No livro After the Ice: A Global Human History, 20,000 – 5000 BC. London: Weidenfeld & Nicolson, 2011, o autor, Steven Mithen, explica no prefácio:
Este livro é uma história do mundo entre 20000 e 5000 a.C. Foi escrito para aqueles que gostam de pensar no passado e desejam saber mais sobre as origens da agricultura, das cidades e da civilização. E também para os que pensam no futuro. O período em discussão foi o de aquecimento global, durante o qual surgiram novos tipos de plantas e animais — espécies domésticas que sustentaram a revolução agrícola (…)
Este livro faz perguntas simples sobre a história humana: o que aconteceu, quando, onde e por quê? Oferece respostas entremeando uma narrativa histórica com argumentos causais. Ao fazê-lo, atende também aos leitores que perguntarão: “como sabemos disso?” — muitas vezes uma pergunta muito apropriada quando os indícios arqueológicos parecem tão escassos. E After the Ice [Depois do Gelo] faz outro tipo de pergunta sobre o passado: como era viver em tempos pré-históricos? Qual era a experiência do dia a dia daqueles que viveram o aquecimento global, uma revolução agrícola e a origem da civilização?
E no capítulo 1 ele diz:
Este livro conduz alguém dos tempos modernos aos pré-históricos: alguém para ver os instrumentos de pedra sendo feitos, os fogos ardendo nos lares e as moradas ocupadas; alguém para visitar as paisagens do mundo da era do gelo e vê-las mudar. Escolhi um rapaz chamado John Lubbock para essa tarefa. Ele visitará cada um dos continentes, começando no oeste da Ásia e seguindo pelo mundo afora: Europa, as Américas, Austrália, leste da Ásia, sul da Ásia e África. Viajará da mesma forma como os arqueólogos escavam — vendo os mais íntimos detalhes das vidas das pessoas, mas incapaz de fazer qualquer pergunta e com sua presença inteiramente desconhecida. Farei comentários para explicar como os sítios arqueológicos foram descobertos, escavados e estudados; as formas como contribuem para nossa compreensão de como surgiram a agricultura, as cidades e a civilização.
Quem é John Lubbock? Ele vive em minha imaginação como um rapaz interessado no passado e com medo do futuro — não o seu próprio, mas o do planeta Terra. Tem o mesmo nome de um polímata vitoriano que, em 1865, publicou seu próprio livro sobre o passado e intitulou-o Prehistoric Times [Tempos pré-históricos]. O John Lubbock vitoriano (1834-1913) era vizinho, amigo e seguidor de Charles Darwin. Foi um banqueiro que instigou reformas financeiras-chave, um membro liberal do Parlamento que apresentou a primeira legislação para proteção de monumentos antigos e férias em bancos (públicos), um botânico e entomologista com muitas publicações científicas em seu nome.
[Mas] vou mandar um John Lubbock dos dias de hoje para os tempos pré-históricos, levando um exemplar do livro de seu xará. Lendo-o em remotos cantos do mundo, ele apreciará tanto os feitos do John Lubbock vitoriano quanto o notável progresso que os arqueólogos fizeram desde a publicação de Prehistoric Times menos de 150 anos atrás [em 2025: 160 anos atrás]. Utilizo John Lubbock para garantir que esta história seja sobre a vida das pessoas e não apenas sobre os objetos encontrados pelos arqueólogos.
Nestes 3 posts transcrevo apenas os trechos em que John Lubbock aparece em sua viagem na pré-história da Ásia Ocidental. No livro, o autor, após mostrar a visita de John Lubbock a um assentamento pré-histórico, descreve a descoberta arqueológica do sítio em questão e apresenta resultados, interpretações e perspectivas.
Quem quiser conferir um exemplo do texto completo, pode ler o post A fundação de Jericó, publicado no Observatório Bíblico em 05.03.2025.
Os links para todas as postagens sobre a pré-história podem ser acessados em O Crescente Fértil na Pré-história e na Idade do Bronze, post publicado no Observatório Bíblico em 06.09.2025.
