O testamento de Martini

Acaba de sair mais um livro de Martini. Com suas “confissões”.

O testamento do cardeal Martini

Como bispo, ele pediu com frequência a Deus: “Por que não nos dás idéias melhores? Por que não nos tornas mais fortes no amor e mais corajosos em afrontar os problemas atuais? Por que temos tão poucos padres?” Hoje, tendo ingressado num estado de ânimo crepuscular, confia no sentido de pedir a Deus para não ser deixado só. Na última estação de sua vida, Carlo Maria Martini se confessa a um co-irmão austríaco e nascem os “Colóquios noturnos em Jerusalém”, recém editados pela Herder na Alemanha, que representam seu testamento espiritual. Confessa ter também estado em conflito com Deus, elogia Martinho Lutero, exorta a Igreja à coragem de reformar-se, de não se afastar do Concílio Vaticano II e de não temer confrontar-se com os jovens. Um bispo, recorda, deve também saber ousar, como quando ele foi ao cárcere falar com militantes das Brigadas Vermelhas “e eu os escutei e orei por eles e batizei até um par de gêmeos de genitores terroristas, nascidos durante um processo”. A reportagem é de Marco Politi e publicada pelo jornal La Repubblica, 19-05-2008.

Carlo Maria Martini em 1963 quando começou a lecionar no BíblicoCom o padre Georg Sporschill, também ele jesuíta, o ex-arcebispo de Milão é de uma sinceridade total. Sim, admite, “tive dificuldades com Deus”. Não conseguia entender por que razão teria feito sofrer seu Filho na cruz. “Mesmo como bispo de vez em quando eu não conseguia olhar para um crucifixo, porque a interrogação me atormentava”. E nem mesmo a morte eu conseguia aceitar. Deus não teria podido poupá-la aos homens após a morte de Cristo?

Depois entendeu. “Sem a morte não poderemos dar-nos totalmente a Deus. Manteríamos abertas as saídas de segurança”. E, no entanto, não é assim.

É preciso confiar nossa própria esperança a Deus e nele crer. “Eu espero poder pronunciar na morte este sim a Deus”.

No entanto, se pudesse falar com Jesus, Carlo Maria Martini lhe perguntaria “se ele me ama não obstante as minhas fraquezas e os meus erros e se vier me buscar na morte, se me há de acolher”, Os discursos de Jerusalém são como um longo simpósio noturno, sem bebidas, alimentados somente pelo fluxo dos raciocínios, garantidos pelas quentes sombras de uma noite que se prolonga até o alvorecer. Houve um tempo – conta – no qual “sonhei com uma Igreja na pobreza e na humildade, que não dependesse das potências deste mundo. Uma Igreja que concede espaço às pessoas que pensam mais além. Uma Igreja que dá coragem, especialmente a quem se sente pequeno ou pecador. Uma Igreja jovem. Hoje já não tenho mais tais sonhos. Após os setenta e cinco anos decidi rezar pela Igreja”.

E, no entanto, aos oitenta e um anos, o cardeal, grande biblista, não deixa de sugerir à Igreja que tenha coragem e ouse reformas. É essencial ter a capacidade de andar ao encontro do futuro. O celibato, explica, deve ser uma verdadeira vocação. Talvez nem todos tenham o carisma. Confiar a um pároco sempre mais paróquias ou importar padres do exterior não é uma solução. “A Igreja deverá fazer surgir alguma idéia. A possibilidade de ordenar homens provados (isto é, homens casados com fé provada, ndt) é discutida”. Até o sacerdócio feminino não o espanta.

Recorda que o Novo Testamento conhece as diaconisas. Admite que o mundo ortodoxo é contrário. Conta também de num encontro seu com o primaz anglicano Carey, na época em que a Igreja anglicana estava tensa pelas primeiras ordenações de mulheres – sacerdotes (combatidas pelo Vaticano). “Eu lhe disse, para dar-lhe coragem, que esta audácia podia ajudar também a nós a valorizar mais as mulheres e a entender como ir em frente”.

Sobre sexo, o Cardeal convida os jovens a não desperdiçarem relações e emoções, aprendendo a conservar o melhor para a união matrimonial, mas não tem dificuldade em romper tabus cristalizados com Paulo VI, Wojtyla e com Ratzinger. “Infelizmente a encíclica Humanae Vitae provocou alguns desenvolvimentos negativos. Paulo VI subtraiu conscientemente o tema aos padres conciliares” Quis assumir pessoalmente a responsabilidade de decidir sobre os anticoncepcionais. “Esta solidão decisional não foi, em longo prazo, uma premissa positiva para tratar os temas da sexualidade e da família”. A quarenta anos da encíclica, diz Martini, poder-se-ia lançar um “novo olhar” a esta matéria. Porque a Bíblia, recorda, é muito sóbria nas questões sexuais. Muito clara ela é somente em condenar quem irrompe, destruindo, num matrimônio alheio. Quem dirige a Igreja, sublinha, pode hoje “indicar um caminho melhor do que a Humanae Vitae”. O Papa poderia escrever uma nova encíclica.

E a homossexualidade? O purpurado recorda as duras palavras da Bíblia, mas recorda também as práticas sexuais degradantes da Antigüidade. Depois acrescenta delicadamente: “Entre os meus conhecidos há casais homossexuais, homens muito estimados e sociáveis. Jamais me foi perguntado e nem me teria vindo em mente condená-los”. Demasiadas vezes, acrescenta, a Igreja tem se mostrado insensível, principalmente com os jovens nesta condição.

Há um fio vermelho que conecta os seus raciocínios na quietude de Jerusalém. Os fiéis não têm necessidade de quem lhes instile uma consciência má, necessitam ser ajudados a ter uma “consciência sensível”. E sejam estimulados continuamente a pensar, a refletir.

“Deus não é católico”, costuma exclamar Madre Teresa. “Não podes tornar Deus católico”, acentua Martini. Certamente os homens necessitam de regras e limites, mas Deus está além das fronteiras que são erguidas. “Elas nos servem na vida, mas não devemos confundi-las com Deus, cujo coração é sempre mais amplo”

Deus não se deixa domesticar.

Se esta é a perspectiva, é possível dirigir-se a Ele com espírito mais aberto ao não crente ou ao seguidor de uma outra religião. Com quem não crê pode-se discutir sobre os fundamentos éticos que o animam. E é belo caminhar junto a quem tem uma fé diversa da nossa.

“Deixa-te convidar a uma prece com ele – sugere com mansidão Martini – conduze-o alguma vez a um rito teu. Isto não te afastará do cristianismo, ao contrário, aprofundará o teu ser cristão. Não queiras ter medo do estranho”.

Para o cardeal, o grande desafio geopolítico contemporâneo é o choque das civilizações. Os cristãos conhecem verdadeiramente o pensamento e os pensamentos dos muçulmanos – pergunta-se Martini – e como fazer para entendê-los? São três as indicações: desfazer os preconceitos e a imagem do inimigo, porque os terroristas não podem realmente fundar-se no Corão. Estudar as diferenças. Enfim, aproximar-se na prática da justiça, porque o Islã, em última instância, é uma religião filha do cristianismo, assim como o cristianismo descende do judaísmo.

A regra áurea do cristianismo – Martini o acentua neste seu escrito que tanto se assemelha a um testamento espiritual – é “Ama o teu próximo como a ti mesmo”. Além disso, explica com a precisão do estudioso da Bíblia, Jesus diz mais: “Ama o teu próximo porque é como tu”. Daí surge o imperativo de praticar justiça. É terrível, insiste Martini, invocar Deus até na constituição européia, e depois não ser coerentes na justiça. E aqui o cardeal da Santa Igreja Romana toma em mãos o Corão e lê a esplêndida Sura segunda. Não se é justo, se a gente se inclina para orar ao Oriente ou ao Ocidente. Justo é aquele que crê em Alá e no Último Juízo. Justo é aquele que “cheio de amor doa os seus haveres aos parentes, aos órfãos, aos pobres e aos peregrinos”. Quem dá a esmola e resgata os encarcerados. “Este é justo e verdadeiramente temente a Deus”.

Depois torna a refletir sobre o Além. Existe o Inferno? Sim. “Contudo, tenho a esperança que Deus, no final, salve todos”. E, se existem pessoas como um Hitler ou um assassino que abusa de crianças, então talvez a imagem do Purgatório seja um sinal para dizer: “Mesmo que tu tenhas produzido tanto inferno (sobre a terra), talvez após a morte ainda exista um lugar onde possas ser curado”.

Jamais terminariam os discursos noturnos de Jerusalém. Entende-se isto do andamento tranqüilo das perguntas e das respostas. Como do lugar onde prosseguem. Martini retornou entrementes à Lombardia, enfraquecido pelo Parkinson. A quem o escuta, deixa este sinal: “Também podemos lutar com Deus como Jacó, duvidar e debater-nos como Jó, entristecer-nos como Jesus e suas amigas, Marta e Maria. Também estas são veredas que conduzem a Deus”.

