Um passeio pela pré-história com John Lubbock 3

Sumário

Post 1

1. Ohalo – margem oeste do lago de Genesaré – Israel – 20000 a.C. – c. 2 e 3
2. Azraq – Jordânia, 100 km ao sul do lago de Genesaré – 20000 a.C. – c. 3
3. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 12300 a.C. – cultura natufiana – c. 4

Post 2

4. Abu Hureyra – nas margens do Eufrates, noroeste da Síria – 11500 a.C. – cultura natufiana – c. 5
5. ‘Ain Mallaha – margem ocidental do lago Hula – Israel – 10800 e 10000 a.C. (Dryas Recente) – c. 6
6. Jericó – vale do Jordão – 9600 a.C. – PPNA [Pre-Pottery Neolithic A – Neolítico pré-cerâmico A] – c. 7
7. WF16 – Wadi Faynan, no sul da Jordânia – 9000 a.C. – c. 8
8. Wadi Ghuwayr, no sul da Jordânia – 8500 a.C. – PPNB [Pre-Pottery Neolithic B – Neolítico pré-cerâmico B] – c. 8
9. Beidha, no Wadi Gharab, 30 km ao sul de Wadi Ghuwayr, ao norte de Petra – 8000 a.C. – PPNB – c. 9

Post 3

10. Jericó – vale do Jordão – 7000 a.C. – PPNB – c. 10
11. ‘Ain Ghazal, no Wadi Zarqa – Jordânia – 6500 – PPNB – c. 10
12. Bouqras, no Eufrates, confluência com o rio Khabur – Síria – c. 11
13. Nevali Çori, margem oriental do Eufrates – Turquia – c. 11
14. Çatalhöyük, na Turquia – 7000 a.C. – c. 11

MITHEN, S. After the Ice: A Global Human History, 20,000 – 5000 BC. London: Weidenfeld & Nicolson, 2011, 664 p.

 

10. Jericó – vale do Jordão – 7000 a.C. – PPNB – c. 10

De Beidha, John Lubbock encaminha-se diretamente para oeste, seguindo um rio em meio a um vale de mata até as baixadas e por fim o rio Jordão. A vegetação é luxuriante, junco e papiro dos dois lados do rio, mas fora isso trata-se de uma paisagem seca e estéril. Além do Jordão, a terra sobe e logo se torna o que é hoje o deserto do Neguev. Amanhece. Do outro lado do rio, ergue-se um preguiçoso fiapo de fumaça de uma fogueira.

O fogo arde para um grupo de homens de Jericó que se dirige para o sul com cestos de excedente de grãos. Uma dúzia deles carrega o pesado fardo, indo a um encontro com caçadores-coletores que vivem dentro do Neguev. O grão será trocado por conchas marinhas e carne de caça selvagem.

Enquanto os mercadores se dirigem para o sul, Lubbock viaja para o norte, para visitar Jericó uma segunda vez. Segue a base das montanhas da Judeia, ao longo da margem ocidental do mar Morto. Wadis, alguns contendo pequenos riachos que logo secarão sob o sol quente, cortam as colinas. Lubbock passa por rebanhos de cabras que são levadas a pastar por meninos, e pequenos grupos que recolhem betume e sal. Chega em 7000 a.C. O assentamento mudou desde quando ele viu o primeiro trigo sendo semeado [conferir o post A fundação de Jericó]: os conjuntos de pequenas moradias circulares foram substituídos por esparramados prédios retangulares em meio não apenas a campos aráveis e rebanhos de cabras, mas a filas e filas de adobe secando ao sol. Jericó passou de uma aldeia de caçadores-coletores-cultivadores a uma cidade de camponeses, artesãos e mercadores.

Lubbock atravessa pátios e caminha entre as casas, envolvido pelo clamor da vida neolítica. Muito trabalho se faz ao ar livre — preparação de comida, corte de pedra, fabrico de cestos, tecidos e artigos de couro. Ele se lembra de Beidha; enquanto passeia pela cidade, vê bandos semelhantes de cachorros que revolvem o lixo, e o mesmo fluxo entre o fedor de carne pendurada, a simplicidade da fumaça e a fragrância de ervas fumegantes. Pára para observar uma mulher socando um pilão; o instrumento é tão grande que ela se senta numa ponta e curva repetidas vezes as costas ao estender-se com a mão de pedra até a outra — trabalho de incontáveis futuras gerações.

