Gênesis 12-35 à luz da nova crítica do Pentateuco

Este livro está esgotado. A primeira edição em francês é de 1989. A tradução brasileira da primeira edição foi publicada pela Vozes em 1996. A segunda edição em francês e a brasileira são de 2002.

Como nasceu este livro? Em 1986-1987, as Faculdades de Teologia de Friburgo, Genebra, Lausanne e Neuchâtel, na Suíça, organizaram um ciclo de estudos sobre o Pentateuco, com a participação de pesquisadores de outros países. Dele saiu um panorama sobre o assunto que é, ao mesmo tempo, questionamento e ponto de partida para novos estudos.

Costumo usar trechos dele com meus alunos nas aulas de Pentateuco, no Primeiro Ano de Teologia. Eis um deles.

 

DE PURY, A. A tradição patriarcal em Gênesis 12-35. In DE PURY, A. (org.) O Pentateuco em questão: as origens e a composição dos cinco primeiros livros da Bíblia à luz das pesquisas recentes. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 206-216.

Na situação atual, criada pela “nova crítica do Pentateuco”, torna-se cada vez mais evidente que o único ponto de ancoragem mais ou menos seguro na cronologia da DE PURY, A. (org.) O Pentateuco em questão: as origens e a composição dos cinco primeiros livros da Bíblia à luz das pesquisas recentes. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2002literatura do Antigo Testamento se encontra na historiografia deuteronomista (DtrG), um conjunto literário que abrange todos os livros a começar pelo Deuteronômio até o Segundo Livro dos Reis. (…) A obra historiográfica dtr começa, em Dt 1-4, por um grande discurso de Moisés no qual são recapituladas as etapas da história de Israel desde a saída do Egito até as vésperas da conquista. No quadro do consenso “clássico” sempre se achou que esta recapitulação se referia ao relato dos livros do Gênesis (no que trata da promessa feita aos pais), do Êxodo e dos Números, por conseguinte um relato que se pressupunha existir. Ora, Martin Rose (Deuteronomist und Jahwist. Untersuchungen zu den Berührungspunkten beider Literaturwerke, Zürich, 1981) conseguiu tornar verossímil uma outra hipótese, a saber, que os relatos de Gênesis a Números foram compostos precisamente para dar a esse discurso seu ponto de referência literário: os livros de Gênesis a Números seriam portanto posteriores a DtrG [sublinhado meu]. Este tese teve uma confirmação recentemente num estudo de Thomas Römer (Israel Väter. Untersuchungen zur Väterthematik im Deuteronomium und in der deuteronomistischen Tradition , Freiburg/Göttingen, 1990) que demonstrou que os “pais” aos quais se refere a historiografia dtr e o livro de Jeremias não são os patriarcas do Gênesis, mas as gerações que saíram do Egito [sublinhado meu]. Portanto não temos mais bases que nos permitam afirmar a existência, na época pré-exílica, de um conjunto literário relatando a história desde a criação do mundo até a entrada dos israelitas em Canaã.

Há muito tempo já se vinha notando a grande diferença – de tom, de “clima” religioso, de temática – entre o livro do Gênesis e os livros seguintes (cf. K. GALLING, Die Erwählungstraditionen Israels, Giesse, 1928). Assim, em Êxodo 3,8s, Deus promete a Moisés conduzir os israelitas para uma terra “onde corre leite e mel”, uma terra que ainda parece totalmente desconhecida, quando seria tão fácil referir-se à doação desta terra aos patriarcas. Mas as diferenças entre esses dois conjuntos literários são de fato bem mais profundas: enquanto em Gn 12-35 os heróis são ancestrais e a mediação com os ouvintes do relato passa pelo sangue – basta observar o número de episódios que colocam em jogo relações genealógicas – em Ex 1s os heróis são exclusivamente profetas (Moisés), ou sacerdotes (Aarão), e os israelitas se apresentam sob a forma de uma “massa” anônima. Assim, a diferença está na maneira de apresentar a intervenção divina: no Gênesis, Deus é um “patrão” bem próximo dos clãs que o veneram, ao passo que, a partir do livro do Êxodo ele se torna um chefe guerreiro e legislador. Seu “temperamento” toma uma feição muito mais agressiva. Mais ainda: Gn 12-35 e Ex 1- Dt 34 oferecem duas versões paralelas ou até rivais da entrada dos israelitas em Canaã [sublinhado meu]. Sobretudo a história de José (Gn 37-50) é um conjunto literário que hoje se considera em geral pós-exílico (cf., por exemplo, B. D. REDFORD, A Study of the Biblical Story of Joseph, Leiden, 1970), estabelecendo o vínculo entre esses dois grandes conjuntos.

Se procurarmos os ecos da tradição dos patriarcas na literatura bíblica fora do Pentateuco, o balanço será extremamente insignificante, pelo menos tratando-se da tradição de Abraão. É verdade que a tríade dos patriarcas aparece de vez em quando na literatura deuteronomista (Dt 1,8;6,10;9,5.27;29,12;30,20;34,4;1Rs 18,36; 2Rs 13,23; Jr 33,26); mas existem boas razões para atribuir essas menções aos últimos retoques harmonizantes dos editores bíblicos. As primeiras menções de Abraão se encontram nos textos exílicos de Ez 33,24 e de Is 51,1-2).

DE PURY, A. ; RÖMER, T. (orgs.) Le Pentateuque en question: Les origines et la composition de cinq premiers livres de la Bible à la lumière des recherches récentes. 2. ed. Genève: Labor et Fides, 2002.Esse novo “dado” das teorias sobre o Pentateuco incide decisivamente sobre o nosso enfoque dos relatos de Gn 12-35. Antes de mais nada, a reorganização da articulação entre Tetrateuco e DtrG tem como consequência estabelecer que a história dos três patriarcas é, em sua própria concepção, posterior a DtrG, portanto pós-exílica, e que doravante ela pertence à fase mais tardia da constituição do Pentateuco [sublinhado meu]. Mas isto não significa que no interior de Gn 12-35 tudo seja da mesma proveniência e que alguns de seus componentes não possam remontar a uma época muito mais antiga.

Entretanto, trata-se de distinguir entre os ciclos patriarcais. Quanto aos relatos de Abraão, tradicionalmente considerados como o reflexo da tradição mais arcaica da “era dos patriarcas”, a maioria deles poderia facilmente ser explicada como fragmentos de reflexão teológica que traduzem as preocupações das comunidades judaicas da época pós-exílica.

(…) O ciclo de Isaac, limitado ao capítulo 26, quase não oferece possibilidades de investigação quanto à eventual presença de tradições antigas.

