Mês da Bíblia 2011: Êxodo, segundo a Vida Pastoral

VV.AA. Animação Bíblica da Pastoral: passo a passo a travessia se faz. Vida Pastoral, São Paulo, n. 280, setembro-outubro de 2011, 64 p.

Por Edson Carlos Braz

A revista Vida Pastoral de setembro-outubro de 2011 – ano 52 – n. 280, traz 4 textos sobre Ex 15,22-18,27. Pelo menos durante os meses de setembro/outubro, pode-se fazer o download deste número da Vida Pastoral, que está disponível na Internet, no site da Paulus/Paulinos, em formato pdf.

Os textos foram escritos pela Equipe do Centro Bíblico Verbo, destacando-se os nomes de Maria Antônia Marques e Shigeyki Nakanose.

Observo aqui que os artigos são versões um pouco mais resumidas de 4 dos 6 textos que foram publicados pelo mesmo Centro Bíblico Verbo no livro A caminhada no deserto: entendendo o livro do Êxodo 15,22-18,27. São Paulo: Paulus, 2011, 112 p., aqui apresentado pelo estudante do Primeiro Ano de Teologia do CEARP, Wesley Gonçalves de Oliveira.

Os quatro artigos são:

  • A caminhada no deserto: Introdução à leitura de Êxodo 15,22-18,27 – Equipe do Centro Bíblico Verbo
  • Não acumular… memória que deve permanecer viva! Uma leitura de Êxodo 16,1-3.12-21 [os episódios do maná e das codornizes] – Maria Antônia Marques
  • Deus está em guerras? Uma leitura de Êxodo 17,8-16 [combate contra Amalec] – Shigeyuki Nakanose
  • Mulher, homem e família. Uma leitura de Êxodo 18,1-12 [chegada do sogro Jetro, da mulher Séfora e dos filhos de Moisés] – Maria Antônia Marques e Shigeyuki Nakanose

O estudo começa fazendo uma introdução de como foi a caminhada do povo, que acabara de ser liberto do Egito e estava procurando a terra prometida. Também trata do significado do nome do livro e do período em que foi escrito, especificando o seu contexto econômico, político e religioso, enfatizando a maneira em que o mesmo fora escrito, tendo havido muito tempo de transmissão oral até a época bem mais recente da escrita. O artigo está dividido em três etapas: 1. o contexto das narrativas da travessia no deserto; 2. como entender o livro do êxodo e 3. chaves de leitura para os textos de Ex 15-18.

Como parte do Pentateuco ou Torá (Lei), o Livro do Êxodo conta o começo da história de Israel, falando sobre o povo escolhido que anseia em chegar à terra prometida. Os acontecimentos do Êxodo são fundamentais para a reflexão teológica de Israel, pois fala de um povo que está a caminho e essa caminhada deve ser sempre recordada.

Entretanto, essa história da saída do Egito foi transmitida de forma oral e só muitos séculos depois veio a ser escrita. Por isso, as narrativas expressam, muitas vezes, conflitos posteriores do povo israelita. Se as narrativas remontam a uma memória do século XIII a.C., a forma final, escrita, como a temos hoje, pode ser situada no pós-exílio, no final do século V a.C., por volta do ano 400, em pleno regime teocrático sob o controle dos sacerdotes do Templo de Jerusalém, que, por sua vez, obedeciam aos interesses geopolíticos do Império Persa. Marcas deste período nos textos são, por exemplo, as instituições oficiais e a teologia monoteísta do Deus único.

Maria Antônia Marques faz, no segundo artigo, uma leitura de Êxodo 16,1-3.12-21, onde está o relato do maná, que em hebraico é “man hû”, que, é, afinal, uma pergunta: “O que é isso?” Trata-se da secreção produzida por insetos que se alimentam de tamargueiras e é composta de uma substância açucarada que se solidificada no ar seco e frio da noite, mas que derrete sob o calor do sol. É possível encontrá-la na região central do Sinai, nos meses de maio e junho.

No mês de setembro as codornizes retornam de sua migração na Europa, impelidas pelo vento oeste, e são facilmente abatidas, e em grande quantidade, na costa do deserto. A autora nos alerta que “é possível que esse capítulo reúna memórias de diferentes grupos que deixaram o Egito separadamente (cf. Ex 7,8;11,1), seguindo por diferentes caminhos(Ex 13,17). Em sua fuga, o povo foi se ajeitando como era possível, alimentando-se com o que encontrava no deserto. Depois de muitos anos, o povo revê a sua trajetória e relê esses fatos como providência especial de Deus” (p. 26).

Na última parte deste artigo, Maria Antônia Marques explica o significado do milagre na Bíblia, que não é visto como algo que viola as leis da natureza (desconhecidas na época), mas como um prodígio, uma maravilha, fato extraordinário que revela a ação de Deus.

Há ainda dois outros artigos. Mas, para terminar, quero lembrar que quando fazemos um estudo de textos bíblicos é preciso nos situarmos no tempo, na história e saber entender o ambiente em que foi escrito e a maneira pela qual foi transmitida a mensagem antes da mesma ser escrita.

