Profecia e esperança: um tributo a Milton Schwantes

Na tese de doutoramento, Milton centrou suas atenções no grupo dos socialmente fracos do antigo Israel. Verificou que os pobres não são grupo periférico, mas que são praticamente idênticos ao povo de Deus. Deus é um Deus que se volta aos que sofrem.

Martin Dreher

Milton Schwantes nasceu a 26 de abril de 1946, às 8h30min, no Hospital N. S. do Rosário, na Vila de Tapera, no município de Carazinho/RS. O pai, Delfino Schwantes, e a mãe, Eugênia, nascida Graeff, residiam, então, em Lagoa dos Três Cantos, também pertencente ao município de Carazinho. Era o quarto filho do casal de agricultores. Milton Schwantes recebeu o Santo Batismo a 26 de maio de 1946, em Lagoa dos Três Cantos. Em 1951, Delfino Schwantes faleceu em conseqüência de cirurgia malsucedida.

Quando da morte do pai, os irmãos Norberto e Édio estudavam em São Leopoldo, no Instituto Pré-Teológico, curso de humanidades da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), que preparava para o futuro estudo teológico. Os dois irmãos tornar-se-iam, assim como mais tarde Milton, pastores. Outro irmão, Arlindo, seguiria a carreira do magistério, estudando na Escola Normal Evangélica, igualmente localizada em São Leopoldo.

Viúva, Dona Eugênia migrou com Milton para Nova Petrópolis. Os Schwantes haviam sido imigrantes alemães que, originalmente, se fixaram em Nova Petrópolis. Eugênia era natural do Vale do Taquari. Passado meio ano, mãe e filho rumaram para São Leopoldo. Trabalhando na cozinha do Instituto Pré-Teológico (IPT), Dona Eugênia conseguiu dar formação escolar digna aos quatro filhos. Pessoa de grande piedade, servia também como exemplo de fé para os muitos estudantes que se deslocavam de todas as partes do Brasil para estudar no Morro do Espelho. Até a velhice, sua piedade se fez presente na vida da comunidade luterana de São Leopoldo, que soube mirar-se nela também quando da morte de seu filho mais velho, Norberto, morto como deputado constituinte. Com as mudanças ocorridas, Milton estudou ano e meio em Lagoa dos Três Cantos, meio ano em Nova Petrópolis. O restante do “curso primário”, como eram designados então os cinco primeiros anos de estudo escolar, foi completado no Instituto Rio Branco, em São Leopoldo, educandário da comunidade luterana local.

Nos próximos sete anos, os estudos teriam prosseguimento no IPT. Quase que ao natural, preparava-se o caminho para a formação teológica. A escola IPT fornecia sólida formação humanística, na qual as línguas recebiam destaque: latim, grego, português, alemão e inglês. Aqui, os clássicos puderam ser lidos, de César a Cícero, passando por Tácito e por Ovídio, de Xenofonte a Platão, de Camões a Érico Veríssimo, passando por Alexandre Herculano, Júlio Diniz e Ferreira de Castro, Machado de Assis e Graciliano Ramos, de Walther von der Vogelweide a Bertolt Brecht e Robert Musil, passando por Schiller, Goethe e Heine, de Shakespeare a Thornton Wilder. História e geografia, as ciências físicas e biológicas e a matemática completavam o quadro. O canto, instrumentos musicais e o teatro tinham espaço garantido. No mês de julho, “excursões artísticas”, durante as quais comunidades luteranas do Brasil meridional e do Espírito Santo eram visitadas, permitiam que os talentos do IPT se expressassem. Neste ambiente, aos poucos, Milton foi se destacando como estudante, mesmo que tenha dito ter passado “por várias dificuldades, a maior das quais sem dúvida a expressão na língua alemã”, o que não era verdade. Verdade é que participava de geração de descendentes de imigrantes alemães no pós-guerra, os quais mais do que nunca queriam ser aceitos como brasileiros e inserir-se na então propalada “realidade brasileira”. Bom desportista, Milton também destacou-se como líder estudantil, participando da organização do Grêmio Estudantil do IPT (GEIPT), do qual também foi presidente, em tempos difíceis, pois no penúltimo ano de estudos no IPT acontecera o golpe militar (1964) e, paulatinamente, todo o movimento estudantil seria desarticulado. Os estudantes do IPT integraram, como últimos, a última diretoria da União Leopoldense de Estudantes Secundários. Para grande susto dos professores do IPT, organizaria, com outros colegas, o “Ratio Club”, nome pomposo para sociedade de estudantes escolhidos a dedo entre seus pares para discutir temas gerais da vida política, filosófica e religiosa. Para a tradição pietista de então, “ratio” era palavra mais do que suspeita.

Em 23 de outubro de 1960, aos 14 anos, Milton foi confirmado na Igreja Luterana de São Leopoldo. O Rev. W. Hilbk deu-lhe para a caminhada na vida de fé a palavra “Buscai, em primeiro lugar, o Seu reino e a Sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mateus 6.33).

Em março de 1966, Milton iniciava seus estudos na Faculdade de Teologia da IECLB. Estava com 19 anos. Na época, a Teologia ainda era marcada por alguns nomes exponenciais. Havia, inclusive, colegas de semestres mais avançados que declaravam pertença a escolas teológicas. Havia os bultmannianos. Rudolf Bultmann já não mais governava. Democrático, permitia que a seu lado surgissem “estrelas” bastante díspares como Herbert Braun, Ernst Fuchs ou Ernst Käsemann. Sua marca registrada era o charuto. Os discípulos de Bultmann eram bastante autônomos. Alguns estudantes sentiam-se atraídos pelo “Chamado para a Liberdade”, de autoria de Käsemann, publicado em 1968 em quarta edição. Ao lado dos bultmannianos existiam os barthianos. Sua marca registrada era o cachimbo. Barth, mesmo tendo atacado violentamente o nazismo, não era muito chegado à democracia em questões teológicas. A primeira geração de seus discípulos não podia se afastar um centímetro sequer da KD, abreviatura então usual no jargão teológico para a Kirchliche Dogmatik (Dogmática Eclesiástica) do teólogo suíço. A maior parte de seus discípulos (Ernst Wolf, Hermann Diem, Walter Kreck, Helmut Gollwitzer) até consentia em que o mestre pensasse por eles, diziam as más línguas. Alguns dos colegas mais adiantados chegaram a devorar a Summa Theologica de Barth. Na Europa, Barth e Bultmann digladiavam-se como baleia e elefante, segundo dizia Barth. Lá e cá havia os que buscavam intermediar entre Barth e Bultmann, sem sucesso. Para os que ingressavam em 1966, as brigas entre os dois “B”s já não interessavam, mesmo que fosse interessante observar entre os professores de São Leopoldo alguns netos dos velhos, quando iniciavam algum debate.

A geração de Milton não experimentou mais a formação de escolas teológicas tão claramente delimitadas quanto o experimentara a geração anterior. Não havia mais alternativas? Tinha medo do debate político? Da Europa ainda vinham, através dos professores majoritariamente alemães, ecos de alguns debates. Lá acontecia a “Teologia Política”, liderada pelo católico Johann Baptist Metz. Havia grupo em torno de Trutz Rendtorff que se designava de “Teologia do Cristianismo”, neoprotestantismo redivivo. Mas não se brigava mais. Não se ouvia mais um “não!” ou um “sim!” categórico. Houve discussões em torno da secularização (Gogarten); surgiu a “Teologia-da-Morte-de-Deus” (Altizer e Hamilton); alguns se preocupavam com a cidade secularizada (Harvey Cox, A cidade do homem). Discutia-se a possibilidade de ainda se fazer teologia depois de Auschwitz (Dorothee Sölle), numa autocrítica muito salutar. Wolfhart Pannenberg desenvolveu uma “Teologia da História” como alternativa à teologia de Bultmann. Foi aceito por setores conservadores e rejeitado pelos barthianos. Na Alemanha se desenvolvia, ainda, contra Barth e Bultmann, um movimento designado de “Nenhum Outro Evangelho”. Era prenúncio de forte tendência evangelical que logo se manifestaria na IECLB, sendo confundida com teologia arminiana, trazida por pastores luteranos dos EUA para um Brasil no qual o protestantismo de missão tendia sempre mais para uma teologia influenciada pela extrema direita do senador norte-americano MacCarthy.

Estávamos, em São Leopoldo, nos anos de 1966, 1967, 1968… em crise. Nossos sonhos tinham sido abortados em 1964. Só viríamos a votar para presidente com os nossos filhos. Na difícil situação de 1964, um livro se nos tornou livro de cabeceira e nos fazia refletir: Resistência e submissão, as cartas de Dietrich Bonhoeffer em seu cativeiro. Seu tradutor, Ernst Bernhoeft, judeu luterano, fugira para o Brasil durante o regime nacional-socialista, tornara-se professor na IECLB, mas não fora aceito no ministério pastoral luterano. Depois, atuou, com muita bênção, na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Em 1966, em Genebra, um ex-professor do Seminário Presbiteriano de Campinas tornara pública sua “Teologia da Revolução”. Como ser cristão em situação revolucionária, de total efervescência como a América Latina daqueles dias? Richard Shaull nos auxiliou com seu livro Transformações profundas à luz de uma teologia evangélica, publicado pela Editora Vozes, pois não havia editora protestante com suficiente coragem para publicá-lo. Em 1966, caiu-nos nas mãos a sexta edição do livro que nos determinaria, Teologia da esperança, de autoria de Jürgen Moltmann. A primeira edição saíra em 1964. O livro de Jürgen Moltmann perguntava pelas conseqüências da escatologia cristã para nosso fazer e viver teológico na América Latina.

Os estudantes da Faculdade de Teologia éramos quase todos descendentes de imigrantes alemães. A IECLB era “igreja de alemães”; mais de 70% de seus pastores ainda eram alemães. A América Latina, o Brasil quase não participavam de nosso horizonte, se bem que – verdade seja dita –, desde o choque da Segunda Guerra Mundial, o Brasil fosse cada vez mais o horizonte da Igreja Luterana. Naqueles anos, a miséria da maioria da população do “Terceiro Mundo” começou a ter significado teológico e a encontrar expressão teológica. No protestantismo brasileiro, a Conferência do Nordeste que falara de Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro foi um marco. Nossa situação de então leva-nos a perguntar pelo que estava acontecendo em termos de teologia na América Latina e que nos viria a influenciar após nossa saída da Faculdade de Teologia.

