A História de Israel no debate atual

A História de Israel no Debate Atual. Cadernos de Teologia, Campinas, n. 9, p. 42-64, 2001.

Até meados da década de 70 do século XX, havia um razoável consenso na História de Israel. Entre outras coisas, o consenso dizia que a Bíblia Hebraica era guia confiável para a reconstrução da história do antigo Israel. Dos Patriarcas a Esdras, tudo era histórico. Se algum dado arqueológico não combinava com o texto bíblico, arranjava-se uma interpretação diferente que o acomodasse ao testemunho dos textos, como no caso da destruição das (inexistentes) muralhas de Jericó pelo grupo de Josué

(…)

Mas, a ‘História de Israel’ está mudando. O consenso foi rompido. A paráfrase racionalista do texto bíblico que constituía a base dos manuais de ‘História de Israel’ não é mais aceita. A sequência patriarcas, José do Egito, escravidão, êxodo, conquista da terra, confederação tribal, império davídico-salomônico, divisão entre norte e sul, exílio e volta para a terra está despedaçada.

O uso dos textos bíblicos como fonte para a ‘História de Israel’ é questionado por muitos. A arqueologia ampliou suas perspectivas e falar de ‘arqueologia bíblica’ hoje é proibido: existe uma ‘arqueologia da Palestina’, ou uma ‘arqueologia da Síria/Palestina’ ou mesmo uma ‘arqueologia do Levante’.

O uso de métodos literários sofisticados para explicar os textos bíblicos, afasta-nos cada vez mais do gênero histórico, e as ‘estórias bíblicas’ são abordadas com outros olhares. A ‘tradição’ herdada dos antepassados e transmitida oralmente até à época da escrita dos textos frequentemente não consegue provar sua existência.

A construção de uma ‘História de Israel’ feita somente a partir da arqueologia e dos testemunhos escritos extrabíblicos é uma proposta cada vez mais tentadora. Uma ‘História de Israel’, que dispense o pressuposto teológico de Israel como ‘povo escolhido’ ou ‘povo de Deus’ que sempre a sustentou. Uma ‘História de Israel e dos Povos Vizinhos’, melhor, uma ‘História da Síria/Palestina’ ou uma ‘História do Levante’ parece ser o programa para os próximos anos.

E há pesquisadores de renome na área, como Rolf Rendtorff, exegeta alemão, professor da Universidade de Heidelberg, falecido em 2014, que já em 1993 afirmava em artigo na revista Biblical Interpretation 1, p. 34-53, que os problemas da interpretação do Pentateuco estão intimamente ligados aos problemas mais amplos da reconstrução da história de Israel e da história de sua religião.

Este artigo quer traçar um panorama destas mudanças pelas quais vem passando a ‘História de Israel’ nos últimos trinta e tantos anos, apontar as dificuldades que a crise vem criando e propor algumas pistas de leitura para os interessados no assunto.

Este artigo foi publicado, de forma mais ampliada, na Ayrton’s Biblical Page, onde acréscimos ao texto são feitos sempre que surgem novidades. A bibliografia foi atualizada em 2015. Clique aqui para ler o artigo.

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Vale a pena ler os profetas hoje?

Vale a pena ler os profetas hoje? Artigo publicado na Ayrton’s Biblical Page em 2000. A bibliografia foi atualizada em 2015.

Ainda vale a pena ler os profetas hoje? Que valor têm as suas palavras para nós hoje? O mundo mudou muito, e nós o que temos a ver com os problemas e as propostas de profetas israelitas que viveram há mais de 2500 anos?

O mundo mudou muito, mas as crises vividas pelos profetas ainda acontecem. Em contextos diferentes, é claro. Entretanto, os problemas da opressão, do domínio, do poder despótico, da manipulação da religião, da falsa consciência são mais atuais do que nunca. E é aí que entram os profetas: eles podem, com suas palavras tão antigas e tão atuais, nos ajudar a enfrentar as agudas situações de crise neste terceiro milênio.

