A semântica da guerra

A semântica da guerra – Flávio Aguiar – Carta Maior: 09/01/2009

Toda guerra tem sua própria linguagem e suas palavras.

“Guerra de trincheiras: esta é uma expressão para sempre ligada à 1ª Guerra Mundial. Assim como o nome do romance de Erich Maria Remarque: “Nada de novo na frente ocidental”. A 2ª Guerra Mundial consagrou (infelizmente) termos como “Blitzkrieg” – “Guerra Relâmpago”, que em português nos deixou o termo “blitz” para uma batida rápida da polícia; “Dia D”, que até hoje significa “momento decisivo”. E assim por diante. Outras guerras popularizaram termos como “Napalm”, “Agente Laranja”, “Limpeza étnica”, etc.

Esta ofensiva de Israel em Gaza ainda não inovou em matéria de semântica. Mas já trouxe uma peculiaridade para a linguagem jornalística que mostra algo sobre sua natureza.

Sempre aprendi com meus mestres em matéria de jornalismo que o bom estilo poupa os adjetivos ou expressões qualificativas que equivalham a eles. Mas agora constato que, se há uma marca que esta ofensiva de Israel em Gaza deixará, ela jaz nos adjetivos.

Fiz um levantamento, de propósito em jornais que poderiam ser qualificados como “conservadores”, do ponto de vista político, ou “sóbrios”, do ponto de vista do estilo. Chovem adjetivos e qualificações, dos e das mais fortes.

As expressões mais comuns foram, em inglês, “carnage”, e “onslaught”, ambas encontradas até em publicações que entram conspicuamente em ambas as classificações acima expostas, “conservadores” e “sóbrias”: Financial Times e The Economist. Ambas as palavras são de uma dramaticidade exemplar. “Carnage”, “carnagem” em português, se aplica ao abate de animais em quantidade para alimentação. O Aurélio dá como sinônimo a expressão “carnificina”. “Onslaught”, na semântica da guerra, é expressão usada como sinônimo de “furious attack”, “ataque furioso”. De novo, o termo vem da matança de animais (“slaughter”), e quando aplicado no contexto bélico, se aplica a uma situação em que um dos contendores mata indiscriminadamente pessoas do outro lado. Outros termos que encontrei foram, com respeito ao ataque de Israel, “hard to justify”, “difícil de justificar” (The Economist) e “disproportionate”, “desproporcional” (Financial Times), além de, neste último, “horror” e “desperate”, (“horror” e “desesperada”) com respeito à situação dos palestinos em Gaza.

Continuando a busca, um pouco a esmo, mas dentro dos critério que me propusera, fui encontrando em artigos e editoriais:

1) “Bloody war” (Der Spiegel, da Alemanha, edição em inglês), que ao mesmo tempo quer dizer “guerra sangrenta” (qual não é?) e “guerra maldita”; em algumas gírias também quer dizer “de merda”, mas duvido que os redatores do Spiegel tenham pensado nesta conotação, embora ela também coubesse.

2) “Matanza de civiles” e “situación desesperada” no El País, da Espanha.

3) “Campo di concentramento”, “campo de concentração”, em relação às condições de vida em Gaza, declaração do Cardeal Renato Raffaele Martino, Presidente do Conselho Pontifício para a Justiça e a Paz da Santa Sé, no Vaticano, à página Ilsussidiario.net, da Itália. Lembremos, em todo caso, que o Vaticano ficou a dever uma atitude mais firme contra o fascismo e contra o holocausto durante a 2ª Guerra, ainda que muitos sacerdotes tenham sido exemplares nas diversas modalidades de luta durante a Resistência.

4) “L’horreur”, “atroce”, “desesperée”, no Le Monde, da França.

5) “Nightmarish”, “pesadelar” (palavra rara, mas existente na nossa língua), “deprivation”, “privação”, e “neglect”, “negligência”, esta última empregada em relação à atitude do exército israelense diante da situação dos mortos e feridos, no New York Times, dos Estados Unidos.

6) “Vengeful military Behemoth”, “um Beemote militar vingativo”, assim a reportagem do Herald Tribune descreve o exército de Israel. “Behemoth” é uma criatura citada no Livro de Jó (40: 15 – 24), do Antigo Testamento; algumas interpretações o associam ao hipopótamo, outras a um animal pré-histórico; em todo o caso é um ser impressiona por sua força e postura, conforme Jeová o descreve a Jó, mas que guarda algo de monstruoso. No inglês a expressão é usada para designar algo animalesco e monstruoso, disforme.

7) “Indiscriminate attacks”, “ataques indiscriminados”, “Heart wrenching images”, “imagens de cortar o coração” (to wrench significa aplicar uma torção súbita e violenta), “inhumane”, “massacres”, no Asahi Shimbun, do Japão.

8) “Brink of disaster”, “à beira da calamidade”, sobre a situação em Gaza, e “increasing international criticism”, “crescente crítica internacional”, com respeito à ação de Israel, no Mail & Guardian, da África do Sul.

9) “Deadly air raids”, “mortíferos ataques pelo ar”, no Sidney Morning Herald, da Austrália.

Mas o caso mais espantoso ficou por conta do britânico The Guardian, conhecido pela objetividade e pela circunspecção modelares de seus artigos e editoriais. A coleção de expressões qualificativas é impressionante. “Calamity”, calamidade, “intolerable”, intolerável, “schocking”, chocante, “unacceptable”, inaceitável, e as já visitadas “carnage” e “onslaught” estão entre as expressões encontradas.

