Resenhas na RBL – 10.07.2011

As seguintes resenhas foram recentemente publicadas pela Review of Biblical Literature:

Amar Annus and Alan Lenzi
Ludlul Bel Nemeqi: The Standard Babylonian Poem of the Righteous Sufferer
Reviewed by Christopher A. Rollston

Willis Barnstone
The Restored New Testament: A New Translation with Commentary, Including the Gnostic Gospels Thomas, Mary, and Judas
Reviewed by Marvin J. Hudson

Rowan A. Greer
Theodore of Mopsuestia: Commentary on the Minor Pauline Epistles
Reviewed by Frederick G. McLeod

David G. Horrell, Cherryl Hunt, Christopher Southgate, and Francesca Stavrakopoulou, eds.
Ecological Hermeneutics: Biblical, Historical and Theological Perspectives
Reviewed by Russell Pregeant

Matthew W. Mitchell
Abortion and the Apostolate: A Study in Pauline Conversion, Rhetoric, and Scholarship
Reviewed by William S. Campbell

John J. Ranieri
Disturbing Revelation: Leo Strauss, Eric Voegelin, and the Bible
Reviewed by George Heyman

Sandra L. Richter
The Epic of Eden: A Christian Entry into the Old Testament
Reviewed by Russell Meek
Reviewed by Stephen Moyise

Richard G. Smith
The Fate of Justice and Righteousness during David’s Reign: Narrative Ethics and Rereading the Court History According to 2 Samuel 8:15-20:26
Reviewed by Walter Dietrich

Einar Thomassen, ed.
Canon and Canonicity: The Formation and Use of Scripture
Reviewed by Donatella Scaiola

>> Visite: Review of Biblical Literature Blog

Joseph Moingt: o presente e o futuro do catolicismo

Joseph Moingt : un sage dans l’Église

Le P. Joseph Moingt a beau avoir 95 ans, il ne s’arrête pas de penser à son Église, l’Église catholique romaine. Découvrez les bonnes feuilles de son dernier livre Croire quand même, libre entretien sur le présent et le futur du catholicisme. L’homme qui venait de Dieu et Dieu qui vient à l’homme, publiés dans la prestigieuse collection « Cogitatio fidei » des éditions du Cerf, ont fait de Joseph Moingt un des grands théologiens catholiques du XXe siècle et une référence pour les catholiques d’ouverture. Dans un livre d’entretien mené par Karim Mahmoud-Vintam, Croire quand même (Temps présent), le penseur jésuite, aujourd’hui âgé de 95 ans, prend le temps de développer sa vision apaisée d’un catholicisme actuel. Spécialiste de christologie, qu’il enseigna longtemps dans les facultés jésuites, il a acquis la conviction que si l’on ne tourne par son regard sur l’homme, tout rapport au Christ est vain. “Le chrétien doit garder sa foi, non pour sauver la religion ou l’institution qui lui est liée mais pour sauver une certaine idée de l’homme dont l’idée de Dieu est le garant.” Dans un texte très lisible, Joseph Moingt s’applique à dédramatiser ce qui tourmente aujourd’hui nombre de fidèles: divisions internes, maladresses de l’institution. Il appelle à dissocier la foi des concepts de croyance et de religion. À ceux qui “trouvent les traditions dogmatiques de l’Église incompréhensibles”, cet éternel chercheur conseille “de ne pas s’en encombrer et de se contenter de lire et d’étudier les Évangiles, qui présentent aussi des difficultés, mais d’une autre nature”. Au soir d’une vie bien remplie, un sage nous offre de découvrir un catholicisme serein et déculpabilisant…

Extraits…

Par Philippe Clanché – Témoignage Chrétien: 2 décembre 2010

 

Joseph Moingt: um sábio na Igreja

Mesmo tendo 95 anos, o padre Joseph Moingt não para de pensar na sua Igreja, a Igreja Católica Romana. Descubra as belas páginas do seu último livro Croire quand même : Libres entretiens sur le présent et le futur du catholicisme (Crer apesar de tudo: conversa livre sobre o presente e o futuro do catolicismo). L’homme qui venait de Dieu (O homem que vinha de Deus) e Dieu qui vient à l’homme (Deus que vem ao homem), publicados na prestigiada coleção “Cogitatio fidei” das Éditions du Cerf [foram publicados no Brasil pela Loyola], fizeram de Joseph Moingt um dos grandes teólogos católicos do século XX e uma referência para os católicos abertos. Em um livro-entrevista de Karim Mahmoud-Vintam, Croire quand même (Ed. Temps Présent), o pensador jesuíta, hoje com 95 anos, desenvolve com calma a sua visão reconfortante de um catolicismo atual. Especialista em cristologia, tendo lecionado por muito tempo nas faculdades jesuítas, ele adquiriu a convicção de que se não voltarmos o olhar ao homem, toda relação com Cristo é vã. “O cristão deve conservar a sua fé, não para salvar a religião ou a instituição que lhe é relacionada, mas para salvar uma certa ideia do homem da qual a ideia de Deus é garantia”. Em um texto muito acessível, Joseph Moingt busca desdramatizar aquilo que atormenta hoje muitos fiéis: divisões internas, equívocos da instituição. Ele convida a dissociar a fé dos conceitos de crença e de religião. Àqueles que consideram “as tradições dogmáticas da Igreja incompreensíveis”, esse incansável pesquisador aconselha a “não carregar esse peso e a se contentar em ler e em estudar os Evangelhos, que também apresentam dificuldades, mas de outra natureza”. Ao entardecer de uma vida plena, esse ensaio nos oferece a possibilidade de descobrir um catolicismo sereno e desculpabilizante.

