O show do eu: só existe quem é visto?

Essas produções [os blogs e similares] estão aí na maioria dos casos para ornamentar o “eu” do autor

A inquietação inicial, que motivou a escrita deste livro foi o surgimento dos blogs

Maria Paula Sibilia, argentina, está se referindo ao seu livro: O Show do Eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, 288 p. – ISBN 9788520921296.

Ora, o livro eu não li, só ontem tomei conhecimento de sua existência. Mas as entrevistas, apesar de colocarem o problema, me parecem ser frágeis nas explicações das razões sociais desta inegável realidade. Gostaria de ver o tema tratado com mais profundidade. No livro, talvez?

Mas, de alguma maneira, aí cabem também os biblioblogs e os biblistas que os produzem? Ou não?

 

Leia duas entrevistas da autora em IHU On-Line:

Paula Sibilia: “Antes o íntimo era secreto, agora se torna público na Internet”

IHU – 24/09/2008

O privado fez-se espetáculo, abrindo-se às câmeras a cotidianeidade banal e também aquela que antes se resguardava com pudor. Blogs e fotologs acentuam essa tendência.

Mostrar-se seja como for é a divisa que predomina em nossa época. E isso faz com que se transtorne a relação público/privado. Paula Sibilia, autora dos livros “O Homem Pós-Orgânico. Corpo, subjetividade e tecnologias digitais” (Relume-Dumará, 2002) e “La intimidad como espectáculo” [A intimidade como espetáculo] (FCE, 2008), é uma atenta estudiosa das metamorfoses da cultura contemporânea.

Segue a entrevista com Claudio Martyniuk, do jornal argentino Clarín, 21-09-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A intimidade está em crise?

Há uma crise da intimidade, que, como pertencente ao âmbito privado, já não se opõe ao âmbito público, porque passa a se exibir. No século XVIII, privilegiou-se o espaço público. Foi o século do homem público. E a privacidade, nesse contexto em que começa a se configurar a divisão entre o público e o privado, ficou como o âmbito da família e da mulher. No século XIX, houve uma inflamação do espaço privado, e o espaço público começou a ser estigmatizado, temido por enganoso, hipócrita. E o espaço da intimidade passou a ser o da verdade e da autenticidade, onde se podia estar sem máscaras e que era moralmente superior. A moralidade privilegiada era a do lar, das relações familiares, íntimas. Essa superioridade moral da intimidade não terminou. O âmbito público está cada vez mais estigmatizado, mais asfixiado. Nas décadas de 1960 e 70, algo começou a mudar de uma forma complexa, borrando a fronteira entre o privado e o público. Desde então, a intimidade passou a se mostrar no espaço público.

O que aconteceu com a família com essa mudança da intimidade?

A família mudou, como quase tudo. Está em crise. Era uma instituição disciplinar, um espaço fechado, mas já se abriu à mudança, não está formada de uma vez para sempre. Antes, o espaço familiar era tipicamente o âmbito da mulher, e era pouco o que se podia mudar. Agora, há um estímulo à mudança. E mostrar a intimidade tem a ver com o fato de que isso é o mais valioso, ainda que se trate de coisas banais: como nos lavamos os dentes, como é a decoração da minha casa, meu estilo. Então, o que mais se valoriza é o íntimo. Mas em algum ponto deixou de ser íntimo, porque perdeu seu oposto, o público. Antes, o íntimo era secreto, agora se torna público na Internet. O pudor, o oculto formavam parte da definição do íntimo, tinha-se que fechar as janelas e as portas. Agora, põe-se uma webcam que mostra tudo o que se faz dentro de uma casa. O que se mostra na Internet deixa de ser íntimo.

O domínio da visibilidade estende o campo da confissão?

A confissão é um dispositivo de poder sumamente eficaz, mais eficaz que a censura, porque a censura faz calar. A confissão é mais sutil, porque é menos evidente e porque faz falar. Ela nasce com a Igreja, é desenvolvida pela Justiça e é usada nos séculos XIX e XX pela psicologia, pela psiquiatria e pela medicina e agora se torna midiática, aparece exacerbadamente nos meios de comunicação. E isso faz com que a confissão, que era feita em um âmbito fechado, agora se torne pública. Antes, predominavam os segredos de confissão e profissionais. Agora, não só não se solicita essa reserva, mas também se roga que não se guarde o segredo. Existem sites na Internet onde se podem confessar segredos para que todo o mundo os veja. A graça é confessar algo privado. Fala-se, mas são monólogos. Estamos diante do eclipse da cultura da conversação?