As casas são construídas mais de adobe que de pedra. Têm um só andar e parecem de desenho um tanto mais simples que as de Beidha, não tendo sinal dos prédios com corredores. Lubbock escolhe uma ao acaso. Portas de madeira dão-lhe acesso a três aposentos retangulares sucessivos, cada um com piso de reboco polido e esteiras de palha. Não há ninguém em casa, e pouca coisa à guisa de móveis. Um monte de esteiras e couros sugere uma área de dormir, cestas e tigelas de pedra parecem ser bens valiosos.

No terceiro aposento, veem-se numa parede três estatuetas de barro, todas femininas e com cerca de 5 centímetros de altura. Uma é particularmente impressionante — veste o que parece uma túnica solta e foi esculpida com os braços cruzados, de modo que cada mão repousa em um seio. Junto a elas, há o que parece uma cabeça humana. Lubbock ergue-a com cuidado — é literalmente uma cabeça humana, ou pelo menos uma caveira cujo rosto foi delicadamente modelado com gesso.

Crânio engessado encontrado em Jericó (Tell es-Sultan), Neolítico Pré-Cerâmico B, c. 7200 a.C. BM 12741-42 Enquanto anda pela cidade, Lubbock encontra mais cabeças rebocadas em outras casas, junto com simples caveiras colocadas em cantos de quartos ou dentro de nichos nas paredes. Após muito procurar, encontra um homem sentado dentro de casa trabalhando num rosto. Está sendo modelado na caveira de seu pai, o homem que construiu a casa e cujas mãos fizeram o piso de argamassa sob o qual agora repousam seus ossos. Depois que o corpo ficou enterrado durante vários anos, a cova foi reaberta, o crânio removido e o piso remendado com nova argamassa. Agora o filho homenageia o pai.

O homem que trabalha está de cócoras ao lado de bacias de argamassa branca, tinta vermelha e uma variedade de contas. As cavidades nasais e órbitas oculares já foram tapadas e deixadas a secar; nivelou-se a base do crânio, para que se mantenha em pé sem apoio. Agora aplica-se a camada final de fina argamassa, que logo será pintada de vermelho. Conchas de caurim serão inseridas como olhos, e depois se exporá o crânio dentro da casa. Enquanto ele amassa, afila e modela a argamassa, sua esposa colhe lentilhas nos campos, lutando com o peso do bebê amarrado às costas. Um dia esse filho exumará com amor e modelará a cabeça do pai, para assegurar que também ele continue a viver dentro da casa, mesmo depois de ter os ossos enterrados sob o piso.

 

11. ‘Ain Ghazal, no Wadi Zarqa – Jordânia – 6500 – PPNB – c. 10

O tempo de Lubbock na era neolítica do oeste asiático esgota-se rapidamente. Ele tem portanto que viajar 50 quilômetros até o lado oriental do vale do Jordão, onde encontrará a maior das cidades neolíticas, a hoje conhecida como ‘Ain Ghazal. E assim, durante dois dias, ele viaja através da densa floresta do vale do Jordão, subindo sua íngreme escarpa oriental em direção a pastagens pontilhadas de árvores dispersas.

O primeiro sinal de uma cidade estar próxima é quando as trilhas de cabras que ele segue se alargam em estradas bem palmilhadas entre pequenos campos, alguns plantados com lentilhas e ervilhas, outros com trigo e cevada. Mulheres e crianças trabalham, colhendo as lentilhas e partindo aos pares e trios para levar suas pesadas cargas até a cidade. Muitos cestos esperam para ser levados, e assim Lubbock toma um nos ombros e segue uma mulher com seus dois cansados filhos. Acompanha-os no vale hoje conhecido como Wadi Zarqa; há caminhos de pedra para atravessar o rio, onde se amarraram muitas cabras. Uma trilha conduz então diretamente ao coração da cidade.

Enquanto anda, Lubbock nota que todo trato de solo disponível foi plantado. O motivo logo se torna claro — a cidade é três ou talvez quatro vezes maior que Jericó. Os lados do vale de Wadi Zarqa próximos, porém, são inteiramente estéreis — o solo exaurido pelas repetidas safras, e depois levados pelas chuvas do inverno depois que a vegetação restante foi cortada para fornecer lenha. Algumas das encostas foram aterradas para a construção de novas casas, e famílias vivem em tendas e abrigos de taipa temporários. ‘Ain Ghazal “desfruta” de uma explosão populacional, em parte de seus próprios habitantes, em parte do influxo de pessoas cujas próprias aldeias já foram abandonadas devido à erosão e exaustão da terra circundante.

