Sumário
1. Ohalo – margem oeste do lago de Genesaré – Israel – 20000 a.C. – c. 2 e 3
2. Azraq – Jordânia, 100 km ao sul do lago de Genesaré – 20000 a.C. – c. 3
3. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 12300 a.C. – cultura natufiana – c. 4
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4. Abu Hureyra – nas margens do Eufrates, noroeste da Síria – 11500 a.C. – cultura natufiana – c. 5
5. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 10800 e 10000 a.C. (Dryas Recente) – c. 6
6. Jericó – vale do Jordão – 9600 a.C. – PPNA [Pre-Pottery Neolithic A – Neolítico pré-cerâmico A] – c. 7
7. WF16 – Wadi Faynan, no sul da Jordânia – 9000 a.C. – c. 8
8. Wadi Ghuwayr, no sul da Jordânia – 8500 a.C. – PPNB [Pre-Pottery Neolithic B – Neolítico pré-cerâmico B] – c. 8
9. Beidha, no Wadi Gharab, 30 km ao sul de Wadi Ghuwayr, ao norte de Petra – 8000 a.C. – PPNB – c. 9
10. Jericó – vale do Jordão – 7000 a.C. – PPNB – c. 10
11. ‘Ain Ghazal, no Wadi Zarqa – Jordânia – 6500 – PPNB – c. 10
12. Bouqras, no Eufrates, confluência com o rio Khabur – Síria – c. 11
13. Nevali Çori, margem oriental do Eufrates – Turquia – c. 11
14. Çatalhöyük, na Turquia – 7000 a.C. – c. 11
4. Abu Hureyra – nas margens do Eufrates, noroeste da Síria – 11500 a.C. – cultura natufiana – c. 5
Para encontrar indícios diretos da natureza da coleta de plantas, John Lubbock tem de deixar a mata mediterrânea e a cultura natufiana. Precisa viajar 500 quilômetros até outra aldeia de caçadores-coletores a nordeste, descoberta nas planícies aluviais do Eufrates: o surpreendente sítio de Abu Hureyra.
O mato e as flores da estepe estão molhados de orvalho quando John Lubbock se aproxima da aldeia de Abu Hureyra. É o amanhecer de um dia de meados do verão em 11500 a.C. Sua jornada de ‘Ain Mallaha trouxe-o das densas florestas de carvalho das colinas mediterrâneas, por campo aberto e finalmente a estepe desprovida de árvores, até o que é o hoje noroeste da Síria. Passou por várias aldeias próximas de rios e lagos, todas desconhecidas do mundo moderno. Agora pára para contemplar a vista — ao longe há uma planície além da qual uma linha de árvores bordeja um largo rio, o Eufrates. Além disso, apenas um vago horizonte, à luz leitosa do dia nascente.
Mais alguns minutos de caminhada fazem-no avistar a aldeia; mas é preciso olhar duas vezes. Ela se funde em seu terraço de calcário, exatamente como ‘Ain Mallaha se fundia com a mata em volta, mais parecendo ter sido gerada pelo sol e moldada pelo vento do que construída por mãos humanas. A cada passo, os baixos e planos telhados cobertos de junco, reunidos à borda da planície aluvial, se tornam um pouco mais nítidos. Mesmo assim, a fronteira entre natureza e cultura permanece profundamente obscura.
As pessoas de Abu Hureyra dormem. Cães farejam-se uns aos outros e o chão, alguns coçando-se e outros roendo ossos. Os telhados chegam à altura da cintura, sustentados nas pequenas molduras de madeira de moradas cortadas em pedra mole. Lubbock desce numa delas e encontra um pequeno e estreito quarto circular de pouco mais de três metros de largura. Um homem e uma mulher dormem sobre peles e um colchão de capim seco; uma moça faz o mesmo numa trouxa de peles.
