Uma breve história da humanidade 2

Estou lendo o livro de MITHEN, S. The Language Puzzle: How We Talked Our Way Out of the Stone Age. London: Profile Books, 2024, 544 p. – ISBN 9781800811584.

Estas são notas de leitura do capítulo 2: A Brief History of Humankind [Uma breve história da humanidade].MITHEN, S. The Language Puzzle: How We Talked Our Way Out of the Stone Age. London: Profile Books, 2024, 544 p.

O capítulo foi publicado em 2 posts:

Uma breve história da humanidade 1

Uma breve história da humanidade 2

As notas de rodapé e a bibliografia do capítulo 2 podem ser acessadas, em pdf, aqui. As notas assinaladas com * são minhas.

Reestruturei o texto em formato de perguntas e respostas.

 

Homo sapiens, H. neanderthalensis e os Denisovanos

O Homo sapiens está bem documentado na África a partir de 350 mil anos atrás?
. A partir de 350.000 anos atrás, o registro fóssil está mais bem definido. Os fósseis da África são atribuídos principalmente ao Homo sapiens. Essa espécie se distingue por um conjunto de características, incluindo um físico relativamente delgado, cérebro grande (que agora atinge 1.100–1.700 cm³), testa vertical, queixo, face plana e, nos espécimes mais recentes, um crânio relativamente esférico, denominado globular, refletindo o formato do cérebro em seu interior. Os processos pelos quais o crânio e o cérebro evoluíram são denominados “globularização” (15). Os crânios escavados em Jebel Irhoud, Marrocos, e Omo, na Etiópia, datados de 300.000 e 195.000 anos atrás, respectivamente, apresentam crânios/cérebros alongados e achatados, apesar de serem atribuídos ao Homo sapiens devido às suas características faciais e dentárias (16). Um grupo de fósseis de Homo sapiens datados entre 130.000 e 100.000 anos atrás, principalmente das cavernas de Skhul e Qafzeh, em Israel, apresenta algum grau de globularidade. A forma totalmente globular, no entanto, é encontrada apenas em fósseis datados de depois de 100.000 anos atrás, a maioria dos quais data de cerca de 35.000 anos atrás ou mais tarde (refletindo a amostra disponível no registro fóssil). A globularização parece, portanto, ter evoluído gradualmente entre 150.000 e 35.000 anos atrás, representando uma via de desenvolvimento diferente para o cérebro humano em comparação com a de todos os tipos anteriores de humanos.

Homo floresiensis e Homo naledi?
Principais espécies de hominídeos - seis milhões de anos de evolução humana. Fonte: Steven Mithen, The Language Puzzle, 2024.. Pelo menos um outro tipo de humano estava presente na África, uma espécie diminuta com uma intrigante mistura de características humanas e de australopitecos, designada como H. naledi, datada entre 330.000 e 240.000 anos atrás, da África do Sul. Um desenvolvimento evolutivo localizado semelhante ocorreu no Sudeste Asiático, onde um tipo de humano notavelmente pequeno é encontrado em Flores, Indonésia, datando de entre 100.000 e 60.000 anos atrás. Designado como H. floresiensis, este é provavelmente uma forma anã de H. erectus, embora alguns afirmem que deriva de uma dispersão inicial de um Homo de pequeno porte ou mesmo de um australopiteco para fora da África. De qualquer forma, H. floresiensis e H. naledi são descobertas fascinantes porque demonstram que a tendência na evolução humana nem sempre foi em direção a um cérebro maior.

