O cerco de Jerusalém por Senaquerib em 701 a.C.

Senaquerib governou a Assíria durante 24 anos, de 705 a 681 a.C. No quarto ano de seu reinado, em 701 a.C., ele partiu para a Fenícia e a Palestina em sua terceira campanha militar. Seus alvos foram Lulî, rei de Sidon; Ṣidqâ, da cidade de Ascalon; os nobres e os habitantes da cidade de Ekron e seus aliados egípcios e etíopes; Ezequias, rei de Judá em Jerusalém.

Em meu artigo sobre O contexto da Obra Histórica Deuteronomista escrevi:

Em 701 a.C. Senaquerib começou por Tiro, vencendo-a. Logo os reis de Biblos, Arvad, Ashdod, Moab, Edom e Amon se entregaram e pagaram tributo a Senaquerib. Somente Ascalon e Ekron, juntamente com Judá, resistiram. Senaquerib tomou primeiro Ascalon. Os egípcios tentaram socorrer Ekron e foram derrotados. E foi a vez de Judá. Senaquerib tomou 46 cidades fortificadas em Judá e cercou Jerusalém.

Testemunhos arqueológicos da devastação foram encontrados em várias escavações por todo o território. Especialmente significativos são a representação assíria daSenaquerib, rei da Assíria de 705 a 681 a.C. tomada de Laquis encontrada no palácio de Senaquerib em Nínive – hoje está no British Museum – e a escavação, feita pelos britânicos na década de 30 e por David Ussishkin, da Universidade de Tel Aviv, na década de 70 do século XX, da poderosa fortaleza, esta que era a segunda mais importante cidade do reino e protegia a entrada de Judá.

Entretanto, por motivos ainda hoje desconhecidos, talvez uma peste, Senaquerib levantou o cerco de Jerusalém e retornou à Assíria. A cidade voltou a respirar, no último minuto, mas teve que pagar forte tributo aos assírios. Não se sabe porque Jerusalém se salvou. 2Rs 19,35-37 diz que o Anjo de Iahweh atacou o acampamento assírio. Existe uma notícia de Heródoto, História II,141, segundo a qual num confronto com os egípcios os exércitos de Senaquerib foram ataca­dos por ratos (peste bubônica?). Talvez Senaquerib tenha partido por causa de alguma rebelião na Mesopotâmia. Ou ainda: há autores que pensam que Jerusalém nem precisou ser sitiada para ser vencida. Nos Anais de Senaquerib se diz o seguinte: “Quanto a Ezequias do país de Judá, que não se tinha submetido ao meu jugo, sitiei e conquistei 46 cidades que lhe pertenciam (…) Quanto a ele, encerrei-o em Jerusalém, sua cidade real, como um pássaro na gaiola…”.

 

ELAYI, J. Sennacherib, King of Assyria. Atlanta: SBL, 2018, p. 76-81 diz:

O cerco de Jerusalém por Senaquerib em 701 a.C. é uma questão difícil, principalmente por causa das contradições entre as fontes assírias e bíblicas.

Muitos autores pensam que não houve um cerco de Jerusalém, mas somente um bloqueio da capital que ficou isolada do resto do país. Como dão a entender os Anais de Senaquerib que dizem: Quanto a ele (Ezequias), eu o confinei (e-sir-šu) dentro da cidade de Jerusalém, sua cidade real, como um pássaro em uma gaiola. Montei bloqueios (ḫal-ṣu.MEŠ) contra ele e o fiz ter pavor de sair pela porta da cidade.

Um bloqueio de Jerusalém cortaria suprimentos e deixaria a cidade sem qualquer socorro externo. O objetivo era fazer Ezequias se render. Enquanto isso o exército assírio poderia continuar a conquista do território.

Teria Senaquerib sido incapaz de tomar Jerusalém? Seriam as técnicas de cerco assírias não tão avançadas como se alardeava? Ou seria Jerusalém muito bem fortificada? Mas se Senaquerib conquistou Laquis, por que não poderia fazer o mesmo com Jerusalém? Além do que, técnicas de bloqueio já tinham sido usadas por Tiglat-Pileser III, avô de Senaquerib, contra o rei Rezin de Damasco.

Por outro lado, os textos bíblicos em 2Rs 18,13-19,37; Is 36-37; 2Cr 32 trazem várias informações que não estão nas textos assírios de que dispomos. Ezequias se prepara militarmente, melhora suas defesas, negocia com emissários assírios, embora tal negociação pareça, pela linguagem usada, ser coisa mais dos redatores dos textos bíblicos do que um fato histórico.

Como consequência do bloqueio, Judá perdeu territórios para os filisteus, segundo os textos assírios. E isto é plausível, pois a prática assíria de tirar partes do território de vassalos rebeldes e entregá-las a reis leais é conhecida.

O resultado do bloqueio é a submissão de Ezequias a Senaquerib e o pagamento de pesado tributo, um dos maiores de todos os citados nas várias campanhas militares de Senaquerib.

Uma questão continua sendo debatida: por que Ezequias envia o tributo após a volta de Senaquerib para Nínive, como narram as fontes assírias?

Alguns acham que, por Ezequias aceitar pagar o tributo, Senaquerib pode voltar ao seu país, pois o pagamento estava, nas circunstâncias, garantido. Outros acham que Ezequias quer, com o envio do tributo, evitar outro ataque de Senaquerib.

Mas, pode-se também entender a coisa toda na dinâmica das guerras da época: Senaquerib volta a Nínive com a cavalaria e sua guarda pessoal, antes da infantaria de seu exército que se move mais lentamente, com os produtos do saque em carros de boi e os prisioneiros de guerra em lentas montarias ou a pé.