O piso está juncado de artefatos e lixo — não pilões e almofarizes como em ‘Ain Mallaha, mas mós planas e côncavas. Artefatos de pedra lascada espalham-se pelo chão, junto com cestos de vime e tigelas de pedra, e até um monte de ossos de animais coberto de moscas. Uma pequena tigela contém minúsculos micrólitos em meia-lua feitos de sílex, muito parecidos com os de ‘Ain Mallaha. Num lado da morada há um monte de entulho — a parede desabou e entrou a terra do lado de fora. Paira no ar um fedor nauseante de carne podre e ar viciado.
Grande parte da vida da aldeia se passa além dessas paredes — elas não encerram casas como pensamos nelas hoje. Nos espaços externos há cozinhas, montes de varas, feixes de junco, folhas de casca de árvore e grupos de mós. Evidentemente, muita gente trabalha junto na preparação das plantas colhidas de hortas selvagens na estepe e na mata pantanosa à beira do rio. Lubbock curva-se e deixa que as multicoloridas cascas, talos, galhos e folhas que cercam as pedras lhe escorram entre os dedos. São detritos, deixados exatamente onde caíram das mós ou desbastados dos feixes de plantas e flores. Perto dali há cestos e tigelas de pedra transbordando de nozes e sementes de variadas formas e cores.
Em outra parte da aldeia, ele encontra mais um conjunto de mós; mas estão cercadas por torrões de pedra vermelha e pó, em vez de cascas de sementes e galhos de plantas. As pedras de moer têm manchas vermelhas, da fabricação de pigmento usado para decorar corpos humanos. Ali perto, três gazelas foram estripadas mas ainda não esquartejadas; as carcaças são deixadas penduradas fora do alcance dos cachorros. As pessoas de Abu Hureyra dependem tanto da caça de gazelas quanto da coleta de plantas. Mas esses animais são caçados apenas durante pouco mais de algumas semanas cada verão, quando grandes bandos passam perto da aldeia.
Começa a vida diária em Hureyra. As gazelas não aparecem e os caçadores partem para vasculhar o vale do rio em busca de javalis e jumentos selvagens. Poucos animais vivem agora nos arredores da aldeia, por isso eles ficarão decepcionados. As mulheres e as crianças trabalham nas hortas selvagens, capinando, matando insetos e colhendo o que quer que haja amadurecido ao sol.
Dentro de poucos dias chegam os bandos, e começa a matança anual de gazelas. Os visitantes são bem-vindos na aldeia. Trazem reluzentes obsidianas negras do sul da Turquia como presentes e recebem em troca conchas de dentário, um dia colhidas nas margens do Mediterrâneo e trazidas por visitantes anteriores a Abu Hureyra.
Durante mais de mil anos os caçadores-coletores de Abu Hureyra continuarão a caçar gazelas. Os animais são tão numerosos que sua matança não tem impacto sobre o tamanho dos rebanhos. As mulheres e crianças continuarão a cuidar das hortas selvagens e a colher uma rica safra. O acúmulo de sujeira, areia, artefatos perdidos e outros detritos dentro das moradas se tornará insuportável ou simplesmente impedirá o acesso. E então as pessoas de Abu Hureyra construirão novas moradas, agora totalmente acima do solo. Mas os tempos difíceis acabarão por chegar. A seca do Dryas Recente perturbará as gazelas e dizimará a produtividade da estepe. A aldeia será abandonada, e as pessoas voltarão à vida nômade.
Retornarão em 9000 a.C., não como caçadores-coletores, mas agricultores. Construirão casas de adobe e cultivarão trigo e cevada na planície aluvial. Os rebanhos de gazelas terão retomado suas migrações e serão caçadas por mais mil anos, até o povo de Abu Hureyra de repente passar para rebanhos de carneiros e cabras. As casas serão repetidas vezes reconstruídas para que se forme um monturo, ou tell [tell é um termo arqueológico de origem árabe, e indica um monte artificial formado pelo acúmulo de detritos, resultado de uma ocupação humana contínua de um mesmo local ao longo dos séculos], de meio quilômetro de largura, 8 metros de profundidade e contendo mais de um milhão de metros cúbicos de depósitos. Os restos das primeiras moradas subterrâneas de Abu Hureyra serão enterrados fundo e perdidos da memória humana.
