Universidades precisam ter mestrado e doutorado

MEC torna mais rígidas regras para universidade

O ministro da Educação, Fernando Haddad, homologa hoje uma resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE) que estabelece regras mais rígidas para que instituições de ensino superior tenham o status de universidade. Passam a ser exigidos pelo menos dois programas de doutorado e quatro de mestrado. As atuais universidades terão até 2016 para se adaptar – atualmente quase a metade delas não conta com esse requisito mínimo.

A reportagem é de Luciana Alvarez e Fábio Mazzitelli e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 05/10/2010.

Segundo levamento feito pelo Estado com base em dados da Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (Capes), das 187 universidades federais e particulares do País, 91 não têm os programas de pós-graduação exigidos pela nova norma. Delas, 12 são federais; as demais são instituições particulares. A resolução não vale para entidades estaduais e municipais, que seguem leis específicas, mas representantes de universidades federais também contestam a validade da medida. São Paulo é o Estado com o maior número de universidades sem o novo nível mínimo obrigatório de pesquisa [sublinhado meu]. São 24, todas particulares. No Sudeste, 43 das 80 universidades terão de se adaptar para não perder o título. O Centro-Oeste é a região com situação mais confortável. Tem 14 universidades e apenas 4 delas ainda não têm os 2 doutorados e 4 mestrados. No Norte, o Amapá tem apenas uma universidade, a Universidade Federal do Amapá (Unifap), e ela ainda não atende a essa nova exigência, pois oferece apenas um curso de doutorado. O “rebaixamento” para centros universitários ou faculdades tira da instituição parte de sua autonomia. “Nos anos 1980 e 1990, muita instituição virou universidade só em busca da autonomia, sem dar contrapartida em extensão e pesquisa. Dentro desse novo instrumento, muitas terão dificuldade de sobreviver como universidade”, acredita o reitor da Universidade Nove de Julho (Uninove), Eduardo Storopoli, que classifica a medida do MEC como um “avanço na avaliação do ensino superior”. “Uma universidade que está mal avaliada desde os anos 1990 pode cair até para faculdade”, diz. Muitas instituições de ensino particular, porém, não concordam com as novas regras e chegaram a entrar com recurso, que foi rejeitado pelo CNE. Roberto Covac, representante legal do Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior Particular, que reúne faculdades, centros universitários e universidades, diz que o grupo argumentou que faltou diálogo com o setor. “Outro problema é que a regra é única para um País muito grande, com realidades muito diferentes”, afirmou. “Sem dúvida é uma conquista, amplamente discutida com a sociedade”, diz Paulo Speller, presidente da Câmara de Educação Superior do CNE. “Temos um bom prazo para as universidades se adaptarem. Não acredito que teremos problema com descredenciamentos.”

Fonte: Notícias: IHU On-Line – 05/10/2010

Biblioblogs: tema do Bulletin for the Study of Religion

Bulletin for the Study of Religion, vol 39, no 3 (setembro de 2010) está tratando dos biblioblogs. Bulletin for the Study of Religion é uma revista da Equinox Publishing, London.

Em seu blog, diz a revista:
“The September issue of the Bulletin is now available online! You can find it here. There are articles on biblioblogging by Jim West, James McGrath, Robert Cargill, Roland Boer, and James Crossley. In addition, there is a follow up by Mike Grimshaw on the debate about the place of postmodern theology in the discipline of religious studies. As always, the editorial is accessible for free…”

Sobre os biblioblogs, diz Craig Martin no Editorial:
“When I began following blogs, I had no intention of following academic Bible blogs. I studied the Bible in undergrad and graduate school, and I teach introductory Bible courses at my college, but by no means am I a Bible scholar. However, there are few blogs on religious studies in general, while there is a plethora of blogs on the Bible and biblical studies. (I have never heard an entirely satisfactory explanation for this phenomenon, apart from the suggestion that Bible scholars tend to be Christians with an inclination toward spreading their views, i.e. evangelization.) Consequently, in lieu of more general academic religion blogs, I began following some of the academic Bible blogs. I quickly discovered that biblioblogging (as it is called) is a phenomenon of sorts. There are hundreds of bibliobloggers, there are special biblioblogger circles (with their own special graphic icons), there are sites dedicated to ranking Bible blogs by popularity, and there is even a biblioblogging carnival (although the latter seems to have recently died out). Biblioblogging is of such importance that it has even been recognized by the Society of Biblical Literature. This issue of the Bulletin is dedicated to biblioblogging. I have asked Jim West to introduce biblioblogging and offer a brief history of sorts. James McGrath, Robert Cargill, and Roland Boer have contributed reflections on the importance of blogging. The last contribution, by James Crossley, offers a critique of certain Bible blogs, specifically focusing on the ideological work they have done in support of US foreign policy”.