A estas uma nova se acrescenta: o movimento de Israel é descrito antecipadamente como uma “pyrrhic victory”, vitória de Pirro, menção ao rei grego de Épiro que venceu duas batalhas contra os romanos em 280 e 279 A. C., mas a tal custo que o efeito mais lhe parecia o de uma derrota. Também nesta publicação encontramos referências à denúncia, depois vista em outras também, de que Israel estaria usando bombas de fragmentação e outras incendiárias à base de fósforo branco, que também foram usadas no Vietnã pelo exército norte-americano.

Ao longo desse passeio (se assim se pode chamar tal visita à semântica de uma guerra) por tais publicações, não encontrei uma única palavra de defesa das atitudes beligerantes do Hamás e de seus (patéticos – a expressão é minha) foguetes. Pelo contrário, encontrei também condenações sobre esses disparos, sempre qualificados como terroristas, contra o território israelense. O caso mais chocante estava relatado no Herald Tribune, em que o correspondente se referia a um militante do Hamás que esperava atendimento num hospital coalhado de horrores, e sorria. Perguntado pelo porquê do sorriso, ele respondeu que os mortos eram mártires, e que ele também queria ser um mártir.

Os mortos da ofensiva israelense no lado palestino estão chegando a 800. Bem mais de 200 desses mortos são crianças. Há uma certa lógica nisso, embora não seja verossímil acreditar que oficiais e soldados israelenses estão em busca de crianças para matá-las. Mas apesar das declarações do Major Avital Leibovich, porta-voz do exército de Israel, no NYT de 9/01, de que “estamos fazendo o melhor possível para evitar a morte de civis, e muitas vezes não retaliamos porque vimos civis por perto”, esse tipo de guerra que Israel está disposto a levar para Gaza implica demonstrar para os outros e para os seus (não esqueçamos de que há eleições em 10 de fevereiro) que nada deterá os seus soldados e o seu poder de fogo, nem mesmo as crianças. Que de resto, a gente poderia lembrar o Major Leibovich, são mais difíceis de se ver do que os adultos.

Livro de Van Seters foi traduzido para o português

VAN SETERS, J. Em Busca da História: Historiografia no Mundo Antigo e as Origens da História Bíblica. São Paulo: EDUSP, 2008, 400 p. – ISBN 8531411017


Original: In Search of History: Historiography in the Ancient World and the Origins of Biblical History. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1997, 399 p. – ISBN 9781575060132 (Hardcover)

Diz a editora:
Defrontando-se com a historiografia bíblica, mas também com a mesopotâmica, a hitita, a egípcia e a grega, o professor emérito da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, USA, John van Seters, um dos mais destacados autores na renovação dos estudos bíblicos, procura neste livro examinar o início da escrita de História em Israel, na Antiguidade, contra o pano de fundo das civilizações do Oriente Próximo e do mundo clássico. Sua grande virtude é articular este mundo clássico, particularmente o da historiografia grega antiga, ao contexto do mediterrâneo ocidental. John van Seters faz uma conexão entre uma literatura folclórica, de caráter mitológico, com a realidade política e cultural da época. Além disso, promove um melhor entendimento da prioridade e das implicações do surgimento do relato da História mais antiga do Ocidente.

Sobre John Van Seters, leia mais aqui e aqui.

Palestina Ocupada

A política de Israel “vidas em troca de terra” é roubo. Puro e simples

“Israel rouba terra, os palestinianos perdem terra; é assim que funciona. É assim desde 1948, e é assim que continuará a ser”, escreve Robert Fisk, jornalista, em artigo publicado pelo jornal The Independent e reproduzido pelo sítio Esquerda.net, 09-09-2014.

Eis o artigo.

E foi assim que mais uma fatia da terra palestiniana foi pelo cano abaixo. Mais uns 400 hectares de terra palestiniana foram roubados pelo governo de Israel – porque… “apropriação” é roubo, não? – e o mundo já deu as desculpas de sempre. Os norte-americanos consideraram o roubo “contraproducente” para a paz, o que provavelmente menos vigoroso do que a sua reação caso o México roubasse 400 hectares de terra do Texas e resolvesse construir ali casas para os seus emigrantes ilegais nos EUA. Mas, não. Foi na “Palestina” (as aspas são mais necessárias do que nunca) e Israel conseguiu continuar a roubar, embora não nesta escala – este foi o maior roubo de terra em 30 anos, desde que foi assinado o Acordo de Oslo em 1993.

O aperto de mão entre Rabin-Arafat, as promessas e transferências de territórios e retiradas militares, e a determinação de deixar tudo o que é importante (Jerusalém, refugiados, o direito de retorno) para o fim, até que todos confiassem tanto uns nos outros que a coisa seria facílima – não surpreende que o mundo tenha feito descer sobre os dois a sua generosidade financeira. Mas o recente roubo de terras não apenas reduz a “Palestina”, também mantém o círculo de concreto armado no entorno de Jerusalém para manter os palestinianos bem distantes, tanto da capital, que é suposto partilharem com israelitas, como de Belém.

