Profissão Teólogo: Entrevista com Márcio Fabri

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A diferença entre pastor e teólogo. Uma reflexão sobre a profissionalização do teólogo. Entrevista especial com Márcio Fabri dos Anjos

“A confusão entre os papéis do teólogo e do pastor me parece inadequada, em especial por estas funções exigirem habilitações bem diferenciadas.” Esta é a opinião do teólogo Márcio Fabri dos Anjos. Em entrevista concedida à IHU On-Line, por e-mail, o professor falou sobre a presença da Teologia na sociedade contemporânea, sobre a possibilidade de reconhecimento dos cursos de Teologia por parte do MEC e das propostas de profissionalização do teólogo e as características sociais da proposta. Para ele, “as perguntas éticas da humanidade devam ser sempre assumidas pela Teologia”.

Márcio Fabri dos Anjos é doutor em Teologia, licenciado em Filosofia. É docente e pesquisador do PPG em bioética do Centro Universitário São Camilo, em São Paulo; professor de Teologia do Instituto São Paulo de Estudos Superiores; e da Faculdade de Teologia N. Sra. Assunção. De 1991 a 1998, foi presidente da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para o senhor, qual é o papel da Teologia na sociedade contemporânea?

Márcio Fabri dos Anjos – Vejo a Teologia com dois papéis fundamentais: dentro das comunidades de fé e na sociedade plural. Em ambas lhe cabe uma função de estudar e explicar os fundamentos e conteúdos da fé. Dentro das comunidades, este serviço é desenvolvido e utilizado com condições de exercício que variam entre os diferentes grupos confessionais, especialmente no que diz respeito à habilitação teórica e à liberdade de expressão. Na sociedade plural, a Teologia tem uma importante tarefa de expor as percepções e as razões da fé através das quais se cultivam sentidos e valores na condução da vida individual e comunitária, social e ambiental.

A Teologia ganha particular relevância quando se percebe a estreita relação entre fé e processos históricos, fé e transformações culturais. Isto ficou claro com a Teologia do Político na Europa e a Teologia da Libertação na América Latina; e não menos claro nas contribuições da Teologia em grandes temas da atualidade como os fundamentalismos, questões de ética social, de ecologia e bioética. A Teologia é capaz de apontar razões para além da simples razão instrumental dominante em nosso momento cultural, o que me parece fundamental.

IHU On-Line – Como as mudanças propostas pelo MEC e pelo Congresso Nacional afetam a Teologia praticada e ensinada hoje?

Márcio Fabri dos Anjos – Há dois assuntos diferentes nesta questão. A possibilidade de reconhecimento civil da Teologia, monitorado pelo MEC, foi a meu ver um importante avanço para colocar a Teologia como forma de conhecimento em sociedade. Além disso, ao monitorá-la pelo viés da cientificidade, provoca uma gradativa abertura do pensar teológico para além das fronteiras confessionais em que ela se dá. Assim, o reconhecimento civil da Teologia é um processo que ainda não acabou; supõe outros passos, alguns bem complexos, mas todos necessários.

Quanto ao que tramita no Congresso Nacional, refere-se a projetos sobre a profissionalização do “teólogo/a”. Envolve questões como as características sociais deste profissional, exigências sobre sua habilitação e seus direitos. Há que se perguntar também que interesses estão subjacentes a estes projetos. Em 1994, coordenei um estudo publicado dois anos depois com o título “Teologia: profissão” [1]. Mas na época o interesse básico era o reconhecimento civil que veio alguns anos depois.

IHU On-Line – Os proponentes dos projetos em tramitação no Congresso Nacional estariam fazendo prevalecer suas trajetórias de pastores com prejuízo para a exigência de formação acadêmica superior em Teologia?

Márcio Fabri dos Anjos – Os dois projetos têm diferenças, mas em ambos é preciso olhar a questão da profissionalização com uma metódica suspeita, como observou o professor Ricardo Willy Rieth [2]. Aparece ali uma convergência para um cadastramento dos profissionais da área, permitindo a suspeita de interesses econômicos subjacentes. Isto se soma a um alargamento do profissional “teólogo” para incluir também quem exerce funções de “pastor/a” e alargar assim o grupo de associados.