O Homo neanderthalensis está bem documentado na Europa a partir de 350 mil anos atrás?
. Entre 350.000 e 45.000 anos atrás, o registro fóssil na Europa é relativamente abundante, com todos os espécimes atribuídos ao H. neanderthalensis, exceto por duas descobertas que podem representar breves incursões do H. sapiens, datadas de cerca de 210.000 anos atrás na Caverna Apidima, na Grécia, e de cerca de 54.000 anos atrás na Caverna Mandrin, na França (17). O H. neanderthalensis é definido por um conjunto de características que contrastam com as do H. sapiens, incluindo um crânio relativamente plano e face projetada, arcos superciliares proeminentes e grandes cavidades nasais e órbitas oculares. O tamanho do cérebro dos neandertais é equivalente ao do Homo sapiens, embora apresente forma e estrutura diferentes. O conjunto de características neandertais evoluiu gradualmente, com vestígios presentes na coleção de Sima de los Huesos, de 450.000 anos atrás, e tornando-se bem definido nos neandertais posteriores, após 100.000 anos atrás. Em relação ao corpo, os neandertais eram mais baixos e robustos que o Homo sapiens, com tórax em forma de barril e massa muscular substancialmente maior. Seus corpos refletem as influências combinadas de um estilo de vida fisicamente mais exigente e da evolução em um clima mais frio do que o do Homo sapiens, necessitando de 100 a 350 calorias a mais por dia como fonte de energia (18).

Como vivia o Homo neanderthalensis?
. Fósseis de neandertais são encontrados não apenas na Europa, mas também na Ásia Ocidental e no extremo leste, com espécimes na Ásia Central e na Sibéria (19). Embora abrangesse uma extensa região, a população teria sido fragmentada por barreiras geográficas, com evidências de que se dividia em três principais grupos demográficos: Europa Ocidental, Europa Meridional e Ásia Ocidental (20). Os neandertais respondiam às suas condições ambientais com uma combinação de caça de animais de grande porte, principalmente com lanças, coleta de plantas e exploração do litoral. Às vezes, enterravam seus mortos. Isso não deve ser surpreendente, dada a necessidade de laços sociais estreitos dentro e entre os grupos sociais e, portanto, o inevitável luto pela perda de um pai, filho, parente ou amigo*.

A paleogenômica revolucionou nosso conhecimento sobre a relação entre o Homo sapiens e o Homo neanderthalensis?
. Nosso conhecimento sobre o Homo sapiens e os neandertais foi transformado na última década pela paleogenômica, que extrai DNA antigo de restos esqueléticos. OReconstrução em 3D do rosto de uma mulher neandertal que viveu há 75 mil anos, baseado em crânio encontrado na Caverna Shanidar, no Curdistão iraquiano, em 2018. Veja mais em *. primeiro genoma humano completo foi sequenciado em 2003, e o de um neandertal em 2010. A comparação de seus genomas indicou que as duas espécies compartilharam um ancestral comum entre 800.000 e 600.000 anos atrás, geralmente designado como Homo heidelbergensis. A paleogenômica também identificou um descendente posterior, geralmente chamado de Denisovanos, que divergiu da linhagem que levou aos neandertais por volta de 400.000 anos atrás (21). Os Denisovanos ocuparam grande parte da Ásia central e oriental, desenvolvendo uma fisiologia e um estilo de vida adaptados a ambientes frios, como florestas boreais e grandes altitudes, em contraste com a preferência dos neandertais por ambientes mais temperados, como pradarias.

Há evidências de cruzamentos entre entre o Homo sapiens, os neandertais e os denisovanos?
. A revolução genômica também revelou diversos episódios de cruzamento entre o Homo sapiens e os neandertais e denisovanos, e entre os próprios neandertais e denisovanos (22). A maioria de nós hoje possui entre 2% e 4% de DNA neandertal, e aqueles que vivem no Leste Asiático também possuem até 5% de DNA denisovano**.

Aconteceu mais de uma dispersão do Homo sapiens para fora da África?
. O cruzamento surgiu da mobilidade e interação de populações, influenciadas pelas condições climáticas em constante mudança, que por vezes causavam a sobreposição das áreas de distribuição dos tipos humanos (23). O movimento mais antigo conhecido do Homo sapiens para fora da África ocorreu há cerca de 180.000 anos, documentado por um espécime da Caverna Misliya, em Israel, e potencialmente há cerca de 210.000 anos, se um fóssil de Homo sapiens encontrado na Caverna Apidima, na Grécia, for de fato dessa espécie (24). Uma dispersão posterior, provavelmente em resposta a um período de clima mais quente e úmido que durou entre 130.000 e 115.000 anos atrás, resultou na presença do Homo sapiens nas cavernas de Skhul e Qafzeh, em Israel, entre 120.000 e 90.000 anos atrás. É provável que tenham coexistido com os neandertais naquela região, representados por vestígios de outras cavernas em Israel – Tabun e Amud – datadas entre 80.000 e 55.000 anos atrás, mas com indícios arqueológicos que sugerem uma presença ainda mais antiga. Tanto o Homo sapiens quanto os neandertais utilizavam os mesmos tipos de ferramentas de pedra, métodos de caça e padrões de mobilidade. Podem ter se cruzado e trocado conhecimentos culturais, e também sobre a fabricação de ferramentas. Essas primeiras dispersões do H. sapiens da África não foram sustentáveis, e suas linhagens acabaram extintas. A data da presença mais antiga do H. sapiens no Leste Asiático é bastante debatida, com alguns argumentando que ocorreu entre 120.000 e 80.000 anos atrás, enquanto outros sustentam uma estimativa mais conservadora de 65.000 anos atrás.