Tratando-se do ciclo de Jacó, felizmente as coisas se apresentam sob um ângulo bem diferente, e isso por três razões:

  • Em muitos textos antigos, o povo de Israel é chamado pelo nome de Jacó (por ex. Mq 3,1; Am 7,2; Os 10,11). Esta identificação seria impossível se Jacó não representasse uma figura de ancestral.
  • Em Oseias 12, o profeta do século VIII faz alusão a toda uma série de episódios da vida de Jacó.
  • No livro do Gênesis, o ciclo de Jacó (Gn 25,19-34; 27-35)) é o único dos três que não se apresenta sob a forma de um conglomerado de episódios mais ou menos heterogêneos, mas reveste a estrutura de uma verdadeira gesta. Praticamente desprovido de todas as remissões a episódios situados a montante ou a jusante de seu contexto literário atual, o ciclo de Jacó não se apoia em nenhuma outra obra literária e assim garante sua existência autônoma. Portanto é possível pelo menos considerar a eventualidade de haver uma origem literária independente da constituição dos grandes conjuntos historiográficos do Antigo Testamento e, talvez, muito anterior a eles.

(…) Está bem claro portanto que existia, em meados do século VI, a tradição de um patriarca Abraão considerado eleito de Deus e ancestral do povo judeu, o primeiro a tomar posse da terra. Esta tradição já devia estar suficientemente gravada na consciência coletiva para ser conhecida tanto dos exilados como dos que haviam permanecido na terra. Quanto a saber que elementos dos relatos de Gn 12-24 já faziam parte desta tradição popular, e sob que forma, isto – como já vimos – é difícil determinar.

A tradição de Jacó encontra seu eco mais antigo no profeta Oseias, como já dissemos. (…) Se a tradição de Jacó reveste, no século VIII, a forma de uma gesta, será possível lançar sobre o ciclo de Jacó de Gn 12-35 um olhar novo? (…) Se podemos admitir – a partir do testemunho de Os 12 e da estrutura interna de Gn 25-35 – a existência de um ciclo de Jacó remontando pelo menos ao século VIII, que hipóteses podemos formular sobre a origem deste ciclo e, eventualmente, sobre seu “núcleo” histórico?

(…) Desde o momento em que abrange o relato do nascimento dos filhos de Jacó (na atual configuração, Gn 29,31-30,24, mas este texto talvez seja tardio), o ciclo de Albert de PuryJacó tem por função explicar as origens do povo de Israel e de sua entrada na terra de Canaã. Este relato das origens se basta a si mesmo e não exige qualquer sequência (nem história de José, nem saída do Egito etc). Oseias 12 nos mostra aliás que o profeta pretende opor à versão “patriarcal” das origens de Israel uma outra versão, “profética”: a da saída do Egito, que é colocada sob a égide de um profeta, e não de um ancestral (Os 12,14). Cabe a Israel escolher suas origens! Não sabemos se, à época de Oseias, os dois relatos de origem já haviam sido ligados, de uma ou de outra maneira, um ao outro. A verdade é que essas duas versões são concorrentes e que originalmente cada qual se bastava a si mesma [sublinhado meu].

* A maior parte das notas de rodapé foram omitidas. São 39 notas.

Albert de Pury, nascido em 1940, foi professor de Antigo Testamento de 1972 a 1984 na Universidade de Neuchâtel e de 1984 a 2005 na Universidade de Genebra, Suíça.

Gêneros gregos e autores judeus

Em 1998 escrevi um artigo que começava assim:

A partir do século III a.C., com a assimilação da língua e dos gêneros literários gregos, vários judeus tentam explicar aos seus conterrâneos e aos gregos cultos, especialmente de Alexandria, que o judaísmo é uma religião respeitável e recomendável pela sua antiguidade e pelos feitos de seus líderes.

Escrevendo em grego, e em gêneros literários gregos – da historiografia à filosofia – autores como Aristeias, Artápano, Teodoto, Jasão de Cirene e outros nos legam uma literatura de apologia do judaísmo, mas que é, ao mesmo tempo, excelente testemunho da resistência e da submissão desse povo e dessa cultura ao dominador grego.

Neste artigo, proponho a abordagem, em um primeiro momento, desta literatura de um modo geral e, em seguida, da Carta de Aristeias a Filócrates e de alguns historiadores como Demétrio, Eupólemo, o Samaritano anônimo, Artápano e o Pseudo-Hecateu.

Naturalmente esta é apenas uma amostragem, mas creio que bastante significativa, do processo de helenização que avança inexoravelmente entre os judeus durante os últimos três séculos antes da era cristã.

 

Agora leio

Um artigo:

Jewish-Greek Literature in the Hellenistic and Roman Eras: Some Findings from a Study of Genre – By Sean A. Adams, University of Glasgow, UK – The Bible and Interpretation: October 2020

Autores judeus compuseram obras literárias em grego principalmente entre meados do século III a.C. e o final do século II d.C. Tanto antes como depois desse período,ADAMS, S. A. Greek Genres and Jewish Authors: Negotiating Literary Culture in the Greco-Roman Era. Waco, TX: Baylor University Press, 2020 temos poucas evidências sobreviventes de que os judeus usavam o grego como língua de composição. Isso não quer dizer que os judeus usassem apenas o grego neste período. Está claro, pelos Manuscritos do Mar Morto, que tanto o hebraico quanto o aramaico ainda eram usados para composição. No entanto, este período de tempo oferece uma oportunidade única de ver como uma cultura minoritária se envolveu com a literatura da cultura dominante: adotando, adaptando e apropriando-se dela. A discussão oferecida aqui avalia como os autores judeus participaram dos gêneros gregos. O que se segue é um resumo de algumas descobertas recentes, bem como algumas sugestões sobre as implicações dos dados, incluindo o que este período pode nos dizer sobre a interação cultural e práticas educacionais antigas.

(…)

Uma descoberta fundamental dos estudos do judaísmo helenístico é o reconhecimento de que alguns autores judeus adotaram os gêneros gregos e foram amplamente influenciados pela cultura literária grega. Escrever em grego não implica automaticamente a adoção de gêneros gregos ou influência substancial das práticas de escrita grega (por exemplo, a apocalíptica judaica). No entanto, muitos textos mostram consciência das práticas composicionais gregas e participam, em graus variados, de gêneros gregos reconhecíveis. Esse noivado não foi acidental, nem foi feito de forma inconsciente. Dos corpora maiores de Fílon de Alexandria e Flávio Josefo a obras individuais, como a Carta de Aristeu a Filócrates, ganhamos uma noção da consciência de gênero de certos autores judeus, como eles classificaram gêneros e textos em categorias, muitas vezes com base em características formais e propósito, e como estes categorias interagiram entre si para formar um sistema holístico.

 

Jewish authors composed literary works in Greek primarily between the middle of the third century BCE and the end of the second century CE. Both before and after this period, we have little surviving evidence that Jews used Greek as a compositional language. This is not to say that Jews only used Greek; it is clear from collections found near Qumran (i.e., the Dead Sea Scrolls) that both Hebrew and Aramaic were still employed for composition. However, this time period provides a unique opportunity to see how one minority culture engaged with the dominant culture’s literature: adopting, adapting, and appropriating it. The discussion offered here evaluates how Jewish authors participated in Greek genres. What follows is a summary of some recent findings (Adams 2020) as well as some suggestions about the implications of the data, including what this period can tell us about cultural interaction and ancient education practices.