Fonte: IHU On-Line: 21/05/2008

 

Martini, il Cardinale e Dio. Il testamento del cardinale

Nell’ ultima stagione della sua vita Carlo Maria Martini si confessa ad un confratello austriaco e ne nascono i “Colloqui notturni a Gerusalemme”, appena editi da Herder in Germania, che rappresentano il suo testamento spirituale. Confessa di essere stato anche in conflitto con Dio, elogia Martin Lutero, esorta la Chiesa al coraggio di riformarsi, a non allontanarsi dal Concilio e a non temere di confrontarsi con i giovani. Un vescovo, rammenta, deve saper anche osare, come quando lui andò in carcere a parlare con militanti delle Brigate Rosse “e li ascoltai e pregai per loro e battezzai pure una coppia di gemelli di genitori terroristi, nata durante un processo”. Da vescovo ha spesso chiesto a Dio: «Perché non ci dai idee migliori? Perché non ci rendi più forti nell’ amore e più coraggiosi nell’ affrontare i problemi attuali? Perché abbiamo così pochi preti?». Oggi, entrato in uno stato d’ animo crepuscolare, confida di domandare a Dio di non essere lasciato solo. Nell’ ultima stagione della sua vita Carlo Maria Martini si confessa ad un confratello austriaco e ne nascono i “Colloqui notturni a Gerusalemme”, appena editi da Herder in Germania, che rappresentano il suo testamento spirituale. Confessa di essere stato anche in conflitto con Dio, elogia Martin Lutero, esorta la Chiesa al coraggio di riformarsi, a non allontanarsi dal Concilio e a non temere di confrontarsi con i giovani. Un vescovo, rammenta, deve saper anche osare, come quando lui andò in carcere a parlare con militanti delle Brigate Rosse «e li ascoltai e pregai per loro e battezzai pure una coppia di gemelli di genitori terroristi, nata durante un processo». Con padre Georg Sporschill, gesuita anche lui, l’ ex arcivescovo di Milano è di una sincerità totale. Sì, ammette, «ho avuto delle difficoltà con Dio». Non riusciva a capire perché avesse fatto patire suo Figlio in croce. «Persino da vescovo qualche volta non potevo guardare un crocifisso perché l’ interrogativo mi tormentava». E neanche la morte riusciva ad accettare. Dio non avrebbe potuto risparmiarla agli uomini dopo quella di Cristo? Poi ha capito. «Senza la morte non potremmo darci totalmente a Dio. Ci terremmo aperte delle uscite di sicurezza». E invece no. Bisogna affidare la propria speranza a Dio e credergli. «Io spero di poter pronunciare nella morte questo SI’ a Dio». Però, se potesse parlare con Gesù, Carlo Maria Martini gli chiederebbe «se mi ama nonostante le mie debolezze e i miei errori e se mi viene a prendere nella morte, se mi accoglierà». I discorsi di Gerusalemme sono come un lungo simposio notturno, senza bevande, alimentati soltanto dallo scorrere dei ragionamenti, rassicurati dalle ombre calde di una sera che si prolunga fino all’ alba. C’ è stato un tempo – racconta – in cui “ho sognato una Chiesa nella povertà e nell’ umiltà, che non dipende dalle potenze di questo mondo. Una Chiesa che concede spazio alle gente che pensa più in là. Una Chiesa che da coraggio, specialmente a chi si sente piccolo o peccatore. Una Chiesa giovane. Oggi non ho più di questi sogni. Dopo i settantacinque anni ho deciso di pregare per la Chiesa”. Eppure a ottantun anni il cardinale, grande biblista, non rinuncia a suggerire alla Chiesa di avere coraggio e di osare riforme. è essenziale avere la capacità di andare incontro al futuro. Il celibato, spiega, deve essere una vera vocazione. Forse non tutti hanno il carisma. Affidare ad un parroco sempre più parrocchie o importare preti dall’ estero non è una soluzione. “La Chiesa dovrà farsi venire qualche idea. La possibilità di ordinare viri probati (cioè uomini sposati di provata fede, ndr) va discussa”. Persino il sacerdozio femminile non lo spaventa. Ricorda che il Nuovo Testamento conosce le diaconesse. Ammette che il mondo ortodosso è contrario. Ma racconta anche di un suo incontro con il primate anglicano Carey, al tempo in cui la Chiesa anglicana era in tensione per le prime ordinazioni di donne – sacerdote (avversate dal Vaticano). “Gli dissi per fargli coraggio che questa audacia poteva aiutare anche noi a valorizzare di più le donne e a capire come andare avanti”. Sul sesso il cardinale invita i giovani a non sprecare rapporti ed emozioni, imparando a conservare il meglio per l’ unione matrimoniale, ma non ha difficoltà a rompere tabù, cristallizzatisi con Paolo VI, Wojtyla e di Ratzinger. “Purtroppo l’ enciclica Humanae Vitae ha provocato anche sviluppi negativi. Paolo VI sottrasse consapevolmente il tema ai padri conciliari”. Volle assumersi personalmente la responsabilità di decidere sugli anticoncezionali. “Questa solitudine decisionale a lungo termine non è stata una premessa positiva per trattare i temi della sessualità e della famiglia”. A quarant’ anni dall’ enciclica, dice Martini, si potrebbe dare un “nuovo sguardo” alla materia. Perché la Bibbia, ricorda, è molto sobra nelle questioni sessuali. Assai netta è soltanto nel condannare chi irrompe, distruggendo, in un matrimonio altrui. Chi dirige la Chiesa, sottolinea, oggi può “indicare una via migliore dell’ Humanae Vitae”. Il Papa potrebbe scrivere una nuova enciclica. E l’ omosessualità? Il porporato ricorda le dure parole della Bibbia, ma rammenta anche le pratiche sessuali degradanti dell’ antichità. Poi aggiunge delicatamente: “Tra i miei conoscenti ci sono coppie omosessuali, uomini molto stimati e sociali. Non mi è stato mai domandato né mi sarebbe venuto in mente di condannarli”. Troppe volte, soggiunge, la Chiesa si è mostrata insensibile, specie verso i giovani in questa condizione. C’ è un filo rosso che lega i suoi ragionamenti nella quiete di Gerusalemme. I credenti non hanno bisogno di chi instilli loro una cattiva coscienza, hanno bisogno di essere aiutati ad avere una “coscienza sensibile”. E vanno stimolati continuamente a pensare, a riflettere. “Dio non è cattolico”, era solita esclamare Madre Teresa. “Non puoi rendere cattolico Dio”, scandisce Martini. Certamente gli uomini hanno bisogno di regole e confini, ma Dio è al di là delle frontiere che vengono erette. “Ci servono nella vita, ma non dobbiamo confonderle con Dio, il cui cuore è sempre più largo”. Dio non si lascia addomesticare. Se questa è la prospettiva ci si può rivolgere con spirito più aperto al non credente o al seguace di un’ altra religione. Con chi non crede ci si può confrontare sui fondamenti etici, che lo animano. Ed è bello camminare insieme a chi ha una fede diversa. “Lasciati invitare ad una preghiera con lui – suggerisce con mitezza Martini – portalo una volta ad un tuo rito. Ciò non ti allontanerà dal cristianesimo, approfondirà al contrario il tuo essere cristiano. Non avere paura dell’ estraneo”. Per il cardinale la grande sfida geopolitica contemporanea è lo scontro delle civiltà. Conoscono davvero i cristiani il pensiero e i pensieri dei musulmani – si chiede Martini – e come fare per capirsi? Tre sono le indicazioni. Abbattere i pregiudizi e l’ immagine del nemico, perché i terroristi non possono davvero fondarsi sul Corano. Studiare le differenze. Infine avvicinarsi nella pratica della giustizia, perché l’ Islam in ultima istanza è una religione figlia del cristianesimo così come il cristianesimo è figliato dal giudaismo. La regola aurea del cristiano – Martini lo ribadisce in questo suo scritto che assomiglia tanto ad un testamento spirituale – è “Ama il tuo prossimo come te stesso”. Anzi, spiega con la precisione dello studioso della Bibbia, Gesù dice di più: “Ama il tuo prossimo perché è come te”. Da lì sorge l’ imperativo a praticare giustizia. è terribile, insiste Martini, invocare magari Dio nella costituzione europea, e poi non essere coerenti nella giustizia. E qui il cardinale di Santa Romana Chiesa tira fuori il Corano e legge la splendida sura seconda. Non si è giusti, se ci si inchina per pregare a oriente o a occidente. Giusto è colui che crede in Allah e nell’ Ultimo Giudizio. Giusto è colui che “pieno di amore dona i suoi averi ai parenti, agli orfani, ai poveri e ai pellegrini”. Chi fa l’ elemosina e riscatta gli incarcerati. “Costui è giusto e veramente timorato di Dio”. Poi torna riflettere sull’ Al di là. C’ è l’ Inferno? Sì. “Eppure ho la speranza che Dio alla fine salvi tutti”. E se esistono persone come un Hitler o un assassino che abusa di bambini, allora forse l’ immagine del Purgatorio è un segno per dire: “Anche se tu hai prodotto tanto inferno (sulla terra) forse dopo la morte esiste ancora un luogo dove puoi essere guarito”. Non finirebbero mai i discorsi notturni di Gerusalemme. Lo si capisce dall’ andamento quieto delle domande e delle risposte. Come onde che si susseguono. Martini nel frattempo è rientrato in Lombardia, fiaccato dal Parkinson. A chi lo ascolta, lascia questo segnale: “Possiamo anche lottare con Dio come Giacobbe, dubitare e dibatterci come Giobbe, rattristarci come Gesù e le sue amiche Marta e Maria. Anche questi sono sentieri che portano a Dio”.