Entretanto é mais provável que os assírios tenham deixado tropas no território, que poderiam retaliar caso Ezequias não demonstrasse submissão pagando o tributo.

E agora a questão principal: por que Senaquerib deixa Jerusalém sem destruí-la?

Os textos assírios não o dizem, mas os relatos bíblicos sim.

O debate acadêmico tem trabalhado 4 aspectos dos relatos bíblicos:

1. 2Rs 18,13-16 – o pagamento do tributo teria levado ao recuo de Senaquerib. Mas se o tributo foi pago posteriormente em Nínive, não teria sido isso que levou ao recuo do rei assírio
2. 2Rs 19,7 – a profecia de Isaías, mas isto é teologia, não história
3. 2Rs 19, 8-9 – uma intervenção egípcia, mas mesmo que isso tivesse acontecido, por que Senaquerib se retiraria do território?
4. 2Rs 19,35-36 – a ação do Anjo de Iahweh, que pode ser uma versão teológica da praga de ratos relatada por Heródoto – mas a autora considera o argumento circular, pois Heródoto é usado para explicar o relato bíblico e vice-versa.

Ou seja: nenhum aspecto dos relatos bíblicos explica realmente o que aconteceu.

Os textos assírios e bíblicos nos deixam ver duas ideologias em confronto: do ponto de vista assírio, Senaquerib é o poderoso rei que nunca sofre uma derrota; do ponto de vista bíblico, Ezequias é o rei fiel a Iahweh que é por ele socorrido.

E se a política assíria tivesse como objetivo apenas quebrar a força da rebelião na região, como fazia rotineiramente em outras situações, e não destruir tudo?

O que para Judá pode ter parecido um grande evento militar, era coisa corriqueira para a Assíria, tal a diferença de forças em jogo.

Mas e Laquis? Laquis pode ter sido destruída para servir de exemplo de como resistir era inútil.

Com a perda do território da Sefelá, Judá ficou sem o controle da rota comercial para o Egito. Ficou arrasado economicamente. Mas um Judá submisso ainda preenchia, junto com as cidades filisteias, a função de estado tampão com o Egito.

E a ameaça babilônica, neutralizada na campanha seguinte, em 700 a.C. poderia ser a que realmente preocupava Senaquerib.

 

Dizem os Anais de Senaquerib:

The Chicago/Taylor Prism

(iii 18) Moreover, (as for) Hezekiah of the land Judah, who had not submitted to my yoke, I surrounded (and) conquered forty-six of his fortified cities, (iii 20) fortresses, and small(er) settlements in their environs, which were without number, by having ramps trodden down and battering rams brought up, the assault of foot soldiers, sapping, breaching, and siege engines. I brought out of them 200,150 people, young (and) old, male and female, (iii 25) horses, mules, donkeys, camels, oxen, and sheep and goats, which were without number, and I counted (them) as booty.

(iii 27b) As for him (Hezekiah), I confined him inside the city Jerusalem, his royal city, like a bird in a cage. I set up blockades against him and (iii 30) made him dread exiting his city gate. I detached from his land the cities of his that I had plundered and I gave (them) to Mitinti, the king of the city Ashdod, Padî, the king of the city Ekron, and Ṣilli-Bēl, the king of the city Gaza, and (thereby) made his land smaller. (iii 35) To the former tribute, their annual giving, I added the payment (of) gifts (in recognition) of my overlordship and imposed (it) upon them (text: “him”).

(iii 37b) As for him, Hezekiah, fear of my lordly brilliance overwhelmed him and, after my (departure), he had the auxiliary forces and his elite troops whom (iii 40) he had brought inside to strengthen the city Jerusalem, his royal city, thereby gaining reinforcements, along with 30 talents of gold, 800 talents of silver, choice antimony, large blocks of …, ivory beds, armchairs of ivory, elephant hide(s), elephant ivory, (iii 45) ebony, boxwood, every kind of valuable treasure, as well as his daughters, his palace women, male singers, (and) female singers brought into Nineveh, my capital city, and he sent a mounted messenger of his to me to deliver (this) payment and to do obeisance.

The Jerusalem Prism

(iii 18) Moreover, (as for) Hezekiah of the land Judah, who had not submitted to my yoke, I surrounded (and) conquered forty-six of his fortified cities, (iii 20) fortresses, and small(er) settlements in their environs, which were without number, by having ramps trodden down and battering rams brought up, the assault of foot soldiers, sapping, breaching, and siege engines. I brought out of them 200,150 people, young (and) old, male and female, (iii 25) horses, mules, donkeys, camels, oxen, and sheep and goats, which were without number, and I counted (them) as booty.

(iii 27b) As for him (Hezekiah), I confined him inside the city Jerusalem, his royal city, like a bird in a cage. I set up blockades against him and (iii 30) made him dread exiting his city gate. I detached from his land the cities of his that I had plundered and I gave (them) to Mitinti, the king of the city Ashdod, Padî, the king of the city Ekron, and Ṣilli-Bēl, the king of the city Gaza, and (thereby) made his land smaller. (iii 35) To the former tribute, their annual giving, I added the payment (of) gifts (in recognition) of my overlordship and imposed (it) upon them (text: “him”).

(iii 37b) As for him, Hezekiah, fear of my lordly brilliance overwhelmed him and, after my (departure), he had the auxiliary forces and his elite troops whom (iii 40) he had brought inside to strengthen the city Jerusalem, his royal city, thereby gaining reinforcements, along with 30 talents of gold, 800 talents of silver, choice antimony, large blocks of …, ivory beds, armchairs of ivory, elephant hide(s), elephant ivory, (iii 45) ebony, boxwood, every kind of valuable treasure, as well as his daughters, his palace women, male singers, (and) female singers brought into Nineveh, my capital city, and he sent a mounted messenger of his to me to deliver (this) payment and to do obeisance.