Ferramentas com cabo?
Dispersão do Homo sapiens para fora da África. Por volta de 350.000 anos atrás, os humanos de todas as espécies na África, Ásia e Europa passaram do uso de ferramentas manuais para ferramentas com cabo, notadamente pontas de pedra fixadas em hastes para uso como lanças. Os bifaces tornaram-se menos comuns, sendo substituídos por lascas e lâminas destacadas de núcleos preparados – nódulos cuidadosamente moldados que permitiam a extração de lascas de formato e tamanho predeterminados. Essa tecnologia é conhecida como Paleolítico Médio na Europa e Idade da Pedra Média na África. Os motivos dessa transição têm sido pouco discutidos pelos arqueólogos. Mais adiante vamos analisar se ela foi possibilitada pela evolução da capacidade linguística, que ultrapassou um limiar que permitiu o desenvolvimento de novas tecnologias.

E o uso do fogo e de adornos?
. O uso do fogo tornou-se habitual há 400.000 anos, com o surgimento das primeiras lareiras controladas. Isso foi seguido pelos primeiros adornos corporais e objetos decorados, ambos surgindo após 200.000 anos atrás. Os neandertais na Europa coletavam ocre vermelho, usavam minerais que produziam pigmento preto, faziam adornos corporais com penas e garras de pássaros e, em raras circunstâncias, faziam incisões em pedra e pedaços de osso. O Homo sapiens na África e na Ásia Ocidental era semelhante, embora seus adornos corporais fossem feitos de contas de conchas e fizessem um uso muito maior de ocre vermelho, que se intensificou após 100.000 anos atrás, quando as primeiras gravuras também foram feitas em pedra. A extensão desses desenvolvimentos no sul da África após 100.000 anos atrás levou o Homo sapiens a partir dessa data a ser designado como “humanos modernos”.

 

Humanos modernos e sua diáspora global

Há 70.000 anos os humanos modernos se dispersaram da África?
. Após 70.000 anos atrás, os humanos modernos se dispersaram da África, conforme documentado pelos registros fósseis, arqueológicos e genômicos. Ao contrário das migrações anteriores, suas jornadas foram rápidas, sustentadas e extensas, sugerindo uma exploração com objetivos definidos, em vez de uma mera resposta às mudanças ambientais. Uma das rotas de saída da África foi para o norte, através do Vale do Rift, em direção ao sudoeste da Ásia – os atuais Territórios Palestinos Ocupados, Israel, Jordânia e Síria. Ali, encontraram os neandertais, com quem compartilharam a mesma paisagem por vários milhares de anos, às vezes à distância e outras vezes tão perto que houve cruzamento entre as espécies. Foi nessa região que uma nova tecnologia surgiu pouco depois de 50.000 anos atrás, envolvendo a produção de longas lâminas de sílex, que forneceram a base para a tecnologia do Paleolítico Superior que seria levada para a Europa depois de 45.000 anos atrás (25).