Sumário
Post 1
1. Ohalo – margem oeste do lago de Genesaré – Israel – 20000 a.C. – c. 2 e 3
2. Azraq – Jordânia, 100 km ao sul do lago de Genesaré – 20000 a.C. – c. 3
3. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 12300 a.C. – cultura natufiana – c. 4
4. Abu Hureyra – nas margens do Eufrates, noroeste da Síria – 11500 a.C. – cultura natufiana – c. 5
5. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 10800 e 10000 a.C. (Dryas Recente) – c. 6
6. Jericó – vale do Jordão – 9600 a.C. – PPNA [Pre-Pottery Neolithic A – Neolítico pré-cerâmico A] – c. 7
7. WF16 – Wadi Faynan, no sul da Jordânia – 9000 a.C. – c. 8
8. Wadi Ghuwayr, no sul da Jordânia – 8500 a.C. – PPNB [Pre-Pottery Neolithic B – Neolítico pré-cerâmico B] – c. 8
9. Beidha, no Wadi Gharab, 30 km ao sul de Wadi Ghuwayr, ao norte de Petra – 8000 a.C. – PPNB – c. 9
10. Jericó – vale do Jordão – 7000 a.C. – PPNB – c. 10
11. ‘Ain Ghazal, no Wadi Zarqa – Jordânia – 6500 – PPNB – c. 10
12. Bouqras, no Eufrates, confluência com o rio Khabur – Síria – c. 11
13. Nevali Çori, margem oriental do Eufrates – Turquia – c. 11
14. Çatalhöyük, na Turquia – 7000 a.C. – c. 11
1. Ohalo – margem oeste do lago de Genesaré – Israel – 20000 a.C. – c. 2 e 3
Enquanto as pessoas de Pushkari [na Ucrânia, em 20000 a.C.] costuram suas roupas e o artista pinta dentro de Pech Merle [na França, em 20000 a.C.], outros caçam cangurus nos matagais da Tasmânia, antílopes nas savanas do leste africano e pescam no Mediterrâneo e no Nilo. Esta história visitará esses e outros caçadores-coletores, e depois examinará como o aquecimento global mudou as vidas de seus descendentes. Começa, porém, no Crescente Fértil — um arco de montanhas ondulantes, vales fluviais e bacias lacustres hoje coberto pela Jordânia, Israel, Palestina, Síria, sudoeste da Turquia e Iraque. É onde surgirão os primeiros camponeses, cidades e civilizações.
Um sítio de acampamento de caçadores-coletores floresce na margem oeste do lago Tiberíades, também conhecido como mar da Galileia. Quando escavado por arqueólogos, o sítio será chamado de Ohalo e reconhecido como um dos assentamentos mais bem preservados do LGM [Last Glacial Maximum = Último Máximo Glacial]. Localizado longe das camadas de gelo e paisagens de tundra, a floresta de carvalho não fica distante. As moradas são feitas de galhos de arbustos, as pessoas usam roupas de couro e fibras vegetais. Uma nova choupana está em construção: arbustos cortados foram enfiados no chão e são trançados para formar um domo. Montes de galhos folhudos e couros de animais foram preparados para ser usados como material para o telhado. Esse trabalho de construção envolve muito menos esforço que o necessário em Pushkari; na verdade, a vida em Ohalo parece mais atraente em todos os aspectos.
Muita gente se espalha ao longo da margem do lago: alguns grupos conversam sentados, crianças brincam, velhos dormitam ao sol da tarde. Uma mulher aproxima-se das choupanas, vindo da beira d’água, com uma cesta de peixes recém-pescados, e outras penduram redes sobre barcos recobertos de couro para secar. A mulher chama os filhos para entrar com ela em sua moradia, onde os peixes serão enfiados em cordões e pendurados para secar.
Duas mulheres saem da mata trazendo raposas e lebres recém-abatidas. Seguem-se vários homens com uma gazela amarrada numa vara. Aparecem mais mulheres, e depois crianças, com sacos e cestos carregados de todas as formas imagináveis — na cabeça, arrastados pelo chão, pendurados nos ombros, amarrados na cintura. As carcaças são postas junto de uma fogueira e sacos e cestos esvaziados em couros. Caem montes de frutas, sementes, folhas, raízes, cascas e talos de plantas. Haverá um banquete esta noite. Um rapaz está parado no meio dessa movimentada cena aldeã, inteiramente despercebido pelos que trabalham e brincam. É John Lubbock, e Ohalo em 20000 a.C. é onde começam suas viagens pela história humana.