(…)

The most basic finding of studies into Hellenistic Judaism is the recognition that some Jewish authors adopted Greek genres and were widely influenced by Greek literary culture. Writing in Greek does not automatically imply the adoption of Greek genres or substantial influence of Greek writing practices (e.g., Jewish apocalyptic). Nevertheless, many texts display awareness of Greek compositional practices and participate, to varying degrees, in recognizable Greek genres. This engagement was not accidental, nor was it done subconsciously. From the larger corpora of Philo and Josephus to individual works, such as Letter of Aristeas, we gain a sense of the genre consciousness of certain Jewish authors, how they sorted genres and texts into categories often based on formal features and purpose, and how these categories related to each other to make a holistic system (cf. Adams 2020, 90-92, 229-39).

 

Um livro:

ADAMS, S. A. Greek Genres and Jewish Authors: Negotiating Literary Culture in the Greco-Roman Era. Waco, TX: Baylor University Press, 2020, 448 p. – ISBN 9781481312912.

O mundo antigo, assim como o nosso, floresceu em diversidade e intercâmbio culturais. As riquezas dessa realidade social são evidentes nos escritos de judeus nas eras helenística e romana. Os autores judeus basearam-se na ampla gama de convenções literárias gregas e deram novas expressões às orgulhosas tradições de sua fé e identidade étnica. Eles não hesitaram em modificar e adaptar as formas que receberam da cultura circundante, mas suas obras permanecem como participantes legítimos da tradição literária greco-romana.

Em Greek Genres and Jewish Authors [Gêneros gregos e autores judeus], Sean A. Adams argumenta que uma compreensão robusta do gênero antigo facilita a interpretação textual adequada. Essa perspectiva é vital para um insight sobre o autor, o propósito original da obra e como os leitores originais a teriam recebido. Adotando uma teoria de gênero protótipo cognitivo, Adams fornece uma discussão detalhada de autores judeus que escreveram em grego de ca. 300 a.C. a ca. 135 d.C. – incluindo autores do Novo Testamento – e sua participação em gêneros gregos. Os nove capítulos se concentram em amplas divisões de gênero (por exemplo, poesia, didática, filosofia) para fornecer estudos sobre o envolvimento de cada autor com gêneros gregos, identificando expressões e características representativas e atípicas.

A contribuição mais proeminente do livro reside em sua síntese de dados para fornecer uma macroperspectiva sobre as maneiras pelas quais os autores judeus participaram e adaptaram os gêneros gregos – em outras palavras, como os membros de uma cultura minoritária intencionalmente se envolveram com as práticas literárias da cultura dominante ao lado dos recursos dos judeus tradicionais, resultando em expressões de texto exclusivas.

 

The ancient world, much like our own, thrived on cultural diversity and exchange. The riches of this social reality are evident in the writings of Jews in the Hellenistic and Roman eras. Jewish authors drew on the wide range of Greek literary conventions and gave fresh expressions to the proud traditions of their faith and ethnic identity. They did not hesitate to modify and adapt the forms they received from the surrounding culture, but their works stand as legitimate participants in Greco-Roman literary tradition.

In Greek Genres and Jewish Authors, Sean Adams argues that a robust understanding of ancient genre facilitates proper textual interpretation. This perspective is vital for insight on the author, the work’s original purpose, and how the original readers would have received it. Adopting a cognitive-prototype theory of genre, Adams provides a detailed discussion of Jewish authors writing in Greek from ca. 300 BCE to ca. 135 CE–including New Testament authors–and their participation in Greek genres. The nine chapters focus on broad genre divisions (e.g., poetry, didactic, philosophy) to provide studies on each author’s engagement with Greek genres, identifying both representative and atypical expressions and features.

The book’s most prominent contribution lies in its data synthesis to provide a macroperspective on the ways in which Jewish authors participated in and adapted Greek genres–in other words, how members of a minority culture intentionally engaged with the dominant culture’s literary practices alongside traditional Jewish features, resulting in unique text expressions. Greek Genres and Jewish Authors provides a rich resource for Jewish, New Testament, and classical scholars, particularly those who study cultural engagement, development of genres, and ancient education.

Sean A. Adams is Senior Lecturer in New Testament and Ancient Culture in the Department of Theology and Religious Studies at the University of Glasgow.

Por que ler a Bíblia nas línguas originais?

MURAOKA, T. Why Read the Bible in the Original Languages? Leuven: Peeters, 2020, 111 p. – ISBN 9789042942004.

Uma comparação de várias traduções da Bíblia em qualquer idioma mostra que elas diferem em centenas de passagens, apontando para a discordância contínua entreMURAOKA, T. Why Read the Bible in the Original Languages?. Leuven: Peeters, 2020 estudiosos e tradutores da Bíblia em sua análise e compreensão dessas passagens. Aprender hebraico, aramaico e grego, as línguas originais da Bíblia, não é algo que agrada a todos. Além do que, o conhecimento destas línguas não fornece necessariamente uma solução para essas dificuldades. No entanto, há muitas coisas no texto bíblico que podem ser perdidas se o texto for lido apenas em tradução.

Neste livro, uma série de questões linguísticas relacionadas com as três línguas originais são discutidas à luz de exemplos reais. Questões de cultura e retórica também são abordadas. Um capítulo especial é dedicado à Septuaginta como uma ponte entre os dois Testamentos. O livro foi escrito em um estilo não técnico, portanto, facilmente legível por não especialistas, mas os especialistas também podem encontrar coisas de seu interesse. Nenhum alfabeto hebraico ou grego é usado.

A comparison of multiple translations of the Bible in any language shows that they differ at hundreds of places, pointing to the continuing disagreement among Bible scholars and translators in their analysis and understanding of those places. To learn Hebrew, Aramaic, and Greek, the original languages of the Bible, is admittedly not everybody’s cup of tea. Knowledge of them does not necessarily provide a solution to these difficulties. However, there are not a few things in the biblical text which can be missed out if it is read only in translation. A range of linguistic issues touching on the three original languages are discussed in the light of actual examples. Matters of culture and rhetoric are also taken up. A special chapter is devoted to the Septuagint as a bridge between the two Testaments. The book is written in a non-technical style, hence easily readable by non-specialists, but specialists may also find things of interest. No Hebrew or Greek alphabet is used.

Quem é Takamitsu Muraoka?

Página do autor na Amazon.

Artigos antigos e novos estão agora online

Estou colocando online antigos e novos artigos que antes só existiam até agora em publicações impressas, tais como as revistas Estudos Bíblicos, Vida Pastoral, REB, Cadernos do Cearp, Cadernos de Teologia e outras.

Os artigos antigos são revisados. Quando necessário, texto, notas de rodapé e bibliografia são atualizados.

A página de artigos tem agora 43 artigos. Ainda falta transcrever uma meia dúzia de artigos da década de 90. Virão em breve.