Rassam Cylinder

(49) (As for) Hezekiah of the land Judah, I surrounded (and) conquered forty-six of his fortified walled cities and small(er) settlements in their environs, which were without number, (50) by having ramps trodden down and battering rams brought up, the assault of foot soldiers, sapping, breaching, and siege engines. I brought out of them 200,150 people, young (and) old, male and female, horses, mules, donkeys, camels, oxen, and sheep and goats, which were without number, and I counted (them) as booty.

(52) As for him (Hezekiah), I confined him inside the city Jerusalem, his royal city, like a bird in a cage. I set up blockades against him and made him dread exiting his city gate. I detached from his land the cities of his that I had plundered and I gave (them) to Mitinti, the king of the city Ashdod, and Padî, the king of the city Ekron, (and) Ṣilli-Bēl, the king of the land Gaza, (and thereby) made his land smaller. To the former tribute, their annual giving, I added the payment (of) gifts (in recognition) of my overlordship and imposed (it) upon them.

(55) As for him, Hezekiah, fear of my lordly brilliance overwhelmed him and, after my (departure), he had the auxiliary forces (and) his elite troops whom he had brought inside to strengthen the city Jerusalem, his royal city, thereby gaining reinforcements, (along with) 30 talents of gold, 800 talents of silver, choice antimony, large blocks of …, ivory beds, armchairs of ivory, elephant hide(s), elephant ivory, ebony, boxwood, garments with multi-colored trim, linen garments, blue-purple wool, red-purple wool, utensils of bronze, iron, copper, tin, (and) iron, chariots, shields, lances, armor, iron belt-daggers, bows and uṣṣu-arrows, equipment, (and) implements of war, (all of) which were without number, together with his daughters, his palace women, male singers, (and) female singers brought into Nineveh, my capital city, and he sent a mounted messenger of his to me to deliver (this) payment and to do obeisance.

 

Vídeos sobre Nínive, o palácio de Senaquerib em Nínive e a tomada de Laquis:Palácio de Senaquerib em Nínive - Archaeology Illustrated

3D Digital Art Ancient Nineveh – Ashurbanipal, Assyria – 3D by Kais Jacob – 18 de março de 2016

Flyover of the ancient citadel at Nineveh – Learning Sites – 28 de novembro de 2017

Southwest Palace, Nineveh, flyover and flythrough showing Carlos Museum fragments in context – Learning Sites – 2 de maio de 2019

The Lachish Reliefs – Megalim Institute – 2 de dezembro de 2013

As inscrições reais do período neoassírio

Fontes neoassírias? Os textos estão disponíveis no Projeto RINAP, da Universidade da Pensilvânia.

The Royal Inscriptions of the Neo-Assyrian Period (RINAP)

Numerous royally commissioned texts were composed between 744 BC and 609 BC, a period during which Assyria became the dominant power in southwestern Asia. Eight hundred and fifty to nine hundred such inscriptions are known today. The Royal Inscriptions of the Neo-Assyrian Period (RINAP) Project, under the direction of Professor Grant Frame of the University of Pennsylvania, will publish in print and online all of the known royal inscriptions that were composed during the reigns of the Assyrian kings Tiglath-pileser III (744–727 BC), Shalmaneser V (726–722 BC), Sargon II (721–705 BC), Sennacherib (704–681 BC), Esarhaddon (680–669 BC), The Taylor Prism - Library of Ashurbanipal - Date: 691BC - British MuseumAshurbanipal (668–ca. 631 BC), Aššur-etel-ilāni (ca. 631–627/626 BC), Sîn-šumu-līšir (627/626 BC), Sîn-šarra-iškun (627/626–612 BC), and Aššur-uballiṭ II (611–609 BC), rulers whose deeds were also recorded in the Bible and in some classical sources. The individual texts range from short one-line labels to lengthy, detailed inscriptions with over 1200 lines (4000 words) of text.

These Neo-Assyrian royal inscriptions (744–609 BC) represent only a small, but important part of the vast Neo-Assyrian text corpus. They are written in the Standard Babylonian dialect of Akkadian and provide valuable insight into royal exploits, both on the battlefield and at home, royal ideology, and Assyrian religion. Most of our understanding of the political history of Assyria, and to some extent of Babylonia, comes from these sources. Because this large corpus of texts has not previously been published in one place, the RINAP Project will provide up-to-date editions (with English translations) of Assyrian royal inscriptions from the reign of Tiglath-pileser III (744–727 BC) to the reign of Aššur-uballiṭ II (611–609 BC) in seven print volumes and online, in a fully lemmatized and indexed format. The aim of the project is to make this vast text corpus easily accessible to scholars, students, and the general public. RINAP Online will allow those interested in Assyrian culture, history, language, religion, and texts to efficiently search Akkadian and Sumerian words appearing in the inscriptions and English words used in the translations. Project data will be fully integrated into the Cuneiform Digital Library Initiative (CDLI) and the Open Richly Annotated Cuneiform Corpus (Oracc).

 

Sobre os Anais de Senaquerib, confira:

A. Kirk Grayson & Jamie Novotny, ‘Survey of the Inscribed Objects Included in Part 1‘, RINAP 3: Sennacherib, The RINAP 3 sub-project of the RINAP Project, 2019.

 

Um exemplo de como ler as inscrições:

Precisa conferir os Anais de Senaquerib sobre a invasão de Judá em 701 a.C. durante o reinado de Ezequias?