Os sedentários caçadores-coletores de ‘Ain Mallaha, Abu Hureyra e na verdade de todo o oeste da Ásia entre 12500 e 11000 a.C. gozavam a boa vida. A abundância de indícios arqueológicos e a excelência da pesquisa nos permitem captar na mente algumas vívidas imagens dessa vida. Podemos imaginar prontamente as bolotas sendo transportadas em cestos para ‘Ain Mallaha, e depois reduzidas a uma pasta, os caçadores do lugar tendo a primeira visão das gazelas que se aproximam, e os trajes de um morto com um adereço de cabeça de conchas, colar e faixa de dentálio na perna em El-Wad, pronto para o enterro.
Mas a imagem a ser lembrada é de algumas famílias desfrutando um dia na estepe florestal — longe dos latidos dos cães, dos fedorentos montes de lixo, dos rabugentos que ficaram para trás na aldeia. Eles não buscam caça nem plantas para colher. É um dia de descanso, e eu os vejo sentados, cercados por miríades de flores estivais. As crianças fazem guirlandas e os jovens amantes esgueiram-se para dentro do mato alto. Alguns conversam, outros dormem. Todos gozam o sol. Têm a barriga cheia e nenhuma preocupação.
John Lubbock senta-se com eles, após passar alguns dias trabalhando em Abu Hureyra. Lê seu livro, descobrindo o que o xará sabia sobre a mudança do clima — muito pouco. O John Lubbock vitoriano compreendera que teriam ocorrido imensas variações no clima porque visitara cavernas cheias de ossos de rena no ensolarado sul da França, descobrira carvalhos dentro de pântanos de turfa e vira vales cortados por rios antigos. Mas em 1865 não tinha consciência da complexidade da mudança de clima, pois a ideia de múltiplas glaciações só ganhou favor no início do século XX, e acontecimentos-chave como o Dryas Recente permaneceram desconhecidos até tempos recentes. Mesmo assim, o moderno John Lubbock se impressionou com o seu xará, sobretudo quando leu que as causas sugeridas de mudanças climáticas incluíam variação na radiação solar, alteração no eixo da Terra e mudanças nas correntes oceânicas — todas as quais foram provadas desde então e permanecem no primeiro plano do estudo científico.
Por um momento, John Lubbock esquece seu lugar na história; as borboletas, as flores, o sol e o vento são inteiramente atemporais. Mas a data é 11000 a.C., e está para ocorrer uma dramática mudança no clima; as famílias que se sentam despreocupadas na estepe oscilam à beira de uma calamidade ambiental: está para chegar o Dryas Recente.
5. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 10800 e 10000 a.C. (Dryas Recente) – c. 6
Mais uma vez, John Lubbock está parado na margem ocidental do lago Hula e olha a aldeia de ‘Ain Mallaha do outro lado. Cinquenta gerações, 1500 anos, se passaram desde que ele testemunhou uma vibrante atividade na aldeia em meio aos carvalhos, amendoeiras e pistaches. Os tempos mudaram. As matas são esparsas. As árvores e o mato baixo não têm o exuberante crescimento que parecia embalar as pessoas de ‘Ain Mallaha com a promessa de comida abundante. Dentro da aldeia, telhados e paredes ruíram, e algumas moradas não passam de montes de detritos. Há agora novas construções circulares, mas são coisas pequenas e desconjuntadas.