Eis alguns trechos do livro…

Fonte: Notícias: IHU On-Line: 17/07/2011

Joseph Moingt, jésuite, est né en 1915 à Salbris (Loir-et-Cher). Après les études habituelles de philosophie et de théologie à la Compagnie de Jésus, il a suivi l’École Pratique des Hautes Études et a soutenu une thèse de théologie à l’Institut Catholique de Paris. Il a enseigné la théologie successivement à la Faculté jésuite de Lyon-Fourvière, à l’Institut Catholique de Paris et aux Facultés de Philosophie et de Théologie de la Compagnie de Jésus à Paris (Centre Sèvres). Il a dirigé la revue Recherches de Science religieuse de 1968 à 1997. Livres de l’Auteur

Joseph Moingt: nascido em 1915, foi sucessivamente professor de teologia na Faculdade Jesuíta de Lyon-Fourvière, no Institut Catholique de Paris e nas Faculdades de Filosofia e Teologia da Companhia de Jesus em Paris (Centre Sèvres). Dirigiu a revista Recherches de Science Religieuse de 1968 a 1997.

MOINGT, J. Croire quand même: Libres entretiens sur le présent et le futur du catholicisme. Paris: Temps Présent, 2010, 243 p. – ISBN 9782916842103.

Présentation de l’éditeur
Fuite des fidèles, dissensions internes, tarissement du clergé, conflits d’autorité, méfiance envers la science théologique et biblique, remises en ordre et mesures de restauration, rapports distendus entre Rome, les Eglises locales et les communautés de fidèles, etc. Telles sont, en vrac et en gros, les questions vitales qui me furent posées et qui seront agitées dans ce livre. Questions périlleuses, parce qu’elles mettent en cause des structures organiques, questions surtout troublantes pour la foi de notre temps. j’ai accepté néanmoins d’en traiter parce qu’elles me sont familières et me hantent. Beaucoup de fidèles hésitent à rester dans l’Eglise ou à la quitter, comme tant d’autres l’ont déjà fait, ce qui revient souvent, pour eux, à se demander s’ils vont lutter pour garder une fiai vivante ou la laisser s’en aller par fidélité à leurs propres exigences de vérité. Le titre donné à ces entretiens, Croire quand même, exprime le message, de compréhension et d’encouragement, que ce livre voudrait porter à ses lecteurs.

Jornadas Teológicas do Cone Sul e Brasil

Teólogos se reformulam diante de temas emergentes

As Jornadas Teológicas do Cone Sul e Brasil se concluirão amanhã (15) com propostas que buscam ajudar a Igreja Católica a se reformular frente a novos temas como a atual crise institucional e a outros não abordados pelo Concílio Vaticano II. Pelo menos 200 participantes argentinos, brasileiros, uruguaios, paraguaios e chilenos refletiram durante três jornadas consecutivas em torno de temáticas atuais que a Igreja necessita se reformular para buscar uma solução à crise institucional. Em dez mesas de trabalho, os participantes debateram os questionamentos atuais sobre Deus, a religião nas universidades, a relação da teologia com as Ciências Sociais e Naturais, a compreensão do nome e a natureza, a postura teológica indígena e a participação da mulher. Roberto Urbina, Secretário Geral da atividade, antecipou que as conclusões se centrarão principalmente na vigência do Concílio Vaticano e no diálogo entre a teologia e a ciência, conversa que durante anos tem sido “distante, longe e às vezes fechada”. “A teologia tem que se abrir pelo menos para escutar e acolher as interpelações que faz a ciência. Tem que levar em conta suas apresentações, conhecê-las, entendê-las e desde aí ver o que diz a teologia. Não são caminhos paralelos”, sustentou. Urbina comentou também que a inclusão da mulher e dos povos originários neste debate são temas que não fazem parte do último Concílio, mas que “hoje é necessário que se incorporem entre os diálogos da Igreja”.

Por Orlando Milesi – Adital: 14/07/2011

Teólogos se replantean ante temas emergentes

Las Jornadas Teológicas del Cono Sur y Brasil concluirán mañana (15) con propuestas que buscan ayudar a la Iglesia Católica a replantearse frente a nuevos temas como la actual crisis institucional y a otros no abordados por el Concilio Vaticano II. Unos doscientos participantes argentinos, brasileros, uruguayos, paraguayos y chilenos, reflexionaron durante tres jornadas consecutivas en torno a las temáticas actuales que la Iglesia necesita replantearse para buscar una solución a la crisis institucional. En diez mesas de trabajo, los participantes debatieron los cuestionamientos actuales sobre Dios, la religión en las universidades, la relación de la teología con las Ciencias Sociales y Naturales, la comprensión del hombre y la naturaleza, la postura teológica indígena y la participación de la mujer. Roberto Urbina, Secretario General de la actividad anticipó que las conclusiones se centrarán principalmente en la vigencia del Concilio Vaticano, y el diálogo entre la teología y la ciencia conversación que durante años ha sido “distante, lejana y a veces cerrada”. “La teología tiene que abrirse por lo menos a escuchar y acoger las interpelaciones que hace la ciencia. Hay que tomar en cuenta sus planteamientos, conocerlos, entenderlos y desde ahí ver lo que dice la teología. No son caminos paralelos”, sostuvo. Urbina comentó, asimismo, que la inclusión de la mujer y los pueblos originarios en este debate son temas que no forman parte del último Concilio, pero que “hoy es necesario que se incorporen entre los diálogos de la Iglesia”.