Incapaz de dormir, John Lubbock fica sentado à beira do lago, vendo os morcegos em ação e desfrutando a brisa noturna. Do outro lado da água, silhuetas de gamos que pastam recortam-se ao luar na borda da mata. Ele tem às suas costas as choupanas de Ohalo, a alguns metros da beira d’água e agora inteiramente vazias, pois as pessoas dormem sob as estrelas, em torno da fogueira fumegante. Os pisos da choupana foram deixados sujos — alguns com lascas de pedra espalhadas, outros com os detritos de uma refeição recente. Fieiras de peixes e feixes de ervas pendem dos caibros lá dentro, cestos de vime e gamelas amontoam-se contra as paredes.
Alguém suspira e se vira, uma criança chora e é consolada. As árvores farfalham quando uma brisa forte sopra entre as choupanas de Ohalo; a fogueira emite um estalo e uma faísca fulgente eleva-se no ar. Sobe em espiral e depois desce flutuando, não na fogueira, mas adiante, no mato seco que cobre o telhado de uma choupana.
Fumaça de madeira. Lubbock inspira-a fundo, supondo que vem como uma fagulha do fogo que morre. Mas a fumaça continua e aumenta; torna-se uma nuvem pungente, visível. Tossindo e voltando-se, ele vê a choupana em chamas. As pessoas acordaram e a desmontam, abafando o fogo com os pés e correndo em busca de água. Mas a brisa suave derrota com facilidade tais esforços frenéticos — levanta uma dezena de talos, folhas e galhos ardentes e espalha-os por toda a volta. Uma segunda e uma terceira choupana estão agora em chamas. As pessoas se retiram. Protegendo os rostos e apertando com força as crianças, juntam-se à beira do lago para ver arder seu acampamento.
O incêndio em Ohalo pode não ter levado mais de alguns minutos para reduzir um grupo de choupanas a círculos de tocos calcinados. Se começou dessa forma ou por outro meio, não se sabe em absoluto — talvez fosse um incêndio deliberado das choupanas infestadas de pulgas e piolhos. Mas o que pode ter sido trágico para as pessoas de Ohalo foi uma bênção para os arqueólogos do século XX. Dentro de poucos anos, a água do crescente nível do lago inundou o sítio, protegendo-o da decomposição. Ohalo perdeu-se da vista e da memória humanas até que uma seca em 1989 causou uma queda de 9 metros no nível da água e deixou à mostra círculos de carvão onde antes havia as moradas feitas de arbustos.
De manhã, as pessoas de Ohalo vasculham as cinzas quentes e os restos ainda fumegantes de seu acampamento. Pegam uns poucos artigos valiosos — um cabo de faca de osso com lâmina de pedra encaixada, uma esteira que escapou às chamas, um arco queimado que pode ser consertado. Com essas coisas, partem para a floresta de carvalho, em busca de outro lugar para acampar.
Fossem eles camponeses, em vez de caçadores-coletores, o incêndio teria destruído mais que choupanas de arbustos; com muita probabilidade, moradas feitas de madeira, currais de animais, cercas e grãos armazenados; seus rebanhos poderiam ter fugido ou mesmo morrido nas chamas. Em vez de abandonar o sítio à natureza, os camponeses teriam tido de permanecer e reconstruir, por causa de seu investimento na terra em volta: abertura de clareiras na floresta, construção de cercas e plantio de safras. Mas as pessoas de Ohalo podem simplesmente desaparecer na mata, dirigindo-se para a planície costeira mediterrânea a oeste. Lubbock decide que a mata pode esperar e parte para contornar o lago, meter-se no matagal e entre as árvores, rumo às baixas colinas a leste.
2. Azraq – Jordânia, 100 km ao sul do lago de Genesaré – 20000 a.C. – c. 3
O indício do pólen deixa claro que quando os caçadores-coletores se mudaram para leste, afastando-se das terras costeiras mediterrâneas, a floresta desapareceu, deixando algumas árvores espalhadas dentro de matagais, arbustos e ervas — uma estepe florestal. Assim que se cruzava o Jordão, as árvores se tornavam menos abundantes, embora sobrevivendo nas encostas que levavam ao planalto; e quando se andava mais para leste, os próprios matagais e arbustos diminuíam até vir o deserto — exatamente como existe hoje. Mas dentro desse deserto havia oásis, notadamente em Azraq, onde lagos interiores atraíam não apenas muitos pássaros e animais, mas também caçadores e coletores. E é para Azraq que Lubbock se dirige agora, após um descanso em meio a um campo de vibrantes papoulas vermelhas na estepe.