A data é 6500 a.C., e a cidade é um labirinto de construções — algumas novíssimas, algumas em reparos, outras caindo aos pedaços e abandonadas. São construídas de pedra bruta, madeira, juncos, barro e argamassa. As pessoas retornam às suas casas com o cair da noite; algumas se põem a comer, outras se preparam para dormir. Lubbock deixa o cesto diante da casa da mulher a quem seguiu, que agradecerá às crianças por terem-no carregado, para grande surpresa delas. Durante a hora seguinte ele explora a cidade, espiando por janelas e por cima dos ombros de outras pessoas. Muita coisa é igual a Beidha e Jericó, com cabeças rebocadas e pequenas estatuetas de barro exibidas em destaque. Numa das casas, ele vê um excelente modelo de uma raposa — na verdade, modelos de animais parecem particularmente importantes para as pessoas que aí vivem, sobretudo de gado, embora se doméstico ou não permaneça incerto.

Em outra casa, um grupo senta-se em torno de uma fogueira em chamas, enquanto lâminas de obsidiana, peças de coral e pedras de cores fortes passam de mão em mão. Vêm de um homem de roupas e estilo de cabelo distintos — um mercador que chegou recentemente do norte. Espiando pela porta, Lubbock vê pequenas esferas, discos e pirâmides de barro que são contados e postos em bolsas de couro. Esses artigos são inteira novidade para ele, mas o cansaço vence a curiosidade e ele encontra uma casa abandonada para dormir.

Na manhã seguinte, Lubbock acorda e encontra a cidade silenciosa e deserta: não se cozinha nos pátios, mulheres não partem para os campos, homens não erguem madeiras ou assentam pisos de argamassa. Enquanto atravessa os becos entre as casas, um baixo murmúrio se transforma num baixo balbucio de vozes. Ao dobrar uma esquina, encontra uma reunião de várias centenas de pessoas. Meninos sentam-se nos ombros dos pais, as crianças mais velhas subiram em muros e balaustradas de janelas. Todos clamam por uma visão. No momento em que Lubbock chega, as portas de madeira de um prédio se abrem e sai uma procissão. Pairam o silêncio e a quietude.

Seis homens vêm à frente, usando máscaras, túnicas e adereços de cabeça muito parecidos aos descobertos em Nahal Hemar. Trazem uma plataforma contendo um grupo de estátuas, feitas de feixes de junco revestidos de argamassa amarrados para formar torsos, braços e pernas. Há talvez doze estátuas de argamassa, algumas de cerca de 1 metro de altura, outras muito menores. Têm corpos achatados, pescoços alongados, grandes caras redondas, olhos arregalados com profundos centros negros. Os narizes são modelados como tocos; os lábios mal existem. A argamassa é branco puro; algumas estátuas estão envoltas em finas peças têxteis. Uma tem os braços cruzados sob os seios, projetando-os para o espectador, ao qual prende com seu olhar acerado.

A multidão clama para ver as estátuas, sabendo que será a sua última oportunidade, pois elas serão enterradas. Mas as pessoas também sabem que dentro de algunsAs estátuas de 'Ain Ghazal anos outro conjunto de estátuas será trazido por essas portas de madeira, e depois outro e mais outro; nova vida sempre seguirá a morte, como as plantas da primavera sempre seguem a colheita. Lubbock junta-se à procissão até uma casa abandonada e espreme-se lá dentro para ver a cerimônia de enterro e ouvir as preces e cantos. Cada estátua é erguida e depois cuidadosamente colocada num poço cavado no piso. Mais preces, e fecha-se o poço. Os “sacerdotes” retornam ao prédio de onde saíram, as portas fecham-se com estrondo. A multidão se dispersa; algumas pessoas parecem em estado de choque, algumas enlutadas, outras confusas.

A cidade de ‘Ain Ghazal teve notável crescimento, alcançando mais de 12 hectares de extensão, transbordando para o lado leste de Wadi Zarqa e abrigando duas mil pessoas ou mais. Em 6300 a.C., porém, já se acha em avançado estado de declínio terminal. Há muitas casas abandonadas e os becos entre elas estão juncados de lixo neolítico. Há pouco mais que um débil eco da outrora ebuliente cidade nas poucas casas habitadas e nos poucos homens e mulheres que ainda trabalham nos pátios. Qualquer casa recentemente construída é pequena e pobre comparada com as da cidade original.