Por Orlando Milesi – Adital: 14/07/2011

Leia Mais:
A recepção do Vaticano II na América Latina

Bíblia e Memória Cultural: Davies e Hendel em diálogo

Dois artigos, publicados na revista The Bible and Interpretation, que valem a pena para quem trabalha com História de Israel:

:: Biblical History and Cultural Memory – Por Philip R. Davies, Professor Emérito da Universidade de Sheffield, Reino Unido – Abril de 2009

:: Cultural Memory and the Hebrew Bible – Por Ronald Hendel, Professor de Bíblia Hebraica e Estudos Judaicos, Universidade da Califórnia, Berkeley, USA – Julho de 2011

Os dois artigos trabalham o conceito de memória cultural em relação com a Bíblia Hebraica e a história bíblica.

Memória cultural costuma ser definida como a memória que está ligada à tradição e que é transmitida de uma geração para outra. Ela está primeiramente apenas no imaginário, mas passa a ser reconhecida e aceita pela memória coletiva que é responsável pela identidade de um grupo. A memória cultural trabalha reconstruindo cenas que cada sociedade considera necessárias, segundo sua situação particular e presente. A Mnemohistória, por exemplo, abandona o foco sobre o passado, centrando-se na forma como esse passado é lembrado no momento presente e afirmando que o passado pode ser remodelado, inventado e reconstruído. O passado, segundo esta perspectiva, é mutável, admitindo novas leituras a partir do presente.

Todos os artigos de Comblin em Estudos Bíblicos

O número 109 da revista Estudos Bíblicos – janeiro/março de 2011 – foi elaborado pelo grupo do Rio de Janeiro. O tema é Tolerância e intolerância religiosa. Diz Carlos Frederico Schalepfer no editorial: “Neste número da revista Estudos Bíblicos dedicamos nossa reflexão à questão da (in)tolerância na Bíblia, procurando contribuir nesta formação continuada da tolerância em nossas vidas”.

São 6 artigos, uma recensão e uma lista com todos os artigos publicados na Estudos Bíblicos por José Comblin, falecido em março de 2011. A lista foi elaborada por Ludovico Garmus, editor responsável pela Estudos Bíblicos na Vozes. Diz Garmus sobre Comblin:

Como exegeta [Nota: a tese de doutorado de Comblin em Lovaina tratou do Apocalipse: La Liturgie de la Nouvelle Jérusalem (Apoc 21:1-22:5) . ETL 29 (1953) – Cf. na BnF] foi um dos inspiradores do Comentário Bíblico de caráter ecumênico, ligado à Teologia da Libertação, publicado pela Editora Vozes (RJ), Imprensa Metodista (SP) e Editora Sinodal (RS) e comentou as Epístolas aos Efésios, aos Colossenses, a Filêmon, aos Filipenses e a Segunda Carta aos Coríntios [atualmente este comentário está sendo reeditado pela Loyola]. Foi também um dos fundadores da revista Estudos Bíblicos, integrando o Conselho da mesma revista e foi um assíduo colaborador (…) Abaixo trazemos a lista dos artigos com que enriqueceu a publicação de nossa revista Estudos Bíblicos [o modo de citar os 22 artigos foi ligeiramente modificado por mim].

1984
. A mensagem da epístola de São Paulo a Filêmon. Petrópolis, n. 2, p. 50-70.

1986
. A oração profética. Petrópolis, n. 10, p. 28-44.

1987
. Jesus Profeta. 3. ed. Petrópolis, n. 4, p. 41-59.
. Paulo e a mensagem de liberdade. Petrópolis, n. 14, p. 64-70.

1988
. O Êxodo na teologia paulina. Petrópolis, n. 16, p. 76-80.
. O batismo do ministro da rainha da Etiópia. Petrópolis, n. 17, p. 63-68.
. Os escravos e o Evangelho de Paulo. Petrópolis, n. 17, p. 69-75.

1990
. A composição sociológica da comunidade de Filipos. Petrópolis, n. 25, p. 34-42.
. As linhas básicas do Evangelho segundo Mateus. Petrópolis, n. 26, p. 9-18.
. Justiça e lei no Evangelho segundo Mateus. Petrópolis, n. 26, p. 19-27.
. A romaria no Novo Testamento. Petrópolis, n. 28, p. 33-41.

1993
. O caminho da sabedoria. Petrópolis, n. 37, p. 9-17.
. Jesus conselheiro. Petrópolis, n. 37, p. 40-47.

1995
. A fome e a Bíblia. Petrópolis, n. 46, p. 25-32.

1998
. Apocalíptica judaica – Apocalíptica cristã. Petrópolis, n. 59, p. 37-42.
. O Apocalipse de João e o fim do mundo. Petrópolis, n. 59, p. 44-52.

1999
. A cristologia do Evangelho segundo Marcos. Petrópolis, n. 64, p. 36-42.

2001
. A ressurreição nos Atos dos Apóstolos. Petrópolis, n. 70, p. 65-72

2003
. Cidadania, lei e liberdade. Petrópolis, n. 79, p. 101-110.

2005
. Corporeidade e Bíblia. Petrópolis, n. 87, p. 57-64.

2007
. A Bíblia e o compromisso social. Petrópolis, n. 95, p. 9-16.

2008
. Ler a Bíblia. Petrópolis, n. 100, p. 26-32.