O editorial pode ser lido online. Os artigos, porém, não são gratuitos.

Artigos, Autores e Abstracts:
:: Blogging the Bible: A Short History – Jim West
‘Blogging’ as an enterprise of Biblical scholars commenced in the middle years of the first decade of the 21st century. It’s beginnings, early years, controversies, and outlook are described in what follows.

:: Biblioblogging Our Matrix: Exploring the Potential and Perplexities of Academic Blogging – James Frank McGrath
The phenomenon of “biblioblogging” has not only brought Biblical studies into close contact with popular new media and modes of communication, but also regularly brings the public and private, the peer-reviewed and the popular, into close proximity with one another. This article explores some of the reasons why an increasing number of academics in Biblical studies blog, as well as some of the ways in which blogging can serve the needs of the academy.

:: The Benefit of Blogging for Archaeology – Robert R. Cargill
Blogging (or “web logging”) has evolved from online journaling to a multi-million dollar enterprise involving over 100 million blogs worldwide. And while journalists and news organizations have been quick to adopt blogging as a publishing tool, the academy has been slow to adopt the technology as a legitimate scholarly enterprise. This article argues that blogging is the next logical step for independent scholars and researchers who seek to publish their original work, and that universities should begin accepting blogging as a legitimate scholarly endeavor. Specifically, archaeologists should embrace blogging because of its ease of use, decreased time to publication, affordability, ability to publish multiple forms of media, and for the increased exposure publishing online brings to a scholar’s work. The article details the impact of blogging on existing publishing models, the peer-review process, and discusses the numerous benefits of blogging for archaeology.

:: Why Do I (Biblio)Blog? – Roland Boer
This article answers in some detail the question as to why I blog, at times on the Bible.

:: Biblioblogging, ‘Religion’, and the Manufacturing of Catastrophe – James Crossley (veja também aqui)
Building on a previous analysis of ‘biblioblogging’ and its relationship to the mass media, this article looks at the ways in which ‘bibliobloggers’ handled the recent tragic events in Haiti. As is typically the case in the handling of US foreign policy, biblioblogging largely fell into line with the dominant positions in the mass media on the specific problems faced in Haiti which mask or deflect colonial/postcolonial interventions. Similarly, some bibliobloggers turned to the issue of theodicy with significantly vague concepts of ‘religion’ and ‘God’ being used to both (partially) explain suffering and deflect the more troubling narratives. Finally, some consideration is given to the ideological function of loving to hate the far right, with particular reference to the ways in which Pat Robertson’s comments on Haiti were discussed by bibliobloggers.

Páginas mais visualizadas em setembro de 2010

Segundo o Google Analytics, as 10 páginas da Ayrton’s Biblical Page mais visualizadas durante o mês de setembro de 2010 foram as seguintes:

1. A História de Israel no debate atual
2. O discurso socioantropológico: origem e desenvolvimento – O Positivismo de Comte e Durkheim e a Crítica Marxista
3. O discurso socioantropológico: origem e desenvolvimento – Durkheim propõe uma teoria do fato social
4. O discurso socioantropológico: origem e desenvolvimento – A sociologia compreensiva
5. História de Israel: Sumário
6. Grego Bíblico
7. Perguntas mais frequentes sobre o profeta Jeremias
8. Ler a Bíblia no Brasil hoje
9. Perguntas mais frequentes sobre o profeta Isaías
10. Noções de Hebraico Bíblico

Compare com o mês de agosto de 2010.

Visitas aos textos dos alunos para o Mês da Bíblia 2010

Os textos escritos pelos alunos do Segundo Ano de Teologia do CEARP para o Mês da Bíblia 2010 fizeram sucesso.