O texto cuneiforme original transliterado e em tradução para o inglês está aqui. Uma opção é: clique em Sennacherib [261] > Sennacherib 022 – Chicago/Taylor Prism, leia a partir de (iii 18).

Lembrando, porém, que há outros textos, no mesmo endereço, que tratam da invasão de Judá em 701 a.C., como o Jerusalem Prism e o Rassam Cylinder.

O jeito assírio de organizar um império

Curso online gratuito sobre o império assírio:

Organising an Empire: The Assyrian Way – By Karen Radner

Discover the mighty kingdom of Assyria, which came to be the world’s first great empire three thousand years ago. From the 9th to the 7th centuries BC, during the imperial phase of Assyria’s long history, modern day northern Iraq was the central region of a state reaching from the Mediterranean Sea to the Persian Gulf, and incorporating what is now Iraq, Syria, and Lebanon, as well as half of Israel, and wide parts of south-eastern Turkey, and Western Iran.

In its geographical extent, this state was unprecedentedly large, and the distinct geography of the Middle East, with deserts and high mountain ranges, posed challenges to communication and cohesion. What were the mechanisms that kept the Empire running? This course explores the methods the Assyrian government employed to ensure unity and maintain loyalty across vast distances, using traditional as well as innovative strategies. Some of these imperial techniques have marked parallels in the ways modern multi-national corporations are operating, others will strike you as profoundly alien.

This course focusses on how the Assyrians organised their empire by analysing key aspects, namely:Karen Radner

· The CEO – the king, a religious, political and military leader, who is charged to govern by his master, the god Assur;

· Home Office – the royal palace in the central region and the royal court that form the administrative centre of the state;

· The Regional Managers – the governors and client-rulers to whom local power is delegated;

· Human Resources – the Empire’s people are its most precious assets, its consumers and its key product, as the goal of the imperial project was to create “Assyrians”; an approach with lasting repercussions that still reverberate in the Middle East today; and finally

· The Fruits of Empire – it takes a lot of effort, so what are the rewards?

When we explore these topics we will contextualise them with information about the lives led by ordinary Assyrian families.

Taking this course will provide you with an overview of the political, social, religious, and military history of the world’s first superpower. It will give you insight into the geography and climatic conditions of the Middle East and contribute to your understanding of the opportunities and challenges of that region. It will present you with a vision of the Middle East at a time when its political and religious structures were very different from today.

Karen Radner (1972) é uma assirióloga austríaca. Professora de História do Antigo Oriente Médio na Ludwig-Maximilians-Universität München, Alemanha.

Enigmas do quarto evangelho

É razoável dizer que há mais discordância dos pesquisadores sobre os cinco escritos joaninos – Evangelho, Cartas e Apocalipse – do que sobre qualquer outra área do Novo Testamento. Mas isso é compreensível.

Considere, por exemplo, as tensões teológicas de João – a humanidade e a divindade de Jesus; a relação igual e subordinada do Filho com o Pai; o Espírito procede do Pai e do Filho; tensões sobre escatologia, milagres, salvação, judaísmo e eclesiologia, para citar alguns.

E o que dizer dos enigmas históricos de João – tensões entre o mundano e o transcendente; omissões de João de material sinótico e omissões sinóticas de material joanino; diferenças na cronologia e topografia entre João e os sinóticos; o Jesus de João não está falando em parábolas, e o Jesus sinótico não está dizendo “eu sou”; o Jesus de João (e o Batista) falando no idioma do narrador?

Além disso, considere as perplexidades literárias de João – a linguagem e a forma poética de Jo 1,1-18 estão mais próximas de 1Jo 1,1-4 do que o resto do Evangelho; às vezes, os eventos são anunciados antes de serem narrados; Jesus diz: “Saiamos daqui” em 14,31, mas os discípulos não chegam ao jardim até 18,1; Jo 20,31 declara o propósito de ter escrito, mas o capítulo 21 parece ter sido adicionado mais tarde; referências à testemunha ocular (19,34-35) e ao autor (21,20-24) parecem ter sido feitas por outra mão.

Esses são apenas alguns dos enigmas intrigantes de João que os estudiosos trabalham com afinco para resolver.

 

It is fair to say that there may be more disagreement over the five Johannine writings (the Gospel, Epistles, and Apocalypse of John) than any other sector of the New ANDERSON, P. N. The Riddles of the Fourth Gospel: An Introduction to John. Minneapolis: Fortress Press, 2011Testament. But this is understandable. Consider, for instance, John’s theological tensions—the humanity and divinity of Jesus; the Son’s equal and subordinate relation to the Father; the Spirit’s proceeding from the Father and the Son; tensions over eschatology, miracles, salvation, Judaism, and ecclesiology, to name a few. And, how about John’s historical conundrums—tensions between the mundane and the transcendent; John’s omissions of synoptic material and synoptic omissions of Johannine material; differences in chronology and topography between John and the Synoptics; John’s Jesus not speaking in parables, and the synoptic Jesus not uttering “I-am” sayings; John’s Jesus (and the Baptist) speaking in the language of the narrator? Further, consider John’s literary perplexities—the language and poetic form of John 1:1-18 is closer to 1 John 1:1-4 than the rest of the Gospel; sometimes events are announced before they’re narrated; Jesus says, “Let us depart” in 14:31, but the disciples don’t reach the garden until 18:1; John 20:31 declares the purpose for having written, but chapter 21 appears to have been added later; references to the eyewitness (19:34-35) and the author (21:20-24) appear to be made by another hand. These are just some of John’s puzzling riddles that scholars work vigorously to address.

Leia “On Biblical Forgeries and Imagined Communities—A Critical Analysis of Recent Criticism” – The Bible and Interpretation: April 2020

By Paul N. Anderson – George Fox University Newberg, Oregon

Confira também

ANDERSON, P. N. The Riddles of the Fourth Gospel: An Introduction to John. Minneapolis: Fortress Press, 2011, 312 p. – ISBN 9780800604271.