Foi instrutivo saber que o conselho israelita judeu Etzion, que administra os colonatos ilegais na Cisjordânia, considerou que este roubo é um castigo pelo assassinato de três adolescentes israelenses em junho. “O objetivo dos assassinatos dos três jovens foi semear o medo entre nós, interromper a nossa vida quotidiana e questionar o nosso direito [sic] à terra”, anunciou o conselho Etzion. “A nossa resposta é reforçar a colónia”. Deve ser a primeira vez que a terra na “Palestina” é confiscada sem serem convocados argumentos relativos à segurança nacional ou a autoridade pessoal de Deus, mas sim vingança.

Assim se cria um precedente interessante. Se a vida de um israelita inocente – cruelmente ceifada – vale cerca de 130 hectares de terra, a vida de um palestiniano inocente – também cruelmente ceifada – vale a mesma porção de terra. E se metade, que seja, dos 2.200 palestinos mortos em Gaza no mês passado – e esse é um número conservador – fossem inocentes, nesse caso os palestinianos teriam agora, presumivelmente, direito a 132.000 hectares de terras israelitas; na realidade, muito mais. E por mais “contraproducente” que isto seja, com certeza os EUA não aprovariam. Israel rouba terra, os palestinianos perdem terra; é assim que funciona. É assim desde 1948, e é assim que continuará a ser.

Nunca haverá uma “Palestina”, e o mais recente roubo de terra é apenas mais um ponto acrescentado no livro das consternações que os palestinianos têm de ler, enquanto os seus sonhos de terem um Estado se vão diluindo. Nabil Abu Rudeineh, porta-voz do “presidente” palestiniano Mahmoud Abbas, afirmou que o seu líder e as forças moderadas na Palestina tinham sido “apunhalados pelas costas” pela decisão dos israelitas, o que é dizer pouco. Abbas tem as costas completamente apunhaladas, de cima a baixo. E o que esperava ele quando escreveu um livro sobre as relações entre palestinianos e israelitas em que não escreveu nem uma única vez, uma que fosse, a palavra “ocupação”? O que significa que voltamos ao velho jogo. Abbas não pode negociar com ninguém a menos que fale pelo Hamas ou pela Autoridade Palestiniana. Como Israel sabe. Como os EUA sabem. Como a União Europeia sabe. Mas cada vez que Abbas tenta construir um governo de unidade nacional, todos nós gritamos que o Hamas é uma organização “terrorista”. E Israel argumenta que não pode conversar com uma organização “terrorista” que exige a destruição de Israel – ainda que Israel costumasse conversar muito com Arafat e, naqueles dias, tenha ajudado o Hamas a construir mais mesquitas em Gaza e na Cisjordânia, para servirem como contrapeso ao Fatah e a todos os outros então “terroristas” lá de Beirute.

Claro, se Abbas fala só por si, então Israel diz o que já disse: que se o Abbas não fala por Gaza, Israel não tem com quem negociar. Mas isso realmente ainda interessa? Devia existir uma manchete especial em todos os artigos deste género: “Adeus, Palestina”.

Fonte: IHU – 12 setembro 2014

Quem lê Hebraico ou outra língua semítica?

John Hobbins, do Ancient Hebrew Poetry, fez uma lista de alguns estudiosos que leem hebraico e aramaico antigos e, possivelmente, alguma outra língua semítica do noroeste. São pessoas que lidam com a Bíblia Hebraica, Línguas do ANE e áreas afins e que têm uma presença online, geralmente através de blogs.

Ele diz:
The corpus of ancient Hebrew and Aramaic literature found in the Bible, the epigraphic finds, Ben Sira, the Dead Sea scrolls, and the cognate Northwest Semitic literatures hold a special attraction for Jews, Christians, and those with abnormal interests alike. Below the fold, I provide a nice long list of people who belong to the online community of those who read ancient Hebrew, Aramaic, and possibly other NW Semitic languages, with fire in their belly.

Os biblioblogueiros do NT não foram incluídos, mas John Hobbins lhes manda um recado:
I know I am forgetting others. I just don’t know which ones. For example, there are NT bloggers who, one must assume, read their Hebrew Bible without difficulty, just like divas of their field with names like Joachim Jeremias and Martin Hengel. But you know, assumptions are dangerous. If you want to be added to this list of online community members, let me know.

Nas enquetes que mantenho em minha página, o hebraico está em primeiro lugar, quando pergunto, oferecendo 10 opções em cada caso:

  • Qual língua antiga você conhece melhor? Hebraico – Hebrew: 44.16 %
  • Das línguas antigas, eu gostaria de aprender, em primeiro lugar, o: Hebraico – Hebrew: 41.13 %

É interessante verificar igualmente a votação em outras duas enquetes, onde os primeiros lugares, em 10 opções, pertencem às seguintes perguntas:

  • Na sua opinião, quantos idiomas deveria um biblista dominar? 10 ou mais – 26.67 %
  • Quantos idiomas você lê? 3 – 22.89 %

Moments of Gaza

Internet ajuda a furar bloqueio midiático imposto por Israel

Por Marco Aurélio Weissheimer – Carta Maior: 06/01/2009

É bem conhecida a frase que afirma que a primeira vítima em tempos de guerra é a verdade. Bloqueios midiáticos fazem parte do esforço propagandístico dos militares. A história se repete agora com a nova onda de ataques perpetrada por Israel contra os palestinos da Faixa de Gaza. O governo israelense proibiu a entrada de jornalistas estrangeiros na área. Isso não vem impedindo, porém, que as imagens do massacre contra a população civil de Gaza circulem diariamente pelo mundial. A eficácia do bloqueio midiático diminuiu significativamente graças à internet.