Mesmo que não se verifique tal suspeita, a confusão entre os papéis do teólogo e do pastor me parece inadequada, em especial por estas funções exigirem habilitações bem diferenciadas. Se as comunidades confessionais exigem ou não uma formação e atualização teológica de seus pastores/as, esta é uma questão interna à comunidade. Em sociedade, a habilitação do teólogo/a está sendo monitorada e reconhecida através de exigências acadêmicas, que devem ser melhoradas, mas que já estabelecem passos em vista do serviço da Teologia em sociedade.

IHU On-Line – Como o senhor analisa o ensino da Teologia no Brasil, hoje?

Márcio Fabri dos Anjos – Bem anterior ao MEC, o ensino da Teologia tem uma tradição robusta na Igreja Católica romana e Igrejas Evangélicas históricas, com exigências curriculares bem definidas. Instituições católicas romanas têm inclusive há quase um século, um sistema conveniado com o Vaticano para conferir títulos acadêmicos de graduação e pós-graduação, e por sinal, bastante exigente: a graduação supõe no mínimo um biênio de filosofia e um triênio de Teologia, portanto cinco anos de faculdade.

Outras tradições religiosas com exigências acadêmicas menores comprometem naturalmente a qualidade. As exigências do MEC para o reconhecimento civil da Teologia provocam a organização acadêmica da Teologia, o que beneficia as diferentes tradições de ensino e estimulam as que quase nada tinham. Mas, no ponto em que estamos, isto não leva a superar perceptíveis diferenças na qualidade atual do ensino teológico.

IHU On-Line – Quais são os novos paradigmas que o ensino e a prática da Teologia vislumbram hoje?

Márcio Fabri dos Anjos – A “grande transformação”, com que Polanyi [3] caracteriza a atual mudança de época, incide também sobre a Teologia em seu conjunto, particularmente nos pressupostos de sua fundamentação, nos sujeitos de sua interlocução e nas suas preocupações temáticas, e consequentemente no seu método de gerar conhecimento e em sua organização didática. Isto se dá num processo gradativo. As teologias pensam a partir de suas confessionalidades, se abrem para o pensar de outros contextos e identidades religiosas, interagem com outras formas de conhecimento, e assumem uma participação social na busca de soluções aos desafios que temos em comum na vida. É um grande programa que se vislumbra. Muitos sinais desta mudança já aparecem.

IHU On-Line – Pensar a Teologia como profissão pode vir a ser um desacato à experiência religiosa pressuposta no fazer teológico?

Márcio Fabri dos Anjos – A Teologia da Libertação ressaltou a estreita relação que existe entre teoria e prática. O modo de gerar conhecimento hoje também privilegia a aproximação com a experiência e a particularidade. A profissionalização da Teologia pode ser então um desacato à experiência religiosa, e também ao método teológico, na medida em que dela se distanciar, tornando-se como que uma burocracia teórica, ou uma teologia de gabinete. Por outro lado a profissionalização coloca uma pergunta interessante sobre a aplicabilidade da Teologia.

Os grupos religiosos em geral vinham destinando o estudo teológico para a formação de seus líderes religiosos, padres e pastores. O termo “leigo” chegou a entrar no vocabulário como sinônimo de “estar por fora”. Em países como a Alemanha, o estudo da Teologia tem, de longa data, outros endereços. No Brasil, esta destinação do estudo teológico está mudando, e traz perguntas sobre sua programação curricular. Acredito que o momento atual seja muito imaturo para a profissionalização da Teologia, mas julgo necessário trazer para os currículos as perguntas sobre a destinação do estudo teológico.

IHU On-Line – Que desafios éticos a Teologia precisa enfrentar hoje?