Cinquenta quilômetros a sudoeste, a aldeia de Hayonim foi inteiramente abandonada. Após 200 anos de ocupação, as pessoas deixaram a caverna para viver no terraço, usando as moradas anteriores para o enterro de seus mortos. Mas mesmo essas novas casas se acham agora desertas. Galhos e mato seco, cobras e lagartos, líquens e musgos são os únicos moradores, quando a natureza começa a retomar sua pedra, acolhendo as paredes de calcário, os pilões de basalto e as lâminas de sílex de volta à terra. O mesmo se dá em Abu Hureyra — as pessoas se foram, as moradas vazias deixadas para desmoronar, artefatos abandonados e esquecidos.
A data é 10800 a.C. A vida sedentária da aldeia existe apenas nas histórias, passadas de geração em geração, de pessoas que vivem em acampamentos transitórios espalhados por todas as matas que resistem e a agora estepe que mais parece deserto. A conquista cultural dos natufianos persiste não mais como um débil eco nos artefatos, trajes e costumes sociais dessas pessoas — pessoas às quais os arqueólogos se referem como natufianos tardios. Muitas delas se reúnem periodicamente em ‘Ain Mallaha, El-Wad ou Hayonim, trazendo os ossos de seus mortos para reenterrá-los junto dos ancestrais, no que se tornaram sítios sagrados, existindo naquele mundo de sombras entre a história e o mito.
O experimento de vida aldeã sedentária durou quase 2 mil anos, mas acabou fracassando, obrigando as pessoas a retornarem a um estilo de vida peripatético mais antigo.
O Dryas Recente, mil anos de frio e seca, foi provocado pelo enorme influxo de águas glaciais derretidas no Atlântico Norte, quando as camadas de gelo norte-americano desabaram. O impacto disso nas paisagens do oeste asiático é logo visto nos grãos de pólen do núcleo de Hula. Os sedimentos depositados dentro desse lago após 10800 a.C. mostram uma impressionante redução na quantidade de pólen de árvores, indicando que grande parte da mata morrera por falta de chuva e de calor. Na verdade, dentro de 500 anos já haviam retornado a condições pouco diferentes das do LGM: um devastador colapso das reservas de alimentos, exatamente quando os níveis de população tinham alcançado um pico recorde. Com o duplo impacto de pressão populacional e deterioração climática, não ficaremos surpresos com o colapso da vida aldeã do Natufiano Inicial.
É um dia de outono em 10000 a.C. A noite desce sobre o lago Hula, aparentemente anunciada por uma revoada de gansos. John Lubbock instala-se perto de sua pequena fogueira, feliz por ver a escuridão baixar e o sono chegar. Mas em poucos minutos é perturbado por vozes humanas que vêm de um grupo cansado da estrada que passa a caminho de ‘Ain Mallaha. Alguns são velhos e andam com cajados; outros são jovens e carregados pelos cansados pais. Altos latidos vêm da aldeia caindo aos pedaços, respondidos por pouco mais que ganidos dos cachorros que viajam com essas pessoas. Para os cachorros, ‘Ain Mallaha será apenas mais um de muitos assentamentos visitados no correr de um ano. Mas para as pessoas, é um lugar sem igual — é seu lar ancestral e esta é a primeira visita que lhe fazem em muitos anos.
Suas viagens os levaram a vários outros dos seus acampamentos temporários — sítios abandonados quando a caça e as plantas locais ficaram demasiado esgotadas para sustentar a sua presença. Visitaram lugares onde pessoas tinham morrido e sido sepultadas. Em cada cova os ossos foram exumados e postos em cestos para serem trazidos para ‘Ain Mallaha. De algumas, trouxeram esqueletos quase completos, mantidos inteiros pela pele seca e os tendões; de outros, apenas o crânio. Sempre que descansavam na viagem, os velhos recordavam as visitas que seus pais e avós haviam feito a ‘Ain Mallaha, trazendo os ossos de seus mortos para reenterro. Os jovens ouviam avidamente. Sabiam as histórias de cor: que os ancestrais tinham morado em ‘Ain Mallaha o ano todo; que tinha abundância de comida; que eles enfeitavam os corpos com roupas elaboradas e joias; que o lobo se tornara cachorro.