A rede Al Jazeera está na faixa de Gaza, produzindo diariamente reportagens sobre o ataque de Israel. Suas matérias (ver exemplo abaixo, publicado por Luiz Carlos Azenha no Vi o Mundo) são vistas diariamente por milhões de pessoas em todo o mundo árabe. Elas expõem o caráter, ao mesmo tempo, homicida e suicida, da política de Israel para “garantir a segurança do povo judeu”. A única coisa que a ação do exército israelense parece estar garantindo é espalhar mais ódio pela região, por várias gerações.

A blogosfera se encarrega de espalhar essas imagens mundo afora. Além disso, há também blogs funcionando desde Gaza, relatando diariamente o que está acontecendo. Um deles é o Moments of Gaza. Idelber Avelar, do blog Biscoito Fino e a Massa, traduziu um texto desse blog mantido por Natalie Abou Shakra, ativista do Movimento Free Gaza.“Um relato ao vivo dos horrores perpetrados pelo exército israelense na maior prisão ao ar livre do mundo”, resume Idelber:

“Vittorio me disse ontem … quando lhe perguntei como ele responde à morte … ele me disse que já não tem lágrimas para chorar … que suas lágrimas secaram … olho para ele sentado diante de mim … um homem bonito de um metro e oitenta … trinta e três anos … sua maior preocupação no mundo: salvá-lo e “permanecer humano”, que é como ele termina [Bomba!] cada artigo que escreve …”

O Biscoito Fino traduziu também um relato de outro blog que opera diretamente de Gaza, o In Gaza. “Mais um relato em primeira mão que confirma o que já sabemos: no massacre israelense em Gaza, a prática é matar mesmo os civis feridos que estão sendo carregados”, escreve Idelber Avelar. O relato:

Trabalhadores médicos de emergência, Arafa Hani Abd al Dayem, 35 anos, e Alaa Ossama Sarhan, 21 anos, tinham atendido o chamado para ir buscar Thaer Abed Hammad, 19, e seu amigo morto Ali, 19, que haviam estado fugindo do bombardeio, quando foram eles mesmos atingidos por disparo de um tanque israelense.

Era pouco depois das 8:30 da manhã de 04 de Janeiro, e eles estavam na região de Attattra, Beit Lahia, noroeste de Gaza, na área da escola americana bombardeada no dia anterior, em que mataram um guarda-noturno civil de 24 anos, destroçando-o, queimando o que restara.

Gemendo de dor, com o pé direito amputado e lacerações de bomba de fragmentação ao longo das costas, de todo o corpo, Thaer Hammad conta como seu amigo Ali foi morto. “Estávamos atravessando a rua, saindo de nossas casas, e aí o tanque disparou. Havia muita gente saindo, não éramos os únicos”. Hammad interrompe seu testemunho, de novo gemendo de dor. Ao longo dos dois últimos dias, desde que a invasão terrestre de Israel e a campanha intensificada de bombardeios começaram, os residentes de toda Gaza têm estado fugindo de suas casas. Muitos não tiveram a chance de escapar, tendo sido pegos dentro de casa, enterrados vivos, esmagados. O médico continua a narrativa: “Depois que foram bombardeados, Thaer não conseguia caminhar. Ele chamou Ali para que o carregasse”. O resto da história é que Ali havia carregado Thaer por alguma distância quando atiraram na cabeça de Ali, bala disparada por um soldado não visto, bem na direção na qual eles fugiam. Ali morto, Thaer ferido, e as pessoas fugindo, a ambulância foi chamada”.

A uniformidade pausterizada da mídia comercial
Essa diversidade de informações que circula pela internet está ausente da cobertura da imensa maioria da mídia comercial brasileira, que repete praticamente as mesmas manchetes todos os dias, formando um coro uniforme. Um exemplo disso:

10 horas e 52 minutos da manhã de 5 de janeiro de 2009. Manchete do UOL/Folha de São Paulo: “Israel divide Gaza em três e busca milicianos”. Da mesma forma, no site de Zero Hora, de Porto Alegre: “Israel divide Gaza em três e começa nova fase de ataques”. A mesma manchete é destaque no site do Globo: “Israel inicia nova fase da ofensiva e divide a Faixa de Gaza em três”.

Detalhe: Israel proibiu a entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza. Qual é, então, a fonte dessas notícias uniformemente distribuídas pelo mundo afora?

Resposta: o próprio governo de Israel. A cobertura da maioria esmagadora da mídia não passa de divulgação das informações oficiais do governo israelense. Quem quiser uma alternativa a essa cobertura pasteurizada tem que, obrigatoriamente, recorrer à internet. A guerra que aparece aí é bem diferente da apresentada pelos veículos tradicionais.

Susin: III Fórum Mundial de Teologia e Libertação

Fórum Mundial de Teologia e Libertação e novos ‘lugares teológicos’

Em preparação ao Fórum Mundial de Teologia e Libertação, a ser realizado em Belém, PA, [de 21 a 25 de janeiro de 2009] iniciamos a publicação de uma série de artigos e entrevistas sobre o tema. Hoje publicamos o artigo de Luiz Carlos Susin, frei capuchinho, professor de Teologia da PUC-RS.