O rio dentro de Wadi Zarqa ainda corre, mas os lados do vale estão nus — não apenas em torno da aldeia, mas até onde a vista alcança. A exaustão e erosão do solo devastaram a economia agrícola de ‘Ain Ghazal. Não resta uma única árvore à distância de uma caminhada da cidade. Seu povo teve de viajar cada vez mais longe a cada ano para plantar suas safras e encontrar forragem para suas cabras. A produção decaiu, o combustível tornou-se escasso e o rio poluído com detritos humanos. A mortalidade infantil, sempre alta, atingiu proporções catastróficas, de modo que o nível populacional despencou, agravado pela constante partida de pessoas que voltavam à vida em aldeias espalhadas. Essa é a história de todas as cidades do PPNB do vale do Jordão — completo colapso econômico.

Lubbock está agora parado acima do vale de Zarqa, e olha a cena chocante de degradação ambiental causada pela agricultura. Ele e os arqueólogos modernos se perguntam se a agricultura poderia ter sido a única causa; os núcleos de gelo mostram que entre 6400 e 6000 a.C. houve um período de temperaturas particularmente baixas e chuvas incertas, se não seca. Mas parece inteiramente impossível desenredar os impactos relativos de agricultura humana e mudança do clima na agora estéril paisagem em torno de ‘Ain Ghazal.

Ao longe, um rebanho de cabras é pastoreado para as colinas. Lubbock observa-as buscando caminho entre as rochas e desaparecendo de vista. Esse rebanho retornará a ‘Ain Ghazal, mas não por muitos meses, uma vez que surgiu uma nova economia. A vida na cidade não é mais sustentável no vale do Jordão e foi substituída pelo pastoreio nômade, o estilo de vida que continua até hoje. Dentro de poucos anos, ‘Ain Ghazal não será mais que um lugar de encontro sazonal para pastores de cabras nômades, que erguerão frágeis abrigos nas ruínas da cidade, enquanto seus animais pastam nos cardais que brotaram nas moradias desertas e locais de enterro dos deuses.

 

12. Bouqras, no Eufrates, confluência com o rio Khabur – Síria – c. 11

Ásia Ocidental entre 20000 e 5000 a.C. - Sítios citados no livro de Steven Mithen, After the Ice.John Lubbock aproxima-se do fim de sua jornada pela revolução neolítica no oeste asiático, que transformou os caçadores-coletores de Ohalo nos agricultores, artesãos, mercadores e sacerdotes de ‘Ain Ghazal. Dessa cidade, ele viajou 500 quilômetros para noroeste, em companhia de pastores e mercadores, atravessando o deserto sírio de oásis em oásis. Isso o levou ao Eufrates, onde na confluência com o rio Khabur ele visita a cidade de Bouqras, estabelecida num promontório que dá para a planície aluvial. Em seus prédios, encontra pinturas de parede — imagens de grandes gaivotas, grous ou cegonhas — a primeira visão de uma quantidade sempre crescente de obras de arte que vai encontrar nos estágios finais de sua jornada oeste asiática.

Mas Bouqras, como ‘Ain Ghazal, já passou do seu auge; muitas das casas de adobe entraram em decadência. A planície aluvial antes oferecia ampla terra para caça, pastagem e civilização. Agora chegaram os tempos difíceis, e a população diminuiu de mil para pouco mais de duas centenas no máximo. Alguns artesãos especializados continuam a trabalhar, produzindo ótimas tigelas de mármore e alabastro.

 

13. Nevali Çori, margem oriental do Eufrates – Turquia – c. 11

Lubbock parte para nordeste, seguindo o Eufrates pelas montanhas Taurus a leste e entrando nas ondulantes encostas de colinas do planalto Anatólio. Ali, o rio muda de direção, fazendo um arco para oeste por entre colinas estéreis de calcário entremeadas de planícies com florestas. Ali, não mais de 3 quilômetros ao sul do Eufrates, ele encontra a aldeia de Nevali Çori a cavaleiro das margens de um pequeno riacho tributário. Há cerca de 25 prédios abandonados — todos de um só andar, retangulares e construídos de blocos de calcário ligados com argamassa de barro — mas nenhuma pessoa. A aldeia está deserta, só se veem camundongos e ratos que correm de um lado para outro.