Quando os primeiros seres humanos chegaram às Américas?
. Outra rota para fora da África foi a travessia do Estreito de Bab el-Mandeb, da África Oriental para a Arábia. De lá, seguiu-se uma rota costeira para o sul e sudeste daDispersão do Homo sapiens para fora da África Ásia, onde ocorreu o cruzamento com os denisovanos e a arte figurativa mais antiga conhecida foi produzida há cerca de 40.000 anos: um estêncil de mão e a pintura de um animal semelhante a um porco na parede de uma caverna na Indonésia (26). Barcos foram construídos e levaram os humanos modernos à Austrália há cerca de 60.000 anos (27). Os humanos modernos se espalharam por toda a Ásia, com presença confirmada na China há 45.000 anos e reivindicações contestadas para uma data ainda mais antiga (28). Eles chegaram ao extremo nordeste, atravessaram o Estreito de Bering para a América do Norte e se espalharam rapidamente para o sul, colonizando uma gama diversificada de ambientes, incluindo a floresta amazônica, até chegar à Terra do Fogo há pelo menos 10.000 anos***.

Quando foi que os humanos modernos se estabeleceram na Europa?
. A colonização da Europa pelos humanos modernos foi documentada com considerável detalhe. É possível que tenha havido pelo menos uma incursão antes de 50.000 anos atrás, representada pelos alegados restos mortais e artefatos de humanos modernos encontrados na Caverna Mandrin, na França (29). Contudo, foi somente há 41.000 anos que os humanos modernos se estabeleceram por toda a Europa, sua presença marcada por uma cultura material bastante diferente da dos neandertais residentes: os novos europeus utilizavam ferramentas feitas de lâminas longas, faziam uso extensivo de ossos e marfim, usavam contas e pingentes, esculpiam figuras de animais e figuras humanas em marfim e pedra, e fabricavam flautas a partir de ossos ocos de aves.

Uma nova cultura material pode ser detectada na Europa por volta de 40 mil anos atrás?
. Em meu livro de 1996, A pré-história da mente, caracterizei essa nova cultura material como reflexo da fluidez cognitiva: a capacidade de combinar conhecimento e formas de pensar sobre diferentes entidades do mundo para conceber novos tipos de ferramentas, ornamentos pessoais e objetos de arte. Contas e pingentes tornaram-se altamente variáveis ​​em suas matérias-primas, formas e cores, sugerindo que eram destinados a transmitir mensagens sociais específicas para tipos específicos de pessoas. O design de ferramentas de caça passou a integrar o conhecimento das matérias-primas com a compreensão da fisiologia e do comportamento da presa caçada, criando uma série de armas especializadas. Isso frequentemente se expressava pela escultura de animais nas próprias ferramentas, como um íbex representado na extremidade de um lançador de dardos do sítio da Idade do Gelo de Mas d’Azil, Ariège, França, onde o íbex era a presa visada. Formas humanas e animais eram, por vezes, fundidas em uma única estatueta esculpida ou imagem pintada na parede de uma caverna, como o “homem-leão”, uma figura esculpida em marfim de mamute entre 40.000 e 35.000 anos atrás, com cabeça de leão e corpo de homem. Tudo isso reflete uma nova forma de pensar, que possibilitou um grau de criatividade e inovação nunca antes visto na humanidade.

Isto ocorreu também na África?
. A África também passou por uma transformação tecnológica completa após 40.000 anos atrás. Assim como na Europa, a tecnologia de lâminas tornou-se proeminente, com pequenas lâminas sendo lascadas para formar micrólitos, que eram então fixados em cabos de madeira ou osso. Novos tipos de ferramentas surgiram, incluindo pontas de flecha, equipamentos de pesca e pontas de osso polidas. Contas feitas de conchas marinhas e cascas de ovos de avestruz se tornaram comuns, juntamente com decorações gravadas em osso e madeira.

Por que somente o Homo sapiens sobreviveu e outros humanos não?
Evolução humana de Lucy até hoje. Os neandertais, denisovanos, Homo erectus e Homo floresiensis foram extintos por volta de 40.000 anos atrás ou logo depois, deixando o Homo sapiens como o único membro remanescente do gênero Homo. Ao tentar explicar o porquê disso, acadêmicos de diversas áreas sugeriram que o Homo sapiens possuía uma capacidade linguística superior à das espécies extintas – embora sem especificar qual forma essa capacidade teria assumido. Nesta fase, podemos concordar com segurança que, há 40.000 anos, o Homo sapiens possuía uma linguagem do tipo que temos hoje – a qual chamarei de capacidade de “linguagem totalmente moderna”. É simplesmente inconcebível que eles pudessem ter pintado cavernas, construído barcos e colonizado o mundo sem uma linguagem totalmente moderna, Não podemos, contudo, negar a mesma linguagem totalmente moderna aos neandertais, denisovanos e outros, nem atribuir-lhes qualquer outro tipo de linguagem.

