Minha perspectiva é a seguinte:
:. estou cada vez mais convencido de que a Bíblia Hebraica / Antigo Testamento só existe por causa do exílio babilônico
:. do que resulta o seguinte: para quem estuda a Bíblia Hebraica / Antigo Testamento e a História de Israel, como eu, ter, pelo menos, uma visão geral das culturas mesopotâmicas é imprescindível para a compreensão dos textos e seus contextos
:. mas aí percebo um problema: chego até os sumérios e sua cultura, até por volta de 3500 a.C., e paro aí. Mas como se chegou a isso? O que existia antes disso?
:. e então comecei a perceber a necessidade de um mergulho na pré-história da região
:. existe excelente material para isso, que venho percorrendo desde o início de 2025 (veja os livros que estou lendo em meu Instagram)
:. o que se segue é parte desta trajetória, que já comecei a apresentar no Observatório Bíblico em 05.03.2025, com um post sobre A fundação de Jericó.
:. Os links para todas as postagens sobre o tema podem ser acessados em O Crescente Fértil na Pré-história e na Idade do Bronze, post publicado no Observatório Bíblico em 06.09.2025.
Estou lendo mais um livro do assiriólogo italiano Mario Liverani:
LIVERANI, M. Antico Oriente: storia, società, economia. Nuova edizione aggiornata. Roma-Bari: Laterza, 2011 [IX rist. 2024], 912 p. – ISBN 9788842095880.
Leio o original em italiano, mas comparo, de vez em quando, com as versões em inglês e português.
Estas são notas de leitura do capítulo 3: As premissas neolíticas e calcolíticas [Le premesse neolitiche e calcolitiche] da primeira parte do livro: Introduzione.
Este capítulo tem 4 seções, que serão publicadas em 4 posts:
1. Os primeiros produtores de alimento [I primi produttori di cibo]
2. O neolítico: características gerais [Il neolitico pieno: i caratteri generali]
3. O neolítico: variações regionais [Il neolitico pieno: le varietà regionali]
4. Rumo à urbanização [Verso l’urbanizzazione]
Reestruturei o texto em formato de perguntas e respostas.
1. Os primeiros produtores de alimento
Por onde começar?
. Para traçar o desenvolvimento dos elementos culturais e das diferenças regionais que influenciaram a história do Antigo Oriente Médio, é necessário partir do que foi definido por Gordon Childe como a “Revolução Neolítica”*. Neste caso, o termo “revolução” não indica uma mudança repentina, mas uma mudança radical nas estruturas socioeconômicas da época. No entanto, essa mudança, que ocorreu ao longo de alguns milênios, foi relativamente rápida em comparação com os dois milhões e meio de anos anteriores de atividades de caça e coleta.
O que caracteriza a Revolução Neolítica?
. A principal característica da Revolução Neolítica foi o desenvolvimento progressivo de técnicas de produção de alimentos (agricultura e pecuária), gradualmente ultrapassando atividades como caça e coleta de alimentos. Infelizmente, os estágios iniciais desse processo ainda são objeto de especulação e permanecem em grande parte desconhecidos. As características tradicionais das sociedades neolíticas, como suas atividades agropastoris, a sedentarização de comunidades aldeãs e a produção de cerâmica, são consideradas inseparáveis e em grande parte contemporâneas.
Mas isto foi uniforme em todas as regiões do planeta?
. Não. Essas características precisam ser reexaminadas ao considerar o Antigo Oriente Médio. Essa área fornece evidências contemporâneas tanto da colheita intensiva quanto das fases iniciais dos processos de produção, além de agricultura não sedentária e comunidades neolíticas onde a cerâmica ainda era desconhecida. Além disso, a chamada “Revolução de Amplo Espectro”** do Paleolítico Superior, quando os recursos eram coletados por meio de técnicas especializadas de caça e coleta, pode ter precedido a formação dessas características tipicamente neolíticas. Observando a história da região, torna-se possível vislumbrar a variedade de estratégias propostas por diferentes comunidades em diferentes ambientes, mesmo quando eram relativamente próximas umas das outras, tanto geográfica quanto cronologicamente. Nesse período, portanto, coexistiram comunidades com diferentes graus de desenvolvimento tecnológico e econômico.
De que época e de quais zonas estamos falando?