O artigo é de Marco Politi e foi publicado no jornal italiano La Repubblica em 19/05/2008

A obra, em alemão, é:

MARTINI, C. M.; SPORSCHILL, G. Jerusalemer Nachtgespräche: Über das Risiko des Glaubens. Freiburg: Herder, 2008, 144 S. – ISBN 9783451059797.

Diz a editora Herder sobre o livro:
Der eine war Kardinal der größten Diözese der Welt, Gelehrter und einer der berühmtesten Kirchenmänner. Der andere hat in Gefängnissen und mit drogenabhängigen Jugendlichen gearbeitet und in den letzten Jahren mit Straßenkindern in Rumänien und Moldawien zusammengelebt. In Jerusalem trafen sie sich und wurden Freunde: Sie suchen nach Antworten auf die kritischen Fragen der Jugend: Was würde Jesus heute tun? Welche Zukunft hat Glauben in Zeiten des Wohlstands? Was ist der Weg der Religionen?

COP 9

9th Meeting of the Conference of the Parties (COP 9): Bonn, Germany, 19-30 May 2008.

De 19 a 30 de maio de 2008, Bonn, na Alemanha, sedia a 9ª Conferência das Partes (COP 9) da Convenção sobre Biodiversidade da ONU, reunindo mais de 5 mil delegados de 190 países em debate sobre questões ambientais como mudanças climáticas e aquecimento global.

 

Brasil no centro das críticas de ambientalistas de todo o mundo na COP 9 – IHU On-Line: 20/05/2008

Organizações da Sociedade Civil e Movimentos Sociais presentes na 9º Conferência de Partes da CDB formam “bloco laranja” e realizam protesto contra Agrocombustíveis, Árvores Transgênicas e Acordo Energético Brasil/Alemanha.

Bonn, 19/05/2008. Começou hoje, em Bonn, Alemanha, a 9º Conferência de Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica. O Brasil, que sempre foi um dos destaques nas negociações internacionais sobre biodiversidade, é, nesta COP centro das atenções e alvo de críticas da sociedade civil de todo o mundo.

Durante reuniões preparatórias para as negociações das próximas duas semanas, organizações decidiram formar o chamado “o bloco laranja” (Orange block). Vestidas com camisetas laranjas, “evocando as florestas e canaviais em chama”, cerca de 200 representantes de ONGs, movimentos sociais e comunidades locais protestaram na entrada da Conferência Oficial, juntamente com a Via Campesina e prometem ocupar as plenárias com as camisetas durante as próximas duas semanas.

A camiseta laranja tem na frente os dizeres “Brasil e Alemanha: Comprometidos com a Destruição da Biodiversidade. Não compre este acordo.” , em referência explicita ao acordo de cooperação energética firmado na última semana entre os dois países e que inclui exportação de etanol e o compromisso da Alemanha em seguir na cooperação nuclear “até pelo menos a conclusão de Angra 3”. Nas costas da camiseta, as frases “Não aos agrocombustíveis, Não às árvores transgênicas”

“Para a sociedade civil internacional, está bem claro: a CDB não será palco para o Brasil defender o etanol, com promessas de sustentabilidade. Os efeitos cumulativos do agronegócio no país e a expansão massiva das monoculturas são inegavelmente o maior vetor do desmatamento e de destruição de ecossistemas no Brasil. A expansão dos agrocombustíveis, da maneira como está sendo conduzida pelo Governo Brasileiro, só vai agravar esta situação”, destaca Camila Moreno, da Terra de Direitos.

Ann Peterman, da Global Justice Ecology Project, organização estadunidense, alerta que “o próprio secretariado da CDB reconhece que os riscos das árvores transgênicas são gravíssimos. Diante disso, a única postura coerente desta conferência seria o banimento total inclusive dos experimentos em curso.”

Miguel Lovera da Global Forest Coalition “A CDB está num momento crítico. Os países têm que assumir medidas efetivas e urgentes para mudar radicalmente os padrões de produção e consumo. O momento atual, como demonstra a atual crise alimentar global, não permite perder tempo com falsas soluções, que somente agravarão os problemas ambientais e sociais”.

Para Luiz Zarref, da Via Campesina “a expansão das monoculturas e dos transgênicos destrói a agrobiodiversidade, da qual depende a base da alimentação da humanidade. Nós, camponeses e camponesas de todo o mundo queremos ter o direito de seguir utilizando e preservando a agrobiodiversidade. A agrobiodiversidade é nossa vida. Não permitiremos que a extinguam ou a privatizem.”

 

Conferência da ONU debate preservação da biodiversidade – Deutsche Welle: 19/05/2008

Bonn sedia a 9ª Conferência das Partes da Convenção sobre Biodiversidade da ONU (COP9), reunindo mais de 5 mil delegados de 190 países em debate sobre questões ambientais, como mudanças climáticas e aquecimento global.

Os especialistas das Nações Unidas afirmam em Bonn que o planeta está passando por uma fase de extinção de espécies não registrada desde o período em que dinossauros habitavam a Terra. Estima-se que, a cada hora, são extintas três espécies, a maioria delas em conseqüência de ações do homem, como superpopulação e excesso de poluentes.

Hoje, acredita-se que 40% do comércio internacional envolva processos e produtos biológicos: alimentos, medicamentos, nutrientes e energias renováveis, que simplesmente não existiriam mais sem a biodiversidade. Segundo os especialistas, a perda de espécies vegetais poderá causar uma catástrofe de longo prazo no abastecimento mundial de alimentos.

Extinção acelerada

“Estamos, no momento, num ritmo de extinção mil vezes mais acelerado do que o da extinção normal das espécies, somente graças à ação do homem”, observa o ministro alemão do Meio Ambiente, Sigmar Gabriel, em entrevista à Deutsche Welle.

Ou seja, o homem está gastando seu “capital natural” de forma descontrolada: rios são desviados de seus cursos em função de estratégias de povoamento e florestas estão se transformando em estepes. A proposta da conferência da ONU, que começa nesta segunda-feira (19/05), é descobrir formas de pelo menos frear a destruição da natureza.

Divisão de benefícios

O objetivo se assemelha à meta que havia sido estabelecida no acordo assinado na ECO de 1992, realizada no Rio de Janeiro, prevendo uma redução drástica da extinção de espécies até o ano de 2010. Hoje, passados 16 anos, os objetivos ainda estão longe de serem alcançados.

“Ou vamos chegar a resultados concretos e práticos e, com isso, aos primeiros sucessos, ou vamos fracassar. Aí então a comunidade internacional terá que se perguntar o porquê, afinal, desse tipo de convenção”, alerta Gabriel.

O ministro defende, acima de tudo, progressos em relação à divisão de benefícios ( benefit sharing): países emergentes ou em desenvolvimento reivindicam que, como recompensa ao uso de seus recursos naturais, os países desenvolvidos participem adequadamente da fabricação de medicamentos, por exemplo.

Próximas gerações

Para o ministro alemão, está mais que na hora de “avaliar o que isso vai custar aos nossos filhos e netos, se continuarmos agindo assim. Precisamos de um grêmio internacional que analise e avalie constantemente o desenvolvimento da diversidade de espécies”, diz Gabriel. O ministro cita como exemplo positivo a conscientização a respeito da política climática, que hoje já faz parte do debate público e político.

 

Produção de alimentos x produção de energia: o desafio do século XXI. Entrevista especial com Patrick Criqui e Martin Penner – IHU On-Line: 20/05/2008
A crise alimentícia pode ser explicada pelo aumento da população mundial, pela concorrência dos solos e também pelo crescimento da produção de biocombustíveis. No entanto, o modelo energético mundial contribui para a crise e precisa ser revisto, alerta o economista Patrick Criqui, professor na Univesidade Pierre Mendès-France, na Universidade Paris-Dauphine e na Escola Politécnica Federal de Lausanne. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ele afirma que atualmente a humanidade deve considerar duas prioridades para resolver os problemas ambientais, sociais e econômicos: mudar os “modelos e comportamentos de transporte” e implantar “uma nova gestão da energia nos prédios para a calefação e refrescamento ou refrigeração”.

