Caso Dorothy Stang

Agora mais do que nunca: Irmã Dorothy Stang – IHU: 14 fevereiro 2019

Esta semana, comemoramos o aniversário de falecimento de uma mártir e inspiração: a Irmã Dorothy Stang.

Dorothy nasceu nos Estados Unidos, mas se mudou para uma região rural do Brasil para viver com os pobres. Lá, ela testemunhou em primeira mão pecuaristas e madeireiros explorando agricultores e povos indígenas, roubando terras, derrubando florestas e assassinando aqueles que contestassem.

A reportagem foi publicada por Movimento Católico Global pelo Clima, 13-02-2019.

A Irmã Dorothy contestou com coragem. Durante várias décadas, exigiu a proteção dos pobres da região rural do Brasil, em especial daqueles que viviam na Amazônia. Por causa de seu trabalho em favor da justiça, ela entrou para uma lista negra e acabou sendo assassinada.

É assim que suas irmãs contam a história: “no dia 12 de fevereiro de 2005, numa estrada de chão do acampamento de Boa Esperança, em uma zona rural do Pará, dois matadores de aluguel dispararam seis tiros e mataram a Irmã Dorothy… Quando os atiradores se aproximaram da Irmã Dorothy, ela tirou sua Bíblia da bolsa e começou a ler as Bem-aventuranças: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça .”

A Irmã Dorothy disse que “apenas uma profunda mudança em nosso modo de vida – nossos valores e atitudes – pode trazer uma nova vida ao nosso mundo”.

Em outubro, bispos de todas as partes do mundo se reunirão no Vaticano para um diálogo com duração de um mês sobre a proteção da Amazônia e seus povos. Ao longo deste ano, nós do Movimento Católico Global pelo Clima incluiremos o cuidado pela Amazônia em nossos programas. Marque no seu calendário os momentos importantes das próximas semanas:

Para a Quaresma, nós o convidamos a incluir refeições vegetarianas na sua dieta. Por incrível que pareça, a pecuária é a maior causa de desmatamento no Brasil, e uma porção média de carne acarreta 60 vezes mais emissões de gases de efeito estufa do que uma porção de frutas, legumes, verduras e cereais. Fazer refeições vegetarianas é uma forma de honrar nossa tradição de simplicidade na Quaresma e de mostrarmos solidariedade aos nossos irmãos e irmãs. Aguarde os recursos para a Quaresma na próxima semana.
Para o Dia da Terra, nós o convidamos a plantar uma árvore em sua comunidade para simbolizar seu compromisso de proteger a Amazônia e seus povos. Comece a planejar! Em breve, compartilharemos um guia de planejamento completo para o Dia da Terra.

A Irmã Dorothy Stang disse: “nós passamos poucas décadas aqui na terra. Use cada dia para levar alegria, não ganância, à nossa terra exaurida, tão cheia de angústia”.

Nossas escolhas e ações importam. Damos graças pelo testemunho da Irmã Dorothy e rezamos para que seu espírito de justiça ilumine nosso caminho este ano.

 

 

“Irmã Dorothy Ajudou-me a entender como se vive na prática o Evangelho”, afirma padre José Amaro – IHU: 14 fevereiro 2019

O assassinato da Irmã Dorothy completa neste 12 de fevereiro 14 anos. Sua morte ocorre num cenário de grande disputa por terras, destruição ambiental e violação de direitos dos povos ribeirinhos e indígenas. Essa disputa, na qual a irmã Dorothy foi mais uma vítima é antiga no Brasil e a justiça anda distante desse processo. Dorothy lutava bravamente em defesa dos mais empobrecidos, pela reforma agrária e foi esse o motivo que a fez ser vítima brutal dos interesses dos grileiros e fazendeiros do Norte do Brasil.

A história de violência contra Dorothy Stang percorreu o mundo e chocou as pessoas pela forma covarde com que tentaram calar a idosa de 73 anos. Mas o efeito foi ao contrário: o assassinato ecoou ainda mais a luta entre os desiguais desse país.

Ao lado da Irmã Dorothy, esteve por anos promovendo também o trabalho pastoral, o Padre José Amaro, hoje com 52 anos. Ameaçado de morte e perseguido pelos mesmo grupos poderosos que mandaram matar Dorothy Stang, foi preso com acusações infundadas em 27 de março de 2017. Passou 92 dias no Centro de Recuperação de Altamira-Pará, e como ele mesmo afirma: “Se eu fiz alguma coisa de errado, foi ajudar a garantir um pedacinho de terra na mão de trabalhadores e trabalhadoras para dar o sustento do pão de cada dia a sua família”.

