O EI está mesmo destruindo artefatos assírios?

O terrível do terrorismo é que ele ocupa as mentes. Nas guerras e guerrilhas precisa-se ocupar o espaço físico para efetivamente triunfar. No terror não. Basta ocupar as mentes, distorcer o imaginário e introjetar medo (Leonardo Boff).

Primeiro, a notícia:

Estado Islâmico destrói estátuas milenares da civilização assíria no Iraque – Opera Mundi 26/02/2015

O EI (Estado Islâmico) divulgou, nesta quinta-feira (26/02), um vídeo em que integrantes do grupo jihadista aparecem destruindo diversas estátuas e esculturas com mais de três mil anos com marretas (…)  O material era parte do patrimônio cultural da civilização assíria, que habitou o norte do Iraque e da Síria desde o século X a.C. (…) As estátuas destruídas são parte da coleção do museu de Mossul, capital da província de Nínive e que é controlada pelo EI desde junho de 2014.

Em seguida, por recomendação de Charles E. Jones, na lista ANE-2, uma análise do episódio:

For a good preliminary analysis of today’s video of the destruction in Mosul Museum and Nineveh have a look at Sam Hardy’s Conflict Antiquities: Islamic State has toppled, sledgehammered and jackhammered (drilled out) artefacts in Mosul Museum and at Nineveh.

Um trecho do texto diz:

There is no doubt that the Islamic State is profiting from the illicit trade in antiquities. Although the criminals have destroyed some ancient artefacts (whether complete objects or fragmentary reconstructions), they have also destroyed a lot [some] of modern reproductions – as is visible, for example, around 00h03m58s. [The reinforcing steel (“rebar”) is the “skeleton” that connects fragments in reproductions.] All this video really shows is that they are willing to destroy things that they can’t ship out and sell off.

O que parece estar acontecendo é a destruição de material que eles não conseguem vender. Seriam reproduções modernas das antigas peças assírias… É bem provável que o Estado Islâmico esteja mesmo é lucrando muito com o mercado ilegal de artefatos arqueológicos da Mesopotâmia.


Atualização: 07.03.2015 – 15h45
Infelizmente a destruição de preciosos artefatos e sítios arqueológicos assírios pelo Estado Islâmico está se tornando rotina. Clique aqui e aqui.

Leia Mais:
O retorno dos jihadistas

Marcos, hoje aclamado, já foi negligenciado

Hoje aclamado pelos especialistas, o evangelho de Marcos foi negligenciado na época patrística. Como ele conseguiu sobreviver?

Michael J.  Kok, que mantém um blog dedicado ao estudo acadêmico de Marcos, escreve, neste fevereiro, em The Bible and Interpretation, um artigo que aborda o tema de seu recente livro.

O artigo: Why Did the Gospel of Mark Survive?

A revista explica:
In spite of the virtually unanimous ecclesiastical tradition that the evangelist Mark was the interpreter of Peter, the most prestigious leader among the Apostles in Christian memory, the Gospel of Mark was mostly neglected in the Patristic period. Moreover, the explicit Patristic comments about the evangelist Mark reveal some ambivalence about the Gospel’s literary and theological value. This paper will explore the reasons why some later Christian intellectuals were hesitant to embrace Mark, especially highlighting their concerns that Mark could be read as amenable to the theological views of their opponents.

O livro: The Gospel on the Margins: The Reception of Mark in the Second Century. Minneapolis: Fortress Press, 2015, 240 p. – ISBN 9781451490220. Para Kindle, aqui.

Diz a editora:
Scholars of the Gospel of Mark usually discuss the merits of patristic references to the Gospel’s origin and Mark’s identity as the “interpreter” of Peter. But while the question of the Gospel’s historical origins draws attention, no one has asked why, despite virtually unanimous patristic association of the Gospel with Peter, one of the most prestigious apostolic founding figures in Christian memory, Mark’s Gospel was mostly neglected by those same writers. Not only is the text of Mark the least represented of the canonical Gospels in patristic citations, commentaries, and manuscripts, but the explicit comments about the Evangelist reveal ambivalence about Mark’s literary or theological value. Michael J. Kok surveys the second-century reception of Mark, from Papias of Hierapolis to Clement of Alexandria, and finds that the patristic writers were hesitant to embrace Mark because they perceived it to be too easily adapted to rival Christian factions. Kok describes the story of Mark’s Petrine origins as a second-century move to assert ownership of the Gospel on the part of the emerging Orthodox Church.