Isto depende, porém, de um enfoque correto, de uma abordagem adequada dos textos dos profetas israelitas. O que nem sempre é fácil. Persistem ainda muitos obstáculos. Que, curiosamente, não vêm da antiguidade e da complexidade dos textos dos profetas. Vêm de nossa época e de nosso olhar: são os condicionamentos culturais ocidentais os que mais nos afastam de uma leitura proveitosa dos profetas.

É toda uma mentalidade, uma secular visão de mundo que nos domina, de tal modo que quase sempre a sobrepomos ao texto bíblico, ocultando o seu sentido original e inutilizando-o frente aos problemas reais do mundo atual.

Por isso, o que aqui proponho é a abordagem de alguns dos obstáculos hermenêuticos mais comuns, nos quais constantemente tropeçamos. Obstáculos hermenêuticos são armadilhas do pensamento. Isto servirá de alerta e alarme para nós. Pois só uma constante vigilância ideológica manterá aberta a nossa mente para a experiência do nascimento do sentido que acontece na operação de leitura dos textos proféticos.

O filósofo francês da ciência Gaston BACHELARD trabalhou de maneira muito interessante a questão dos obstáculos epistemológicos, noção na qual me inspirei para falar de obstáculos hermenêuticos. O texto de Bachelard está em sua obra La formation de l’esprit scientifique: contribution à une psychanalyse de la connaissance objective. 15. ed. Paris: Vrin, 2000, mas pode ser lido, em português, em BACHELARD, G. A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. 3. ed. Rio de Janeiro: Contraponto, 2003.

Este texto foi adaptado de meu livro Nascido Profeta: a vocação de Jeremias. São Paulo: Paulus, 1992, p. 110-122.

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SOTER 2000: Teologia na América Latina

Teologia na América Latina: Prospectivas. Artigo publicado na Ayrton’s Biblical Page em 2000.

Realizou-se em Belo Horizonte, nos dias 24-28 de julho de 2000, o Congresso da SOTER, Sociedade de Teologia e Ciências da Religião. O tema, neste ano de balanços, foi Teologia na América Latina: Prospectivas. Do Congresso, que contou, pela primeira vez, com a adesão de vários países da América Latina, participaram 234 teólogos, teólogas e cientistas da religião. Destes, 77 vieram da Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, México, Peru e Uruguai, além de convidados da Áustria, Canadá, Espanha, Estados Unidos e Itália.

Alguns nomes de destaque na Teologia Latino-Americana que se fizeram presentes: Leonardo Boff, Clodovis Boff, Gustavo Gutiérrez (Peru), José Comblin, João Batista Libânio, Antônio Moser, Benedito Ferraro, Marcelo Barros, Alberto Antoniazzi, Faustino Teixeira, Pablo Richard (Costa Rica), Ronaldo Muñoz (Chile), Sergio Silva Gatica (Chile), Alberto Parra (Colômbia), José Duque (Costa Rica) e tantos outros. Sem nos esquecermos da presença do Vice-Presidente da Sociedade Europeia de Teologia e do Secretário da Sociedade Católica de Teologia dos Estados Unidos, ou do polêmico teólogo italiano Giulio Girardi, nem do fato inédito da participação e filiação à SOTER de Dom Emanuel Messias de Oliveira, Mestre em Bíblia, [então] bispo da Diocese de Guanhães, MG [atualmente, em 2015, Dom Emanuel é bispo de Caratinga, MG].

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Cadernos de Teologia?

Cadernos de Teologia: outra revista citada em minhas publicações e, assim como os Cadernos do Cearp, por não ter sido indexada junto aos órgãos competentes, talvez seja pouco conhecida.

Esta foi uma revista acadêmica da FTCR – Faculdade de Teologia e Ciências Religiosas –  da PUC-Campinas, que teve 11 números publicados entre outubro de 1995 e maio de 2002. Também desta revista fui o redator.