DOAB: Directory of Open Access Books

DOAB é um serviço organizado pela comunidade acadêmica que indexa e fornece acesso a livros de acesso aberto [Open Access*] revisados por pares e ajuda osDOAB - Directory of Open Access Books usuários a encontrar editoras de livros de acesso aberto confiáveis. Todos os serviços DOAB são gratuitos e todos os dados estão disponíveis gratuitamente. DOAB é um serviço conjunto da OAPEN, OpenEdition, CNRS e Aix-Marseille Université, gerenciado pela Fundação DOAB. Hoje há no site mais de 40 mil livros acadêmicos de 658 editoras. Totalmente gratuitos para download em pdf.

*Open Access, “Acesso Livre” (ou “Acesso Aberto”) significa a disponibilização livre na Internet de cópias gratuitas, online, de artigos de revistas científicas revistos por pares (peer-reviewed), comunicações em conferências, bem como relatórios técnicos, teses e documentos de trabalho. É uma forma de tornar os resultados de investigação acessíveis livremente online para toda a comunidade científica.

DOAB is a community-driven discovery service that indexes and provides access to scholarly, peer-reviewed open access books and helps users to find trusted open access book publishers. All DOAB services are free of charge and all data is freely available. Directory of Open Access Books is a joint service of OAPEN, OpenEdition, CNRS and Aix-Marseille Université, provided by DOAB Foundation. 43,912 academic peer-reviewed books from 658 publishers.

Biblical Studies Carnival 169

Seleção de postagens dos biblioblogs em março de 2020.

Biblical Studies Carnival 169 for March 2020

Trabalho feito por Brent Niedergall em seu blog.

 

Nota sobre a numeração

Phil Long, que cuida do Biblical Studies Carnival, diz em Reading Acts:

A word about the numbering: Bob MacDonald (who really knows numbers) has insisted for quite a while that the numbering was wrong. I went over the past carnival lists and could not figure out where the error was, but honestly, I do not do numbers very well. Much like my bank statement, I will accept that Bob has been right all along and this is really the 169th Biblical Studies Carnival.

Uma palavra sobre a numeração: Bob MacDonald (que realmente conhece números) insistiu por um bom tempo que a numeração estava errada. Examinei as listas anteriores e não consegui descobrir onde estava o erro, mas, honestamente, não sou bom com números. Assim como meu extrato bancário, aceitarei que Bob estava certo o tempo todo e que este seja realmente o Biblical Studies Carnival de número 169 e não 170.Confusão de números

 

Pois é. Que coisa. Também lutei contra esta numeração de Phil Long por muito tempo, mas me dei por vencido e, no começo deste ano, mudei a numeração, pois a maioria dos colegas estava do outro lado. Mas veja o comentário de Bob MacDonald neste post, que foi o que chamou minha atenção.

E agora? Vou numerar o publicado 169 como 168a. E este fica sendo o 169, para acompanhar a numeração oficial.

Eu me lembro que já em 1 de fevereiro de 2016 escrevi:

Posso estar enganado, mas o número correto deste Biblical Studies Carnival deveria ser 119 (CXIX) e não 120 (CXX). É que na Biblical Studies Carnival List de The Biblioblog Top 50 foi omitido um número, o 98.

Lá está: Biblical Studies Carnival XCVII (Bob McDonald, Dust – March 2014) – ou seja, 97.

Seguido por: Biblical Studies Carnival XCIX (Jim West, Zwinglius Redivivus – April 2014) – ou seja, 99.

98 (XCVIII) seria o correto. Salvo engano, repito.

A invasão de Judá por Senaquerib: as fontes

ELAYI, J. Sennacherib, King of Assyria. Atlanta: SBL, 2018, p. 69-70 diz:

Há uma notável variedade de fontes: as inscrições de Senaquerib registrando o episódio várias vezes com várias variantes, relatos bíblicos (2Rs 18,13-19,37; Is 36-37; 2Cr 32), representações em relevos assírios, descobertas arqueológicas, fontes egípcias e gregas e fontes problemáticas.

A principal dificuldade para o historiador é o fato de existirem várias contradições entre essas fontes e nenhuma delas ser totalmente confiável. No entanto, alguns autores parecem acreditar que as fontes relacionadas ao seu campo de pesquisa são as melhores; outros, estudando a história de Israel e Judá, consideram as inscrições reais assírias como fontes confiáveis ​​de informações históricas sobre os eventos dessa região. Como é sabido, as inscrições reais assírias são caracterizadas por intenções ideológicas e propagandísticas, que devem ser detectadas usando uma abordagem crítica. Os relatos bíblicos são ainda mais problemáticos porque o texto passou por uma elaborada história de redação e edição. As fontes assírias engrandecem a honra de Senaquerib, enquanto os relatos bíblicos sublinham a honra de Javé.

O melhor método seria considerar cada uma das fontes com uma abordagem crítica rigorosa e combiná-las todas para alcançar o melhor entendimento possível da fase judaica da terceira campanha de Senaquerib, mesmo que alguns autores tenham escrito que reconciliar todas as fontes é inaceitável ou impossível.

O número de monografias e artigos dedicados a esse assunto desde o século XIX até o presente é tão grande que nem todos podem ser considerados e analisados. As principais pesquisas úteis desta bibliografia são as de Brevard S. Childs, Lester L. Grabbe, William R. Gallagher e Nazek Khalid Matty.