Azraq, o lugar que T. E. Lawrence, em Os sete pilares da sabedoria, chamou de rainha dos oásis, aparece quando John Lubbock sobe o último cume de pedregulhos de lava. Ele viajou 100 quilômetros desde o mar da Galileia, grande parte deles estéril deserto com temperaturas noturnas enregelantes. Agora olha o outro lado por cima das águas do lago, que reluzem aos primeiros raios do sol matinal. Gazelas atravessam delicadamente o pântano em volta; o que fora uma simples mancha roxa adiante transforma-se em folhagem, uma rica seleção de verdes, amarelos e marrons, à medida que as árvores ganham forma; o novo dia é recebido por pássaros de doce canto e minúsculos fiapos de fumaça de fogueiras nos muitos acampamentos que cercam o lago.
São de caçadores que se reuniram em Azraq para os meses de inverno, depois de passarem o verão dispersos por toda a estepe e o deserto. Agora tornam a juntar-se para trocar notícias, renovar amizades e talvez celebrar um casamento. Também trazem artigos de comércio; conchas das margens do mar Vermelho e do Mediterrâneo, gamelas de madeira escavada e peles.
Lubbock passa o dia explorando os pântanos, vendo as aves andar e nadar no lago. Quando descansa, folheia seu exemplar encadernado em couro e meio esbagaçado de Tempos pré-históricos, impressionado com os elegantes desenhos de artefatos e tumbas. O título completo é bastante revelador: Tempos pré-históricos ilustrados com vestígios antigos e as maneiras e costumes de selvagens modernos [Prehistoric Times as Illustrated by Ancient Remains and the Manners and Customs of Modern Savages]. Grande parte do livro é dedicado aos últimos, com descrições de povos tribais como os aborígines australianos e os esquimós (Inuit) como representantes vivos da Idade da Pedra. Lubbock escolhe um capítulo para ler ao acaso, e descobre que embora o autor vitoriano achasse que as pessoas pré-históricas tinham mentes infantis, apreciou as habilidades delas na fabricação de instrumentos, sobretudo no trabalho em pedra.
No fim da tarde, Lubbock chega a um pequeno acampamento logo abaixo do afloramento de basalto e ao lado de um poço de água doce que brota de uma fonte. Tem um abrigo simples: couros de gazela amarrados com tendões e apoiados num pau de cumeeira e estacas mantidas eretas por calços de pedra. Nada desse abrigo restará para os arqueólogos descobrirem, em contraste com as atividades do lado de fora, onde um homem e uma mulher geram uma enorme quantidade de lascas de pedra enquanto fazem instrumentos. Sentam-se de pernas cruzadas, usando colares feitos de conchas tubulares conhecidas por nós como dentálio. Uma criança sentada ali perto brinca com nódulos de pedra, e sem o saber aprende as artes de fazer instrumentos. Uma outra muito mais jovem dorme à sombra do abrigo, onde uma velha mói devagar sementes num pilão de basalto. Uma lebre pende do pau de cumeeira.
Outro membro do grupo empenha-se numa tarefa crucial para a sobrevivência humana em todo o mundo pré-histórico: fazer fogo. Uma jovem agachada prende um pedaço de madeira no chão com os dedos dos pés. Tem nas mãos uma fina vareta de madeira mais mole, que gira com muita rapidez num pequeno buraco na madeira mais dura, tendo acrescentado alguns grãos de areia para aumentar o atrito. Dentro de poucos instantes, acumula-se um montinho de pó, que depois arde. Ela põe uns fiapos de mato seco e logo tem fogo para uma fogueira próxima. Lubbock verá essa técnica usada repetidas vezes em todo o mundo; uma técnica que ele próprio vai aperfeiçoar. Também verá outra: fazer fagulhas batendo pedras quebradiças uma na outra. Mas no momento, seu interesse é observar a fabricação de instrumentos de pedra, para ver se seu xará vitoriano estava correto sobre o grau de habilidade exigido.