Márcio Fabri dos Anjos – Entendo que as perguntas éticas da humanidade devam ser sempre assumidas pela Teologia. Teólogos como Leonardo Boff [4] e Hans Küng [5] têm demonstrado tal preocupação e contribuem para envolver as teologias na busca de solução para os grandes desafios mundiais. Creio que hoje um desafio particular à Teologia seja contribuir para que nosso momento civilizatório se liberte da monolinguagem da razão eficiente e instrumental e possa se encontrar com a transcendência sem negar a razão, mas dando um passo para a realização plena do humano. Juan Luis Segundo [6] lembrava que para isto é necessário que a própria Teologia se liberte das peias condicionadoras do seu discurso a interesses institucionais e particulares.

IHU On-Line – A possibilidade de criação de um Conselho Nacional de Teólogos muda, de que forma, a relação entre a Igreja e o Estado?

Márcio Fabri dos Anjos – A relação entre Igrejas e Estado deve estar precedida pelo compromisso de ambos para com a sociedade, pelo dever de ambos em contribuírem para o bem social. Houve tempo de privilégios nesta relação, que hoje devem ser superados, mas não substituídos por relações distanciadas ou até hostis. As igrejas são, de algum modo, expressões da sociedade e a enriquecem com o conhecimento religioso.

Do Estado democrático se espera o reconhecimento destes valores e a gestão dos seus aspectos que incidem na vida social. Assim, deve-se perguntar se a criação de um Conselho Nacional de Teólogos corresponde, e de que forma, a uma demanda do bem comum, social. Além de desnecessário na atual conjuntura, acredito que um conselho com o perfil desenhado nos mencionados projetos esvazia e desqualifica o saber teológico, cuja boa qualidade me parece indispensável para a sociedade.

IHU On-Line – Há necessidade de o poder público estabelecer diretrizes curriculares que uniformizassem o ensino da Teologia no país? De que forma essas diretrizes devem ser estabelecidas se houver necessidade?

Márcio Fabri dos Anjos – O estabelecimento de diretrizes curriculares me parece oportuno em vista da boa qualidade da Teologia no Brasil. Isto não significa obviamente engessar os diferentes grupos e instituições que pensam a Teologia. Um passo indispensável para elaborar tais diretrizes está em consultar as instituições que têm desenvolvido com seriedade o ensino teológico até agora.

Notas:
[1] ANJOS, Márcio Fabri dos (org.). Teologia: profissão. São Paulo: Loyola 1996. (Nota do entrevistado)

[2] Ricardo Willy Rieth é teólogo e sociólogo. É doutor em Teologia, pela Universidade de Leipzig, na Alemanha, onde também obteve o título de pós-doutor. Atualmente, é professor da Universidade Luterana do Brasil – Ulbra e da Escola Superior de Teologia – EST. É autor do livro Martim Lutero: discípulo, testemunha, reformador (São Leopoldo, RS: Editora Sinodal, 2007).

[3] POLANYI, Karl. A grande transformação. As origens da nossa época. 2. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2000. (Nota do entrevistado)

[4] Renomado teólogo brasileiro, Leonardo Boff foi um dos criadores da Teologia da Libertação e, em 1984, em razão de suas teses a ela ligadas e apresentadas no livro Igreja: carisma e poder – ensaios de eclesiologia militante (Petrópolis: Vozes, 1982) foi condenado pela Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano. Deixou, então, a Ordem dos Freis Franciscanos e desde 1993, é professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, espiritualidade, Filosofia, Antropologia e mística.

[5] Hans Küng é padre católico desde 1954. Foi consultor teológico do Concílio Vaticano II e destacou-se por ter questionado as doutrinas tradicionais e a infabilidade do Papa. O Vaticano proibiu-o de atuar como teólogo em 1979. Atualmente, mantém boas relações com a Igreja e é presidente da Fundação de Ética Global, em Tübingen, na Alemanha. Dedica-se ao estudo das grandes religiões, sendo autor de obras, como Por que ainda ser cristão hoje (Campinas: Verus Editora, 2004), Projecto para uma ética mundial (Lisboa: Instituto Piaget, 1997), Uma ética global para política e economia mundiais (Petrópolis: Vozes, 1999) e, recentemente, Freud e a questão da Religião (Campinas: Verus Editora, 2006).