 

Bibliografia em língua inglesa

:: Inscrições de Senaquerib
GRAYSON, A. K. ; NOVOTNY, J. The Royal Inscriptions of Sennacherib, King of Assyria (704–681 BC). 2 vols. RINAP 3.1–2. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 2012–2014. Online aqui. Cf. o texto sobre a invasão de Judá por Senaquerib aqui [clique em Sennacherib [261] > Sennacherib 022 – Chicago/Taylor Prism, leia a partir de (iii 18)].
LAATO, A. Assyrian Propaganda and the Falsification of History in the Royal Inscriptions of Sennacherib. VT 45, p. 198–226, 1995.

:: Relevos assírios
RUSSELL, J. M. Sennacherib’s Palace without Rival at Nineveh. Chicago: University of Chicago Press, 1991.
MATTY, N. K. Sennacherib’s Campaign against Judah and Jerusalem in 701 B.C.: A Historical Reconstruction. Berlin: de Gruyter, 2016.

:: Descobertas arqueológicas
GRABBE, L. L. (ed.) ‘Like a Bird in a Cage’: The Invasion of Sennacherib in 701 BCE. Sheffield: Sheffield Academic Press, 2003.

:: Fontes problemáticas
GALLAGHER, W. R. Sennacherib’s Campaign to Judah: New Studies. Leiden: Brill, 1999, p. 9-21.

:: Fontes bíblicas
BOSTOCK, D. A Portrayal of Trust: The Theme of Faith in the Hezekiah Narratives. Milton Keynes, UK: Paternoster, 2006.

Para saber onde consultar fontes assírias, clique aqui. Algumas dessas obras podem ser encontradas aqui, aqui ou aqui.

 

Bibliografia consultada pela autora
CHILDS, B. S. Isaiah and the Assyrian Crisis. London: SCM, 1967.
GALLAGHER, W. R. Sennacherib’s Campaign to Judah: New Studies. Leiden: Brill, 1999.
GRABBE, L. L. (ed.) ‘Like a Bird in a Cage’: The Invasion of Sennacherib in 701 BCE. Sheffield: Sheffield Academic Press, 2003.
MATTY, N. K. Sennacherib’s Campaign against Judah and Jerusalem in 701 B.C.: A Historical Reconstruction. Berlin: de Gruyter, 2016.

ELAYI, J. Sennacherib, King of Assyria. Atlanta: SBL, 2018

There are a remarkable variety of sources: Sennacherib’s inscriptions recording the episode several times with a number of variants, biblical accounts (2 Kgs 18:13–19:37; Isa 36–37; 2 Chr 32), representations on Assyrian reliefs, archaeological discoveries, Egyptian and Greek sources, and problematic sources. The main difficulty for the historian is the fact that several contradictions exist between these sources and that none of them is entirely reliable. However, some authors seem to believe that the sources related to their field of research are the best; others, studying the history of Israel and Judah, consider the Assyrian royal inscriptions as reliable sources of historical information concerning the events of this region. As is well known, the Assyrian royal inscriptions are characterized by ideological and propagandistic intentions, which have to be detected using a critical approach. The biblical accounts are still more problematic because the text has gone through an elaborate history of writing and editing. The Assyrian sources were intended to enhance the honor of Sennacherib, while the biblical accounts seek to enhance the honor of Yahweh. The best method would be to consider each of the sources with an adapted critical approach and to combine them all in order to reach the best possible understanding of the Judean phase of Sennacherib’s third campaign, even if some authors have written that reconciling all the sources is unacceptable or impossible. The number of monographs and articles dedicated to this subject from the nineteenth century up to the present is so large that they cannot all be considered and analyzed. The main useful surveys of this bibliography are those of Brevard S. Childs, Lester L. Grabbe, William R. Gallagher, and Nazek Khalid Matty.

Francisco e a pandemia do coronavírus

Desde há semanas que parece o entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos.

Caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso «eu» sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos.

As nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do último espetáculo, mas que hoje estão, sem dúvida, a escrever os acontecimentos decisivos da nossa história: médicos, enfermeiros e enfermeiras, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, curadores, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos – mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho.

Nos apercebemos de que não podemos continuar estrada cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos.

Momento extraordinário de oração em tempo de epidemia presidido pelo Papa Francisco - Adro da Basílica de São Pedro - 27 de março de 2020

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Momento extraordinário de oração em tempo de epidemia

Presidido pelo Papa Francisco

Adro da Basílica de São Pedro – 27 de março de 2020

«Ao entardecer…» (Mc 4, 35): assim começa o Evangelho, que ouvimos. Desde há semanas que parece o entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos. À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados «vamos perecer» (cf. 4, 38), assim também nós nos apercebemos de que não podemos continuar estrada cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos.

Rever-nos nesta narrativa, é fácil; difícil é entender o comportamento de Jesus. Enquanto os discípulos naturalmente se sentem alarmados e desesperados, Ele está na popa, na parte do barco que se afunda primeiro… E que faz? Não obstante a tempestade, dorme tranquilamente, confiado no Pai (é a única vez no Evangelho que vemos Jesus a dormir). Acordam-No; mas, depois de acalmar o vento e as águas, Ele volta-Se para os discípulos em tom de censura: «Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» (4, 40).

Procuremos compreender. Em que consiste esta falta de fé dos discípulos, que se contrapõe à confiança de Jesus? Não é que deixaram de crer N’Ele, pois invocam-No; mas vejamos como O invocam: «Mestre, não Te importas que pereçamos?» (4, 38) Não Te importas: pensam que Jesus Se tenha desinteressado deles, não cuide deles. Entre nós, nas nossas famílias, uma das coisas que mais dói é ouvirmos dizer: «Não te importas de mim». É uma frase que fere e desencadeia turbulência no coração. Terá abalado também Jesus, pois não há ninguém que se importe mais de nós do que Ele. De facto, uma vez invocado, salva os seus discípulos desalentados.

