporários. ‘Ain Ghazal “desfruta” de uma explosão populacional, em parte de seus próprios habitantes, em parte do influxo de pessoas cujas próprias aldeias já foram abandonadas devido à erosão e exaustão da terra circundante.

A data é 6500 a.C., e a cidade é um labirinto de construções — algumas novíssimas, algumas em reparos, outras caindo aos pedaços e abandonadas. São construídas de pedra bruta, madeira, juncos, barro e argamassa. As pessoas retornam às suas casas com o cair da noite; algumas se põem a comer, outras se preparam para dormir. Lubbock deixa o cesto diante da casa da mulher a quem seguiu, que agradecerá às crianças por terem-no carregado, para grande surpresa delas. Durante a hora seguinte ele explora a cidade, espiando por janelas e por cima dos ombros de outras pessoas. Muita coisa é igual a Beidha e Jericó, com cabeças rebocadas e pequenas estatuetas de barro exibidas em destaque. Numa das casas, ele vê um excelente modelo de uma raposa — na verdade, modelos de animais parecem particularmente importantes para as pessoas que aí vivem, sobretudo de gado, embora se doméstico ou não permaneça incerto.

Em outra casa, um grupo senta-se em torno de uma fogueira em chamas, enquanto lâminas de obsidiana, peças de coral e pedras de cores fortes passam de mão em mão. Vêm de um homem de roupas e estilo de cabelo distintos — um mercador que chegou recentemente do norte. Espiando pela porta, Lubbock vê pequenas esferas, discos e pirâmides de barro que são contados e postos em bolsas de couro. Esses artigos são inteira novidade para ele, mas o cansaço vence a curiosidade e ele encontra uma casa abandonada para dormir.

Na manhã seguinte, Lubbock acorda e encontra a cidade silenciosa e deserta: não se cozinha nos pátios, mulheres não partem para os campos, homens não erguem madeiras ou assentam pisos de argamassa. Enquanto atravessa os becos entre as casas, um baixo murmúrio se transforma num baixo balbucio de vozes. Ao dobrar uma esquina, encontra uma reunião de várias centenas de pessoas. Meninos sentam-se nos ombros dos pais, as crianças mais velhas subiram em muros e balaustradas de janelas. Todos clamam por uma visão. No momento em que Lubbock chega, as portas de madeira de um prédio se abrem e sai uma procissão. Pairam o silêncio e a quietude.

Seis homens vêm à frente, usando máscaras, túnicas e adereços de cabeça muito parecidos aos descobertos em Nahal Hemar. Trazem uma plataforma contendo um grupo de estátuas, feitas de feixes de junco revestidos de argamassa amarrados para formar torsos, braços e pernas. Há talvez doze estátuas de argamassa, algumas de cerca de 1 metro de altura, outras muito menores. Têm corpos achatados, pescoços alongados, grandes caras redondas, olhos arregalados com profundos centros negros. Os narizes são modelados como tocos; os lábios mal existem. A argamassa é branco puro; algumas estátuas estão envoltas em finas peças têxteis. Uma tem os braços cruzados sob os seios, projetando-os para o espectador, ao qual prende com seu olhar acerado.

A multidão clama para ver as estátuas, sabendo que será a sua última oportunidade, pois elas serão enterradas. Mas as pessoas também sabem que dentro de algunsAs estátuas de 'Ain Ghazal anos outro conjunto de estátuas será trazido por essas portas de madeira, e depois outro e mais outro; nova vida sempre seguirá a morte, como as plantas da primavera sempre seguem a colheita. Lubbock junta-se à procissão até uma casa abandonada e espreme-se lá dentro para ver a cerimônia de enterro e ouvir as preces e cantos. Cada estátua é erguida e depois cuidadosamente colocada num poço cavado no piso. Mais preces, e fecha-se o poço. Os “sacerdotes” retornam ao prédio de onde saíram, as portas fecham-se com estrondo. A multidão se dispersa; algumas pessoas parecem em estado de choque, algumas enlutadas, outras confusas.

A cidade de ‘Ain Ghazal teve notável crescimento, alcançando mais de 12 hectares de extensão, transbordando para o lado leste de Wadi Zarqa e abrigando duas mil pessoas ou mais. Em 6300 a.C., porém, já se acha em avançado estado de declínio terminal. Há muitas casas abandonadas e os becos entre elas estão juncados de lixo neolítico. Há pouco mais que um débil eco da outrora ebuliente cidade nas poucas casas habitadas e nos poucos homens e mulheres que ainda trabalham nos pátios. Qualquer casa recentemente construída é pequena e pobre comparada com as da cidade original.

O rio dentro de Wadi Zarqa ainda corre, mas os lados do vale estão nus — não apenas em torno da aldeia, mas até onde a vista alcança. A exaustão e erosão do solo devastaram a economia agrícola de ‘Ain Ghazal. Não resta uma única árvore à distância de uma caminhada da cidade. Seu povo teve de viajar cada vez mais longe a cada ano para plantar suas safras e encontrar forragem para suas cabras. A produção decaiu, o combustível tornou-se escasso e o rio poluído com detritos humanos. A mortalidade infantil, sempre alta, atingiu proporções catastróficas, de modo que o nível populacional despencou, agravado pela constante partida de pessoas que voltavam à vida em aldeias espalhadas. Essa é a história de todas as cidades do PPNB do vale do Jordão — completo colapso econômico.

Lubbock está agora parado acima do vale de Zarqa, e olha a cena chocante de degradação ambiental causada pela agricultura. Ele e os arqueólogos modernos se perguntam se a agricultura poderia ter sido a única causa; os núcleos de gelo mostram que entre 6400 e 6000 a.C. houve um período de temperaturas particularmente baixas e chuvas incertas, se não seca. Mas parece inteiramente impossível desenredar os impactos relativos de agricultura humana e mudança do clima na agora estéril paisagem em torno de ‘Ain Ghazal.

Ao longe, um rebanho de cabras é pastoreado para as colinas. Lubbock observa-as buscando caminho entre as rochas e desaparecendo de vista. Esse rebanho retornará a ‘Ain Ghazal, mas não por muitos meses, uma vez que surgiu uma nova economia. A vida na cidade não é mais sustentável no vale do Jordão e foi substituída pelo pastoreio nômade, o estilo de vida que continua até hoje. Dentro de poucos anos, ‘Ain Ghazal não será mais que um lugar de encontro sazonal para pastores de cabras nômades, que erguerão frágeis abrigos nas ruínas da cidade, enquanto seus animais pastam nos cardais que brotaram nas moradias desertas e locais de enterro dos deuses.

 

12. Bouqras, no Eufrates, confluência com o rio Khabur – Síria – c. 11

Ásia Ocidental entre 20000 e 5000 a.C. - Sítios citados no livro de Steven Mithen, After the Ice.John Lubbock aproxima-se do fim de sua jornada pela revolução neolítica no oeste asiático, que transformou os caçadores-coletores de Ohalo nos agricultores, artesãos, mercadores e sacerdotes de ‘Ain Ghazal. Dessa cidade, ele viajou 500 quilômetros para noroeste, em companhia de pastores e mercadores, atravessando o deserto sírio de oásis em oásis. Isso o levou ao Eufrates, onde na confluência com o rio Khabur ele visita a cidade de Bouqras, estabelecida num promontório que dá para a planície aluvial. Em seus prédios, encontra pinturas de parede — imagens de grandes gaivotas, grous ou cegonhas — a primeira visão de uma quantidade sempre crescente de obras de arte que vai encontrar nos estágios finais de sua jornada oeste asiática.

Mas Bouqras, como ‘Ain Ghazal, já passou do seu auge; muitas das casas de adobe entraram em decadência. A planície aluvial antes oferecia ampla terra para caça, pastagem e civilização. Agora chegaram os tempos difíceis, e a população diminuiu de mil para pouco mais de duas centenas no máximo. Alguns artesãos especializados continuam a trabalhar, produzindo ótimas tigelas de mármore e alabastro.

 

13. Nevali Çori, margem oriental do Eufrates – Turquia – c. 11

Lubbock parte para nordeste, seguindo o Eufrates pelas montanhas Taurus a leste e entrando nas ondulantes encostas de colinas do planalto Anatólio. Ali, o rio muda de direção, fazendo um arco para oeste por entre colinas estéreis de calcário entremeadas de planícies com florestas. Ali, não mais de 3 quilômetros ao sul do Eufrates, ele encontra a aldeia de Nevali Çori a cavaleiro das margens de um pequeno riacho tributário. Há cerca de 25 prédios abandonados — todos de um só andar, retangulares e construídos de blocos de calcário ligados com argamassa de barro — mas nenhuma pessoa. A aldeia está deserta, só se veem camundongos e ratos que correm de um lado para outro.

Várias casas foram alinhadas num terraço, com estreitas passagens entre si. Algumas são particularmente grandes, com quase 20 metros de comprimento, e divididas em aposentos vizinhos. A maioria tem piso de argamassa; onde estes decaíram, surgem canais de escoamento de pedra e túmulos.

Os pisos estão cobertos de lixo — ossos de animais, pilões quebrados, instrumentos de sílex e cestos desgastados. É evidente que o abandono da aldeia foi uma coisa feita aos poucos, com um lento declínio dos padrões de higiene e ordem. Em meio ao lixo, Lubbock encontra estatuetas de barro e sílex que caíram de prateleiras de madeira. Um rosto humano estilizado parece conhecido; lembra as máscaras usadas pelos “sacerdotes” de ‘Ain Ghazal, que por sua vez eram semelhantes às máscaras de Nahal Hemar.

A área diante das casas também é uma bagunça. Vários grandes poços de assar começaram a encher-se de aluvião; outros ainda mostram os revestimentos de pedras. Cercados de animais desabaram, e ainda há grupos de pedras de moer em meio a casas e palha. Quem quer que tenha vivido em Nevali Çori, evidentemente foi agricultor como o povo de Beidha, Jerico e ‘Ain Ghazal; mas os daqui tinham crenças religiosas bastante diferentes, como Lubbock avalia ao entrar no que os arqueólogos chamam de “prédio de culto”.

Fica na ponta noroeste do terraço, um prédio quadrado com os fundos na encosta natural. O telhado de junco quase desabou inteiramente, e as paredes desmoronam. Lubbock tem de espremer-se por entre madeiras caídas para descer os poucos degraus até o interior. Ao fazer isso, uma legião de cobras brota de debaixo do lixo no piso.

Um banco de pedra corre ao redor das paredes, dividido em partes por 10 colunas de pedra. Há outras colunas parecendo lages no meio do aposento. Estas têm capitéis em forma de T e parecem ombros humanos; quando ele olha de perto, vê um par de braços humanos esculpidos em baixo relevo em cada face. Dos degraus, olha um nicho na parede defronte. Contém uma cabeça humana, sobre a qual repousa uma cobra — cabeça e cobra esculpidas em pedra. As paredes em volta foram outrora densamente rebocadas e cobertas com exóticos murais pintados em vermelho e preto. Mas a maior parte do reboco caiu no chão, deixando as pinturas como as peças de um quebra-cabeça embaralhado.

Lubbock encontra outras esculturas, algumas de pé, algumas embutidas nas paredes e colunas. Há um grande pássaro, talvez abutre ou águia; uma terceira ave de rapina encima uma coluna com duas cabeças femininas esculpidas. E assim prossegue — mais pássaros, rostos que parecem parte animal e parte humano, outra cobra.

 

14. Çatalhöyük, na Turquia – 7000 a.C. – c. 11

Lubbock parte de Nevali Çori para oeste e faz uma longa viagem, cruzando as montanhas Taurus e entrando no planalto da Anatólia central. Passa por várias pequenas aldeias e algumas cidades maiores. Durante parte da jornada, ele viaja com pastores e em outra com pessoas que visitam parentes em aldeias distantes ou se dirigem para as “brilhantes colinas negras”.

Essas colinas são feitas de obsidiana e encontradas na região que descrevemos hoje como Capadócia. Mesmo em 7500 a.C. as pessoas já as vinham visitando havia vários anos, para recolher o vidro vulcânico depois comerciado e trocado em todo o oeste asiático. A obsidiana que Lubbock viu em Abu Hureyra, Jericó e ‘Ain Ghazal veio da Capadócia — muito provavelmente depois de passar por muitas mãos e famílias diferentes no caminho.

Não surpreende, portanto, que grandes montes de lascas e núcleos jogados fora cerquem muitas das obras em obsidiana, da qual só os melhores pedaços foram retirados. As oficinas, nas quais se podem obter enormes lucros da pedra em troca de contas, peles e minério de cobre, são abundantes. Mas a obsidiana cobre uma área demasiado grande para que se controle todo acesso. E Lubbock passa por muitos pequenos grupos que ou pegam grandes nódulos no chão ou simplesmente quebram grandes lascas de afloramentos da altamente valorizada pedra negra.

Seus companheiros se dirigem para a cidade que conhecemos hoje como Asikli Höyük, localizada na parte oeste da Capadócia, um espraiado assentamento de prédios de adobe. Mas Lubbock toma um rumo diferente, e atravessa o planalto anatólio até sua planície mais ao sul, indo para a cidade neolítica de Çatalhöyük.

Durante toda sua viagem desde Nevali Çori, a vegetação mudou constantemente de estepe para mata e de mata para estepe, sensível as muitas variações na topografia e água — vale de encostas a pique, colinas ondulantes e planície chã cortada por muitos rios. Algumas das matas são agora compostas de enormes carvalhos, por entre os quais ele capta passageiros vislumbres de gamo e gado. Enormes aves de rapina parecem circular interminavelmente no céu.

É 7000 a.C., e Çatalhöyük se acha no seu auge. Quando Lubbock se aproxima, entra numa paisagem densamente cultivada. Os sinais de derrubada de árvores sãoÇatalhöyük comuns — a mata evidentemente se transforma num precioso recurso, pois os cortes mais novos são das árvores menores. Aparecem pequenos campos, em que mulheres e crianças completam seu dia de trabalho, e meninos conduzem rebanhos de carneiros e cabras de volta à segurança noturna da cidade. Esta agora se torna visível, surgindo como uma sólida massa à meia luz do entardecer.

Çatalhöyük é inteiramente diferente de qualquer lugar que Lubbock já viu. Parece ter um muro perimetral contínuo, que não tem entrada nem desejo de receber hóspedes indesejáveis. Olhando mais de perto, Lubbock percebe que não é de modo algum um muro único, mas o resultado de muitas paredes juntas de prédios individuais que se apegam uns aos outros como com medo do que há fora deles. Um rio sujo, coalhado de lixo, estagna-se ao longo de um lado, levando a mangues e pântanos fedorentos atrás da cidade. Do outro lado há uma lagoa lodosa, em torno da qual se instalam as cabras para passar a noite.

Cada casa tem um alçapão de entrada no lado sul e pequenas janelas em qualquer parede exposta acima do telhado vizinho. Algumas portas estão abertas, soltando fumaça e a luz de tremulantes lâmpadas de azeite no ar frio da noite; às vezes um brilho mais ousado, mais forte, emana de uma lareira bem alimentada.

Escolhendo uma porta aberta, Lubbock desce por uma escada de madeira para a área de cozinha de um pequeno aposento retangular. Vê à sua frente uma lareira elevada — uma plataforma com um rebordo para evitar algum transbordamento de cinzas. Emite um profundo fulgor e um baixo calor do combustível de estrume animal. Próximo, construiu-se um forno na parede, revelando adobes ordenados, e ao lado uma bilha de barro com um buraco na base, do qual caem lentilhas. Há utensílios espalhados, um cesto com raízes e uma cabra pequena amarrada na parede. Como tal, é uma cena doméstica conhecida, que poderia ser encontrada em Jericó ou ‘Ain Ghazal. Mas então Lubbock se volta e vê uma cena monstruosa de touros irrompendo da parede.

São três, à altura da cintura — cabeças brancas com raias pretas e vermelhas, das quais brotam enormes chifres pontudos que parecem ameaçar toda a vida humana dentro da casa. Ao lado de Lubbock, uma mulher e um homem sentam-se numa plataforma elevada vizinha aos touros, cabisbaixos, comendo pão em silêncio. Entre eles, uma criança deixou seu pão intocado no prato de madeira.

Em volta dos touros as paredes são pintadas com fortes desenhos geométricos — imagens nítidas e opressivas acima de impressões palmares em preto e vermelho semelhantes às pintadas na caverna francesa de Pech Merle no LGM. Mas enquanto aquelas mãos de caçadores-coletores da Era do Gelo eram acolhedoras, estendidas em saudação aos visitantes dentro da caverna, estas mãos agrícolas de Çatalhöyük parecem mais uma advertência ou um pedido de socorro — seu povo está preso dentro de um bestiário do qual não pode escapar.

E assim começa a excursão noturna por Çatalhöyük, uma visão de pesadelo do mundo que a agricultura trouxe a esses membros da humanidade. Primeiro, Lubbock rasteja por uma pequena entrada para escapar do aposento, mas isso não leva a parte alguma, apenas a um depósito onde se empilham cestos e couros. Por isso ele retorna ao telhado e tenta outra casa, e depois outra e mais outra. Em cada uma, encontra a mesma coisa — a lareira, o forno, a bilha de grão, a plataforma, tudo disposto de forma idêntica, em aposentos de tamanho e forma quase idênticos. Muitos aposentos têm estatuetas de barro dentro de pequenos nichos, ou simplesmente no chão; algumas são evidentemente de mulheres, outras de homens, mas muitas parecem inteiramente sem sexo. A mais espantosa é uma mulher que se senta num trono, ao lado de uma bilha de grão. Tem de cada lado um leopardo; repousa uma mão em cada cabeça, e as caudas dos animais se enroscam em seu corpo.

Os touros variam de aposento para aposento, mas são sempre chocantes, sobretudo quando encontrados nos fortes raios de luar que agora entram pelas minúsculas janelas, ou pelas chamas que dão vida às feras. Há cabeças de touros com longos chifres retorcidos, outras com as caras cobertas de desenhos exóticos, e ainda outras empilhadas umas em cima das outras do chão ao teto. Alguns aposentos têm colunas de pedra com chifres, ou longas filas de chifres postas em bancos, desafiando qualquer um a sentar-se ao seu alcance.

Juntam-se a desenhos geométricos imagens de grandes abutres negros atacando perversamente pessoas sem cabeça, e cenas de gamos e bois enormes cercados por minúsculas pessoas em frenesi. As pessoas reais dormem em suas plataformas. Jazem em posições contorcidas, às vezes acordando de repente e olhando Lubbock que passa, como se pudessem ver mais um intruso em suas vidas.

Lubbock sobe e desce escadas, de aposento em aposento, de horror em horror, até cair exausto e jazer prostrado diante de outra parede esculpida. Põe-se de joelhos de frente para um par de seios femininos que emergem do adobe e reboco. Os dois mamilos estão divididos, e dentro há crânios de abutres, raposas e fuinhas: a própria maternidade violentamente conspurcada. Lubbock não aguenta mais e rasteja pelo chão para a escuridão de breu de um depósito. E ali se esconde, na esperança de que a luz do dia traga libertação desse inferno neolítico.