Os que trabalham com pedra conversam enquanto o fazem, às vezes praguejando quando uma ótima lâmina se quebra acidentalmente, às vezes comentando uma concha fóssil que aparece quando o nódulo se parte pela metade. Lubbock pega um nódulo e um martelo de pedra e tenta fazer uma lâmina; mas consegue apenas duas grossas lascas e um dedo ensanguentado. Lembra-se de um trecho de Tempos pré-históricos sobre instrumentos de pedra: “Por mais fácil que pareça fazer tais lascas, um pouco de prática convencerá qualquer um que tente fazê-lo, de que é preciso um certo jeito; e que também é necessário ter cuidado na escolha da pedra.”
Lubbock observa dois homens chegarem ao acampamento em Wadi el-Uwaynid. Eles andaram caçando sem muito sucesso. Com o cair da noite, a lebre é assada num espeto e comida com uma grossa papa servida em cascos de tartaruga. Chegam visitantes de acampamentos próximos, exigindo que se prepare mais comida e se ponha mais lenha na fogueira. Logo, pelo menos vinte pessoas estão reunidas, e suas conversas fundem-se imperceptivelmente num canto baixo. Lubbock sobe num penhasco de basalto próximo e olha o tênue abrigo embaixo, a fogueira e a multidão sentada. Estrelas surgem e a lua sai. É uma cena repetida não apenas por todo Azraq, mas também por todo o oeste da Ásia — um mundo de caçadores-coletores conhecido dos arqueólogos apenas pelos depósitos de artefatos de pedra que deixaram para trás.
3. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 12300 a.C. – cultura natufiana – c. 4
De Wadi el-Uwaynid, Lubbock viajou 150 quilômetros e mais de seis milênios para chegar de volta às densas matas da região mediterrânea. A data é 12300 a.C., e ele está parado na margem ocidental do lago Hula numa tarde de outono, olhando as colinas cobertas de carvalhos, amêndoas e pistache a oeste. Aninhado na encosta voltada para o leste, vê-se um assentamento com os vermelhos, castanhos-avermelhados e marrons de moradas de couro e arbustos fundindo-se de forma quase inconsútil com a mata em volta. É muito maior que qualquer outro assentamento que Lubbock já viu, e merece realmente ser chamado de aldeia.
Por entre brechas nas folhudas árvores John Lubbock vê cinco ou seis moradas alinhadas ao longo da mata da encosta. São cortadas na própria terra, com pisos subterrâneos e baixas paredes de pedra que sustentam telhados de palha e couro. Com moradas tão bem construídas e ordenadas, a aldeia parece muito diferente do que agora parecem assentamentos planejados ao acaso e construídos às pressas em Ohalo e Azraq. É evidente que as pessoas planejaram viver nessa aldeia o ano todo. É ‘Ain Mallaha, uma aldeia do novo estilo de vida surgido dentro das florestas de carvalho que crescem por todas as montanhas mediterrâneas. Mais que um novo estilo de vida — uma cultura completamente nova, que os arqueólogos chamam de natufiana. Ofer Bar-Yosef, professor de arqueologia em Harvard e deão da arqueologia do oeste asiático, acredita que essa cultura seja o “ponto sem retorno” na estrada para a agricultura.
Parado no limiar da aldeia, Lubbock observa sua gente a trabalhar. São altos e saudáveis, bem vestidos com roupas feitas de pele, alguns usando pingentes de conchas e contas de osso. Exatamente como em Ohalo, o trabalho principal é transformar plantas selvagens em comida, plantas colhidas na mata e na estepe florestal. Mas o empreendimento deles é agora bastante diferente, em escala muito maior e trabalho muito mais árduo. Os pilões de pedra que usam têm proporções de rochedos. São muitos braços no trabalho — moendo, malhando, debulhando e cortando. Cestas de bolotas e amêndoas esperam para ser abertas e depois trituradas em farinha e pasta.