Do mais antigo para o mais novo, confira 18 artigos transcritos recentemente:

Marcos: um relato da prática de Jesus
Este texto foi escrito em 1981 para ser usado pelo Serviço de Pastoral Litúrgica da Arquidiocese de Ribeirão Preto, SP, em 1982, e fez parte do Projeto Marcos, um conjunto de atividades pastorais tendo o evangelho de Marcos como centro. Uma pergunta: chegar em Marcos de que lado? Geralmente a gente começa pelo autor, data e lugar em que o livro foi escrito, e as pessoas para quem o autor escreveu. Só depois é que se vai ao texto. Vamos percorrer outro caminho. Vamos começar pelo texto. Depois que compreendermos o texto e a maneira como foi criado, vamos compreender o resto. Publicado em 1982 – Última atualização: 2020.

Todos comeram e ficaram saciados: o milagre da multiplicação dos pães
Para compreendermos o milagre da multiplicação dos pães, de Mc 6,30-44, devemos fazer seis coisas: 1. Uma leitura de Mc 6,30-44; 2. Leitura de mais cinco textos onde aparecem outros relatos da multiplicação dos pães; 3. Perguntamos a Marcos por que ele contou este episódio neste lugar do evangelho; 4. Por falar em milagre, é bem possível que houvesse naquele tempo uma maneira costumeira de contar um fato desse tipo; 5. Perguntamos: qual é o recado que Marcos quer dar ao seu leitor? 6. Agora talvez possamos descobrir o sentido do texto para nós, leitores a quase dois mil anos de distância. Publicado em 1985 – Última atualização: 2020.

Leis de vida e leis de morte: os dez mandamentos e seu contexto social
O artigo trata do decálogo ou dez mandamentos em três momentos: na sociedade tribal, na sociedade tributária e na sociedade capitalista. Relaciona as “dez palavras” e seu contexto de elaboração e aplicação. A abordagem é sociológica. Há vários textos, na Bíblia, com dez e até doze mandamentos. Entre eles, dois são mais conhecidos: Ex 20,1-17 e Dt 5,6-21. Vamos olhar Ex 20,1-17. Publicado em 1986 – Última atualização: 2020.

Arrancar e destruir, construir e plantar: a vocação de Jeremias
No livro de Jeremias encontra-se uma página de extraordinária beleza e rico significado. É a que conta como Jeremias tornou-se profeta: Jr 1,4-19. É a história de sua vocação. Não é um relato imediato dos acontecimentos, mas densa revisão e reflexão madura sobre seus muitos anos de luta profética. A chave que abre o sentido da vida e da ação de Jeremias. Gostaria que o leitor me acompanhasse na leitura deste texto. Pois acredito que o espírito combativo de Jeremias pode nos estimular, hoje, diante das contantes crises que enfrentamos. Publicado em 1987 – Última atualização: 2020

Salmo 12: a denúncia profética da corrupção
Este é um salmo de exortação profética contra os ímpios. O profeta, no meio da multidão reunida para uma festa, denuncia aqueles que são infiéis à aliança por seus atos, sobretudo a injustiça e a apostasia. Vamos acompanhar a leitura do salmo 12 com dois olhares: um voltado para o passado, outro para o presente. No passado, vamos investigar o contexto, o sentido e as propostas do salmo 12. No presente, abordaremos o tema da corrupção, tratado pelo salmo, e tão em evidência nos dias que correm. Publicado em 1988 – Última atualização: 2020.

O relato de uma prática: roteiro para uma leitura de Marcos
Convido o leitor para uma visita ao evangelho de Marcos. E recomendo um roteiro para uma leitura contínua do texto. Proponho seguirmos os passos de Jesus e dos personagens que se movimentam ao seu redor, segundo o relato de Marcos. Descobriremos que a Boa-Nova foi anunciada em um contexto de intenso conflito e expectativa, e que o evangelho foi escrito para preservar uma memória proibida que alimentava a luta dos oprimidos. Publicado em 1989 – Última atualização: 2020.

Os mitos judaicos e a nossa realidade
A serpente que tenta Eva no paraíso, a árvore que produz um fruto proibido, Caim que assassina seu irmão Abel, Noé e sua arca cheia de animais sobrevivendo ao dilúvio, a torre de Babel que confunde as línguas: temas tão antigos, contados na linguagem do mito, mas que continuam extremamente atuais. Devem ser lidos para fazer a gente pensar e tomar uma atitude. Não para pensarmos no que aconteceu antigamente, mas para enxergarmos melhor o está acontecendo hoje e ver o que é possível fazer para melhorar o mundo. Publicado em 1995 – Última atualização: 2020.

Os essênios e os manuscritos do Mar Morto
Em fins de 1946 três jovens beduínos da tribo dos ta’amireh, que pastoreavam seus rebanhos em um oásis próximo ao Mar Morto, na Palestina, descobriram acidentalmente alguns manuscritos antigos dentro de uma gruta. Foi apenas o começo da mais importante descoberta de manuscritos do século XX. No total, cerca de mil documentos foram recuperados em 20 grutas no deserto de Judá, entre os anos de 1946 e 1966. Destes, em 11 grutas próximas às ruínas de Qumran, foram encontrados 11 manuscritos mais ou menos completos e milhares de fragmentos de outros cerca de 600 a 800 manuscritos em pergaminho e papiro. Publicado em 1996 – Última atualização: 2020.

Observações sobre algumas leituras de Marcos
A proposta deste artigo é a de servir ao leitor como orientação para a leitura de Marcos. Por isto comento dez das mais conhecidas obras sobre o evangelho de Marcos escritas entre 1966 e 1996, acessíveis em português e espanhol. A ordem seguida foi a da data da publicação original. Publicado em 1997 – Última atualização: 2020.

Os impérios não têm coração. A cidade grega e a etnia judaica
A noção grega de Estado é concretizada no Oriente ou na pólis, uma associação de cidadãos livres e autônomos baseada na vizinhança, ou no éthnos, uma relação de parentesco baseada na solidariedade dos laços de sangue. Judá é e permanece um éthnos também na administração selêucida. Mas a lei, baseada na vontade do rei selêucida – que reivindica tal direito como “direito de lança” por ser o conquistador – e não nas tradições dos antepassados codificadas na Torá, cria condições para que a aristocracia judaica substitua as leis étnicas por leis políticas. Publicado em 1997 – Última atualização: 2020.

Sobre a Teologia e novos paradigmas
A questão dos “novos paradigmas” é abordada por meio de uma aproximação da teologia com crises profundas vividas por Israel, mostrando a necessidade de se reinventar a sociedade face aos desafios históricos que constantemente se apresentam. Hoje, a teologia expulsa do paraíso de suas alianças e seguranças, vê-se diante da necessidade de recuperar sua força profética e seu compromisso com a vida, para ser instrumento útil na construção do shâlôm. Publicado em 1997 – Última atualização: 2020.