. Estamos falando de três fases de desenvolvimento:
1. A partir do décimo milênio a.C.: as primeiras comunidades a desenvolver técnicas de produção de alimentos estavam localizadas fora da fronteira do Crescente Fértil, ao longo de um arco que se estendia da Palestina até o sopé dos montes Taurus e Zagros, chegando ao Cuzistão.
2. Durante o sétimo milênio a.C., as grandes culturas cerâmicas do período Neolítico se espalharam para a planície da Baixa Mesopotâmia e também se estabeleceram nos planaltos da Anatólia e do Irã.
3. Foi só no quarto milênio a.C. que a Mesopotâmia, assim como o Egito, assumiu um papel central no processo. Essa centralidade caracterizaria a Mesopotâmia ao longo dos estágios posteriores de sua história, especialmente em relação à sua própria “periferia”.
Por que o fenômeno aconteceu primeiro nesta região?
. O Levante e os contrafortes da Anatólia e do Irã foram regiões particularmente adequadas para a Revolução Neolítica. Essas áreas eram todas caracterizadas por nichos ecologicamente estáveis e bem protegidos (vales e bacias entre montanhas), adequados aos fenômenos socioculturais da época, que se beneficiavam de contatos próximos entre diferentes ecossistemas. Essa interação facilitou a exploração de diferentes recursos e o movimento sazonal de grupos humanos em relação ao deslocamento dos animais e dos recursos vegetais. No geral, tendo em mente que a partir de 10000 a.C. o clima se tornou mais quente e úmido do que antes, essas eram zonas mais chuvosas, caracterizadas principalmente por cobertura herbácea com bosques ralos (com carvalhos e pistaches). Nessas áreas, as espécies vegetais e animais que estariam no centro da Revolução Neolítica (como cereais, leguminosas, cabras e ovelhas) cresciam naturalmente.
E o período anterior?
O período anterior (ca. 15000–10000 a.C.) é caracterizado por intensas atividades de caça e coleta:
1. A caça: os assentamentos ainda eram feitos de abrigos para pequenas comunidades de quarenta a cinquenta pessoas, cuja mobilidade no território acompanhava os animais que eram a base de sua dieta. A caça concentrava-se principalmente em gazelas na Palestina, ovinos nos Zagros e caprinos em toda a área. As pessoas começaram a praticar um tipo de caça mais especializado, focado na seleção de espécies a serem abatidas para não enfraquecer os rebanhos selvagens. Dessa forma, as comunidades começaram a controlar os rebanhos sem criá-los integralmente.
2. A coleta: as atividades de coleta, especialmente de cereais e leguminosas, também se intensificaram e se tornaram cada vez mais especializadas, causando, ainda que involuntariamente, os primeiros efeitos da seleção humana e da difusão de certas plantas. Assim, conceitos básicos de produção de alimentos foram estabelecidos por meio de um maior conhecimento das práticas mais eficazes para a exploração da terra. O nomadismo tornou-se mais restrito, pois dependia da disponibilidade e localização dos recursos. Às vezes, como no caso da pesca em lagos ou mesmo em áreas com grande concentração de cereais silvestres, esses aspectos facilitaram o desenvolvimento de um estilo de vida sedentário. As ferramentas de pedra substituíram as grandes formas do Paleolítico por micrólitos geométricos usados para funções especializadas, como pilões de pedra para triturar cereais silvestres.
E isto acontecia onde hoje é a Palestina e o Curdistão iraquiano?
. As principais culturas dessa fase foram as de Kebara, na Palestina, e de Zarzi, no Curdistão iraquiano. Foi lá que surgiram os primeiros processos inovadores, inaugurando uma nova fase de desenvolvimento no Antigo Oriente Médio. Enquanto na região dos Zagros pequenas comunidades móveis se concentravam principalmente na domesticação de ovelhas e cabras, nas regiões do Levante e do Taurus comunidades maiores e mais estabelecidas promoveram a domesticação de cereais.
Então essa pode ser caracterizada como uma era de produção incipiente de alimentos?