 

Para os primeiros que pensaram um Fórum Mundial de Teologia soava desafiante o slogan cunhado nas primeiras edições do Fórum Social Mundial: Outro Mundo é Possível. Em termos teológicos, trata-se de um desafio de ordem “escatológica”, que tem ressonâncias de esperança no Reino de Deus. Mas soaria como utópico castelo de cartas do desejo e da imaginação se não se pudesse ter algum lugar de seus sinais e alguém dedicado a esses sinais. Seriam os movimentos e organizações sociais presentes no Fórum Social Mundial, com os relatos de suas práticas, um “sinal” de outro mundo possível? Haveria algo de messiânico nesses sujeitos históricos frágeis, mas em muitos que se propunham a alternativas ao Fórum Econômico Mundial de Davos?

Essas perguntas começaram a ter caráter de afirmações quando uma pesquisa entre os participantes da terceira edição do Fórum Social Mundial revelou que em torno de 60% dos participantes portavam motivações de ordem espiritual, inclusive com raízes em tradições religiosas, para se dedicarem aos movimentos e organizações sociais. A partir de então o Fórum Social Mundial contou com um novo espaço, o de Cosmovisões e Espiritualidades.

Evidentemente, um Fórum é um tempo curto de encontros, de trocas, de debates. Não é ele mesmo um lugar para se deter. Mas é revelador, agregador e inspirador de muita energia e generosidade. Reflete as lutas por justiça, as aspirações de paz e convivência plural sem indiferença, enfim tem um sabor de “revelação”. De Deus mesmo todos os grandes místicos e teólogos nos avisaram que só se podem fazer afirmações indiretas, mediadas pela precariedade histórica de gente de carne e osso. O “lugar teológico” é o espaço indicador de Deus na precariedade humana. João, por exemplo, diz na forma de refrão: “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele”. Ora, a experiência amorosa é, portanto, um “lugar teológico”. Quanto mais maduro é o amor, maior a experiência de Deus. O que dizer então desta generosidade sem exigência de reciprocidade, a fundo perdido, por um mundo justo e amoroso?

Isso nos coloca dentro da discussão atual sobre o método da Teologia da Libertação e seus lugares teológicos, de modo especial o “pobre”, um lugar evangelicamente privilegiado pela pureza do amor irrestrito e irrecíproco de Deus. Tradicionalmente, os lugares teológicos preferenciais foram a Escritura, portanto os textos sagrados e canônicos, e o Magistério eclesial, da hierarquia e dos grandes teólogos. Ora, o texto e a instituição, inclusive a instituição da doutrina, do dogma, fazem parte de um mundo chamado “Igreja” que teve plausibilidade nos séculos de cristandade, quando sociedade e Igreja coincidiam. Hoje não coincidem mais, e ao ficar com os lugares teológicos tradicionais, encurtamos o lugar de revelação divina e de redenção humana. Por isso, cresceu a consciência de que os lugares antes considerados secundários, como a história tecida de acontecimentos humanos, a sabedoria dos povos, enraizada em diferentes tradições, inclusive religiosas, tornam-se mais importantes como “lugar teológico”.

E assim estamos em pleno pluralismo: cultural, religioso, teológico. Um grande desafio é a conjugação da identidade com o pluralismo. Por isso, mesmo no interior da Teologia da Libertação, alguns teólogos avançam em direção ao pluralismo de forma decidida, enquanto outros chamam fortemente a atenção para o problema de identidade. Entre os últimos, no Brasil, contamos com Clodovis Boff. No entanto, “o círculo é a festa do pensamento” (Heidegger), e a circularidade pode evitar tanto o relativismo no interior do pluralismo como o fundamentalismo no interior da afirmação de identidade. De qualquer forma, é certo que um Fórum de diálogo e de debate é o lugar mais sadio para ensaiar a integração dos que logicamente parecem opostos.

Fonte: IHU On-Line: 06/01/2009

As trombetas da guerra em Israel

 

A mídia em Israel toca as trombetas da guerra – Gideon Levy – Carta Maior: 02/01/2009

Eis como estão as coisas em Israel: opor-se à paz é sempre atitude legítima e patriótica; opor-se à guerra é traição, atitude antipatriótica e atitude que deve ser combatida. Essa semana, falando do seu programa “London & Kirschenbaum”, Yaron London, apresentador, deu sinais de que a coisa está ficando difícil: “Tivemos problemas com o programa. Sabemos do amplo consenso a favor da guerra – acabar com eles, bater até que se calem. Mas também há outras vozes, não só dos israelenses-árabes, também de muitos judeus. Encontramos alguns poucos judeus que defendem o fim dos ataques, ou que jamais deveriam ter começado, e que é preciso iniciar negociações. Não é minha opinião. Minha linha é outra, e já a expus em muitos artigos. Mas é preciso ouvir as outras vozes. Falar sozinho leva sempre ao desastre. O problema é que todos têm medo. As vozes da paz estão em silêncio, porque estão aterrorizadas.”

Depois, London disse ao seu entrevistado, Amir Peretz, que planejara entrevistar também moradores de Gaza, para ouvir “o outro lado”, mas que, desgraçadamente, aquelas poucas vozes foram silenciados “pelo terror”.