A origem dos antigos Estados israelitas
O que teria sido o primeiro ‘Estado Israelita’? Um reino unido, composto pelas tribos de Israel e Judá, dominando todo o território da Palestina e, posteriormente, sendo dividido em reinos do ‘norte’ e do ‘sul’? Ou seria tudo isto mera ficção, não tendo Israel e Judá jamais sido unidos? Existiu um Império davídico/salomônico ou só um pequeno reino sem maior importância? Se por acaso não existiu um grande reino davídico/salomônico, por que a Bíblia Hebraica o descreve? Além da Bíblia Hebraica, onde mais podemos buscar respostas? Publicado em 2003 – Última atualização: 2020.

Novos paradigmas no estudo do Pentateuco
Hoje muitos acreditam que esteja surgindo um novo paradigma nos estudos bíblicos. Em várias áreas dos estudos bíblicos. O tema é amplo. Este artigo desenha um panorama das mudanças pelas quais vem passando os estudos do Pentateuco desde a década de 70 do século XX, aponta as dificuldades que a crise vem criando e propõe algumas pistas de leitura para os interessados no assunto. Publicado em 2007 – Última atualização: 2020.

Superando obstáculos nas leituras de Jeremias
Nos anos 90 publiquei Nascido Profeta: a vocação de Jeremias. São Paulo: Paulus, 1992. Neste livro trato da vida Jeremias a partir de sua vocação, narrada em Jr 1,4-19. E, em determinado ponto, a questão do “ser profeta” precisou ser colocada. E não só em 600 a.C., mas também hoje. Podemos falar de profetas e profecia hoje? Vale a pena ser profeta? Como ler os profetas hoje? Como ler Jeremias hoje? Hoje, retomo estas questões. Publicado em 2010 – Última atualização: 2020.

Paideia grega e apocalíptica judaica
O artigo mostra a reação de Israel ao processo de helenização, especialmente a partir do segundo século antes de Cristo, quando surge a apocalíptica judaica. Esse movimento, de cunho mais literário, é uma radicalização da escatologia já existente em Israel, com a finalidade de resistir à destruição da identidade e dos valores ético-religiosos do povo judeu. Como exemplo dessa reação, é analisado um texto apocalíptico do livro de Daniel: 2,1-49. Face ao imperialismo, a sobrevivência passa pela convicção de que nem a sabedoria nem o poder humano podem confrontar o Deus verdadeiro de Israel. Publicado em 2012 – Última atualização: 2020.

Religião e formação de classes na antiga Judeia
Este artigo é um resumo do livro Religião e formação de classes na antiga Judeia: estudo sociorreligioso sobre a relação entre tradição e evolução social, do alemão Hans G. Kippenberg. O livro procura relacionar o conteúdo das tradições religiosas judaicas com a vida social dos judeus. Duas tendências antagônicas, isto é, a de formação de classes sociais e aquela da solidariedade, formam dois complexos divergentes de tradição que fundamentam os conteúdos religiosos dos movimentos judaicos de resistência. Publicado em 2013 – Última atualização: 2020.

A história de Israel e Judá na pesquisa atual
Andrew Tobolowsky, do College of William and Mary in Williamsburg, Virginia, publicou, em 2018, na revista Currents in Biblical Research, um interessante artigo sobre a pesquisa da história de Israel e Judá na segunda década do século XXI: História israelita e judaíta em abordagens acadêmicas contemporâneas. O artigo está disponível online. Este texto é um resumo e uma tradução livre minha. Foi publicado no blog Observatório Bíblico, em 5 postagens, a partir de 15.10.2018, onde reproduzo, também, trechos do texto original em inglês. Sempre que o assunto tiver sido tratado nesta página ou no Observatório Bíblico, colocarei um link. As principais obras citadas terão links para a Amazon Brasil. Publicado em 2018 – Última atualização: 2020.

Notas sobre a pesquisa do livro de Oseias no século XX
Brad E. Kelle, da Point Loma Nazarene University, San Diego, California, publicou, em 2009 e 2010, na revista Currents in Biblical Research, dois importantes artigos sobre a pesquisa de Oseias no século XX e primeira década do século XXI: O casamento de Oseias na pesquisa do século XX e Oseias 4-14 na pesquisa do século XX. Os artigos estão disponíveis online. Vou resumir aqui os pontos principais destes dois artigos, na maior parte das vezes apenas traduzindo livremente alguns trechos ou organizando em outra ordem as palavras do autor. Publicado em 2020.

Morreu James A. Sanders (1927-2020)

James A. Sanders (1927-2020)James A. Sanders foi professor de estudos intertestamentais e bíblicos na Claremont School of Theology (CST), Califórnia, de 1977 a 1997, enquanto simultaneamente era professor de religião na Claremont Graduate School. Antes de ir para Claremont, Sanders foi professor de Antigo Testamento, primeiro na Colgate Rochester Divinity School em Rochester NY (1954-65) e depois no Union Theological Seminary e na Columbia University em Nova York (1965-77). Após a aposentadoria formal em Claremont em 1997, ele foi professor visitante de Antigo Testamento no Union Theological Seminary / Columbia University na cidade de Nova York no ano de 1997-98 e professor adjunto de Antigo Testamento na Yale University Divinity School no semestre da primavera de 1998. Ele serviu também como professor visitante no Seminário Teológico Judaico na cidade de Nova York na primavera de 2001.

Sanders fundou o Ancient Biblical Manuscript Center em Claremont em 1977, ano em que se mudou de Nova York para Claremont. Sob sua direção, o Ancient Biblical Manuscript Center abriga a coleção mais completa e mais bem preservada de filmes de arquivo dos Manuscritos do Mar Morto do mundo. (…) Em 1961, em Jerusalém, ele abriu o grande Rolo dos Salmos da Gruta 11 de Qumran, publicando-o em dois volumes em 1965 e 1967 (trecho do texto da página do autor na Amazon.com).

Olhando a bibliografia de James A. Sanders, notamos quatro temas recorrentes: crítica canônica, apropriação das Escrituras pelo Segundo Templo, crítica textual e a edição e disponibilização dos Manuscritos do Mar Morto e outros manuscritos, diz David M. Carr, na Introdução de WEIS, R. D. ; CARR, D. M. (eds.) A Gift of God in Due Season: Essays on Scripture and Community in Honor of James A. Sanders. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1996.

 

James A. Sanders was professor of intertestamental and biblical studies at the Claremont School of Theology (CST) from 1977 to 1997, while concurrently professor of religion at the Claremont Graduate School. Prior to going to Claremont Sanders was professor of Old Testament first at Colgate Rochester Divinity School in Rochester NY (1954-65) and then at Union Theological Seminary and Columbia University in New York City (1965-77). After formal retirement in Claremont in 1997 he was visiting professor of Old Testament at Union Theological Seminary/Columbia University in New York City for the year 1997-98 and adjunct professor of Old Testament at Yale University Divinity School the spring semester of 1998. He served also as visiting professor at Jewish Theological Seminary in New York City in the spring of 2001.