Já Martin Penner, porta-voz do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, na Itália , afirma que “Um mundo que tem fome é um mundo mais inseguro e com menos perspectivas de futuro”. Segundo ele, os estoques mundiais de cereais apresentam o nível mais baixo nos últimos trinta anos. “Muitíssimos começaram a comer comida mais ‘pobre’, com menores propriedades nutritivas, com os riscos relativos de desnutrição.” Além disso, reitera, essa crise trará impacto negativo aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, propostos pela ONU. A entrevista foi concedida por e-mail.

Confira as entrevistas.

Entrevista com Patrick Criqui

IHU On-Line – Como o senhor percebe a crise de alimentos no mundo? Povos de todo o Planeta conquistaram inúmeros bens materiais, mas ainda enfrentam o problema da fome. Vivemos uma ambigüidade?

Patrick Criqui – Diversos fatores podem explicar a crise atual: em primeiro lugar, a população mundial continua a aumentar, embora o ritmo se reduza. Em face disso, as superfícies cultiváveis aumentam menos rapidamente, pois há uma forte concorrência pelos solos e, em certas regiões, pela produção de agrocombustíveis. Em certas regiões, igualmente se reduzem os progressos nos rendimentos, como se se atingissem os limites das técnicas agrícolas modernas, com fortes recuos. Enfim, o aumento do poder de compra nos países emergentes envolve igualmente maior demanda para os produtos de origem animal, os quais requerem de sete a dez vezes mais calorias do que os produtos de origem vegetal.

IHU On-Line – Como o senhor vê o atual modelo mundial de produção e abastecimento de alimentos? Ele favoreceu algumas regiões?

Patrick Criqui – O atual modelo mundial encorajou bastante as culturas de exportação em relação às culturas alimentícias, fragilizando a agricultura nos países mais pobres, embora mantendo uma proteção mínima da agricultura nos países do Norte. Os beneficiados são, por isso, os grandes exportadores e os países do Norte e, os perdedores são os países mais pobres.

IHU On-Line – Ambientalistas e pesquisadores da ONU reforçaram a teoria de que uso de alimentos para a produção de biocombustíveis contribuiu para aumentar a crise alimentar no mundo. É possível responsabilizar os biocombustíveis pela crise?

Patrick Criqui – As culturas de agrocarburantes ampliaram a crise, sem serem a causa primeira. Mas um desenvolvimento maciço dos agrocombustíveis poderá, a longo prazo, reforçar o desequilíbrio oferta-demanda.

IHU On-Line – Que relação o senhor destaca entre as produções de energia renovável e de alimentos no mundo?

Patrick Criqui – Um cacife maior é o de se chegar a conciliar, no futuro, a produção de energias renováveis (solar-vento-biomassa) e a produção de alimentos, como propõe Ignacy Sachs no modelo de biocivilização. No entanto, isto requer muita inteligência na concepção e otimização dos sistemas de produção e de utilização dos solos.

IHU On-Line – O senhor diz que é necessário reduzir o consumo de energia. Como fazer isso num contexto no qual o consumo mundial aumenta exponencialmente e a compra de automóveis, por exemplo, se tornou cada vez mais comum, sendo estimulada até mesmo pelos governos?

Patrick Criqui – Caso se queira limitar as emissões de gases com efeito estufa, será preciso desenvolver um novo paradigma energético com muita eficácia energética, através de energias renováveis e talvez de energia nuclear. Para controlar os consumos, se pode contar com as normas de eficácia, mas provavelmente também será preciso aceitar um forte encarecimento dos preços da energia pela introdução de taxas carbono.

IHU On-Line – O senhor fala da criação de um novo paradigma energético, através de energias renováveis e energia nuclear. Qual é a sua proposta? Como controlar gases com efeito estufa através de políticas e tecnologias?

Patrick Criqui – A redução maciça dos gases de efeito estufa, por exemplo, a redução de 60 a 80% das emissões em 2050 nos países industrializados (que é o objetivo da União Européia), só poderá se apoiar sobre um número limitado de soluções:
– Em primeiro lugar, a eficácia energética e o desenvolvimento de tecnologias de “baixa energia” em todos os domínios (transporte, construção, indústria);
– Em seguida, as energias renováveis, energias fluxo e biomassa;
– A energia nuclear, que continuará necessária, sendo até muito importante, na medida que as condições técnicas e sociais de sua instalação sejam bem controladas;
– A captura e estocagem do CO2, se a factibilidade técnica for demonstrada;
– A gestão do Carbono nos ciclos vegetais Land Use, Land Use Change and Forestation (LULUCF) (Uso do solo, mudança deste uso e reflorestamento).
Nenhuma destas cinco soluções poderá ser abandonada. As políticas nacionais deverão simplesmente gerir a boa dosagem de cada uma segundo o contexto local.

IHU On-Line – Que mudanças no modelo de consumo da população são urgentes no atual contexto?

Patrick Criqui – Há, atualmente, duas prioridades: a mudança nos modelos e comportamentos de transporte, a implantação de uma nova gestão da energia nos prédios para a calefação e refrescamento ou refrigeração.

IHU On-Line – De que modo você percebe a crise alimentar na França e na Europa: qual deveria ser a contribuição da União Européia para ajudar no combate à fome?

Patrick Criqui – A contribuição da Europa deveria ser, em primeiro lugar, a de identificar as bases de um sistema agrícola mundial simultaneamente aberto, mas assegurando a manutenção de agriculturas locais eficazes, tanto na Europa como no resto do mundo. Isto é um verdadeiro desafio intelectual, pois não creio que tenhamos, hoje, a capacidade de articular as diferentes dimensões deste complexo problema.

IHU On-Line – Jean Ziegler disse que a produção em massa de biocombustíveis, incentivada pelos EUA e pela UE como alternativa aos hidrocarbonetos, constitui um crime contra a humanidade, já que tende a substituir os cultivos de alimentos e colabora para o aumento dos preços. Como o senhor percebe essa crítica?

Patrick Criqui – A meu ver, esta crítica é muito exagerada, primeiramente porque há na Europa uma tomada de consciência, mesmo ao nível da Comissão Européia dos danos dos agrocombustíveis, e, em segundo lugar, porque – como o diz o professor Ignacy Sachs, bem conhecido no Brasil – o desenvolvimento dos biocombustíveis deve integrar-se na construção de uma biocivilização que deveria se esforçar para valorizar com inteligência os recursos vegetais, combinando os usos alimentação-energia-materiais.

Entrevista com Martin Penner

IHU On-Line – Qual é a sua explicação para a atual crise alimentar mundial? Embora o mundo cresça no que se refere a tecnologias, podemos dizer que a humanidade esteja retrocedendo?

Martin Penner – Não vivemos mais numa época de excedente alimentar. Os estoques mundiais de cereais estão no nível mais baixo dos últimos trinta anos. Somente no último ano desceram do nível cinco. São muitas as causas que contribuíram para a atual alta dos preços alimentares. Entre estas, o maior custo da tarifa energética, a competição entre hidrocarburantes e alimentos, os crescentes e diversos consumos alimentares de economias emergentes como a China, e o aumento de fenômenos climáticos adversos, como secas e inundações. A tudo isto se acrescentam os atuais ímpetos especulativos que criam um mercado internacional tanto mais volátil.

IHU On-Line – Josette Sheeran disse que hoje a capacidade de adquirir alimentos é 40% inferior ao mesmo período do ano passado. A que o senhor atribui esta diferença?

Martin Penner – Calculamos que o custo das nossas operações aumentou em 55%, e isso está relacionado aos custos maiores dos transportes que, para nós, são uma voz importante de despesa. Isso levou a rever as estimativas de balanço feitas para 2008, a fim de assistir 73 milhões de pessoas em 78 países. O aumento dos preços faz, sim, que hoje necessitemos de recursos adicionais correspondentes a US$ 755 milhões, o que leva nosso balanço complexivo a US$ 4,3 bilhões. Sem contar crises e necessidades hoje não previstas e que poderiam fazer fervilhar ulteriormente as despesas em balanço.

IHU On-Line – Na semana passada, a ONU anunciou a criação de uma força-tarefa para fazer frente à crise alimentar mundial. A doação de US$ 2,5 bilhões da comunidade internacional poderá ajuda a controlar a crise? Quais seriam as medidas imprescindíveis para resolver este problema?

