Três visões fundamentais da Carta aos Romanos

Zuleica Aparecida SilvanoUma dica bíblica por Zuleica Aparecida Silvano – Fevereiro de 2025

Propomos uma visão panorâmica da Carta aos Romanos.

1. Desbravando a Carta aos Romanos

Ela faz parte da tradição paulina, mas, devido à sua teologia e ao estilo diferente das cartas autênticas de Paulo, provavelmente não foi escrita por ele, mas por alguém muito próximo a ele, um discípulo ou um membro importante da comunidade de Roma. Essa hipótese não encontra consenso entre os estudiosos, por isso apresentaremos duas datações da Carta.

A primeira é oferecida por aqueles biblistas que concordam com a autoria de Paulo, afirmando que foi redigida em Corinto, com uma datação entre 55 e 58 d.C.

Aqueles que duvidam da autenticidade da autoria paulina datam-na antes da morte de Paulo (62-63 d.C.), possivelmente entre 56 e 60 d.C., ou logo após sua morte, entre 62 e 65 d.C. Por encontrar afinidade com a problemática desse período, pela linguagem e proximidade com a teologia paulina, mas se diferenciando das cartas deuteropaulinas (2Ts, Cl e Ef).

Essa missiva é destinada aos romanos (Rm 1,7), mas não há muitas informações sobre quando o movimento de Jesus chegou a Roma, ou sobre se essa Igreja foi fundada por um de seus apóstolos. A datação mais antiga da presença de comunidades cristãs em Roma, ou de adeptos de Jesus Cristo, seria na década de 40.

2. O que está por trás das palavras?

Outra dificuldade que encontramos é determinar sua finalidade, já que não é explícita na carta e não há nenhum elemento histórico que ajude a oferecer uma hipótese.

Na carta, apenas é explícito o desejo de Paulo de ir a Jerusalém para levar o resultado da coleta aos pobres (Rm 15,25-26) e depois passar por Roma, com a meta de chegar à Espanha.

Portanto, a única finalidade seria pedir ajuda para que os romanos facilitassem essa viagem missionária, talvez com apoio econômico e indicando pessoas que poderiam contribuir com a missão.

Esse objetivo legitima a autoria paulina, mas ninguém escreveria a maior carta da Antiguidade, com uma densidade teológica como a presente em Rm, apenas para pedir hospedagem ou ajuda para uma viagem missionária.

Podemos deduzir um objetivo ao perceber, nas entrelinhas, uma dificuldade de relacionamento na comunidade, entre os de origem judaica e os de origem gentílica, e talvez a necessidade dos primeiros acolherem os gentios.

3. A Carta em Foco: desvendando sua estrutura e seus temas teológicos

O texto segue o esquema clássico de uma carta, com o cabeçalho (1,1-17); o corpo epistolar, no qual é desenvolvido o conteúdo em quatro partes:

A) a revelação da ira e da justiça divina (1,18–4,25);

B) a salvação de Deus para todas as pessoas justificadas pela fé (5,1–8,39);

C) o lugar de Israel no plano de Deus (9,1–11,36);

D) a exortação à situação de Roma (12,1–15,13); e a conclusão com a saudação final (15,14–16,27).

É possível detectar três principais temas teológicos:

O primeiro é o soteriológico, ou seja, a questão da redenção gratuita concedida por meio de Jesus Cristo, que o autor chama de “justificação pela fé” (1,18–8,39).

O segundo pode ser definido como o papel de Israel no plano de Deus e a dificuldade em reconhecer Jesus como Messias, apesar de o autor manter a esperança de que Israel se converterá e aderirá a Cristo (9,1–11,36).

O terceiro tema refere-se às consequências práticas da redenção no agir cristão (12–15), que seria a parte exortativa da carta.