Leia Mais:
Publicações de José Comblin

Morreu o teólogo Felix Pastor (1933-2011)

Leio em Notícias: IHU On-Line de 12/07/2011:

Morreu Felix Pastor, padre jesuíta e professor de teologiaFelix Pastor (1933-2011)

“Morreu ontem, dia 11 de julho, no Rio de Janeiro, Felix Alejandro Pastor Piñero, 78 anos, padre jesuíta, professor emérito da Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma. Conhecido como Padre Pastor, ele viveu muitas décadas no Colégio Pio Brasileiro, em Roma, tendo orientado uma multidão de estudantes brasileiros de teologia nas suas teses de doutorado. Todos os anos, durante o período de férias na Europa, ele vinha para o Rio de Janeiro, onde dava aulas no Curso de Teologia da PUC-Rio. Na última quinta-feira, ele chegou ao RIo para ministrar o seu curso. Ele morreu, repentinamente, na Residência Padre Leonel Franca, dos padres jesuítas que trabalham na PUC-Rio”.

Pastor foi meu professor na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Estudei Trindade com ele, na graduação, na década de 70. Foi um trabalho danado para ele nos fazer entender os teólogos alemães nas páginas do Mysterium Salutis. Mas ele foi paciente conosco. Como nas aulas as ideias não ficavam suficientemente claras para nossos poucos conhecimentos dos pressupostos destes teólogos, criamos, com ele, em casa, um seminário sobre a disciplina, onde discutíamos com mais vagar teorias tão complexas para nós.

Entretanto, Pastor foi mais do que meu professor: morávamos na mesma casa, no Colégio Pio Brasileiro. Convivi com ele durante 6 anos, de 1970 a 1976. Pastor foi um grande amigo. Especialmente durante os meus 3 anos de mestrado gostávamos muito de trocar ideias.

Teve uma época em que andamos de “cara virada” um para o outro: ele queria que eu fizesse pós-graduação em uma das áreas da Teologia Sistemática e eu queria – e fiz – pós-graduação em Bíblia. Como ele era orientador de estudos na casa, sua insistência me causou alguns transtornos. Mas essa frieza durou pouco, pois, em pouco tempo, nós nos tornamos muito mais amigos do que antes. Nos meus dois últimos anos em Roma, ele, como responsável pela biblioteca do Pio Brasileiro, me pediu para indicar os livros da área bíblica que deveriam ser comprados. O que fiz com muito prazer, “rato de biblioteca” que sempre fui. Ia, com o funcionário da biblioteca, meu amigo Juarez, às livrarias e enchíamos uma van de livros de Bíblia para a biblioteca do Pio. Dava gosto.

Por pura coincidência, no dia 11, segunda-feira, passei o dia todo na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte, a FAJE. Estava na reunião anual dos Biblistas Mineiros, examinando, com uma dúzia de colegas, os artigos de nosso próximo número da revista Estudos Bíblicos, que sairá em 2012.

Descanse em paz, ilustre professor.

Transcrevo, a seguir, a nota de Paulo Fernando Carneiro de Andrade, teólogo, professor na PUC-Rio sobre a morte de Pastor. Também publicada por Notícias: IHU On-Line, ontem, dia 12 de julho de 2011.

Pe Felix Alejandro Pastor sj por Paulo Fernando Carneiro de Andrade

“Faleceu dia 11 de junho no Rio o Pe Felix Alejandro Pastor sj. Nascido em 1933 na Galícia, fez os votos religiosos na Companhia de Jesus em 1950. Junto com outros jesuítas espanhóis foi destinado ao Brasil, aonde chegou jovem e fez seus estudos, tendo sido ordenado em 1963. Possuindo notável vocação teológica após seu doutorado foi chamado a ser Professor da Pontifícia Universidade Gregoriana e Diretor de Estudos do Colégio Pio Brasileiro em Roma. Durante décadas alternou suas funções em Roma com a participação, durante as férias do verão europeu, nas atividades de ensino no Departamento de Teologia da PUC – Rio, ministrando disciplinas de pós Graduação e mesmo de graduação. Distinguia-se por sua erudição e sólido conhecimento teológico, por um profundo amor a Igreja e um trato afável com os estudantes e colegas, muitos dos quais se tornaram amigos por toda a vida. Autor de uma obra teológica vasta e consistente dirigiu mais de 150 teses de doutorado, tendo sido formador de um grande número de teólogos e teológas brasileiros, muitos dos quais foram chamados ao episcopado e mesmo ao cardinalato como D. Scherer de São Paulo. Sua contribuição para a Igreja do Brasil é inestimável. Pe. Pastor tinha especial afeição pelo Rio de Janeiro. Chegou de Roma quinta feira dia 7 de julho para lecionar um seminário na Pós-Graduação da PUC-Rio entre os meses de agosto e setembro. Sua morte deu-se no dia em que se abria o 24º Congresso da SOTER onde se encontram vários de seus orientandos e provocou grande consternação”.

Transcrevo também o texto, mais longo e detalhado, de Faustino Teixeira, publicado no Amai-vos, em Notícias: IHU On-Line e também no blog do Faustino, Diálogos, em 12/07/2011:

Felix Pastor, orientador e amigo (1933-2011)

“Nós, teólogos brasileiros, perdemos no dia 11 de julho um grande mestre e amigo. Deixou-nos o padre Felix Pastor, que tinha recém chegado de Roma para a sua temporada no Rio de Janeiro, onde também lecionava. Não há como lembrar de sua presença senão com alegria e saudade e hoje, em especial, muita saudade. Foram inúmeros teólogos brasileiros e latino-americanos que passamos por sua competente e atenta orientação. Impressionante a sua capacidade de doação e a argúcia de seu método. Foi alguém que abriu as portas da Pontifícia Universidade Gregoriana para muitos dos teólogos pesquisadores que se encontram hoje atuando em Universidades e Institutos Teológicos no Brasil e tantas outras localidades. Como bem acentuou o cardeal Aloísio Lorscheider, no prefácio de obra em sua homenagem, Pastor ‘é um benemérito da Igreja universal e, de modo especial, da Igreja que está no Brasil. A Igreja do Brasil deve muito a este sacerdote zeloso e dedicado. Várias gerações passaram por suas mãos’ (O mistério e a história. São Paulo: Loyola, 2003). Tive em particular essa alegria de poder conviver de perto com esse grande mestre. Um contato que começou quando era estudante do mestrado em teologia na PUC-RJ, numa época de grande florescimento da teologia, marcada pela presença de muitos jovens estudantes leigos.