Martin Penner – A Força Tarefa sobre a Crise global de Segurança Alimentar – presidida pelo Secretário geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, e da qual participam os chefes diversas agências da ONU, inclusive o PAM, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e outros especialistas internacionais – apresentará um plano de ação já na cúpula da FAO a partir de início de junho. No momento da constituição da Força Tarefa (Task Force), o secretário geral já identificara algumas linhas diretrizes através das quais intervir de imediato e em médio prazo. A curto prazo, acredito que serve à ajuda alimentar.

O Banco Mundial estima que a atual crise dos preços possa criar 100 novos milhões de pobres, muitos dos quais necessitados de assistência alimentar. A médio e longo prazo, será decisivo aumentar a produtividade e os investimentos em agricultura, em particular na África sub-saariana. O PAM está pronto para fornecer assistência alimentar, a sustentar, também através da própria logística, a ativação de redes vitais de distribuição, fornecendo entrementes ajuda e apoio de peritos aos governos empenhados no desenvolvimento agrícola.

IHU On-Line – Além de aumentar a pobreza no mundo, que outras agravantes a crise de alimentos pode gerar no planeta?

Martin Penner – O aumento dos preços já causou numerosos protestos em dezenas de países. Um mundo que tem fome é mais inseguro e tem menos perspectivas de futuro. Muitas famílias, nos países em vias de desenvolvimento, precisaram fazer escolhas drásticas: decidir, por exemplo, se comer ou mandar os filhos à escola. Em muitos casos, foram cortadas as despesas médicas. Muitíssimos começaram a comer comida mais “pobre”, com menores propriedades nutritivas, com os riscos relativos de desnutrição. Sem contar os efeitos negativos que o atual aumento dos preços pode ter sobre a obtenção dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, e, como primeiro entre todos, aquele de reduzir à metade a proporção no numero dos famintos até 2015.

IHU On-Line – Segundo a ONU e o FMI, a elevação dos preços dos alimentos é devida em parte à euforia da produção de biocombustíveis. Como o senhor avalia esse cenário?

Martin Penner – Nós não estamos pró ou contra os biocombustíveis. Seguramente, eles são um dos vetores do atual aumento dos preços. Sobre este ponto, os chefes das 27 agências que se encontraram em Berna, na Suíça, no dia 29 de abril passado, solicitaram ulteriores pesquisas sobre o uso de produtos agrícolas para os biocombustíveis, pedindo, ao mesmo tempo, uma revisão das subvenções aos produtos da agricultura destinados a este uso.

 

‘Economia e vida’ é o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010
Economia e vida será o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010, que terá por lema admoestação registrada no Evangelho de Mateus: “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (…) Tema e lema da Campanha Ecumênica foram definidos pela Comissão organizadora do evento, reunida em Brasília na sexta e no sábado, 16 e 17 de maio [de 2008]. A Cáritas e a Fundação Luterana de Diaconia (FLD) vão integrar o Comitê Gestor do Fundo Ecumênico de Solidariedade, que administra os recursos recolhidos na Campanha. Farão parte, ainda, do Comitê Gestor o secretário executivo do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), reverendo Luiz Alberto Barbosa, um representante das igrejas Siriana Ortodoxa de Antioquia, Presbiteriana Unida e Episcopal Anglicana do Brasil.

Fonte: IHU On-Line: 20/05/2008

A Slow-Motion Catastrophe

Catástrofe em câmara lenta. Voltar ao bom senso. Eis o desafio! Entrevista especial com Ladislau Dowbor
A humanidade caminha para uma “catástrofe em câmara lenta”, e as aventuras especulativas com os alimentos, a má distribuição alimentícia, o consumo irracional e o mau manejo da água contribuem para acelerar os problemas da fome no mundo contemporâneo [sublinhado meu]. Essa posição é defendida por Ladislau Dowbor , economista e professor do PPG em Administração da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o pesquisador apresenta diferenças entre as propostas de biocombustíveis apresentadas pelos EUA e o Brasil. Argumenta que, no caso dos brasileiros, seja possível investir em biocombustível sem prejudicar as safras alimentícias. Entretanto, ressalta, “corremos o risco de que a busca de alternativas energéticas gere no Brasil um novo ciclo agro-exportador que trará dólares e riqueza para poucos”. Associar a produção energética e a produção alimentar à pequena e média agricultura, alerta, “pode dar um novo reequilabramento social ao meio rural”. Dowbor é formado em Economia Política, pela Universidade de Lausanne, Suíça, e doutor em Ciências Econômicas, pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, Polônia. Confira na página pessoal do pesquisador artigos e publicações.

Fonte: Notícias do Dia – IHU On-Line: 18/05/2008.

Visite a Home Page de Ladislau Dowbor. In the present web site you will find some basic short texts by Prof. Ladislau Dowbor, concerning mainly economic development and planning. Some papers are in English and other languages, see “Artigos Online”.

A entrevista de Ladislau Dowbor é a primeira matéria da edição 258 da Revista IHU On-Line, publicada hoje, 19 de maio de 2008, e que traz como tema de capa A crise alimentar. Por um novo modelo de produção. Além de Dowbor, tratam da crise alimentar neste número da revista: Ignacy Sachs, Heitor Costa, Antônio Thomaz Jr, Celso Marcatto, Peter Rosset e José Goldemberg.

Dom Helder, Leonardo Boff e Jonas Abib

Três nomes, três notícias, três situações. Vale a pena a leitura.

Justiça manda recolher livro do Padre Jonas Abib

A Justiça da Bahia determinou o recolhimento, em Salvador, de todos os exemplares de um livro escrito pelo padre Jonas Abib, fundador da comunidade católica Canção Nova, ligada à Renovação Carismática, ala conservadora da igreja.

Para o Ministério Público baiano, que pediu o recolhimento do livro “Sim, Sim! Não, Não! Reflexões de Cura e Libertação”, da editora Canção Nova, o padre cometeu o crime de “prática e incitação de discriminação ou preconceito religioso”, previsto na lei 7.716, de 1989. Cabe recurso à Justiça.

De acordo com o promotor Almiro Sena, Abib faz no livro “afirmações inverídicas e preconceituosas à religião espírita e às religiões de matriz africana, como a umbanda e o candomblé, além de flagrante incitação à destruição e ao desrespeito aos seus objetos de culto”.

A ação cita trechos do livro que, na avaliação da Promotoria, trazem ofensas ao espiritismo e às religiões afro-americanas. “O demônio, dizem muitos, “não é nada criativo”. (…) Ele, que no passado se escondia por trás dos ídolos, hoje se esconde nos rituais e nas práticas do espiritismo, da umbanda, do candomblé”, diz Abib na obra.

Em outro trecho, o padre diz que “o espiritismo é como uma epidemia e como tal deve ser combatido: é um foco de morte”. Também há referência ao culto a imagens. “Acabe com tudo: tire as imagens de Iemanjá (que na verdade são um disfarce, uma imitação de Nossa Senhora). Acabe com tudo! Mesmo que seja uma estátua preciosa, mesmo que seja objeto de ouro, não conserve nada. Isso é maldição para você, sua casa e sua família.”

Para o Ministério Público, o livro ofende o princípio de liberdade de crença previsto na Constituição Federal, e afronta as “integridade, respeitabilidade e permanência dos valores da religião afro-brasileira” previstos na Constituição baiana.

Como atua em Salvador, o promotor pediu o recolhimento da obra só na capital, onde o livro é vendido por R$ 15,90. Segundo a Promotoria, foram vendidos 400 mil exemplares no país em 2007. Para Sena, isso “demonstra a amplitude alcançada pelas idéias contidas no seu conteúdo e o grave risco de propiciar o acirramento de conflitos étnico-religiosos”.

O juiz Ricardo Schmitt acatou a denúncia contra o padre e mandou intimá-lo a comparecer a audiência de interrogatório, em dia a ser definido. A pena prevista neste caso é de um a três anos de prisão, e multa.

Outro lado
Em nota, a Canção Nova informou não ter sido comunicada da decisão judicial. Negou, contudo, que o livro incorra em preconceito religioso. “A obra é meramente conceitual e não tem o propósito de incitar qualquer discriminação ou preconceito religioso.”

A nota afirma ainda que Abib “sempre se pautou pelo profundo respeito a todas as pessoas e ideologias, difundindo a doutrina da Igreja Católica e o amor cristão através dos meios de comunicação”. Diz que o propósito do livro é “orientar os católicos a viverem com coerência a vida cristã de acordo com a linha filosófica e teológica defendida pela igreja.”

 

Leonardo Boff recebe título de doutor ‘Honoris Causa’ da EST

O teólogo Leonardo Boff recebeu mais um título de Doutor Honoris Causa em reconhecimento ao seu compromisso ecumênico surgido do diálogo com a teologia protestante e à reflexão entre teologia e ecologia. A honraria é a primeira recebida de instituição teológica brasileira, as Faculdades EST (Escola Superior de Teologia de São Leopoldo, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil). O homenageado agradeceu pela concessão da titulação honrosa e enfatizou que Lutero apresentou um Deus que se acerca dos oprimidos, abrindo espaço para a esperança da humanidade, que se traduz na resistência e na busca da vida e da libertação. Na entrega do título, até então só concedido a luteranos, o reitor Oneide Bobsin salientou que o momento era de celebração e exaltação do Evangelho.