Lubbock junta-se ao grupo e entra na aldeia de ‘Ain Mallaha, onde se fazem respeitosos e formais cumprimentos com o punhado de gente que vive nas decadentes moradas e guarda o sítio. Os cestos e os poucos pertences que eles trazem são arriados. Acende-se uma fogueira e partilha-se um pouco de comida antes que o sono os reclame a todos.
Durante os poucos dias seguintes, chegam mais grupos a ‘Ain Mallaha, cada um trazendo cestos com os ossos dos seus mortos. Quase cem pessoas já se reuniram, prontas para reviver o passado ancestral. Passam-se mais dois dias, enquanto se batem as matas em busca de caça e plantas comestíveis para os banquetes. Contam-se histórias, e torna-se a contá-las.
Lubbock ajuda na limpeza dos detritos de uma das moradas desabadas: pedras, galhos, madeiras podres e terra. Os antigos cemitérios de ‘Ain Mallaha são reabertos. Em meio a hinos e cantorias, retiram-se os corpos dos novos mortos dos cestos e colocam-nos na terra. Fazendo isso, o passado e o presente juntam-se num só. O ato de reenterro, os dias de festejos que se seguem, a vida comunitária, as histórias contadas e os banquetes recriam para os vivos os dias do passado ancestral. Esquece-se momentaneamente do desafio do presente — a luta pela sobrevivência durante a severidade da seca do Dryas Recente.
As pessoas permanecem em ‘Ain Mallaha o quanto suas reservas de comida permitem — dez dias, talvez duas semanas no máximo. Falam sem parar de onde estiveram, e do que pode guardar o futuro. Trocam presentes: pedras, conchas e, o mais intrigante de tudo, bolsas de couro com grãos de cereais, ervilha e lentilha.
Finalmente, os grupos partem para lados diferentes, cada um tendo ganhado novos membros e perdido outros. Estão todos agradecidos pela volta ao seu estilo de vida transitório nas áridas paisagens das colinas mediterrâneas, no vale do Jordão e além. Afinal, é o único estilo de vida que conheceram, e que adoram. Lubbock passou a adorá-lo também, sobretudo quando na companhia dessas pessoas que têm uma história para contar sobre cada vale e cada colina, cada poço e cada conjunto de árvores. Ele entra num grupo que parte caminhando para o sudeste, dirigindo-se para o vale do Jordão. Mochilas de sementes pendem de suas cinturas e balançam como pêndulos, parecendo conscientes do próprio tempo, sabendo que pouco resta para os que caçam e coletam seu alimento.
6. Jericó – vale do Jordão – 9600 a.C. – PPNA [Pre-Pottery Neolithic A – Neolítico pré-cerâmico A] – c. 7
O capítulo completo foi publicado no Observatório Bíblico em 05.03.2025, com o título de A fundação de Jericó.
7. WF16 – Wadi Faynan, no sul da Jordânia – 9000 a.C. – c. 8
É 9000 a.C., e John Lubbock viajou de Jericó para o sul e acha-se no que se tornará o tell WF16. Está cercado pela grandeza do wadi, que tem uma cor verde vibrante, em vez dos amarelos e marrons crestados de hoje. Onde vi estéreis desertos, ele vê árvores de carvalho e pistache; figo, salgueiro e choupo crescem junto a um rio que corre pelo que hoje é um wadi inteiramente seco e sem árvores. Escuta conversa humana, o atrito de pedra contra pedra e o latido de cachorros. O cheiro de junípero recém-cortado impregna o ar. Pessoas neolíticas sentam-se diante de suas moradas fazendo e usando os mesmos artefatos que nós encontraremos um dia. Usam colares de contas e penas dos falcões cujos ossos escavaremos. Pontas el-Khiam são fixadas em juncos e furadeiras de arco; pilões e almofarizes estão em ação; paredes são construídas com varas de junípero.