Lubbock passeia entre os trabalhadores, olhando por cima de seus ombros, roubando um pouco de polpa de amêndoa para provar. Aromas de gostos vegetais triturados e fumaça de lenha fundem-se com o pilar ritmado dos pilões, a conversa em voz baixa dos adultos e o riso das crianças. Mas nem todos os adultos trabalham; alguns sentam-se ociosos ao sol da tarde; pelo menos duas mulheres estão no término da gravidez. Outra encosta-se na parede de uma morada com um cachorro adormecido no colo. Lubbock passa e entra na morada. Os restos da habitação acabarão por ser escavados pelo arqueólogo francês Jean Perrot em 1954 e ficarão conhecidos sem nenhum glamour como n° 131.
A morada 131 é um pouco maior que as outras, talvez 9 metros de largura, permitindo que cinco ou seis pessoas se sentem ou durmam com conforto. Partes do interior são escuras e bolorentas; por toda parte, raios partidos de sol da tarde entram pelo telhado de palha, sustentado por mourões internos mantidos de pé e estabilizados por calços de pedra. Peles forram as paredes de pedra e esteiras de palha cobrem o chão.
Logo após a entrada há cinza espalhada onde uma fogueira ardeu na noite anterior para impedir as mordidas dos insetos à solta. Outro fogo agora fulge no centro do piso; um homem agacha-se ao lado e depena uma fieira de perdizes. Corta as aves nas juntas e as põe para assar sobre lajes de pedra quente. Atrás dele, uma terceira fogueira arde, servindo de centro para alguns jovens que consertam arcos e flechas. Usam-se pedras chatas com fundos sulcos paralelos para endireitar finos galhos que serão usados como varas; lascas de pedra afiadas como navalha são pregadas usando-se resina para formar pontas e barbelas.
Pilões e almofarizes de pedra, cestas de vime e gamelas de madeira empilham-se junto às paredes em volta. Dos caibros do telhado pende um grupo de instrumentos bastante diferentes de qualquer um que Lubbock tenha visto antes — foices. Os cabos de osso são enfeitados com desenhos geométricos ou foram esculpidos em forma de jovem gazela. As lâminas são feitas de cinco ou seis lascas de sílex, presas firmemente num sulco com resina. Ao balançarem, girarem e pegarem a luz do sol, as lâminas brilham, pois foram polidas pelos muitos milhares de talos de plantas que cortaram.
A curta distância da morada 131, Lubbock encontra outra, abandonada — o telhado e as paredes há muito desabaram, as fundações de pedra roubadas para uso em outra parte. Na ausência de vivos, essa morada desertada e dilapidada tornou-se um cemitério. As covas são sem marcas, mas contêm corpos ricamente enfeitados.
Há um grande pilão de pedra escavado num pedaço de rocha aflorado perto do centro da aldeia, no qual Lubbock se senta para apreciar o cenário. Lubbock vê transformarem grandes nódulos de basalto em almofarizes e pilões, a superfície de um sendo enfeitada com um complexo desenho geométrico. Ouve o quebrar da pedra, o som de vozes e o latido dos cachorros. Observa as pessoas fazendo contas — cortando conchas de dentálio em segmentos e enfiando-os num barbante. A gamela onde pegam as conchas também contém um bivalve das águas do Nilo. Talvez tenha sido trocado de pessoa a pessoa, assentamento a assentamento, até viajar pelo menos 500 quilômetros para o norte; ou talvez fosse a lembrança de uma longa viagem feita por um dos aldeões de ‘Ain Mallaha.
Lubbock deixa a aldeia pela mata quando a luz começa a morrer. Diminuem as batidas, perde-se o ritmo, e depois param, como pára a quebra das pedras. As pessoas de ‘Ain Mallaha voltam para suas moradas ou reúnem-se em volta das fogueiras. A conversa em voz baixa transforma-se num canto baixo. Camundongos e ratos saem para alimentar-se de nozes e sementes que caíram no chão; os cachorros, para espantá-los.
Com a última luz, Lubbock lê mais um pouco de Tempos pré-históricos. Embora decepcionado por não encontrar nada sobre o oeste da Ásia, dois trechos parecem importantes para ‘Ain Mallaha. Num, o xará vitoriano reuniu minúsculos fiapos de indícios para sugerir que os cachorros foram a primeira espécie domesticada. Mas em outro parece haver errado completamente:
“o verdadeiro selvagem não é livre nem nobre; é um escravo de suas necessidades, suas paixões; imperfeitamente protegido do clima, sofre de frio à noite e do calor do sol durante o dia; ignorando a agricultura, vivendo da caça, e imprevidente no sucesso, enfrenta sempre a fome, que muitas vezes o leva à pavorosa alternativa de canibalismo ou morte”.
