Dom Helder, Leonardo Boff e Jonas Abib

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Três nomes, três notícias, três situações. Vale a pena a leitura.

Justiça manda recolher livro do Padre Jonas Abib

A Justiça da Bahia determinou o recolhimento, em Salvador, de todos os exemplares de um livro escrito pelo padre Jonas Abib, fundador da comunidade católica Canção Nova, ligada à Renovação Carismática, ala conservadora da igreja.

Para o Ministério Público baiano, que pediu o recolhimento do livro “Sim, Sim! Não, Não! Reflexões de Cura e Libertação”, da editora Canção Nova, o padre cometeu o crime de “prática e incitação de discriminação ou preconceito religioso”, previsto na lei 7.716, de 1989. Cabe recurso à Justiça.

De acordo com o promotor Almiro Sena, Abib faz no livro “afirmações inverídicas e preconceituosas à religião espírita e às religiões de matriz africana, como a umbanda e o candomblé, além de flagrante incitação à destruição e ao desrespeito aos seus objetos de culto”.

A ação cita trechos do livro que, na avaliação da Promotoria, trazem ofensas ao espiritismo e às religiões afro-americanas. “O demônio, dizem muitos, “não é nada criativo”. (…) Ele, que no passado se escondia por trás dos ídolos, hoje se esconde nos rituais e nas práticas do espiritismo, da umbanda, do candomblé”, diz Abib na obra.

Em outro trecho, o padre diz que “o espiritismo é como uma epidemia e como tal deve ser combatido: é um foco de morte”. Também há referência ao culto a imagens. “Acabe com tudo: tire as imagens de Iemanjá (que na verdade são um disfarce, uma imitação de Nossa Senhora). Acabe com tudo! Mesmo que seja uma estátua preciosa, mesmo que seja objeto de ouro, não conserve nada. Isso é maldição para você, sua casa e sua família.”

Para o Ministério Público, o livro ofende o princípio de liberdade de crença previsto na Constituição Federal, e afronta as “integridade, respeitabilidade e permanência dos valores da religião afro-brasileira” previstos na Constituição baiana.

Como atua em Salvador, o promotor pediu o recolhimento da obra só na capital, onde o livro é vendido por R$ 15,90. Segundo a Promotoria, foram vendidos 400 mil exemplares no país em 2007. Para Sena, isso “demonstra a amplitude alcançada pelas idéias contidas no seu conteúdo e o grave risco de propiciar o acirramento de conflitos étnico-religiosos”.

O juiz Ricardo Schmitt acatou a denúncia contra o padre e mandou intimá-lo a comparecer a audiência de interrogatório, em dia a ser definido. A pena prevista neste caso é de um a três anos de prisão, e multa.

Outro lado
Em nota, a Canção Nova informou não ter sido comunicada da decisão judicial. Negou, contudo, que o livro incorra em preconceito religioso. “A obra é meramente conceitual e não tem o propósito de incitar qualquer discriminação ou preconceito religioso.”

A nota afirma ainda que Abib “sempre se pautou pelo profundo respeito a todas as pessoas e ideologias, difundindo a doutrina da Igreja Católica e o amor cristão através dos meios de comunicação”. Diz que o propósito do livro é “orientar os católicos a viverem com coerência a vida cristã de acordo com a linha filosófica e teológica defendida pela igreja.”

 

Leonardo Boff recebe título de doutor ‘Honoris Causa’ da EST

O teólogo Leonardo Boff recebeu mais um título de Doutor Honoris Causa em reconhecimento ao seu compromisso ecumênico surgido do diálogo com a teologia protestante e à reflexão entre teologia e ecologia. A honraria é a primeira recebida de instituição teológica brasileira, as Faculdades EST (Escola Superior de Teologia de São Leopoldo, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil). O homenageado agradeceu pela concessão da titulação honrosa e enfatizou que Lutero apresentou um Deus que se acerca dos oprimidos, abrindo espaço para a esperança da humanidade, que se traduz na resistência e na busca da vida e da libertação. Na entrega do título, até então só concedido a luteranos, o reitor Oneide Bobsin salientou que o momento era de celebração e exaltação do Evangelho.

Boff agradeceu a homenagem e reafirmou conceitos sobre a importância da obras de Lutero, já difundidos em seu livro E a Igreja se fez povo; eclesiogênese: a Igreja que nasce da fé do povo, publicado pela Editora Vozes em 1986. Ele enfatizou a atualidade do reformador Martim Lutero e do princípio protestante da indignação. “A teologia de Lutero é boa para a humanidade sofredora. Ele foi um mestre da fé e a voz que clama pela renovação espiritual”. O evento se deu durante o seminário Leonardo Boff e a Teologia Protestante, de 12 a 16 de maio.

Participaram da cerimônia de outorga do título doutor honoris causa o prefeito de São Leopoldo, Ari José Vanazzi, o pró-reitor acadêmico da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Pedro Gilberto Gomes, o pró-reitor acadêmico da Pós-Graduação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Edgar Hammes, e o pastor primeiro vice-presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Homero Severo Pinto.

Leonardo Boff é natural de Concórdia (SC), ingressou na Ordem dos Frades Menores (1959), doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique (Alemanha, 1970), recebeu títulos de doutor honoris causa em Política da Universidade de Turim (Itália), e em Teologia da Universidade de Lund (Suécia). Sofreu um processo da Sagrada Congregação para a Defesa da Fé (1984), por causa da eclesiologia apresentada no livro Igreja: Carisma e Poder, sendo condenado a um ano de “silêncio obsequioso” e deposto das funções editoriais e magisteriais (1985). Sob ameaça de novo processo, renunciou ao sacerdócio (1992), prestou concurso e passou a ensinar Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) (1993). É autor de mais de 70 livros nas áreas de teologia, espiritualidade, filosofia, antropologia, mística e ecologia. A maioria de sua obra está traduzida para os principais idiomas modernos.

 

O Concílio de Dom Helder

(…) Estamos falando de Dom Helder Câmara. Precisamente ele, o bispo auxiliar do Rio de Janeiro, e depois, poucos dias antes do golpe de 31 de março de 64, o arcebispo de Recife: a ‘voz dos sem voz’ do nordeste do Brasil e, posteriormente, de toda a América Latina: onde – segundo o Sunday Times – ainda era considerado, nos anos 70, como ‘o homem mais influente’ após Fidel Castro.

Fonte: IHU On-Line: 17/05/2008

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