Çatalhöyük É o amanhecer em Çatalhöyük em 7000 a.C. Cansado após sua atormentada noite, Lubbock tornou a subir para o telhado e encontrou um ponto privilegiado do outro lado da planície. O sol ainda não nasceu e faz frio. Um pastor de cabras já deixou a cidade em busca de pasto para seu rebanho; uma mulher capina os campos que cercam a cidade. Lubbock volta-se para o leste, em direção a Nevali Çori e Göbekli Tepe, cujas obras de arte pareciam prever Çatalhöyük. Mas também o fizeram, ele pensa, os pássaros pintados de Bouqras, as estatuetas de bois e as figuras de massa de ‘Ain Ghazal.

Voltando-se para o sudeste, para as modernas terras de Israel e Jordânia onde começou sua viagem, ele lembra que as aves de rapina haviam sido reverenciadas e as cabeças retiradas de corpos humanos nas primeiras aldeias agrícolas: Jericó, Netiv Hagdud e WF16, E assim as pinturas e esculturas de Çatalhöyük talvez não sejam tão horríveis afinal — simplesmente uma expressão da mitologia que surgiu junto com os campos de trigo quando a agricultura foi inventada e desenvolvida no oeste asiático.

Ele então olha mais atrás ainda no tempo, sua chegada a Ohalo antes de seu incêndio, suas viagens pela estepe e deserto, a ceifa de trigo nas hortas selvagens de ‘Ain Mallaha. Que teriam pensado de Çatalhöyük aqueles caçadores-coletores kebaranos e natufianos? O mais provável é que tivessem ficado confusos e aterrorizados, pois pareciam confiar no mundo natural, na verdade serem eles próprios parte dele. O povo de Çatalhöyük, por outro lado, parecia temer e desprezar o agreste.

Com outra volta, Lubbock olha para oeste, para a Europa. Uma jornada por aquele continente será a próxima etapa de suas viagens pela história global. Começará nas profundezas da Era do Gelo, no extremo noroeste, onde as pessoas caçam renas e vestem-se de peles. Mas primeiro ele tem de visitar o que ainda continua sendo uma casa intermediária entre a cultura europeia e a oeste asiática — a ilha mediterrânea de Chipre.

Um passeio pela pré-história com John Lubbock 2

Sumário

Post 1

1. Ohalo – margem oeste do lago de Genesaré – Israel – 20000 a.C. – c. 2 e 3
2. Azraq – Jordânia, 100 km ao sul do lago de Genesaré – 20000 a.C. – c. 3
3. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 12300 a.C. – cultura natufiana – c. 4

Post 2

4. Abu Hureyra – nas margens do Eufrates, noroeste da Síria – 11500 a.C. – cultura natufiana – c. 5
5. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 10800 e 10000 a.C. (Dryas Recente) – c. 6
6. Jericó – vale do Jordão – 9600 a.C. – PPNA [Pre-Pottery Neolithic A – Neolítico pré-cerâmico A] – c. 7
7. WF16 – Wadi Faynan, no sul da Jordânia – 9000 a.C. – c. 8
8. Wadi Ghuwayr, no sul da Jordânia – 8500 a.C. – PPNB [Pre-Pottery Neolithic B – Neolítico pré-cerâmico B] – c. 8
9. Beidha, no Wadi Gharab, 30 km ao sul de Wadi Ghuwayr, ao norte de Petra – 8000 a.C. – PPNB – c. 9

Post 3

10. Jericó – vale do Jordão – 7000 a.C. – PPNB – c. 10
11. ‘Ain Ghazal, no Wadi Zarqa – Jordânia – 6500 – PPNB – c. 10
12. Bouqras, no Eufrates, confluência com o rio Khabur – Síria – c. 11
13. Nevali Çori, margem oriental do Eufrates – Turquia – c. 11
14. Çatalhöyük, na Turquia – 7000 a.C. – c. 11

 

4. Abu Hureyra – nas margens do Eufrates, noroeste da Síria – 11500 a.C. – cultura natufiana – c. 5

Para encontrar indícios diretos da natureza da coleta de plantas, John Lubbock tem de deixar a mata mediterrânea e a cultura natufiana. Precisa viajar 500 quilômetros até outra aldeia de caçadores-coletores a nordeste, descoberta nas planícies aluviais do Eufrates: o surpreendente sítio de Abu Hureyra.

O mato e as flores da estepe estão molhados de orvalho quando John Lubbock se aproxima da aldeia de Abu Hureyra. É o amanhecer de um dia de meados do verão em 11500 a.C. Sua jornada de ‘Ain Mallaha trouxe-o das densas florestas de carvalho das colinas mediterrâneas, por campo aberto e finalmente a estepe desprovida de árvores, até o que é o hoje noroeste da Síria. Passou por várias aldeias próximas de rios e lagos, todas desconhecidas do mundo moderno. Agora pára para contemplar a vista — ao longe há uma planície além da qual uma linha de árvores bordeja um largo rio, o Eufrates. Além disso, apenas um vago horizonte, à luz leitosa do dia nascente.

Mais alguns minutos de caminhada fazem-no avistar a aldeia; mas é preciso olhar duas vezes. Ela se funde em seu terraço de calcário, exatamente como ‘Ain Mallaha se fundia com a mata em volta, mais parecendo ter sido gerada pelo sol e moldada pelo vento do que construída por mãos humanas. A cada passo, os baixos e planos telhados cobertos de junco, reunidos à borda da planície aluvial, se tornam um pouco mais nítidos. Mesmo assim, a fronteira entre natureza e cultura permanece profundamente obscura.

As pessoas de Abu Hureyra dormem. Cães farejam-se uns aos outros e o chão, alguns coçando-se e outros roendo ossos. Os telhados chegam à altura da cintura, sustentados nas pequenas molduras de madeira de moradas cortadas em pedra mole. Lubbock desce numa delas e encontra um pequeno e estreito quarto circular de pouco mais de três metros de largura. Um homem e uma mulher dormem sobre peles e um colchão de capim seco; uma moça faz o mesmo numa trouxa de peles.

O piso está juncado de artefatos e lixo — não pilões e almofarizes como em ‘Ain Mallaha, mas mós planas e côncavas. Artefatos de pedra lascada espalham-se pelo chão, junto com cestos de vime e tigelas de pedra, e até um monte de ossos de animais coberto de moscas. Uma pequena tigela contém minúsculos micrólitos em meia-lua feitos de sílex, muito parecidos com os de ‘Ain Mallaha. Num lado da morada há um monte de entulho — a parede desabou e entrou a terra do lado de fora. Paira no ar um fedor nauseante de carne podre e ar viciado.

Grande parte da vida da aldeia se passa além dessas paredes — elas não encerram casas como pensamos nelas hoje. Nos espaços externos há cozinhas, montes de varas, feixes de junco, folhas de casca de árvore e grupos de mós. Evidentemente, muita gente trabalha junto na preparação das plantas colhidas de hortas selvagens na estepe e na mata pantanosa à beira do rio. Lubbock curva-se e deixa que as multicoloridas cascas, talos, galhos e folhas que cercam as pedras lhe escorram entre os dedos. São detritos, deixados exatamente onde caíram das mós ou desbastados dos feixes de plantas e flores. Perto dali há cestos e tigelas de pedra transbordando de nozes e sementes de variadas formas e cores.

Em outra parte da aldeia, ele encontra mais um conjunto de mós; mas estão cercadas por torrões de pedra vermelha e pó, em vez de cascas de sementes e galhos de plantas. As pedras de moer têm manchas vermelhas, da fabricação de pigmento usado para decorar corpos humanos. Ali perto, três gazelas foram estripadas mas ainda não esquartejadas; as carcaças são deixadas penduradas fora do alcance dos cachorros. As pessoas de Abu Hureyra dependem tanto da caça de gazelas quanto da coleta de plantas. Mas esses animais são caçados apenas durante pouco mais de algumas semanas cada verão, quando grandes bandos passam perto da aldeia.

Começa a vida diária em Hureyra. As gazelas não aparecem e os caçadores partem para vasculhar o vale do rio em busca de javalis e jumentos selvagens. Poucos animais vivem agora nos arredores da aldeia, por isso eles ficarão decepcionados. As mulheres e as crianças trabalham nas hortas selvagens, capinando, matando insetos e colhendo o que quer que haja amadurecido ao sol.

Dentro de poucos dias chegam os bandos, e começa a matança anual de gazelas. Os visitantes são bem-vindos na aldeia. Trazem reluzentes obsidianas negras do sul da Turquia como presentes e recebem em troca conchas de dentário, um dia colhidas nas margens do Mediterrâneo e trazidas por visitantes anteriores a Abu Hureyra.

Durante mais de mil anos os caçadores-coletores de Abu Hureyra continuarão a caçar gazelas. Os animais são tão numerosos que sua matança não tem impacto sobre o tamanho dos rebanhos. As mulheres e crianças continuarão a cuidar das hortas selvagens e a colher uma rica safra. O acúmulo de sujeira, areia, artefatos perdidos e outros detritos dentro das moradas se tornará insuportável ou simplesmente impedirá o acesso. E então as pessoas de Abu Hureyra construirão novas moradas, agora totalmente acima do solo. Mas os tempos difíceis acabarão por chegar. A seca do Dryas Recente perturbará as gazelas e dizimará a produtividade da estepe. A aldeia será abandonada, e as pessoas voltarão à vida nômade.

Uma reconstrução hipotética de Abu Hureyra - Fonte: Moore, A. A Cosmic Impact and the Beginning of Farming at Abu Hureyra in Syria. The Ancient Near East Today 9.3, 2021. Acessado em: https://anetoday.org/cosmic-impact-abu-hureyra/Retornarão em 9000 a.C., não como caçadores-coletores, mas agricultores. Construirão casas de adobe e cultivarão trigo e cevada na planície aluvial. Os rebanhos de gazelas terão retomado suas migrações e serão caçadas por mais mil anos, até o povo de Abu Hureyra de repente passar para rebanhos de carneiros e cabras. As casas serão repetidas vezes reconstruídas para que se forme um monturo, ou tell [tell é um termo arqueológico de origem árabe, e indica um monte artificial formado pelo acúmulo de detritos, resultado de uma ocupação humana contínua de um mesmo local ao longo dos séculos], de meio quilômetro de largura, 8 metros de profundidade e contendo mais de um milhão de metros cúbicos de depósitos. Os restos das primeiras moradas subterrâneas de Abu Hureyra serão enterrados fundo e perdidos da memória humana.

Os sedentários caçadores-coletores de ‘Ain Mallaha, Abu Hureyra e na verdade de todo o oeste da Ásia entre 12500 e 11000 a.C. gozavam a boa vida. A abundância de indícios arqueológicos e a excelência da pesquisa nos permitem captar na mente algumas vívidas imagens dessa vida. Podemos imaginar prontamente as bolotas sendo transportadas em cestos para ‘Ain Mallaha, e depois reduzidas a uma pasta, os caçadores do lugar tendo a primeira visão das gazelas que se aproximam, e os trajes de um morto com um adereço de cabeça de conchas, colar e faixa de dentálio na perna em El-Wad, pronto para o enterro.

Mas a imagem a ser lembrada é de algumas famílias desfrutando um dia na estepe florestal — longe dos latidos dos cães, dos fedorentos montes de lixo, dos rabugentos que ficaram para trás na aldeia. Eles não buscam caça nem plantas para colher. É um dia de descanso, e eu os vejo sentados, cercados por miríades de flores estivais. As crianças fazem guirlandas e os jovens amantes esgueiram-se para dentro do mato alto. Alguns conversam, outros dormem. Todos gozam o sol. Têm a barriga cheia e nenhuma preocupação.

John Lubbock senta-se com eles, após passar alguns dias trabalhando em Abu Hureyra. Lê seu livro, descobrindo o que o xará sabia sobre a mudança do clima — muito pouco. O John Lubbock vitoriano compreendera que teriam ocorrido imensas variações no clima porque visitara cavernas cheias de ossos de rena no ensolarado sul da França, descobrira carvalhos dentro de pântanos de turfa e vira vales cortados por rios antigos. Mas em 1865 não tinha consciência da complexidade da mudança de clima, pois a ideia de múltiplas glaciações só ganhou favor no início do século XX, e acontecimentos-chave como o Dryas Recente permaneceram desconhecidos até tempos recentes. Mesmo assim, o moderno John Lubbock se impressionou com o seu xará, sobretudo quando leu que as causas sugeridas de mudanças climáticas incluíam variação na radiação solar, alteração no eixo da Terra e mudanças nas correntes oceânicas — todas as quais foram provadas desde então e permanecem no primeiro plano do estudo científico.

Por um momento, John Lubbock esquece seu lugar na história; as borboletas, as flores, o sol e o vento são inteiramente atemporais. Mas a data é 11000 a.C., e está para ocorrer uma dramática mudança no clima; as famílias que se sentam despreocupadas na estepe oscilam à beira de uma calamidade ambiental: está para chegar o Dryas Recente.

 

5. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 10800 e 10000 a.C. (Dryas Recente) – c. 6

Mais uma vez, John Lubbock está parado na margem ocidental do lago Hula e olha a aldeia de ‘Ain Mallaha do outro lado. Cinquenta gerações, 1500 anos, se passaram desde que ele testemunhou uma vibrante atividade na aldeia em meio aos carvalhos, amendoeiras e pistaches. Os tempos mudaram. As matas são esparsas. As árvores e o mato baixo não têm o exuberante crescimento que parecia embalar as pessoas de ‘Ain Mallaha com a promessa de comida abundante. Dentro da aldeia, telhados e paredes ruíram, e algumas moradas não passam de montes de detritos. Há agora novas construções circulares, mas são coisas pequenas e desconjuntadas.

Cinquenta quilômetros a sudoeste, a aldeia de Hayonim foi inteiramente abandonada. Após 200 anos de ocupação, as pessoas deixaram a caverna para viver no terraço, usando as moradas anteriores para o enterro de seus mortos. Mas mesmo essas novas casas se acham agora desertas. Galhos e mato seco, cobras e lagartos, líquens e musgos são os únicos moradores, quando a natureza começa a retomar sua pedra, acolhendo as paredes de calcário, os pilões de basalto e as lâminas de sílex de volta à terra. O mesmo se dá em Abu Hureyra — as pessoas se foram, as moradas vazias deixadas para desmoronar, artefatos abandonados e esquecidos.

A data é 10800 a.C. A vida sedentária da aldeia existe apenas nas histórias, passadas de geração em geração, de pessoas que vivem em acampamentos transitórios espalhados por todas as matas que resistem e a agora estepe que mais parece deserto. A conquista cultural dos natufianos persiste não mais como um débil eco nos artefatos, trajes e costumes sociais dessas pessoas — pessoas às quais os arqueólogos se referem como natufianos tardios. Muitas delas se reúnem periodicamente em ‘Ain Mallaha, El-Wad ou Hayonim, trazendo os ossos de seus mortos para reenterrá-los junto dos ancestrais, no que se tornaram sítios sagrados, existindo naquele mundo de sombras entre a história e o mito.

O experimento de vida aldeã sedentária durou quase 2 mil anos, mas acabou fracassando, obrigando as pessoas a retornarem a um estilo de vida peripatético mais antigo.Ásia Ocidental entre 20000 e 5000 a.C. - Sítios citados no livro de Steven Mithen, After the Ice.

O Dryas Recente, mil anos de frio e seca, foi provocado pelo enorme influxo de águas glaciais derretidas no Atlântico Norte, quando as camadas de gelo norte-americano desabaram. O impacto disso nas paisagens do oeste asiático é logo visto nos grãos de pólen do núcleo de Hula. Os sedimentos depositados dentro desse lago após 10800 a.C. mostram uma impressionante redução na quantidade de pólen de árvores, indicando que grande parte da mata morrera por falta de chuva e de calor. Na verdade, dentro de 500 anos já haviam retornado a condições pouco diferentes das do LGM: um devastador colapso das reservas de alimentos, exatamente quando os níveis de população tinham alcançado um pico recorde. Com o duplo impacto de pressão populacional e deterioração climática, não ficaremos surpresos com o colapso da vida aldeã do Natufiano Inicial.

É um dia de outono em 10000 a.C. A noite desce sobre o lago Hula, aparentemente anunciada por uma revoada de gansos. John Lubbock instala-se perto de sua pequena fogueira, feliz por ver a escuridão baixar e o sono chegar. Mas em poucos minutos é perturbado por vozes humanas que vêm de um grupo cansado da estrada que passa a caminho de ‘Ain Mallaha. Alguns são velhos e andam com cajados; outros são jovens e carregados pelos cansados pais. Altos latidos vêm da aldeia caindo aos pedaços, respondidos por pouco mais que ganidos dos cachorros que viajam com essas pessoas. Para os cachorros, ‘Ain Mallaha será apenas mais um de muitos assentamentos visitados no correr de um ano. Mas para as pessoas, é um lugar sem igual — é seu lar ancestral e esta é a primeira visita que lhe fazem em muitos anos.

Suas viagens os levaram a vários outros dos seus acampamentos temporários — sítios abandonados quando a caça e as plantas locais ficaram demasiado esgotadas para sustentar a sua presença. Visitaram lugares onde pessoas tinham morrido e sido sepultadas. Em cada cova os ossos foram exumados e postos em cestos para serem trazidos para ‘Ain Mallaha. De algumas, trouxeram esqueletos quase completos, mantidos inteiros pela pele seca e os tendões; de outros, apenas o crânio. Sempre que descansavam na viagem, os velhos recordavam as visitas que seus pais e avós haviam feito a ‘Ain Mallaha, trazendo os ossos de seus mortos para reenterro. Os jovens ouviam avidamente. Sabiam as histórias de cor: que os ancestrais tinham morado em ‘Ain Mallaha o ano todo; que tinha abundância de comida; que eles enfeitavam os corpos com roupas elaboradas e joias; que o lobo se tornara cachorro.

Lubbock junta-se ao grupo e entra na aldeia de ‘Ain Mallaha, onde se fazem respeitosos e formais cumprimentos com o punhado de gente que vive nas decadentes moradas e guarda o sítio. Os cestos e os poucos pertences que eles trazem são arriados. Acende-se uma fogueira e partilha-se um pouco de comida antes que o sono os reclame a todos.

Durante os poucos dias seguintes, chegam mais grupos a ‘Ain Mallaha, cada um trazendo cestos com os ossos dos seus mortos. Quase cem pessoas já se reuniram, prontas para reviver o passado ancestral. Passam-se mais dois dias, enquanto se batem as matas em busca de caça e plantas comestíveis para os banquetes. Contam-se histórias, e torna-se a contá-las.

Lubbock ajuda na limpeza dos detritos de uma das moradas desabadas: pedras, galhos, madeiras podres e terra. Os antigos cemitérios de ‘Ain Mallaha são reabertos. Em meio a hinos e cantorias, retiram-se os corpos dos novos mortos dos cestos e colocam-nos na terra. Fazendo isso, o passado e o presente juntam-se num só. O ato de reenterro, os dias de festejos que se seguem, a vida comunitária, as histórias contadas e os banquetes recriam para os vivos os dias do passado ancestral. Esquece-se momentaneamente do desafio do presente — a luta pela sobrevivência durante a severidade da seca do Dryas Recente.