Com terror ou sem terror, sei de muitos judeus, não de ‘alguns poucos’, que defenderiam “o outro” lado e que não vacilariam, nem por um segundo, para declará-lo na televisão. Por exemplo, as centenas que tomaram a Praça da Cinemateca, em Telavive, no sábado à noite, para protestar contra a operação de guerra do exército israelense. Mas a equipe da produção do programa “London & Kirschenbaum” não os procurou. Problemas de produção, claro.

Seja como for, ninguém quis saber da opinião deles, no mais ouvido programa de entrevistas da televisão – porque há expressa proibição de que sejam ouvidos.

Pouco antes de sermão de autojustificativa de London, alguém que defende a posição “do outro lado”, Ahmed Tibi, foi convidado para uma entrevista nos estúdios do programa “Erev Hadash” [‘outra noite’].

O que dali se ouviu está fadado a tornar-se um clássico do telecine de terror: horror e horror, berros, gritaria e insultos. Veias a ponto de explodir e gargantas roucas de tanto berrar. Margalit [apresentador do programa]: “Você está inventando bobagens… Você não respondeu minha pergunta.” Tibi: “Respondo o que eu queira responder.” Margalit: “Baixe a voz. Fale como ser humano civilizado!” Tibi: “Estou falando como ser humano civilizado.” Margalit: “Me respeite!” Até que Margalit deu-se por satisfeito e ordenou ao co-entrevistador, Ronen Bergman: “OK. Deixe-o falar.” Tibi, então, tentou dizer que a única diferença entre o Hamas e o governo de Israel é a questão dos pontos de controle, “que têm de ser liberados”. Margalit, então, gargalhou em cena.

Pense: quando, algum dia, você ouviu Margalit ou qualquer outro entrevistador de televisão, dizer ao entrevistado “Você está inventando bobagens”? Será que falam assim a Benjamin Netanyahu? Ehud Barak? Tzipi Livni? E esses? Não “inventam bobagens” vez ou outra? E quando, algum dia, alguém assistiu a um entrevistador dizer, na televisão “Baixe a voz. Fale como ser humano civilizado!” Gargalhar em cena?! Os nervos estão mesmo em frangalhos e os árabes (além de vários judeus heréticos) andam criando dificuldades.

Porque é assim que estão as coisas em Israel. Opor-se à paz é sempre atitude legítima e patriótica; opor-se à guerra é traição, atitude antipatriótica e deve ser combatida. Podem debater o custo da paz eternamente; ninguém ouvirá uma palavra sobre o custo da guerra. Movimentos pacifistas são censurados. Movimentos pró-violência são ensinados. Pelo menos, até certo ponto.

A crítica da guerra, mais uma vez, terá de esperar. […] Esse é o teste de coragem e credibilidade da mídia, sempre igual, guerra após guerra. E sempre, guerra após guerra, a mídia fracassa.

Nos estúdios de televisão, só entram generais e analistas militares, as mesmas caras, nos mesmos estúdios, já desde a guerra passada, na de antes, na de antes daquela, porque só neles concentra-se a sabedoria e o talento que há na sociedade de Israel, na opinião da mídia de Israel.

Porque é assim que estão as coisas em Israel: os primeiros dias de guerra, de qualquer guerra, são sempre os mais sombrios. Mas nada de “Silêncio, não perturbem, estamos matando gente!” Ah, não! Silêncio nenhum. O que se ouve é sempre o mesmo coro estridente de entrevistas e noticiários de televisão, gritaria, vinhetas espalhafatosas, clamores urgentes de “mais ataques, mais ataques”, “matem mais”, que Israel mate muito, que não pare de matar, entusiasmo crescente a cada nova chacina, guerra sem parar, cada vez mais.

Só depois, quando baixa a poeira, quando já todos sabem que mais uma vez a vitória converteu-se em derrota, e as conquistas foram ilusão (quando não apenas mentiras), então, sim, começam a falar outras vozes. Até que, algumas vezes, algum senso, depois, aos poucos, implanta-se também na opinião pública. Sempre tarde demais. Sempre desgraçadamente tarde demais.

“Silêncio, não perturbem, estamos matando gente!”? Dia 6 de junho de 1982, há 25 anos, quando Israel embarcou na primeira Guerra do Líbano, talvez a mais ensandecida das guerras em que Israel embarcou, meu falecido colega Amiram Nir publicou, naquele seu artigo que fez história: “Silêncio, não perturbem, estamos matando gente!”: “Hoje não há oposição, nem Likud nem Ma’arakh, nem religiosos nem seculares, nem ricos nem pobres. Somos um só povo em armas. Estamos matando gente. Portanto, façam silêncio.” Nir de fato não queria qualquer silêncio. Israel não quer silêncio. Quer sempre muito barulho, mas que só falem as vozes da beligerância, da violência, do nacionalismo fanático, da propaganda, da opinião ‘geral’. Exceto essas vozes, sim, o silêncio. Silêncio total. Silêncio de morte.

No primeiro dia dessa nova guerra, a televisão mostrou imagens horripilantes. Praticamente nada se escondeu. Telas divididas mostravam de um lado o medo em Ashkelon, de outro, o sofrimento em Gaza. (…) Todos os canais de televisão em Israel exibiram pedaços de cadáveres de palestinos carregados, com escavadeiras, para caminhões de carga. O pior de tudo: nem aquelas imagens despertaram qualquer protesto. Dessa vez, já não pareceu necessária qualquer tipo de consideração. Israel tornou-se tão indiferente à morte, o coração dos israelenses endureceu, petrificou-se de tal modo, que Israel vê o que viu essa semana… e nada! Apatia? Não, não é só isso.

