Criacionistas e defensores do design inteligente em apuros com a descoberta do Tiktaalik roseae

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O Tiktaalik roseae, de 375 milhões de anos, é o elo perdido entre os peixes e os vertebrados terrestres, inclusive os seres humanos

 

Paleontólogos americanos encontram peixe com pata

É o fóssil que todo estudioso da evolução pediu a Deus: um peixe com patas. Aliás, também com o começo de um pulso nas “mãos” e um pescoço. Os paleontólogos costumam fugir do clichê, mas não dá para negar: esse animal é o elo perdido na origem de todos os vertebrados terrestres, inclusive o Homo sapiens.

A história quase inacreditável do Tiktaalik roseae, um predador de águas rasas que pode ter alcançado até 2,7 m de comprimento quando vivo, começa a ser revelada na edição de hoje da revista científica “Nature”. O bicho foi retirado do meio de rochas com 380 milhões de anos por um trio de paleontólogos americanos, Neil Shubin, Edward Daeschler e Farish Jenkins Jr. “Nós o achamos em meio a um cenário ártico clássico, na ilha de Ellesmere [Canadá], rodeados por ursos polares e bois-almiscarados”, contou Shubin.

No entanto, durante o Período Devoniano (fase da história da Terra na qual o bicho viveu), a região estava muito mais próxima do Equador, de forma que o Tiktaalik Tiktaalik roseaeprovavelmente passava seus dias num agradável delta de rio subtropical, de águas rasas e cheias de barro. “Temos vários esqueletos articulados, e o mais completo vai até a base da cauda”, diz Shubin, que trabalha na Universidade de Chicago. O tamanho varia –o menorzinho pode ter tido 1,2 m– mas são todos membros da mesma espécie.

De brincadeira, os descobridores do Tiktaalik estão chamando o bicho de “peixápode” –mistura de peixe com tetrápode, nome técnico dado a todos os vertebrados terrestres (a palavra grega quer dizer “de quatro patas”). De fato, o fóssil cumpre perfeitamente essa função de intermediário entre os dois grupos. Antes dele, só se conheciam tetrápodes verdadeiros, com membros cheios de dedos, ou peixes com nadadeiras musculosas, mas que não chegavam perto de uma pata.

O Tiktaalik, por outro lado, tem “barbatanas” que parecem estar querendo virar braços e pernas, mas não chegaram lá –ainda. Os cientistas simularam sua postura e estimaram que as pontas das nadadeiras –os “pulsos”– podiam se dobrar, de forma a manter o bicho apoiado no solo. “Antes, as pessoas viam a mão inteira dos tetrápodes como algo que aparece de repente. O Tiktaalik muda isso”, afirma Neil Shubin.

É uma capacidade que pode ter sido útil para se mover em meio a pedras, lodo ou plantas aquáticas, e mesmo para se arrastar fora d’água por períodos curtos. Ele tinha brânquias para respirar na água, mas sua boca estava organizada de tal jeito que ele poderia também arrancar oxigênio do ar.

Os olhos no topo da cabeça, feito os de um jacaré, ajudavam a mantê-lo alerta tanto dentro quanto fora d’água, e o surgimento de um pescoço, com ossos móveis, facilitava sua atividade de predador. Faltam apenas os dedos –o principal “salto” evolutivo que ainda separa a criatura dos vertebrados terrestres.

Ajuda brasileira

O animal tem ainda uma característica pouco usual em peixes: suas costelas “montam” umas nas outras, como se fossem placas rígidas. “Isso serve para dar sustentação ao tronco”, disse à Folha Jenkins, paleontólogo da Universidade Harvard. “Acreditamos que essa característica apareça em criaturas que deixam a flutuação e precisam das costelas para apoiar o corpo num ambiente dominado pela gravidade.”

Essa hipótese anatômica, agora comprovada pelo novo fóssil, foi desenvolvida por Jenkins há mais de três décadas. E com uma ajudinha brasileira. O cientista conta que estava estudando costelas de vertebrados terrestres fósseis e atuais. E um dos raros casos de costelas sobrepostas está justamente num animal brasileiro, uma espécie de tamanduá.

“O problema é que eu não tinha nenhum esqueleto de tamanduá para estudar”, conta Jenkins. “Quem me arrumou um foi o grande zoólogo e compositor brasileiro Paulo Vanzolini”, lembra.

O trio de cientistas deve voltar ao Ártico no meio deste ano para coletar mais fósseis da criatura.

Jenny Clack, especialista em tetrápodes primitivos da Universidade de Cambridge, disse em comentário na “Nature” que o fóssil tem tudo para se tornar um ícone das transições evolutivas, tal como o Archaeopteryx, o dinossauro com penas que é considerado a mais antiga ave.

Fonte: Reinaldo José Lopes – Folha Online: 06/04/2006

Esta descoberta coloca os criacionistas e os defensores do design inteligente em situação delicada…

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