Boff agradeceu a homenagem e reafirmou conceitos sobre a importância da obras de Lutero, já difundidos em seu livro E a Igreja se fez povo; eclesiogênese: a Igreja que nasce da fé do povo, publicado pela Editora Vozes em 1986. Ele enfatizou a atualidade do reformador Martim Lutero e do princípio protestante da indignação. “A teologia de Lutero é boa para a humanidade sofredora. Ele foi um mestre da fé e a voz que clama pela renovação espiritual”. O evento se deu durante o seminário Leonardo Boff e a Teologia Protestante, de 12 a 16 de maio.

Participaram da cerimônia de outorga do título doutor honoris causa o prefeito de São Leopoldo, Ari José Vanazzi, o pró-reitor acadêmico da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Pedro Gilberto Gomes, o pró-reitor acadêmico da Pós-Graduação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Edgar Hammes, e o pastor primeiro vice-presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Homero Severo Pinto.

Leonardo Boff é natural de Concórdia (SC), ingressou na Ordem dos Frades Menores (1959), doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique (Alemanha, 1970), recebeu títulos de doutor honoris causa em Política da Universidade de Turim (Itália), e em Teologia da Universidade de Lund (Suécia). Sofreu um processo da Sagrada Congregação para a Defesa da Fé (1984), por causa da eclesiologia apresentada no livro Igreja: Carisma e Poder, sendo condenado a um ano de “silêncio obsequioso” e deposto das funções editoriais e magisteriais (1985). Sob ameaça de novo processo, renunciou ao sacerdócio (1992), prestou concurso e passou a ensinar Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) (1993). É autor de mais de 70 livros nas áreas de teologia, espiritualidade, filosofia, antropologia, mística e ecologia. A maioria de sua obra está traduzida para os principais idiomas modernos.

 

O Concílio de Dom Helder

(…) Estamos falando de Dom Helder Câmara. Precisamente ele, o bispo auxiliar do Rio de Janeiro, e depois, poucos dias antes do golpe de 31 de março de 64, o arcebispo de Recife: a ‘voz dos sem voz’ do nordeste do Brasil e, posteriormente, de toda a América Latina: onde – segundo o Sunday Times – ainda era considerado, nos anos 70, como ‘o homem mais influente’ após Fidel Castro.

Fonte: IHU On-Line: 17/05/2008

Resenhas na RBL: 14.05.2008

As seguintes resenhas foram recentemente publicadas pela Review of Biblical Literature:

Loveday C. A. Alexander
Acts in Its Ancient Literary Context: A Classicist Looks at the Acts of the Apostles
Reviewed by Chrys C. Caragounis

Markus Bockmuehl and James Carleton Paget, eds.
Redemption and Resistance: The Messianic Hopes of Jews and Christians in Antiquity
Reviewed by Joshua Ezra Burns

Frances Taylor Gench
Encounters with Jesus: Studies in the Gospel of John
Reviewed by John Painter

L. Ann. Jervis
At the Heart of the Gospel: Suffering in the Earliest Christian Message
Reviewed by Thomas W. Gillespie

Robert Kysar
John: The Maverick Gospel
Reviewed by Dirk G. van der Merwe

Terence C. Mournet
Oral Tradition and Literary Dependency: Variability and Stability in the Synoptic Tradition and Q
Reviewed by Robert K. McIver

Geert van Oyen and Tom Shepherd, eds.
The Trial and Death of Jesus: Essays on the Passion Narrative in Mark
Reviewed by Adam D. Winn

Gershom M. H. Ratheiser
Mitzvoth Ethics and the Jewish Bible: The End of Old Testament Theology
Reviewed by Walter Brueggemann

Gerald O. West, ed.
Reading Other-Wise: Socially Engaged Biblical Scholars Reading with Their Local Communities
Reviewed by Erhard S. Gerstenberger
Reviewed by Gosnell Yorke

Bela Supernova

Enquanto isso, na Via Láctea…

Pesquisadores encontram supernova mais recente da Via Láctea
Com o uso do telescópio de raios X Chandra, pesquisadores descobriram a supernova (…) mais recente de que se tem notícia na Via Láctea. O corpo espacial explodiu há cerca de 140 anos (…) Supernova é o resultado da explosão de uma estrela, que pode se tornar muito mais brilhante que o Sol, antes de perder força gradualmente…

Fonte: Folha Online: 14/05/2008 – 18h00

Jornais: revistas de sala de espera

Os jornais se parecem cada vez mais com as revistas que havia para ler na barbearia ou na sala de espera do dentista.

Frase de Umberto Eco sobre a irrelevância das informações transmitidas pelos jornais hoje.

Está em uma entrevista publicada pela Folha Online de 12/05/2008 – 11h41 sob o título de Velocidade da web causará perda de memória, diz Umberto Eco

A leitura da Bíblia no mundo globalizado

Faculdades EST realiza seminário conjunto com universidades alemãs
A leitura da Bíblia no mundo globalizado é o tema do seminário intercultural que a Faculdades EST está promovendo, neste mês de maio [de 2008], em parceria com as universidades alemãs de Bayreuth e Duisburg-Essen, através da Internet. O Seminário tem o apoio da CAPES, através do projeto PROBRAL 260/07. Entre os objetivos do estudo conjunto está o de promover a discussão teológica e a aproximação entre estudantes dos dois países. Um dos marcos desse encontro intercontinental foi a videoconferência, realizada no último dia 6 de maio, envolvendo docentes e estudantes das três universidades. Pela videoconferência, os participantes tiveram a oportunidade de se conhecer, formulando perguntas aos colegas das outras universidades. “Percebemos, da parte alemã, um grande interesse por temas como estrutura e atuação da igreja luterana no Brasil, pentecostalismo, umbanda e ecumenismo”, diz o Dr. Emílio Voigt, coordenador do EaD da Faculdades EST. O seminário se encerra no dia 26 de maio. Até lá, os participantes continuarão estudando em conjunto através do ambiente virtual de aprendizagem, disponibilizado pela Faculdades EST. Na sala virtual, os alunos encontram materiais para leitura e são realizadas atividades de interação e construção de conhecimento. A coordenação desse intercâmbio de formação teológica é da Faculdades EST através do professor Dr. Rodolfo Gaede e do Dr. Emilio Voigt.

EST e IHU debatem em julho a Teologia Pública

Leio em Notícias do Dia – IHU On-Line de hoje:

Simpósio da EST discute a teologia pública na América Latina

Repensar a teologia contemporânea e sua relação com a sociedade com o intuito de refletir a cidadania e o compromisso com a realidade é o objetivo do Simpósio Internacional Teologia Pública na América Latina, promovido pela Escola Superior de Teologia (EST), em parceria com o IHU. Muitos teólogos têm, hoje, se voltado para sua contribuição na política, nas questões de cidadania e para repensar a ética e os valores humanos na atualidade. Assim, o simpósio quer explorar as implicações de uma teologia pública na América Latina e o que vem a ser, realmente, uma teologia pública global e contextualizada. Por isso, nomes como o do Prof. Dr. Max Stackhouse, da Universidade de Princeton (EUA); o do Prof. Dr. Nico Koopman, de Stellenbosch University (África do Sul); e o da Prof.ª Dr.ª Catalina Romero, da Universidade de Lima (Peru), vêm à EST discutir esses conceitos e contribuir, desta forma, teologicamente, para esse importante debate. Entre os palestrantes que representam a Unisinos no Simpósio, estão o diretor do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Prof. Dr. Inácio Neutzling e a Profa. MS Ana Formoso, além do reitor da Universidade, Prof. Dr. Marcelo Fernandes de Aquino.

O Simpósio Internacional Teologia Pública na América Latina acontece nas Faculdades EST de 04 a 07 de julho de 2008 e será realizado em torno de três linhas temáticas: Teologia e Sociedade, Teologia e Universidade e Teologia e Cultura.

 

Teologia pública. Seus espaços e seu papel. Entrevista especial com Rudolf von Sinner

Quais são as funções da teologia hoje? Em constante transformação, nossa sociedade, muitas vezes, passa por cima, desapercebidamente, de questões muito importantes para nossa evolução. Em busca de respostas para isso, a Teologia Pública tem se tornado um lugar de profundas discussões sobre o papel e o espaço da teologia para que possamos buscar um mundo não apenas evoluído, mas também em busca de um mundo justo e solidário. “A crescente reflexão e produção científica acerca da Teologia Pública é um avanço. Espero que seja benéfica para a teologia, as igrejas, as universidades e, não por último, a sociedade”, declara Rudolf von Sinner, pró-reitor de pós-graduação e pesquisa da Escola Superior de Teologia (EST), em entrevista à IHU On-Line, realizada por e-mail. Rudolf faz uma importante reflexão acerca dessas duas temáticas, a teologia, propriamente dita, e a Teologia Pública.