Várias casas foram alinhadas num terraço, com estreitas passagens entre si. Algumas são particularmente grandes, com quase 20 metros de comprimento, e divididas em aposentos vizinhos. A maioria tem piso de argamassa; onde estes decaíram, surgem canais de escoamento de pedra e túmulos.

Os pisos estão cobertos de lixo — ossos de animais, pilões quebrados, instrumentos de sílex e cestos desgastados. É evidente que o abandono da aldeia foi uma coisa feita aos poucos, com um lento declínio dos padrões de higiene e ordem. Em meio ao lixo, Lubbock encontra estatuetas de barro e sílex que caíram de prateleiras de madeira. Um rosto humano estilizado parece conhecido; lembra as máscaras usadas pelos “sacerdotes” de ‘Ain Ghazal, que por sua vez eram semelhantes às máscaras de Nahal Hemar.

A área diante das casas também é uma bagunça. Vários grandes poços de assar começaram a encher-se de aluvião; outros ainda mostram os revestimentos de pedras. Cercados de animais desabaram, e ainda há grupos de pedras de moer em meio a casas e palha. Quem quer que tenha vivido em Nevali Çori, evidentemente foi agricultor como o povo de Beidha, Jerico e ‘Ain Ghazal; mas os daqui tinham crenças religiosas bastante diferentes, como Lubbock avalia ao entrar no que os arqueólogos chamam de “prédio de culto”.

Fica na ponta noroeste do terraço, um prédio quadrado com os fundos na encosta natural. O telhado de junco quase desabou inteiramente, e as paredes desmoronam. Lubbock tem de espremer-se por entre madeiras caídas para descer os poucos degraus até o interior. Ao fazer isso, uma legião de cobras brota de debaixo do lixo no piso.

Um banco de pedra corre ao redor das paredes, dividido em partes por 10 colunas de pedra. Há outras colunas parecendo lages no meio do aposento. Estas têm capitéis em forma de T e parecem ombros humanos; quando ele olha de perto, vê um par de braços humanos esculpidos em baixo relevo em cada face. Dos degraus, olha um nicho na parede defronte. Contém uma cabeça humana, sobre a qual repousa uma cobra — cabeça e cobra esculpidas em pedra. As paredes em volta foram outrora densamente rebocadas e cobertas com exóticos murais pintados em vermelho e preto. Mas a maior parte do reboco caiu no chão, deixando as pinturas como as peças de um quebra-cabeça embaralhado.

Lubbock encontra outras esculturas, algumas de pé, algumas embutidas nas paredes e colunas. Há um grande pássaro, talvez abutre ou águia; uma terceira ave de rapina encima uma coluna com duas cabeças femininas esculpidas. E assim prossegue — mais pássaros, rostos que parecem parte animal e parte humano, outra cobra.

 

14. Çatalhöyük, na Turquia – 7000 a.C. – c. 11

Lubbock parte de Nevali Çori para oeste e faz uma longa viagem, cruzando as montanhas Taurus e entrando no planalto da Anatólia central. Passa por várias pequenas aldeias e algumas cidades maiores. Durante parte da jornada, ele viaja com pastores e em outra com pessoas que visitam parentes em aldeias distantes ou se dirigem para as “brilhantes colinas negras”.

Essas colinas são feitas de obsidiana e encontradas na região que descrevemos hoje como Capadócia. Mesmo em 7500 a.C. as pessoas já as vinham visitando havia vários anos, para recolher o vidro vulcânico depois comerciado e trocado em todo o oeste asiático. A obsidiana que Lubbock viu em Abu Hureyra, Jericó e ‘Ain Ghazal veio da Capadócia — muito provavelmente depois de passar por muitas mãos e famílias diferentes no caminho.

Não surpreende, portanto, que grandes montes de lascas e núcleos jogados fora cerquem muitas das obras em obsidiana, da qual só os melhores pedaços foram retirados. As oficinas, nas quais se podem obter enormes lucros da pedra em troca de contas, peles e minério de cobre, são abundantes. Mas a obsidiana cobre uma área demasiado grande para que se controle todo acesso. E Lubbock passa por muitos pequenos grupos que ou pegam grandes nódulos no chão ou simplesmente quebram grandes lascas de afloramentos da altamente valorizada pedra negra.