. Pode. E isto ocorreu entre 10000 e 7500 a.C. Algumas espécies de pequenos mamíferos ruminantes, já objeto de atividades especializadas de caça (em 10000 a.C., o cão já era domesticado para fins de caça e guarda, e não como alimento), tornaram-se parte cada vez mais importante de uma espécie de simbiose humano-animal. Essa interação próxima, no entanto, só funcionou com certas espécies (por exemplo, ovelhas e cabras), que eventualmente seriam domesticadas, mas não funcionou com outras espécies (por exemplo, gazelas), que continuaram a ser caçadas. Essa “simbiose” e a fase inicial da domesticação levaram ao uso sistemático de leite e carne (e, eventualmente, de lã), ao abate seletivo de animais machos e à proteção e condução de rebanhos (que agora haviam se tornado propriedade humana) para pastagens sazonais.
Como os arqueólogos reconhecem essa fase inicial de domesticação dos animais?
. Nos animais ocorrem mudanças morfológicas*** que nos permitem reconhecer a domesticação a partir dos ossos, o que também pode ser deduzido a partir de estatísticas sobre a idade e o sexo dos animais abatidos. Naturalmente, mudanças físicas nesses animais só apareceram após longos períodos de domesticação. Portanto, são muito difíceis de reconhecer nas fases iniciais desse processo.
E como reconhecer a domesticação de cereais e leguminosas?
. O mesmo se aplica à domesticação de cereais – cevada em toda a região, trigo emmer na Síria e na Palestina, e einkorn na Anatólia e no Irã – e leguminosas. A colheita contínua de cereais selvagens e a subsequente concentração das sementes descartadas ao redor dos assentamentos devem ter levado, após observações sobre seu ciclo vegetativo, aos primeiros experimentos de cultivo. Isso aconteceu por meio da delimitação do espaço “cultivado”, protegendo-o dos animais. Também no caso de cereais e leguminosas, a domesticação causou mudanças morfológicas consideráveis e mutações genéticas, que permaneceram incompletas nos estágios iniciais. Portanto, esse tipo de agricultura primitiva era uma espécie de “cultura de plantas selvagens”.
E qual foi o impacto deste novo modo de produção de alimentos na estrutura social dos grupos humanos?
. Já nesta primeira fase (10000-7500 a.C.), esse novo modo de produção teve um impacto visível na estrutura social dos grupos humanos e na organização dos recursos. As comunidades começaram a construir casas redondas, parcialmente enterradas no solo e com um teto em forma de tenda. Assim, surgiram os primeiros acampamentos-base permanentes (onde também ocorriam as primeiras tentativas de cultivo), juntamente com acampamentos sazonais para fins de caça (que continuou sendo uma atividade fundamental) e outras atividades sazonais. O surgimento dos primeiros silos para a conservação de alimentos e sementes de um ano para o outro indica como essas comunidades já haviam superado a dimensão diária da nutrição. Além disso, rebanhos e acampamentos também levantavam a questão da propriedade e das heranças. Isso levou ao desenvolvimento de túmulos, tanto para indivíduos quanto para grupos familiares.
Onde esta primeira fase foi detectada pelos arqueólogos?
. Essa fase incipiente de produção de alimentos corresponde principalmente à cultura natufiana e, posteriormente, ao PPNA [Pre-Pottery Neolithic A = Neolítico pré-cerâmico A] na Palestina (e na Síria até o médio Eufrates). Também apareceu no sopé dos Zagros, em sítios como Zawi Chemi e Shanidar, e depois em Kamir Shahir (Curdistão), Ganj Dareh e Asiab (Luristão) e Bus Mordeh (Cuzistão). Há diferenças cronológicas consideráveis entre esses sítios, visto que a sequência palestina parece ser anterior à dos Zagros. Há também diferenças ecológicas, como a presença de ovelhas nos Zagros e não na área siro-palestina.
E as ferramentas?
. As ferramentas de pedra também variavam, embora ainda fossem micrólitos geométricos projetados para funções específicas, como pontas de flechas para caça, foices com lâmina de sílex para colheita de cereais e buris. Mas há ferramentas também com outros materiais, como osso, usado para anzóis e arpões de pesca.
Há evidências concretas de cultivo?
. Embora no início dessa fase as comunidades ainda dependessem de atividades de caça especializada e da coleta intensiva de plantas silvestres, no final desse período temos as primeiras evidências concretas de cultivo: em Mureibet (médio Eufrates), o einkorn e a cevada morfologicamente selvagens eram o resultado de cultivo intencional, dado que se encontram fora de seu habitat natural; e o mesmo deve ser dito para o trigo emmer e a cevada de Jericó e Netiv Hagdud (Vale do Jordão). Pouco depois, em vários nichos do Cuzistão e do Curdistão, surgem os primeiros indícios de domesticação de ovelhas e cabras.