Sanders founded the Ancient Biblical Manuscript Center in Claremont in 1977, the year he moved from New York to Claremont. Under his direction the Ancient Biblical Manuscript Center houses the most complete and best preserved collection of archival quality films of the Dead Sea Scrolls in the world; museums in Jerusalem and elsewhere in the world have ordered films of the Scrolls from the Center. He has overseen the publication of The Dead Sea Scrolls Catalogue and Index used by scholars around the world, and with West Semitic Research at the University of Southern California has published a diplomatic edition of films of Leningradensis (Eerdmans, 1998), the oldest complete Hebrew Bible in the world taken by the Center’s photographers in Leningrad/St Petersburg in 1990. He became president emeritus of the Center in 2003.

Sanders has been presented with three volumes of essays (Festschriften) published in his honor: A Gift of God in Due Season, ed. by Richard Weis and David Carr (Sheffield, 1996); In Quest of Meaning in Context and Intertextuality, ed. by Craig Evans and Shemaryahu Talmon (Brill, 1997); and a Special Tribute Edition of The Folio: The Bulletin of the Ancient Biblical Manuscript Center for Preservation and Research 15/1 (fall 1998), continued in 16/1 (summer 1999).

Sanders’ scholarly interests bridge the testaments of Christian Scripture with focus on the Prophets, the literature of Early or pre-Rabbinic Judaism, including the Dead Sea Scrolls, and the New Testament. He has authored or edited twenty-nine books, and over 300 scholarly articles. He co-authored and co-edited The Canon Debate (Hendrickson Press, 2002). With Dominique Barthélemy of the Université de Fribourg he is co-editor of the (so-far) four volumes of Critique textuelle de l’Ancien Testament (Vandenhoeck & Ruprecht, 1982–).

Sanders is past president of the Society of Biblical Literature, a member of Studiorum Novi Testamenti Societas, the International Organization for Septuagint and Cognate Studies, the International Organization for Targumic and Cognate Studies, as well as other scholarly societies. He is the only American member of the United Bible Society’s Hebrew Old Testament Text Critical Project, which has so far published nine volumes of work done since 1969. That work has led to the current international preparation of Biblia Hebraica Quinta, the fifth edition of the scholarly Hebrew Bible that will be used for study and translations throughout the world in the 21st century. In 1961 in Jerusalem he unrolled the large Scroll of Psalms from Qumran Cave 11 (eleven) and published it in two volumes in 1965 and 1967. Sanders has served on the editorial boards of the Journal of Biblical Literature, Interpretation, Journal for the Study of Judaism, and Biblical Theology Bulletin, among others. His book Torah and Canon (still in print) launched in 1972 a new subdiscipline of biblical study called Canonical Criticism.

Sanders has lectured, taught, and preached at colleges, seminaries, churches, and pastors’ schools (Protestant, Catholic and Jewish) around the country and Canada. He was Alexander Robertson professor of biblical studies at Glasgow University in 1990-91, and has lectured several times at the Université de Fribourg en Suisse. He recently has lectured by invitation at the Universität Heidelberg in Germany and the University of Michigan, and read a paper in 1999 at the first-ever symposium inside the Vatican sponsored by The Holy Office, on the function of Scripture in the Church–the only non-Roman Catholic so invited. In 2002 he lectured to seminary presidents and deans from around the country at the Getty Center in Los Angels.

He has over the years received fellowships and grants from the Fulbright Scholarship Program, the Rockefeller Foundation (twice), the Guggenheim Foundation (twice), and the National Endowment for the Humanities. He has served as annual professor at the American School of Oriental Research in Jerusalem (now The Albright Institute) and twice was senior fellow at the Ecumenical Institute for Advanced Theological Study at Tantur south of Jerusalem (1972-73 and 1985).

Sanders holds the B.A. degree, magna cum laude and Phi Beta Kappa, and the B.D. degree, with distinction, from Vanderbilt University; a Ph.D. from Hebrew Union College, a Litt.D. from Acadia University, an S.T.D. from Glasgow University, D.H.L.s from Coe College, California Lutheran University and Hebrew Union College, and was nominated for an honorary doctorate by the Université de Fribourg en Suisse (Amazon.com).

Sobre as tradições de Abraão em Gn 12-25

É difícil ser mais preciso. Essa declaração de ser incapaz de ser mais preciso sobre a data do javista (J) é o que esperaríamos de um pesquisador honesto. Talvez paradoxalmente, a manutenção de um certo grau de imprecisão possa contribuir para a obtenção de um consenso futuro neste campo. Esse consenso pode não ser satisfatório para aqueles que buscam exatidão, mas refletirá corretamente a natureza do assunto sob investigação, que é uma literatura antiga, cuja origem e desenvolvimento são, pelo menos parcialmente, obscurecidos por séculos de distância.

 

Alguns trechos de um artigo de Kris Sonek, Senior Lecturer at Catholic Theological College, University of Divinity, Melbourne, Austrália, sobre as narrativas em torno de Abraão e sua família em Gn 12-25.

O texto em português é uma tradução livre. O texto original, em inglês, vem em seguida, porém, sem as notas de rodapé, que podem ser conferidas no artigo, disponível em Academia.edu.

SONEK, K. Wrangling with Abraham: An Evaluation of Recent Studies on Genesis 12–25, Australian Biblical Review, Vol. 67, p. 17-29, 2019.

Australian Biblical ReviewO estudo da origem das tradições orais e escritas que deram origem ao surgimento do Gênesis no final da época persa ou no início da época helenística continua a preocupar muitos estudiosos. Embora abordagens interpretativas como leitura pós-colonial, leitura feminista ou hermenêutica ecológica estejam em voga, a leitura histórico-crítica tradicional e sua busca para identificar o contexto original do material bíblico continua a gerar interesse e controvérsia. No entanto, parece que os esforços dos estudiosos modernos para chegar a um consenso sobre a origem do Gênesis e do Pentateuco em geral não tiveram sucesso. Embora alguns autores tenham expressado a opinião de que um entendimento comum do processo histórico foi alcançado até o final do século XX, a atual multiplicação de teorias concorrentes e contraditórias lança uma longa sombra sobre o campo histórico, e muitos leitores modernos se voltam para outras metodologias na esperança de encontrar melhores respostas para suas perguntas.

As opiniões de John Van Seters sobre o javista (J) há muito dominam este campo, e alguns estudiosos as consideram muito convincentes. Outros, especialmente aqueles influenciados por argumentos propostos por Rolf Rendtorff e Erhard Blum, negam a existência do javista e explicam a origem e o crescimento do Pentateuco como resultado do trabalho pós-exílico de autores deuteronomistas e sacerdotais expandindo e editando material exílico e pré-exílico dos últimos anos da monarquia. Embora Reinhard G. Kratz esteja certo ao dizer que somente para o Sacerdotal e o Deuteronômio se pode sugerir uma base textual segura que seja capaz de obter um consenso, certamente gostaríamos de ver um nível mais alto de consenso entre os estudiosos que fazem uma abordagem histórico-crítica. Estabelecer o sentido literal das passagens de um escrito depende também de sua data. Portanto, se discordamos sobre a época de sua composição, dificilmente podemos propor uma exposição convincente de seu sentido literal.