Na história eclesiástica do século XX, a eleição de João XXIII, a 28 de outubro de 1958, vai ser lembrada como marco de singular importância, pois já em janeiro de 1959 este papa convocou o Concílio Vaticano II. Podemos designar João XXIII de papa da distensão. Suas encíclicas Mater et Magistra (1961) e Pacem in Terris (1963) e seu falar da “Igreja dos Pobres” foram de fundamental importância para os compromissos sociais e políticos do catolicismo na América Latina e não deixaram de repercutir também no seio do protestantismo latino-americano.

As colocações feitas por João XXIII em suas encíclicas e pronunciamentos coincidiram com uma época de ebulição em toda a América Latina. Em 1º de janeiro de 1959, Fidel Castro pôs fim ao regime de Fulgencio Batista, em Cuba. Desde aquele ano, as esquerdas passaram a pensar que o movimento guerrilheiro tinha chances, que o marxismo representava a única via para a liberdade e que o socialismo poderia ser concretizado na América Latina. Camilo Torres o sacerdote que julgava não mais poder consagrar os elementos da eucaristia, enquanto houvesse opressão, e Ernesto Che Guevara eram modelos. Em 1966 morreu Camilo, em 1967 Che. A primeira fase da guerrilha chegava ao fim: em 1969 morreu Carlos Marighella, no Brasil; em 1973 deu-se o fim do movimento tupamaro, no Uruguai, e em 1978 terminou o movimento montonero, na Argentina. Fidel, Camilo Torres, Che faziam parte de nosso saber e estudar, mesmo que seus nomes só pudessem ser balbuciados em silêncio. Desde 1º de abril de 1964, o Brasil passou a viver sob regime militar, introduzindo, em 1968, a doutrina da segurança nacional. As esperanças de muitos repousavam no “modelo chileno”, introduzido por Salvador Allende no Chile (1970-1973) e, depois, no Peru (Alvarado, 1968), na Argentina (1971ss, Lanusse e Perón) e na Bolívia (1971, Torres).

No entanto, desde 1968, anunciaram-se sucessivos golpes militares que introduziam “regimes de segurança nacional” e que punham fim aos sonhos que julgavam ser possível a introdução do socialismo por meios pacíficos. Em 1968, militares golpearam militares, introduzindo esse novo tipo de regime no Brasil e exportando-o nos anos seguintes: Bolívia (1971), Uruguai (1973), Chile (1973), Peru (1975) e Argentina (1976).

Os únicos países em que a situação ficou mais ou menos estável na América Latina foram o México e a Venezuela. Ao México afluía a inteligência expulsa da América do Sul. Enquanto os regimes de segurança nacional campeavam na América do Sul, desde 1976/77 a inquietação tomava conta da América Central, culminando em 1979 com a vitória do movimento sandinista, na Nicarágua. Na América do Sul, regimes militares cansados e no fim de sua sabedoria permitiram o retorno da democracia, e, aos poucos, explodiu toda a miséria de um Continente, ficando mais evidente do que nunca. Contava-se já o ano de 1985.

Nesses anos conturbados, porém, foi gestada teologia de maneira muito séria, buscando elementos para que o povo de Deus pudesse sobreviver no deserto, sem perder as esperanças em relação ao reino de Deus.

Desde 1965, alguns sacerdotes católicos se reuniam em diversos países do continente: Gustavo Gutiérrez, Juan Luis Segundo e Segundo Galilea, entre outros. Estes sacerdotes formularam suas principais teses entre 1965 e 1970. Em Montevidéu desenvolveu-se, na mesma época, o trabalho de ISAL (Igreja e Sociedade na América Latina). Aqui a teoria da dependência e a sociologia da libertação foram pesquisadas. O grande pensador teológico desse grupo foi Richard Shaull, professor do seminário teológico da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Campinas, e, desde 1962, professor em Princeton, nos Estados Unidos.

Shaull reconheceu as tendências revolucionárias na América Latina e fez a tentativa de interpretá-las à luz do Evangelho. Daí resultou seu livro As transformações profundas à luz de uma teologia evangélica, publicado pela Editora Vozes, em 1966. A violência e a revolução são os temas a partir dos quais dirige perguntas à Igreja. Conhecida tornou-se também a publicação de ISAL, Cristianismo y Sociedad. Ao lado de Shaull devem ser mencionados como representantes da teologia da libertação no âmbito evangélico pessoas como Emilio Castro, Julio de Santa Ana, José Míguez Bonino e Rubem A. Alves. ISAL também serviu de lar para católicos como Hugo Assmann e Pablo Richard, quando tiveram que ir para o exílio, desamparados por suas igrejas. Ao contrário do grupo mencionado em primeiro lugar, os teólogos evangélicos tiveram grandes dificuldades. Em sua maioria não eram aceitos por suas denominações e tiveram que receber suporte do Conselho Mundial de Igrejas. O grupo reunido em torno de Gutiérrez recebeu apoio de bispos.

Em nossos estudos, em São Leopoldo, pouco do que estava sendo fermentado na América Latina movia nossos estudos teológicos. No período de 1966 a 1970, tivemos muita exegese bíblica, estudamos a História Eclesiástica, que não contemplava a América Latina, debruçamo-nos sobre a Teologia Sistemática e a Ética, tivemos aulas de Teologia Prática, tudo com grande empenho de nossos professores: Gerhard Barth, Joachim Fischer, Lindolfo Weingärtner, Hans Strauss, Bertholdo Weber, Harm Alpers, Gottfried Brakemeier, Nelson Kirst. Milton Schwantes teve, na época, em 1969, o privilégio de estudar por um semestre em Buenos Aires, com Leskó, Obermüller, Ruuth e Bahmann, onde pôde respirar ares distintos dos nossos.

Em 4 de julho de 1970, Milton concluiu seus estudos na Faculdade de Teologia. Seu trabalho de conclusão da graduação comparou o decreto sobre o ecumenismo do Vaticano II (1964) com as declarações sobre a unidade emitidas na conferência do Conselho Mundial de Igrejas em Nova Delhi (1961). Na época, a direção da IECLB preocupava-se com a formação de um quadro docente teológico que viesse de encontro à “indigenização” da Igreja, como se dizia na época. Dentro desse programa, em 1970, já haviam concluído seus doutorados Lindolfo Weingärtner (Teologia Prática), Gottfried Brakemeier (Novo Testamento) e Nelson Kirst (Antigo Testamento). Na Europa encontravam-se para estudos de pós-graduação Hans Benno Asseburg, Ervino Schmidt e Walter Altmann. Milton foi indicado para a pós-graduação em Heidelberg, junto ao professor Dr. Hans Walter Wolff. Antes de partir, para iniciar seus estudos em 1971, contraiu matrimônio com Elisabeth Klein. Os estudos foram possibilitados por bolsa da Igreja Evangélica na Alemanha e do Fundo de Educação Teológica do Conselho Mundial de Igrejas. Em Heidelberg, suas atenções centraram-se no direito dos pobres. Foi esse também o tema de sua tese O direito dos pobres, na qual estudou os conceitos utilizados para caracterizar os pobres na Lei e nos Profetas.

Milton centrou suas atenções no grupo dos socialmente fracos do antigo Israel. Verificou que os pobres não são grupo periférico, mas que são praticamente idênticos ao povo de Deus. Deus é um Deus que se volta aos que sofrem. A descoberta feita no estudo do Antigo Testamento estava a apontar para o canto firme de novo período na história da teologia, particularmente da América Latina. No prefácio de sua tese, Milton escrevia: “Em sua obra decisiva para a nova reflexão teológica na América Latina – Teología de la Liberación – Gutiérrez novamente apontou para a importância das afirmações bíblicas – especialmente as vétero-testamentárias – sobre a pobreza para um testemunho cristão, ‘do qual depende a autenticidade da pregação da mensagem evangélica’.” Mal imaginava o jovem exegeta, com seus 28 anos, que em breve estaria a integrar a corrente daqueles que participariam da releitura da mensagem bíblica no contexto brasileiro e latino-americano, vindo a ser um de seus principais expoentes. O período entre 1970 e 1975 deve ser visto como tempo da livre expansão da teologia da libertação. A época foi caracterizada por diversos congressos. O primeiro deles ocorreu em El Escorial (8-15 de julho de 1972). Os resultados desse congresso foram publicados na revista Concilium (junho de 1974). Já em agosto de 1975, no México, por ocasião de um segundo congresso, descobriu-se que existia uma ampla frente de teólogos da libertação, em oposição à qual se podia constatar diversas posições, que, no entanto, não formavam uma unidade. O desenvolvimento político no Continente não permitiu novos encontros.

As primeiras publicações mais importantes surgiram igualmente nos anos de 1970 a 1975. Juan Luis Segundo publicou, em 1970, Da sociedade à teologia e, em 1975, Libertação da teologia. Hugo Assmann escrevia, em 1971, Opressão – libertação: desafio para os cristãos, em 1973, Teologia desde a práxis da libertação. Rubem Alves publicou, em 1969, A theology of human hope. A obra saiu com esse título porque a editora não concordou com o outro: Teologia da Libertação. José Míguez Bonino escreveu, em 1976, A fé em busca de eficácia.

Logo surgiu uma segunda geração de autores, cujas obras devem ser vistas como conseqüência de Medellín. Entre eles devem ser mencionados: Severino Croatto (Argentina), Ronaldo Muñoz (Chile), Leonardo Boff (Brasil), Raúl Vidales (México). Especial destaque merece nessa geração o argentino Enrique Dussel, cujas publicações surgiriam no exílio mexicano. Doutor em Filosofia, Teologia e História, Dussel concentrou em sua pessoa um largo espectro da teologia da libertação, tendo publicado em 1972, em Barcelona, sua História da Igreja na América Latina, que veio a servir de modelo para o projeto da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), que procurou escrever história da Igreja desde a ótica dos oprimidos. Ao lado de Dussel, devem ser mencionados os nomes de Eduardo Hoornaert, José Oscar Beozzo e Riolando Azzi.

O desenvolvimento político da América Latina não deixou de ter influências sobre a teologia da libertação. Em 1975, Leonardo Boff escreveu sua Teologia a partir do cativeiro. Gutiérrez publicou, em 1977, Teologia desde o avesso da história e, em 1978, A força histórica dos pobres. Nessas obras, começaram a surgir novos acentos. A libertação foi vista como a luta pacienciosa, persistente do povo latino-americano, em situação de perseguição e opressão. Enquanto algumas pessoas pensavam que os estados de segurança nacional significavam um retrocesso para a teologia da libertação, aconteceu o contrário: a teologia da libertação se espalhou. O movimento popular e as comunidades eclesiais de base assumiram os pensamentos da teologia da libertação, especialmente no Brasil, mas também no México, El Salvador, Peru, Chile e Bolívia.