No primeiro número, Dom Gilberto Pereira Lopes, Arcebispo Metropolitano de Campinas e grão-chanceler da PUC-Campinas, diz em sua “Mensagem de Abertura”:

Com agrado, acolho a sugestão de dizer uma palavra, no início desta publicação. Uma palavra de esperança, de votos, de bênção. A semente que aqui se lança possa, à semelhança daquela da parábola, produzir muitos frutos de vida. É a Esperança que acalentamos (…) Será um grande serviço de reflexão em torno de temas que interessam a este “Cadernos de Teologia”. Que seja capaz de realizar plenamente sua missão…

E José Arlindo de Nadai, então Diretor da FTCR, no editorial deste primeiro número, acrescenta:

É com alegria e esperança que apresentamos o primeiro número de “Cadernos de Teologia” do Instituto de Teologia e Ciência Religiosas – ITCR, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUCCAMP [Nota: a FTCR, naquela época, ainda era denominada ITCR]. Alegria porque, finalmente, conseguimos realizar um sonho acalentado há tantos anos! Esperança, pois, pretendemos manter periodicamente a publicação, como um serviço à comunidade. Escolhemos [para este primeiro número] a questão dos Essênios e os Manuscritos de Qumran pela atualidade do debate e avanço das pesquisas. E também pelo interesse de nossos professores e alunos do Instituto.

Quando começou, quem organizava os Cadernos de Teologia?

Diretor Responsável: José Arlindo de Nadai
Redator: Airton José da Silva
Secretário: Luiz Carlos F. Magalhães

Conselho Editorial:
Airton José da Silva
Benedito Ferraro
Éder Doniseti Justo
José Arlindo de Nadai
José Carlos de Oliveira
Luiz Carlos F. Magalhães

A revista, semestral, com tiragem de 500 exemplares distribuídos gratuitamente, trazia regularmente artigos e outras contribuições dos professores e estudantes da FTCR.

Para exemplificar, transcrevo os sumários dos números 1 e 11, primeiro e último publicados:

Número 1: ano 1 – outubro de 1995

Artigos
Airton José da Silva – Os Essênios e os Manuscritos do Mar Morto
Cássio Murilo Dias da Silva – Qumran e Jesus, Jesus e Qumran
Benedito Ferraro e Márcio Tangerino – Reino e Democracia


Pesquisas
Paulo Sérgio Lopes Gonçalves – A Igreja dos pobres nas obras de Leonardo Boff
Sávio Carlos Desan Scopinho – A epistemologia em questão
Wilson Denadai – A morte como símbolo de transformação

Notas Bibliográficas
SHANKS, H. Para compreender os Manuscritos do Mar Morto. Rio de Janeiro: Imago, 1993 – José Carlos de Oliveira
VANDERKAM, J. C. Os Manuscritos do Mar Morto hoje. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995 – Éder Donisete Justo
GARCÍA MARTÍNEZ, F. Textos de Qumran: Edição Fiel e Completa dos Documentos do Mar Morto. Petrópolis: Vozes, 1995 – Airton José da Silva

Notícias
Semana Teológica: Globalização da Economia – Alexandre Sanches Ximenes
Curso Noturno – Teologia para Leigos: “Guia do Aluno”
Diretório Acadêmico João XXIII – Luiz Carlos F. Magalhães

Número 11: ano 8 – maio de 2002

Artigos
Ruy Rodrigues Machado – Oriente Médio: Geopolítica, Terrorismo e Guerra
Paulo Sérgio Lopes Gonçalves – A Pesquisa na Universidade Católica
Pedro Carlos Cipolini – Teologia do Episcopado
José Antonio Trasferetti – Pastoral da Família e AIDS. Comunicação, Saúde e Conscientização
Cássio Murilo Dias da Silva – Estudo Exegético de Jeremias 5,1-9 – Um Esboço
Sandro de Souza Portela – A Universidade Solidária e a Teologia

Resenhas
GNILKA, J. Jesus de Nazaré: mensagem e história. Petrópolis: Vozes, 2000 – Rodrigo Catini Flaibam
MOLTMANN, J. Trindade e Reino de Deus: uma contribuição para a teologia. Petrópolis: Vozes, 2000 – Rodrigo Catini Flaibam
BARREIRO, A. Igreja, Povo Santo e Pecador: estudo sobre a dimensão eclesial da fé cristã e o pecado na Igreja, a crítica e a fidelidade à Igreja. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2001 – Alexander Luiz Dezotti

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Cadernos do Cearp?