Visitantes chegam trazendo obsidiana para trocar por contas de diorito e fardos de pelo de cabra. Lubbock observa os banquetes que têm lugar quando a caça foi boa e a moagem de minúsculas sementes secas quando foi ruim. Observa o enterro de um velho dentro de uma morada, a cabeça do cadáver posta num travesseiro de pedra. Depois que o piso de terra foi socado até ficar de novo plano, o crânio continua à mostra, possibilitando às pessoas trabalharem e dormirem em volta, confortadas pela continuação dessa presença em suas vidas.
Em 8500 a.C., WF16 torna-se silenciosa e Lubbock vê-se sozinho. Os aldeões neolíticos desapareceram e suas moradas foram abandonadas à natureza e a quem quer que possa encontrar e escavar o sítio.
8. Wadi Ghuwayr, no sul da Jordânia – 8500 a.C. – PPNB [Pre-Pottery Neolithic B – Neolítico pré-cerâmico B] – c. 8
Lubbock ouve vozes que sobem do wadi, onde ele serpeia dobrando uma curva e as rochas viram penhascos, e onde hoje se torna conhecido como Wadi Ghuwayr. Lubbock segue a margem do rio, roçando juncos luxuriantes, gansos e patos assustados. Não anda mais de 500 metros na margem do rio de rápida correnteza e encontra pessoas trabalhando. Algumas são de WF16, mas outras vieram de longe, talvez de outra parte no vale do Jordão ou de uma distância muito maior. Juntas constroem não apenas uma nova aldeia, mas também um tipo inteiramente novo de aldeia.
Trabalham na encosta acima da margem do rio a 10 ou 20 metros da beira d’água. Constroem casas retangulares; casas com sólidas paredes de pedra e pisos de argamassa. Fizeram-se terraços, e as posições das paredes de casas com 10 metros de comprimento e 5 de largura foram marcadas no chão. Algumas já se acham na metade da construção; as paredes chegam à altura do peito, feitas com seixos alisados pela água. Pedras pequenas e argamassa são empilhadas entre filas paralelas de seixos para fazer uma sólida parede de 50 centímetros de espessura — coisa muito distante das paredes de pedra seca de WF16. Em algumas casas, puseram-se mourões de madeira pouco para dentro das paredes, prontos para sustentar o peso de caibros.
Perto do sítio de construção arde uma fogueira para fazer a cal para os pisos de argamassa. Muitas centenas de nódulos de calcário foram colhidas dos limites superiores de Wadi Ghuwayr e são queimadas dentro de um poço. Quando se atinge a temperatura suficientemente alta, as pedras se desintegram em pó de cal. Em outra, parte da cal já está sendo misturada com água e despejada em grossa camada sobre uma base de pedras no chão de uma casa quase pronta. A argamassa aplaina todas os cantos, rachaduras e um raso poço central que será a lareira. Uma vez seca e dura, será pintada de vermelho e depois polida. Mais argamassa cobrirá as paredes, por dentro e por fora. Estas serão mantidas num branco brilhante.
Essas aldeias com casas retangulares de dois andares surgiram por todo o Crescente Fértil pouco depois de 9000 a.C. Com a máxima probabilidade, originaram-se em Jerf el Ahmar e Mureybet, onde se encontraram construções da transição de redondas para retangulares. A nova arquitetura espalhou-se rapidamente; um sinal das transformações sociais e econômicas que ocorreram agora que a nova agricultura com safras domesticadas realmente começou, e os números das populações subiram às alturas. Essas novas construções caracterizam a fase do Neolítico que Kathleen Kenyon designou como PPNB [Pre-Pottery Neolithic B – Neolítico pré-cerâmico B]. É outro mundo neolítico que John Lubbock tem de explorar agora.