Por isso, também é compreensível que a teologia da libertação tenha vindo a se tornar mais e mais reflexão sobre a práxis dos pobres, que se haviam organizado em comunidades e movimentos. Nesse sentido, a teologia da libertação deixava mais e mais de ser reflexão da práxis da inteligência para ser popular. Novos autores participaram dessa fase: Clodovis Boff e João Batista Libânio (Brasil), Jon Sobrino (El Salvador). Revistas se abriram à teologia da libertação: Revista Eclesiástica Brasileira (REB) (Brasil) e PÁGINAS (Peru).

Depois, especialmente o trabalho exegético passou a ser incrementado. O nome mais conhecido entre os exegetas da teologia da libertação é o do carmelita Carlos Mesters. Merecem, no entanto, ser mencionados os nomes de José Comblin, Jorge Pixley, Gilberto Gorgulho, Ana Flora Anderson e Milton Schwantes. A experiência das comunidades eclesiais de base perguntava pela Escritura.

A maior divulgação da teologia da libertação, no entanto, aconteceu através de folhetos e de cópias de conferências, pois os seus teólogos não dispunham de grandes bibliotecas nem lhes era concedido o acesso às cátedras teológicas. Vasta foi também a divulgação da teologia da libertação através do cântico.

As reações à teologia que se desenvolveu nesse contexto foram muitas. As críticas chegaram a seu auge após a publicação, em 1981, da coletânea de artigos do franciscano Leonardo Boff, Igreja, carisma e poder.

Neste contexto, Milton Schwantes retornou ao Brasil, em agosto de 1974, sendo indicado pelo Conselho Diretor da IECLB para atuar como pastor em Cunha Porã/SC. Nessa atividade, foi pastor querido por seus paroquianos. Pequeno exemplo de sua atividade no período foi a publicação do caderno Sementes. A linguagem simples e vigorosa fala de cristãos como sal da terra, do “meu povo” de Miquéias: o povo humilde e humilhado, as camadas mais pobres da população, e apela para que a Igreja Luterana volte seus olhos para os desvalidos. Com outros colegas, participou de elaboração de material para a catequese e para o ensino confirmatório. Os pastores do então Distrito Uruguai da IECLB tinham sua própria editora: A Publicadora Uruguai (PU), e a série de suas publicações era designada de Cadernos do Povo. Ao lado destas publicações, desde 1977 publicava também, regularmente, auxílios homiléticos na série Proclamar Libertação. Milton participou destas atividades até julho de 1978, quando veio o convite para ser professor na Faculdade de Teologia da IECLB, em São Leopoldo, hoje Escola Superior de Teologia.

Milton passaria a ser professor de Antigo Testamento. A teologia bíblica que o ocupava desde os tempos da confecção da tese de doutorado, a experiência feita em Cunha Porã e os contatos ecumênicos faziam-no acentuar a dimensão profética do ministério pastoral e do ser do professor de Teologia Bíblica. Por isso, pediu para não residir no Morro do Espelho, sede das instituições da IECLB, em São Leopoldo, mas no Bairro São Borja, em casa simples. Queria fazer teologia no diálogo com os vizinhos, gente simples. A solidariedade com pastores e pastoras que atuavam em condições difíceis fê-lo optar pelo mesmo salário recebido por eles e elas, desistindo de um abono concedido aos professores de Teologia. A época era a da colocação de sinais. Sinal também foi colocado em sua preleção inaugural, expressão utilizada para a conferência pública com a qual a instituição Faculdade de Teologia apresentava seus novos professores. A conferência levou por título “Natã precisa de Davi”. O título sugestivo gerou polêmica e muita reflexão. Polêmicas foram também as preleções e seminários dirigidos pelo novo professor, que logo soube atrair a atenção e o carinho dos estudantes. Em pouco tempo, o exegeta ficaria conhecido além das fronteiras da pequena Igreja Luterana e começaria a dar sua contribuição para o estudo da Bíblia que se intensificava em todo o continente latino-americano.

Naquele final da década de 1970 e ainda durante a década de 1980, pouco era o material exegético de qualidade que poderia ser oferecido aos estudantes de Teologia. Em nível interno, Milton tomou iniciativa importante, na qual continuou a exercitar o que fizera anteriormente em Cunha Porã. Incentivou seus colegas a publicar manuscritos em forma de cadernos de estudos. Muitas publicações que hoje são sucesso editorial, entre as quais se encontram textos do próprio Milton, começaram a ser difundidas nessa forma singela. Aos poucos, a publicação de textos foi se multiplicando. Lembre-se aqui o pequeno comentário sobre Ageu, publicado no Comentário Bíblico AT, em 1986, A família de Sara e Abraão, também de 1986, e sofrimento e esperança no exílio, de 1987, surgido a partir de estudos realizados no Chile, em meio a gente muito sofrida.

Em 1987, ocorreram também o encerramento das atividades em São Leopoldo e a transferência para Guarulhos/SP. Ali, Milton pretendia fazer a experiência de conjugar trabalho pastoral na congregação luterana e atuar como professor. Desde 1988 seria professor de Bíblia no que hoje é a Universidade Metodista de São Paulo. A casa pastoral de Guarulhos não foi apenas residência do pastor e de sua esposa. Era porta de acesso ao Brasil para um sem-número de pessoas que, vindas dos mais diferentes rincões do planeta, queriam conhecer o trabalho de comunidades eclesiais de base, de cristãos que eram movidos pela certeza de que em Jesus se alcança a libertação e que Deus é um Deus que nos liberta de cativeiros sociais, políticos, econômicos e espirituais. Milton tornava-se não apenas embaixador de teologia luterana, mas embaixador de teologia da Igreja de Jesus Cristo que vivia em cativeiro. Sua produção teológica desde então não pode mais ser mencionada com o arrolamento de alguns poucos títulos. Aqui seria necessário arrolar as centenas de títulos, de orientações de dissertações e teses, conferências… e o espaço se torna pequeno. Certo é que, ao atingir os 60 anos de idade, sua produção o coloca entre as mais expressivas personalidades do mundo acadêmico brasileiro e entre os grandes da exegese internacional. Foi este o motivo que levou a Universidade de Marburgo (Alemanha) a conceder-lhe, em 2002, o título acadêmico de Doutor Honoris Causa. Seus muitos alunos há muito romperam os limites da pequena Igreja Luterana, sendo encontrados nas mais diferentes denominações cristãs do Brasil e do exterior.

A menção do ano da concessão do título de Doutor Honoris Causa força-nos a refletir sobre situações de sofrimento na vida do teólogo. O teólogo cristão só conhece a Deus a partir daquele lugar em que Deus revelou o seu rosto: a cruz de Jesus de Nazaré, confessado como o Cristo. Deus se revela sob o contrário do que é, também para o teólogo que tem que experimentar, não raro, em sua vida cruz e sofrimento para poder compreender o real significado da ressurreição e da esperança que brota da manhã da Páscoa. O teólogo Milton teve que experimentar o fim de seu casamento com Elisabeth. Foi situação de cruz e de sofrimento para ambos. Depois, Milton pôde iniciar nova união com Rosi, que lhe trouxe três meninas, as quais passaram a ser suas filhas. Mal esta nova fase em sua vida iniciara, e nova aflição abateu-se sobre ele, seus familiares e amigos. Começaram a se acentuar dificuldades com a visão, as quais, assim se verificaria, eram provocadas por tumor benigno. Também tumores benignos causam danos irreparáveis. Fez-se necessária cirurgia, longo período de recuperação, mantiveram-se lacunas na memória. Houve a necessidade de longo período de adaptação e o aprendizado de que, quando Deus nos preserva e nos sustenta por mãos amigas, precisamos reaprender a dar passos pequenos e a dizer, novamente: “Por tua mão me guia, Senhor Jesus…”, usando as palavras de hino luterano, cantado por diversas gerações.

Quando se traça perfil biográfico de um teólogo que aprendeu intelectual e vivencialmente o significado da theologia crucis, o autor não pode terminar numa laudatio, mas tem o dever de oferecer discurso correspondente à theologia crucis. A teologia que Milton Schwantes até agora transmitiu e continua transmitindo trouxe muito movimento abençoado para o contexto no qual vive, para suas comunidades cristãs e para seu kairós. Milton concretizou teologia sobre a terra. Procurou tornar a Verdade concreta. A Verdade sempre é concreta, como é concreta a Verdade que liberta. Os explorados, exilados e oprimidos, para os quais foi formulada, muito lhe devem. Pobres, afro-descendentes e mulheres que hoje andam de cabeça erguida muito devem às teologias formuladas em contexto. Da história da Igreja, no entanto, se aprende que as teologias contextuais estão limitadas a tempo e a espaço. Suas possibilidades também são limitadas. Podem ainda existir radicalizações e influências sobre outros, mas sempre surge o instante da estagnação. Há teologias que ainda conseguem ver seus filhos e netos, raríssimas os bisnetos. Gustavo Gutiérrez soube, por isso, situar a teologia da libertação na teologia da vida. E aqui é importante verificar que houve mudanças no fazer teologia. Elas merecem nossa reflexão.

A geração de teólogos e teólogas que comungou com Milton Schwantes leitura e interpretação semelhantes do Evangelho fez a experiência de que, muitas vezes, as coisas acontecem de forma distinta do que aguardavam.

Às vésperas da conclusão de seus estudos de graduação em Teologia, em 1968, o cheiro de revolução estava no ar. Havia protestos contra a Guerra do Vietnã (Era um garoto que, como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones…), contra a sociedade de consumo capitalista e contra a ditadura do socialismo real dos burocratas. Nem o Oriente nem o Ocidente gostavam destes protestos, pois eles “solapavam” a ordem estabelecida. Perguntávamos como mudar o status quo lá e cá. As bases, os fundamentos da sociedade deveriam ser alterados. A palavra “revolução” significava muitas coisas e era utilizada para muitas finalidades: revolução socialista, revolução democrática, revolução sexual, revolução cultural, revolução de costumes… Para amainar o “ímpeto revolucionário” alguns se valiam da palavra “religião” e contrapunham a religião à revolução: jovens crentes não participam de demonstrações!