Seus companheiros se dirigem para a cidade que conhecemos hoje como Asikli Höyük, localizada na parte oeste da Capadócia, um espraiado assentamento de prédios de adobe. Mas Lubbock toma um rumo diferente, e atravessa o planalto anatólio até sua planície mais ao sul, indo para a cidade neolítica de Çatalhöyük.

Durante toda sua viagem desde Nevali Çori, a vegetação mudou constantemente de estepe para mata e de mata para estepe, sensível as muitas variações na topografia e água — vale de encostas a pique, colinas ondulantes e planície chã cortada por muitos rios. Algumas das matas são agora compostas de enormes carvalhos, por entre os quais ele capta passageiros vislumbres de gamo e gado. Enormes aves de rapina parecem circular interminavelmente no céu.

É 7000 a.C., e Çatalhöyük se acha no seu auge. Quando Lubbock se aproxima, entra numa paisagem densamente cultivada. Os sinais de derrubada de árvores sãoÇatalhöyük comuns — a mata evidentemente se transforma num precioso recurso, pois os cortes mais novos são das árvores menores. Aparecem pequenos campos, em que mulheres e crianças completam seu dia de trabalho, e meninos conduzem rebanhos de carneiros e cabras de volta à segurança noturna da cidade. Esta agora se torna visível, surgindo como uma sólida massa à meia luz do entardecer.

Çatalhöyük é inteiramente diferente de qualquer lugar que Lubbock já viu. Parece ter um muro perimetral contínuo, que não tem entrada nem desejo de receber hóspedes indesejáveis. Olhando mais de perto, Lubbock percebe que não é de modo algum um muro único, mas o resultado de muitas paredes juntas de prédios individuais que se apegam uns aos outros como com medo do que há fora deles. Um rio sujo, coalhado de lixo, estagna-se ao longo de um lado, levando a mangues e pântanos fedorentos atrás da cidade. Do outro lado há uma lagoa lodosa, em torno da qual se instalam as cabras para passar a noite.

Cada casa tem um alçapão de entrada no lado sul e pequenas janelas em qualquer parede exposta acima do telhado vizinho. Algumas portas estão abertas, soltando fumaça e a luz de tremulantes lâmpadas de azeite no ar frio da noite; às vezes um brilho mais ousado, mais forte, emana de uma lareira bem alimentada.

Escolhendo uma porta aberta, Lubbock desce por uma escada de madeira para a área de cozinha de um pequeno aposento retangular. Vê à sua frente uma lareira elevada — uma plataforma com um rebordo para evitar algum transbordamento de cinzas. Emite um profundo fulgor e um baixo calor do combustível de estrume animal. Próximo, construiu-se um forno na parede, revelando adobes ordenados, e ao lado uma bilha de barro com um buraco na base, do qual caem lentilhas. Há utensílios espalhados, um cesto com raízes e uma cabra pequena amarrada na parede. Como tal, é uma cena doméstica conhecida, que poderia ser encontrada em Jericó ou ‘Ain Ghazal. Mas então Lubbock se volta e vê uma cena monstruosa de touros irrompendo da parede.

São três, à altura da cintura — cabeças brancas com raias pretas e vermelhas, das quais brotam enormes chifres pontudos que parecem ameaçar toda a vida humana dentro da casa. Ao lado de Lubbock, uma mulher e um homem sentam-se numa plataforma elevada vizinha aos touros, cabisbaixos, comendo pão em silêncio. Entre eles, uma criança deixou seu pão intocado no prato de madeira.

Em volta dos touros as paredes são pintadas com fortes desenhos geométricos — imagens nítidas e opressivas acima de impressões palmares em preto e vermelho semelhantes às pintadas na caverna francesa de Pech Merle no LGM. Mas enquanto aquelas mãos de caçadores-coletores da Era do Gelo eram acolhedoras, estendidas em saudação aos visitantes dentro da caverna, estas mãos agrícolas de Çatalhöyük parecem mais uma advertência ou um pedido de socorro — seu povo está preso dentro de um bestiário do qual não pode escapar.