Este livro é o resultado de sua tese de doutorado na Universidade de Sheffield, Reino Unido, concluída em 2013, sob a orientação do Professor James G. Crossley:

Kok, Michael J (2013) The Gospel on the Margins: The Ideological Function of the Patristic Tradition on the Evangelist Mark. PhD thesis, University of Sheffield. 

O texto da tese, em pdf, pode ser baixado gratuitamente, assim como outras interessantes teses disponíveis neste site.

Leia Mais:
Marcos: um relato da prática de Jesus
Roteiro para uma leitura de Marcos
Sobre algumas leituras de Marcos
O milagre da multiplicação dos pães
Por que milagres? O caso dos pães em Marcos

Resenhas na RBL – 13.02.2015

Importante papiro do NT muda de nome

O P75, papiro do começo do século III, ou um pouco antes, é um dos mais antigos testemunhos do texto do Novo Testamento. Pois o Bodmer Papyrus XIV-XV (P75) passa a se chamar Hanna Papyrus 1 (Mater Verbi), em homenagem à familia Hanna que, em 2007, o comprou e doou à Biblioteca Vaticana.

Veja a nota, em italiano:

“La biblioteca Apostolica Vaticana desidera esprimere la sua profonda gratitudine alla famiglia Hanna e alla Solidarity Association per aver donato alla Biblioteca, nel gennaio 2007, uno fra i più importanti e preziosi manoscritti dei Vangeli, il Papiro Hanna 1 (Mater Verbi), precedentemente conservato presso la Bibliotheca Bodmeriana a Cologny, in Svizzera. Vergato agli inizi del III secolo d.C., è uno dei più antichi testimoni superstiti del testo del Nuovo Testamento.

Originariamente conteneva per intero i Vangeli di Luca e di Giovanni, in questo ordine; oggi, circa 1.800 anni dopo, conserva ancora circa la metà di entrambi i Vangeli in condizioni soddisfacenti, tra cui la versione lucana del Padre Nostro (Lc 11,1-4). Per alcuni passi, come Gv 6,12-16, è addirittura il testimone più antico.

Noto agli studiosi come P75 questo papiro è una delle fonti più importanti per la ricostruzione del testo dei Vangeli; è anche il più antico manoscritto in cui si vede, in un’unica pagina, la transizione tra la fine di un Vangelo e l’inizio del seguente, il che costituisce la prima testimonianza diretta dell’ordine dei libri nel canone dei Vangeli”.

O P75 pertencia à Biblioteca Bodmeriana, que fica em Cologny, Suíça.

Leia também: A New Name for P75, texto escrito por Peter M. Head no blog Evangelical Textual Criticism.

Codex Vaticano está online

O Codex Vaticano está disponível online.

O Codex Vaticano (B), assim chamado porque desde o século XV está na Biblioteca Vaticana, contém, além do AT quase todo na versão da LXX, a maior parte do NT. É do séc. IV, vem provavelmente do Egito e é um dos melhores textos do NT.

Leia um pouco sobre o Codex Vaticano e outros textos antigos do NT aqui.

Codex Vaticanus (B) is now available on-line including LXX and NT. The Vatican Library has digitised Codex Vaticanus. It is an majuscule manuscript that dates to the mid-fourth century and contains almost the entire Christian canon in Greek.

O que é a apocalíptica?

Apocalíptica: busca de um tempo sem fronteiras. Artigo publicado na Ayrton’s Biblical Page em 1999.

1. Filha e Herdeira da Profecia

O verbo grego kalýpto significa “cobrir”, “esconder”, “ocultar”, “velar”. Neste sentido ele é usado, por exemplo, em Lc 23,30 ou 2Cor 4,3. Aqui, Paulo diz: “Por conseguinte, se o nosso evangelho permanece velado (kekalymménon) está velado (kekalymménon) para aqueles que se perdem…”.

Na LXX, kalýpto é usado no mesmo sentido em Ex 24,15;27,2; Nm 9,15; 1Rs 19,13 e em muitos outros lugares. Ex 24,14 diz: “Depois, Moisés e Josué subiram à montanha. A nuvem cobriu (ekálypsen) a montanha”. Nm 9,15 diz: “No dia em que foi levantada a Habitação, a Nuvem cobriu (ekálypsen) a Habitação, ou seja, a Tenda da Reunião…”. O verbo hebraico assim traduzido é khâsah, “cobrir”, “ocultar”.

A preposição grega apó indica um movimento de afastamento ou retirada de algo que está na parte externa de um objeto. Assim é usada em Mt 5,29: “Caso o teu olho direito te leve a pecar, arranca-o e lança-o para longe de ti (apó sou)”.