Tinha nascido no período a idéia de trazer Felix Pastor para ajudar no ensino e na orientação dos estudantes de teologia. Sua vinda foi celebrada por todos, e assim nasceu uma parceria maravilhosa. A cada ano, Pastor dedicava um semestre ao ensino na Gregoriana e o outro na PUC-RJ. Essa presença no Brasil foi geradora de muitas vocações teológicas. Muitos de nós, seus alunos na PUC, fomos recebidos por ele com afeto e alegria na Gregoriana, para os estudos doutorais. E isso também foi favorecido pela grande sensibilidade de Pastor aos temas candentes da teologia latino-americana, como a teologia da libertação, as comunidades eclesiais de base e as pastorais sociais. Estávamos diante de um teólogo apaixonado pelo tema do Reino e da História.

Num de seus livros, dedicados a esta questão, dizia com segurança: ‘Descobrindo a unidade teológica da história dos homens, criados a participar da salvação escatológica, a Teologia da Libertação descobre a unidade profunda do temporal e do espiritual, do escatológico e do histórico, do individual e do comunitário, do religioso e do político’. A teologia para ele estava diante de uma tarefa nova e fundamental: armar sua tenda na história dos humanos, sem perder jamais, a sedução do Mistério. A salvação deixa de ser uma questão extra-terrena e passa a ocupar o cenário das lutas do dia-a-dia: ‘A salvação cristã inclui a realidade do homem novo e da nova terra, em que habita a justiça. Postular a sua realização e lutar pelo seu advento não é uma usurpação prometeica, mas uma exigência da ética cristã’. Esse foi o aprendizado que dele recebemos, e que foi decisivo para as nossas trajetórias.

Pastor foi também um grande teólogo, possuidor de invejável cultura teológica, mas que não ficava restrita a esse campo do saber.

Impressionava sua abertura ao universo da literatura, do cinema e da arte em geral. Sua paixão teológica voltava-se, de modo particular, para dois grandes clássicos da teologia: Agostinho e Paul Tillich. A eles dedicou inúmeros cursos, conferências e muitos artigos, publicados em periódicos reconhecidos internacionalmente. Admirava igualmente Karl Rahner, e com grande maestria nos ajudava a desvendar as difíceis e sedutoras entranhas desse grande teólogo alemão. Não me esqueço de suas brilhantes e instigantes intervenções no seminário em torno do Curso fundamental da fé, de Karl Rahner, dado na Gregoriana. Foram aulas que abriram horizontes inesperados para reflexões futuras.

Nascido na Galícia, em 25 de fevereiro de 1933, entrou para a Companhia de Jesus em novembro de 1950. Os estudos de filosofia foram realizados na Universidade de Comillas, a partir de 1954, depois de formação em Letras Clássicas, Humanidades e Retórica no Colégio de Salamanca. Veio em seguida, em 1957, a destinação missionária para o Brasil, instalando-se na Província Jesuítica Goiano-Mineira, na época do padre João Bosco Penido Burnier. O noviciado foi realizado em Itaici, São Paulo, e os trabalhos pedagógicos no Colégio Loyola de Belo Horizonte. Os estudos de teologia iniciaram-se em 1960, no Colégio Máximo Cristo Rei, em São Leopoldo (RS), tendo prosseguimento na Alemanha, na Faculdade de Teologia da Hochschule Sankt-Georgen (Frankfurt/Main), onde concluiu seu bacharelado, em 1962. Sua ordenação presbiteral aconteceu em 27 de agosto de 1963, na catedral de Frankfurt. Motivado pelo então provincial, Marcelo de Azevedo, foi cursar o doutorado em teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma), na época do evento conciliar. A conclusão do doutorado ocorreu em junho de 1967, com tese orientada por Donatien Mollat (SJ), versando sobre tema eclesiológico em E. Schweizer. Sua tese foi publicada em 1968 na prestigiosa coleção Analecta Gregoriana (vol. 168 – La eclesiología Juanea según E.Schweizer). A partir de outubro de 1967 ficou responsável pela direção espiritual do Colégio Pio Brasileiro, em Roma. E também a partir desse ano iniciou suas atividades acadêmicas na Gregoriana.

Dentre suas inúmeras publicações, destacam-se os livros: Existência e Evangelho (1973), O reino e a história (1982), Semântica do Mistério (1982) e a Lógica do inefável (1986 e 1989). No campo do ensino, dedicou-se em particular aos temas relacionados à Eclesiologia, ao Tratado de Deus e outras questões teológicas e ecumênicas. Merece destaque sua atenção à problemática teológica latino-americana, como bem destacado por Maria Clara L. Bingemer e Paulo Fernando Carneiro de Andrade: ‘Sua ligação com a América Latina e com a teologia produzida deste lado do mundo, juntamente com sua sensibilidade social e seu profundo sentido de justiça, fizeram igualmente do Pe. Pastor um exímio especialista e agudo crítico da teologia latino-americana, tendo ministrado cursos, publicado vários trabalhos e orientado diversas teses sobre o tema da relação entre Teologia e Práxis, e sobre as tendências mais atuais da teologia do continente’.

