Frase do dia – 31.12.2006

Ist das Leben nicht ein verteufelt gefärhrliches Geschäft?

Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, na tradução alemã, p. 37.

A morte de Saddam Hussein

Saddam Hussein foi enforcado por volta de 1h deste sábado – horário de Brasília – em Bagdá… A execução de Saddam despertou reações por todo lado… Justiça ou vingança?



Reações aqui.

Frase do dia – 30.12.2006

Es sind zwei oder drei Judasse. Sie sind die Judasse: das soll fortan ihr Name sein! Nun können wir Hallelujah rufen! Fleisch in den Topf, Mehl in den Kropf!

Inspirado em Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, na versão alemã, p. 87.

Kloppenborg e a parábola dos meeiros da vinha

Kloppenborg, J. S. The Tenants in the Vineyard: Ideology, Economics, and Agrarian Conflict in Jewish Palestine. Tübingen: Mohr Siebeck, 2006, xxix + 651 p. ISBN 3-16-148908-X

Minha dissertação de Mestrado foi sobre uma parábola, a de Mt 25,1-13, a Parábola das Dez Virgens, sob orientação de Ugo Vanni. Desde a década de 90 nunca mais estudei as parábolas, por estar me dedicando somente à Bíblia Hebraica, e hoje nem sei qual é a orientação dominante dos estudos da área. Estudei muito, na época, na linha de Joachim Jeremias, e também tive a oportunidade de ser aluno de Jacques Dupont.

Agora, me deparo com o livro de John S. Kloppenborg, o grande especialista em Quelle, professor da Universidade de Toronto, Canadá, que escreveu, neste ano um livro de 651 páginas sobre a Parábola dos Vinhateiros, em Mc 12,1-12 e Evangelho de Tomé 65.

O título do livro é: Os Meeiros da Vinha: ideologia, economia e conflito agrário na Palestina judaica.

O autor diz que o conflito que a parábola descreve não era incomum na época, e ele a situa de maneira sólida no contexto das práticas da viticultura antiga. Mas o mais interessante é que Kloppenborg mostra que esta parábola, que foi contada por Jesus contra a elite dominante da época, acabou sendo lida, pela exegese e pela pregação, como sustentação do status quo.

Veja a descrição do livro na página da editora Mohr Siebeck:

John S. Kloppenborg gives a detailed analysis of one of the most difficult of Jesus’ parables, the parable of the Tenants (Mark 12:1-12; Gospel of Thomas 65). He examines the ways in which Christians have typically read and mis-read the parable, and places the parable firmly in the context of the practices of ancient viticulture. The author models a new approach to the interpretation of the parables of Jesus. First, he critically engages the history of interpretation of the text, inquiring into the ideological interests that the parable has engaged during the history of its use in Christian churches and in political discourse. Second, he reconstructs the social world in which the parable was first told, in particular the economic, social, and legal aspects of ancient viticulture. He demonstrates that the parable of the Tenants has mostly been interpreted from the standpoint of those who wield social and political power, a strange irony considering the social status of the Jesus of history and the literary uses of the parable. All of the features common to the parable as it is told by Mark and the Gospel of Thomas make it a perfectly realistic story. It is only Mark’s editing of the story that takes it beyond the realistic idiom characteristic of Jesus’ other parables. The book concludes with a dossier of 58 papyrus documents relating to various aspects of viticulture and agrarian conflict.

Quem é John S. Kloppenborg?

Born 1951; M.A. and Ph.D. at the University of St. Michael’s College; Professor and Associate Chair of the Department for the Study of Religion, University of Toronto, Canada. John S. Kloppenborg is a specialist in Christian origins and second Temple Judaism, in particular the Jesus tradition (the canonical and non canonical gospels), and the social world of the early Jesus movement in Jewish Palestine and in the cities of the eastern Empire. He was written extensively on the Synoptic Sayings Gospel (Q) and the Synoptic Problem, and is currently writing on the parables of Jesus, the letter of James, and cultic, professional, and ethnic associations in the Graeco-Roman world. He has taught and conducted research in Toronto, Windsor, Jerusalem, Cambridge, UK, Calgary, Helsinki, and Claremont, Calif. Is one of the general editors of the International Q Project.

Confessione on line in Italia: una bufala

Veja esta notícia, na Folha Online: 28/12/2006 – 10h41

Igreja discute confissão on-line com perdão por e-mail


Janaína Leite – da Folha de S.Paulo, em Roma

Confissão pela internet vale? Quem consentiu a própria eutanásia tem direito a um funeral cristão? Figurinha é assunto para exorcista? Mais do que exercícios de provocação ética e teológica, tais perguntas refletem o espírito de inquietude que tomou conta da Igreja Católica italiana no Natal de 2006 e prometem esquentar nos próximos meses as discussões (cont.)

Depois visite Passi nel deserto. E, finalmente, faça uma visita a Preti on-line.

Frase do dia – 29.12.2006

Estava desmanchada a primeira armadilha. Mas virão outras; a maldade não desanima.

Benedicto Valladares, político mineiro, em Tempos Idos e Vividos: Memórias.

Uma resenha de VALLADARES, B. Tempos Idos e Vividos: Memórias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, pode ser lida aqui.

A frase foi lida em um dos posts Nos Tempos do Bené, em Almanaque Mineiro, de Lusitano.


* A idéia de uma frase do dia nasce da necessidade de transmitir aquilo que estou lendo nos livros, revistas, Internet naquele dia, na véspera, naqueles dias, e que expressa o que estou pensando ou vivendo no momento. E que possa levar meus eventuais visitantes à reflexão.

Meu presente de Natal: Grande Sertão: Veredas

Ganhei um incrível presente de Natal: o exemplar de número 02.724 da tiragem limitada de 10.000 cópias da edição comemorativa dos 50 anos de Grande Sertão: Veredas acompanhada do catálogo da mostra concebida por Bia Lessa em exposição no Museu da Língua Portuguesa durante o ano de 2006 e de um CD multimídia, com imagens e sons do sertão descrito por Guimarães Rosa.

Presente da Maria Gláucia. Requintado presente. Obrigado, amiga!

O que se segue é o poema que Carlos Drummond de Andrade escreveu em 22/11/1967 em homenagem a Guimarães Rosa, por ocasião de sua morte ocorrida em 19/11/1967.

Um chamado João

João era fabulista?
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?

Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas,
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?
Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?

Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?
João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso,
cada qual com a cor de suas águas?
sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia
nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?

Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precipites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?
Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?

E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?
Tinha parte com… (não sei
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?

Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.

Carlos Drummond de Andrade, Versiprosa. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1967.
Carlos Drummond de Andrade, Poesia Completa. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002. ISBN 8521000626