Fala-se até pelos cotovelos, fala-se em todas as partes. Os telefones celulares parecem ter levado isso ao paroxismo, e, no entanto, como sinalou Guy Debord em “A sociedade do espetáculo”, há quarenta anos, a arte da conversação está morta. A conversação, como uma arte, não é o que fazemos no celular.

Exibindo o íntimo, como o “eu” fica configurado?

O “eu” tem que elaborar suas experiências e compreender o sentido do que lhe acontece, e para isso precisa de exercícios de introspecção e de confissão íntima, diário íntimo, cartas, leitura, escritura. Essas práticas tinham lugar na interioridade. Guardavam-se dentro de cada um, dando uma riqueza enorme, mas também uma atadura, já que era aquilo que estava dentro de alguém e ninguém podia tirar. Aí ficava, por exemplo, aquela culpa nascida quando criança. Ainda que alguém tenha se esquecido, permanecia e podia reaparecer; nos condenava. Agora, há um deslocamento que desinfla a interioridade, tirando seus conteúdos, e o eixo e o centro do que somos deixa de estar aí dentro para mostrar-se, para estar visível, e isso faz com que a estabilidade do “eu” se perca, com o bem e com o mal que isso implica. Lutou-se muito para não ter que estar condenado a uma identidade imposta, para poder autocriar-se. Hoje, temos a possibilidade de romper condicionamentos de origem, com o idioma, a profissão do pai, com tudo o que antes estávamos condenados.

Que conseqüências isso traz?

É uma conquista que gerou monstros. A partir da década de 60, desajustam-se os valores tradicionais e há uma reivindicação da espontaneidade, da criatividade, da informalidade, da juventude, da possibilidade de mudar. São conquistas diante do trabalhador industrial típico, representado pela figura de Chaplin em “Tempos Modernos”, que adquire os ritmos da máquina, que faz sempre o mesmo e sai alienado. O que o mercado de trabalho oferece hoje não é exatamente isso, ainda que isso siga ocorrendo com muita gente, e não só na China. O capitalismo contemporâneo requer pessoas criativas, dispostas a mudar, espontâneas, ávidas, ansiosas e com muitos desejos não reprimidos.

Por que a intimidade se transforma em uma tirania?

A tirania da intimidade é um fenômeno do século XIX. Foi uma imposição sutil, prazerosa, foi o desejo intenso de se fechar na privacidade e cultivar as relação afetivas, as emoções. Seu modo de expressão característico é a novela. Há hoje uma tirania da intimidade diferente, que não se apóia no universo da cultura letrada para alimentar a intimidade. Agora, à tirania da intimidade se sobrepôs a tirania da visibilidade, outra tirania não ditatorial. Ou seja, ninguém obriga que os meninos se mostrem no fotolog, ou que ponham uma webcam em sua cama ou em seu banheiro, ou que vejam ou estejam nos reality shows. A tirania da intimidade atual promove cultivar a intimidade, mas contanto que seja visível, porque, se não é visível, talvez não exista. Nossa lógica é a da sociedade do espetáculo: só existe o que se vê. Não somente são pessoas que querem se mostrar, mas também há gente que quer ver. Então, esses personagens que aparecem estereotipados tomam visibilidade, e é a tela a que lhes dá existência, e todo mundo sabe quem são. Alguns conseguem seguir visíveis um pouco mais. Podem fazê-lo como modelos, apresentadores, mas o que interessa é manter a visibilidade.

Agora todos nós nos transformamos em leitores e escritores?