Pude também encontrar nele um importante apoio em momento delicado de meu retorno ao Brasil, quando titubeava o processo de autorização canônica para o meu retorno à PUC-RJ. Ele veio prontamente em minha defesa, junto com Juan Alfaro, desanuviando os sombrios horizontes. Essa é uma marca importante na personalidade de Felix Pastor: o profundo respeito pela reflexão de seus orientandos. Mesmo que não partilhasse inteiramente das posições teológicas de seus alunos, incentivava a reflexão mantendo sempre acesa a imprescindível chama do direito à liberdade de expressão. É um dos exemplos mais bonitos que pude verificar nessa trajetória de caminhada comum e que busco manter vivo na experiência com meus alunos.

O toque decisivo de sua atuação estava no dom da orientação acadêmica. É difícil encontrar um orientador com tamanha capacidade de desbravar caminhos e horizontes. As dificuldades trazidas por seus orientandos ganhavam com ele sempre uma solução precisa. Os alunos entravam em seu gabinete preocupados com o destino de seu trabalho e saíam sorridentes com as soluções encaminhadas. Era sobretudo um grande pedagogo, com impressionante experiência nesse campo de apoio, presença e orientação dos alunos. E essa prática vinha amparada por muitos anos de experiência com a análise psicanalítica. Seus cursos de metodologia ficam guardados na memória. Trouxe essa experiência em aulas memoráveis, sobretudo na PUC-RJ, mas também em outros centros de estudo como a Faculdades dos Jesuítas (FAJE) e a Universidade Federal de Juiz de Fora, onde também esteve presente algumas vezes para falar de sua experiência de orientação acadêmica.

É difícil precisar o número exato de seus orientandos no mestrado e no doutorado. Foram, certamente, mais de 350 estudantes que passaram por essa rica experiência. No âmbito do doutorado, foram mais de 90 teses por ele orientadas, das quais cerca de 55 de alunos brasileiros. Entre alguns dos doutores que passaram por sua orientação: Álvaro Barreiro e Alfonso Garcia Rúbio (1972-1973), Mário de França Miranda (1973-1974), Carlos Palacio (1975-1976), Juan A.R. de Gopegui (1976-1977), Ênio José da Costa Brito (1978-1979), Valdeli Carvalho da Costa (1980-1981), Faustino Teixeira e Antônio Jose de Almeida (1985-1986), Alexander Otten e Vitor G. Feller (1986-1987), Elias Leone, Maria Clara L. Bingemer e Paulo Fernando Carneiro de Andrade (1988-1989), Afonso Murad (1991-1992), Paulo Sérgio Lopes Gonçalves (1996-1997), Laudelino José Neto (1997-1998), Antônio Reges Brasil (2000-2001), Marcial Maçaneiro e Paulo César Barros (2000-2001) e muitos outros.

O bonito é perceber que ele deixou entre nós um exemplo vivo de paixão e testemunho, de maravilhosa abertura ao Mistério sempre maior. Dele guardamos o carinho e o largo sorriso, de um orientador, mas sobretudo um amigo sempre presente. Eu estava particularmente feliz ao poder reencontrar-me com ele num simpósio internacional de teologia, previsto para acontecer em setembro de 2011 na PUC-RJ. Não contava os dias para esse encontro. Infelizmente, esse diálogo ficou adiado para mais adiante. Fico com a bela imagem de sua presença amiga, regada pela alegria de encontros maravilhosos, tanto no Brasil como na Itália. Seguindo uma pista de Walter Rauschenbusch, Pastor deixa-nos como herança ‘a graça de ter um coração valente, para que possamos caminhar por esta estrada com a cabeça levantada e com um sorriso no rosto’”.

O que é um biblioblog?

O que é um biblioblog? O que é um blog sobre estudos bíblicos? O que caracteriza um blog como biblioblog? Quem deve ser chamado de biblioblogueiro e quem não deve?

Um biblioblog é um blog que trata de estudos acadêmicos da Bíblia. A biblioblog is a blog which promotes academic study of the Bible. Ou, dito de outro modo, é um blog que tem como foco principal pesquisas bíblicas realizadas, geralmente, por exegetas.

Leia primeiro: Jim Davila fala sobre os biblioblogs no século XXI e SBL 2010: considerações e links interessantes

Contudo a discussão sobre o que é um biblioblog não tem fim. Confira Briga de foice no escuro

Mas, sendo a vez, sendo a hora,
Um biblioblogueiro
entende,
atende,
toma tento,
avança,
peleja
e faz!

Veja uma amostra do mais recente banzé-de-cuia sobre o assunto:

:: So, Let’s Discuss What a “Biblioblog” Is – Posted on July 10, 2011 by Steve Caruso

:: What is a Biblioblog? – Posted on July 10, 2011 by James F. McGrath

:: Once more, what makes a biblioblogger? – Posted on July 11, 2011 by Chris Brady

:: (Possible) Bibliobloggers and #ManlyMen Discuss Biblioblogging and Bullying – Posted on July 11, 2011 by James F. McGrath

Israel Finkelstein e colegas: o problema de Jerusalém

Artigo de Israel Finkelstein, Ido Koch e Oded Lipschits, da Universidade de Tel Aviv, Israel, sobre o espinhoso problema arqueológico de Jerusalém na Idade do Ferro.