Ficaram entre os 16 posts mais acessados do Observatório Bíblico no mês de setembro de 2010, de acordo com as estatísticas do Google Analytics.

Observo que, neste período, 933 posts [de um total de 2.150] foram visualizados 14.215 vezes. Tempo médio no post: 00:03:08

Na lista abaixo, os textos dos alunos estão com links para os respectivos posts.

1. Mês da Bíblia 2010: o livro de Jonas

2. Mês da Bíblia 2010: Jonas, segundo Mesters e Orofino – Por Tiago Nascimento Nigro

3. Mês da Bíblia 2010: Jonas, segundo o Centro Bíblico Verbo – Por Anderson Luís Moreira

4. Mês da Bíblia 2010: Jonas, segundo o SAB – Por Thiago Cezar Giannico

5. Mês da Bíblia 2010: texto-base

6. Jesus morreu na sexta-feira, 7 de abril de 30, quando tinha cerca de 36 anos de idade

7. Mês da Bíblia 2010: Jonas, segundo Balancin e Ivo – Por Daniel Bento Bejo

8. O livro de Jonas na Vida Pastoral

9. Mês da Bíblia 2010: Jonas, segundo Schökel e Sicre – Por Paulo Martins Junior

10. Eleições 2010: como votar?

11. Mês da Bíblia 2010: Jonas, segundo Mercedes Lopes – Por Tibério Teixeira da Silva Filho

12. Mês da Bíblia 2010: textos apresentados pelos alunos

13. Ouvir, Ler e Escrever: o curso de Língua Hebraica Bíblica

14. 50 pessoas que podem salvar o planeta

15. O estudo do livro do Eclesiastes é o desafio para o Mês da Bíblia de 2006

16. Mês da Bíblia 2010: Jonas, segundo Nelson Kilpp – Por Mateus Pereira Martins

Resenhas na RBL: 25.09.2010

As seguintes resenhas foram recentemente publicadas pela Review of Biblical Literature:

Pierre Bordreuil and Dennis Pardee
A Manual of Ugaritic
Reviewed by Jeremy Hutton

Paul Borgman
David, Saul, and God: Rediscovering an Ancient Story
Reviewed by Peter S. Hawkins

Curtiss Paul DeYoung
Coming Together in the 21st Century: The Bible’s Message in an Age of Diversity
Reviewed by Celucien L. Joseph

Hubertus Drobner, ed.
Opera exegetica In Genesim: Volume 1: Gregorii Nysseni In Hexaemeron
Reviewed by Jeffrey L. Morrow

Michel Gourgues
Les deux lettres à Timothée, La lettre à Tite
Reviewed by Sylvie Raquel

Samuel Jackson
A Comparison of Ancient Near Eastern Law Collections Prior to the First Millennium BC
Reviewed by Anselm Hagedorn

Corin Mihaila
The Paul-Apollos Relationship and Paul’s Stance toward Greco-Roman Rhetoric: An Exegetical and Socio-historical Study of 1 Corinthians 1-4
Reviewed by Keith A. Reich

Roberta Sabbath, ed.
Sacred Tropes: Tanakh, New Testament, and Qur’an as Literature and Culture
Reviewed by Maire Byrne

Minna Shkul
Reading Ephesians: Exploring Social Entrepreneurship in the Text
Reviewed by Daniel Darko

Shera Aranoff Tuchman and Sandra E. Rapoport
Moses’ Women
Reviewed by Claudia Bergmann

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Resenhas na RBL: 17.09.2010

As seguintes resenhas foram recentemente publicadas pela Review of Biblical Literature:

Luísa Maria Varela Almendra
Um debate sobre o conhecimento de Deus: Composição e interpretação de Jb 32-37
Reviewed by Gilbert Lozano

Gary A. Anderson
Sin: A History
Reviewed by Joseph Lam

G. P. F. Broekman, R. J. Demaree, and O. E. Kaper, eds.
The Libyan Period in Egypt: Historical and Cultural Studies into the 21st-24th Dynasties: Proceedings of a Conference at Leiden University, 25-27 October 2007
Reviewed by Aren M. Maeir

Ruth A. Clements and Daniel R. Schwartz, eds.
Text, Thought, and Practice in Qumran and Early Christianity: Proceedings of the Ninth International Symposium of the Orion Center for the Study of the Dead Sea Scrolls and Associated Literature, Jointly Sponsored by the Hebrew University Center for the Study of Christianity, 11-13 January, 2004
Reviewed by John Kampen