A verdade é que, vez ou outra, muitos tiveram uma mesma ideia: Será que a “campanha de Relações Públicas do governo de Livni” não nos fere mais do fere ‘o outro lado’? (…)

A mídia foi cuidadosamente preparada para essa guerra. Nenhuma comissão de inquérito, nem Winograd nem Doner, poderá jamais dizer que a mídia não tenha sido preparada para essa guerra. Durante meses, todos recebemos apavorantes ‘informes’ sobre o crescente poderio do Hamás, sobre como o Hamás se armava. Túneis, bunkers, casamatas, mísseis de longo alcance, exército cada dia maior. Nenhum jornalista investigou. Ninguém sequer suspeitou.

Assim a mídia em Israel inventou o Hamas. Apagou a realidade de uma organização em frangalhos, em luta desesperada para não se deixar assassinar e que lança rojões de salão contra o mais poderoso exército do mundo. Assim, também, a mídia de Israel encobriu o fato de que Israel, não o Hamas, foi quem quebrou o pacto de cessar-fogo, imediatamente, no mesmo dia em que firmou o pacto: um dos túneis foi bombardeado no mesmo dia em que o cessar-fogo foi assinado.

A mídia israelense também ocultou os efeitos do boicote. Durante dois anos e meio nenhum veículo da mídia de Israel pôde entrar em Gaza. A opinião pública em Israel não soube de nada. Tampouco se ouviu qualquer protesto dos jornalistas em Israel. O sofrimento pelo qual passa a população sitiada em Gaza não apareceu na agenda jornalística em Israel. Alguns ainda tentaram acalmar a própria consciência (nunca, de fato, muito torturada), com notícias de que não havia bloqueio; alguns “pressentiram”; alguns inventaram cenas piores do que a realidade. Mas os efeitos do sítio e do bloqueio de Gaza não foram noticiados em Israel.

Depois da fase de preparação, a fase de avaliação: isso não pode continuar, disseram todos os analistas, introduzindo a idéia de que a resposta teria de ser militar, exclusivamente militar. Os assustados moradores de Sderot passaram a ser as únicas vítimas conhecidas. Não as crianças de Gaza, que não têm nem caderno para escrever, não os adultos que não tem nem cimento para vedar os túmulos de seus mortos, não os motoristas que dirigiam carros movidos com óleo de cozinha que aprenderam a reciclar, não os médicos que operavam sem eletricidade, não os feridos operados sem anestésicos, não as famílias mortas de frio. Essas não são personagens da cena do “isso não pode continuar”.

E então começou a fase mais ativa da campanha pela mídia: à guerra, à guerra! Acabem com eles! Operação militar! Ação, reação, o que for, desde que ‘eles’ sejam detidos.

O último a aderir foi Nahum Barnea, colunista nacional, que entrou numa barbearia para cortar o cabelo, semana passada, em Sderot, e, é claro, não perdeu a oportunidade de partilhar a experiência com seus leitores e imediatamente, já de cabelo cortado, desafiou o ministro da Defesa, Ehud Barak, exatamente na véspera de Barak despachar seus aviões, para suas missões de morte. “Onde está o ministro da Defesa? Quem defenderá Israel?” bradava aquela manchete inesquecível.

Mas essa ainda não foi a manchete da semana do jornalismo nacional em Israel. Esfuziante, imediatamente depois do início de mais uma guerra, um dia depois do Sábado Negro, quando mais de 200 palestinos foram mortos e havia mais de 1.000 feridos em Gaza, um terço dos quais, pelo menos, civis (70 eram guardas de trânsito, reunidos na cerimônia de formatura, jovens em busca desesperado de algum meio para ganhar a vida, que pensaram tê-la ganho na polícia, no instante em que a perderam sob bombardeio israelense), nesse mesmo dia e hora, com a tipagem que se reserva para guerras novinhas em folha, a principal manchete do dia declarava, em letras enormes: “Meio milhão de israelenses sob fogo”. Isso. Apenas isso. Coisa simples, modesta, com a muito clara certeza e o profissionalismo típico de jornal e jornalistas que sabem a importância que têm para seus leitores.

Quem quisesse saber o que ocorrera em Gaza naquele festim sangrento, e não só em Sderot e Netivot (“Netivot da Morte” dizia outra manchete), teria de andar até a página 13, para lá encontrar um relato muito sucinto do que, àquela hora, todos os telespectadores do mundo já sabiam: que o horror desabara dos céus sobre Gaza.

Historiador do futuro que algum dia examine os arquivos dos jornais de Israel verá com clareza absoluta: para Israel, 200, 300 e, depois, 400 palestinos assassinados ‘não é’ manchete. Que a mídia em Israel é “poupada” de ter de exibir imagens “fortes”, que o que Israel e seus militares fizeram contra Gaza é assunto para especialistas em “Relações Públicas”, que a Livni tudo é permitido, que os palestinos fizeram por merecer, e que Israel abraça e sempre abraçará qualquer guerra, qualquer barbárie. Que Israel crê-se tão poderosa que se brutalizou, que já não sente, que em Israel a barbárie é regente.