As pessoas permanecem em ‘Ain Mallaha o quanto suas reservas de comida permitem — dez dias, talvez duas semanas no máximo. Falam sem parar de onde estiveram, e do que pode guardar o futuro. Trocam presentes: pedras, conchas e, o mais intrigante de tudo, bolsas de couro com grãos de cereais, ervilha e lentilha.

Finalmente, os grupos partem para lados diferentes, cada um tendo ganhado novos membros e perdido outros. Estão todos agradecidos pela volta ao seu estilo de vida transitório nas áridas paisagens das colinas mediterrâneas, no vale do Jordão e além. Afinal, é o único estilo de vida que conheceram, e que adoram. Lubbock passou a adorá-lo também, sobretudo quando na companhia dessas pessoas que têm uma história para contar sobre cada vale e cada colina, cada poço e cada conjunto de árvores. Ele entra num grupo que parte caminhando para o sudeste, dirigindo-se para o vale do Jordão. Mochilas de sementes pendem de suas cinturas e balançam como pêndulos, parecendo conscientes do próprio tempo, sabendo que pouco resta para os que caçam e coletam seu alimento.

 

6. Jericó – vale do Jordão – 9600 a.C. – PPNA [Pre-Pottery Neolithic A – Neolítico pré-cerâmico A] – c. 7A Torre de Jericó em Tell es-Sultan

O capítulo completo foi publicado no Observatório Bíblico em 05.03.2025, com o título de A fundação de Jericó.

 

7. WF16 – Wadi Faynan, no sul da Jordânia – 9000 a.C. – c. 8

É 9000 a.C., e John Lubbock viajou de Jericó para o sul e acha-se no que se tornará o tell WF16. Está cercado pela grandeza do wadi, que tem uma cor verde vibrante, em vez dos amarelos e marrons crestados de hoje. Onde vi estéreis desertos, ele vê árvores de carvalho e pistache; figo, salgueiro e choupo crescem junto a um rio que corre pelo que hoje é um wadi inteiramente seco e sem árvores. Escuta conversa humana, o atrito de pedra contra pedra e o latido de cachorros. O cheiro de junípero recém-cortado impregna o ar. Pessoas neolíticas sentam-se diante de suas moradas fazendo e usando os mesmos artefatos que nós encontraremos um dia. Usam colares de contas e penas dos falcões cujos ossos escavaremos. Pontas el-Khiam são fixadas em juncos e furadeiras de arco; pilões e almofarizes estão em ação; paredes são construídas com varas de junípero.

Visitantes chegam trazendo obsidiana para trocar por contas de diorito e fardos de pelo de cabra. Lubbock observa os banquetes que têm lugar quando a caça foi boa e a moagem de minúsculas sementes secas quando foi ruim. Observa o enterro de um velho dentro de uma morada, a cabeça do cadáver posta num travesseiro de pedra. Depois que o piso de terra foi socado até ficar de novo plano, o crânio continua à mostra, possibilitando às pessoas trabalharem e dormirem em volta, confortadas pela continuação dessa presença em suas vidas.

Em 8500 a.C., WF16 torna-se silenciosa e Lubbock vê-se sozinho. Os aldeões neolíticos desapareceram e suas moradas foram abandonadas à natureza e a quem quer que possa encontrar e escavar o sítio.

 

8. Wadi Ghuwayr, no sul da Jordânia – 8500 a.C. – PPNB [Pre-Pottery Neolithic B – Neolítico pré-cerâmico B] – c. 8

Lubbock ouve vozes que sobem do wadi, onde ele serpeia dobrando uma curva e as rochas viram penhascos, e onde hoje se torna conhecido como Wadi Ghuwayr. Lubbock segue a margem do rio, roçando juncos luxuriantes, gansos e patos assustados. Não anda mais de 500 metros na margem do rio de rápida correnteza e encontra pessoas trabalhando. Algumas são de WF16, mas outras vieram de longe, talvez de outra parte no vale do Jordão ou de uma distância muito maior. Juntas constroem não apenas uma nova aldeia, mas também um tipo inteiramente novo de aldeia.

Trabalham na encosta acima da margem do rio a 10 ou 20 metros da beira d’água. Constroem casas retangulares; casas com sólidas paredes de pedra e pisos de argamassa. Fizeram-se terraços, e as posições das paredes de casas com 10 metros de comprimento e 5 de largura foram marcadas no chão. Algumas já se acham na metade da construção; as paredes chegam à altura do peito, feitas com seixos alisados pela água. Pedras pequenas e argamassa são empilhadas entre filas paralelas de seixos para fazer uma sólida parede de 50 centímetros de espessura — coisa muito distante das paredes de pedra seca de WF16. Em algumas casas, puseram-se mourões de madeira pouco para dentro das paredes, prontos para sustentar o peso de caibros.

Perto do sítio de construção arde uma fogueira para fazer a cal para os pisos de argamassa. Muitas centenas de nódulos de calcário foram colhidas dos limites superiores de Wadi Ghuwayr e são queimadas dentro de um poço. Quando se atinge a temperatura suficientemente alta, as pedras se desintegram em pó de cal. Em outra, parte da cal já está sendo misturada com água e despejada em grossa camada sobre uma base de pedras no chão de uma casa quase pronta. A argamassa aplaina todas os cantos, rachaduras e um raso poço central que será a lareira. Uma vez seca e dura, será pintada de vermelho e depois polida. Mais argamassa cobrirá as paredes, por dentro e por fora. Estas serão mantidas num branco brilhante.

Essas aldeias com casas retangulares de dois andares surgiram por todo o Crescente Fértil pouco depois de 9000 a.C. Com a máxima probabilidade, originaram-se em Jerf el Ahmar e Mureybet, onde se encontraram construções da transição de redondas para retangulares. A nova arquitetura espalhou-se rapidamente; um sinal das transformações sociais e econômicas que ocorreram agora que a nova agricultura com safras domesticadas realmente começou, e os números das populações subiram às alturas. Essas novas construções caracterizam a fase do Neolítico que Kathleen Kenyon designou como PPNB [Pre-Pottery Neolithic B – Neolítico pré-cerâmico B]. É outro mundo neolítico que John Lubbock tem de explorar agora.

 

9. Beidha, no Wadi Gharab, 30 km ao sul de Wadi Ghuwayr, ao norte de Petra – 8000 a.C. – PPNB – c. 9

Deixando os penhascos acima de Wadi Ghuwayr, John Lubbock anda para o sul até a noite começar a cair, num dia de primavera de 8000 a.C. Isso o leva a uma espetacular paisagem de calcário que corre como uma prateleira abaixo do planalto jordaniano. Depois de cruzar para lá e para cá o oeste asiático do Mediterrâneo ao Eufrates, está familiarizado com as árvores e reconhece com facilidade o carvalho, o pistache e o espinheiro, embora ainda não tenham atingido a fase de folhas completas. Enquanto anda, vê não apenas cabras selvagens sobre os rochedos, mas vislumbra um chacal que inicia seu trabalho noturno e uma lebre que encerra o dia. Reconhece as pegadas de javali e os restos da presa de um leopardo. Com tais animais em volta, dorme inquieto ao abrigo de um rochedo de calcário, que muda de cor quando o sol se põe em todo o vale do Jordão.

No dia seguinte, Lubbock continua a atravessar a mata, equilibrando-se de vez em quando à borda de precipícios rochosos para olhar o futuro deserto do Neguev do outro lado de um vasto abismo sem árvores. Após ter viajado cerca de 30 quilômetros desde Wadi Ghuwayr, chega à entrada de um vale amplo e aberto, com uma densa cobertura de árvores e definido por altos penhascos de calcário. Vê, muito apropriadamente, dois pássaros negros gritando alto, pois esse é Wadi Gharab — o vale dos corvos. Abriga a primeira cidade que Lubbock tem a oportunidade de visitar; é de fato uma das primeiríssimas cidades do mundo: Beidha.

A trilha de cabras transforma-se num caminho bastante utilizado no meio da mata onde muitas árvores foram derrubadas. Isso logo dá lugar a pequenos campos com cereais que acabam de brotar, ervilhas e pequenos brotos de uma safra desconhecida — linho. E então ele vê, ouve e sente o cheiro de cidade — uma massa de moradas de pedra retangulares, vozes humanas, latidos de cachorros, cabras balindo e fumaça de lenha. Aí não há indefinições entre os domínios da natureza e a cultura humana, como havia em ‘Ain Mallaha e Abu Hureyra. A cidade de Beidha é uma impressionante afirmação do desligamento humano do mundo natural, caracterizado pelos ângulos agudos e a ordenada disposição das construções, as cabras em seus cercados, a terra capinada para o plantio.

Abrangência da cultura natufianaPara entrar na cidade, ele atravessa uma baixa muralha que cerca as construções. É uma barreira ao solo arenoso que ameaça cobrir os pátios, agora que foi liberado pela derrubada das árvores. Uma trilha leva Lubbock por entre prédios para um pátio murado de cerca de 8 metros de diâmetro. É o centro da cidade. À frente dele, veem-se quatro câmaras construídas de pedra com grãos espalhados no chão — os restos de uma colheita; à esquerda/direita, a fachada de um prédio particularmente grande. Ele atravessa sua porta e entra num aposento de um branco reluzente — o piso, paredes e mesmo o teto densamente rebocados. A única cor é uma grossa faixa vermelha em torno da base das paredes. No centro, ergue-se uma coluna de pedra não cortada de 1 metro de altura. Atrás dela, há uma entrada para um segundo e maior aposento. É igualmente vazio e deslumbrante, com os mesmos reboco branco e faixa vermelha, que também circundam uma lareira no meio do piso e uma bacia de pedra perto da entrada. No canto oposto, um poço revestido de pedra. E é só isso. Nenhum móvel a sugerir uma casa, nem pedra lascada ou fragmentos de ossos a sugerir uma oficina, nem efígies esculpidas a sugerir um lugar de ritual ou culto, e — o mais assustador — nenhuma pessoa visível a trabalhar ou brincar.

Deixando o grande prédio, Lubbock anda entre as casas até chegar a outro pátio — menor que o último, não pavimentado e dando acesso a duas casas vizinhas. Cada uma tem de três a quatro degraus para um andar de cima, e um número semelhante para um porão embaixo. Lubbock escolhe uma casa na qual ouve vozes, sobe a escada e entra num aposento em que oito ou nove pessoas se sentam em esteiras de palha, em torno de uma lareira central. Há adultos e crianças, homens e mulheres; alguns dividem pão e carne, outros inalam fumaça de folhas. Todo o aposento está cheio de fumaça que só lentamente atravessam os juncos que formam o telhado. Os olhos de Lubbock enchem-se de lágrimas.

As pessoas espremem-se juntas; parece provável que uma família esteja recebendo outra. Suas roupas impressionam — atestado de outra pequena revolução que ocorreu durante o último milênio, e que passou praticamente despercebida pelos arqueólogos. Todas as pessoas citadas anteriormente nessa história usavam roupas feitas de couro ou pele, ou muito ocasionalmente de fibras trançadas. As de Beidha vestem com elegância tecidos feitos de tecelagem; usam a primeira forma de linho, tingido de verde e transformado em túnicas e saias.

Lubbock continua dentro da casa em Beidha, examinando cestos impermeáveis no chão e uma pilha de tricô. Pedras quentes da lareira são de vez em quando jogadas dentro dos cestos, para aquecer o líquido dentro — chá de hortelã. Um denso monte de peles, couros e tecidos no outro lado da sala sugere uma área de dormir. Uma criança jaz sobre elas com uma pele pálida e doentia. Como Lubbock tantas vezes viu em outras partes, a mortalidade infantil em Beidha é alta — uma coisa que [a arqueóloga] Diana Kirkbride descobriu quando desenterrou os muitos esqueletinhos enterrados sob os pisos.

Lubbock descobre que o trabalho se faz sobretudo no porão. Este tem um piso de terra e grossas paredes que contêm seis pequenas câmaras, três de cada lado de um curto corredor. Lajes de pedra no chão proporcionam sólidas superfícies de trabalho — algumas cobertas com lascas de pedra, outras com fragmentos de osso e chifre cortados jogados fora. Algumas câmaras foram usadas para triturar pedras em contas, outras para trabalhar couro. As duas câmaras mais próximas da entrada têm grandes mós usadas para fazer farinha de trigo e cevada.

O passeio de Lubbock entre os becos e pátios de Beidha oferece-lhe novas experiências. Nos assentamentos de caçadores-coletores que visitou houve poucas surpresas — ele quase via de um extremo da aldeia ao outro, e todos pareciam conhecer os assuntos de todos os demais. Ali, como em outras cidades neolíticas, dobrar quase qualquer esquina pode levar a uma surpresa — inesperados grupos de pessoas, uma lareira ao ar livre, uma cabra amarrada. As pessoas simplesmente não podem saber o que se passa em outra parte da cidade — mesmo apenas a alguns metros de distância — porque muita coisa se passa por trás de grossas paredes. O número de habitantes se tornou demasiado grande para as pessoas conhecerem os assuntos e parentes umas das outras. Lubbock sente que há uma atmosfera de desconfiança e ansiedade, trazida pelo impacto da vida urbana numa mentalidade que evoluiu para viver em comunidades menores.

É hora de Lubbock deixar Beidha. Embora novos prédios ainda estejam sendo construídos, a cidade será abandonada dentro de poucas gerações. A viagem de Lubbock é para o norte — um retorno a Jericó, e depois para a cidade de ‘Ain Ghazal. Sua temporada em Beidha ofereceu apenas uma visão parcial dos novos habitantes de cidades da era neolítica — uma visão em grande parte centrada em suas vidas domésticas — e portanto ele tem de visitar esses assentamentos para ficar sabendo mais sobre o mundo sagrado delas.

Um passeio pela pré-história com John Lubbock 1

No livro After the Ice: A Global Human History, 20,000 – 5000 BC. London: Weidenfeld & Nicolson, 2011, o autor, Steven Mithen, explica no prefácio:

Este livro é uma história do mundo entre 20000 e 5000 a.C. Foi escrito para aqueles que gostam de pensar no passado e desejam saber mais sobre as origens da agricultura, das cidades e da civilização. E também para os que pensam no futuro. O período em discussão foi o de aquecimento global, durante o qual surgiram novos tipos de plantas e animais — espécies domésticas que sustentaram a revolução agrícola (…)MITHEN, S. After the Ice: A Global Human History, 20,000 – 5000 BC. London: Weidenfeld & Nicolson, 2011, 664 p.

Este livro faz perguntas simples sobre a história humana: o que aconteceu, quando, onde e por quê? Oferece respostas entremeando uma narrativa histórica com argumentos causais. Ao fazê-lo, atende também aos leitores que perguntarão: “como sabemos disso?” — muitas vezes uma pergunta muito apropriada quando os indícios arqueológicos parecem tão escassos. E After the Ice [Depois do Gelo] faz outro tipo de pergunta sobre o passado: como era viver em tempos pré-históricos? Qual era a experiência do dia a dia daqueles que viveram o aquecimento global, uma revolução agrícola e a origem da civilização?

E no capítulo 1 ele diz:

Este livro conduz alguém dos tempos modernos aos pré-históricos: alguém para ver os instrumentos de pedra sendo feitos, os fogos ardendo nos lares e as moradas ocupadas; alguém para visitar as paisagens do mundo da era do gelo e vê-las mudar. Escolhi um rapaz chamado John Lubbock para essa tarefa. Ele visitará cada um dos continentes, começando no oeste da Ásia e seguindo pelo mundo afora: Europa, as Américas, Austrália, leste da Ásia, sul da Ásia e África. Viajará da mesma forma como os arqueólogos escavam — vendo os mais íntimos detalhes das vidas das pessoas, mas incapaz de fazer qualquer pergunta e com sua presença inteiramente desconhecida. Farei comentários para explicar como os sítios arqueológicos foram descobertos, escavados e estudados; as formas como contribuem para nossa compreensão de como surgiram a agricultura, as cidades e a civilização.

Quem é John Lubbock? Ele vive em minha imaginação como um rapaz interessado no passado e com medo do futuro — não o seu próprio, mas o do planeta Terra. Tem o mesmo nome de um polímata vitoriano que, em 1865, publicou seu próprio livro sobre o passado e intitulou-o Prehistoric Times [Tempos pré-históricos]. O John Lubbock vitoriano (1834-1913) era vizinho, amigo e seguidor de Charles Darwin. Foi um banqueiro que instigou reformas financeiras-chave, um membro liberal do Parlamento que apresentou a primeira legislação para proteção de monumentos antigos e férias em bancos (públicos), um botânico e entomologista com muitas publicações científicas em seu nome.

[Mas] vou mandar um John Lubbock dos dias de hoje para os tempos pré-históricos, levando um exemplar do livro de seu xará. Lendo-o em remotos cantos do mundo, ele apreciará tanto os feitos do John Lubbock vitoriano quanto o notável progresso que os arqueólogos fizeram desde a publicação de Prehistoric Times menos de 150 anos atrás [em 2025: 160 anos atrás]. Utilizo John Lubbock para garantir que esta história seja sobre a vida das pessoas e não apenas sobre os objetos encontrados pelos arqueólogos.

 

Nestes 3 posts transcrevo apenas os trechos em que John Lubbock aparece em sua viagem na pré-história da Ásia Ocidental. No livro, o autor, após mostrar a visita de John Lubbock a um assentamento pré-histórico, descreve a descoberta arqueológica do sítio em questão e apresenta resultados, interpretações e perspectivas.

Quem quiser conferir um exemplo do texto completo, pode ler o post A fundação de Jericó, publicado no Observatório Bíblico em 05.03.2025.

Os links para todas as postagens sobre a pré-história podem ser acessados em O Crescente Fértil na Pré-história e na Idade do Bronze, post publicado no Observatório Bíblico em 06.09.2025.

 

Sumário

Post 1

1. Ohalo – margem oeste do lago de Genesaré – Israel – 20000 a.C. – c. 2 e 3
2. Azraq – Jordânia, 100 km ao sul do lago de Genesaré – 20000 a.C. – c. 3
3. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 12300 a.C. – cultura natufiana – c. 4

Post 2

4. Abu Hureyra – nas margens do Eufrates, noroeste da Síria – 11500 a.C. – cultura natufiana – c. 5
5. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 10800 e 10000 a.C. (Dryas Recente) – c. 6
6. Jericó – vale do Jordão – 9600 a.C. – PPNA [Pre-Pottery Neolithic A – Neolítico pré-cerâmico A] – c. 7
7. WF16 – Wadi Faynan, no sul da Jordânia – 9000 a.C. – c. 8
8. Wadi Ghuwayr, no sul da Jordânia – 8500 a.C. – PPNB [Pre-Pottery Neolithic B – Neolítico pré-cerâmico B] – c. 8
9. Beidha, no Wadi Gharab, 30 km ao sul de Wadi Ghuwayr, ao norte de Petra – 8000 a.C. – PPNB – c. 9

Post 3

10. Jericó – vale do Jordão – 7000 a.C. – PPNB – c. 10
11. ‘Ain Ghazal, no Wadi Zarqa – Jordânia – 6500 – PPNB – c. 10
12. Bouqras, no Eufrates, confluência com o rio Khabur – Síria – c. 11
13. Nevali Çori, margem oriental do Eufrates – Turquia – c. 11
14. Çatalhöyük, na Turquia – 7000 a.C. – c. 11

 

1. Ohalo – margem oeste do lago de Genesaré – Israel – 20000 a.C. – c. 2 e 3

Enquanto as pessoas de Pushkari [na Ucrânia, em 20000 a.C.] costuram suas roupas e o artista pinta dentro de Pech Merle [na França, em 20000 a.C.], outros caçam cangurus nos matagais da Tasmânia, antílopes nas savanas do leste africano e pescam no Mediterrâneo e no Nilo. Esta história visitará esses e outros caçadores-coletores, e depois examinará como o aquecimento global mudou as vidas de seus descendentes. Começa, porém, no Crescente Fértil — um arco de montanhas ondulantes, vales fluviais e bacias lacustres hoje coberto pela Jordânia, Israel, Palestina, Síria, sudoeste da Turquia e Iraque. É onde surgirão os primeiros camponeses, cidades e civilizações.