Thomas B. Dozeman
Exodus
Reviewed by Frank H. Polak

Marlis Gielen
Paulus im Gespräch-Themen paulinischer Theologie
Reviewed by Günter Röhser

Philip A. Harland
Dynamics of Identity in the World of the Early Christians: Associations, Judeans, and Cultural Minorities
Reviewed by Eric Rowe

Avaren Ipsen
Sex Working and the Bible
Reviewed by Ronald Clark

Magnar Kartveit
The Origin of the Samaritans
Reviewed by Thomas Hieke

Ernst Axel Knauf
Josua: Zürcher Bibelkommentare AT, Band 6
Reviewed by Marvin A. Sweeney

John R. Levison
Filled with the Spirit
Reviewed by Randall J. Pannell

Laura Nasrallah and Elisabeth Schüssler Fiorenza, eds.
Prejudice and Christian Beginnings: Investigating Race, Gender, and Ethnicity in Early Christianity
Reviewed by Christopher Zeichmann

Wolfgang Oswald
Staatstheorie im Alten Israel: Der politische Diskurs im Pentateuch und in den Geschichtsbüchern des Alten Testaments
Reviewed by Klaus-Peter Adam

Nicholas Postgate
The Land of Assur and the Yoke of Assur: Studies on Assyria 1971-2005
Reviewed by Carly Crouch

Andrzej S. Turkanik
Of Kings and Reigns: A Study of Translation Technique in the Gamma/Gamma Section of 3 Reigns (1 Kings)
Reviewed by Johann Cook

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Faça o download de texto do Cássio sobre o AT

Os leitores do blog devem estar lembrados de um post publicado em 14 de junho de 2010, sob o título Aprenda a ler o Antigo Testamento com o Cássio, onde anunciei um curso dado por meu colega em São Paulo.

Agora o Cássio Murilo Dias da Silva disponibilizou o texto deste curso para download no Observatório Bíblico.

Clique no link a seguir e faça o download do curso, que está em formato pdf e tem 12 páginas. É muito interessante.

Aprenda a ler o Antigo Testamento

O êxodo, segundo De Vaux e Finkelstein – Silberman

O que se segue são duas sugestões de leitura, mostrando perspectivas diferentes. E isto é uma consequência do post anterior.

:: DE VAUX, R. Historia Antigua de Israel I. Madrid: Cristiandad, 1975 [original francês: Paris: Gabalda, 1971]

Em Ex 13,17-19 diz o Eloísta (= E) que a saída dos israelitas não foi pelo caminho que levava à região dos filisteus, mas pelo caminho do deserto do mar dos juncos. E Ex 14,15-31, alternando versículos Javista (= J) e E, descreve a passagem do mar.

Compreende-se que, ao fugir do Egito, um pequeno e fraco grupo não tome o caminho que levava diretamente do delta do Nilo ao sul da Palestina. Apesar de curto, este era poderosamente defendido pelos egípcios através de postos militares. Conservaram-se listas meticulosas, mantidas pelos guardas egípcios, de chegadas e partidas nesta fronteira [Cf. BRIEND, J. (org.) Israel e Judá: textos do Antigo Oriente Médio. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1997, p. 36-37]. Este caminho saía de Tieru (Zilu), passava ao sul do lago Sirbonis e seguia a costa até Gaza.

Falar de filisteus é anacronismo bíblico para o tempo do êxodo, pois sabemos que este povo egeu se estabeleceu em Canaã cerca de um século mais tarde. Por outro lado, o nome “mar de Suf” foi erroneamente entendido como o atual Mar Vermelho. Quem traduziu assim foram os LXX. Trata-se na realidade de um local onde havia juncos, provavelmente papiros, já que o hebraico “suf” equivale ao egípcio”twf” (= papiro).

Há, no texto bíblico, duas apresentações do fenômeno:
. A primeira apresentação é provavelmente um texto E, embora alguns o queiram Sacerdotal (= P). Segundo esta narrativa, Moisés deve erguer seu cajado, estender a mão sobre o mar e dividi-lo em dois para que os israelitas passem a pé enxuto. Moisés assim o faz, e os israelitas passam a pé enxuto. Porém, os carros egípcios lançam-se em sua perseguição, enquanto Iahweh ordena a Moisés que estenda a sua mão para que as águas retornem e se fechem sobre os egípcios. Assim, ficam os egípcios submersos e os israelitas salvos.