9. Beidha, no Wadi Gharab, 30 km ao sul de Wadi Ghuwayr, ao norte de Petra – 8000 a.C. – PPNB – c. 9
Deixando os penhascos acima de Wadi Ghuwayr, John Lubbock anda para o sul até a noite começar a cair, num dia de primavera de 8000 a.C. Isso o leva a uma espetacular paisagem de calcário que corre como uma prateleira abaixo do planalto jordaniano. Depois de cruzar para lá e para cá o oeste asiático do Mediterrâneo ao Eufrates, está familiarizado com as árvores e reconhece com facilidade o carvalho, o pistache e o espinheiro, embora ainda não tenham atingido a fase de folhas completas. Enquanto anda, vê não apenas cabras selvagens sobre os rochedos, mas vislumbra um chacal que inicia seu trabalho noturno e uma lebre que encerra o dia. Reconhece as pegadas de javali e os restos da presa de um leopardo. Com tais animais em volta, dorme inquieto ao abrigo de um rochedo de calcário, que muda de cor quando o sol se põe em todo o vale do Jordão.
No dia seguinte, Lubbock continua a atravessar a mata, equilibrando-se de vez em quando à borda de precipícios rochosos para olhar o futuro deserto do Neguev do outro lado de um vasto abismo sem árvores. Após ter viajado cerca de 30 quilômetros desde Wadi Ghuwayr, chega à entrada de um vale amplo e aberto, com uma densa cobertura de árvores e definido por altos penhascos de calcário. Vê, muito apropriadamente, dois pássaros negros gritando alto, pois esse é Wadi Gharab — o vale dos corvos. Abriga a primeira cidade que Lubbock tem a oportunidade de visitar; é de fato uma das primeiríssimas cidades do mundo: Beidha.
A trilha de cabras transforma-se num caminho bastante utilizado no meio da mata onde muitas árvores foram derrubadas. Isso logo dá lugar a pequenos campos com cereais que acabam de brotar, ervilhas e pequenos brotos de uma safra desconhecida — linho. E então ele vê, ouve e sente o cheiro de cidade — uma massa de moradas de pedra retangulares, vozes humanas, latidos de cachorros, cabras balindo e fumaça de lenha. Aí não há indefinições entre os domínios da natureza e a cultura humana, como havia em ‘Ain Mallaha e Abu Hureyra. A cidade de Beidha é uma impressionante afirmação do desligamento humano do mundo natural, caracterizado pelos ângulos agudos e a ordenada disposição das construções, as cabras em seus cercados, a terra capinada para o plantio.
Para entrar na cidade, ele atravessa uma baixa muralha que cerca as construções. É uma barreira ao solo arenoso que ameaça cobrir os pátios, agora que foi liberado pela derrubada das árvores. Uma trilha leva Lubbock por entre prédios para um pátio murado de cerca de 8 metros de diâmetro. É o centro da cidade. À frente dele, veem-se quatro câmaras construídas de pedra com grãos espalhados no chão — os restos de uma colheita; à esquerda/direita, a fachada de um prédio particularmente grande. Ele atravessa sua porta e entra num aposento de um branco reluzente — o piso, paredes e mesmo o teto densamente rebocados. A única cor é uma grossa faixa vermelha em torno da base das paredes. No centro, ergue-se uma coluna de pedra não cortada de 1 metro de altura. Atrás dela, há uma entrada para um segundo e maior aposento. É igualmente vazio e deslumbrante, com os mesmos reboco branco e faixa vermelha, que também circundam uma lareira no meio do piso e uma bacia de pedra perto da entrada. No canto oposto, um poço revestido de pedra. E é só isso. Nenhum móvel a sugerir uma casa, nem pedra lascada ou fragmentos de ossos a sugerir uma oficina, nem efígies esculpidas a sugerir um lugar de ritual ou culto, e — o mais assustador — nenhuma pessoa visível a trabalhar ou brincar.