Pela Internet, todos nós podemos ser emissores, todos nós podemos dar a conhecer o que fazemos, todos nós podemos mostrar nossos vídeos, nossas imagens, todos nós podemos nos transformar em jornalistas, em escritores. Nem todos têm acesso à Internet, mas os que têm definem as tendências, são os mesmos os que publicam os fotologs e os que lêem. E, de fato, formam-se correntes: os que têm blogs põem, à margem do seu, links a outros blogs, e isso se transforma em uma espécie de rede, e uns lêem os outros. O fato de que estejam conectados entre si é o que permite que existam os comentários. Um blog só existe porque é visto. Senão, não o publicariam. Não é como o diário íntimo que, pelo contrário, tinha que ser guardado na gaveta. Se alguém escreve um blog ou se alguém põe um vídeo no Youtube, ou publica fotos, é porque pensa que vão ser vistos. Se são publicados, se esses meios são escolhidos para dar a conhecer alguma coisa, é porque se pensa que alguém vai ver. Mas se ninguém o vê, provavelmente, esse blog desapareça. O rating dos blogs é medido pela quantidade de comentários. O que fazem os comentários, ainda que digam “que linda ficou essa foto”, é confirmar a existência do autor do blog. Não são autores de obras, por mais que ponham fotos, textos, vídeos. Essas produções estão aí na maioria dos casos para ornamentar o “eu” do autor. Os comentários cumprem a função de confirmar a existência desse autor e seu grau de visibilidade. E esse autor que recebe os comentários comenta ao comentador, e há um regime de correspondências e reciprocidades. Então, não há uma separação tão radical entre autores e leitores.

A Internet seria como “O Aleph”, de [Jorge Luis] Borges?

Sim. Contos de Borges como “O Aleph” ou “O jardim dos caminhos que se bifurcam” servem como metáforas do que a Internet é, um espaço que não tem espacialidade, ou que tem uma espacialidade virtual, e que, no entanto, é capaz de hospedar tudo, tem uma vocação de totalidade: entram todos os livros do mundo, todas as imagens, todos os filmes, todas as besteiras também, ou seja, tudo. Tudo o que é importante, e o não importante também. A Internet seria “A biblioteca de Babel”. A Internet parece realizar esses impossíveis borgeanos.

E que características tem a web 2.0?

Quando o Youtube, os fotologs e o conjunto de sistemas nos quais os usuários são os principais colaboradores – são os que produzem o conteúdo – começaram a aparecer, deu-se a mudança. A web original, que era a famosa web.com, explodiu. Nela, as pontocom eram as grandes empresas que produziam o conteúdo, e os usuários eram simplesmente consumidores, expectadores, leitores. Então, na web 2 os usuários colaboram com as empresas. Fazem-se amigos, em troca de receber publicidade.

 

“Sociedade do espetáculo: só é o que se vê”

IHU – 19/04/2009

Para a pesquisadora Paula Sibilia, a popularidade de redes sociais como Facebook, MySpace, Orkut e Twitter se justifica pelo desejo das pessoas de estarem à vista dos outros

Redes sociais como Facebook, Twitter e MySpace são, na opinião da professora do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Paula Sibilia, “compatíveis com as habilidades que o mundo contemporâneo solicita de todos nós com crescente insistência”. Segundo ela, essas ferramentas servem para dois propósitos fundamentais. “Em primeiro lugar, elas ajudam a construir o próprio ‘eu’, ou seja, servem para que cada usuário se autoconstrua na visibilidade das telas. Além disso, são instrumentos úteis para que cada um possa se relacionar com os outros, usando os mesmos recursos audiovisuais e interativos”, explica.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Paula Sibilia reflete sobre as mudanças de comportamento da sociedade contemporânea e afirma que “mudaram as premissas a partir das quais edificamos o eu”. Na atual sociedade do espetáculo, continua, “se quisermos ‘ser alguém’, temos que exibir permanentemente aquilo que supostamente somos”. E dispara: “Esses são os valores que têm se desenvolvido intensamente nos últimos tempos, uma época na qual, por diversos motivos, se enfraqueceram as nossas crenças em tudo aquilo que não se vê, em tudo aquilo que permanece oculto.”

Paula Sibilia é graduada em Ciências da Comunicação, pela Universidade de Buenos Aires (UBA), mestre na mesma área, pela Universidade Federal Fluminense (UFF), e doutora em Saúde Coletiva, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, é professora no Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Entre suas obras, citamos O homem pós-orgânico: corpo, subjetividade e tecnologias digitais (Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002) e O show do eu (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008). Em 2008, ela participou do Simpósio Internacional Uma sociedade pós-humana? possibilidades e limites das nanotecnologias, realizado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que redes sociais como Facebook, Orkut, Twitter e Myspace revelam sobre a sociedade contemporânea?