Em memória aos 14 anos da morte da Irmã Dorothy, o Portal das CEBs entrevistou Padre José Amaro Lopes de Souza, 52 anos. Ele fala da atual situação dos conflitos na região do Pará e chama atenção para tantas mortes ocorridas nesses 14 anos. Lamenta a injustiça do caso da Irmã Dorothy e sua missão de continuar o trabalho mesmo diante de tantas ameaças.

Padre Amaro nasceu em Itapecuru Mirim – MA. Trabalhou por 20 anos na Paróquia Santa Luzia de Anapu e coordenou Comissão Pastoral da Terra. Graduado em Filosofia e Teologia, atua incansavelmente na defesa da vida e dos direitos do trabalhador e da trabalhadora do campo.

A entrevista por Portal das Ceb’s, 11-02-2019.

 

A entrevista

Qual atual realidade de Anapu referente os conflitos de terra?

No momento atual é muito preocupante quando o governo se posiciona ou há comentários de ameaças a criminalizar os movimentos sociais, e explicitamente criticou o trabalho dos organismos e comissões pastorais da Igreja (CIMI, CPT).

A realidade atual apresenta invasões nas reservas dos Planos de Desenvolvimento Sustentável (PDSs) em Anapu, esses idealizados por Ir Dorothy Stang.

De que forma o trabalho pastoral com Ir Dorothy Stang marcou sua vida?

Ajudou-me a entender como se vive na prática o Evangelho. Defendendo os pequenos e pequenas em qualquer situação que ameaça a sua integridade física e de sobrevivência. Para mim foi uma mãe.

Após 14 anos de sua morte, como está à situação e o andamento do processo e da punição dos assassinos?

Muito lento, um dos mandantes continua respondendo em liberdade, os outros envolvidos estão soltos. E o consócio de morte continua agindo.

Em sua opinião qual o legado do trabalho da Ir. Dorothy para o Anapu e para CEBs do Brasil?

O legado de conscientização do povo da luta por seus direitos, independentemente de credo religioso, e que as grandes conquistas começam nas pequenas comunidades.

Em 27 de março de 2018 o senhor foi preso de forma injusta e arbitrária. Como está o seu processo e qual o apoio que o senhor recebeu ao longo desse tempo?

O processo está na fase de ouvir as testemunhas de acusação e defesa; ouvir em precatórias. A minha audiência, quando o juiz irá me interrogar, será no dia 13 de março.

Recebi o apoio da família, dos bispos da prelazia em que atuo, da Comissão Pastoral da Terra, da Sociedade Paraense de Direitos Humanos, dos movimentos sociais e populares de todo país, de instituições internacionais, da igreja católica com seus organismos e pastorais; Igrejas evangélicas, religiões de raízes afrobrasileiras, orientais, movimento de mulheres, Consciência negra, LGBTs e todos e todas que defendem a vida e aos quais sou muito grato pelo carinho, orações e presença nesse momento de sofrimento. Seu apoio ajudou-me muito!!!

Qual a importância da Igreja na defesa da Casa Comum e dos Povos da Floresta?

Uma Igreja missionária, comunitária, orante, participativa, presente e ativa junto ao povo de Deus e, principalmente, profética que está sempre ao lado dos pequenos e pequenas, presente e apoiando a luta por organização das bases, defendendo a vida, o meio ambiente e os povos originários e tradicionais que tenham seus direitos violados para que todos tenham vida, e vida plena.

Algo a mais que o senhor queira acrescentar?

Trabalhei com a Ir Dorothy Stang e demais irmãs Notre Dame de Namur e aprendi a viver com o povo na humildade e simplicidade. Depois do assassinato da Ir Dorothy vários trabalhadores foram perseguidos, ameaçados e assassinados, e isso tudo continua na impunidade. Fui preso, passei 92 dias no Centro de Recuperação de Altamira-Pará, e fiz a seguinte reflexão: Se eu fiz alguma coisa de errado, foi ajudar a garantir um pedacinho de terra na mão de trabalhadores e trabalhadoras para dar o sustento do pão de cada dia a sua família.

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