Nesse período, a leitura teológica da sociedade se alterou, profundamente. Lendo Harvey Cox, dizíamos que a sociedade se secularizava (não víamos que no Brasil se tornava cada vez mais religiosa!); interpretando Bonhoeffer, considerávamos a sociedade sem-religião, quando já havia muitos que a passavam a perceber multirreligiosa. Enquanto alguns ainda buscavam diálogo com ateus (Moltmann, Jüngel, Machovec, Sölle), Hans Küng passou a andar de braços dados com as grandes religiões e afirmou que o diálogo inter-religioso era uma das mais importantes tarefas teológicas (!) do mundo moderno. Numa leitura similar que permanece até hoje, algumas denominações cristãs, comunidades e teólogos julgam este diálogo tão importante que ateus, pessoas sem religião e tais que se distanciam da Igreja não mais importam. É certo que a religião se tornou questão de foro íntimo. Sobre qualquer forma de religião e de sentimento religioso se encontra oferta nas livrarias esotéricas. Quando teólogos só buscam mais o diálogo inter-religioso, seu horizonte de diálogo fica bastante restrito. Será que cristãos são apenas “pessoas religiosas”? Que interesse político há por trás da intenção de que pessoas religiosas dialoguem consigo mesmas e deixem o restante do mundo em paz?

Blumhardt e Bonhoeffer nos lembram que Jesus não trouxe uma nova forma de religião, mas “vida nova”. Parece-me que o Evangelho da vida se dirige ao mundo da religião e ao mundo não-religioso, pois a vida do mundo está no centro da fé cristã (Jo 1.4).

Os reformadores promoviam longos debates sobre a “verdadeira” e a “falsa” Igreja. Discutiam até chegar a compromissos ou a se separarem. O “diálogo” busca “caminhadas”, nada sabe de um alvo. Quando o diálogo chega a um resultado, está no fim, acabou. Os que dialogam se aproximam, aprendem a conviver, mas não se convencem.

Com isso não estou a dizer que o diálogo inter-religioso não seja importante. Ele nos ajuda a conhecer o outro e a nós mesmos. Pode diminuir preconceitos, mas não leva o outro a se tornar cristão; no máximo estabiliza o status quo. No fim, tudo “acaba em pizza”, em “diversidade reconciliada”. Assume-se a indiferença tolerante da pós-modernidade. A teologia reduzida a “diálogo inter-religioso” é programa conservador e mais um placebo.

Diálogo só faz sentido onde é indispensável. Diálogo dos “homens de boa vontade” é perda de tempo. Diálogo é indispensável em relação aos extremistas da religião. Quem está dialogando com os fundamentalistas islâmicos? Quem está dialogando com os fundamentalistas cristãos? Quem tem que dialogar com fundamentalistas islâmicos é o Islã pacífico. Dialogar com os guerreiros de Deus que cercam Bush é tarefa de teólogos cristãos. Mas ambos têm que dialogar por causa dos perigos que cercam o mundo, e aí o diálogo se transforma em debate que busca a Verdade…

Na década de 60 buscou-se solucionar a questão da identidade através do protesto: a razão da existência era o protesto; na década seguinte, a questão era a “curtição”. Faziam-se shows para “curtir”. Tudo era feito para a recreação, tinha “finalidade recreativa”, narcisismo puro. Por isso, se passou a buscar a identidade do ser humano em seu “interior espiritual”. A conseqüência foi a despolitização: pão e circo.

Na Europa, perdeu-se o interesse pela América Latina e pela África, “o continente morto”. Na América Latina, cresceram o esoterismo e a “auto-ajuda”. Nesses círculos, a “teologia política” passou a ser considerada desprezível. Não foi por acaso que, no meio católico europeu, psicólogos passaram a ter crescente importância. Estudavam mitos e lendas. A “estrutura profunda da alma” passou a ser estudada no exemplo de Chapeuzinho Vermelho ou de Moisés. Deixou-se de lado o contexto social e político da narrativa. No mundo protestante, experimentou-se um renascimento de Schleiermacher. Buscou-se, especialmente na Teologia Prática, a “excitação de disposições mentais piedosas”. A revolução não interessava mais, mas a religião. Na religião se deveria sentir “o sabor do infinito”, que antes os fumantes sentiam ao fumar Hollywood com filtro ou Minister. O discurso “que faz bem” substituiu, nos púlpitos, a teologia profética com suas provocações dolorosas. A teologia deixava de ser sal da terra que machucava a ferida para se tornar chantili de um show de bolo saboroso. Nada exigia, nada provocava.

Seria bom discutir aqui o que aconteceu com os seminários teológicos, mas isso é outra conversa.

No centro da fé cristã está a missão (do Reino) de Deus no mundo. A mensagem da Igreja é o Evangelho da vida. Teologia é teologia pública e deve dirigir-se a todos.

Milton Schwantes viveu e experimentou tudo isso. Rogo que continue no debate, ad multos annos.

Fonte: Notícias – IHU – 2 de março de 2012

DREHER, C.; DREHER, I.; MUGGE, E.; HAUENSTEIN, I. (orgs.) Profecia e Esperança: um tributo a Milton Schwantes. São Leopoldo: Oikos, 2006, 440 p. – ISBN 8589732401.

Morreu o biblista Milton Schwantes

Milton Schwantes (1946-2012), um dos mais importantes biblistas brasileiros, faleceu na madrugada deste dia 1° de março de 2012.

Teólogo e pastor luterano. Graduado em Teologia pela Escola Superior de Teologia em 1970, São Leopoldo, RS. Doutor em Bíblia pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha, com tese sobre “O direito dos pobres” (Das Recht der Armen), em 1974, sob orientação de Hans Walter Wolff. Doutor honoris causa pela Universidade de Marburgo, Alemanha, em 2002.

Veja seu Currículo Lattes.

 

O CEBI publicou: Milton Schwantes: Um profeta que nos deixa, mas continua sempre conosco.

Faleceu no dia de ontem, 1° de março, o biblista Milton Schwantes.

Milton viveu os últimos anos de sua vida com sérios problemas de saúde, dando um testemunho de resistência e de alegria. Desde agosto de 2002, depois de uma delicada cirurgia para retirada de um tumor na hipófise, conviveu com sobriedade com graves limites físicos. Os últimos dois meses passou hospitalizado.

Milton Schwantes é teólogo e pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). Biblista, Schwantes é uma das principais referências do método de leitura popular da Bíblia na América Latina e autor de diversos livros, alguns traduzidos em espanhol, alemão e inglês.

Formado em Teologia pela Escola Superior de Teologia – EST (1970). Fez seu doutorado em Bíblia na Universidade de Heidelberg, na Alemanha. Apesar dos vários títulos de Doutor Honoris Causa concecidos por diversas universidades, enquanto teve forças, continuou assessorando grupos e comunidades.

A contribuição de Milton Schwantes à Leitura Popular da Bíblia e à caminhada do CEBI foi muito grande. É inegável que sem suas reflexões, o CEBI não conseguiria assegurar sua ecumenicidade. A perspicácia e a simplicidade na interpretação dos textos bíblicos foi outra grande contribuição de Milton a toda a leitura bíblica praticada no Brasil e na América Latina.

” Ficamos sem mais um profeta”, lembra Adeodata Maria dos Anjos, atual diretora nacional do CEBI. Ainda segundo a Diretora, “sua voz silenciou, mas continuará ecoando e transformando corações”.

A pastora Elaine Neuenfeldt, ex-diretora nacional, descreve emocionada: “Milton foi inspirador de muitos de nós, estudantes de Bíblia, aprendizes da leitura popular; particularmente, devo muitas das minhas reflexões no Antigo Testamento ao trabalho do Milton; ele foi um dos primeiros na EST (Escola Superior de Teologia) a propor um Curso de Aprofundamento Teológico sobre mulheres no AT. O movimento de leitura popular da Bíblia e a pesquisa bíblica perde um dos seus grandes nomes, um luterano brasileiro que deixa um legado muito importante para nós”.

“Vai fazer uma falta danada! Mas tem tanto livro, tanta gente e tanta paixão que ressuscitado está!”, afirma a pastora metodista e colaboradora do CEBI Nancy Cardoso Pereira.

À sua companheira Rose, às três filhas e a toda a família, o abraço carinhoso do CEBI.

 

A ALC – Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação publicou: Comunidade ecumênica perde o biblista Milton Schwantes

Após dois meses de hospitalização, faleceu na madrugada desta quinta-feira, 1º de março, o biblista, professor universitário e pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Dr. Milton Schwantes, 65 anos.

Ele será sepultado amanhã [hoje, dia 2], às 11h, no Cemitério da Paz, na região de Santo Amaro, distrito da zona sul da cidade de São Paulo.

Professor de Antigo Testamento na Faculdades EST entre o final dos anos 70 e início dos anos 80 do século passado, o testemunho ecumênico de Schwantes extravasou os limites de atuação da IECLB, influenciando uma geração de biblistas brasileiros e latino-americanos.

“Voltado à leitura popular da Bíblia, Milton Schwantes foi um teólogo de vanguarda e um dos biblistas mais reconhecidos em todo o país, ao lado de Carlos Mesters e de todo o grupo do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI)”, afirmou o professor da EST, Dr. Roberto Zwetsch.

Ex-aluno de Schwantes na Faculdades EST e na Universidade Metodista de São Paulo, o professor Dr. Flávio Schmitt disse que a IECLB perdeu o testemunho de um cristão comprometido com a causa do Evangelho, incansável na defesa dos valores proferidos pelos profetas do Antigo Testamento.

“Como professor e como grande amigo, Milton Schwantes foi uma pessoa que transcendeu qualquer fronteira étnica, racial ou geográfica, conseguindo se comunicar com o mundo através do ensino da Palavra de Deus”, sublinhou Flávio.

O editor da Oikos Editora, Erni Mügge, de São Leopoldo, esteve com Schwantes, ontem, quando este deixou por algumas horas o Centro de Tratamento Intensivo do hospital. Amigos de longa data, Mügge informou-o que “Salmos da vida, a caminho da Justiça”, seu escrito mais recente, já estava em fase de impressão.

Formado em Teologia pela Faculdades EST na década de 70, Schwantes cursou doutorado em Bíblia na Universidade de Heidelberg, na Alemanha, defendendo a tese “O direito dos pobres no Antigo Testamento”.

Natural de Tapera, no Rio Grande do Sul, Schwantes coordenou o projeto Bibliografia Bíblia Latino-Americana e foi editor da Revista de Intrepretação Bíblica Latino-Americana (Ribla). Tem no seu currículo a publicação de vários livros, entre eles “História de Israel”, “As monarquias no Antigo Israel”, “A terra não pode suportar suas palavras”, “Dignidade Humana e Paz”, “Dicionário Hebraico-Português e Aramaico-Português”, esses dois últimos junto com outros autores,

Acumulou vários títulos de Doutor Honoris Causa e assessou grupos e comunidades voltadas à teologia libertadora.

Em 1988, ingressou no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp). Ainda em dezembro, participou de banca de defesa de tese. Dois dias após, foi hospitalizado.