Em minhas publicações tenho citado esta revista. O que é? Ou, o que foi?

Cadernos do Cearp: uma revista acadêmica do Curso de Teologia do CEARP – Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto – que teve 13 números elaborados (entretanto, apenas 11 publicados) entre maio de 1994 e maio de 2001. Fui o seu redator.

No primeiro número, Dom Arnaldo Ribeiro, Arcebispo Metropolitano, deixou uma mensagem na qual, entre outras coisas, diz:

Na reunião de avaliação dos trabalhos escolares do CEARP – Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto – no final de 1993, foi apresentada, com muitos pormenores uma sugestão nascida nas avaliações feitas entre alunos e professores: chegou a hora de termos um órgão de divulgação de nossos estudos e da nossa vida acadêmica, criando a possibilidade de partilha com outros Centros de estudos teológicos (…) Os esforços iniciais chegam à sua plena realização. Surge o número inicial de Cadernos do CEARP. Uma nova vitória dos dedicados Professores, bem como dos estudantes que desejam sua Escola cada dia melhor, em tudo. Isto aqui é só uma simples apresentação, para dizer da minha alegria, das minhas esperanças. Com o meu abraço de parabéns…

E Francisco de Assis Correia, então Diretor do CEARP, no editorial deste primeiro número, acrescenta:

Com este primeiro número de Cadernos do CEARP, o nosso Curso de Teologia dá mais um passo, ainda que modesto. O objetivo deste órgão é: dinamizar o debate teológico existente, divulgar as pesquisas feitas pelo corpo docente e discente, dar a conhecer ao clero da Província Eclesiástica de Ribeirão Preto e aos outros Institutos de Teologia do Estado de São Paulo o trabalho do CEARP…

Quando começou, quem organizava os Cadernos do Cearp?

Diretor: Francisco de Assis Correia
Redator: Airton José da Silva
Secretário: Edmar Roberto Prandini

Conselho Editorial:
Airton José da Silva
Alfeu Piso
Edmar Roberto Prandini
Francisco de Assis Correia
Paulo Cezar Mazzi
Paulo Fernando de Mello Cunha

A revista, com tiragem de 300 exemplares distribuídos gratuitamente, trazia regularmente artigos e outras contribuições dos professores e estudantes da Teologia do Cearp e, eventualmente, de convidados das Semanas Teológicas.

Para exemplificar, transcrevo os sumários dos números 1 e 11, primeiro e último publicados:

Número 1: ano 1 – maio de 1994

Artigos
1. DO PRADO, J. L. G. Para que teus dias se prolonguem: a família, fonte de vida
2.CORREIA, F. A.  A família: uma leitura do texto-base da CF 94 sob a ótica da alteridade
3. MASIN, J. Paternidade e maternidade responsáveis e os métodos de planejamento familiar

Sínteses
1. PIVATTI, C. Síntese na área de cristologia sistemática
2. RICARDO, P. L. Liturgia – celebrar o encanto da vida

Notas bibliográficas
1. MARCÍLIO, M. L. (org.) A família, mulher, sexualidade e Igreja na História do Brasil. São Paulo: Loyola, 1993 (Edmar Roberto Prandini)
2. FERRARO, B. Cristologia em tempos de ídolos e sacrifícios. São Paulo: Paulinas, 1993 (Paulo C. Mazzi)
3. BYRNE, B. Paulo e a mulher cristã. São Paulo: Paulinas, 1993 (Paulo F. de Mello Cunha)

Notícias
1. Planejamento familiar e métodos naturais
2. Religiosidade e cultura popular

Número 11: ano 6 – maio de 1999

Artigos
1. O “Novo Clero”: Arcaico ou Moderno? – Luiz Roberto Benedetti
2. Projeto Genoma Humano (PGH): Utopia do Homem Geneticamente Perfeito – Valdomiro José de Souza
3. Ainda Sobre os Transplantes de Órgãos – Francisco de Assis Correia
4. Solidariedade x Caridade – Mário José Filho
5. A Leitura Sócio-Antropológica da Bíblia Hebraica – Airton José da Silva
6. O Ser Humano: Ser de Necessidade e de Criatividade – Carlos Barbosa
7. Teologia e Método – Leandro Carlos dos Santos Pupin