Problema complexo mesmo, pois escavações em grande escala no Monte do Templo não são possíveis. Eles defendem, no artigo, que Jerusalém, entre os séculos X e VIII AEC e, depois, na Época Helenística (a partir do século IV AEC) era um pequeno povoado, mas hoje difícil de ser explorado, pois ficava no que chamamos de Monte do Templo e cujos vestígios foram destruídos por Herodes Magno (37-4 AEC) quando este mandou construir a grande esplanada no local.

O artigo, que foi publicado em The Journal of Hebrew Scriptures, – Volume 11, Article 12, em 2011, é:

FINKELSTEIN, I; KOCH, I.; LIPSCHITS, O. The Mound on the Mount: A Possible Solution to the Problem with Jerusalem

Diz o abstract:
Following Knauf’s suggestion (2000), the article raises the possibility that in most periods in the second and first millennia BCE the main built-up area of Jerusalem was limited to a mound on the Temple Mount. This mound, which may have covered an area of five hectares and more, was boxed-in under the Herodian platform. At these periods activity in the City of David ridge was restricted to the area near the Gihon spring. In the Iron IIB and late Hellenistic Periods the fortified settlement expanded simultaneously to both the City of David ridge and the southwestern hill. In these two periods there was no need to fortify the western side of the City of David, as this line ran in the middle of the city.

Ou seja: seguindo a sugestão de Ernst Axel Knauf, da Universidade de Berna, Suíça [2000: Jerusalem in the Late Bronze and Early Iron Ages: A Proposal. Tel Aviv 27: 75–90], o artigo levanta a possibilidade de que na maior parte dos segundo e primeiro milênios AEC a principal área construída de Jerusalém se limitava a uma colina no Monte do Templo. Esta área, que pode ter coberto pouco mais de cinco hectares, está sob a esplanada construída por Herodes. Nestes períodos, vida ativa poderia ser detectada na área próxima da fonte Gihon. No Idade do Ferro IIB [X-VIII séculos AEC] e na Era Helenística o povoado fortificado se expandiu simultaneamente para a Cidade de Davi e para o cume da colina sudoeste. Nestes dois períodos não havia necessidade de fortificar o lado ocidental da Cidade de Davi [os autores estão usando o termo “cidade de Davi” em seu significado arqueológico mais comum: that is, the ridge to the south of the Temple Mount and west of the Kidron Valley, also known as the southeastern hill].

O artigo explica ainda que não há solução definitiva para o caso, e o que os autores querem é apenas colocar a sua proposta em debate:

The theory of “the mound on the Mount” cannot be proven without excavations on the Temple Mount or its eastern slope — something that is not feasible in the foreseen future. Indeed, Na’aman (1996: 18-19) stated that since “the area of Jerusalem’s public buildings is under the Temple Mount and cannot be examined, the most important area for investigation, and the one to which the biblical histories of David and Solomon mainly refer, remains terra incognita”, and Knauf (2000: 87) maintained that “Abdi-Khepa’s and David’s Jerusalem lies buried under the Herodian through-Islamic structures of the Temple Mount, thus formulating a hypothesis which cannot be tested or refuted archaeologically.” We too regard our reconstruction below as no more than a hypothesis. In other words, for clear reasons — the inability to check our hypothesis in the field — we cannot present a well-based solution for the “problem with Jerusalem.” Rather, our goal in this paper is to put this theory on the table of scholarly discussion.

Carlos Mesters 80 anos

Em 20 de outubro de 2011 Carlos Mesters completa 80 anos de vida.

Visite o blog que comemora os 80 anos de nosso biblista maior, Carlos Mesters, nosso mestre:

Carlos Mesters 80 anos

Diz a apresentação do blog:

Desde meados no ano passado, o Conselho Nacional tem presente a celebração desta data. Não foi fácil chegar a esta proposta de um espaço participativo e interativo. Num primeiro momento pensamos no tradicional livro com artigos e depoimentos. Várias sugestões foram feitas, unindo entidades em que frei Carlos foi figura marcante. O CEBI e a Província Carmelitana Santo Elias chegaram a pensar num esquema de livro e a esboçar uma lista de prováveis colaboradores e colaboradoras. Tudo em vão! Qualquer proposta esbarrava na firme e tenaz resistência do homenageado que se recusava a aprovar qualquer esquema de livro. Frei Carlos rejeita homenagens: “Se alguém merece incenso, este alguém é o povo!” Até aceitaria um livro, desde que estivessem presentes as pessoas significativas em seus trabalhos na caminhada da Leitura Popular da Bíblia. Se fôssemos atender seus pedidos o livro teria mais de 300 colaboradores. E se cada pessoa escrevesse uma mensagem curta, o livro teria mais de mil páginas! Impossível! Depois de muitas conversas e do apoio do homenageado, chegamos à conclusão em propor este blog. Sinta-se à vontade! Deixe aqui sua mensagem, seu testemunho, sua poesia, seu artigo. Se quiser, pode enviar também fotos e vídeos. Qualquer maneira que você mesmo/a resolver homenagear frei Carlos será muito bem vinda! Ele lerá e responderá, como ele mesmo diz, “na medida do possível”. Tenha presente a frase com que frei Carlos desaprovava qualquer proposta de homenagem. Diante de idéias ele apenas dizia: “Se alguém merece incenso, este alguém é o povo!” Tenha certeza de que na sua mensagem você estará homenageando o povo que se congrega em comunidades para ler, meditar e orar a partir das Escrituras. Em nome do Conselho Nacional do CEBI, agradecemos seu carinho e sua mensagem a frei Carlos.

