A homenagem de Marcelo Barros a Carlos Mesters

Um bonito texto em homenagem a Carlos Mesters, escrito pelo biblista Marcelo Barros. O artigo foi publicado na Adital em 02/08/2011.

A frágil flor que perfuma o mundo

Nos oitenta anos do irmão e mestre Carlos Mesters, doutor da fé bíblica para o mundo inteiro, certamente cabe a ele o título que ele deu às comunidades eclesiais de base no primeiro Encontro Intereclesial das CEBs em Vitória, ES em 1975. Se já, naquela época, elas eram mesmo como uma flor frágil que resiste às intempéries da vida, este aniversário de oitenta anos do frei Carlos é ocasião propícia para celebrarmos como o Espírito presenteou as Igrejas e o mundo dos pobres com a vida e a missão dele, flor frágil, mas muito resistente e que nunca deixou de transpirar e contaminar o universo com o perfume divino… Conheci Carlos em 1977…

Sem pretender sintetizar toda a riqueza do ensinamento de Carlos Mesters para a leitura bíblica latino-americana, aqui tentarei recordar apenas três elementos entre os muitos outros que podemos descobrir na sua forma de viver a espiritualidade bíblica e de como ele nos comunica a fé e a atualidade da palavra profética:
1. O primeiro livro da revelação divina: a Vida
2. A dimensão subversiva da fé bíblica
3. A leitura pluralista e ecumênica da Bíblia

Leia o texto completo.

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Carlos Mesters 80 anos
Ler a Vida com a ajuda da Bíblia

O deus mercado e seus oráculos

O mercado “pensa”, o mercado “avalia”, o mercado “propõe”, o mercado “desconfia”, o mercado “sugere”, o mercado “reage”. E aí sim, de vez em quando, o tom de voz sobe e o mercado “exige”! E depois o mercado “ameaça”. O mercado “cai”, o mercado “sobe”, o mercado “se recompõe”. O mercado “se sente inseguro”, o mercado “fica satisfeito”, o mercado “comemora”. O mercado “não aceita” tal medida, o mercado “se rebela” contra tal decisão (…) O mercado “alertou”, o mercado “ponderou”, o mercado “pressionou”, o mercado “exigiu”. E, finalmente, o mercado “conseguiu” (…) Uma entidade que passa a ser reverenciada em ampla escala, coisa que era antes reduzida a uma platéia restrita. Trata-se do famoso “mercado” – muito prazer! Um dos grandes enigmas da história da humanidade (…) Tem-se a impressão de que o mercado vira gente, um dos nossos! (…) Mas o “mercado” – sujeito de tantos verbos de ação e de percepção – não tem nome! Ele não pode ser achado, pois o mercado não tem endereço. Ele não pode ser entrevistado, pois o mercado nunca comparece fisicamente nos compromissos. Ele tampouco pode ser fotografado, pois o mercado não tem rosto. O que há, de fato, são uns poucos indivíduos que fazem a transmissão de suas idéias, de seus pensamentos, de seus sentimentos. São verdadeiros profetas, que têm o poder de fazer a interlocução entre o “mercado” e o povo. Pois, não obstante a tentativa de torná-la íntima de todos nós, essa entidade não se revela para qualquer um. Ele escolhe uns poucos iluminados para representá-lo aqui entre nós. Como se, estes sim, tivessem a procuração sagrada para falar em seu nome e representar aqui seus interesses. E aos poucos o que era antes um sujeito, o indivíduo “mercado” também vai ganhando ares de divindade. Tudo se passa como ele se manifestasse exclusivamente por meio de seus oráculos, os únicos capazes de captar e interpretar o desejo do deus mercado. Pois ele pensa, fala, acha, opina, mas não se apresenta para um aperto de mão, ou mesmo para uma prosinha que seja, para confirmar o que andam falando e fazendo em seu nome…

Leia o artigo de Paulo Kliass, Às suas ordens, dotô Mercado! Publicado em Carta Maior, 11/08/2011.

Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental. Doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

Quem se interessa pelo tema procure ler sobre a idolatria do mercado, reflexão teológica presente especialmente nas obras de Hugo Assmann, Franz Hinkelammert e Jung Mo Sung.

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A linguagem religiosa do mercado
Hugo Assmann: ‘Diante da presença dele ninguém ficava indiferente’. Entrevista especial com Esther Grossi – IHU On-Line: 12/03/2008