O John Lubbock moderno desejaria poder mostrar ao xará as sólidas casas, as roupas e os alimentos agora comidos na aldeia — tudo feito pelas pessoas que ignoram inteiramente a agricultura, mas parecem nobres e livres. Cai no sono quando o canto natufiano se funde imperceptivelmente com o das corujas e o arranhar dos besouros.
Os primeiros raios de sol que atravessam os folhudos galhos mosqueiam o chão; Lubbock acorda e ouve passos e vozes que se aproximam vindo da mata. Quatro homens e dois meninos retornam a ‘Ain Mallaha após uma excursão de caça de madrugada. Trazem três carcaças de gazelas, já estripadas e parcialmente cortadas, mas deixando uma trilha de sangue entre as árvores.
Na aldeia, as carcaças são penduradas dentro de uma morada, longe do sol e das moscas. Quando assadas, a carne será zelosamente dividida entre a família e os amigos. Os caçadores são acolhidos de volta e contam a história da caça — como os homens esperaram emboscados enquanto os meninos perseguiam e espantavam os animais em meio a uma chuva de flechas. Conversa-se sobre as várias pegadas e trilhas de animais que viram, e as mulheres ficam sabendo de plantas comestíveis que pareciam prontas para a coleta. Duas moças pegam um cesto e saem para um campo de cogumelos, esperando alcançá-lo antes dos gamos. Lubbock decide segui-las.
Um cachorro decide seguir as duas moças. Passa saltando por Lubbock, muito parecido com um lobo, e logo desaparece no mato baixo. A tentativa de segui-las logo é abandonada por Lubbock, pois as mulheres andam depressa, usando um labirinto de trilhas minúsculas mas bem palmilhadas que serpenteiam entre grupos de carvalhos e amendoeiras e passam por macegas de tremoços e moitas de pilriteiro. O arqueólogo perde a trilha delas e vê-se em mato mais aberto perto dos pântanos que bordejam o lago da bacia Hula. As trilhas continuam e tratos de plantas cultivadas encontram-se à sombra dos carvalhos. Entre estas, há ervilhas e trigo selvagem com pesadas espigas de grãos curvadas. Lubbock senta-se junto a um desses campos para descansar, ouvindo o cachorro latir ao longe.
John Lubbock passa a manhã lendo Tempos pré-históricos e observando pássaros no mundo natufiano da bacia do Hula. Depois que o sol subiu e queimou as poucas e
ralas nuvens matinais, dois abutres circularam no limpo céu azul; uma revoada de gansos chegou ao lago e depois pássaros canoros pousaram no trigo selvagem para alimentar-se do grão. Exatamente quando Lubbock decide voltar a ‘Ain Mallaha, chega um grupo de mulheres e posta-se bem a seu lado para inspecionar o trigo. Praguejam um pouco, porque o grão amadureceu mais depressa que o esperado e elas sabem que grande parte agora será perdida. Dentro de minutos, as mulheres estão em ação, cortando os talos com as foices de lâmina de sílex que Lubbock vira penduradas dentro da morada 131. Cortam os talos na base, para terem a palha, além do grão; exatamente como temiam, as espigas se despedaçam quando tocadas, espalhando muitas das espiguetas — a semente com o longo talo pegado — no chão. Trabalhando rápido, elas pegam os montes de talos e espigas e amarram-nos em feixes.
De volta à aldeia, as espigas são malhadas em gamelas para soltar as espiguetas que restam; pedras em brasa são acrescentadas e mexidas em volta. Lubbock depreende que isso torra as espiguetas e as deixa bastante quebradiças. Depois, são despejadas em pilões de madeira e moídas para soltar o grão; despejam-se os pilões em bandejas de casca de árvore, que são agitadas para fazer a separação e tirar a casca. O grão volta aos pilões e é então finamente triturado, tornando-se farinha; após ser misturado com água e transformado em massa, é cozido como panquecas chatas em pedras quentes, não mais que poucas horas depois de estarem crescendo nas hortas selvagens de ‘Ain Mallaha.