E assim começa a excursão noturna por Çatalhöyük, uma visão de pesadelo do mundo que a agricultura trouxe a esses membros da humanidade. Primeiro, Lubbock rasteja por uma pequena entrada para escapar do aposento, mas isso não leva a parte alguma, apenas a um depósito onde se empilham cestos e couros. Por isso ele retorna ao telhado e tenta outra casa, e depois outra e mais outra. Em cada uma, encontra a mesma coisa — a lareira, o forno, a bilha de grão, a plataforma, tudo disposto de forma idêntica, em aposentos de tamanho e forma quase idênticos. Muitos aposentos têm estatuetas de barro dentro de pequenos nichos, ou simplesmente no chão; algumas são evidentemente de mulheres, outras de homens, mas muitas parecem inteiramente sem sexo. A mais espantosa é uma mulher que se senta num trono, ao lado de uma bilha de grão. Tem de cada lado um leopardo; repousa uma mão em cada cabeça, e as caudas dos animais se enroscam em seu corpo.

Os touros variam de aposento para aposento, mas são sempre chocantes, sobretudo quando encontrados nos fortes raios de luar que agora entram pelas minúsculas janelas, ou pelas chamas que dão vida às feras. Há cabeças de touros com longos chifres retorcidos, outras com as caras cobertas de desenhos exóticos, e ainda outras empilhadas umas em cima das outras do chão ao teto. Alguns aposentos têm colunas de pedra com chifres, ou longas filas de chifres postas em bancos, desafiando qualquer um a sentar-se ao seu alcance.

Juntam-se a desenhos geométricos imagens de grandes abutres negros atacando perversamente pessoas sem cabeça, e cenas de gamos e bois enormes cercados por minúsculas pessoas em frenesi. As pessoas reais dormem em suas plataformas. Jazem em posições contorcidas, às vezes acordando de repente e olhando Lubbock que passa, como se pudessem ver mais um intruso em suas vidas.

Lubbock sobe e desce escadas, de aposento em aposento, de horror em horror, até cair exausto e jazer prostrado diante de outra parede esculpida. Põe-se de joelhos de frente para um par de seios femininos que emergem do adobe e reboco. Os dois mamilos estão divididos, e dentro há crânios de abutres, raposas e fuinhas: a própria maternidade violentamente conspurcada. Lubbock não aguenta mais e rasteja pelo chão para a escuridão de breu de um depósito. E ali se esconde, na esperança de que a luz do dia traga libertação desse inferno neolítico.

Çatalhöyük É o amanhecer em Çatalhöyük em 7000 a.C. Cansado após sua atormentada noite, Lubbock tornou a subir para o telhado e encontrou um ponto privilegiado do outro lado da planície. O sol ainda não nasceu e faz frio. Um pastor de cabras já deixou a cidade em busca de pasto para seu rebanho; uma mulher capina os campos que cercam a cidade. Lubbock volta-se para o leste, em direção a Nevali Çori e Göbekli Tepe, cujas obras de arte pareciam prever Çatalhöyük. Mas também o fizeram, ele pensa, os pássaros pintados de Bouqras, as estatuetas de bois e as figuras de massa de ‘Ain Ghazal.

Voltando-se para o sudeste, para as modernas terras de Israel e Jordânia onde começou sua viagem, ele lembra que as aves de rapina haviam sido reverenciadas e as cabeças retiradas de corpos humanos nas primeiras aldeias agrícolas: Jericó, Netiv Hagdud e WF16, E assim as pinturas e esculturas de Çatalhöyük talvez não sejam tão horríveis afinal — simplesmente uma expressão da mitologia que surgiu junto com os campos de trigo quando a agricultura foi inventada e desenvolvida no oeste asiático.

Ele então olha mais atrás ainda no tempo, sua chegada a Ohalo antes de seu incêndio, suas viagens pela estepe e deserto, a ceifa de trigo nas hortas selvagens de ‘Ain Mallaha. Que teriam pensado de Çatalhöyük aqueles caçadores-coletores kebaranos e natufianos? O mais provável é que tivessem ficado confusos e aterrorizados, pois pareciam confiar no mundo natural, na verdade serem eles próprios parte dele. O povo de Çatalhöyük, por outro lado, parecia temer e desprezar o agreste.

Com outra volta, Lubbock olha para oeste, para a Europa. Uma jornada por aquele continente será a próxima etapa de suas viagens pela história global. Começará nas profundezas da Era do Gelo, no extremo noroeste, onde as pessoas caçam renas e vestem-se de peles. Mas primeiro ele tem de visitar o que ainda continua sendo uma casa intermediária entre a cultura europeia e a oeste asiática — a ilha mediterrânea de Chipre.

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