Notas Bibliográficas
1. REEVES, H. Um pouco mais de azul: a evolução cósmica. São Paulo: Martins Fontes, 1998 – Antonio Élcio de Souza e Fábio Renato Brazolin de Carvalho
2. HAUGHT, J. F. Mistério e Promessa: Teologia da Revelação. São Paulo: Paulus, 1998 – André Luiz Massaro

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Leitura socioantropológica do Novo Testamento

Leitura socioantropológica do Novo Testamento. Artigo publicado na Ayrton’s Biblical Page em 2000.

1. A Antropologia do Mundo Mediterrâneo e o NT

No outro artigo falamos só da Bíblia Hebraica e das questões que ela propõe a uma leitura sociológica. Mas se considerarmos mais especificamente o Novo Testamento hoje com o auxílio da antropologia, perceberemos que o mundo mediterrâneo no qual ele foi gestado tem muito menos em comum com o Ocidente moderno do que imaginamos. É que costumamos olhar o texto com os parâmetros sociais atuais e não conseguimos, frequentemente, perceber a diferença do mundo antigo.

Considerações deste gênero são feitas, por exemplo, por Richard L. Rohrbaugh, na Introdução de um volume sobre “As Ciências Sociais e a Interpretação do Novo Testamento”, obra escrita por membros do The Context Group, “uma associação de estudiosos interessados no uso das Ciências Sociais como um instrumento heurístico na interpretação do Novo Testamento” que ao longo de mais de uma década vem trabalhando com a questão da antropologia do mundo mediterrâneo, visto como uma unidade cultural onde foi escrito o NT.

O autor nos oferece alguns exemplos que apontam para o risco da projeção de nossa visão moderna de mundo para o universo do NT. Tomemos a questão da expectativa de vida hoje nos países ricos e nas cidades pré-industriais do Império Romano: “Cerca de 1/3 daqueles que ultrapassavam o primeiro ano de vida (não contabilizados, portanto, como vítimas da mortalidade infantil) morriam até os 6 anos de idade. Cerca de 60% dos sobreviventes morriam até os 16 anos. Por volta dos 26 anos 75% já tinha morrido e aos 46 anos, 90% já desaparecido, chegando aos 60 anos de idade menos de 3% da população”.

É claro que estes dados não são uniformemente distribuídos por toda a população da época. Os que mais sofriam pertenciam às classes mais pobres das cidades e povoados, já que um pobre em Roma, no século I de nossa era, tinha uma expectativa de vida de 30 anos, quando muito. E o autor acrescenta: “Estudos feitos por paleopatologistas indicam que doenças infecciosas e desnutrição eram generalizadas. Por volta dos 30 anos a maioria das pessoas sofria de verminose, seus dentes tinham sido destruídos e sua vista acabado (…) 50% dos restos de cabelo encontrados nas escavações arqueológicas tinham lêndeas”*.

Continue a leitura clicando aqui. A bibliografia, no final do texto, foi atualizada em 2012.

Lembro que este texto está presente também no seguinte livro:

DIAS DA SILVA, C. M., com a colaboração de especialistas, Metodologia de exegese bíblica. 3. ed. São Paulo: Paulinas, 2009, p. 355-450.

* Três notas de rodapé foram omitidas neste trecho aqui transcrito.

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Origem do discurso socioantropológico

O discurso socioantropológico: origem e desenvolvimento. Artigo publicado na Ayrton’s Biblical Page em 2000. 

O objetivo deste artigo é esboçar um panorama da origem e do desenvolvimento de duas ciências sociais que estão sendo hoje muito utilizadas na leitura da Bíblia. Trata-se da Sociologia e da Antropologia Cultural ou Social, somadas no discurso que caracterizamos como Socioantropológico. Em inglês, a terminologia comumente utilizada é Social-Scientific Criticism.