Milton viveu os últimos anos de sua vida com sérios problemas de saúde, oferecendo um testemunho de resistência e alegria. Desde agosto de 2002, após delicada cirurgia para a retirada de tumor na hipófise, conviveu também com graves limitações físicas.

Casado com Rose, Milton era pai de três filhas.

Comunidad ecuménica pierde al biblista Milton Schwantes – ALC
Después de dos meses de hospitalización, falleció en la madrugada de este jueves 1 de marzo, el estudioso de la Biblia, profesor universitario y pastor de la Iglesia Evangélica de Confesión Luterana en Brasil (IECLB), Dr. Milton Schwantes, de 65 años.

Leia Mais:
Pastor Milton Schwantes – Mensagem da Presidência da IECLB
Milton Schwantes: Um profeta da esperança – Depoimento de Ildo Bohn Gass
A teologia e o Direito dos Pobres
Bibliografia de Milton Schwantes no WorldCat
Milton Schwantes no Observatório Bíblico

O que está acontecendo na Síria hoje?

::  ISIS: a Conexão Washington – Talmiz Ahmad: Outras Palavras 19/11/2015
O caminho que o ISIS fez, da Síria a Paris, tem origem em Washington. Em comentários públicos feitos em outubro de 2014, o vice-pesidente Joe Biden colocou o dedo na ferida. Ele reconheceu: “… na Síria, nosso maior problema foram nossos aliados na região. Estavam tão determinados a derrubar Assad e promover uma guerra entre sunitas e xiitas … [que] ofereceram centenas de milhões de dólares e dezenas, milhares de toneladas de armamentos a qualquer um que lutasse contra Assad. Não importava se estes grupos eram parte da Al-Nusra e Al-Qaeda, ou jihadistas vindos de outras partes do mundo.”

:: Na Síria, o alvo agora é a Al-Qaeda – José Antonio Lima: CartaCapital 09/01/2014
Bashar al-Assad deve estar aliviado. Desde 3 de janeiro, suas tropas desfrutam de uma inesperada trégua, provocada não pelos esforços internacionais em favor da paz na Síria, mas por um conflito entre os rebeldes – muitos deles religiosos radicais – que até pouco tempo atrás estavam unidos contra o regime de Damasco. A disputa interna entre os opositores de Assad, iniciada com ataques verbais em 2013, evoluiu para um confronto militar nos últimos dias, e a tendência é que acabe com a oposição ainda mais enfraquecida. O foco do confronto no interior da oposição síria é um grupo chamado Estado Islâmico do Iraque e do Levante, conhecido pelo acrônimo em inglês ISIL. Esta facção é o braço iraquiano da rede terrorista Al-Qaeda e, desde 2013, atua na Síria. Formado por combatentes de dezenas de países diferentes, o ISIL alienou muitos rebeldes ao tentar dominar a oposição e por realizar sequestros e assassinatos contra aqueles que deveriam ser seus aliados na guerra contra Assad. Muitos desses ataques tinham como fonte uma diferença ideológica. Enquanto o ISIL deseja estabelecer um Estado islâmico no Levante (região que engloba, a grosso modo, a Síria, o Líbano, a Palestina e Israel), os outros rebeldes querem centrar suas ações na destituição do regime Assad. No fim de 2013, a relação das duas partes, que se deteriorou ao longo do segundo semestre do ano, chegou a um impasse. Na sexta-feira 3, se tornou um confronto militar. Segundo o Carnegie Endowment For International Peace, uma instituição norte-americana, três grupos diferentes realizaram ataques simultâneos contra bases e áreas dominadas pelo ISIL.

:: A Jihad europeia na Síria – Eduardo Febbro: Carta Maior 09/01/2014
Mais dois franceses se somaram esta semana à lista de europeus mortos na Síria. Não se trata de jornalistas, nem de membros de alguma ONG, mas sim de combatentes ocidentais que foram a Síria para se unir às fileiras da oposição islamista radical ao regime de Bachar Al-Assadn (…) França, Grã-Bretanha, Alemanha, Espanha, Bélgica, Dinamarca e Holanda: vários países do Velho Continente têm visto muitos jovens cidadãos, frequentemente de origem muçulmana, partir para a Síria para integrar algum bando da oposição. Em meados de dezembro de 2012, os ministros do Interior de França e Bélgica, Manuel Valls e Joëlle Milquet, revelaram que entre 1500 e 2000 europeus se deslocaram como “combatentes” para a Síria desde o mês de março daquele ano. As cifras assinalam um aumento considerável desses combatentes. Para todo o ano de 2012, a quantidade de jihadistas europeus chegou a 800, três vezes menos que em 2013. Segundo fontes da contraespionagem francesa, somente no mês de dezembro uns 14 jihadistas franceses foram lutar na Síria. Esta curva ascendente constitui uma das maiores preocupações dos serviços de inteligência dos países europeus. Manuel Valls informou que, atualmente, há uns 200 franceses na Síria, outros 70 “em trânsito” enquanto outros 100 estariam em “vias de se deslocarem”.

:: A evolução contínua da Al-Qaeda 3.0 – Bruce Riedel: Al Monitor, em Carta Maior 05/01/2014
As organizações ligadas a Al-Qaeda e suas ideias estão prosperando em todo o mundo árabe como nunca antes, devido ao fracasso da Primavera Árabe. Há menos de três anos, a Al-Qaeda, a organização e sua ideologia, estava na defensiva, em retirada (…) No início de 2014, o quadro é muito diferente de 2011. A ascensão de filiais da Al-Qaeda tem sido mais dramática no chamado Crescente Fértil, de Beirute a Bagdá. A Al- Qaeda no Iraque, erroneamente proclamada como derrotada, reviveu com o Estado Islâmico do Iraque e a Al-Sham (ISIS) e está mais mortal do que nunca. Hoje, está lutando novamente para assumir o controle da província de Anbar. Houve também o nascimento de uma “franquia” síria, Jabhat al-Nusra, que agora participa também da disputa pelo poder na Síria. Juntos, ISIS e Jabhat al-Nusra estão tentando destruir  centenárias fronteiras da região, traçadas por Londres e Paris, após a Primeira Guerra Mundial. Milhares de jihadistas de todo o mundo muçulmano, muitos deles da Europa, reuniram-se na Síria para se juntar à luta contra o regime de Bashar al-Assad. A violência sectária entre sunitas e xiitas está se multiplicando, alimentando o fogo que a Al- Qaeda há muito cultiva. Filial da Al-Qaeda no Líbano, as Brigadas Abdullah Azzam estão tentando importar a guerra civil síria para o país.

:: O que Putin tem a dizer aos EUA sobre a Síria – Vladimir Putin: The New York Times, em Carta Maior 15/09/2013
O potencial ataque do Estados Unidos à Síria, apesar da forte oposição de vários países e de importantes líderes políticos e religiosos, o papa inclusive, resultaria em mais inocentes mortos, potencialmente alastrando o conflito além das fronteiras sírias. Tal ação causaria aumento da violência, desencadeando uma nova onda de terrorismo. A Síria não está testemunhando uma batalha por democracia, mas um conflito armado entre governo e oposição em um país multi-religioso. Há poucos defensores da democracia na Síria. Desde o princípio, a Rússia defendeu um diálogo pacífico que permita aos sírios desenvolver um plano de compromisso para seu próprio futuro. Nós não estamos defendendo o governo sírio, mas a lei internacional. O Conselho de Segurança da ONU deve ser respeitado e acreditamos que a preservação da lei e da ordem neste complexo e turbulento mundo é uma das poucas formas de fazer com que as relações internacionais não se tornem caóticas. A lei ainda é a lei, e independente de concordarmos com ela ou não, devemos segui-la. Sob a lei internacional atual, o uso da força só é permitido em autodefesa ou por decisão do Conselho de Segurança. Qualquer outra ação é considerada inaceitável sob a Carta das Nações Unidas e constituiria um ato de agressão. É alarmante que a intervenção militar em conflitos internos de países estrangeiros tenha se tornado algo comum para os Estados Unidos. Isso faz parte de interesses a longo prazo da América? Duvido. É preciso parar de usar a linguagem da força e retornar ao caminho civilizado da diplomacia e dos acordos políticos. Uma nova oportunidade de evitar ações militares surgiu nos últimos dias.

:: A partilha da pizza? – Antonio Luiz M. C. Costa: CartaCapital 13/09/2013
Três semanas após o ataque químico nas vizinhanças de Damasco, o impasse parece caminhar para um desfecho inesperado, capaz de resultar em uma mudança duradoura nas relações geopolíticas da região e talvez o menos ruim que se poderia esperar nessas circunstâncias. Pela oposição da Rússia, pela falta de apoio interno ou por ambas as razões, Barack Obama parece a ponto de desistir do ataque à Síria e aceitar a proposta russa pela qual Bashar al-Assad entregará seu arsenal químico à ONU para ser desmantelado. Implicitamente, os EUA parecem desistir de vez de tentar forçar a vitória do Exército da Síria Livre, a facção relativamente pró-ocidental para os quais parte da mídia ocidental adotou a prática esdrúxula de chamar de “rebeldes regulares” ou mesmo “rebeldes oficiais”. Os demais, vinculados à Al-Qaeda, aos salafistas ou ao separatismo curdo, seriam “rebeldes rebeldes”? “Oficiais” ou não, a imagem dos insurgentes sofreu mais reveses nestes dias. O historiador e politólogo belga Pierre Piccinin e o jornalista italiano Domenico Quirico, libertados no domingo 8 após cinco meses de cativeiro nas mãos das Brigadas Al-Farouk (“islâmicos moderados”) revelaram ter sofrido torturas nas mãos de seus algozes e ouvido uma conversa por Skype deles com supostos membros do Exército Livre, na qual admitiam ter realizado o ataque químico em busca de uma intervenção ocidental. Agnes Mariam el-Salib, madre superiora de um convento católico sírio, apareceu na mídia russa para afirmar que os vídeos do ataque com gás foram encenados. A revista alemã Bild revelou várias mensagens interceptadas pela espionagem alemã nos últimos quatro meses, nas quais militares sírios pedem permissão para usar armas químicas várias vezes, com respostas sempre negativas. A reportagem sugere que os comandantes as usaram sem autorização de Assad, mas há outras possibilidades. Houve quem dissesse que Putin forneceu a Obama uma saída honrosa ante uma iminente derrota no Congresso, que o humilharia e poderia ser desastrosa para o restante de seu mandato.

:: ONU confirma uso de armas químicas na Síria, mas não aponta responsáveis – Redação: Opera Mundi 13/09/2013
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou nesta sexta-feira (13/09) que o relatório dos inspetores enviados à Síria deve ser divulgado na próxima semana e confirmará o uso de armas químicas em Damasco, sem, no entanto, atribuir a culpa a nenhum dos lados do conflito.