O Êxodo, livro da saída, quer mostrar a busca do povo por uma terra justa onde as pessoas não fossem oprimidas e vivessem dignamente, na solidariedade e respeito mútuo. E essa busca também está presente na sociedade hodierna, onde há pessoas exploradas e vítimas de preconceito, mas vivendo em busca de um norte para sua realização. Ao fazer memória é sempre preciso ter em mente as perdas e conquistas, para prosseguir continuamente.

Pesquisa bíblica e sensacionalismo não combinam

The Bible Project… ect… ect… etc… etc… Um projeto sério, mas do jeito que vem relatado, ora, é de doer!

Pesquisa bíblica, especialmente a árida crítica textual, e sensacionalismo midiático não combinam, como querem alguns jornalistas espertalhões que apostam no susto dos leitores…

Leiam:

Duzentos anos para reescrever a Bíblia, traduzido do italiano – Corriere della Sera, 26/08/2011: Duecento anni per riscrivere la Bibbia – e publicado hoje por IHU On-Line.

E Moisés disse: que o Altíssimo disperse o gênero humano “segundo o número dos filhos de Deus”. Disse precisamente isso no Deuteronômio. O número dos filhos de Deus. Ou seja, muitas divindades, não uma só. Um elemento de politeísmo. É isso que nos parecem contar hoje os Pergaminhos do Mar Morto, os manuscritos mais antigos da Bíblia. Mas não foi isso que nos transmitiram os massoretas, os escribas que, no final do primeiro milênio, releram, rediscutiram, corrigiram o Antigo Testamento. Entende-se: o politeísmo era um conceito incompatível, inaceitável, insustentável no canto de Moisés. E, então, zás: em vez de interpretar, de dar uma leitura teológica a essa passagem, melhor cortar, apagar com um pouco de monoteísmo. E recopiar de outro modo: “Segundo o número dos filhos de Israel”, 70 como as nações do mundo, tornou-se a versão que chegou até nos. Um retoquezinho: “E muitos mais foram feitos”, diz o biblista Rafael Zer, da Hebrew University de Jerusalém. “Para os crentes, a fonte da Bíblia é a profecia. E a sua sacralidade permanece intacta. Mas nós, estudiosos, não podemos ignorar uma coisa: que essas palavras foram confiadas aos seres humanos, ainda que por iniciativa e com o acordo de Deus. E, de passagem em passagem, houve erros e se multiplicaram…”.

E Mosè disse: l’Altissimo disperse il genere umano «secondo il numero dei figli di Dio». Disse proprio così, nel Deuteronomio. Il numero dei figli di Dio. Ovvero tante divinità, non una sola. Un elemento di politeismo. Questo sembrano raccontarci oggi i Rotoli del Mar Morto, i più antichi manoscritti della Bibbia. Ma questo non ci tramandarono i masoreti, gli scribi che verso la fine del primo Millennio rilessero, ridiscussero, corressero il Vecchio Testamento. Si capisce: il politeismo era un concetto incompatibile, inaccettabile, insostenibile nel canto di Mosè. E allora, zac: invece d’interpretare, di dare una lettura teologica a quel passaggio, meglio tagliare, sbianchettare con un po’ di monoteismo. E ricopiare in un altro modo: «Secondo il numero dei figli d’Israele», settanta come le nazioni del mondo, diventò la versione giunta fino a noi. Un ritocchino: «Come ne sono stati fatti parecchi – dice il biblista Rafael Zer della Hebrew University di Gerusalemme -. Per i credenti, la fonte della Bibbia è la profezia. E la sua sacralità rimane intatta. Ma noi studiosi non possiamo ignorare una cosa: che quelle parole sono state affidate agli esseri umani, sia pure su iniziativa e con l’accordo di Dio. E di passaggio in passaggio, gli errori ci sono stati e si sono moltiplicati…».

E por aí vai.

Ora, crítica textual da Bíblia é feita desde o século XVI, para dizer o mínimo…

Os estudiosos não estão penosamente corrigindo cabeludos erros e textos deliberadamente adulterados para “reescrever o Antigo Testamento”. Estão é fazendo crítica textual da Bíblia Hebraica que é, como dizemos em Minas Gerais, um “trem dificidimaissô”…

A reação crítica de biblistas ao sensacionalismo da mídia, no dia 12 passado, quando a notícia saiu em inglês pela AP, pode ser vista, por exemplo, em

Yet another journalist has hyped textual criticism in order to shock readers… (Evangelical Textual Criticism)

The fact is, the Hebrew University Bible project has been around for decades! They aren’t ‘seeking to correct mistakes’, they’re doing Hebrew Bible textual criticism of the sort that’s been carried out since the dawn of textual criticism in the 16th century (and before, to be fair). MSNBC’s sensationalizing headline, misleading at best and just simply ignorant dilettantism at worst, is absurd… (Zwinglius Redivivus)

Leia Mais:
Quer saber mais sobre a crítica textual da Bíblia Hebraica?
Center for the Study of New Testament Manuscripts (sobre os códices do NT)
O Sequestro da História e da Bíblia pela Mídia