A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade. A tempestade põe a descoberto todos os propósitos de «empacotar» e esquecer o que alimentou a alma dos nossos povos; todas as tentativas de anestesiar com hábitos aparentemente «salvadores», incapazes de fazer apelo às nossas raízes e evocar a memória dos nossos idosos, privando-nos assim da imunidade necessária para enfrentar as adversidades.

Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso «eu» sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos.

«Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Nesta tarde, Senhor, a tua Palavra atinge e toca-nos a todos. Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que nós, avançamos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: «Acorda, Senhor!»

«Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Senhor, lanças-nos um apelo, um apelo à fé. Esta não é tanto acreditar que Tu existes, como sobretudo vir a Ti e fiar-se de Ti. Nesta Quaresma, ressoa o teu apelo urgente: «Convertei-vos…». «Convertei-Vos a Mim de todo o vosso coração» (Jl 2, 12). Chamas-nos a aproveitar este tempo de prova como um tempo de decisão. Não é o tempo do teu juízo, mas do nosso juízo: o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é. É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros. E podemos ver tantos companheiros de viagem exemplares, que, no medo, reagiram oferecendo a própria vida. É a força operante do Espírito derramada e plasmada em entregas corajosas e generosas. É a vida do Espírito, capaz de resgatar, valorizar e mostrar como as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do último espetáculo, mas que hoje estão, sem dúvida, a escrever os acontecimentos decisivos da nossa história: médicos, enfermeiros e enfermeiras, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, curadores, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos – mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho. Perante o sofrimento, onde se mede o verdadeiro desenvolvimento dos nossos povos, descobrimos e experimentamos a oração sacerdotal de Jesus: «Que todos sejam um só» (Jo 17, 21). Quantas pessoas dia a dia exercitam a paciência e infundem esperança, tendo a peito não semear pânico, mas corresponsabilidade! Quantos pais, mães, avôs e avós, professores mostram às nossas crianças, com pequenos gestos do dia a dia, como enfrentar e atravessar uma crise, readaptando hábitos, levantando o olhar e estimulando a oração! Quantas pessoas rezam, se imolam e intercedem pelo bem de todos! A oração e o serviço silencioso: são as nossas armas vencedoras.

«Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» O início da fé é reconhecer-se necessitado de salvação. Não somos autossuficientes, sozinhos afundamos: precisamos do Senhor como os antigos navegadores, das estrelas. Convidemos Jesus a subir para o barco da nossa vida. Confiemos-Lhe os nossos medos, para que Ele os vença. Com Ele a bordo, experimentaremos – como os discípulos – que não há naufrágio. Porque esta é a força de Deus: fazer resultar em bem tudo o que nos acontece, mesmo as coisas ruins. Ele serena as nossas tempestades, porque, com Deus, a vida não morre jamais.

O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperança, capazes de dar solidez, apoio e significado a estas horas em que tudo parece naufragar. O Senhor desperta, para acordar e reanimar a nossa fé pascal. Temos uma âncora: na sua cruz, fomos salvos. Temos um leme: na sua cruz, fomos resgatados. Temos uma esperança: na sua cruz, fomos curados e abraçados, para que nada e ninguém nos separe do seu amor redentor. No meio deste isolamento que nos faz padecer a limitação de afetos e encontros e experimentar a falta de tantas coisas, ouçamos mais uma vez o anúncio que nos salva: Ele ressuscitou e vive ao nosso lado. Da sua cruz, o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, a olhar para aqueles que nos reclamam, a reforçar, reconhecer e incentivar a graça que mora em nós. Não apaguemos a mecha que ainda fumega (cf. Is 42, 3), que nunca adoece, e deixemos que reacenda a esperança.

Abraçar a sua cruz significa encontrar a coragem de abraçar todas as contrariedades da hora atual, abandonando por um momento a nossa ânsia de omnipotência e possessão, para dar espaço à criatividade que só o Espírito é capaz de suscitar. Significa encontrar a coragem de abrir espaços onde todos possam sentir-se chamados e permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade. Na sua cruz, fomos salvos para acolher a esperança e deixar que seja ela a fortalecer e sustentar todas as medidas e estradas que nos possam ajudar a salvaguardar-nos e a salvaguardar. Abraçar o Senhor, para abraçar a esperança. Aqui está a força da fé, que liberta do medo e dá esperança.

«Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Queridos irmãos e irmãs, deste lugar que atesta a fé rochosa de Pedro, gostaria nesta tarde de vos confiar a todos ao Senhor, pela intercessão de Nossa Senhora, saúde do seu povo, estrela do mar em tempestade. Desta colunata que abraça Roma e o mundo desça sobre vós, como um abraço consolador, a bênção de Deus. Senhor, abençoa o mundo, dá saúde aos corpos e conforto aos corações! Pedes-nos para não ter medo; a nossa fé, porém, é fraca e sentimo-nos temerosos. Mas Tu, Senhor, não nos deixes à mercê da tempestade. Continua a repetir-nos: «Não tenhais medo!» (Mt 14, 27). E nós, juntamente com Pedro, «confiamos-Te todas as nossas preocupações, porque Tu tens cuidado de nós» (cf. 1 Ped 5, 7).

Os relatos mesopotâmicos do dilúvio

WASSERMAN, N. The Flood: The Akkadian Sources. A New Edition, Commentary, and a Literary Discussion. Leuven: Peeters, 2020, 187 p. – ISBN 9789042941731.