:: O verdadeiro alvo do Ocidente é o Irã, e não a Síria – Robert Fisk: Carta Maior 02/09/2013
Antes que comece a guerra ocidental mais idiota na história do mundo moderno – eu me refiro, é claro, ao ataque à Síria que todos nós vamos ter que engolir – podemos dizer que os mísseis que esperamos ver cruzando os céus de uma das cidades mais antigas das humanidade não têm nada a ver com a Síria. Eles têm como objetivo atacar o Irã. Eles pretendem atacar a república islâmica agora que ela tem um presidente novo e vibrante – diferente do bizarro Mahmoud Ahmadinejad – e bem quando ele pode estar um pouco mais estável. O Irã é inimigo de Israel. Então o Irã é, naturalmente, inimigo dos EUA. Então dispare os mísseis no único aliado árabe do Irã.

:: “Superpotência moral”? Dá um tempo – Gideon Levy: Haaretz, em Carta Maior 02/09/2013
É impossível afirmar que os Estados Unidos, país responsável pela maior parte do derramamento de sangue desde a Segunda Guerra Mundial na Ásia, América do Sul, Afeganistão e Iraque, seja dirigido por considerações morais. O ataque a Síria seria um Iraque II. Os EUA – que nunca foram punidos pelas mentiras do Iraque I e pelas centenas de milhares de mortos em vão nessa guerra – dizem que uma guerra similar deveria ser lançada. Mais uma vez, uma cortina de fumaça.

:: Ataque à Síria é sobre poder, não sobre os civis –  José Antonio Lima: CartaCapital  31/08/2013 10:35
Sem justificativa legal para ofensiva, EUA apelam para a moralidade, a mesma que foi esquecida enquanto 100 mil pessoas morreram. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ainda não tomou sua decisão final. Parece iminente, entretanto, uma ofensiva contra a Síria, em retaliação ao aparente ataque com armas químicas realizado nos subúrbios de Damasco no último dia 21. Sem a possibilidade de obter um mandato legal para o bombardeio – bloqueado pela Rússia e pela China – Washington busca dar um verniz de legitimidade à ação. Será uma tarefa difícil esconder que o mundo não está diante da defesa da moralidade, ou do que “é certo”, mas de uma clássica disputa por poder. A opção aparentemente escolhida pelos Estados Unidos para realizar a retaliação contra Assad: ataques “limitados”, realizados a partir de destróieres, com mísseis Tomahawk, cuja capacidade de destruição é imensa e a precisão, nem tanto. Essas características do armamento têm levado o pânico a moradores de Damasco e outras cidades sírias, mesmo aqueles contrários a Assad, como mostraram algumas reportagens da imprensa internacional nos últimos dias. Os civis, aqueles que os EUA supostamente querem proteger, muito provavelmente vão sofrer ainda mais com os ataques norte-americanos. Na melhor das hipóteses, e também a mais improvável, Assad vai desistir de usar armas químicas contra a população e os guerrilheiros estrangeiros da oposição (e continuar com tanques, caças e mísseis). Na pior das hipóteses, a Síria vai promover sua própria retaliação, dando início à guerra das guerras do Oriente Médio, na qual finalmente haverá um acerto de contas entre o eixo Irã-Síria-Hezbollah e os clientes dos Estados Unidos, em especial a Arábia Saudita e os países do Golfo, a Turquia e, possivelmente, Israel. No meio termo entre esses dois desfechos extremos, os EUA vão agora castigar Assad, mas eventualmente o ditador retomará o uso de seu arsenal químico. Washington será instada a reagir uma, duas, três vezes, até aleijar todas bases do poder de Assad. Quando isto ocorrer, a Síria estará transformada numa mistura de Afeganistão com Iraque: diversos territórios controlados por pequenos senhores da guerra (entre os quais Assad), com uma divisão sectária profunda (combustível para atentados terroristas), e sem uma força internacional capaz de controlar todos esses atores. Neste estágio, uma solução política, hoje ainda possível, será impraticável. A curto, médio e longo prazo, quem pagará o maior preço pela escolha da intervenção militar em detrimento de uma intervenção política será a população síria.

:: EUA têm plano para “ataque militar limitado”; Reino Unido já movimenta seu Exército – Redação: Opera Mundi 27/08/2013
“Os tambores de guerra estão tocando ao redor da Síria”, afirmou o ministro das Relações Exteriores,Walid al Muallem. A afirmação veio nesta terça-feira (27/08) após a notícia que os EUA já preparam um ataque em represália às denúncias de utilização de armas químicas pelo Exército sírio. O plano de Washington não pretende interferir no conflito civil do país, mas, sim, “atacar instalações das Forças Armadas da Síria e impedir a produção de armas químicas”, afirmaram altos funcionários do Pentágono à mídia norte-americana e ao jornal El Pais. Mesmo sem qualquer comprovação oficial ou conclusão dos trabalhos de perícia da ONU (Organização das Nações Unidas), os EUA já estudam o ataque militar que vai ter “alcance militado” às Forças Armadas do governo Assad. Uma fonte do governo norte-americano confirmou à rede CNN e ao jornal Washington Post que o Pentágono já movimenta tropas no Mediterrâneo.

:: Intervenção militar ocidental na Síria vai tomando forma – Eduardo Febbro: Carta Maior 27/08/2013
Não há até o momento nenhuma decisão formal adotada, mas as trombetas da guerra são ouvidas nas principais capitais ocidentais cujos países são membros do Conselho de Segurança da ONU, Estados Unidos, França e Grã-Bretanha. Quanto aos outros dois membros, China e Rússia, Pequim recomendou prudência e Moscou cerrou fileiras com Damasco. Cabe assinalar que as potências ocidentais não são as únicas que promovem sanções militares contra a Síria. A Turquia também se somaria a uma eventual coalizão. Os observadores militares alegam que a operação na Síria deveria ser breve e sem deslocamento de tropas. Seu ponto de partida seria um dos quatro navios que estão no Mediterrâneo, apoiados por mísseis de cruzeiro franceses e britânicos. O esquema parece armado. Só falta quem vai apertar primeiro o gatilho.

:: Roteiro de guerra na Síria segue trama de filme B – Pedro Aguiar: Opera Mundi 26/08/2013
A trama completamente ilógica, apesar de parecer escrita por um roteirista mal pago, é a que está sendo desenhada para justificar a próxima aventura de Barack Obama e seus falcões de guerra: a intervenção ocidental na Síria. Para fazer algum sentido, os personagens desse filme de Sessão das Dez teriam no mínimo de ter objetivos retos, não tortuosos. Por que um regime que já se encontrava em vantagem no terreno iria ter o desatino de massacrar civis não combatentes, especialmente num momento em que a guerra de atrito o favorece, minando a capacidade de mobilização dos rebeldes? Por que utilizar armas não convencionais, quando o uso de armas de fogo já estava em prática há anos sem causar alarde internacional? Por que logo três dias depois da chegada dos inspetores da ONU à capital, hospedados a poucos quilômetros dali, no que seria uma afronta sem qualquer ganho político? E por que Ghouta, um subúrbio residencial, de baixa densidade e ocupação semi-rural, sem nenhum alvo estratégico militar ou político? E por que, responda Alá se puder, menos de 24 horas depois de autorizar a entrada dos inspetores da ONU no local do massacre, Assad armaria uma emboscada abrindo fogo contra eles, tudo sob os holofotes da CNN, da BBC e da Al Jazeera?

:: Do impasse sírio à guerra regional –  Alain Gresh/Le Monde Diplomatique, em Opera Mundi 03/08/2013
A situação militar recente na Síria foi marcada pela vitória das tropas oficiais, apoiadas pelo Hezbollah, em Qusayr, e pela decisão dos Estados Unidos de armar os insurgentes. Nada prenuncia o fim dos enfrentamentos. Pelo contrário: o conflito toma um rumo confessional e se espalha para toda a região. Como explicou um oficial norte-americano no relatório extremamente completo que publicou o ICG (International Crisis Group) “uma guerra síria com dimensões regionais está se transformando em uma guerra regional no entorno da Síria”. Uma nova “guerra fria” divide o Oriente Médio, similar à que, nos anos 1950 e 1960, tinha visto o enfrentamento entre o Egito nasseriano aliado dos soviéticos e a Arábia Saudita parceira dos Estados Unidos. Mas os tempos mudaram: o nacionalismo árabe diminuiu, os discursos confessionais se espalharam, e nos perguntamos inclusive a respeito da perenidade dos Estados e das fronteiras que tiveram origem na Primeira Guerra Mundial.

:: Síria: a guerra na televisão – Robert Fisk: Carta Maior 03/09/2012
Na hora mais sombria da Síria, um pouco de verdade real aflorou à superfície. Há um par de noites, Al Assad concedeu sua entrevista mais importante em meses – seguirá lutando, disse, e a batalha da Síria está muito longe de terminar – ao canal privado Dunia. Carros-bomba, corpos esquartejados, vítimas gritando, fazem parte hoje do cotidiano das notícias vespertinas. O canal de televisão especializado em dramas perdeu atrativo nos últimos meses. Agora que há um drama verdadeiro nas ruas, quem vai se interessar pela versão teatral?

:: “Fazer alguma coisa” na Síria – José Manuel Pureza: Carta Maior 03/08/2012
A História não é uma realidade em preto e branco. É um embuste a sua apresentação como enfrentamento entre anjos e patifes. As revoltas democráticas no mundo árabe foram sequestradas pelos jogos geopolíticos: na guerra síria joga-se porventura menos a democracia do que a fragilização do Irã por Israel e pela Arábia Saudita. A urgência de “fazer alguma coisa” tem décadas de resultados desastrosos, armando até aos dentes os aliados de agora que serão os patifes de amanhã.

:: Guerra de mentiras – Robert Fisk: Carta Maior 01/08/2012
Já se viu no Oriente Médio uma guerra em que impera tamanha hipocrisia? Uma guerra de tamanha covardia, de moral malvada, com tamanha falsa retórica e vergonha pública? Não me refiro às vítimas físicas da tragédia na Síria. Refiro-me às mentiras e à falsidade dos nossos governantes e da nossa opinião pública – tanto no Oriente como no Ocidente –, em ambos os casos dignas de risos: não são senão uma horrível pantomima mais característica de uma sátira de Swift do que de Tolstói ou de Shakespeare.