Uma reconstrução possível do acampamento de Ohalo - Fonte: Nadel, D. (ed.) Ohalo II - A 23,000 Year-Old Fisher-Hunter-Gatherers’ Camp on the Shore of the Sea of Galilee. Haifa: Hecht Museum, 2002Um sítio de acampamento de caçadores-coletores floresce na margem oeste do lago Tiberíades, também conhecido como mar da Galileia. Quando escavado por arqueólogos, o sítio será chamado de Ohalo e reconhecido como um dos assentamentos mais bem preservados do LGM [Last Glacial Maximum = Último Máximo Glacial]. Localizado longe das camadas de gelo e paisagens de tundra, a floresta de carvalho não fica distante. As moradas são feitas de galhos de arbustos, as pessoas usam roupas de couro e fibras vegetais. Uma nova choupana está em construção: arbustos cortados foram enfiados no chão e são trançados para formar um domo. Montes de galhos folhudos e couros de animais foram preparados para ser usados como material para o telhado. Esse trabalho de construção envolve muito menos esforço que o necessário em Pushkari; na verdade, a vida em Ohalo parece mais atraente em todos os aspectos.

Muita gente se espalha ao longo da margem do lago: alguns grupos conversam sentados, crianças brincam, velhos dormitam ao sol da tarde. Uma mulher aproxima-se das choupanas, vindo da beira d’água, com uma cesta de peixes recém-pescados, e outras penduram redes sobre barcos recobertos de couro para secar. A mulher chama os filhos para entrar com ela em sua moradia, onde os peixes serão enfiados em cordões e pendurados para secar.

Duas mulheres saem da mata trazendo raposas e lebres recém-abatidas. Seguem-se vários homens com uma gazela amarrada numa vara. Aparecem mais mulheres, e depois crianças, com sacos e cestos carregados de todas as formas imagináveis — na cabeça, arrastados pelo chão, pendurados nos ombros, amarrados na cintura. As carcaças são postas junto de uma fogueira e sacos e cestos esvaziados em couros. Caem montes de frutas, sementes, folhas, raízes, cascas e talos de plantas. Haverá um banquete esta noite. Um rapaz está parado no meio dessa movimentada cena aldeã, inteiramente despercebido pelos que trabalham e brincam. É John Lubbock, e Ohalo em 20000 a.C. é onde começam suas viagens pela história humana.

Incapaz de dormir, John Lubbock fica sentado à beira do lago, vendo os morcegos em ação e desfrutando a brisa noturna. Do outro lado da água, silhuetas de gamos que pastam recortam-se ao luar na borda da mata. Ele tem às suas costas as choupanas de Ohalo, a alguns metros da beira d’água e agora inteiramente vazias, pois as pessoas dormem sob as estrelas, em torno da fogueira fumegante. Os pisos da choupana foram deixados sujos — alguns com lascas de pedra espalhadas, outros com os detritos de uma refeição recente. Fieiras de peixes e feixes de ervas pendem dos caibros lá dentro, cestos de vime e gamelas amontoam-se contra as paredes.

Alguém suspira e se vira, uma criança chora e é consolada. As árvores farfalham quando uma brisa forte sopra entre as choupanas de Ohalo; a fogueira emite um estalo e uma faísca fulgente eleva-se no ar. Sobe em espiral e depois desce flutuando, não na fogueira, mas adiante, no mato seco que cobre o telhado de uma choupana.

Fumaça de madeira. Lubbock inspira-a fundo, supondo que vem como uma fagulha do fogo que morre. Mas a fumaça continua e aumenta; torna-se uma nuvem pungente, visível. Tossindo e voltando-se, ele vê a choupana em chamas. As pessoas acordaram e a desmontam, abafando o fogo com os pés e correndo em busca de água. Mas a brisa suave derrota com facilidade tais esforços frenéticos — levanta uma dezena de talos, folhas e galhos ardentes e espalha-os por toda a volta. Uma segunda e uma terceira choupana estão agora em chamas. As pessoas se retiram. Protegendo os rostos e apertando com força as crianças, juntam-se à beira do lago para ver arder seu acampamento.

O incêndio em Ohalo pode não ter levado mais de alguns minutos para reduzir um grupo de choupanas a círculos de tocos calcinados. Se começou dessa forma ou por outro meio, não se sabe em absoluto — talvez fosse um incêndio deliberado das choupanas infestadas de pulgas e piolhos. Mas o que pode ter sido trágico para as pessoas de Ohalo foi uma bênção para os arqueólogos do século XX. Dentro de poucos anos, a água do crescente nível do lago inundou o sítio, protegendo-o da decomposição. Ohalo perdeu-se da vista e da memória humanas até que uma seca em 1989 causou uma queda de 9 metros no nível da água e deixou à mostra círculos de carvão onde antes havia as moradas feitas de arbustos.

De manhã, as pessoas de Ohalo vasculham as cinzas quentes e os restos ainda fumegantes de seu acampamento. Pegam uns poucos artigos valiosos — um cabo de faca de osso com lâmina de pedra encaixada, uma esteira que escapou às chamas, um arco queimado que pode ser consertado. Com essas coisas, partem para a floresta de carvalho, em busca de outro lugar para acampar.

Fossem eles camponeses, em vez de caçadores-coletores, o incêndio teria destruído mais que choupanas de arbustos; com muita probabilidade, moradas feitas de madeira, currais de animais, cercas e grãos armazenados; seus rebanhos poderiam ter fugido ou mesmo morrido nas chamas. Em vez de abandonar o sítio à natureza, os camponeses teriam tido de permanecer e reconstruir, por causa de seu investimento na terra em volta: abertura de clareiras na floresta, construção de cercas e plantio de safras. Mas as pessoas de Ohalo podem simplesmente desaparecer na mata, dirigindo-se para a planície costeira mediterrânea a oeste. Lubbock decide que a mata pode esperar e parte para contornar o lago, meter-se no matagal e entre as árvores, rumo às baixas colinas a leste.

 

2. Azraq – Jordânia, 100 km ao sul do lago de Genesaré – 20000 a.C. – c. 3

O indício do pólen deixa claro que quando os caçadores-coletores se mudaram para leste, afastando-se das terras costeiras mediterrâneas, a floresta desapareceu, deixando algumas árvores espalhadas dentro de matagais, arbustos e ervas — uma estepe florestal. Assim que se cruzava o Jordão, as árvores se tornavam menos abundantes, embora sobrevivendo nas encostas que levavam ao planalto; e quando se andava mais para leste, os próprios matagais e arbustos diminuíam até vir o deserto — exatamente como existe hoje. Mas dentro desse deserto havia oásis, notadamente em Azraq, onde lagos interiores atraíam não apenas muitos pássaros e animais, mas também caçadores e coletores. E é para Azraq que Lubbock se dirige agora, após um descanso em meio a um campo de vibrantes papoulas vermelhas na estepe.

Azraq, o lugar que T. E. Lawrence, em Os sete pilares da sabedoria, chamou de rainha dos oásis, aparece quando John Lubbock sobe o último cume de pedregulhos de lava. Ele viajou 100 quilômetros desde o mar da Galileia, grande parte deles estéril deserto com temperaturas noturnas enregelantes. Agora olha o outro lado por cima das águas do lago, que reluzem aos primeiros raios do sol matinal. Gazelas atravessam delicadamente o pântano em volta; o que fora uma simples mancha roxa adiante transforma-se em folhagem, uma rica seleção de verdes, amarelos e marrons, à medida que as árvores ganham forma; o novo dia é recebido por pássaros de doce canto e minúsculos fiapos de fumaça de fogueiras nos muitos acampamentos que cercam o lago.

São de caçadores que se reuniram em Azraq para os meses de inverno, depois de passarem o verão dispersos por toda a estepe e o deserto. Agora tornam a juntar-se para trocar notícias, renovar amizades e talvez celebrar um casamento. Também trazem artigos de comércio; conchas das margens do mar Vermelho e do Mediterrâneo, gamelas de madeira escavada e peles.

Lubbock passa o dia explorando os pântanos, vendo as aves andar e nadar no lago. Quando descansa, folheia seu exemplar encadernado em couro e meio esbagaçado de Tempos pré-históricos, impressionado com os elegantes desenhos de artefatos e tumbas. O título completo é bastante revelador: Tempos pré-históricos ilustrados com vestígios antigos e as maneiras e costumes de selvagens modernos [Prehistoric Times as Illustrated by Ancient Remains and the Manners and Customs of Modern Savages].  Grande parte do livro é dedicado aos últimos, com descrições de povos tribais como os aborígines australianos e os esquimós (Inuit) como representantes vivos da Idade da Pedra. Lubbock escolhe um capítulo para ler ao acaso, e descobre que embora o autor vitoriano achasse que as pessoas pré-históricas tinham mentes infantis, apreciou as habilidades delas na fabricação de instrumentos, sobretudo no trabalho em pedra.Ásia Ocidental entre 20000 e 5000 a.C. - Sítios citados no livro de Steven Mithen, After the Ice

No fim da tarde, Lubbock chega a um pequeno acampamento logo abaixo do afloramento de basalto e ao lado de um poço de água doce que brota de uma fonte. Tem um abrigo simples: couros de gazela amarrados com tendões e apoiados num pau de cumeeira e estacas mantidas eretas por calços de pedra. Nada desse abrigo restará para os arqueólogos descobrirem, em contraste com as atividades do lado de fora, onde um homem e uma mulher geram uma enorme quantidade de lascas de pedra enquanto fazem instrumentos. Sentam-se de pernas cruzadas, usando colares feitos de conchas tubulares conhecidas por nós como dentálio. Uma criança sentada ali perto brinca com nódulos de pedra, e sem o saber aprende as artes de fazer instrumentos. Uma outra muito mais jovem dorme à sombra do abrigo, onde uma velha mói devagar sementes num pilão de basalto. Uma lebre pende do pau de cumeeira.

Outro membro do grupo empenha-se numa tarefa crucial para a sobrevivência humana em todo o mundo pré-histórico: fazer fogo. Uma jovem agachada prende um pedaço de madeira no chão com os dedos dos pés. Tem nas mãos uma fina vareta de madeira mais mole, que gira com muita rapidez num pequeno buraco na madeira mais dura, tendo acrescentado alguns grãos de areia para aumentar o atrito. Dentro de poucos instantes, acumula-se um montinho de pó, que depois arde. Ela põe uns fiapos de mato seco e logo tem fogo para uma fogueira próxima. Lubbock verá essa técnica usada repetidas vezes em todo o mundo; uma técnica que ele próprio vai aperfeiçoar. Também verá outra: fazer fagulhas batendo pedras quebradiças uma na outra. Mas no momento, seu interesse é observar a fabricação de instrumentos de pedra, para ver se seu xará vitoriano estava correto sobre o grau de habilidade exigido.

Os que trabalham com pedra conversam enquanto o fazem, às vezes praguejando quando uma ótima lâmina se quebra acidentalmente, às vezes comentando uma concha fóssil que aparece quando o nódulo se parte pela metade. Lubbock pega um nódulo e um martelo de pedra e tenta fazer uma lâmina; mas consegue apenas duas grossas lascas e um dedo ensanguentado. Lembra-se de um trecho de Tempos pré-históricos sobre instrumentos de pedra: “Por mais fácil que pareça fazer tais lascas, um pouco de prática convencerá qualquer um que tente fazê-lo, de que é preciso um certo jeito; e que também é necessário ter cuidado na escolha da pedra.”

Lubbock observa dois homens chegarem ao acampamento em Wadi el-Uwaynid. Eles andaram caçando sem muito sucesso. Com o cair da noite, a lebre é assada num espeto e comida com uma grossa papa servida em cascos de tartaruga. Chegam visitantes de acampamentos próximos, exigindo que se prepare mais comida e se ponha mais lenha na fogueira. Logo, pelo menos vinte pessoas estão reunidas, e suas conversas fundem-se imperceptivelmente num canto baixo. Lubbock sobe num penhasco de basalto próximo e olha o tênue abrigo embaixo, a fogueira e a multidão sentada. Estrelas surgem e a lua sai. É uma cena repetida não apenas por todo Azraq, mas também por todo o oeste da Ásia — um mundo de caçadores-coletores conhecido dos arqueólogos apenas pelos depósitos de artefatos de pedra que deixaram para trás.

 

3. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 12300 a.C. – cultura natufiana – c. 4

De Wadi el-Uwaynid, Lubbock viajou 150 quilômetros e mais de seis milênios para chegar de volta às densas matas da região mediterrânea. A data é 12300 a.C., e ele está parado na margem ocidental do lago Hula numa tarde de outono, olhando as colinas cobertas de carvalhos, amêndoas e pistache a oeste. Aninhado na encosta voltada para o leste, vê-se um assentamento com os vermelhos, castanhos-avermelhados e marrons de moradas de couro e arbustos fundindo-se de forma quase inconsútil com a mata em volta. É muito maior que qualquer outro assentamento que Lubbock já viu, e merece realmente ser chamado de aldeia.

Por entre brechas nas folhudas árvores John Lubbock vê cinco ou seis moradas alinhadas ao longo da mata da encosta. São cortadas na própria terra, com pisos subterrâneos e baixas paredes de pedra que sustentam telhados de palha e couro. Com moradas tão bem construídas e ordenadas, a aldeia parece muito diferente do que agora parecem assentamentos planejados ao acaso e construídos às pressas em Ohalo e Azraq. É evidente que as pessoas planejaram viver nessa aldeia o ano todo. É ‘Ain Mallaha, uma aldeia do novo estilo de vida surgido dentro das florestas de carvalho que crescem por todas as montanhas mediterrâneas. Mais que um novo estilo de vida — uma cultura completamente nova, que os arqueólogos chamam de natufiana. Ofer Bar-Yosef, professor de arqueologia em Harvard e deão da arqueologia do oeste asiático, acredita que essa cultura seja o “ponto sem retorno” na estrada para a agricultura.

Abrangência da cultura natufianaParado no limiar da aldeia, Lubbock observa sua gente a trabalhar. São altos e saudáveis, bem vestidos com roupas feitas de pele, alguns usando pingentes de conchas e contas de osso. Exatamente como em Ohalo, o trabalho principal é transformar plantas selvagens em comida, plantas colhidas na mata e na estepe florestal. Mas o empreendimento deles é agora bastante diferente, em escala muito maior e trabalho muito mais árduo. Os pilões de pedra que usam têm proporções de rochedos. São muitos braços no trabalho — moendo, malhando, debulhando e cortando. Cestas de bolotas e amêndoas esperam para ser abertas e depois trituradas em farinha e pasta.

Lubbock passeia entre os trabalhadores, olhando por cima de seus ombros, roubando um pouco de polpa de amêndoa para provar. Aromas de gostos vegetais triturados e fumaça de lenha fundem-se com o pilar ritmado dos pilões, a conversa em voz baixa dos adultos e o riso das crianças. Mas nem todos os adultos trabalham; alguns sentam-se ociosos ao sol da tarde; pelo menos duas mulheres estão no término da gravidez. Outra encosta-se na parede de uma morada com um cachorro adormecido no colo. Lubbock passa e entra na morada. Os restos da habitação acabarão por ser escavados pelo arqueólogo francês Jean Perrot em 1954 e ficarão conhecidos sem nenhum glamour como n° 131.

A morada 131 é um pouco maior que as outras, talvez 9 metros de largura, permitindo que cinco ou seis pessoas se sentem ou durmam com conforto. Partes do interior são escuras e bolorentas; por toda parte, raios partidos de sol da tarde entram pelo telhado de palha, sustentado por mourões internos mantidos de pé e estabilizados por calços de pedra. Peles forram as paredes de pedra e esteiras de palha cobrem o chão.

Logo após a entrada há cinza espalhada onde uma fogueira ardeu na noite anterior para impedir as mordidas dos insetos à solta. Outro fogo agora fulge no centro do piso; um homem agacha-se ao lado e depena uma fieira de perdizes. Corta as aves nas juntas e as põe para assar sobre lajes de pedra quente. Atrás dele, uma terceira fogueira arde, servindo de centro para alguns jovens que consertam arcos e flechas. Usam-se pedras chatas com fundos sulcos paralelos para endireitar finos galhos que serão usados como varas; lascas de pedra afiadas como navalha são pregadas usando-se resina para formar pontas e barbelas.

Pilões e almofarizes de pedra, cestas de vime e gamelas de madeira empilham-se junto às paredes em volta. Dos caibros do telhado pende um grupo de instrumentos bastante diferentes de qualquer um que Lubbock tenha visto antes — foices. Os cabos de osso são enfeitados com desenhos geométricos ou foram esculpidos em forma de jovem gazela. As lâminas são feitas de cinco ou seis lascas de sílex, presas firmemente num sulco com resina. Ao balançarem, girarem e pegarem a luz do sol, as lâminas brilham, pois foram polidas pelos muitos milhares de talos de plantas que cortaram.

A curta distância da morada 131, Lubbock encontra outra, abandonada — o telhado e as paredes há muito desabaram, as fundações de pedra roubadas para uso em outra parte. Na ausência de vivos, essa morada desertada e dilapidada tornou-se um cemitério. As covas são sem marcas, mas contêm corpos ricamente enfeitados.

Há um grande pilão de pedra escavado num pedaço de rocha aflorado perto do centro da aldeia, no qual Lubbock se senta para apreciar o cenário. Lubbock vê transformarem grandes nódulos de basalto em almofarizes e pilões, a superfície de um sendo enfeitada com um complexo desenho geométrico. Ouve o quebrar da pedra, o som de vozes e o latido dos cachorros. Observa as pessoas fazendo contas — cortando conchas de dentálio em segmentos e enfiando-os num barbante. A gamela onde pegam as conchas também contém um bivalve das águas do Nilo. Talvez tenha sido trocado de pessoa a pessoa, assentamento a assentamento, até viajar pelo menos 500 quilômetros para o norte; ou talvez fosse a lembrança de uma longa viagem feita por um dos aldeões de ‘Ain Mallaha.

Lubbock deixa a aldeia pela mata quando a luz começa a morrer. Diminuem as batidas, perde-se o ritmo, e depois param, como pára a quebra das pedras. As pessoas de ‘Ain Mallaha voltam para suas moradas ou reúnem-se em volta das fogueiras. A conversa em voz baixa transforma-se num canto baixo. Camundongos e ratos saem para alimentar-se de nozes e sementes que caíram no chão; os cachorros, para espantá-los.