Continue a leitura clicando aqui. A bibliografia, no final do texto, foi atualizada em 2015.

Lembro que este texto está presente também no seguinte livro:

DIAS DA SILVA, C. M., com a colaboração de especialistas, Metodologia de exegese bblica. 3. ed. São Paulo: Paulinas, 2009, p. 355-450.

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Leitura socioantropológica da Bíblia Hebraica

Leitura socioantropológica da Bíblia Hebraica. Cadernos do Cearp, Ribeirão Preto, n. 11, p. 75-98, 1999.

Philip R. Davies, exegeta britânico, ao falar dos métodos usados na leitura da Bíblia nas últimas duas décadas, sugere que a combinação das abordagens literárias e sociológicas apresenta hoje o mais promissor caminho para o avanço dos estudos da Bíblia Hebraica. É que estas abordagens examinam não somente a literatura e a realidade social de Israel, mas também as forças sociais subjacentes à produção da literatura bíblica, onde se distingue a sociedade que está por trás do texto da sociedade que aparece dentro do texto. Além disso, sublinha ainda Philip R. Davies, estas abordagens situam Israel no seu contexto histórico apropriado e questionam preconceitos teológicos que, frequentemente, estorvam os especialistas em exegese bíblica.

Na mesma direção sinaliza Norman K. Gottwald, quando diz que a leitura sociológica fecha a porta “firme e irrevogavelmente, às ilusões idealistas e supernaturalistas que ainda impregnam e enfeitiçam nossa perspectiva religiosa”, quando abordamos um texto bíblico. E acrescenta: “Cumpre que tanto Iahweh como ‘seu’ povo sejam desmistificados, desromantizados, desdogmatizados e desidolizados. Somente quando realizarmos esta desmitologização da fé javista, e dos seus derivados judaico e cristão, seremos capazes, aqueles dentre nós que foram formados e alimentados por esses símbolos judeus e cristãos curiosamente ambíguos, de alinharmos coração e cabeça, de combinarmos teoria e prática”.

Vale lembrar aqui outro aspecto: a aplicação das Ciências Sociais ao estudo da Bíblia vem conseguindo responder satisfatoriamente a questões que a clássica “teologia bíblica” não conseguiu abordar de modo adequado até agora.

É igualmente importante salientar que a leitura sociológica da Bíblia está relacionada especialmente com os métodos histórico-críticos e com a leitura popular. Na medida em que toda abordagem sociológica de um texto histórico é também uma abordagem histórica, a leitura sociológica tem complementado e corrigido a leitura histórico-crítica. Especialmente importante é a percepção de que sua colaboração se faz necessária quando a historiografia não se contenta em descrever as ações dos grupos dominantes de determinada sociedade, mas a história quer revelar a atividade total de um povo. Do mesmo modo, a leitura popular que vem sendo feita entre nós se beneficia das contribuições das Ciências Sociais. No estudo do contexto em que foram escritos os textos bíblicos, por exemplo, costuma-se olhar os quatro lados da situação enfocada: os lados econômico, social, político e ideológico. Esta é uma atitude sociológica, entre outras que poderiam ser aqui citadas.

É sobre esta atitude que David J. Chalcraft, organizador de um livro sobre a aplicação das Ciências Sociais ao Antigo Testamento, diz: “A crítica social científica não deve se restringir a modelos e teorias preditivas no seu esforço para reconstruir o que está ‘atrás dos textos’: mais do que isso, ela abarca toda uma série de questões, teorias, conceitos e metodologias. Ela, e isso é o mais importante, implica em ‘modos de pensar’ sociológico e antropológico”*.

Este artigo foi publicado na Ayrton’s Biblical Page. Confira: Leitura socioantropológica da Bíblia Hebraica. A bibliografia foi atualizada em 2012.

Lembro que este texto está presente também no seguinte livro:

DIAS DA SILVA, C. M., com a colaboração de especialistas, Metodologia de exegese bíblica. 3. ed. São Paulo: Paulinas, 2009, p. 355-450. 

* Cinco notas de rodapé, presentes nesta introdução, foram aqui omitidas.

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