Estudos bíblicos migram da teologia para a antropologia

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Um dos aspectos que caracterizam os estudos bíblicos hoje, segundo Philip R. Davies:

Os estudos bíblicos estão migrando de uma pátria teológica e povoando outras regiões acadêmicas – ou, para inverter a metáfora, estão sendo colonizados por elas. Os estudiosos da Bíblia agora trabalham com os críticos literários, historiadores, filósofos, cientistas sociais, críticos culturais e analistas de mídia. Como consequência disso, os estudos bíblicos aproveitam a multiplicidade e o hibridismo característicos da sociedade pós-colonial. Agora abordamos a mitologia antiga e a moderna ficção científica, e empregamos ideias e métodos da psicologia social, da política, da linguística, da teoria crítica e, praticamente, de todo tipo de tendência intelectual moderna. A partir de um núcleo histórico, doutrinal e disciplinar, que era em geral bastante isolado das ciências humanas – excluindo-se ocasionais pinceladas filosóficas – os estudos bíblicos se ampliaram e se estabeleceram definitivamente no campo das ciências humanas.

A migração mais importante, entretanto, tem sido a da teologia para a antropologia. Ou, em outros termos, migraram os estudos bíblicos do estudo do que ‘Deus’ fez e disse, para o estudo de como os seres humanos falam sobre seus deuses. Os estudos bíblicos abordam a natureza, a crença e a imaginação humanas: estamos, de fato, estudando, e tentando compreender, a nós mesmos. Parte disto é um confronto explícito com identidades, antigas e modernas, tanto de autores como de leitores. As nossas imagens e discursos sobre ‘Deus’ não revelam mais um diáfano mundo celeste, mas desnudam a nossa dura realidade concreta.

 

Metaphorically, biblical studies is migrating from a theological homeland and colonizing other scholarly regions (or, to reverse the metaphor, is being colonized by them). Biblical scholars now work among literary critics, historians, philosophers, social scientists, cultural critics and media analysts; in consequence, the profile of the Bible and methods of studying it have enjoyed the multiplicity and hybridity characteristic of postcolonial society. We now address ancient mythology and modern science fiction, and employ the insights and methods of social psychology, politics, linguistics, critical theory, and virtually every kind of modern intellectual fashion. Biblical studies is centrifugal: from a historical, doctrinal and disciplinary core that was generally rather isolated from the human sciences (occasional brushes with philosophy excepted), it has now voyaged and settled throughout the field of human sciences.

The most fundamental migration has been from theology to anthropology. Or, put in secular terms, from the study of what ‘God’ has done and said, to the study of how humans speak about gods. Biblical studies addresses human nature, belief and imagination: we are, in effect, studying, and seeking to understand, ourselves (and not merely as white Euro-American Christians); part of this is an explicit confrontation with identities, both ancient and modern, both of authors and readers. Our images and discourses about ‘God’ reveal not a heavenly reality but the reality of ourselves (p. 39).

Artigo de DAVIES, P. R. Biblical Studies: Fifty Years of a Multi-Discipline. Currents in Biblical Research, 13.1, p. 34-66, 2014.

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