Com a última luz, Lubbock lê mais um pouco de Tempos pré-históricos. Embora decepcionado por não encontrar nada sobre o oeste da Ásia, dois trechos parecem importantes para ‘Ain Mallaha. Num, o xará vitoriano reuniu minúsculos fiapos de indícios para sugerir que os cachorros foram a primeira espécie domesticada. Mas em outro parece haver errado completamente:

“o verdadeiro selvagem não é livre nem nobre; é um escravo de suas necessidades, suas paixões; imperfeitamente protegido do clima, sofre de frio à noite e do calor do sol durante o dia; ignorando a agricultura, vivendo da caça, e imprevidente no sucesso, enfrenta sempre a fome, que muitas vezes o leva à pavorosa alternativa de canibalismo ou morte”.

O John Lubbock moderno desejaria poder mostrar ao xará as sólidas casas, as roupas e os alimentos agora comidos na aldeia — tudo feito pelas pessoas que ignoram inteiramente a agricultura, mas parecem nobres e livres. Cai no sono quando o canto natufiano se funde imperceptivelmente com o das corujas e o arranhar dos besouros.

Os primeiros raios de sol que atravessam os folhudos galhos mosqueiam o chão; Lubbock acorda e ouve passos e vozes que se aproximam vindo da mata. Quatro homens e dois meninos retornam a ‘Ain Mallaha após uma excursão de caça de madrugada. Trazem três carcaças de gazelas, já estripadas e parcialmente cortadas, mas deixando uma trilha de sangue entre as árvores.

Na aldeia, as carcaças são penduradas dentro de uma morada, longe do sol e das moscas. Quando assadas, a carne será zelosamente dividida entre a família e os amigos. Os caçadores são acolhidos de volta e contam a história da caça — como os homens esperaram emboscados enquanto os meninos perseguiam e espantavam os animais em meio a uma chuva de flechas. Conversa-se sobre as várias pegadas e trilhas de animais que viram, e as mulheres ficam sabendo de plantas comestíveis que pareciam prontas para a coleta. Duas moças pegam um cesto e saem para um campo de cogumelos, esperando alcançá-lo antes dos gamos. Lubbock decide segui-las.

Um cachorro decide seguir as duas moças. Passa saltando por Lubbock, muito parecido com um lobo, e logo desaparece no mato baixo. A tentativa de segui-las logo é abandonada por Lubbock, pois as mulheres andam depressa, usando um labirinto de trilhas minúsculas mas bem palmilhadas que serpenteiam entre grupos de carvalhos e amendoeiras e passam por macegas de tremoços e moitas de pilriteiro. O arqueólogo perde a trilha delas e vê-se em mato mais aberto perto dos pântanos que bordejam o lago da bacia Hula. As trilhas continuam e tratos de plantas cultivadas encontram-se à sombra dos carvalhos. Entre estas, há ervilhas e trigo selvagem com pesadas espigas de grãos curvadas. Lubbock senta-se junto a um desses campos para descansar, ouvindo o cachorro latir ao longe.

John Lubbock passa a manhã lendo Tempos pré-históricos e observando pássaros no mundo natufiano da bacia do Hula. Depois que o sol subiu e queimou as poucas eSteven Mithen (nascido em 1960) ralas nuvens matinais, dois abutres circularam no limpo céu azul; uma revoada de gansos chegou ao lago e depois pássaros canoros pousaram no trigo selvagem para alimentar-se do grão. Exatamente quando Lubbock decide voltar a ‘Ain Mallaha, chega um grupo de mulheres e posta-se bem a seu lado para inspecionar o trigo. Praguejam um pouco, porque o grão amadureceu mais depressa que o esperado e elas sabem que grande parte agora será perdida. Dentro de minutos, as mulheres estão em ação, cortando os talos com as foices de lâmina de sílex que Lubbock vira penduradas dentro da morada 131. Cortam os talos na base, para terem a palha, além do grão; exatamente como temiam, as espigas se despedaçam quando tocadas, espalhando muitas das espiguetas — a semente com o longo talo pegado — no chão. Trabalhando rápido, elas pegam os montes de talos e espigas e amarram-nos em feixes.

De volta à aldeia, as espigas são malhadas em gamelas para soltar as espiguetas que restam; pedras em brasa são acrescentadas e mexidas em volta. Lubbock depreende que isso torra as espiguetas e as deixa bastante quebradiças. Depois, são despejadas em pilões de madeira e moídas para soltar o grão; despejam-se os pilões em bandejas de casca de árvore, que são agitadas para fazer a separação e tirar a casca. O grão volta aos pilões e é então finamente triturado, tornando-se farinha; após ser misturado com água e transformado em massa, é cozido como panquecas chatas em pedras quentes, não mais que poucas horas depois de estarem crescendo nas hortas selvagens de ‘Ain Mallaha.

Os primeiros agricultores no sudoeste da Ásia 2

Minha perspectiva é a seguinte:

:. estou cada vez mais convencido de que a Bíblia Hebraica / Antigo Testamento só existe por causa do exílio babilônico
:. do que resulta o seguinte: para quem estuda a Bíblia Hebraica / Antigo Testamento e a História de Israel, como eu, ter, pelo menos, uma visão geral das culturas mesopotâmicas é imprescindível para a compreensão dos textos e seus contextos
:. mas aí percebo um problema: chego até os sumérios e sua cultura, até por volta de 3500 a.C., e paro aí. Mas como se chegou a isso? O que existia antes disso?
:. e então comecei a perceber a necessidade de um mergulho na pré-história da região
:. existe excelente material para isso, que venho percorrendo desde o início de 2025 (veja os livros que estou lendo em meu Instagram)
:. o que se segue é parte desta trajetória, que já comecei a apresentar no Observatório Bíblico em 05.03.2025, com um post sobre A fundação de Jericó.
:. Os links para todas as postagens sobre o tema podem ser acessados em O Crescente Fértil na Pré-história e na Idade do Bronze, post publicado no Observatório Bíblico em 06.09.2025.

 

O capítulo 9 do livro de FAGAN B. M.; DURRANI, N. People of the Earth: An Introduction to World Prehistory. 16th ed. Abingdon: Routledge, 2023 [1a. ed. 1971], 470 p. – ISBN 9781032365848 trata das origens da produção de alimentos no sudoeste da Ásia (The Origins of Food Production in Southwest Asia), ou seja, nas seguintes regiões: a costa leste do Mediterrâneo, o planalto dos Zagros e a Anatólia.

Brian M. Fagan (1 de agosto de 1936 – 1 de julho de 2025), arqueólogo e antropólogo inglês, foi professor de antropologia da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, USA. É autor de dezenas de livros na área, mundialmente reconhecido como uma autoridade em pré-história.

Nadia Durrani é arqueóloga e escritora formada pela Universidade de Cambridge, com doutorado em arqueologia árabe pela University College London. É coautora de vários livros com Brian M. Fagan.

A numeração dos subtítulos do capítulo e os textos entre colchetes [ ] são meus. A bibliografia foi mantida no formato original. Um quadro explicativo sobre o sitio de Göbekli Tepe, no item 3, foi omitido.

O capítulo foi publicado em dois posts:FAGAN B. M.; DURRANI, N. People of the Earth: An Introduction to World Prehistory. 16th ed. Abingdon: Routledge, 2023 [1a. ed. 1971], 470 p.
Os primeiros agricultores no sudoeste da Ásia 1
Os primeiros agricultores no sudoeste da Ásia 2

Sumário do capítulo

1. Mudanças climáticas e adaptação
2. Os primeiros agricultores
3. Santuários primitivos e possível agricultura na Anatólia
4. Jericó, na Cisjordânia, e Abu Hureyra, na Síria
5. Neolítico pré-cerâmico B
6. Os Zagros e a Mesopotâmia
7. Os primeiros agricultores na Anatólia
8. Çatalhöyük: “Casas de História”
9. Duas etapas no desenvolvimento da agricultura
10. Resumo do capítulo
11. Leituras recomendadas
12. Bibliografia citada neste capítulo

 

6. Os Zagros e a Mesopotâmia

E quanto ao sopé dos Zagros e à Mesopotâmia, a leste? Houve contatos esporádicos entre essas áreas e a costa mediterrânea, mas os desenvolvimentos culturais nessa região foram paralelos e independentes daqueles em Abu Hureyra, Mureybet, Jericó e outras localidades ocidentais.

Graças ao trabalho pioneiro de Robert Braidwood, da Universidade de Chicago, que buscou origens agrícolas nos flancos montanhosos da Mesopotâmia, sabemos mais sobre as terras altas, onde as condições agrícolas eram menos favoráveis, do que sobre a produção inicial de alimentos nas terras baixas, a estepe ondulada do norte da Mesopotâmia, onde o estado assírio floresceu milênios depois (Kozlowski, 1999). Ao sul, a planície arenosa da Mesopotâmia acumulou camadas profundas de lama ao longo do Holoceno. Os primeiros assentamentos agrícolas ali provavelmente estão soterrados sob vários metros de aluvião. Algumas pequenas aldeias agrícolas são preservadas sob grandes elevações urbanas, como as de Ur e Eridu, e datam de pouco antes de cerca de 5800 a.C.

Durante o final da Era do Gelo, grupos humanos provavelmente viviam nas terras baixas mais quentes. No início do Holoceno, as montanhas eram frias e secas, então a agricultura provavelmente começou primeiro nas terras baixas, um habitat natural para cereais e leguminosas selvagens. À medida que o clima esquentava, as pessoas se mudaram para os vales montanhosos dos Zagros, uma região de estepe aberta com recursos sazonais espaçados verticalmente nas encostas. Esta era uma região ideal para o pastoreio de ovelhas e cabras, a ponto de o pastoreio poder ter se desenvolvido mais cedo aqui do que em outras partes do sudoeste asiático, como uma adaptação a um território com recursos limitados e dispersos (Abdi, 2003).

Zawi Chemi Shanidar

Por volta de 10500 a.C., cabras selvagens eram a principal presa dos caçadores e coletores que exploravam os recursos do sopé das montanhas. Os habitantes de um pequeno acampamento chamado Zawi Chemi Shanidar, nas montanhas do Curdistão, caçavam e coletavam nessa época, vivendo em pequenas cabanas circulares. Os habitantes matavam um grande número de ovelhas imaturas, como se tivessem cercado suas pastagens para uma caça eficiente e intensiva. Zawi Chemi pode ter sido um acampamento de verão na estepe. Estudos de pólen mostram um aumento na produção de gramíneas durante a ocupação, talvez evidência de cultivo esporádico.

Ganj Dareh

No alto de um vale montanhoso próximo, encontra-se outra antiga aldeia agrícola, chamada Ganj Dareh, ocupada pela primeira vez por volta de 10000 a.C. (P. E. L. Smith, 1978). O assentamento mais antigo foi provavelmente um acampamento sazonal usado por caçadores-coletores, mas uma ocupação posterior, por volta de 8000 a.C., consistiu em uma pequena aldeia de casas retangulares de tijolos de barro, com cerca de dois andares de altura. Os andares inferiores podem ter sido usados ​​para armazenamento, pois recipientes de barro foram encontrados lá. Ganj Dareh representa o início do assentamento permanente nos Zagros, baseado na criação de cabras e gado e, possivelmente, na agricultura. Os ossos de cabra revelam uma alta proporção de machos subadultos e, principalmente, de fêmeas mais velhas, o perfil de mortalidade característico de rebanhos manejados (Zeder e Hesse, 2000).

Jarmo

Uma das aldeias agrícolas mais conhecidas dos Zagros é Jarmo, uma aldeia permanente nas colinas a sudeste de Zawi Chemi, ocupada por volta de 7000 a.C. (Braidwood e Braidwood, 1983). Jarmo era pouco mais do que um conjunto de 25 casas construídas com tijolos de barro, formando um amontoado irregular separado por pequenas vielas e pátios. Utensílios de armazenamento e fornos de barro eram parte integrante das estruturas. Os depósitos de Jarmo revelaram abundantes vestígios de agricultura: sementes de cevada, trigo emmer e pequenas culturas foram encontradas junto com ossos de ovelhas e cabras. A caça havia decaído em importância — apenas alguns ossos de animais selvagens testemunham tal atividade —, mas o kit de ferramentas ainda incluía ferramentas do tipo da Idade da Pedra, com lâminas de foice, pedras de amolar e outros implementos de cultivo. Jarmo contém materiais exóticos, como obsidiana, conchas e turquesa, comercializados de longe para os Zagros. Há também numerosos tokens de argila, talvez novamente evidências de um sistema de registro conectado ao comércio de longa distância. Jarmo era uma aldeia totalmente permanente e bem estabelecida, dedicada a uma agricultura muito mais intensiva do que suas antecessoras. Mais de 80% da alimentação dos moradores vinha de rebanhos ou plantações.

Ali Kosh e as terras baixas

Abaixo, nas terras baixas, a agricultura começou ao longo da borda oriental da planície mesopotâmica, pelo menos tão antiga quanto ao longo da costa oriental do Mediterrâneo. O sítio de Ali Kosh, na planície de Deh Luran, no Cuzistão, ao norte de onde os rios Tigre e Eufrates se encontram, registra a ocupação humana desde cerca de 7500 a.C. Ali Kosh começou como uma pequena aldeia de casas retangulares de tijolos de barro com vários cômodos (Hole et al., 1969). Com o passar do tempo, as casas tornaram-se maiores, separadas umas das outras por vielas ou pátios. As pessoas pastoreavam cabras e ovelhas, que podem ter sido levadas para pastagens nas terras altas das montanhas durante os meses quentes de verão. Esse padrão de transumância — o movimento sazonal de pastores para novas pastagens — continua na área até hoje. Emmer, einkorn, cevada e lentilhas eram cultivados desde os primeiros dias de Ali Kosh. A caça e a coleta eram importantes, assim como a captura de peixes e aves aquáticas em um pântano próximo. Este sítio arqueológico bem escavado documenta o amadurecimento da agricultura e do pastoreio nas terras baixas, com o desenvolvimento de variedades de cereais melhoradas e o surgimento da irrigação como forma de intensificar a produção agrícola.

A agricultura e a criação de gado já estavam bem estabelecidas nas terras baixas quando Ali Kosh foi fundada, por volta de 7500 a.C. Assim como ao longo da costa, o cultivo de cereais e a criação de animais provavelmente foram desenvolvidos inicialmente por grupos de caçadores-coletores no início do Holoceno.

Início da agricultura no sudoeste da Ásia, Europa e vale do Nilo

 

7. Os primeiros agricultores na Anatólia

A Anatólia (Turquia) era um ambiente diversificado, de terras altas e baixas, favorável à ocupação humana desde o início do Holoceno. A produção de alimentos provavelmente começou nesta região mais ou menos na mesma época que no Levante, mas a pesquisa arqueológica ainda está em seus estágios iniciais (para um levantamento útil, veja Özdogan e Basgelen, 1999; Hodder, 2011, 2019). As primeiras descobertas vêm do sudeste.

Os cursos superiores dos rios Eufrates e Tigre drenam o planalto da região de Urfa, no sudeste da Turquia. Trata-se de uma região de colinas áridas e calcárias, onde os verões são quentes e secos, os invernos úmidos e solos diversos sustentam plantações naturais de cereais silvestres, tornando-se ideais para a agricultura. Pesquisas de DNA identificaram as montanhas Karacadag, nesta área, como a terra natal original do einkorn domesticado. Enquanto isso, o einkorn domesticado mais antigo conhecido no mundo foi recentemente identificado na cidade de Sanliurfa Yeni-Mahalle (ainda ocupada no sudeste da Turquia) e data de 9400 a.C. (Çelik, 2011).

Urfa foi uma região onde a agricultura começou muito cedo. Aqui, como no Levante, deve ter havido séculos de experimentação com o cultivo de cereais em tempos de seca prolongada. A caça, a coleta de alimentos e, pelo menos em parte, a agricultura ainda dependiam de tecnologia simples, notadamente uma ampla gama de moedores e outras ferramentas de processamento de grãos. No entanto, a sociedade estava mudando drasticamente de outras maneiras, com uma notável elaboração de crenças espirituais e rituais comunitários refletidos em ambiciosas estruturas comunitárias. Algumas dessas construções ocorrem em sítios como Mureybet, na Síria, já descrito, assim como em sítios de aldeias na região de Urfa.

Em Çayönü Tepesi, no sudeste da Turquia, ocupada de cerca de 8600 a 7000 a.C., o assentamento ficava em um terraço acima de um pequeno rio, com as casas retangulares dispostas em ângulos retos em relação ao rio (Braidwood e Cambel, 1980; Özdogan e Basgelen, 1999). Elas formam um arco, com um grande espaço aberto no centro. Três edifícios bastante distintos ficavam nesta praça. Um deles era continuamente reconstruído, com três celas de pedra abarrotadas de ossos humanos sob uma extremidade da estrutura. Uma cela continha mais de 40 crânios humanos. Esta “Casa dos Mortos” também revelou uma laje de pedra plana com vestígios de sangue animal e humano, como se alguns dos mortos fossem vítimas de sacrifício. Os mortos faziam parte de rituais ancestrais ou eram prisioneiros de guerra sacrificados? Nosso conhecimento das crenças religiosas durante esse período inicial é tão incompleto que a pergunta é irrespondível. Os restos mortais de pelo menos 400 pessoas jaziam nas celas. Outro edifício público era praticamente quadrado, com um piso feito de pequenas pedras prensadas em gesso e altos monólitos de pedra embutidos no piso. Essas colunas verticais, muitas vezes decoradas, podem ter servido como suporte de telhado, mas obviamente tinham outras funções também.

Em nenhum lugar tais estruturas alcançam maior elaboração do que em Göbekli Tepe, justamente famosa por insights sobre as crenças extravagantes dos primeiros agricultores.

O que devemos concluir desses sítios extraordinários, que aparentemente se situam entre a transição da caça e coleta para a produção de alimentos? Eles sugerem que rituais elaborados e uma organização social mais complexa antecederam a agricultura nessa região. Steven Mithen (2006), especialista em cognição humana, acredita que as crenças religiosas por trás dessas primeiras esculturas não apenas antecederam a agricultura, mas também podem ter levado a ela. Da mesma forma, o escavador de Göbekli, Klaus Schmidt (2006), argumenta que foi o esforço extenso e coordenado despendido para construir os edifícios monumentais, presumivelmente rituais, em Göbekli, que lançou as bases para o desenvolvimento de sociedades complexas, e que este mesmo sítio pode, de fato, desempenhar um papel crítico na transição da caça para a agricultura. Certamente, as elaboradas atividades de construção e rituais em todos os sítios mencionados teriam exigido dezenas, senão centenas, de pessoas. Alimentá-los exigiria grandes quantidades de grãos silvestres, alguns dos quais teriam caído no chão, germinado e sido colhidos novamente — uma forma de domesticação. Com o tempo, parte desse grão de qualidade Karacadag teria sido levado de volta para casa e, eventualmente, comercializado, como obsidiana e conchas, para comunidades a quilômetros de distância, talvez até mesmo em Jericó. Essa teoria oferece uma alternativa especulativa à visão comum de que a seca do Dryas Recente foi um dos principais contribuintes para a mudança — o debate não resolvido continua. Mas, qualquer que seja o ímpeto para a produção inicial de alimentos nessa região, podemos ter certeza de que isso resultou em grandes ajustes não apenas na sociedade, mas também em sua complexa relação com o cosmos e o meio ambiente.