E entre 8000 e 7000 a.C.?
. Uma periodização clara desta fase é evidentemente difícil, devido às variações geográficas e ao ritmo diferente de desenvolvimento desses fenômenos. No entanto, a fase entre 8000 e 7000 a.C. pode ser considerada totalmente neolítica. Comunidades aldeãs sedentárias começaram a ter entre 250 e 500 habitantes, casas retangulares de barro ou tijolos crus e uma economia baseada no cultivo de gramíneas e leguminosas e na criação de ovelhas, cabras e porcos (e gado no final do período). Esses tipos de grupos são encontrados principalmente no PPNB [Pre-Pottery Neolithic B – Neolítico pré-cerâmico B] na Síria (Mureybet, Bouqras), Palestina (Jericó, ‘Ain Ghazal), no sopé do Taurus (Çayönü, Giafer Hüyük, Nevali Çor), Curdistão (Jarmo), Luristão (Tepe Guran) e Cuzistão (Ali Kosh).
O formato quadrangular das habitações nos ajuda a entender a estrutura familiar?
. A planta quadrangular das habitações é significativa em nível social. Enquanto a cabana redonda corresponde a uma estrutura familiar para núcleos não expansíveis, a
casa quadrangular permite expansão e tende a produzir aglomerados centrados em torno de um pátio, ou um denso padrão quadriculado (como em Can Hassan III na Anatólia e em Bouqras no médio Eufrates), ou finalmente grandes edifícios sobre fundações de pedra (como em Çayönü). Há sinais de cooperação inter-familiar, sendo o exemplo mais marcante as fortificações (muralha e torre) de Jericó. A propriedade dos meios de produção (campos e rebanhos) e sua transmissão hereditária estão começando a dar frutos. As comunidades são maiores: dos 2000 a 3000 m² dos natufianos aos 2 a 3 hectares dos pré-cerâmicos A e B.
Há estruturas religiosas nestes sítios?
. O Neolítico pré-cerâmico B apresenta as primeiras expressões ideológicas (religiosas) claras da estrutura patriarcal: os crânios de ancestrais com características faciais modeladas em argila ou gesso (Jericó e outros sítios palestinos) e as estatuetas de ‘Ain Ghazal. Mas as expressões mais marcantes são encontradas no sopé do Taurus, com imponentes edifícios de culto redondos ou quadrangulares (um isolado em Nevali Çori, um complexo inteiro em Göbekli perto de Urfa), com pisos sólidos, dentro dos quais se erguem estelas antropomórficas que sugerem o culto aos ancestrais.
O desenvolvimento econômico é uniforme em todo o Antigo Oriente Médio?
. Não. No Neolítico pré-cerâmico B encontram-se habitações quadrangulares, construídas sobre uma firme grade de sustentação (talvez para proteger as produtos colhidos), projetadas para abrigar famílias nucleares, e dentro do contexto de grandes aldeias. O melhor exemplo é o de Çayönü, ao norte de Diyarbakir. Mas estes centros mais avançados são acompanhados por grupos com uma economia mais simples: Beidha, na Transjordânia, é uma vila sedentária, mas grande parte de sua alimentação ainda é obtida pela caça. Vários locais no Negev e no deserto da Judeia ainda são campos de caça.
E os contatos inter-regionais?
. Há um desenvolvimento significativo de contatos inter-regionais, como evidenciado pela difusão de obsidiana (da Anatólia e da Armênia) e conchas marinhas (do Mediterrâneo, do Mar Vermelho e do Golfo Pérsico). A paisagem neolítica do Antigo Oriente Médio começa a tomar forma, com comunidades aldeãs produzindo seus próprios alimentos, diferenciadas pelos tipos de recursos disponíveis e seu nível de avanço tecnológico, comunidades que mantêm uma relação de troca, mesmo a grandes distâncias, envolvendo materiais preciosos de fácil manejo.
É possível determinar as causas da transição da caça e coleta para a produção de alimentos?