A história do dilúvio que exterminou toda a vida na terra, exceto uma família, é encontrada em diferentes textos da antiga Mesopotâmia, de onde chegou às tradições literárias bíblicas e clássicas. Este livro recolhe sistematicamente os primeiros testemunhos do mito do dilúvio, a saber, todas as fontes acádias em escrita cuneiforme desde a antiga Babilônia até os períodos neoassírio e neobabilônico, incluindo a tabuinha XI da Epopeia de Gilgámesh. O livro os apresenta em nova edição sinótica com tradução em inglês, acompanhados de um comentário filológico detalhado e uma extensa discussão literária. O livro inclui também um glossário completo das fontes WASSERMAN, N. The Flood: The Akkadian Sources. A New Edition, Commentary, and a Literary Discussion. Leuven: Peeters, 2020acádias.

The story of the primeval cataclysmic flood which wiped out all life on earth, save for one family, is found in different ancient Mesopotamian texts whence it reached the Biblical and Classical literary traditions. The present book systematically collects the earliest attestations of the myth of the Flood, namely all the cuneiform-written Akkadian sources – from the Old Babylonian to the Neo-Assyrian and Neo-Babylonian periods, including Tablet XI of the Epic of Gilgamesh –, presenting them in a new synoptic edition and English translation which are accompanied by a detailed philological commentary and an extensive literary discussion. The book also includes a complete glossary of the Akkadian sources.

Nathan Wasserman (Jerusalem, b. 1962) is a professor of Assyriology at the Institute of Archaeology of The Hebrew University of Jerusalem (PhD, 1993). His main fields of research are Early Akkadian literary and magical texts, as well as the history of the Old Babylonian period.

Faça o download gratuito do livro em ZORA – Zurich Open Repository and Archive.

Senaquerib, rei da Assíria

Estou estudando nestes dias, na Literatura Deuteronomista, com o Segundo Ano de Teologia do CEARP, O contexto da Obra Histórica Deuteronomista. Um dos assuntos tratados é a invasão de Judá por Senaquerib, da Assíria, em 701 a.C. quando em Jerusalém reinava Ezequias e lá estavam os profetas Isaías e Miqueias.

Andei lendo algumas coisas recentes sobre o tema. Este livro, gratuito no projeto ICI da SBL, é interessante:ELAYI, J. Sennacherib, King of Assyria. Atlanta: SBL, 2018

ELAYI, J. Sennacherib, King of Assyria. Atlanta: SBL, 2018, 256 p. – ISBN 9780884143178.

A autora trata da invasão de Judá por Senaquerib a partir da p. 52. Ela começa assim:

A terceira campanha de Senaquerib, logo após a campanha de Zagros em 701, foi a campanha para o oeste. A data de 701 é confirmada pela comparação do Cilindro Bellino, datado do epônimo de Nabû-lêʾi (702), que não menciona esta campanha, e o Cilindro Rassam, datado do epônimo de Metunu (700), que o menciona. De fato, esta campanha compreendeu três fases: contra a Fenícia, contra a Filisteia e contra Judá. No entanto, as operações militares contra Judá, também registradas na Bíblia, são as mais conhecidas e as mais discutidas. Embora as publicações relacionadas a Judá sejam exageradas e as relacionadas à Fenícia e à Filisteia sejam bastante escassas, uma abordagem histórica séria deve ser adotada, levando em consideração igualmente as três fases da terceira campanha, especialmente porque elas são parcialmente inter-relacionadas. Para Senaquerib, a terceira campanha provavelmente não foi muito diferente das duas campanhas anteriores de seu reinado, e ele não fez distinção entre as três regiões levantes, todas elas no Hatti: “Na minha terceira campanha, avancei contra o Hatti”. A campanha de 701 é geralmente interpretada como uma reação assíria à retenção do tributo imposto às cidades rebeldes fenícias, filisteias e palestinas. Vindo do norte, Senaquerib seguiu uma rota geográfica lógica e seguiu sucessivamente para a Fenícia, para a Filisteia, rumo sul, e para Judá, no leste.

 

Sennacherib’s third campaign, following on immediately from the Zagros campaign in 701, was the campaign to the west. The date of 701 is confirmed by comparing theJosette Elayi Bellino Cylinder, dated from the eponymate of Nabû-lêʾi (702), which does not mention this campaign, and the Rassam Cylinder, dated from the eponymate of Metunu (700), which does mention it. As a matter of fact, this campaign comprised three phases: against Phoenicia, against Philistia, and against Judah. However, the military operations against Judah, also recorded in the Bible, are the best known and the most discussed. Even though the publications related to Judah are overabundant and those related to Phoenicia and Philistia rather scarce, a serious historical approach must be adopted, hence giving equal consideration to the three phases of the third campaign, especially as they are partly interrelated. For Sennacherib, the third campaign was probably not very different from the two previous campaigns of his reign, and he did not distinguish between the three Levantine regions, all of them being in the Hatti: “In my third campaign, I went against the Hatti.” 47 The campaign of 701 is generally interpreted as an Assyrian reaction to the withholding of the tribute imposed on the rebellious Phoenician, Philistian, and Palestinian cities. Coming from the north, Sennacherib followed a logical geographical route, and successively proceeded to Phoenicia, to Philistia southward, and to Judah eastward (p. 52-53).

ELAYI, J. Sargon II, King of Assyria. Atlanta: SBL Press, 2017
Veja também, da mesma autora, no projeto ICI da SBL:

ELAYI, J. Sargon II, King of Assyria. Atlanta: SBL Press, 2017, 298 p. – ISBN 9781628371772.

 

Josette Elayi est une historienne française de l’Antiquité, chercheur honoraire au CNRS, née le 29 mars 1943. Elle est l’auteur de nombreux livres d’archéologie et d’histoire.