 

8. Çatalhöyük: “Casas de História”

Em nenhum lugar, entretanto, obtemos um retrato mais claro da vida agrícola primitiva do que em Çatalhöyük, a oeste, no Planalto da Anatólia. Essa área também foi um antigo centro de produção de alimentos, além de uma importante fonte de obsidiana para a fabricação de ferramentas desde o fim da Era do Gelo. Já em 8300 a.C., aldeias floresciam perto de grandes afloramentos (Para um resumo do trabalho sobre fontes de obsidiana e sítios arqueológicos locais, veja Özdogan e Basgelen, 1999).

A maioria dos sítios neolíticos na Anatólia central e oriental eram de fácil acesso às ricas fontes de obsidiana perto do Lago Van e em outros lugares. Aldeias próximas aos fluxos vulcânicos de onde a pedra fina vinha a utilizavam quase exclusivamente para artefatos, comercializando uma grande quantidade de obsidiana com comunidades próximas e distantes na forma de núcleos de lâminas preparadas. Pequenas quantidades de obsidiana da Anatólia viajaram centenas de quilômetros ao longo da costa leste do Mediterrâneo e até o Golfo Pérsico. Análises de traços de artefatos de muitos sítios mostram que os padrões de troca eram extremamente complexos, à medida que diferentes fontes entravam e saíam de moda. Por volta de 7500 a.C., alguns desses primeiros assentamentos agrícolas ostentavam casas compactas há mil anos. Havia muitas aldeias semelhantes na Anatólia Central naquela época, mas nenhuma delas tão exaustivamente estudada quanto Çatalhöyük.

A grande elevação neolítica conhecida como Çatalhöyük Leste cobre 13,7 ha (34 acres). Era uma grande aldeia ou cidade com inúmeras pequenas casas construídas com tijolos secos ao sol, projetadas umas sobre as outras, ocasionalmente separadas por pequenos pátios com áreas de esterco entre eles. Os telhados eram planos e as paredes externas das casas constituíam uma conveniente muralha de defesa. A cidade foi reconstruída pelo menos 18 vezes ao longo de 1400 anos, presumivelmente quando as casas começaram a ruir ou a população aumentou, sendo a última ocupação por volta de 6000 a.C. O sítio arqueológico está sendo escavado em larga escala por uma equipe internacional de pesquisadores (Hodder, 2011, 2019; Özdogan e Basgelen, 1999). É muito provável que o trabalho deles mude a interpretação do sítio arqueológico aqui apresentada.Çatalhöyük

Os habitantes de Çatalhöyük nunca construíram grandes edifícios públicos, centros cerimoniais ou áreas de produção especializadas. Tampouco enterravam seus mortos em cemitérios. Todos os aspectos da vida cotidiana se desenrolavam nas casas, fossem eles seculares ou rituais. Até o momento, 166 casas foram escavadas, algumas delas agrupadas em pequenos conjuntos delimitados por monturos ou vielas estreitas, como se compartilhassem casas funerárias ancestrais e talvez laços de parentesco. A escavação meticulosa de sequências de casas não deixa dúvidas de que os mesmos grupos ocuparam as mesmas moradias, embora reconstruídas, por muitas gerações.

Muitas das casas são ricamente decoradas em um estilo artístico que exibe um simbolismo elaborado. Çatalhöyük é um rico arquivo de informações sobre a vida espiritual da época, uma época contemporânea ao PPNB e, posteriormente,às sociedades agrícolas em outras partes do sudoeste da Ásia (Hodder, 2011, 2019). Há pinturas de humanos e animais perigosos, sepultamentos em muitas das casas, crânios, às vezes destacados, de mortos, removidos após a morte, e instalações de partes de corpos de animais, como chifres de boi, em paredes e bancos. Crânios de humanos e touros plastificados circulavam e eram depositados em ocasiões importantes, como a fundação de uma casa. Havia uma forte tradição de transmissão de crânios de ancestrais de uma geração para a outra. Tudo isso revela um complexo mundo de mitos e significados reconhecidos em uma ampla área.

Quando Hodder e seus colegas mapearam os achados e as características das casas, constataram uma completa indefinição entre o secular e o simbólico, chegando ao ponto de depositar objetos que criavam memórias de eventos passados, como partes de estatuetas em lareiras ou fundações. Obsidiana depositada sob o piso, bem como símbolos pintados nas paredes, podem ter sido formas de interação com ancestrais. Para citar Ian Hodder: “As casas habitadas eram religiosas no sentido de que representavam a imaginação, a lembrança e a interação com casas passadas e com aqueles que nelas viveram” (2019: 17).

Um pequeno número de casas em Çatalhöyük contém os esqueletos de muito mais pessoas do que poderiam ter vivido ali; em um caso, 62 corpos para um período de ocupação familiar de 40 anos, enquanto a média é de 5 a 8. Claramente, pessoas que nunca viveram lá foram enterradas nessas moradias especiais. As casas em si foram reconstruídas ao longo de períodos mais longos do que outras e continham simbolismos mais elaborados, cada uma cuidadosamente colocada sobre a estrutura anterior. Cada uma dessas estruturas tinha uma história para seus habitantes, a ponto de eles às vezes escavarem em casas antigas por baixo para recuperar crânios de touro. Dentes de sepultamentos anteriores foram colocados em sepultamentos posteriores depositados em uma reconstrução posterior. Os pesquisadores as chamam de “Casas de História”, economicamente não necessariamente diferentes de outras moradias, mas com um status que pode ter envolvido o controle da história, da religião e do acesso aos ancestrais. Elas também podem ter desempenhado um papel importante em festas cerimoniais envolvendo touros selvagens que tinham associações míticas e espirituais. As Casas de História de Çatalhöyük podem ter fornecido e controlado rituais para um grupo de parentesco maior em uma sociedade, que ainda era igualitária, mesmo que alguns grupos de parentesco gozassem de mais prestígio do que outros.

Não podemos jamais esperar recriar o mundo simbólico de Çatalhöyük senão em termos mais gerais. A julgar pelo sítio arqueológico anterior de Göbekli Tepe e seus monólitos adornados com humanos e animais, além de outros sítios arqueológicos, havia um conjunto de temas envolvendo crânios humanos e aves de rapina, além de gado selvagem e outros animais perigosos, que circulavam amplamente pelo sudoeste asiático na época em que as pessoas se fixavam em grandes aldeias, até mesmo em pequenas cidades, e se dedicavam à agricultura. A julgar pelas semelhanças em artefatos e alguns estilos de arte de diferentes sítios, mitos, ideias, atos e crenças simbólicos eram comuns, em termos gerais, a uma vasta área, onde a vida humana estava mudando profundamente à medida que as pessoas se tornavam cada vez mais ligadas à sua terra. Essas interconexões se desenvolveram à medida em que as pessoas se estabeleciam em aldeias onde a estrutura social assumia importância cada vez maior. Eram relacionamentos de longo prazo, com histórias individuais, talvez refletidas em estruturas como as Casas de História, uma tradição de reconstrução de casas que pode remontar a tempos pré-agrícolas. Ao mesmo tempo, a história era criada e mantida pela vida sobre restos mortais humanos e pela circulação de partes de corpos. Ancestrais, humanos e animais, protegiam os mortos, a casa e seus habitantes. Associações entre animais selvagens perigosos, humanos sem cabeça e pássaros, todos esses motivos faziam parte da forte opção de continuidade que era parte central da vida em sociedades cujas rotinas giravam em torno da passagem interminável das estações.

Grande parte da prosperidade de Çatalhöyük resultou de seu monopólio sobre o comércio de vidro vulcânico de obsidiana, extraído de pedreiras nas montanhas próximas. A obsidiana, no entanto, foi apenas um dos muitos materiais comercializados pelos agricultores do sudoeste asiático após 9000 a.C. Conchas marinhas, jadeíta, serpentina, turquesa e muitas outras mercadorias exóticas circulavam de aldeia em aldeia por meio de inúmeras transações de escambo. Talvez essas trocas regulares fossem usadas não apenas para obter materiais exóticos, mas também para consolidar relações sociais. Essa ampla troca de matérias-primas acelerou a difusão de todos os tipos de inovações em todo o mundo, entre elas a criação de ovelhas, a introdução da cerâmica e, eventualmente, a metalurgia do cobre e do bronze.

Reconstrução hipotética de uma "Casa de História" de Çatalhöyük (do livro de Fagan e Durrani)A importância do comércio de obsidiana na área foi demonstrada por análises espectrográficas de fragmentos de vidro vulcânico em centenas de locais entre a Turquia e a Mesopotâmia. Os oligoelementos presentes na obsidiana são tão característicos que é possível identificar a fonte natural do vidro por meio dessa análise e reconstruir a distribuição da obsidiana em dezenas de localidades. Milhares de amostras de obsidiana documentam a ampla troca dessa pedra tão desejável para a fabricação de ferramentas por toda a Anatólia e até o Levante. As porcentagens de obsidiana diminuem rapidamente à medida que nos afastamos da fonte, o que sugere que grande parte do comércio agrícola primitivo era provavelmente uma forma de escambo “a jusante”, que transportava diversas mercadorias de uma aldeia para outra.

 

9. Duas etapas no desenvolvimento da agricultura

Até cerca de 6000 a.C., o desenvolvimento cultural ocorreu de forma independente em cada uma dessas três regiões: a costa leste do Mediterrâneo, o planalto dos Zagros e a Anatólia. Em cada área, a pastorícia e a agricultura surgiram separadamente. Não que estivessem isoladas uma da outra — longe disso. Havia contatos comerciais regulares entre cada área, contatos que podem ter levado à disseminação de cereais, pastoreio, cerâmica, crenças e ideologias religiosas e outras inovações. Com o tempo, redes de troca bem estabelecidas ajudaram a disseminar inovações econômicas e tecnológicas por todo o antigo sudoeste asiático, e é por isso que desenvolvimentos e intensificações semelhantes da produção agrícola ocorrem quase ao mesmo tempo em vários lugares. Por volta de 6000 a.C., as novas economias tornaram-se a base da dieta humana em todo o sudoeste asiático. Grandes mudanças nos padrões de assentamento se seguiram. O crescimento populacional sustentado se consolidou algum tempo depois que a agricultura se tornou comum e suficientemente produtiva para alimentar muito mais pessoas.

Esta foi uma época de profundas mudanças sociais, quando as sociedades humanas desenvolveram novos mecanismos de controle social, resolução de disputas e regulamentação do cultivo e da herança de terras. Em sua maioria, porém, as novas sociedades ainda eram igualitárias, com suas economias baseadas na capacidade produtiva do lar e da família nuclear. Os crânios engessados de ‘Ain Ghazal, Jericó e outros sítios neolíticos e seus complexos rituais e cultos aos ancestrais demonstram que os agricultores já definiam a relação entre as pessoas vivas e o mundo espiritual, o mundo da fertilidade do solo, das colheitas abundantes e dos ancestrais reverenciados.

 

10. Resumo do capítulo

:. O sudoeste da Ásia era frio e seco imediatamente após a Era do Gelo, com estepes secas em grande parte do interior. As populações humanas eram esparsas e altamente móveis, à medida que as florestas se espalhavam pela região.

:. A onda de frio do Dryas Recente começou por volta de 10800 a.C. e durou pouco mais de mil anos. Secas prolongadas e condições mais frias no sudoeste da Ásia causaram quedas significativas na produtividade ambiental.

:. As sociedades de caçadores-coletores tinham três opções: mudar-se para outro lugar, proteger seu território ou permanecer no local e intensificar a busca por alimentos, cultivando também cereais silvestres. Muitos grupos optaram por experimentar a agricultura.

:. O Neolítico pré-cerâmico A (PPNA) testemunhou extensas experimentações com o cultivo, um aumento no comércio e nas trocas, e o início de crenças religiosas distintas.

:. O Neolítico pré-cerâmico B (PPNB) testemunhou uma agricultura plenamente estabelecida em uma ampla área, com extensas redes de comércio e interação. A pastorícia já estava bem estabelecida um pouco antes nas terras altas dos Zagros, enquanto a Anatólia era habitada por comunidades agrícolas ligadas por rotas de troca de longa distância, que manipulavam obsidiana e outras espécies exóticas, pelo menos por volta de 9500 a.C.

:. Alguns assentamentos do Neolítico pré-cerâmico (PPN) ostentavam estruturas maiores, que serviam tanto como moradias quanto como santuários para rituais envolvendo relacionamentos com ancestrais e outros temas. Alguns, como Göbekli Tepe, no sudoeste da Turquia, possuíam estruturas subterrâneas substanciais adornadas com monólitos ricamente decorados, talvez representações simbólicas de humanos.

:. Çatalhöyük, uma grande aldeia no planalto central da Anatólia, era um assentamento populoso, ocupado pela primeira vez por volta de 7500 a.C. Algumas de suas moradias foram chamadas de “Casas de História”, pois parecem homenagear ancestrais e estar associadas a crenças religiosas amplamente utilizadas na época em grande parte do sudoeste da Ásia.

 

11. Leituras recomendadas

Barker, Graeme. 2006. The Agricultural Revolution in Prehistory. Oxford: Oxford University Press.

Hodder, Ian. 2011. The Leopard’s Tale. London: Thames and Hudson.

Hodder, Ian, ed. 2019. Religion, History and Place in the Origin of Settled Life. Boulder: University Press of Colorado.

Moore, Andrew, et al. 2000. Village on the Euphrates. New York: Oxford University Press.

Scott, James C. 2017. Against the Grain: A Deep History of the Earliest States. New Haven: Yale University Press.

 

12. Bibliografia citada neste capítulo

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Hole, Frank, et al. 1969. The Prehistory and Human Ecology of the Deh Luran Plain. Ann Arbor: University of Michigan Museum of Anthropology.

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Os primeiros agricultores no sudoeste da Ásia 1

Minha perspectiva é a seguinte:

:. estou cada vez mais convencido de que a Bíblia Hebraica / Antigo Testamento só existe por causa do exílio babilônico
:. do que resulta o seguinte: para quem estuda a Bíblia Hebraica / Antigo Testamento e a História de Israel, como eu, ter, pelo menos, uma visão geral das culturas mesopotâmicas é imprescindível para a compreensão dos textos e seus contextos
:. mas aí percebo um problema: chego até os sumérios e sua cultura, até por volta de 3500 a.C., e paro aí. Mas como se chegou a isso? O que existia antes disso?
:. e então comecei a perceber a necessidade de um mergulho na pré-história da região
:. existe excelente material para isso, que venho percorrendo desde o início de 2025 (veja os livros que estou lendo em meu Instagram)
:. o que se segue é parte desta trajetória, que já comecei a apresentar no Observatório Bíblico em 05.03.2025, com um post sobre A fundação de Jericó.
:. Os links para todas as postagens sobre o tema podem ser acessados em O Crescente Fértil na Pré-história e na Idade do Bronze, post publicado no Observatório Bíblico em 06.09.2025.

 

O capítulo 9 do livro de FAGAN B. M.; DURRANI, N. People of the Earth: An Introduction to World Prehistory. 16th ed. Abingdon: Routledge, 2023 [1a. ed. 1971], 470 p. – ISBN 9781032365848 trata das origens da produção de alimentos no sudoeste da Ásia (The Origins of Food Production in Southwest Asia), ou seja, nas seguintes regiões: a costa leste do Mediterrâneo, o planalto dos Zagros e a Anatólia.

Brian M. Fagan (1 de agosto de 1936 – 1 de julho de 2025), arqueólogo e antropólogo inglês, foi professor de antropologia da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, USA. É autor de dezenas de livros na área, mundialmente reconhecido como uma autoridade em pré-história.

Nadia Durrani é arqueóloga e escritora formada pela Universidade de Cambridge, com doutorado em arqueologia árabe pela University College London. É coautora de vários livros com Brian M. Fagan.

A numeração dos subtítulos do capítulo e os textos entre colchetes [ ] são meus. A bibliografia foi mantida no formato original. Um quadro explicativo sobre o sitio de Göbekli Tepe, no item 3, foi omitido.

O capítulo foi publicado em dois posts:FAGAN B. M.; DURRANI, N. People of the Earth: An Introduction to World Prehistory. 16th ed. Abingdon: Routledge, 2023 [1a. ed. 1971], 470 p.
Os primeiros agricultores no sudoeste da Ásia 1
Os primeiros agricultores no sudoeste da Ásia 2

Sumário do capítulo

1. Mudanças climáticas e adaptação
2. Os primeiros agricultores
3. Santuários primitivos e possível agricultura na Anatólia
4. Jericó, na Cisjordânia, e Abu Hureyra, na Síria
5. Neolítico pré-cerâmico B
6. Os Zagros e a Mesopotâmia
7. Os primeiros agricultores na Anatólia
8. Çatalhöyük: “Casas de História”
9. Duas etapas no desenvolvimento da agricultura
10. Resumo do capítulo
11. Leituras recomendadas
12. Bibliografia citada neste capítulo

 

Era o último dia da temporada de escavações de 1953 em Jericó. Durante semanas, o topo de um crânio humano projetou-se da lateral da trincheira cavada profundamente em uma das primeiras comunidades agrícolas do mundo. A arqueóloga Kathleen Kenyon (1981) havia dado instruções estritas de que o local não deveria ser perturbado até que as camadas estratigráficas na parede da trincheira fossem desenhadas e fotografadas. Com o desenho concluído, ela, de forma um tanto relutante, deu permissão ao supervisor do local para remover o crânio da parede. Naquela noite, ele levou de volta ao acampamento um crânio completo, cuidadosamente coberto de argila, com as feições humanas modeladas e os olhos incrustados com conchas.

Crânio engessado encontrado em Jericó (Tell es-Sultan), Neolítico Pré-Cerâmico B, c. 7200 a.C. BM 12741-42Na manhã seguinte, Kenyon examinou atentamente o pequeno buraco na parede. Ela viu mais dois crânios engessados lá dentro. Eles foram removidos. Mais três apareceram atrás deles, depois uma sétima e última cabeça. Levou cinco dias para extrair o ninho de crânios da parede, pois os ossos esmagados estavam compactados com pedras e terra dura. Eles formaram a galeria de retratos mais antiga do mundo, cada cabeça modelada com características individuais — nariz, boca, orelhas e sobrancelhas moldadas com delicadeza. Kenyon acreditava ter encontrado as cabeças de ancestrais reverenciados que eram vistos como intermediários entre o mundo vivo e o mundo espiritual. Para seus criadores, eles eram símbolos de uma nova ordem espiritual que ligava as pessoas intimamente à terra que produzia suas colheitas.

Grande parte da teorização sobre a produção inicial de alimentos originou-se de pesquisas arqueológicas no sudoeste asiático, onde muitos assentamentos agrícolas primitivos foram encontrados. O período em que a produção de alimentos teve início é chamado de Neolítico, o “período em que um padrão de assentamento de aldeias baseado na agricultura de subsistência e na criação de gado tornou-se a base da existência de comunidades em todo o sudoeste asiático” (Moore, 1985: 223). O Neolítico do sudoeste asiático começou por volta de 9500 a.C. em quase todos os lugares (a data de início é imprecisa) e durou até o sexto milênio a.C. na Mesopotâmia e até 4000 a.C. em partes da costa leste do Mediterrâneo (Barker, 2006; Bellwood, 2004).