 

Do auge da última glaciação ao fim da Idade da Pedra

Como as comunidades humanas se adaptaram à última glaciação há 20 mil anos?
. Há 40.000 anos, o clima global caminhava para o auge da última glaciação, que ocorreu há 20.000 anos. As camadas de gelo expandiram-se pelas altas latitudes, causando a queda do nível do mar e, consequentemente, expondo extensas plataformas costeiras. As baixas latitudes sofreram com a aridez, levando ao recuo de florestas e bosques. As comunidades humanas responderam realocando-se, adaptando suas tecnologias, ajustando suas dietas e vidas sociais e, muito provavelmente, sofrendo um declínio demográfico considerável. A resposta mais marcante ocorreu na Europa. Novas tecnologias e métodos de caça possibilitaram o abate em massa de rebanhos de renas migratórias, enquanto o investimento em rituais, evidente nas pinturas rupestres, permitiu a resiliência às duras condições glaciais, intensificando os laços sociais dentro e entre as comunidades. Na Europa central e oriental, grandes habitações foram construídas com ossos e presas de mamute. Símbolos que uniam comunidades distantes em redes sociais assumiram a forma de figuras femininas, esculpidas em marfim ou osso, ou moldadas em argila (30).

Por que a megafauna foi extinta?
. Inovações semelhantes estavam ocorrendo em todo o mundo, criando um nível de diversidade cultural nunca antes visto na história da humanidade. Da mesma forma, os humanos estavam causando um impacto ambiental sem precedentes: em toda a Europa, Ásia, Austrália e Américas, a megafauna, como mamutes e preguiças-gigantes, foi extinta. As mudanças climáticas foram um fator importante, mas a atividade humana, seja pela caça desses animais ou pela influência na alteração do habitat, provavelmente foi o fator decisivo que levou à extinção, transformando o declínio populacional em extinção. A megafauna sobreviveu apenas na Ásia tropical e, mais notavelmente, na África, onde ainda podemos ver elefantes, hipopótamos, rinocerontes e girafas.

O que aconteceu há 11.650 anos com o Holoceno?
. Embora a resposta humana moderna às condições mais severas da era glacial, há 20.000 anos, e suas consequências imediatas tenham demonstrado um novo grau de inovação, isso empalideceu em comparação com a revolução cultural que estava por vir. Após um período de marcantes flutuações climáticas, um aquecimento global drástico ocorreu há 11.650 anos. As temperaturas subiram cerca de 4°C em questão de décadas, enquanto o dióxido de carbono atmosférico aumentou em 50%. As calotas polares derreteram, o nível do mar subiu e as paisagens foram transformadas com a expansão das florestas e a mudança das comunidades animais para espécies adaptadas a climas mais quentes. Começou então o Holoceno, um período de clima mais quente, úmido e estável, no qual os humanos modernos prosperariam.

E foi assim que começou um fluxo constante de inovação e mudanças culturais?
. As comunidades humanas recolonizaram paisagens perdidas para o gelo e expandiram-se para novas regiões, chegando ao Alto Ártico e às ilhas do Pacífico. Fizeram isso por meio de um fluxo constante de inovação e mudanças culturais. A fabricação de pequenas lâminas e ferramentas microlíticas tornou-se comum em muitas regiões, proporcionando o uso mais eficiente da pedra. Novas tecnologias foram desenvolvidas para coletar e processar os alimentos vegetais recém-abundantes, desde vasos de cerâmica no leste da Ásia até foices de sílex e pilões de pedra no oeste. Alimentos marinhos e costeiros tornaram-se proeminentes na dieta com o desenvolvimento de novas tecnologias de pesca e o acúmulo de enormes sambaquis em regiões costeiras de todo o mundo.