Além do mais, a pesquisa recente de David M. Carr demonstrando a dificuldade de colocar as tradições de Abraão na linha do tempo leva à conclusão de que o sentido literal de Gênesis 12-25 pode ser verificado com apenas um grau limitado de probabilidade. Carr argumenta que o complexo de tradições abraâmicas constitui um exemplo primordial em que os textos da Bíblia Hebraica de significância teológica demonstrável são relativamente difíceis de colocar em um continuum cronológico neste tipo de história. Afinal, a questão de saber se esses textos e suas tradições orais subjacentes são pré ou pós-exílicos é crucial para estabelecer seu sentido literal. O trabalho dos neodocumentários, como Joel S. Baden, adiciona mais uma camada de incerteza a esta questão já discutida. Assim como a contribuição de Van Seters, as visões dos neodocumentários são internamente consistentes, mas sua incompatibilidade com teorias rivais leva à fragmentação da paisagem acadêmica histórico-crítica.

O caráter conjetural dos estudos histórico-críticos é outro fator que deve ser levado em consideração aqui. Richard E. Averbeck, por exemplo, diz que o livro sobre o Gênesis de Konrad Schmid tem muito especulação, o que dá a impressão de que o autor está moldando a leitura das passagens para se adequar à sua teoria, e não o contrário. Talvez Schmid não mereça essa crítica, mas os comentários de Averbeck certamente se aplicam a muitos estudos histórico-críticos do Pentateuco. Como resultado, as tentativas atuais de explicar a origem e o crescimento dos textos do Pentateuco são altamente especulativas. A pesquisa sobre a formação do Pentateuco leva a novas hipóteses sobre esse complicado processo, mas sem um consenso firme. Agora, por definição, os fatos nunca podem ser provados como falsos. São hipóteses que são constantemente revisadas e, se necessário, consideradas falsas. Isso é algo que precisamos ter em mente quando nos envolvemos com os estudos histórico-críticos modernos no contexto das narrativas de Abraão. Na maioria das vezes, lidamos com teorias altamente conjecturais, que podem ser testadas e avaliadas, mas nunca devem ser apresentadas como fatos.

(…)

Os comentários de John J. Collins sobre o material do Pentateuco são um bom exemplo a ser seguido, por serem muito cuidadosos. Ele diz que os debates recentes sobre o Pentateuco mostram que a reconstrução de formas anteriores do texto bíblico é um empreendimento altamente especulativo. Talvez a principal lição a ser aprendida é que esses textos são de fato compostos e incorporam camadas de diferentes épocas. Carr também é cauteloso quando se trata de datar as camadas textuais das narrativas de Abraão. Ele admite que seu trabalho visa mais modéstia metodológica do que caracterizou muitas reconstruções anteriores do desenvolvimento de textos na Bíblia Hebraica. Ele então especula que as tradições de Abraão em Gênesis 12-25 podem ser pré-exílicas, mas ele também afirma que é difícil atribuir datas específicas a essas tradições misturadas e fortemente editadas. Em outras palavras, Carr afirma que, na maioria das vezes, temos que trabalhar com uma aproximação do processo histórico ao invés de tentar estabelecer seus detalhes exatos.

Mesmo um breve levantamento do campo histórico-crítico sugere que os estudiosos devem examinar sua metodologia para evitar construir um argumento com base em pressuposições questionáveis. Teorias baseadas em suposições implausíveis ou não comprovadas podem ser elaboradas ou podem parecer novas, mas seu valor real é limitado. Tenho a forte convicção de que os estudos literários modernos e a hermenêutica bíblica fornecem uma orientação excelente a esse respeito. Dado que os estudos bíblicos sempre refletiram a crítica secular até certo ponto, como Barton convincentemente argumenta, os estudiosos da Bíblia podem aprender com os críticos literários sobre os pontos fortes e as limitações de seu método. T. S. Eliot escreve em The Varieties of Metafysical Poetry que devemos sempre ser tão exatos e claros quanto possível – tão claros quanto o assunto permite. E quando o assunto é literatura, a clareza além de um determinado ponto torna-se falsificação. Esta é uma restrição muito importante à atividade de crítica literária. Quando um assunto é vago por natureza, a clareza deve consistir, não em torná-lo tão claro a ponto de ser irreconhecível, mas em reconhecer a sua imprecisão.

Parece que John A. Emerton encontra o equilíbrio certo entre ser exato e reconhecer as limitações de seu assunto quando resume sua investigação da data do javista: “Se minha hipótese de que a matriz da escrita da história israelita pode ter sido a tradição literária vista nas inscrições semíticas do noroeste dos séculos nono ao sétimo, a composição do javista (J) pode ser plausivelmente associada a ela. É difícil ser mais preciso ” (p. 128). Essa declaração de ser incapaz de ser “mais preciso” é o que esperaríamos de um pesquisador honesto. Talvez paradoxalmente, a manutenção de um certo grau de imprecisão possa contribuir para a obtenção de um consenso futuro neste campo. Esse consenso pode não ser satisfatório para aqueles que buscam exatidão, mas refletirá corretamente a natureza do assunto sob investigação: literatura antiga cuja origem e desenvolvimento são, pelo menos parcialmente, obscurecidos por séculos de distância.

 

Algum autores citados no texto

BADEN, J. S. The Composition of the Pentateuch: Renewing the Documentary Hypothesis. New Haven: Yale University Press, 2012.

BARTON, J. Reading the Old Testament: Method in Biblical Study. London: Darton Longman & Todd, 1984.

BLUM, E. Die Komposition der Vätergeschichte. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag, 1984; Studien zur Komposition des Pentateuch. Berlin: Walter de Gruyter, 1990.

CARR, D. M. The Formation of the Hebrew Bible: A New Reconstruction. New York: Oxford University Press, 2011.

COLLINS, J. J. Introduction to the Hebrew Bible. Minneapolis: Augsburg Fortress, 2004.

DOZEMAN, T. B.; SCHMID, K. (eds.) A Farewell to the Yahwist? The Composition of the Pentateuch in Recent European Interpretation. Atlanta: Society of Biblical Literature, 2006.

EMERTON, J. A. The Date of the Yahwist. In: DAY, J. (ed.) In Search of Pre-Exilic Israel: Proceedings of the Oxford Old Testament Seminar. London: T&T Clark, 2004, p. 107–129.

KRATZ, R. G. The Growth of the Old Testament. In: ROGERSON, J. W. ; LIEU, J. M. (eds.) The Oxford Handbook of Biblical Studies. Oxford: Oxford University Press, 2006, p. 459–488.

RENDTORFF, R. Das überlieferungsgeschichtliche Problem des Pentateuch. Berlin: Walter de Gruyter, 1977. Tradução inglesa: The Problem of the Process of Transmission in the Pentateuch. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1990.