 

1. Mudanças climáticas e adaptação

Núcleos de águas profundas e estudos de pólen nos dizem que o clima do sudoeste asiático era frio e seco de aproximadamente 21000 a 16000 a.C., durante a glaciação tardia de Weichsel (Bar-Yosef, 2011). O nível do mar caiu mais de 100 m (300 pés); grande parte do interior era coberta por estepes secas, com florestas restritas às costas do Mediterrâneo oriental e da Turquia. Após 16000 a.C. o clima esquentou consideravelmente. As florestas se expandiram rapidamente no final da Era do Gelo, pois o clima ainda era mais frio do que hoje e consideravelmente mais úmido. Muitas áreas do sudoeste asiático eram mais ricas em espécies animais e vegetais do que são agora, tornando-as altamente favoráveis à ocupação humana.

Um cenário amplamente aceito para a primeira agricultura é o seguinte: a costa extrema do Mediterrâneo oriental situava-se na junção dos climas mediterrâneo, continental e influenciado pelas monções, e nutriu um conjunto único e em constante mudança de ecótonos [uma área de transição entre dois ou mais ecossistemas distintos]. No início do Holoceno [por volta de 11700 a.C.], o clima mudou de continental para mediterrâneo, com temperaturas mais quentes, mais cobertura florestal e aumento da aridez no verão. A vegetação tornou-se muito mais diversificada, com um aumento significativo nas gramíneas cereais anuais que floresciam e produziam sementes na primavera e ficavam dormentes durante os longos e secos meses de verão. Esses cereais apareceram primeiro no oeste e se espalharam para o leste. Ao mesmo tempo, grupos de caçadores-coletores podem ter perturbado e inconscientemente diversificado a vegetação, queimando-a na estação seca para estimular o crescimento de novas gramíneas para os veados e outros animais que se alimentavam dela.

A onda de frio milenar do Dryas Recente, que começou por volta de 10800 a.C. [Dryas é o nome de uma planta típica de ambientes frios da tundra ártica e o nome Dryas Recente foi adotado porque os pesquisadores encontraram grande quantidade de pólen e restos dessa planta em sedimentos europeus que datam desse período, indicando condições climáticas mais frias e semelhantes às da tundra ártica. Durou de 10800 a 9600 a.C.], trouxe condições mais frias e muito mais secas ao sudoeste da Ásia. Este foi o principal gatilho para que as pessoas se voltassem para o cultivo de ancestrais selvagens de culturas como trigo emmer, cevada, centeio e milheto. Essas mudanças levaram à agricultura em tempo integral ou ao fracasso. Quando tais mudanças climáticas ocorrem, os caçadores-coletores usam uma variedade de estratégias para lidar com fenômenos naturais como secas ou inundações — para minimizar os riscos. Eles podem simplesmente se mudar para uma nova área ou ampliar seus territórios, permanecer no local e defender seus recursos disponíveis contra seus concorrentes, ou intensificar a produção de recursos vegetais por meio de inovação tecnológica, invenções ou cultivo em tempo parcial, até mesmo aprisionando animais de rebanho como animais de estimação e alimento. No sudoeste da Ásia, muitas comunidades permaneceram no local e se adaptaram a condições muito mais secas.

A crise climática ocorreu por volta de 10800 a.C. nas áreas do norte do Levante, quando o Dryas Recente trouxe condições frias e secas para a região, além de longos períodos de seca intensa. A cobertura florestal declinou, dizimando a produção de cereais e nozes em uma ampla área ocupada por comunidades natufianas [a natufiana foi uma cultura da Idade da Pedra existente no Levante entre 12500 e 9500 a.C.]. Nessa época, a paisagem estava mais povoada do que antes, especialmente em áreas florestais favorecidas. Algumas pessoas podem ter se mudado, mas outras permaneceram e intensificaram a exploração de alimentos vegetais. Como parte dessa intensificação, elas podem ter caçado e forrageado alimentos de menor valor, como lebres. Elas também responderam desenvolvendo tecnologia de armazenamento, explorando intensamente cereais e moendo suas sementes, e adotando estilos de vida muito mais sedentários. Tudo isso não foi tanto um afastamento da caça e forrageamento de amplo espectro, mas sim um ajuste às flutuações climáticas. E em algum lugar no norte do Levante, provavelmente antes do fim do Dryas Recente, por volta de 9500 a.C., alguns grupos começaram a cultivar gramíneas selvagens como forma de aumentar o suprimento de alimentos. Em poucos séculos, as condições climáticas melhoraram e a agricultura tornou-se mais bem-sucedida, à medida que as chuvas de inverno aumentavam e se tornavam mais confiáveis.

Início da agricultura no sudoeste da Ásia, Europa e vale do Nilo

 

2. Os primeiros agricultores

Ainda temos apenas retratos fugazes dos primeiros agricultores do sudoeste asiático, comunidades onde as pessoas cultivavam cereais selvagens como suplemento à sua dieta de coleta (Scott, 2017). É um grande desafio distinguir entre comunidades que experimentavam culturas e aquelas que plantavam cereais totalmente domesticados (elas são agrupadas de forma bastante insatisfatória sob o termo Neolítico pré-cerâmico A). Por exemplo, uma ráquis resistente [ráquis, em botânica, indica o eixo principal de folhas compostas, onde os folíolos se prendem, ou de inflorescências como as espigas de gramíneas. Por exemplo, em uma folha de palmeira, a ráquis é a haste central da qual partem os folíolos, as “folhinhas”] é de fato uma característica de cereais totalmente domesticados, mas muitos fatores influenciaram a transição. Bater espigas maduras em cestos ou colher cereais antes de estarem totalmente maduros pode ter retardado as mudanças morfológicas. O mesmo pode acontecer com a introdução frequente de novas plantas selvagens quando as colheitas cultivadas falham. O aparecimento da ráquis resistente não é necessariamente um barômetro de mudança, mas sim um reflexo de mudanças nas práticas de manejo e manejo.

Sabemos que, nos últimos séculos do Dryas Recente, o cultivo estava bem estabelecido, com diferentes tipos de plantas selvagens sendo cultivadas em diversas regiões. Centeio, triticum monococcum ou einkorn, trigo emmer, cevada e aveia eram cultivados por diferentes grupos. Acredita-se que figos já fossem cultivados por volta de 9700 a 9000 a.C., perto do rio Jordão (Kislev et al., 2006). Ao mesmo tempo, ervas daninhas, que se sabe que florescem em campos limpos, aparecem em depósitos de aldeias, um sinal claro de cultivo. Muitos arqueobotânicos acreditam que foram necessários entre 1000 e 2000 anos de cultivo sistemático de cereais selvagens para que a maioria das plantas adquirisse as mutações que permitiam espigas resistentes à quebra e grãos maiores. Para que a domesticação completa ocorresse, seria necessário semear e colher continuamente, caso contrário, as plantas domesticadas não teriam dominado os campos.

Não sabemos exatamente quando os primeiros cereais totalmente domesticados entraram em uso regular. O processo se desenrolou ao longo de muitas gerações em muitos lugares diferentes. Os primeiros einkorn e emmer totalmente domesticados vêm de sítios no alto vale do Eufrates que datam de cerca de 8500 a 8200 a.C. (Zeder, 2011). A cevada passou a ser amplamente utilizada séculos depois. Apenas pequenas proporções dessas primeiras culturas ostentavam ráquis resistentes; proporções ainda menores vêm de sítios mais antigos, onde o cultivo de cereais selvagens estava em andamento. Por muitos séculos antes da domesticação completa, muitas comunidades estavam modificando ativamente os ambientes locais para aumentar a disponibilidade de plantas economicamente importantes. Ervas daninhas normalmente associadas a campos desmatados ocorrem em muitos sítios, em alguns sítios como Abu Hureyra, na Síria, descrito posteriormente, já em 10.000 a.C. Em muitos lugares, as pessoas transplantaram plantas como cevada e einkorn de seus habitats preferidos para outros menos favoráveis, até mesmo desviando água para plantas cultivadas. À medida que a atividade agrícola se intensificou ao longo das gerações, as ervas daninhas também aumentaram. Toda essa atividade, envolvendo muitas plantas cerealíferas, bem como árvores frutíferas, tinha raízes profundas nas estratégias de exploração de plantas de amplo espectro, utilizadas desde a Era do Gelo. A agricultura não foi uma invenção drástica, mas apenas o ápice lógico de estratégias de redução de riscos em uso há muito tempo.

À medida em que a escala da vida humana mudou significativamente no mundo mais quente a partir de 15000 anos atrás, tornou-se mais difícil tratar as pessoas como iguais. A mudança social era inevitável, pois a intimidade de pequenos grupos baseados em parentesco perdeu muito de sua solidariedade. A prática de compartilhar histórias — incentivando e compartilhando ativamente memórias de longo prazo — tornou-se comum muito antes de assentamentos permanentes, aldeias populosas e agricultura se tornarem rotina. Comunidades maiores eram agora uma realidade. Uma estimativa populacional média para oito assentamentos desse período é de 419 pessoas.

Aldeias maiores, ocupadas por gerações, coincidiram com o crescimento populacional e a convivência superlotada e presencial, onde famílias e parentes próximos viviam em pequenas moradias. Quando os ânimos se exaltavam, os envolvidos não podiam mais simplesmente se mudar, como acontecia no passado. Agora, tinham laços permanentes tanto com a comunidade quanto com sua terra, com o “lugar” e com sua história comum. Os ancestrais faziam parte da vida cotidiana há muito tempo, mas agora se tornaram uma obsessão. Alguns sítios se tornaram efetivamente cemitérios, onde os mortos retornavam ao que talvez fossem seus locais ancestrais.

Em alguns assentamentos, os crânios de predecessores reverenciados tornaram-se ícones valiosos. O estoque de crânios de Kathleen Kenyon em Jericó veio de um pequeno assentamento ocupado antes de 9500 a.C. O vilarejo logo se tornou uma aldeia muito maior. Por volta de 7300 a.C., Jericó era uma pequena cidade com várias centenas de habitantes, cercada por um muro de pedra de 3,6 metros de altura. Dois séculos depois, os habitantes enterraram as cabeças e, às vezes, os esqueletos sem cabeça., de seus ancestrais sob o piso de suas casas. Alguns crânios tiveram até mesmo suas características faciais reconstruídas para criar “retratos” rudimentares com conchas do mar como olhos.

Em ‘Ain Ghazal, na Jordânia, outra aldeia de 8000 a.C., os habitantes enterravam as cabeças decoradas de seus antepassados sob o piso de suas cabanas. Mas ali também faziam modelos de argila de seus ancestrais, com corpos, roupas, cabelos e tatuagens pintadas. Estes ficavam em santuários domésticos, com olhos hipnóticos de búzios que pareciam perscrutar profundamente a alma.

Às vezes, crânios fragmentados podem ter servido de alicerce para casas. Talvez os enterros tenham se tornado um motivo para a ocupação subsequente da mesma moradia em memória dos ancestrais. Mas, quaisquer que fossem os costumes funerários, crânios engessados de ancestrais e estatuetas ancestrais tinham fortes associações rituais.

 

3. Santuários primitivos e possível agricultura na Anatólia

Durante um período de profundas mudanças culturais e sociais, há 12000 anos, o sudeste da Turquia e o alto vale do Tigre eram um centro de atividade econômica e crenças rituais complexas que desafiam interpretações fáceis.

Göbekli Tepe fica a 9,6 quilômetros de Urfa, no sudeste da Turquia. Originalmente escavado por Klaus Schmidt, do Instituto Arqueológico Alemão, o sítio arqueológico fica 300 metros acima de um vale próximo, com o cume suavemente arredondado a 4,5 metros acima da paisagem circundante. Um radar de penetração no solo revelou pelo menos 16 círculos megalíticos enterrados em alguns hectares. Por volta de 9600 a.C., pelo menos quatro estruturas circulares foram escavadas no leito rochoso de calcário macio — semi-subterrâneas, quase como criptas. Dois enormes pilares de pedra ficavam no meio de cada cripta, com pelo menos outros oito pilares ao redor das bordas dos monólitos, separados por bancos escavados em pedra. Esculturas em baixo-relevo de animais de caça, javalis, auroques e gazelas os adornam.

Um edifício com monólitos em Göbekli Tepe, sudeste da Turquia, ca. 9600 a.C.

(…)

Ainda não se sabe se Göbekli Tepe era puramente um centro cerimonial ou também uma aldeia. Mas este era um santuário importante, talvez um lugar onde os visitantes reforçavam suas crenças rituais e fortaleciam laços familiares ou sociais. O sítio arqueológico não era único, pois outros sítios, como o vizinho Nevali Çori, abrigavam tanto moradias quanto casas de culto com pilares de pedra monolíticos. Alguns eram esculpidos, incluindo uma figura com cabeça humana e corpo de pássaro. Talvez a conexão entre humanos e pássaros refletisse a alma de uma pessoa ou uma ligação com um reino espiritual povoado por animais míticos.

Esses sítios revelam que rituais elaborados e crenças espirituais poderosas eram comuns aqui muito antes da agricultura se consolidar. Quaisquer que fossem essas crenças, elas exigiam dezenas de pessoas para construir os santuários e seus monólitos. Alimentá-los exigiria grandes quantidades de grãos silvestres, alguns dos quais teriam caído no chão, germinado e sido colhidos novamente — uma forma de domesticação. Sem dúvida, parte desses grãos silvestres teria sido levada pelos visitantes ou comercializada por muitos quilômetros, talvez até mesmo ao sul, até Jericó.

Rituais como os praticados em Göbekli Tepe se espalharam amplamente e resultaram em mudanças duradouras nas complexas relações entre as sociedades da época e o cosmos. Karahan Tepe é uma aldeia de 9400 a.C. no sudeste da Turquia, esculpida na encosta de uma colina de calcário. As pessoas habitaram aqui por 1500 anos, construindo um complexo elaborado de casas e santuários circulares. Em uma câmara circular, uma cabeça humana barbada com corpo de serpente vigia 11 pênis simbólicos esculpidos na rocha. Acredita-se que esta tenha sido uma câmara para ritos de passagem. Há relevos de animais selvagens, de insetos a mamíferos, e incluem feras atacando cabeças humanas, mas nenhuma representação de mulheres. Dezenas de estelas em forma de T são consideradas representações abstratas de formas humanas. Quando o local foi finalmente abandonado, os habitantes cuidadosamente aterraram as casas e santuários em um rito incomum de dessacralização.

Outro sítio importante foi Körtik Tepe (10400 a 9280 a.C.), onde finas paredes de pedra circundavam habitações circulares com piso de terra. O povo de Körtik Tepe mantinha redes de troca e comunicação com uma vasta área, do noroeste da Síria ao Iraque e ao Alto Tigre. Havia um forte compromisso com o lugar aqui, refletido por sepultamentos sob o piso das casas que podem ter servido como memórias sociais muito antes do surgimento da escrita. Símbolos esculpidos em pedra, seja em plaquetas ou pequenos vasos, ou em estelas monumentais, viajaram amplamente, talvez como uma forma de transmitir tradições simbólicas e lembrar ancestrais falecidos. Alguns foram descobertos 400 quilômetros a sudoeste e podem ter ajudado a preservar as identidades dos grupos locais.

Um número significativo de assentamentos, geralmente contemporâneos ou posteriores, provém da região. Çayönü Tepe foi fundada em 8200 a.C. e é única por seuEm Karahan Tepe, sudeste da Turquia, ca. 9400 a.C., em uma câmara circular, uma cabeça humana barbada observa pilares em formato de pênis. Edifício da Caveira, onde cerca de 400 pessoas de ambos os sexos e de todas as idades foram enterradas durante seu longo período de uso, não como sepultamento primário, mas como sepultamento secundário. Quando o edifício foi abandonado, as pessoas voltaram a enterrar seus mortos sob o piso de suas casas.

Estes e outros assentamentos recentemente escavados pintam um retrato enigmático de um mundo em transição. A Anatólia central e sudoeste era como o Levante, com chuvas sazonais, muitas vezes imprevisíveis, e longas secas. Durante os séculos mais chuvosos, a partir de 14500 anos atrás, assentamentos permanentes surgiram, sustentados por abundantes suprimentos de alimentos. Eles são notáveis por seus santuários subterrâneos, que cercam o visitante com imagens espetaculares de animais perigosos e seres míticos. Esses sítios revelam o imaginário notável, às vezes assustador, que cercava a atividade ritual em comunidades que aparentemente viviam da coleta e da caça. Alguns deles contêm moradias, bem como santuários, em justaposição.

Temos apenas uma impressão incompleta dessas sociedades em mudança, mas o senso de ancestralidade, de longa história e de pertencimento a lugares específicos ressoa fortemente ao longo dos milênios. Identidade e história permeiam os sentidos em sociedades onde o simbolismo vívido e os laços estreitos com o reino sobrenatural dominavam o pensamento e a ação. Eram sociedades onde laços familiares, família extensa e a consciência da ancestralidade proporcionavam uma sensação de profundidade de tempo e lugar — algo novo em comunidades superpovoadas. E, pela primeira vez, crenças espirituais e rituais poderosos cercavam a todos, por todos os lados. Isso se tornou um tema duradouro na sociabilidade passada, presente e futura”.

 

4. Jericó, na Cisjordânia, e Abu Hureyra, na Síria

Assentamentos permanentes surgiram no sul mais ou menos na mesma época. O primeiro assentamento permanente no local da cidade de Jericó se estendia por pelo menos 4 hectares (9,8 acres). Um acampamento temporário natufiano floresceu na fonte borbulhante de Jericó por volta de pelo menos 10000 a.C. (Kenyon, 1981), mas um assentamento agrícola mais duradouro logo se seguiu. Logo, esse povo, cuja tecnologia não incluía vasos de barro, estava construindo muralhas maciças ao redor de seu assentamento. Uma muralha de pedra finamente construída, completa com uma torre, ladeava um fosso escavado na rocha com quase 3 metros de profundidade e 3,2 metros de largura. As cabanas em forma de colmeia de Jericó estavam agrupadas dentro da muralha. O trabalho comunitário de construção da muralha exigiu recursos políticos e econômicos em uma escala sem precedentes. A razão pela qual a muralha era necessária permanece um mistério, mas ela pode ter sido para defesa contra a competição entre grupos por recursos escassos. Algumas pesquisas geomorfológicas sugerem que a muralha pode ter sido obra de controle de enchentes, mas a teoria é controversa.

Por volta de 9000 a.C., um novo assentamento surgiu no monte baixo de Abu Hureyra, perto do Eufrates (Moore et al., 2000). Tratava-se de uma nova aldeia, que cresceu para cobrir quase 12 ha (30 acres). No início, os habitantes ainda caçavam gazelas intensivamente. Então, por volta de 9000 a.C., no espaço de uma ou duas gerações, passaram a pastorear ovelhas e cabras domesticadas. Os visitantes da aldeia se deparavam com uma comunidade unida de casas retangulares térreas, de tijolos de barro, unidas por vielas estreitas e pátios. As moradias com vários cômodos tinham pisos de gesso preto polido, às vezes decorados com desenhos vermelhos. Cada casa era ocupada por uma única família. Sabemos que as mulheres faziam a maior parte do preparo da comida, pois seus joelhos apresentam sinais reveladores de artrite causada por ajoelhar-se (Molleson, 1994). Abu Hureyra foi finalmente abandonada por volta de 6500 a.C.