:: A falácia da intervenção “humanitária” na Síria – Larissa Ramina: Carta Maior 29/07/2012
A questão internacional central, e também o principal embate da encruzilhada síria, está na perigosa articulação do conceito de “intervenção humanitária”. O intelectual e escritor belga Jean Bricmont, em recente fala na Unesco, chama a atenção para o que rotulou de “noção falaciosa de guerra humanitária”, e denuncia um condicionamento ideológico proveniente das mídias, que segundo ele visam a tornar uma intervenção militar na Síria aceitável aos olhos da opinião pública mundial.

:: Insurgência contra regime sírio é sustentada pelo Ocidente – Luiz Alberto Moniz Bandeira: CartaCapital, reproduzido em Ópera Mundi 26/03/2012
EUA e União Europeia pretendem assumir o controle do Mediterrâneo e isolar politicamente o Irã.

:: Ocidente equipa serviços de espionagem de países que condena – Eduardo Febbro: Carta Maior 26/03/2012
As democracias ocidentais têm grandes dificuldades para esconder o rabo do diabo. As potências que no interior do Conselho de Segurança da ONU promovem resoluções em defesa dos Direitos Humanos ou para condenar o regime sírio, egípcio, líbio ou iraniano são as mesmas que venderam a esses regimes – e a outros – o material tecnológico necessário para vigiar e reprimir a oposição. A hipocrisia é uma regra de ouro: a comunidade internacional invoca os valores por um lado e, pelo outro, entrega com chaves nas mãos os instrumentos tecnológicos usados para submeter os povos.

:: As revoluções árabes, um ano depois – Samir Amin: Carta Maior 12/03/2012
O regime de Bashar al-Assad não é nem mais nem menos do que um estado policial que acompanha a submissão às exigências do “liberalismo” globalizado. A legitimidade da revolta do povo sírio é indiscutível. Mas a destruição da Síria é o objetivo dos três parceiros, que são os Estados Unidos, Israel e Arábia Saudita, que mobilizam para isso a Irmandade Muçulmana e lhe fornecem armas. A sua eventual vitória – com ou sem a intervenção externa – resultará no desmembramento do país, massacre dos alauitas, drusos e cristãos. Mas não importa. O objetivo de Washington e seus aliados não é libertar a Síria do seu ditador, mas destruir o país, como não era para libertar o Iraque de Saddam Hussein, mas para o destruir.

:: Síria: agonia do regime e o nascimento de uma nova nação – Reginaldo Nasser: Carta Maior 07/03/2012
Os altos custos econômicos e sociais do conflito relacionam-se cada vez mais à luta travada entre as grandes potências e os poderes regionais sobre o futuro do país. Historicamente, nos momentos em que a Síria encontra-se unida e estável, ela representa um importante ator regional, mas quando está dividida, como agora, torna-se uma arena para a luta de forças externas, muito embora a revolta tenha se originado exclusivamente no seio de sua sociedade.

:: Oposição síria assume militarização do movimento contra governo – Eduardo Febbro: Carta Maior 01/03/2012
Os opositores sírios estão ingressando em um caminho turvo. O Conselho Nacional Sírio (CSN) assume pela primeira vez a militarização do movimento de contestação contra o regime de Bashar Al Assad que iniciou há um ano. O presidente do CNS, Burhan Ghaliun (foto), esteve em Paris no mesmo dia em que o rumo da guerra interna tomava outra direção. Ghaliun modificou a linha inicial deste movimento ainda impreciso e anunciou a criação de um “bureau militar” para organizar o fornecimento de armas.

:: O arabesco sírio – Francisco Carlos Teixeira: Carta Maior 01/03/2012
Na Síria a Primavera árabe encontrou uma situação diversa, complexa e com resistências sedimentadas. Para infelicidade do povo sírio e dos verdadeiros democratas que iniciaram, com o custo de suas vidas, a oposição ao regime Assad, o que se joga hoje na Síria é um brutal jogo de poder estratégico regional e global. Num nível local alinham-se os poderes xiitas minoritários, com o Irã/a maioria xiíta iraquiana/ a Síria e a minoria xiita do Líbano, representada pelo Hizbollah, contra as “potências” sunitas, representadas pela Arábia Saudita/Qatar/Kuait, com apoio da Turquia e a intervenção brutal da Al-Qaeda. A este nível global do xadrez se juntam os EUA e a União Europeia e Israel, visando manter o controle da região e impedir a emergência de um Irã como potência regional e enfraquecer ao máximo a Síria como opositor de Israel. Do outro lado, alistam-se China e Rússia, dispostas a evitar a completa hegemonia americana e, tendo como corolário e justificativa, a limitação da soberania das nações em nome do princípio da intervenção humanitária (RtoP). Eis uma parte do arabesco sírio.

:: A nova Guerra Fria já começou na Síria – Robert Fisk: Carta Maior 29/02/2012
Foi bom saber, pelo secretário de Relações Exteriores britânico, que “não estamos apoiando a ideia de alguém atacar o Irã neste momento”. Talvez mais tarde, então. Ou talvez depois de o presidente Assad cair, privando o Irã de seu único – e valioso – aliado no Oriente Médio. É disso que se trata, eu suspeito, esse monte de rugidos vociferando contra Assad. Livre-se de Assad e você estará cortando parte do coração do Irã. Se isso vai levar Ahmadinejad a transformar suas usinas nucleares em fábricas de leite, bem, isso já é outro assunto.

:: Sobre a Síria – Jean Bricmont: Carta Maior 29/02/2012
A lição que devemos extrair não consiste em apressar-se em outra guerra na Síria, como fizemos na Líbia, sustentando que desta vez estamos no lado bom, defendendo a população contra os ditadores, mas reconhecer que já é hora de deixar de pensar que temos de controlar o mundo árabe. Na alvorada do século XX, a maioria do mundo se encontrava sob o controle europeu. O Ocidente acabará perdendo o controle sobre essa parte do mundo, como perdeu na Ásia Oriental e está perdendo na América Latina.

:: Sobre a Síria: a batalha de propaganda e outras batalhas – Alain Gresh: Carta Maior 28/02/2012
A revolta na Síria, que vai em breve entrar no seu segundo ano, levanta questões dramáticas para as quais não existem respostas simplistas – para não se fazer a política do quanto pior melhor. A batalha pela Síria é também uma batalha de propaganda. O regime perdeu-a há muito, tanto que as suas afirmações são frequentemente grotescas, as suas mentiras óbvias e as suas práticas bárbaras. No entanto, as informações que se multiplicam 24 horas sobre 24 em todas as cadeias de rádio e de televisão, e que frequentemente têm uma única fonte, a oposição no exterior do país, são verdadeiras?

:: “A maioria do povo sírio quer que o clã Assad saia” – Tariq Ali: Carta Maior 28/02/2012
O escritor e ativista diz que uma intervenção externa na Síria seria desastrosa e conduziria a um enorme banho de sangue, muito pior do que ocorreu na Líbia. Para Tariq Ali, China e Rússia estão numa posição forte para conseguir uma mudança sem ações violentas. “E é preciso que a pressão se mantenha internamente. É preciso dizer a Assad, em termos claros, que ele tem de ir embora, que o pai dele derramou muito sangue na Síria, ele está a fazer o mesmo”, defende.

:: O impasse sírio – Immanuel Wallerstein: Carta Maior 28/02/2012
Não creio que num ano ou dois assistamos à saída de Assad do poder, ou à mudança substancial do seu regime. Por mais que seja elevado o volume da retórica e por mais terrível que seja a guerra civil, ninguém quer realmente que Assad saia. Arábia Saudita, Estados Unidos, Israel, Turquia e França, nenhum destes países quer intervir diretamente no conflito sírio. Posso imaginar o suspiro de alívio de Washington, quando a Rússia vetou a resolução da ONU sobre a Síria. Por isso, com todas as probabilidades, Assad vai ficar.

Teologia precisa desenvolver tolerância às diferenças

Ao ministrar a aula inaugural do Bacharelado em Teologia da Faculdades EST, ontem à noite, o professor Dr. Gmainer-Pranzl argumentou que o ensino e a pesquisa teológica devem ter perspectiva global, na medida em que uma “teologia mundial” tem muito a aprender a partir de formas seculares de viver e pensar.

Micael Vier B.
Terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

“Teologia e igreja não se tornam relevantes pelo fato de despejarem respostas religiosas sobre todos, mas por levarem a sério as pessoas com suas questões e seus problemas concretos”, disse o diretor do Centro de Teologia Intercultural e Estudos das Religiões na Universidade de Salzburg.

A atuação da igreja e da teologia, analisou, não deveria estar voltada somente àqueles com os quais elas têm intimidade, mas também aos estranhos, aos incômodos, aos críticos e até aos adversários. “Isso significa reconhecer que estamos inseridos num mundo culturalmente plural e conflitivo, no qual convivemos com pessoas crentes, com pessoas que têm um credo diferente e com pessoas que não creem”, assinalou.

Diante de estudantes e professores, o palestrante afirmou que uma teologia capaz de dizer algo ao mundo será sempre uma teologia comunicativa, participativa e missionária. A capacidade de diálogo representada pela teologia intercultural, destacou Pranzl, não serve para encobrir as diferenças, mas para desenvolver uma tolerância à ambiguidade a partir da qual se torna possível uma práxis de comunicação da fé capaz de passar por cima das fissuras culturais e sociais.

Pranzl admira o trabalho de dom Erwin Kräutler, bispo católico do Xingu. Ele contou que Kräutler, ao solicitar aos moradores da região que lhe dessem um conselho por ocasião de sua investidura no cargo, o povo pediu que fosse um “bispo que ouve”. A afirmativa do povo amazônico indica que a responsabilidade da fé não acontece mediante o ensinamento de uns pelos outros, mas como intercâmbio recíproco no qual todos contribuem com algo ao terem a oportunidade de ouvir, mas também de se pronunciar.

Fonte: ALC – Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação

Mais sobre a Tumba B de Talpiot

Mais uma Tumba de Talpiot

Quem não se lembra do polêmico Sepulcro Esquecido de Jesus ou Tumba de Talpiot?

Aquela era a Tumba A de Talpiot. Pois agora a polêmica ressurge com a Tumba B de Talpiot. E Tabor e Jacobovici. Se a Tumba A era a da “família de Jesus”, a Tumba B é vista por eles como a de “seguidores de Jesus”.

E um livro: TABOR, J. D.; JACOBOVICI, S. The Jesus Discovery: The New Archaeological Find That Reveals the Birth of Christianity. New York: Simon & Schuster, 2012, 274 p. – ISBN 9781451650402.

Pois então leia:

Descoberta em Minas gravura mais antiga das Américas

Foi descoberta na região de Belo Horizonte, Minas Gerais, a gravura rupestre mais antiga das Américas.