SCHMID, K. Genesis and the Moses Story: Israel’s Dual Origins in the Hebrew Bible. Winona Lake: Eisenbrauns, 2010.

SONEK, K. The Abraham Narratives in Genesis 12–25. Currents in Biblical Research, Volume 17, Issue 2, February 2019, p. 158-183.

VAN SETERS, J. Abraham in History and Tradition. New Haven: Yale University Press, 1975 e Brattleboro, VT: Echo Point Books & Media, 2014.

VAN SETERS, J. Prologue to History: The Yahwist as Historian in Genesis. Louisville, Kentucky: Westminster John Knox, 1992.

VAN SETERS, J. The Pentateuch: A Social-Science Commentary. 2. ed. London: Bloomsbury T & T Clark, 2015.

 

Recomendo a leitura de:

SONEK, K. The Abraham Narratives in Genesis 12–25, Currents in Biblical Research, Vol. 17(2), p. 158­–183, 2019.

 

 

The study of the origin of the oral and written traditions which gave rise to the emergence of Genesis in the late Persian or early Hellenistic periods continues to preoccupyKris Sonek many scholars. Though such interpretative approaches as postcolonial criticism, feminist criticism, or ecological hermeneutics are in vogue, the traditional historical criticism and its quest to identify the original context of the scriptural material continues to generate both interest and controversy. Nevertheless, it seems that the efforts of modern scholars to reach a consensus on the origin of Genesis, and the Pentateuch in general, have been largely unsuccessful. Though some authors have expressed the view that a common understanding of the historical process was achieved by the end of the twentieth century, the current multiplication of competing and contradictory theories casts a long shadow on the historical field, and many modern readers turn to other methodologies in the hope of finding better answers to their questions.

John Van Seter’s views on the Yahwist have long dominated this field, and some scholars have found them very convincing. Others, especially those influenced by arguments proposed by Rolf Rendtorff and Erhard Blum, deny the existence of the Yahwist, and explain the origin and growth of the Pentateuch as a result of the post-exilic work of Deuteronomistic and Priestly authors expanding and editing exilic and late pre-exilic material. While Reinhard G. Kratz is right in saying that “only for the Priestly Writing and Deuteronomy can one suggest a sure textual basis that is capable of gaining a consensus,” [Kratz, 2006, p. 482] we would certainly like to see a higher level of consensus among historical scholars. Establishing the literal sense of scriptural passages depends on their dating. Hence if we disagree about the time of their composition, we can hardly propose a convincing exposition of their literal sense.

What is more, David M. Carr’s recent research demonstrating the difficulty of placing the Abraham traditions on the timeline leads to the conclusion that the literal sense of Genesis 12–25 can be ascertained with only a limited degree of probability. Carr argues: “Overall, the complex of Abrahamic traditions constitutes a prime instance where texts in the Hebrew Bible of demonstrable theological significance are relatively difficult to place on a chronological continuum in this sort of history.” [Carr, 2011, p. 485] After all, the question of whether these texts and their underlying oral traditions are pre- or post-exilic is crucial for establishing their literal sense. The work of the “neo-documentarians,” such as Joel S. Baden, adds a further layer of uncertainty to this already moot issue. Like the contribution of Van Seters, the neo-documentarians’ views are internally consistent, but their incompatibility with rival theories leads to the fragmentation of the historical-critical academic landscape.

The conjectural character of historical-critical studies is another factor which needs to be taken into consideration here. Richard E. Averbeck comments on Konrad Schmid’s Genesis and the Moses Story: “There is a lot speculation in this book. One sometimes gets the impression that the author is shaping the reading of passages to fit his theory rather than the other way around” [Averbeck, 2011, p. 167]. I do not think that Schmid deserves this criticism, but Averbeck’s comments certainly apply to many historical-critical studies of the Pentateuch. As a result, the current attempts to explain the origin and growth of pentateuchal texts are highly speculative. The research on the formation of the Pentateuch leads to new hypotheses about this complicated process, but without any firm consensus. Now, by definition, facts can never be proved false. It is hypotheses that are constantly revised and occasionally falsified. This is something we need to keep in mind when we engage with modern historical-critical scholarship in the context of the Abraham narratives. More often than not, we deal with highly conjectural theories, which can be tested and evaluated, but should never be presented as facts.

(…)

By contrast, John J. Collins’s comments on the pentateuchal material are very circumspect: “Nonetheless, the recent debates about the Pentateuch show that the reconstruction of earlier forms of the biblical text is a highly speculative enterprise. Perhaps the main lesson to be retained is that these texts are indeed composite, and incorporate layers from different eras” [Collins, 2004, p. 63]. Carr is also cautious when it comes to dating the textual layers of the Abraham narratives. He admits that his work “is aiming for more methodological modesty than has characterized many prior reconstructions of the development of texts in the Hebrew Bible” [Carr 2011, p. 4]. He then speculates that the Abraham traditions in Genesis 12–25 may be pre-exilic, but he also states that it is difficult to assign specific dates to those mixed and heavily edited traditions. In other words, Carr declares that, more often than not, we have to work with an approximation of the historical process rather than trying to establish its exact details.

Even a brief survey of the historical-critical field suggests that scholars should examine their methodology to avoid building an argument on the basis of questionable presuppositions. Theories grounded in implausible or unproven assumptions may be elaborate or may sound novel, but their real value is limited. It is my strong conviction that modern literary studies and biblical hermeneutics provide excellent guidance in this respect. Given that “biblical studies have always mirrored secular criticism to some extent”, as Barton convincingly argues [Barton 1984, p. 204], the biblical guild may learn from literary critics about the strengths and limitations of their method. T. S. Eliot writes in The Varieties of Metaphysical Poetry: “One must always be as exact and clear as one can—as clear as one’s subject matter permits. And when one’s subject matter is literature, clarity beyond a certain point becomes falsification. This is a very important restriction on the activity of literary criticism. When a subject matter is in its nature vague, clarity should consist, not in making it so clear as to be unrecognisable, but in recognising the vagueness, where it begins and ends and the causes of its necessity, and in checking analysis and division at the prudent point.” [Eliot, 1993, p. 59-60]

It seems that John A. Emerton finds the right balance between being exact and recognizing the limitations of one’s subject matter when he summarizes his investigation of the date of the Yahwist: “If my hypothesis that the matrix of Israelite history writing was the literary tradition seen in North-West Semitic inscriptions of the ninth–seventh centuries is correct, then the composition of J may plausibly be associated with it. It is difficult to be more precise” [Emerton, 2004, p. 128]. This statement of being unable to be “more precise” is what we would expect from an honest scholar. Perhaps paradoxically, maintaining a certain degree of imprecision may contribute to achieving a future consensus in this field. That consensus may not prove satisfactory to those who seek exactitude, but it will correctly reflect the nature of the subject under investigation: ancient literature whose origin and development are, at least partially, obscured by centuries-long historical distance.