 

Fim da era Bush e eleição em Israel: uma das faces obscenas do massacre – Michael Warschawski – Carta Maior: 31/12/2008

“A morte de uma única vítima israelense justifica o assassinato de centenas de palestinos. Uma vida israelense vale uma centena de vidas palestinas. É isto que o Estado de Israel e os meios de comunicação mundiais mais ou menos descuidadamente repetem, com questionamentos marginais. E esta alegação, que acompanhou e justificou a mais longa ocupação de territórios estrangeiros da história do século XX, é visceralmente racista. Que o povo judeu aceite isto, que o mundo concorde, que os palestinos se submetam – esta é uma história de piadas irônicas. Ninguém acha graça…” John Berger

Enquanto o mundo inteiro está em choque diante das terríveis imagens emitidas de Gaza, a opinião pública israelense apoia maciçamente a sangrenta ofensiva de Barak-Olmert. Isto inclui o Meretz, a oposição de esquerda parlamentar. Apesar de ter manifestado preocupação pelas mortes de civis, o líder do Meretz, Haim Oron, numa entrevista à televisão israelense, aderiu aos argumentos da propaganda oficial, responsabilizando o Hamas pelo banho de sangue. Um discurso mistificador como este está sendo copiado pela maioria dos líderes do mundo ocidental, com o Ministro dos Negócios Estrangeiros de França superando até a Secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice. Vamos colocar os fatos em sua devida ordem:

Gaza está sendo alvejada pelo exército israelense desde a vitória do Hamas, e o cerco imposto sobre mais de 1,5 milhão de civis – por Israel, mas também pela chamada comunidade internacional – é em si uma ação de violência e um crime de guerra;

O ataque israelense é uma agressão planeada: de acordo com as notícias vindas de Israel, Ehud Barak planeou o ataque a Gaza já em agosto;

Os foguetes lançados sobre cidades de Israel foram uma retaliação a agressões militares israelitas anteriores, e não foram lançados pelo Hamas, mas sim pela pequena organização Jihad Islâmica;

O ataque a Gaza é parte integral da guerra santa neoconservadora contra o mundo islâmico, e a administração neoconservadora cessante dos EUA, assim como o Egipto e outros regimes reacionários árabes, instaram as autoridades israelenses a desencadear a ofensiva antes de Obama entrar na Casa Branca;

A intenção declarada de Barack Obama de abrir conversações com a República Islâmica do Irã é uma das principais preocupações das administrações cessantes em Tel Aviv e Washington, e a ofensiva contra Gaza é uma tentativa de provocar uma reação iraniana que permita a retaliação israelense e dos EUA. Nos últimos dias, o vice-ministro da Defesa israelense, Ephraim Sneh, bem conhecido pela sua obsessão anti-iraniana, vinculou sistematicamente os foguetes do Hamas (sic) ao Irã, sem, evidentemente, apresentar quaisquer provas.

Esta estratégia geral, baseada na mistificação do “choque de civilizações” e na guerra global contra o Islã, é partilhada por todos os partidos políticos sionistas de Israel e explica o apoio do Meretz à atual agressão.

Apesar de não ser de esperar uma mudança rápida da política norte-americana no Ocidente asiático, os líderes israelitas e os seus patrocinadores neocons em Washington estão preocupados pela mudança na administração norte-americana, e temem que uma nova estratégia possa quebrar a guerra global “preventiva”. O ataque a Gaza é uma tentativa de última hora de mudar as relações de forças no Médio Oriente, antes do fim da era neoconservadora.

E, antes de concluir, não esqueçamos a dimensão obscena: as centenas de vítimas dos bombardeios sobre Gaza são vítimas colaterais da campanha eleitoral israelense. Para aumentar o seu apoio popular antes das eleições, todos os líderes israelenses estão competindo para ver quem é o mais duro e quem está disposto a matar mais. Ehud Barak, contudo, tem uma memória muito curta, e Shimon Peres pode recordar-lhe que este cálculo cínico não é necessariamente o melhor: o massacre de Qana, que, supostamente, deu a vitória a Shimon Peres, teve como consequência que centenas de milhares de cidadãos palestinos virassem as costas ao Partido Trabalhista.

Apesar da sua brutalidade, contudo, Ehud Barak permanece um dos mais populares líderes na arena israelense, e os milhares de manifestantes que saíram às ruas ontem, quase sem convocação, protestando contra o massacre, podem indicar que todos os que estão por trás dele, incluindo o Meretz, não vão receber os seus votos. É previsível que o repúdio internacional e o relativamente amplo sentimento antiguerra entre os eleitores force o Meretz, uma vez mais, a mudar de posição. Deviam, porém, lembrar-se da antiga verdade que os eleitores preferem sempre o original: quando o Meretz sanciona a estratégia de guerra e as mentiras de Netanyahu, os eleitores vão preferir votar em Netanyahu em vez de na sua pálida e sensaborona cópia.

Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, firmado em 1990, entrou em vigor, no Brasil, em 01/01/2009.

A mudança será gradual, vai até o final de 2012. Além de extinguir o trema (exceto em palavras estrangeiras), a reforma ortográfica traz várias mudanças na acentuação das palavras e no uso do hífen.

O Brasil é o primeiro dos 8 países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) – Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste – a adotar oficialmente a nova grafia.

Veja o que muda digitando no Google reforma ortográfica e escolhendo um endereço confiável. Uma boa cobertura, por exemplo, pode ser encontrada na Folha Online – Especial Reforma Ortográfica.