[6] Juan Luis Segundo foi um dos grandes representantes da Teologia da Libertação. É considerado o maior teólogo Latino Americano. Era dedicado à pesquisa e à participação em grupos de reflexão com leigos. Segundo considerava os tratados da Teologia nas Universidades as coisas mais destruidoras de pensamento que existem. Para ele, a Teologia, sistematizada e dividida pelos tratados, precisaria ser algo vivo, para a vida.

Fonte: IHU – 07/05/2008

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1 comentário em “Profissão Teólogo: Entrevista com Márcio Fabri”

  1. É duro ser teólogo neste país. Os teólogos não tem reconhecimento civil e pior, nem mesmo de muitas comunidades cristãs. Tenho visto em muitas Igrejas pessoas que são formadas em outra área, ou, sem nenhuma formação,lecionando ou ensinando Bíblia em Igrejas. Muitas dessas pessoas não sabem nada sobre teologia ou mesmo sobre a própria Bíblia, mas mesmos assim, ficam ensinando nas igrejas – não me espanta o numero de ensinamentos estranhos que tem surgido na Igreja evangélica brasileira, pro exemplo, nesses últimos 30 anos.
    Estas pessoas, muitas vz bem intencionadas,acham que basta um livro de teologia sistemática e um comentário bíblico qualquer, e pronto; não precisam de mais nada. É assim que muitos pensam.
    Por outro lado, na sociedade Civil, muitas pessoas nunca ouviram falar de teologia. Alguns, de forma irônica,inclusive cristãos ignorantes, usam piadinhas afim de ridicularizar os teólogos como se estes fossem insignificantes. É triste, mas já testemunhei tudo isso.
    É duro. Não temos nenhuma perspectiva de vida/salarial, não temos nenhum prestígio ou respeito. É por isso que muitos teólogos tem migrado para outras áreas – filosofia, sociologia, antropologia, história ou psicologia.Muitos fazem isso para sobreviver.
    E nisto, em minha opinião, quem perde são todos, tanto a sociedade civil quanto a Igreja.
    A sociedade Civil perde porque a teologia é conhecimento "univérsico",isto é, não fica preso apenas aos interesses internos e pequenos do mundo eclesial. A teologia tem essa capacidade de abordar todas as esferas por meio de uma construção teológica a serviço da vida. Por outro lado, as igrejas saem perdendo porque são os teólogos quem pesquisam. Hoje, se os cristãos, por exemplo, podem ter acesso a um bom livro de Teologia Sistemática, ou mesmo um bom livro de História do Cristianismo, ou, de um bom comentário Bíblico, ou ainda, acesso a uma Bíblia comentada, ou, acesso a livros devocionais ou dicionários bíblicos e teológicos, enfim, a um material teológico para auxiliar seus estudos da Bíblia, isso se deve a todos esses teólogos que se dedicaram a pesquisa. Muitos desses teólogos não ganharam quase nada em termos financeiro com estas pesquisas. Muito trabalharam, pesquisaram por amor ao conhecimento e pesquisa. Agora,não poucas as vezes, vejo alguns cristãos estúpidos e ignorantes falando mal dos teólogos. Francamente! É por isso que o Cristianismo evangélico brasileiro é uma vergonha. Isto é o reflexo da ausência de bons teólogos.Aprendam de uma vez por todas- os teólogos não são contra Deus ou contra a Igreja. Os teólogos são pesquisadores a serviço do reino e principalmente do Ser humano.
    Em minha opinião, nem todo teólogo/a precisa ser um pastor ou padre, mas todo pastor ou padre precisa ser um teólogo. Se um médico ou qualquer outro profissional se preparam para a prática do seu ofício, então, todo aquele que deseja o episcopado tem que se preparar também. Por isso digo: todo pastor ou padre precisam estudar teologia – isso deveria ser obrigado por lei.Em minha opinião isso é apenas o básico. É lamentável quando vejo pastores desprezando a teologia – é por isso que muitos cristãos evangélicos vivem na ignorância seguindo todo tipo de ensinamento esquisito sendo motivo de piada na sociedade.
    Sonho com dias melhores para nós teólogos e cristãos brasileiros.

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