A invenção da agricultura e a domesticação de animais foram fatores importantes para a história da humanidade?
Início da agricultura no sudoeste da Ásia, Europa e vale do Nilo. A invenção da agricultura foi de suma importância para a história da humanidade. Isso ocorreu inicialmente no sudoeste da Ásia, onde a exploração intensiva de cereais selvagens levou à evolução de variedades domesticadas que eram tão dependentes da colheita humana quanto os humanos eram de seu suprimento regular de grãos. Da mesma forma, a caça de cabras selvagens foi intensificada, levando ao manejo de rebanhos e ao surgimento de variedades domesticadas.

Caçadores-coletores passaram a viver em aldeias permanentes na Ásia, na Europa e na África?
. Há 10.000 anos, os caçadores-coletores do sudoeste da Ásia já viviam em aldeias permanentes. Logo passaram a depender de plantas e animais domesticados, tornando-se os primeiros agricultores. Esse estilo de vida acarretou uma série de outras inovações: nova arquitetura feita de pedra, tijolo de barro e gesso; novas tecnologias; nova organização social para estilos de vida sedentários; e novas ideologias, arte e rituais. As populações começaram a crescer e tiveram que se dispersar para novas terras, levando o estilo de vida agrícola para a Europa, o norte da África e a Ásia Central.

E a agricultura se desenvolveu também na China e nas Américas?
. O mesmo ocorreu na China, onde o arroz e o painço foram domesticados há 10.000 anos, dando origem a comunidades agrícolas que se espalharam por todo o leste e pelo sul da Ásia. Em poucos milhares de anos, plantas e animais domesticados surgiram em outras regiões do mundo: feijão, milho e pimenta na Mesoamérica; inhame e banana nas terras altas da Nova Guiné; quinoa e batatas na América do Sul. Os estilos de vida baseados na caça e coleta logo ficaram restritos a ambientes onde a agricultura não era viável, principalmente aqueles de alta aridez e dentro das densas florestas da Amazônia, África Ocidental e Sudeste Asiático.

E assim chegamos ao neolítico?
. As primeiras comunidades agrícoTabuinha com escrita protocuneiforme de Uruk IV, ca. 3200 a.C.las são designadas como Neolíticas – a Nova Idade da Pedra. Além da cerâmica, elas continuaram dependendo das mesmas matérias-primas que os humanos sempre usaram, principalmente pedra e madeira, mesmo que agora fossem capazes de manipulá-las e transformá-las de maneiras totalmente novas. Mas o surgimento da agricultura prenunciou o inevitável fim da Idade da Pedra. As aldeias logo se tornaram vilas e, em seguida, comunidades urbanas conectadas por redes de comércio. Os meios para fundir cobre foram descobertos, levando rapidamente ao bronze e, posteriormente, ao ferro, para fornecer as ferramentas para o trabalho e a guerra. Hierarquias sociais emergiram com uma sede constante por itens de prestígio e novas formas de riqueza, ambas fornecidas por ornamentos de prata e ouro. O crescimento populacional, a inovação tecnológica, as mudanças econômicas e a competição social convergiram para as primeiras civilizações da Mesopotâmia, China e Mesoamérica. Nesse contexto, ocorreu mais um passo na evolução da linguagem: a invenção da escrita.

E, então, a escrita foi inventada?
. A escrita mais antiga assumiu a forma de marcas impressas em tabuinhas de argila, conhecidas como escrita cuneiforme da civilização mesopotâmica. Essas marcas começaram há cerca de 5.500 anos como sinais icônicos conhecidos como fonogramas e gradualmente se tornaram mais abstratas para representar os sons da fala. Essa é a primeira prova definitiva da presença de uma capacidade linguística equivalente à encontrada no mundo moderno. A escrita foi inventada independentemente na China e na Mesoamérica, indicando que a capacidade linguística era uma característica do Homo sapiens em todo o mundo.