. A segunda apresentação é seguramente J e se desenvolve da seguinte maneira: durante a perseguição, os israelitas acreditam que estão perdidos e se rebelam contra Moisés: ele, entretanto, manda que fiquem calmos e observem os acontecimentos (Ex 14,10-14). Então, a coluna de nuvem que os protege (símbolo de Iahweh) coloca-se entre eles e os egípcios (Ex 14,19b.20; o v. 19a é uma duplicata). Durante a noite, Iahweh faz soprar um forte vento do leste (oriental) que seca o mar (Ex 14,21). No dia seguinte, de madrugada, Iahweh, da coluna de fogo e de nuvem, semeia o pânico entre os egípcios e estraga as rodas de seus carros (Ex 14,24-25). Ao nascer o dia, as águas voltam ao seu leito e Iahweh submerge nelas os egípcios… e Israel vê os egípcios mortos na praia do mar (Ex 14,27.30).

Hoje, as duas apresentações estão de tal modo unidas, que o texto dá ao leitor desavisado a impressão de ser uma narrativa originariamente unitária.

Quanto ao que poderia ter acontecido durante uma eventual fuga de hebreus, há hoje muitas explicações.

Se o “mar” atravessado pelos hebreus era na verdade, como indicam os termos, uma laguna rasa ou um pântano, abundante em papiros, nada mais simples do que a coincidência de uma maré baixa com um vento forte para permitir a passagem de um punhado de pessoas a pé. Já os carros egípcios atolaram, impossibilitando a passagem dos perseguidores. Outro elemento interessante para a solução deste problema é o teor da segunda apresentação da passagem do mar, o texto J: não há neste texto nenhuma referência à passagem dos hebreus, mas sim à destruição dos egípcios. Nisto consiste o “milagre”, para o J. Tradição conservada em Ex 15,21;Dt 11,4;Js 24,7.

R. de Vaux, nas páginas 369-373 de sua Historia Antigua de Israel I, sugere que esta tradição javista, sublinhando a atuação de Iahweh e o aspecto bélico do relato, foi moldada, nas suas características, sobre outro episódio muito significativo para os israelitas, a passagem do Jordão, de Js 4,22-23.

:: FINKELSTEIN, I.; SILBERMAN, N. A. The Bible Unearthed. Archaeology’s New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts. New York: The Free Press, 2001, xii + 385 p. – ISBN 9780684869124 [Em português: A Bíblia desenterrada: A nova visão arqueológica do antigo Israel e das origens dos seus textos sagrados. Petrópolis: Vozes, 2018].

As citações são da edição original em inglês.

No capítulo sobre o êxodo (p. 48-71), os autores fazem quatro perguntas:
. O êxodo tem credibilidade histórica?
. A arqueologia pode ajudar a reconstruí-lo?
. É possível traçar a rota do êxodo?
. O êxodo aconteceu como descrito na Bíblia?

Após uma síntese da narrativa bíblica, Finkelstein e Silberman confirmam que as migrações de Canaã para o Egito são bem documentadas pela arqueologia e por textos da época. Para muitos habitantes de Canaã, região periodicamente sujeita a severas secas, a única saída era ir para o Egito. Pinturas e textos egípcios testemunham a presença de semitas no delta do Nilo ao longo das Idades do Bronze e do Ferro.

Por outro lado, há intrigantes paralelos entre a história bíblica de José e o êxodo e a história egípcia escrita por Maneton, sobre a invasão do Egito pelos hicsos e sua posterior expulsão após um século. “Invasão” que escavações arqueológicas recentes revelaram ter sido muito mais uma ocupação cananeia gradual e pacífica do delta do que uma operação militar. “As descobertas feitas em Tell ed-Daba [a antiga Avaris, capital dos hicsos] constituem evidência de um longo e gradual desenvolvimento da presença cananeia no delta e um controle pacífico da região”, concluem na p. 55.