Paula Sibilia – Estas novas ferramentas, que apareceram nos últimos anos e de repente se tornaram tão populares, servem para dois propósitos fundamentais. Em primeiro lugar, elas ajudam a construir o próprio “eu”, ou seja, servem para que cada usuário se autoconstrua na visibilidade das telas. Além disso, são instrumentos úteis para que cada um possa se relacionar com os outros, usando os mesmos recursos audiovisuais e interativos.

Por isso, tanto as redes sociais como Orkut, Facebook, Twitter ou MySpace como os blogs, fotologs, YouTube e outros canais desse tipo que hoje proliferam na internet são perfeitamente compatíveis com as habilidades que o mundo contemporâneo solicita de todos nós com crescente insistência. E uma dessas capacidades que tanto se estimula que desenvolvamos é, precisamente, a de “espetacularizar” a nossa personalidade. O que significa isso? Tornarmos-nos visíveis, fazer do próprio “eu” um show.

Este fenômeno responde a uma série de transformações que têm ocorrido nas últimas décadas, que envolvem um conjunto extremamente complexo de fatores econômicos, políticos e socioculturais, e que converteram o mundo em um cenário onde todos devemos nos mostrar. Se quisermos “ser alguém”, precisamos exibir permanentemente aquilo que supostamente somos. Nos últimos anos, portanto, têm cristalizado uma série de transformações profundas nas crenças e valores em que nossos modos de vida se baseiam, e a “espetacularização do eu” faz parte dessa trama.

IHU On-Line – Que novos modelos de relações se configuram através das redes sociais? A senhora acredita que as relações ganham um novo sentido?

Paula Sibilia – Uma das manifestações dessa mutação que tem ocorrido na sociedade contemporânea é a derrubada das fronteiras que costumavam separar o âmbito privado e o espaço público, e que constituíam um ingrediente fundamental do modo de vida moderno. Então, junto com essas mudanças que se consumaram nos últimos anos, também se reconfigurou a maneira com que nos construímos como sujeitos.

Mudaram as premissas a partir das quais edificamos o eu, e isso aconteceu porque também se transformaram as nossas ambições e os nossos horizontes. Portanto, não se modificaram apenas as formas de nos relacionarmos conosco, com o próprio “eu”, mas também as relações com os outros. E ferramentas como o Facebook ou o Orkut caíram como luvas nesse novo universo: são extremamente úteis para consumar essas novas metas.

Porque na atual “sociedade do espetáculo” só é o que se vê. Portanto, se algo (ou alguém) não se expõe nas telas globais, se não está à vista de todos — sob os flashes dos paparazzis ou, pelo menos, sob a lente de uma modesta webcam caseira —, então nada garante que realmente exista. Esses são os valores que têm se desenvolvido intensamente nos últimos tempos, uma época na qual, por diversos motivos, se enfraqueceram as nossas crenças em tudo aquilo que não se vê, em tudo aquilo que permanece oculto. “A beleza interior” seria um exemplo. Enquanto isso, de forma paralela e complementar, exacerbaram-se as nossas crenças no valor das imagens, na importância da visibilidade e da celebridade como fins em si mesmos, como metas autojustificáveis, às quais supõe-se que todos deveríamos aspirar.

IHU On-Line – A partir dessas redes sociais, como a senhora descreve o nosso atual modelo de vida?

Paula Sibilia – Há uma necessidade de se mostrar constantemente, que se exacerba por toda parte, embora não tenhamos nada muito importante para mostrar ou para dizer. Os canais interativos da Web 2.0 permitem fazer isso à vontade, facilmente e com baixos custos, de um modo ainda mais eficaz do que os meios de comunicação tradicionais. Porque essas novas ferramentas “democratizam” o acesso à fama e à visibilidade.

Mas o Orkut e o Facebook não surgiram do nada. Ao contrário, as redes sociais apareceram num terreno que já estava muito bem sedimentado para que essas práticas pudessem florescer. Nos últimos anos, temos aprendido a estar conectados o tempo todo. Utilizando as mais diversas ferramentas tecnológicas (celulares, e-mail, GPS etc.), aprendemos a estar sempre disponíveis e potencialmente em contato. Acredito que tudo isso esteja dando conta de um forte desejo de estar à vista dos outros, de sermos observados, mesmo que seja apenas para confirmar que estamos vivos. Para constatarmos que somos “alguém”, que existimos. Sem dúvida, entre várias outras coisas, há muita solidão e vazio por trás de tudo isto.