No texto publicado pela Folha.com em 23/02/2012, Reinaldo José Lopes e Cláudio Ângelo dizem:

Pesquisadores da USP estavam se preparando para arrumar as malas e encerrar seu trabalho na Lapa do Santo, um sítio arqueológico a 60 km de Belo Horizonte, quando toparam com a gravura estilizada no leito de rocha. Não era exatamente uma Mona Lisa: cabeça em forma de C, mãos com três dedos e um enorme pênis ereto compunham a figura de 30 cm. Mas a imagem, descobriram os cientistas, é a mais antiga gravura do continente americano, e um dos mais antigos exemplos de arte das Américas, com pelo menos 10,5 mil anos de idade. “Foi uma sorte enorme e uma surpresa absoluta”, diz Walter Alves Neves, bioantropólogo do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP e líder do grupo responsável pelo achado (…) A gravura da Lapa do Santo foi achada 3 cm abaixo de uma fogueira, e o carvão desse fogo pode ser datado pelo carbono-14. Daí é que vem a idade mínima de 10,5 mil anos, embora outros métodos sugiram que ela pode chegar, na verdade, a 12 mil anos. É o período em que os primeiros seres humanos estavam chegando ao Brasil (…) Neves conta que, de brincadeira, o grupo apelidou a figura de “Taradinho”, em referência a seu falo ereto. Figuras do tipo, bem como cenas de sexo e até de parto, aparecem em outros exemplares de arte antiga no interior brasileiro, em especial no Nordeste. E o mesmo estilo, aliás, pode ser encontrado nos próprios paredões calcários da Lapa do Santo (…) A descoberta está descrita em artigo na revista científica “PLoS One”.

Leia o texto completo e veja também os links para fotos e desenhos.

O sítio arqueológico da Lapa do Santo fica numa propriedade rural, a Fazenda Cauaia, na zona rural de Matozinhos, e se soma a vários outros que reforçam a relevância de Minas nesse campo.

Em 1975 foi descoberto em uma gruta na região de Lagoa Santa o crânio de Luzia. Na época, o local era objeto de estudo de uma missão científica e foi o biólogo, arqueólogo e antropólogo Walter Neves, o descobridor do petróglifo de 10 mil anos, que apelidou o crânio de Luzia (…) Exames revelaram que Luzia, por sua vez, é o fóssil mais antigo das Américas, com cerca de 11,5 mil anos. A mulher estava na faixa dos 20 anos quando morreu, tinha 1,5m de altura e possuía traços negros. Em 1999, pesquisadores da Universidade de Manchester, na Inglaterra, fizeram a reconstituição do rosto da mulher, tendo como base o crânio encontrado em Minas Gerais (Pinturas rupestres encontradas na Grande BH animam pesquisadores – Estado de Minas: 24/02/2012)

O Abstract do artigo publicado na PLoS One diz:

Background
Most investigations regarding the First Americans have primarily focused on four themes: when the New World was settled by humans; where they came from; how many migrations or colonization pulses from elsewhere were involved in the process; and what kinds of subsistence patterns and material culture they developed during the first millennia of colonization. Little is known, however, about the symbolic world of the first humans who settled the New World, because artistic manifestations either as rock-art, ornaments, and portable art objects dated to the Pleistocene/Holocene transition are exceedingly rare in the Americas.

Methodology/Principal Findings
Here we report a pecked anthropomorphic figure engraved in the bedrock of Lapa do Santo, an archaeological site located in Central Brazil. The horizontal projection of the radiocarbon ages obtained at the north profile suggests a minimum age of 9,370±40 BP, (cal BP 10,700 to 10,500) for the petroglyph that is further supported by optically stimulated luminescence (OSL) dates from sediment in the same stratigraphic unit, located between two ages from 11.7±0.8 ka BP to 9.9±0.7 ka BP.

Conclusions
These data allow us to suggest that the anthropomorphic figure is the oldest reliably dated figurative petroglyph ever found in the New World, indicating that cultural variability during the Pleistocene/Holocene boundary in South America was not restricted to stone tools and subsistence, but also encompassed the symbolic dimension.

Leia Mais:
:: Gravura rupestre mais antiga das Américas descoberta no Brasil
:: Pinturas rupestres encontradas na Grande BH animam pesquisadores
:: Rock Art at the Pleistocene/Holocene Boundary in Eastern South America: Walter A. Neves, Astolfo G. M. Araujo, Danilo V. Bernardo, Renato Kipnis e James K. Feathers – PLoS One: February 22, 2012

O frágil equilíbrio do Oriente Médio está se rompendo

O artigo, publicado na Carta Maior no dia 22/02/2012, é do Professor Francisco Carlos Teixeira, da UFRJ. O título: As novas condições estratégicas no Oriente Médio. A sinopse diz:

É comum que se escreva, sempre com algum exagero, que os últimos acontecimentos – sejam de qualquer natureza – mudaram as relações internacionais e as condições estratégicas regionais e/ou globais. Neste início de 2012, contudo, uma visão de conjunto do Oriente Médio/Ásia Central nos mostra que o equilíbrio conseguido com grande esforço depois do fim da Guerra Fria, em 1991, desmoronou.
No artigo ele diz que “a última década, grosso modo, foi de importantíssimas mudanças. Para facilitar a caracterização de tais mudanças, e apenas para efeito didático, vamos fazê-lo em dois movimentos. De um lado os fatores exógenos que impactaram a região e, de outro, os fatores endógenos que moldam as tendências atuais de mudança e que, por sua vez, impactam as relações globais”.
Neste primeiro artigo, Francisco Carlos Teixeira trata de fatores exógenos (de proveniência externa), como:
  • A quase total retirada da Rússia do jogo político regional do Oriente Médio
  • A invasão norte-americana, e de seus aliados da OTAN, no Afeganistão em 2001, com um impacto de grandes proporções no Paquistão e no próprio Irã
  • O fracasso das mediações do conflito Israel-Palestina considerado, por muito tempo, um produto da Guerra Fria (1945-1991), mostrou tratar-se, em verdade, de um conflito nacional
  • A desastrosa invasão norte-americana do Iraque, em 2003, destruindo boa parte do equilíbrio regional, expresso nas relações Irã-Iraque, Arábia Saudita-Iraque e, mais complexo ainda, entre sunitas e xiitas em toda a região
  • A emergência de novos e autônomos polos alternativos de poder político e econômico, em especial a China Popular e a Índia – e mais recentemente o Brasil
  • A crise da Europa – uma crise econômica, política e de instituições da UE – acaba por levar a uma situação de militarização e saturação de iniciativas bélicas na região sul do bloco europeu, tudo em nome do chamado “Princípio de Intervenção Humanitária”, aplicado de forma bélica quando o país alvo não cumpra com a “Responsabilidade de Proteger” (“RtoP” ou “R2P”, conforme a sigla em inglês) seus próprios cidadãos
  • Como corolário do item anterior, a crise econômica europeia, acompanhada de recrudescimento dos setores chauvinistas e racistas nos partidos de centro-direita europeus (França, Áustria, Alemanha, Bélgica, Holanda, Polônia) consolida a recusa – nunca pronunciada – da admissão da Turquia na União Europeia

E ele explica:
“Estes são fatores de grande impacto sobre o Oriente Médio/Ásia Central que, nos últimos dez ou doze anos, conformaram largamente as relações internacionais na região. Não foram gerados na própria região, possuem profundas raízes históricas na própria dinâmica global, mas tiveram um impacto profundo sobre a região. De forma muito clara, por sua vez, geraram localmente apropriações originais que, por sua vez, darão movimento a tendências locais/regionais de grande alcance.

A crise mundial, desde 2008, com seu impacto direto sobre as economias europeias – os clientes e parceiros tradicionais das ditaduras “estabilizadoras” (quer dizer, sunitas, pro-ocidentais e indiferentes em relação ao destino da Palestina ) – enfraqueceu imensamente o equilíbrio anterior. Da mesma forma, as reformas “regressistas” e liberais realizadas nas economias locais (bem antes de atingirem a Europa), destruíram o sistema clientelístico e provedor das elites que conseguiram, com a ajuda da brutal repressão de suas polícias políticas, manter a ordem oligárquica.
Assim, a partir de 2008, com maior expressão ao final de 2010, irrompem inúmeros e incontroláveis movimentos populares, greves e manifestações de rua no imenso arco que se estende do Atlântico, com o Marrocos, até o Golfo Pérsico, no Bahrein, passando pela Argélia, Tunísia, Líbia, Egito, Arábia, Jordânia, Irã e Síria. De forma muito discreta na mídia ocidental, mas causando temor e perplexidade, milhares de israelenses vão às ruas em Jerusalém, Haifa e Tel-Aviv exigindo mais moradia e empregos e menos guerra.
É neste contexto que as direções políticas regionais – tanto no Cairo ou Teerã, quanto em Tel-Aviv ou Riad – correm em direção a uma agudização dos conflitos locais. A rua assusta os governos que então alardeiam a ameaça externa”.

O autor continuará com a exposição dos fatores endógenos, ou seja, originados internamente.

Leia o texto completo.
Fonte: GBN Defense:

Resenhas na RBL: 14.02.2012

As seguintes resenhas foram recentemente publicadas pela Review of Biblical Literature:

Craig L. Blomberg, with Jennifer Foutz Markley
A Handbook of New Testament Exegesis
Reviewed by Jan G. van der Watt

John Drane
Introducing the Old Testament
Reviewed by Jordan M. Scheetz

Gregg Gardner and Kevin L. Osterloh, eds.
Antiquity in Antiquity: Jewish and Christian Pasts in the Greco-Roman World
Reviewed by Douglas Estes

Joze Krasovec
The Transformation of Biblical Proper Names
Reviewed by Jeremy Hutton

Michael C. Legaspi
The Death of Scripture and the Rise of Biblical Studies
Reviewed by Teresa Okure

Kevin B. McCruden
Solidarity Perfected: Beneficent Christology in the Epistle to the Hebrews
Reviewed by Craig R. Koester

Daniel O’Hare
“Have You Seen, Son of Man?”: A Study of the Translation and Vorlage of LXX Ezekiel 40-48
Reviewed by William Tooman

Gert J. Steyn and Dirk J. Human, eds.
Psalms and Hebrews: Studies in Reception
Reviewed by Scott D. Mackie

Anthony C. Swindell
Reworking the Bible: The Literary Reception-History of Fourteen Biblical Stories
Reviewed by Frank H. Polak

Naomi Tadmor
The Social Universe of the English Bible: Scripture, Society, and Culture in Early Modern England
Reviewed by Lena-Sofia Tiemeyer

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