Rudolf von Sinner é, também, professor de Teologia Sistemática na EST e pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Tem doutorado em teologia, pela Universidade de Basiléia, na Suíça, e pós-doutorado, pelo Centro de Investigação Teológica de Princeton, nos Estados Unidos. Está finalizando um livro sobre as igrejas e a democracia no Brasil, explorando suas contribuições para a cidadania na visão de uma teologia pública, que será uma tese de livre-docência a ser submetida na Universidade de Berna, na Suíça. Seu último livro em português é Confiança e convivência: reflexões éticas e ecumênicas (São Leopoldo: Sinodal, 2007), no qual também trata da Teologia Pública. Coordena o Simpósio Internacional sobre Teologia Pública na América Latina, realizado em parceria com o IHU, na EST, de 4 a 7 de julho. Para maiores informações sobre o evento, clique aqui.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para o senhor, quais são as prioridades da teologia na contemporaneidade?

Rudolf von Sinner – Depende de qual teologia estamos falando. Existem seminários e faculdades que olham apenas para dentro da igreja e para a elaboração de estratégias de crescimento numérico da Igreja. Estas e outras tendem a minimizar o papel da teologia, até achando necessário uma “libertação da teologia” para livrar-se do pensamento crítico e questionador que a teologia pode ter frente às lideranças eclesiásticas e suas práticas. Por outro lado, a teologia está apenas começando a conquistar seu lugar entre as ciências, pelas quais vem sendo vista com suspeita e algo supostamente superado pela modernização e secularização do país. Porém, esta não conseguiu marginalizar a religião, e parece-me que há hoje um crescente interesse na contribuição da teologia no diálogo com outras ciências, para compreender melhor o papel da religião a partir de sua autocompreensão e não apenas numa visão externa. Este é um desafio que nós, teólogos e teólogas, precisamos aceitar e nos empenhar por uma contribuição autêntica e competente.

Vejo várias frentes na atualidade. Um dos grandes desafios atuais e como lidar com o pluralismo religioso, para cultivar respeito mútuo e diálogo em vez de competição e agressão verbal ou até física. Isto se acentua ainda mais pelo fato desta competição acontecer principalmente dentro do próprio cristianismo, ofuscando a fé no mesmo Deus, no mesmo Cristo, no mesmo Espírito Santo. A teologia, feita com rigor acadêmico, pode ajudar no esclarecimento da natureza da fé, tanto própria quanto de outrem, e fomentar, assim, o conhecimento e respeito mútuos. Tenho visto isto acontecer em cursos de integralização do bacharelado em teologia, onde padres, pastoras e pastores e outros teólogos de várias igrejas convivem e aprendem juntos para conquistar um título reconhecido pelo MEC. Não possível mais decretar; é preciso agora argumentar. E isto faz bem.

Outros desafios são as contínuas aflições da sociedade, como fome, desemprego, violência, falta de habitação apropriada etc., que não têm fronteiras confessionais ou religiosas e atingem a todos. Aqui, trata-se de fazer valer as bases teológicas que incentivam o serviço, a diaconia, a luta pelo bem-estar integral (shalom, no hebraico da Bíblia) de todos/as. Um desafio mais recente é a bioética, com um grande leque de questões desde o plantio de transgênicos até a chamada eutanásia, quando e como se poderia deixar de aplicar tratamentos talvez desproporcionais em pacientes em estado terminal, sem chance de cura. Aqui é preciso resistir, questionar, mas também amparar, cuidar, compreender, dialogar. Penso que estejamos numa situação nada fácil, mas criativa, onde é preciso encontrar novas respostas e soluções.

IHU On-Line – Para o senhor, qual é o papel que a teologia deve desempenhar hoje nas sociedades?

Rudolf von Sinner – A teologia é a reflexão metodologicamente responsável sobre o falar de Deus. Ou seja, seu objeto não é diretamente Deus, mas nosso falar Dele e também nosso falar a Ele na oração. Teologia é a explicação da fé, do seu conteúdo, de suas conseqüências, de suas bases. Neste sentido, serve para esclarecer e orientar para dentro e para fora da comunidade religiosa, no caso da comunidade cristã. Falo de uma teologia pública, termo cunhado nos EUA nos anos 70, mas apropriado para além daquele contexto, pois resgata a dimensão necessariamente pública da teologia. Cito apenas dois exemplos: Jesus afirmou, diante do sumo sacerdote: “Eu tenho falado francamente ao mundo; ensinei continuamente tanto nas sinagogas como no templo, onde todos os judeus se reúnem, e nada disse em oculto” (Evangelho de João 18.20). Outro: Jesus envia os 70 discípulos às nações, em número correspondente às nações descendentes de Noé conforme Gênesis 10, numa missão cujo início é o desejo da paz: “Paz seja nesta casa!” (Evangelho de Lucas 10.5).

As ações e prédicas de Jesus sempre foram abertas ao público e a ele dirigidas, de modo que se reuniam multidões para ouvi-lo. Num país como o Brasil, onde a grande maioria da população tem algum vínculo com uma religião, nomeadamente com uma igreja cristã, a teologia que sobre isto reflete precisa situar e orientar as igrejas no espaço público, onde é formada a opinião pública, são discutidos os assuntos que atingem a todas e todos. A teologia não deve nem pode fugir desta tarefa, mas servir como meio de campo no diálogo entre os diferentes públicos: a própria igreja, a sociedade, a universidade, a economia, a mídia, entre outros. Importa, contudo, insistir que a teologia busca contribuir, não impor, para estar presente no espaço público, não ocupá-lo ou monopolizá-lo. Portanto, se uma teologia pública encoraja as igrejas para contribuírem ativamente para o bem-estar de todos/as numa determinada sociedade, também deve orientá-las a fazerem isto com bom senso e restrição, em profundo respeito a outros grupos e outras religiões que também contribuem. Enquanto igreja e mundo não estão separados, também não devem ser confundidos.

IHU On-Line – A Teologia da Libertação encontra que tipo de espaços na sociedade para organizar debates acerca da Teologia Pública? Como se dão esses espaços?

Rudolf von Sinner – A Teologia da Libertação tem como intuição principal a “opção preferencial pelos pobres”. Esta descoberta a colocou imediatamente no espaço público, pois grande parte da população era pobre nos anos 1960/1970 (grande parte ainda o é hoje, apesar de melhoras), e falar de “libertação” chegou a ser proibido pelo regime militar, sendo considerado um termo subversivo e “comunista”. Contudo, as abordagens sobre Jesus Cristo, o libertador, feitas por Leonardo Boff [1] no Brasil e por Jon Sobrino [2] na América Central, mostram que o próprio Cristo praticou a libertação, tanto pelo seu testemunho de vida quanto pela sua morte e ressurreição. Hoje, em tempos democráticos, não é mais tão óbvio de que se precisa ser libertado.

Até houve certa inflação do termo “libertação” entre as diferentes igrejas e religiões: há procura e oferta para libertação da pobreza, de uma doença, do pecado, do “encosto”, até da própria teologia. Também não está mais tão claro para que se procura a libertação: um outro mundo possível, uma cidadania plena, uma nova existência após a prisão ou a dependência química, dentre outros possíveis projetos. Com isto, não quero dizer que o conceito da libertação se tornou supérfluo, mas ele não tem o mesmo apelo hoje que já teve em outras décadas. O novo termo-chave para a atuação da teologia na sociedade é, a meu ver, a cidadania: ter e poder, efetivamente, usufruir de direitos, ser respeitado, conhecer e cumprir seus deveres, reivindicar e assumir sua parte na sociedade. Não por último, é preciso lembrar que a Teologia da Libertação nunca conseguiu mobilizar as massas, apesar do expressivo e significativo número de Comunidades Eclesiais de Base norteados por esta teologia. Já se tornou lugar comum afirmar que enquanto a Teologia da Libertação optou pelos pobres, os pobres optaram pelo pentecostalismo. Isto não invalida, de modo algum, a Teologia da Libertação e seus grandes e inegáveis méritos. Eu também não estaria no Brasil, tendo vindo da Suíça, se não fosse por esta teologia que teve um imenso apelo para nós na Europa, e meu interesse começou com um ensaio que tive que escrever numa disciplina em 1989, sobre a teologia trinitária de Leonardo Boff e Jürgen Moltmann [3]. Mas mostra que é preciso ter uma visão mais ampla da situação hoje, e enxergar que diferentes igrejas e teologias podem contribuir para com a cidadania, sem necessariamente fazer um discurso explícito acerca dela.