Deixando o grande prédio, Lubbock anda entre as casas até chegar a outro pátio — menor que o último, não pavimentado e dando acesso a duas casas vizinhas. Cada uma tem de três a quatro degraus para um andar de cima, e um número semelhante para um porão embaixo. Lubbock escolhe uma casa na qual ouve vozes, sobe a escada e entra num aposento em que oito ou nove pessoas se sentam em esteiras de palha, em torno de uma lareira central. Há adultos e crianças, homens e mulheres; alguns dividem pão e carne, outros inalam fumaça de folhas. Todo o aposento está cheio de fumaça que só lentamente atravessam os juncos que formam o telhado. Os olhos de Lubbock enchem-se de lágrimas.
As pessoas espremem-se juntas; parece provável que uma família esteja recebendo outra. Suas roupas impressionam — atestado de outra pequena revolução que ocorreu durante o último milênio, e que passou praticamente despercebida pelos arqueólogos. Todas as pessoas citadas anteriormente nessa história usavam roupas feitas de couro ou pele, ou muito ocasionalmente de fibras trançadas. As de Beidha vestem com elegância tecidos feitos de tecelagem; usam a primeira forma de linho, tingido de verde e transformado em túnicas e saias.
Lubbock continua dentro da casa em Beidha, examinando cestos impermeáveis no chão e uma pilha de tricô. Pedras quentes da lareira são de vez em quando jogadas dentro dos cestos, para aquecer o líquido dentro — chá de hortelã. Um denso monte de peles, couros e tecidos no outro lado da sala sugere uma área de dormir. Uma criança jaz sobre elas com uma pele pálida e doentia. Como Lubbock tantas vezes viu em outras partes, a mortalidade infantil em Beidha é alta — uma coisa que [a arqueóloga] Diana Kirkbride descobriu quando desenterrou os muitos esqueletinhos enterrados sob os pisos.
Lubbock descobre que o trabalho se faz sobretudo no porão. Este tem um piso de terra e grossas paredes que contêm seis pequenas câmaras, três de cada lado de um curto corredor. Lajes de pedra no chão proporcionam sólidas superfícies de trabalho — algumas cobertas com lascas de pedra, outras com fragmentos de osso e chifre cortados jogados fora. Algumas câmaras foram usadas para triturar pedras em contas, outras para trabalhar couro. As duas câmaras mais próximas da entrada têm grandes mós usadas para fazer farinha de trigo e cevada.
O passeio de Lubbock entre os becos e pátios de Beidha oferece-lhe novas experiências. Nos assentamentos de caçadores-coletores que visitou houve poucas surpresas — ele quase via de um extremo da aldeia ao outro, e todos pareciam conhecer os assuntos de todos os demais. Ali, como em outras cidades neolíticas, dobrar quase qualquer esquina pode levar a uma surpresa — inesperados grupos de pessoas, uma lareira ao ar livre, uma cabra amarrada. As pessoas simplesmente não podem saber o que se passa em outra parte da cidade — mesmo apenas a alguns metros de distância — porque muita coisa se passa por trás de grossas paredes. O número de habitantes se tornou demasiado grande para as pessoas conhecerem os assuntos e parentes umas das outras. Lubbock sente que há uma atmosfera de desconfiança e ansiedade, trazida pelo impacto da vida urbana numa mentalidade que evoluiu para viver em comunidades menores.
É hora de Lubbock deixar Beidha. Embora novos prédios ainda estejam sendo construídos, a cidade será abandonada dentro de poucas gerações. A viagem de Lubbock é para o norte — um retorno a Jericó, e depois para a cidade de ‘Ain Ghazal. Sua temporada em Beidha ofereceu apenas uma visão parcial dos novos habitantes de cidades da era neolítica — uma visão em grande parte centrada em suas vidas domésticas — e portanto ele tem de visitar esses assentamentos para ficar sabendo mais sobre o mundo sagrado delas.