Os agricultores de 10000 a 9000 a.C. caçavam gazelas, gado selvagem, porcos, cabras e outras espécies. Nenhum dos ossos apresenta as características morfológicas típicas de animais domesticados. A julgar pela proporção de gazelas imaturas em alguns locais, os humanos eram caçadores muito eficientes e seletivos. Esse padrão de exploração animal havia começado milênios antes, durante o Paleolítico Superior. Ovelhas e cabras substituíram rapidamente as gazelas como principal fonte de carne em Abu Hureyra e em outros lugares após cerca de 8000 a.C. Ao mesmo tempo, há indícios de que gado e porcos estavam sujeitos a um controle humano crescente. Nessa época, a domesticação de ovelhas e cabras havia avançado a ponto de os machos excedentes serem abatidos para consumo antes da idade adulta, um perfil de mortalidade característico de rebanhos manejados. Por volta de 7500 a.C., parece que os rebanhos locais de gazelas estavam esgotados. Ovelhas e cabras agora compunham 60% de toda a carne consumida (Legge e Rowley-Conwy, 1987).

As comunidades do PPNA [Pre-Pottery Neolithic A = Neolítico pré-cerâmico A] praticavam agricultura com culturas totalmente domesticadas? Certamente praticavam o cultivo em pequena escala nas áreas de aluvião onde se localizavam, mas as plantas que cultivavam às vezes não eram aquelas que acabaram sendo domesticadas na região. Silos eram comuns, talvez um sinal de que havia excedentes significativos de alimentos e até mesmo troca de produtos básicos entre diferentes comunidades. Alguns locais, como Jericó, podem ter sido centros de troca de matérias-primas valiosas como obsidiana, sal e malaquita.

No norte, houve uma explosão populacional significativa, com assentamentos estabelecidos em intervalos de cerca de 25 km ao longo do Eufrates. Mais uma vez, a economia provavelmente se baseava no cultivo em várzeas, mas a caça e a coleta de alimentos ainda eram importantes. Nessa época, as relações entre diferentes comunidades assumiam maior importância, tanto no contexto das trocas de mercadorias e outros itens, quanto em termos de laços matrimoniais entre assentamentos isolados. Pela primeira vez, também, existem estruturas comunais em algumas aldeias, um desenvolvimento que levaria a uma elaboração muito maior em assentamentos posteriores, como Göbekli Tepe, no sudeste da Turquia.Göbekli Tepe em construção

Mureybet, na margem oeste do Eufrates, na Síria, era um assentamento do PPNA, ocupado entre aproximadamente 10200 e 8000 a.C. Os primeiros habitantes eram pessoas com uma cultura semelhante à dos natufianos, provavelmente ocupantes temporários, que colhiam cevada e centeio perto do rio, além de caçar gazelas. Por volta de 9700 a.C., os cereais haviam se tornado mais importantes na dieta e as pessoas viviam em casas ovais e semi-subterrâneas, assim como seus contemporâneos faziam em outros lugares. Quinhentos anos depois, os habitantes viviam em habitações ovais, mas também construíam edifícios retangulares que provavelmente tinham um propósito comunitário, além de servirem como áreas de armazenamento. Outro sítio, Jerf el Ahmar, próximo ao Eufrates ao norte, ostenta pelo menos 11 níveis de ocupação que datam de 9200 a.C. Aqui, novamente, havia algumas casas retangulares maiores que pareciam ter uma função comunitária. Crânios humanos haviam sido depositados nos depósitos de fundação. Algumas das estruturas de Jerf el Ahmar têm até 7,5 metros de diâmetro. Inicialmente, eram edifícios comunitários multifuncionais, mas posteriormente evoluíram para estruturas de uso único, com possíveis associações de culto.

Ao sul do Mar Morto, um sítio arqueológico conhecido como Wadi Feynan 16, situado em duas colinas baixas adjacentes, revelou mais de 30 estruturas com paredes de argila, parcialmente subterrâneas, algumas delas ladeando uma estrutura elíptica com piso de barro e gesso, cercada na maior parte de sua extensão por uma camada dupla de bancos (Mithen et al., 2011: 350–364). Enormes buracos para postes sustentavam vigas de madeira que sustentavam um telhado. O piso e a estrutura foram reconstruídos repetidamente entre 10078 e 8220 a.C. O efeito é o de uma colmeia de estruturas ovais e maiores, usadas para diversos fins, entre eles enterros e atividades rituais, talvez incluindo banquetes.

Essas estruturas sinalizam o surgimento de grandes mudanças sociais entre as pessoas que agora estavam ancoradas em suas terras, assim como seus ancestrais antes delas. Talvez seja por isso que crânios engessados jaziam sob o piso das casas de Jericó e crânios separados dos corpos aparecem em outros lugares como oferendas de fundação. É como se a reverência, e talvez a adoração, aos ancestrais estivesse assumindo um papel importante nas sociedades agrícolas, onde aqueles que os precederam poderiam ter sido vistos como guardiões da terra (Fletcher, 2016). Há indícios de que crenças religiosas comuns e práticas rituais estavam surgindo em uma ampla área do sudoeste da Ásia já no PPNA e certamente em séculos posteriores.

 

5. Neolítico pré-cerâmico B

Com o surgimento do que é chamado Neolítico pré-cerâmico B (PPNB) por volta de 8750 a.C., durante condições climáticas favoráveis ​​após o Dryas Recente, sociedades aldeãs se desenvolveram no norte do Levante e muito mais longe. O PPNB floresceu por cerca de 2500 anos e se estendeu por todo o Levante, até a Anatólia Central e Chipre. Esta era uma grande esfera de interação, que incluía aldeias permanentes em larga escala baseadas na agricultura e pastoreio, bem como grupos móveis. Em uma grande região de grande diversidade ambiental, havia diferenças inevitáveis ​​e importantes na vida econômica. Algumas comunidades subsistiam quase inteiramente de cereais. Outras dependiam de lentilhas. Em alguns sítios, como ‘Ain Ghazal na Jordânia, pelo menos metade do suprimento de carne vinha de caça. Mas por volta de 7000 a.C., mais de três quartos dos ossos de animais vêm de ovelhas e cabras. Então, por volta de 6200 a.C., uma rápida mudança climática com aumento da aridez, agravada, talvez, pelos efeitos da agricultura sem adubação e pela superexploração dos recursos alimentares locais, entre outros fatores, levou ao desaparecimento dessa outrora florescente esfera de interação. Aqui, novamente, talvez haja evidências de respeito pelos ancestrais, na forma de notáveis ​​estatuetas humanas, modeladas em argila, outrora colocadas no piso de uma casa.

A Torre de Jericó em Tell es-Sultan É fácil atribuir essas mudanças ao longo de muitos séculos à lenta mudança na continuidade cultural, mas a realidade era muito mais complexa. Havia movimentos populacionais complexos, muitas vezes em pequena escala, mudanças constantes nas redes de troca e acasalamento, e um rápido crescimento populacional para agravar a equação da mudança. Acima de tudo, não havia uma divisão clara entre agricultores e caçadores-coletores durante o Neolítico pré-cerâmico. A região era um mosaico complexo de agricultores e caçadores-coletores, de pessoas que praticavam ambas as economias. Foi somente no final do Neolítico pré-cerâmico que todos subsistiram principalmente de plantas e animais domesticados, com uma nova e emergente divisão — entre agricultores e pastores, estes últimos frequentemente vivendo às margens de terras povoadas. Essa distinção teria um grande impacto na história das primeiras sociedades organizadas como Estados.

Muitos assentamentos maiores tornaram-se centros comerciais, pois a quantidade de materiais importados e objetos exóticos aumentou drasticamente após 8000 a.C. Os agricultores utilizavam obsidiana da Anatólia, turquesa do Sinai e conchas do Mediterrâneo e do Mar Vermelho (Kozlowski, 1999). O volume de comércio era tal que muitos aldeões usavam pequenas esferas, cones e discos de argila para registrar as mercadorias comercializadas. Alguns arqueólogos acreditam que essas fichas eram um sistema simples de registro que mais tarde evoluiu para a escrita (Schmandt-Besserat, 1992).

As novas e maiores comunidades da época exigiam algum tipo de mecanismo para tomar decisões e exercer autoridade. Sem sinais de hierarquia social nos sítios escavados, muito provavelmente tais sociedades operavam por linhagens, com a antiguidade nelas definida pelo nascimento e pela antiguidade.

Cadernos do Cearp 20

Cadernos do Cearp – Ano 11, n. 20, Jun. 2025, Vol. 1

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Márcio Luiz de SouzaCadernos do Cearp - Ano 11, n. 20, Jun. 2025, Vol. 1

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Tempo analógico e tempo digital na espiritualidade: reflexões sobre o sagrado no mundo contemporâneo
Márcio Luiz de Souza

A dimensão teológica da justiça no evangelho de Mateus
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Artigos dos Alunos
Continuação dos artigos dos grandes nomes do Concílio Vaticano II, da disciplina ministrada por Marcelo Machado
:: A contribuição do cardeal Döpfner no Concílio Vaticano II
Clayton Eugenio Santos de Paula
:: Edward Schillebeeckx: teologia e participação no Concílio Vaticano II
Sauro Santiago de Brito
:: O Cardeal Leon-Joseph Suenens e o Concílio Vaticano II
Bruno César Cardoso Theodoro

Fake News e percepção da realidade: uma reflexão acerca das principais consequências
José Eduardo dos Santos

João: O Quarto Evangelho Sinótico?

GOODACRE, M. The Fourth Synoptic Gospel: John’s Knowledge of Matthew, Mark, and Luke. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2025, 205 p. – ISBN 9780802875136.

Gerações atrás, nos estudos bíblicos, era dado como certo que João escreveu com pleno conhecimento de Mateus, Marcos e Lucas. Mas esse consenso foi derrubado na década de 1930 e, desde então, não houve acordo sobre a questão.GOODACRE, M. The Fourth Synoptic Gospel: John's Knowledge of Matthew, Mark, and Luke. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2025, 205 p.

Hoje, muitos estudiosos consideram o problema insolúvel ou extremamente complexo. Mark Goodacre, no entanto, tem uma visão diferente. Em seu novo e estimulante livro, Goodacre sintetiza dados há muito negligenciados com perspectivas mais recentes para defender com firmeza a familiaridade de João com os três Evangelhos Sinóticos.

Escrevendo em um estilo claro e acessível, Goodacre adota uma abordagem sistemática, passo a passo, para demonstrar que João conhecia e utilizava as narrativas de Mateus, Marcos e Lucas. Goodacre identifica pontos-chave de concordância, que variam de fragmentos diagnósticos a estruturas compartilhadas. Ele também analisa diferenças importantes; em sua narrativa, João transforma dramaticamente os Sinóticos e desenvolve sua cristologia, acrescentando um discípulo amado de Jesus, que é. ele próprio, um personagem sinótico.

Para tornar seu argumento acessível a um público amplo, Goodacre minimiza o uso de citações acadêmicas e traduz todas as palavras gregas. Igualmente importante, ele ilustra suas afirmações com gráficos claros e simples, para que os leitores possam ver por si mesmos as evidências de que João conhecia e utilizava os Sinóticos.

O Quarto Evangelho Sinótico certamente suscitará discussões animadas entre estudiosos da Bíblia. Considerando que a relação de João com os Sinóticos é uma questão fundamental nos estudos do Novo Testamento, o livro de Goodacre também é leitura obrigatória para estudantes e professores.

Sobre Mark Goodacre no Observatório Bíblico, confira aqui.

Mark Goodacre é professor de estudos religiosos na Duke University, Carolina do Norte, USA. Ele é especialista em Novo Testamento e origens cristãs, e seus interesses de pesquisa incluem os Evangelhos e o Jesus histórico.

Ele é autor de “The Case Against Q: Studies in Markan Priority and the Synoptic Problem” (O caso contra Q: estudos sobre a prioridade de Marcos e o Problema Sinótico), “Thomas and the Gospels: The Case for Thomas’s Familiarity with the Synoptics” (Tomé e os evangelhos: o caso da familiaridade de Tomé com os Sinóticos) e “The Fourth Synoptic Gospel: John’s Knowledge of Matthew, Mark, and Luke” (O Quarto Evangelho Sinótico: o conhecimento de João sobre Mateus, Marcos e Lucas) .

 

Generations ago in biblical studies, it was taken for granted that John wrote with full knowledge of Matthew, Mark, and Luke. But this consensus was overturned in the 1930s and since then, there has been no agreement on the issue. Today many scholars view the problem as unsolvable or impossibly complex. Mark Goodacre, however, takes a different view. In his galvanizing new book, Goodacre synthesizes long-neglected data with newer perspectives to make a strong case for John’s familiarity with all three Synoptic Gospels.

Mark Goodacre (1967-)

Writing in a clear and accessible style, Goodacre takes a systematic, step by step approach to showing that John knew and used the narratives of Matthew, Mark, and Luke. Goodacre identifies key points of agreement that range from diagnostic shards to shared structures. He also analyzes key differences; in his telling, John dramatically transforms the Synoptics and develops their Christology while adding a beloved disciple of Jesus, who is himself a Synoptic character. To make his argument accessible to a broad audience, Goodacre minimizes the use of scholarly citations and translates all Greek words. Just as importantly, he illustrates his claims with clear, simple charts so that readers can see for themselves the evidence that John knew and used the Synoptics.

The Fourth Synoptic Gospel is sure to spark lively discussions among biblical scholars. Given that John’s relationship to the Synoptics is a fundamental issue in New Testament studies, Goodacre’s book is also a must read for students and professors alike.

Mark Goodacre is professor of religious studies at Duke University. He specializes in New Testament and Christian origins, and his research interests include the Gospels and the historical Jesus. He is the author of The Case Against Q: Studies in Markan Priority and the Synoptic Problem, Thomas and the Gospels: The Case for Thomas’s Familiarity with the Synoptics, and The Fourth Synoptic Gospel: John’s Knowledge of Matthew, Mark, and Luke.

Flávio Josefo e Jesus de Nazaré

SCHMIDT, T. C. Josephus and Jesus: New Evidence for the One Called Christ. New York: Oxford University Press, 2025, 336 p. – ISBN 9780192866783.

O livro está disponível para download gratuito aqui.SCHMIDT, T. C. Josephus and Jesus: New Evidence for the One Called Christ. New York: Oxford University Press, 2025, 336 p.

Este livro traz à tona uma conexão extraordinária entre Jesus de Nazaré e o historiador judeu Josefo. Escrevendo em 93/94 d.C., Josefo compôs um relato de Jesus conhecido como Testimonium Flavianum. Apesar de ser a descrição mais antiga de Jesus escrita por um não cristão, estudiosos há muito duvidam de sua autenticidade devido às supostas alegações pró-cristãs que contém.

O presente livro, no entanto, autentica a autoria de Josefo e, em seguida, revela uma descoberta surpreendente.

Primeiro, os capítulos iniciais demonstram que os cristãos antigos interpretam o Testimonium Flavianum de forma bastante diferente dos estudiosos modernos, considerando-o basicamente mundano ou mesmo vagamente negativo e, portanto, distante da interpretação pró-cristã que a maioria dos estudiosos o interpreta. Isso sugere que o Testimonium Flavianum foi de fato escrito por um não cristão.

O livro então emprega análise estilométrica para demonstrar que o Testimonium Flavianum se aproxima bastante do estilo de Josefo. O Testimonium Flavianum parece, portanto, ser genuinamente escrito por Josefo.

Os capítulos finais exploram as fontes de informação de Josefo sobre Jesus, revelando uma descoberta notável: Josefo conhecia diretamente aqueles que assistiram aos julgamentos dos apóstolos de Jesus e até mesmo aqueles que assistiram ao julgamento do próprio Jesus.

O livro conclui descrevendo o que Josefo nos conta sobre o Jesus da história, particularmente sobre como as histórias dos milagres de Jesus e sua ressurreição se desenvolveram.

T. C. Schmidt, Assistant Professor of Religious Studies, Religious Studies Department, Fairfield University, Connecticut, USA.

 

This book brings to light an extraordinary connection between Jesus of Nazareth and the Jewish historian Josephus. Writing in 93/4 CE, Josephus composed an account of Jesus known as the Testimonium Flavianum. Despite this being the oldest description of Jesus written by a non-Christian, scholars have long doubted its authenticity due to the alleged pro-Christian claims it contains.

T. C. SchmidtThe present book, however, authenticates Josephus’ authorship and then reveals a startling discovery. First, the opening chapters demonstrate that ancient Christians read the Testimonium Flavianum quite differently from modern scholars, considering it to be basically mundane or even vaguely negative, and hence far from the pro-Christian rendering that most scholars have interpreted it to be. This suggests that the Testimonium Flavianum was indeed written by a non-Christian. The book then employs stylometric analysis to demonstrate that the Testimonium Flavianum closely matches Josephus’ style. The Testimonium Flavianum appears, therefore, to be genuinely authored by Josephus. The final chapters explore Josephus’ sources of information about Jesus, revealing a remarkable discovery: Josephus was directly familiar with those who attended the trials of Jesus’ apostles and even those who attended the trial of Jesus himself. The book concludes by describing what Josephus tells us about the Jesus of history, particularly regarding how the stories of Jesus’ miracles and his resurrection developed.

T. C. Schmidt, Assistant Professor of Religious Studies, Religious Studies Department, Fairfield University, CT.

Morreu Walter Brueggemann (1933-2025)

O teólogo e biblista norte-americano Walter Brueggemann, nascido em 1933, morreu na madrugada de 5 de junho de 2025, aos 92 anos de idade.Walter Brueggemann (1933-2025)

Estudioso do Antigo Testamento/Bíblia Hebraica, Walter Brueggemann foi amplamente considerado um dos intérpretes bíblicos mais influentes das últimas décadas. Ele era especialmente conhecido por seu trabalho com a análise retórica, com foco no poder persuasivo e poético das Escrituras, e por seu profundo envolvimento com a tradição profética hebraica.

Nascido em Tilden, Nebraska, Brueggemann era filho de um pastor evangélico alemão. Foi professor e reitor do Eden Theological Seminary (1961-1986) e, posteriormente, Professor de Antigo Testamento no Columbia Theological Seminary (1986-2003), onde se tornou professor emérito.

Brueggemann é autor de dezenas de livros e centenas de artigos, incluindo obras influentes como A Imaginação Profética (1978; 2018), Teologia do Antigo Testamento (1997) e numerosos comentários sobre livros como Gênesis, Salmos, Isaías e Jeremias.

Ele é conhecido por sua defesa da análise retórica, um método que examina as dimensões literária e social dos textos bíblicos, enfatizando sua relevância contínua e seu potencial transformador. Central à sua teologia era a crença de que a Igreja deve oferecer uma contranarrativa às forças sociais dominantes, como o consumismo, o militarismo e o nacionalismo.

Veja as obras de Walter Brueggemann, algumas delas traduzidas para o português.