 

Seis milhões de anos de evolução da linguagem

Percorremos rapidamente 6 milhões de anos de evolução humana, desde a época em que nossos ancestrais usavam vocalizações comparáveis ​​às de um chimpanzé hojeEvolução da escrita cuneiforme de 3000 a 600 a.C. até o uso da linguagem totalmente moderna há 40.000 anos, e possivelmente muito antes. Ao longo desses 6 milhões de anos, ocorreram mudanças na anatomia, no tamanho do cérebro, no ciclo de vida, na tecnologia, na dieta, no comportamento e na distribuição geográfica. Seria paradoxal pensar que as capacidades vocais e cognitivas não mudaram também e, portanto, que não deveríamos esperar uma evolução gradual da capacidade linguística atual. Se essa evolução ocorreu em um ritmo constante ou intermitente, se as palavras e as regras evoluíram juntas ou consecutivamente, e quando poderíamos considerar que a comunicação vocal ultrapassou um limiar de complexidade para se tornar linguagem, de um tipo totalmente moderno ou não, ainda não pode ser especificado. Para responder a essas perguntas, precisamos encontrar e reunir mais fragmentos do quebra-cabeça da linguagem [To answer those questions, we need to find and assemble more fragments of the language puzzle].

 

Steven Mithen (nascido em 1960) é um arqueólogo britânico, conhecido por seu trabalho sobre a evolução da linguagem, música e inteligência, caçadores-coletores pré-históricos e as origens da agricultura. Ele é professor de Pré-história Inicial na Universidade de Reading, Reino Unido. Veja suas publicações.

 

Steven Mithen (nascido em 1960)* Como seria conhecer um dos nossos parentes humanos mais próximos de 75 mil anos atrás em carne e osso? Cientistas produziram uma reconstrução notável de como seria a aparência de uma mulher neandertal quando estava viva. A representação aparece em um novo documentário da BBC Studios para a Netflix chamado Os Segredos dos Neandertais, que analisa o que sabemos sobre os nossos primos evolutivos há muito tempo perdidos, que foram extintos há cerca de 40 mil anos. “Acho que ela pode nos ajudar a nos conectar com quem eles eram”, diz Emma Pomeroy, paleoantropóloga da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, que participa do projeto. Leia mais: Jonathan Amos, Rebecca Morelle e Alison Francis, Como era o rosto de mulher neandertal que viveu há 75 mil anos. BBC News Brasil, 2 maio 2024; Emma Pomeroy et alii, New Neanderthal remains associated with the ‘flower burial’ at Shanidar Cave. Antiquity, Vol. 94 (373), p. 11–26, 2020.

** Ele era um neandertal e estava completamente nu, exceto por uma capa de pele de animal. Tinha boa postura e pele clara, talvez ligeiramente avermelhada pelo sol. Ao redor do bíceps musculoso, usava um bracelete de garras de águia. Ela era uma humana moderna primitiva, vestida com um casaco de pele com acabamento em pele de lobo. Tinha a pele escura, pernas longas e usava tranças no cabelo. Ele pigarreou, olhou para ela de cima a baixo e — com uma voz anasalada e estridente — lançou sua melhor cantada. Ela olhou de volta fixamente. Deram uma risada meio sem jeito e, a partir daí, podemos adivinhar o que aconteceu a seguir. Leia mais: Zaria Gorvett, Como eram as relações sexuais entre humanos modernos e neandertais. BBC News Brasil, 4 abril 2021); Villanea, F. A. ; Schraiber, J. G. Multiple episodes of interbreeding between Neanderthal and modern humans. Nature Ecology and Evolution 3, p. 39–44, 2019.

*** Há duas teorias sobre quando os primeiros seres humanos chegaram à América. As duas principais correntes são a teoria do povoamento precoce, que diz que isso ocorreu há cerca de 30 mil ou 25 mil anos, e a teoria do povoamento tardio, segundo a qual isso teria acontecido há cerca de 12 mil ou 14 mil anos. Leia mais: Evanildo da Silveira, Pesquisa revela que América foi ‘descoberta’ milhares de anos antes do que se pensava. BBC News Brasil, 22 julho 2020; Lucía Blasco, Como a genética está reconstruindo a fascinante jornada dos primeiros humanos à América. BBC News Brasil, 20 de janeiro de 2022; Paul Rincon, A incrível descoberta que indica presença humana nas Américas muito antes do que se pensava. BBC News Brasil, 24 setembro 2021; Reinaldo José Lopes, 1499: O Brasil antes de Cabral. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2017.

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