Francisco Orofino – Adeodata Maria dos Anjos – Edmilson Schinelo

Existe ranking neutro? De geringonças e gambiarras

Talvez isto pudesse – mutatis mutandis, ou seja, uma vez efetuadas as necessárias adaptações – ser aplicado também aos nossos biblioblogs e suas listas “top prá cá, top prá lá”… incluído x excluído… quantidade e popularidade x qualidade… e muitas geringonças e gambiarras mais…

É que acabei de ler o artigo de Vladimir Safatle, Avaliar para moldar, publicado por CartaCapital hoje, 07/07/2011. Trata das avaliações educacionais, especialmente dos rankings internacionais de avaliação universitária. E mostra os mecanismos de controle social presentes em sua aparente neutralidade e objetividade.

Cito alguns trechos:

“Vivemos a era em que as avaliações educacionais são normalmente vendidas como métodos neutros de descrição, como fotografias de situações claramente objetivas e não problemáticas. Nesse sentido, os que são contra as avaliações só poderiam, na verdade, querer esconder alguma forma de inaptidão ou incompetência. Ao menos, é assim que o debate é normalmente posto quando se discutem as avaliações universitárias. Talvez fosse o caso de perguntarmos, porém, se uma boa parte da resistência de setores universitários a certos regimes de avaliação não viria da compreensão de que avaliar é, muitas vezes, uma maneira mais silenciosa de impor um modelo. Quando se trata da vida universitária, avaliações que se dizem neutras são, muitas vezes, maneiras de privilegiar certos tipos de pesquisa, desqualificar outros, decidir sobre como as universidades devem se desenvolver e decidir seus critérios de relevância. Um exemplo privilegiado desse passe de mágica são os chamados rankings internacionais de avaliação universitária. Por meio de tais rankings, vende-se a possibilidade de sabermos quais seriam as melhores universidades do mundo, quais seriam os verdadeiros centros de excelência. Eles são, muitas vezes, usados por administrações universitárias e por instâncias governamentais para justificar o destino ou o corte de verbas, assim como para justificar intervenções na estrutura acadêmica” (…)

“Estes e outros sistemas de avaliação não nasceram, como era de se esperar, de um debate amplo, constante e sempre reversível entre os vários campos de pesquisa que compõem a vida universitária. Eles não foram o resultado de discussões, mais do que necessárias, entre várias universidades no mundo que procurariam expor as características de suas tradições de pesquisa” (…)

“Em larga medida, tais problemas são de origem, pois tais rankings foram sintetizados por áreas específicas de pesquisa (ciências exatas e biológicas) em universidades anglo-saxãs e, em um segundo momento, tentou-se impô-los, com alguns ajustes, para outras áreas e outros países. Não por acaso, nações com forte tradição universitária e capacidade de influência, como França e Alemanha, estão normalmente mal posicionadas em tais rankings” (…)

“Quem mais sofreu com isso foram as chamadas ciências humanas. Não porque as ciências humanas (…) seriam ‘menos científicas’ do que a física ou a biologia ou ‘menos importantes’ (…) Na verdade, elas têm uma dinâmica de pesquisa e impacto que merece ser compreendido em sua especificidade”.

“Há um exemplo paradigmático nesse sentido. Normalmente, tais rankings se propõem a avaliar a produção acadêmica a partir do total de artigos publicados em revistas indexadas ou a partir dos índices de citações a artigos e autores. Mas o que um índice de citações retrata? Poderíamos dizer que um artigo é mais citado, circula mais, devido à sua qualidade. Isto é, porém, simplesmente falso. O maior número de citações indica que o artigo foi lido por mais pessoas e conseguiu inserir-se em uma das redes hegemônicas de pesquisa em determinado momento”.

“Lembremos aqui de duas variáveis que interferem diretamente nessa circulação. A primeira refere-se à intervenção de forças econômicas na pesquisa acadêmica [como a indústria farmacêutica](…) Outra variável importante para determinar a circulação de um artigo é a língua [sublinhado meu]. Um artigo em inglês sempre circulará mais que outro escrito em uma língua “exótica” como o português, mesmo se o primeiro for pior que o segundo. Claro que alguém pode perguntar: então, por que não escrevemos todos nossos artigos em inglês? Podemos fazer como os holandeses, os finlandeses e outros, que resolveram esse problema sem muita confusão. Mas vejam que interessante. Se os nossos pesquisadores publicassem suas produções basicamente em revistas acadêmicas e em inglês, a universidade ficaria, de uma vez por todas, de costas para a sociedade. Nossa produção nem sequer seria escrita na língua de nossa sociedade, nessa língua em que a nossa opinião pública constitui seus debates e sua esfera de reflexão. Assim, a universidade realizaria, de vez, seu divórcio, dialogando apenas dentro de seus muros. Muros esses que se repetiriam em cada país de língua não inglesa” (…)

“Boa parte dos rankings internacionais nem sequer avalia livros, com sua força natural para romper os muros da academia. Ou seja, se você publicou um livro em uma editora renomada como a Cambridge University Press, depois de anos de pesquisa, isso, inacreditavelmente, não será levado em conta. Mesmo aqueles rankings que avaliam livros avaliam mal, dando peso reduzido a eles em comparação a um artigo acadêmico. Nada justifica tal aberração, já que boas editoras têm comitês de leitura de alto nível, como qualquer revista acadêmica. A única justificativa é: trata-se de impor uma concepção de universidade, na qual a capacidade de intervenção na vida social não é mais importante. Mas a questão é: a quem interessa uma universidade assim? Por que deveríamos nos pautar por esse modelo?”

Quem é Vladimir Pinheiro Safatle, Professor do Departamento de Filosofia da USP? Consulte seu Currículo Lattes.