Estes paralelismos entre a história bíblica de José e a história egípcia dos hicsos indicam a possibilidade do êxodo. Entretanto, duas questões permanecem: Quem eram estes imigrantes semitas? E será que a data de sua permanência no Egito [1670-1570 AEC] combina com a cronologia bíblica?

A Bíblia colocou o êxodo em torno de 1440 AEC, data que se obtém pela comparação de dados bíblicos com fontes extrabíblicas. Entretanto, esta data não coincide com a expulsão dos hicsos. Por isto, muitos estudiosos consideram-na simbólica apenas, e datam o êxodo no século XIII AEC, na época de Ramsés II, fundados em testemunhos egípcios indiretos, como a construção da cidade de Pi-Ramsés no delta, na qual trabalharam semitas, e na estela de Merneptah, filho e sucessor de Ramsés II, que fala da presença de uma entidade de nome ‘Israel’ em Canaã, no final do século XIII AEC.

Mas quem eram estes semitas presentes no Egito na construção de cidades e que ‘Israel’ é este da estela de Merneptah? Ainda não há respostas definitivas para estas perguntas. E mais: um êxodo em massa teria sido possível na época de Ramsés II?

O que se sabe é que não existe nas fontes egípcias da época menção alguma da presença de israelitas no Egito. Nem ligados aos hicsos (séculos XVII-XVI AEC), nem aos grupos cananeus mencionados nas Cartas de Tell el-Amarna (século XIV AEC), nem a uma fuga para Canaã (século XIII AEC).

Trabalhando a partir desta lógica, Finkelstein e Silberman vão concluir pela impossibilidade do êxodo no século XIII AEC. Entre outras coisas, eles alegam que, nesta época, a fronteira do Egito com Canaã era severamente controlada, como a arqueologia comprovou na década de 70; que não existe nenhum sinal de ocupação do Sinai na época de Ramsés II ou predecessores imediatos; que não existe sinal do êxodo em Kadesh-Barnea ou Ezion-Geber, nem nos outros lugares mencionados na narrativa do êxodo, como Tel Arad, Tel Hesbon ou Edom. Convém considerar, também, que as narrativas bíblicas do êxodo jamais mencionam o nome do faraó que os israelitas enfrentaram.

E concluem: “Os locais mencionados na narrativa do êxodo são reais. Alguns eram bem conhecidos e aparentemente estavam ocupados em épocas mais antigas e em épocas mais recentes – após o estabelecimento do reino de Judá, quando a narrativa bíblica foi pela primeira vez escrita. Infelizmente, para os defensores da historicidade do êxodo, estes locais estavam desocupados exatamente na época em que aparentemente eles exerceram algum papel nas andanças dos israelitas pelo deserto” (p. 64).

E é então que se verifica estarem as condições do sétimo século AEC, época da escrita, bem mais presentes na história do êxodo, do que uma realidade do século XIII AEC. E aqui Finkelstein e Silberman vão adotar a tese do egiptólogo Donald B. REDFORD, exposta no livro Egypt, Canaan, and Israel in Ancient Times. Princeton: Princeton University Press, 1992.

Falando de maneira muito simplificada, a proposta é a seguinte: a memória da invasão e expulsão dos hicsos foi incorporada em Canaã como uma memória de confronto, vitória e libertação. Israel, ao surgir de Canaã, será o herdeiro dessa memória. Quando, no século VII AEC, Psamético I, faraó do Egito e Josias, rei de Judá, tentam ocupar o espaço deixado pela Assíria na região da Palestina, e se confrontam – Josias será vencido por Necao II, filho de Psamético I -, esta memória serve de pano de fundo para a narrativa do êxodo. Êxodo impossível na época de Ramsés II, mas um paradigma de resistência na luta de Josias para reunificar o grande Israel.

Para finalizar: “A saga do êxodo de Israel do Egito não é uma verdade histórica, nem uma ficção literária. Ela é uma poderosa expressão de memória e esperança nascida em um mundo em transformação. O confronto entre Moisés e o faraó espelha o crucial confronto entre o jovem rei Josias e o recém-coroado faraó Necao. Fixar esta imagem bíblica em uma data anterior é subtrair da história seu mais profundo significado. A Páscoa se revela, assim, não como um simples evento, mas como uma experiência contínua de resistência nacional contra os poderes estabelecidos” (p.70-71).