. O problema das “causas” da transição da caça e coleta para a produção de alimentos (que, sem dúvida, implica aumento da mão de obra) não pode ser resolvido de forma inequívoca (e certamente não aqui): causas e efeitos, fatores independentes e dependentes, estão interligados e são difíceis de mensurar, dada a inadequação dos dados estatísticos e a abrangência excessiva do quadro espaço-temporal. De modo geral, a explicação da pressão demográfica parece falha: tanto na fase de coleta intensiva e caça especializada, quanto na fase de produção incipiente, a população ainda é tão escassa que os recursos disponíveis ainda são suficientes. Quanto às mudanças climáticas (e consequentemente ecológicas) que mencionamos, elas constituem o pano de fundo da mudança tecnológica e econômica, e não sua causa. De fato, diferentes comunidades podem oferecer respostas diferentes ao mesmo problema, e a história humana consiste precisamente nessa diversidade de escolhas e estratégias.
Deveríamos considerar um fator temporal e outro espacial para explicar esta transição?
Sim. Pelo menos dois fatores deveriam ser levados em consideração: em termos de tempo, o desejo de manter um sistema duradouro de aquisição de alimentos fez do cultivo, do controle de rebanho, do armazenamento e de um estilo de vida sedentário meios mais eficazes para o desenvolvimento de uma solução de longo prazo para a gestão dos recursos alimentares. Em termos de espaço, o movimento de grupos humanos através de diferentes ecossistemas levou muitos recursos e meios de produção, que cresciam naturalmente em uma área, a serem transferidos para outra, permitindo o desenvolvimento de novas técnicas. Esses fatores influenciaram fortemente a disponibilidade de recursos, levando ao surgimento de comunidades mais estáveis e interativas. Essas comunidades, portanto, começaram a alterar ativamente os ciclos de reprodução e consumo, em vez de serem prioritariamente influenciadas por eles.
* CHILDE, V. G. Man Makes Himself. London: Watts & Company, 1936 [Spokesman Books, 2012].
** A hipótese da revolução de amplo espectro, proposta por Kent V. Flannery em um artigo de 1968 apresentado em um simpósio da Universidade de Londres [FLANNERY, K. V. Origins and Ecological Effects of Early Domestication in Iran and the Near East. In: UCKO, P. J.; DIMBLEBY, G. W. (eds.) The Domestication and Exploitation of Plants and Animals. Chicago: Gerald Duckworth & Aldine Publishing, 1969, p. 73–100; edição Kindle: Routledge, 2017], sugeriu que o Neolítico no sudoeste da Ásia foi precedido por aumentos na amplitude alimentar entre sociedades forrageiras. A revolução de amplo espectro seguiu a era glacial mais recente por volta de 15000 a.C. no Oriente Médio e 12000 a.C. na Europa. Durante esse período, houve uma transição do foco em algumas fontes principais de alimento para a coleta/caça de um “amplo espectro” de plantas e animais. A hipótese de Flannery pretendia ajudar a explicar a adoção da agricultura na Revolução Neolítica. Não persuadido pela explicação fácil da mudança ambiental pré-histórica, Flannery sugeriu que o crescimento populacional em habitats ótimos levou à pressão demográfica dentro de habitats marginais próximos à medida que grupos-filhos migravam. A busca por mais alimentos nesses habitats marginais forçou os forrageadores a diversificar os tipos de fontes de alimentos colhidas, ampliando a base de subsistência para incluir mais peixes, caça menor, aves aquáticas, invertebrados (como caracóis e mariscos), bem como fontes vegetais anteriormente ignoradas ou marginais. Mais importante ainda, Flannery argumenta que a necessidade de mais alimentos nesses ambientes marginais levou ao cultivo deliberado de certas espécies de plantas, especialmente cereais. Em habitats ótimos, essas plantas cresciam naturalmente em povoamentos relativamente densos, mas exigiam intervenção humana para serem colhidas eficientemente em zonas marginais. Assim, a revolução de amplo espectro preparou o cenário para a domesticação e o surgimento de assentamentos agrícolas permanentes (Wikipedia, Broad spectrum revolution).
***Animais domesticados apresentam características morfológicas típicas diferentes de suas contrapartes selvagens, resultado do processo de domesticação. Estas alterações incluem, mas não se limitam a, mudanças no tamanho e forma do crânio e dentes, pelagem e coloração, além de variações no tamanho e proporções corporais.