Na teologia acadêmica, os teólogos e as teólogas ligadas ao movimento da Teologia da Libertação continuam com a maior expressividade nas publicações e congressos. A Teologia da Libertação não está nada morta, como alguns queriam, mas, pelo contrário, muito eloqüente. Esses espaços têm bastante visibilidade. Leonardo Boff, um dos principais articuladores desse movimento da teologia e dessa teologia em movimento, vem e continua sendo o mais conhecido teólogo no Brasil e alhures, lido muito além dos muros da igreja católica e dos seminários, às vezes até mais fora do que dentro delas. Tornou-se um teólogo público, respeitado, ouvido, lido, inspirando grande número de pensadores/as e militantes. Portanto, diria que o espaço acadêmico e o espaço da sociedade civil (movimentos, ONGs, sociedades religiosas) são espaços especialmente propícios para o debate da Teologia Pública. O debate com a ciência política, a sociologia e a economia já existe e precisa ser aprofundado. O diálogo com as ciências da vida (biologia, medicina, bioquímica, genética etc.) poderá tornar-se um novo campo, ainda pouco trilhado. Novamente, Leonardo Boff tem aberto caminhos aqui, com seu enfoque na ecologia desde os anos 1990. É por isto, e pela sua postura ecumênica, tendo suscitado considerável número de estudos de teólogos protestantes sobre sua teologia, que foi homenageado com o título de doutor honoris causa pela Faculdades EST em 15 de maio último.

IHU On-Line – Que tipo de reflexões teóricas podem ser feitas acerca do conceito atual de Teologia Pública? Esse conceito tem mudado de que forma ao longo dos anos?

Rudolf von Sinner – O conceito tende a ser um conceito vago e amplo. Isto porque denota, em primeiro lugar, uma dimensão e não um conteúdo específico. Contudo, também não é desprovido de conteúdo: o aspecto da justiça social, por exemplo, não pode faltar nele, sendo motivado pela própria fé como percebida pela teologia. A já citada opção preferencial pelos pobres não é um adendo aleatório a fé, mas está no centro dela. A igreja cristã vem sendo definida, desde seus primórdios, como querigma (proclamação), martyria (testemunho de vida), diaconia (serviço) e leitourgia (culto), construindo koinonia (comunhão). Ou seja, é uma missão integral, para corpo e alma, para cada um/a individualmente e para a comunidade. Uma teologia pública precisa evidenciar isto.

Quando o conceito foi cunhado, nos anos 1970, foi por duas razões, se bem vejo: viu-se que a religião tinha adentrado a política norte-americana de forma desvinculada da igreja e da teologia, como “religião civil” (Robert Bellah [4]) dos americanos. No regime militar, a chamada educação moral e cívica visou impor algo semelhante no Brasil, até chegou a formular uma oração pela pátria (conforme Thales de Azevedo [5], que denominou isto de “religião civil brasileira”). Foi preciso, portanto, resgatar uma teologia pública a partir da auto-compreensão da religião cristã e não por uma versão apropriada pelo estado, pela sociedade. A segunda razão foi a percepção de uma perda de relevância da teologia no debate público, que era preciso resgatar. David Tracy [6] falou, no início dos anos 1980, dos diversos públicos (igreja, sociedade, universidade) a quem se dirigem o teólogo e a teóloga. Hoje em dia, o conceito está sendo descoberto em vários países, inclusive na China, Índia, África do Sul e Austrália, como conceito aglomerador para a contribuição da igreja e da teologia no espaço público. Foi criada, em 2007, a Rede Global de Teologia Pública (www.ctinquiry.org/gnpt). Na África do Sul, cuja trajetória tem semelhanças com a do Brasil, e que hoje está se articulando também politicamente com o Brasil e a Índia, é preciso reformular a teologia no novo contexto, pós-Apartheid. Esta nova teologia não pode restringir-se à resistência contra formas de opressão, mas precisa achar uma cooperação crítico-construtiva com o sistema político e outros atores na sociedade. O mesmo desafio existe no Brasil e na América Latina.

IHU On-Line – De que forma o debate nas universidades acerca da Teologia Pública pode fazer com que sua atuação seja global?

Rudolf von Sinner – Presenciamos, hoje, uma articulação global tanto dos estados (como IBAS – Índia, Brasil, África do Sul) quanto das universidades e das agências de fomento (a Capes está trabalhando nesta linha, com os mesmos países) e da sociedade civil (como no Fórum Social Mundial). A Igreja é, por definição, católica (embora não necessariamente romana), ou seja, universal, e com isto facilita também a articulação internacional da teologia (como na Associação Ecumênica de Teólogas e Teólogos do Terceiro Mundo – ASETT, e no Fórum Mundial de Teologia e Libertação, já em sua terceira edição prevista para janeiro de 2009, em Belém/PA). Universidades européias não são mais apenas procuradas por universidades, faculdades ou seminários no hemisfério Sul, mas, por sua vez, estão à procura de parcerias internacionais, hoje imprescindíveis para grandes projetos de pesquisa. Universidades estadunidenses estão empregando cada vez mais professores e pesquisadores de outros países, inclusive do Brasil e da América Latina. A universidade é cada vez mais internacionalizada, e isto é saudável. A teologia também faz parte desta articulação, e assim aumenta sua visibilidade e contribuição pública em nível também supra-nacional. Uma teologia pública visa contribuir para a transformação do mundo, não apenas de um país, ainda que a concretização se dê, principalmente, no nível local e nacional.

Em março deste ano, participei de um seminário bilateral (Brasil e Alemanha) em São Paulo, onde apresentei o conceito de uma teologia pública e suas possíveis implicações. Fiquei surpreso com a boa recepção que o conceito teve entre os filósofos e cientistas sociais presentes. Um filósofo até vaticinou que nos próximos dez anos será um conceito amplamente usado no Brasil. Vamos ver se está certo. De qualquer forma, a crescente reflexão e produção científica acerca da Teologia Pública é um avanço. Espero que seja benéfica para a teologia, as igrejas, as universidades e, não por último, a sociedade.

Notas:

[1] Leonardo Boff é um teólogo brasileiro, expoente da Teologia da Libertação. Foi membro da Ordem dos Frades Menores. Seus questionamentos a respeito da hierarquia da Igreja, expressos no livro Igreja, carisma e poder (Rio de Janeiro: Record, 1982), renderam-lhe um processo junto à Congregação para a Doutrina da Fé, então sob a direção de Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI. Em 1985, foi condenado a um ano de “silêncio obsequioso”, perdendo sua cátedra e suas funções editoriais no interior da Igreja Católica. Em 1986, recuperou algumas funções, mas sempre sob severa vigilância. Em 1992, ante nova ameaça de punição, desligou-se da Ordem Franciscana e do sacerdócio. Participa da Igreja enquanto militante leigo. Continua seu trabalho de teólogo nos campos da Ética, Ecologia e da Espiritualidade. É professor adjunto de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Rio de Janeiro (UERJ).

[2] Jon Sobrino é um sacerdote e teólogo jesuíta que vive em San Salvador, importante expoente da Teologia da Libertação. Sua obra teológica é uma contribuição à Cristologia a partir da realidade da América Latina. Foi condenado a silêncio obsequioso pela Congregação para a Doutrina da Fé (o antigo Santo Ofício, cuja função é promover e tutelar a doutrina da fé e da moral em todo o mundo católico), por suas obras.

[3] Jürgen Moltmann foi o fundador principal da Teologia da Esperança cujo pensamento assemelha-se com as Teologias Feminista, Negra, Política, de Missão e Libertação. Em sua teologia ele aborda a escatologia, onde a esperança tem seu objetivo cumprido não na especulação, mas na práxis em meio a ação política e a revolução. É considerado um dos teólogos europeus mais inovadores a atualidade. Talvez seja a figura mais representativa da Teologia Protestante Contemporânea, depois do desaparecimento dos grandes líderes de escolas. É considerado também pai da Teologia da Cruz.

[4] Robert Bellah é um sociólogo e educador estadunidense, que considera seu país como uma sociedade do colapso. Suas formulações exploram novas possibilidades da cidadania e da cultura cívica.

[5] Thales de Azevedo é um médico e professor brasileiro. Trabalhou, exclusivamente, como médico por mais de 40 anos. Em 1943 torna-se também professor e pesquisador. Desenvolveu alguns longos ciclos de pesquisa, em que se destacam os temas medicina, história social, relações raciais, imigração/aculturação, catolicismo popular, relações Estado-Igreja, caráter nacional/ ideologia, cotidiano. Dedicou anos de trabalho ao Rio Grande do Sul e sobretudo à imigração/aculturação de italianos.

[6] David Tracy doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, e professor de Teologia Contemporânea e Filosofia da Religião na University of Chicago Divinity School.

Fonte: IHU – 28 maio 2008