Em hebraico, o verbo gâlâh é usado com o significado de “despir”, “descobrir”, “revelar”, “desvelar”. Ex 20,26 diz: “Nem subirás o degrau do meu altar, para que não se descubra (thigâleh) a tua nudez”. E 1Sm 2,27: “Um homem de Deus veio a Eli e lhe disse: ‘Assim diz Iahweh. Eis que me revelei (nighlêthî) à casa de teu pai…'”.

Dn 2,29 usa o verbo gâlâh para a revelação do que deve acontecer: “Enquanto estavas sobre o teu leito, ó rei, acorriam-te os pensamentos sobre o que deveria acontecer no futuro, e aquele que revela (weghâlê’) os mistérios te deu a conhecer o que deve acontecer”.

A LXX traduz o verbo gâlâh pelo grego apokalýptô, que significa “descobrir”, “revelar”, “desvelar”, “retirar o véu”.

O NT usa o mesmo verbo neste sentido. Mt 10,26, por exemplo: “Não tenhais medo deles, portanto. Pois nada há de encoberto que não venha a ser descoberto (apokalyfthêsetai)”. Ou Lc 10,22: “Tudo me foi entregue por meu Pai e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, e quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar (apokalýpsai)”.

Deste verbo deriva o substantivo feminino grego apokálypsis, “revelação”, “apocalipse”. Em Gl 2,2 Paulo diz a propósito de sua ida a Jerusalém: “Subi em virtude de uma revelação (apokálypsin)…”. E o livro do Apocalipse começa assim: “Revelação (apokálypsis) de Jesus Cristo…”.

De “apocalipse” deriva “apocalíptica” e é exatamente com esse nome que designamos uma corrente de pensamento e uma literatura surgidas em Israel entre os anos 200 a.C. e 100 d.C., mais ou menos.

Continue a leitura clicando no link do título do artigo. A bibliografia, no final do texto, foi atualizada em 2015.

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Os instrumentos da helenização

Os instrumentos da helenização. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 61, p. 23-37, 1999.

 

“Verificou-se desse modo, tal ardor de helenismo e tão ampla difusão de costumes estrangeiros (…) que os próprios sacerdotes já não se mostravam interessados nas liturgias do altar” (2Mc 4,13a.14a).

 

A chegada dos poderosos exércitos macedônios com Alexandre Magno em 332 a.C., mas, principalmente, as várias guerras travadas por seus sucessores na regiões da Síria e da Palestina constituem, sem dúvida, eficaz elemento de helenização das populações locais. A fundação de novas cidades ou a transformação de várias cidades orientais em póleis constituem outro mecanismo fundamental de mudança de mentalidade e estilo de vida. Nas cidades, a língua grega que se difunde sempre mais e a educação aristocrática desenvolvida nos ginásios completam este quadro de transformação social, levando à assimilação de grandes camadas da população à nova realidade.

O assunto deste artigo é este: verificar como os vários mecanismos da sociedade e da cultura grega carreiam para a Palestina os valores do dominador estrangeiro.

Uma versão ampliada deste artigo foi publicada na Ayrton’s Biblical Page. A bibliografia foi atualizada em 2015. Continue a leitura clicando aqui.

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Resenhas na RBL – 06.02.2015

As seguintes resenhas foram recentemente publicadas pela Review of Biblical Literature:

Daniel I. Block
Beyond the River Chebar: Studies in Kingship and Eschatology in the Book of Ezekiel
Reviewed by Sven Petry

Reinhard Feldmeier
Power, Service, Humility: A New Testament Ethic
Reviewed by David Briones

David G. Firth
1 and 2 Samuel: A Kingdom Comes
Reviewed by Ralph Henson

Martha Himmelfarb
Between Temple and Torah: Essays on Priests, Scribes, and Visionaries in the Second Temple Period and Beyond
Reviewed by L. Michael Morales

Cornelia Linde
How to Correct the Sacra Scriptura? Textual Criticism of the Bible between the Twelfth and Fifteenth Century
Reviewed by Jeffrey L. Morrow

Kim Lan Nguyen
Chorus in the Dark: The Voices of the Book of Lamentations
Reviewed by Charles William Miller

Jesse E. Robertson
The Death of Judas: The Characterization of Judas Iscariot in Three Early Christian Accounts of his Death
Reviewed by Lee M. Jefferson

Michael Trainor
About Earth’s Child: An Ecological Listening to the Gospel of Luke
Reviewed by C. Jason Borders

David Trobisch
A User’s Guide to the Nestle-Aland 28 Greek New Testament
Reviewed by Michael W. Holmes
Reviewed by Jan Krans

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