Ainda sobre o projeto de ética mundial de Hans Küng

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Na edição 232 da IHU Online, revista do Instituto Humanitas Unisinos, com data de 20 de agosto de 2007, há uma entrevista com os Professores Dr. Vicente de Paulo Barretto, pesquisador da Pós-Graduação em Direito – Unisinos, e Dr. Alfredo Culleton, pesquisador da Pós-Graduação em Filosofia – Unisinos, com o título Ética mundial e Direito: uma contribuição de Hans Küng.

Hoje, 23/08/2007, no evento IHU Ideias, das 17h30 às 19h00 (agora!) eles estão discutindo a importância do projeto de ética mundial de Hans Küng e a sua contribuição para a área do Direito.

Lembro, mais uma vez, que Hans Küng estará no Brasil a partir de 22 de outubro. Além da Unisinos, o teólogo de Tübingen também proferirá palestras na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, no Goethe-Institut de Porto Alegre, na Universidade Católica de Brasília, na Universidade Candido Mendes do Rio de Janeiro e na Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais.

 

Ética mundial e Direito: uma contribuição de Hans Küng

Discutir a importância do projeto de ética mundial de Hans Küng e a sua contribuição para a área do Direito será o objetivo dos professores da Unisinos Alfredo Culleton e Vicente Barretto, no próximo dia 23-08-2007, no evento IHU Ideias, das 17h30min às 19h, na Sala 1G119. E é sobre esse tema que eles concederam a entrevista que segue, por e-mail, à IHU On-Line.

Culleton é graduado em Filosofia pela Universidade Regional no Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí), mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Atualmente leciona nos cursos de Graduação e Mestrado em Filosofia na Unisinos. Confira uma entrevista concedida pelo filósofo à IHU On-Line na edição número 160, de 17-10-2005, junto com o historiador Nilton Mullet Pereira, intitulada Em nome de Deus: um retrato de época, comentando aspectos do filme apresentado no Ciclo de Estudos Idade Média e Cinema, promovido pelo IHU; e outra entrevista na 198ª edição, de 02-10-2006, sobre a Idade Média.

Por sua vez, Vicente de Paulo Barretto é professor no PPG em Direito da Unisinos. Livre docente pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), possui graduação em Direito pela Universidade do Estado da Guanabara. Sua atividade acadêmica desenvolve-se na área do Direito, com ênfase em Filosofia do Direito. Barretto foi o idealizador e coordenador científico do primeiro Dicionário de Filosofia do Direito, em língua portuguesa, lançado pela Editora Unisinos, e sobre o qual concedeu uma entrevista para as Notícias do Dia do site do IHU de 09-05-2006.

Culetton e Barretto assinam o número 83 dos Cadernos IHU Ideias, intitulado Dimensões normativas da Bioética.

A palestra da próxima quinta-feira prepara a vinda do teólogo Hans Küng ao Brasil, de 22 a 26 de outubro de 2007. O Ciclo de Conferências com Hans Küng – Ciência e fé – Por uma ética mundial será realizado no campus da Unisinos. Em preparação a este evento, foi criado um Fórum On-line sobre o Projeto de Ética Global de Hans Küng. Para mais informações sobre o ciclo e sobre o fórum, acesse www.unisinos.br/ihu. Hans Küng também proferirá a palestra no campi da UFPR, no Goethe-Institut Porto Alegre, na Universidade Católica de Brasília, na Universidade Cândido Mendes do Rio de Janeiro e na Universidade Federal de Juiz de Fora – UFMG.

IHU On-Line – Em que sentido o projeto de ética mundial de Hans Küng pode contribuir para a área do Direito?
Alfredo Culleton e Vicente Barretto – Há tempo, o Direito vem passando por uma crise decorrente da sua filiação a um modelo positivista de ver não só o direito, mas a sociedade e o mundo em geral. Trata-se de uma visão dogmática e fechada sobre si mesma que o foi empobrecendo e isolando da sociedade para a qual está a serviço. Daí que alguns grupos dentro deste universo venham buscando referências para dialogar e revisar as suas bases conceituais, filosóficas, hermenêuticas e políticas, em vistas da sua própria identidade de juristas.

IHU On-Line – É possível pensarmos num único ethos global hoje para toda a humanidade, com todas as suas disparidades? Como isso funciona no caso do Direito? É viável pensarmos num conjunto mínimo de valores morais, normas e atitudes básicas humanas comuns para todos os homens e mulheres do planeta?
Alfredo Culleton e Vicente Barretto – Entendemos que seríamos capazes de formular algumas poucas e mínimas formas básicas de bem humanos; não necessariamente valores morais ou normas comuns a todos os homens, mas sim o reconhecimento de formas básicas de bem para todas as sociedades, de todos os tempos; isto denotaria uma valorização da vida humana; ou a proibição do incesto, ou que toda sociedade humana formulou algum tipo de restrição ao uso da sua sexualidade, ou que o nascimento de uma criança, salvo em casos excepcionais de catástrofes, sempre é considerado um acontecimento bom, digno de celebração. O reconhecimento deste mínimo nos daria condições de discutir políticas, propor universalizações históricas etc.

IHU On-Line – Quais são os valores que devem entrar em jogo ao pensarmos neste ethos mundial que propõe Hans Küng? Onde entram aí as religiões? Qual o papel das religiões quando falamos de valores relacionados à proposta de ética mundial?
Alfredo Culleton e Vicente Barretto – Podemos destacar dois valores ou bens básicos que devem ser conjugados nesta proposta, que sejam a razoabilidade prática que toda ação humana exige de si mesma, isto é, um mínimo de ordem e justificação para as ações, e a religião, no sentido de que toda sociedade humana reconhece uma ordem que o precedeu no tempo e que tem um valor transcendental, ao qual se deve certa gratidão individual e coletiva. O valor da religião está também no fato de que, por mais dogmática que seja, ela exige justificação, busca as suas razões e nessa busca se justifica para o outro, se revisa e se abre para o outro, para a história.

IHU On-Line – Qual é a contribuição do projeto de ética mundial para a política e a democracia?
Alfredo Culleton e Vicente Barretto – Uma grande contribuição é o de trazer a proposta para o debate de maneira séria e sistemática. Nisto se diferencia de outras propostas, como a do Dalai Lama , por exemplo, carregada de boas intenções, mas solta. Também há o fato de trazer para o diálogo temas antigos que, no geral, estão sendo abandonados mesmo pela sociedade civil e os partidos políticos. Nem as universidades, nem as igrejas, nem os jornais, parecem interessados em discutir de maneira séria, e não simplesmente reivindicacionista e queixosa, a questão do futuro da humanidade em sentido político. Há uma grande preocupação com o futuro ambiental e de autopreservação do planeta e uma desvalorização do político.

IHU On-Line – Como o pensamento de Hans Küng contribui para a tensão entre a política e a ética?
Alfredo Culleton e Vicente Barretto – O problema acontece quando essa tensão desaparece e pode acontecer de duas maneiras terríveis: quando ética e política se confundem e aí vêm os fundamentalismos, ou quando se privatiza a política como puro gerenciamento administrativo e a ética como guardiã do agir privado. Hans Küng estimula essa tensão no melhor sentido do termo. Ele defende essa sadia tensão entre a arte de governar a favor dos homens, sabendo que se está lidando com disputas de poder e isso é um valor, e a ética como esse referencial de valores com pretensão de universalidade que busca nortear o agir humano.

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