IHU On-Line – O conceito de intimidade conhecido até então é alterado a partir de programas como Facebook, Twitter, Orkut?

Paula Sibilia – Neste momento, quando tantas imagens e relatos supostamente “íntimos” estão publicamente disponíveis, é evidente que a intimidade tem deixado de ser o que era. Nos velhos tempos modernos, aqueles que brilharam ao longo do século XIX e durante boa parte do XX, cada um devia resguardar sua própria privacidade de qualquer intromissão alheia. Isso não se conseguia somente graças às grossas paredes e às portas fechadas do lar, mas também mediante todos os rigores e pudores da antiga moral burguesa.

Agora, porém, a intimidade tem se convertido em um cenário no qual todos devemos montar o espetáculo daquilo que somos. E esse show do eu precisa ser visível, porque se esses pequenos espetáculos intimistas se mantivessem dentro dos limites da velha privacidade — aquela que era oculta e secreta por definição — ninguém poderia vê-los e, então, correriam o risco de não existirem.

É por isso que hoje se torna tão imperiosa essa necessidade de fazer público algo que, não muito tempo atrás e por definição, supunha-se que devia permanecer protegido no silêncio do privado. Porque mudaram os modos de se construir o “eu” e mudaram também os alicerces sobre os quais se sustenta esse complexo edifício.

Por isso, se as práticas que eram habituais naqueles tempos (como o diário íntimo e a correspondência epistolar) procuravam mergulhar no mais obscuro de si mesmo para ter acesso às próprias verdades, nestes costumes novos a meta é outra e bem diferente. No Orkut ou no Facebook, é evidente que o que se persegue é a visibilidade e, em certo sentido, também a celebridade. Ambas como fins autojustificados e como metas finais, não como um meio para conseguir alguma outra coisa e nem como uma consequência de algo maior.

IHU On-Line – Que futuro a senhora vislumbra a partir dessas redes sociais na internet? A sociedade tende a mudar ainda mais seus hábitos e comportamentos?

Paula Sibilia – Sobre o futuro, feliz ou infelizmente, é pouco o que posso dizer. Mas acredito que já seja possível fazer algumas avaliações sobre as implicações destas novidades. Por um lado, estamos perdendo a possibilidade de nos refugiarmos em toda aquela bagagem da própria interioridade, que oferecia uma espécie de âncora ou um porto seguro para cada sujeito, que acolchoava seu “eu” contra as inclemências do mundo exterior e contra o inferno representado pelos outros.

Por outro lado, também é claro que ganhamos algumas coisas: uma libertação daquela prisão “interior”, ao se esfacelar essa condenação a ser “você mesmo”, aquela obrigação de permanecer fiel à interioridade oculta, densa e muitas vezes terrível que amordaçava os sujeitos modernos.

Outro problema que surge com estas novidades, no entanto, é que os tentáculos do mercado se desenvolveram de um modo que teria sido impensável algumas décadas atrás, e que hoje chegam a tocar todos os âmbitos. Agora, nos inícios do século XXI, tanto as personalidades como os corpos podem se converter em mercadorias que se compram, se alugam, se vendem e depois se jogam no lixo.

Numa sociedade tão espetacularizada como a nossa, a imagem que projeta o “eu” é o capital mais valioso que cada sujeito possui. Mas é preciso ter a habilidade necessária para administrar esse tesouro, como se fosse uma marca capaz de se destacar no competitivo mercado atual das aparências. Hoje, o espírito empresarial contamina todas as instituições e se impregna em todos os âmbitos, inclusive nos mais “íntimos” e recônditos, e o mercado oferece soluções para qualquer necessidade ou desejo. Além disso, sempre será possível (e inclusive desejável) mudar de “perfil”, atualizando as informações pessoais ou alterando suas definições para melhorar a cotação do que se é. Seja no mesmo Orkut ou Facebook, ou então migrando para um novo sistema apresentado como bem melhor do que o anterior, mais atual e dinâmico, daqueles cujo surgimento e cujo sucesso potencial não cessam de ser anunciados.

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